Publicado em 24 de dezembro de 2011. Deixe seu pitaco.

Introdução livre

Há uns seis ou sete anos resolvi fazer incursões pela antropologia, que pra mim era um continente desconhecido. Procurei um amigo que fazia doutorado na área e ele me passou várias indicações. Mas eu queria saber o que ele achava desse cara badalado do Museu Nacional. E o amigo: “Olha, como antropólogo é um bom deleuziano”. Falou de sacanagem, mas é claro que me interessei na hora. Fui atrás de artigos dele e, com efeito, Eduardo estava embriagado da filosofia de Gilles Deleuze. Não conhecia autor da antropologia tão teoricamente compenetrado. Achava que os antropólogos, assim como advogados e taxistas, eram criaturas menos cerebrais. Essas leituras me ajudaram nos estudos sobre o filósofo pós-estruturalista, aliás, que eu sempre estou mais ou menos estudando. Aí me deparei com as teses sobre o perspectivismo ameríndio e, confesso, num primeiro momento achei aquilo ultrajante. Quem é esse Fitzcarraldo querendo construir uma fábrica de porcelana no meio da selva amazônica? Como assim uma cosmologia comum a todas as comunidades indígenas das Américas? À fórceps? Eu não conseguia imaginar uma cosmologia que fosse comum às pessoas de meu prédio, que dirá uma para os três subcontinentes inteiros. Deixei de lado.

Anos depois estava presente numa comunicação dele, na Casa Rui Barbosa. Tive outra experiência. De repente, vi a coisa toda sob outro ângulo, zás!, percebi que não era nada do que eu tinha achado que era, que tinha sido uma apreensão vulgarizada e banalizada, de primeira hora, e aí pipocaram sentidos políticos, éticos, metafísicos, literários. É incrível como têm autores que você não está entendendo nada, mas subitamente tudo passa a fazer algum sentido fecundo (embora alguns nunca venham a fazer). Então caiu no meu colo um livro de entrevistas revisadas do Eduardo, entre(re)vistas, que é tipo os Grundrisse da nova antropologia, a antropologia simétrica. Uma floresta caótica, mas exuberante de sentidos. Ali, pude vislumbrar panoramicamente a colcha de intuições, sacadas, ousadias, maldades e impudicícias de sua obra completa. Comecei a pesquisá-la mais sistematicamente por conta própria (isto significa ler o autor de a a z), autodidata que sou. Depois encontrei conexões dessa matriz em dois livros por assim dizer mais militantes, da corrente autonomista-marxista: Mundobraz (Cocco, 2009) e Commonwealth (Negri, Hardt, 2009), que em algumas partes montam sobre os ombros do Eduardo. Recentemente, me deparei com um texto seminal dele. Tirando a parte em que afirma estar na menopausa do intelecto. Quando, a meu ver, está na akmê: quando as coisas começam a ficar interessantes. Estou falando de uma conferência que ele apresentou em agosto deste ano pra titularidade na UFRJ, republicada na revista Sopro.

Eu acho sem meias palavras que, no Brasil de 2012, há nesse corpo prático-teórico algo que está na hora certa no lugar certo. Como as massas contemporâneas comem por meio dos blogues, pretendo servir parte do biscoito fino que ele fabrica (ligeiramente diluído), nesta postagem e em futuras. Longe de mim pretender interpretá-lo com precisão acadêmica, mesmo porque não tenho nem almejo as credenciais corretas.

Tudo é Brasil

Oswald de Andrade descobriu o Brasil em Paris, num apartamento na Praça Clichy. Rogéria Sganzerla precisou enxergar o Brasil pelos olhos de Orson Welles, na quadrilogia de filmes que vai de Nem tudo é verdade (1986) a Signo do caos (2003). Só depois de exilar-se, Gláuber atingiu a obra magna de sua vida, a cristologia tropical em Idade da Terra (1980, um tantinho mais pleno que Terra em Transe), enquanto Hélio Oiticica teve de migrar para Nova Iorque amadurecer a sua Mangueira além dos romantismos de classe média deslumbrada. Mas Eduardo Viveiros de Castro foi o único que saiu do Brasil não saindo. Foi descobrir o Brasil entre os índios, entre o que ele não era e por isso desejava. Eis uma prática de amor ao distante: interessar-se pelo que não é meu, pois “a antropologia nos devolve uma imagem de nós mesmos na qual nós não nos reconhecemos” (Patrice Maniglier).

Basicamente, ele coloca um problema. Eduardo não fabulou os conceitos do perspectivismo ameríndio pra dichavar alguma essência oculta, algum núcleo duro do pensamento de todos os indígenas da América. Bem menos (mais) que isso: ele efetua um corte epistêmico, estabelece campos que se polarizam e assim polarizados entram em relação. Interpretações se interpenetram. Portanto, o que ele faz não é exatamente uma teoria dos indígenas pelos brancos, nem exatamente uma teoria dos brancos pelos indígenas, mas uma problemática que resulta dessa interzona entre índios e brancos, entre índios e brasileiros e índios e europeus. Etc! Quer dizer, ele não está fazendo (ainda outra) teoria do Brasil ou do brasileiro. Na realidade, uma das premissas desse problema específico que ele põe é que, — quem diria!, — a idéia mais fora do lugar no Brasil é a idéia de Brasil mesma.

Questão do branco

Eduardo não está preocupado propriamente na questão indígena (no singular). Nesse sentido da questão indígena como um subconjunto das preocupações do branco. Tomar o indígena dessa forma seria reproduzir a pauta da integração nacional: como integrar o índio no Brasil? Como catequisá-lo civicamente, como adaptá-lo ao Brasil do século 21, como incluí-lo socialmente num Brasil maior? Que políticas para o índio? Para a nova antropologia, o xis é menos o índio como elemento brasileiro, do que o brasileiro como elemento índio. De que modo o branco é uma das questões indígenas para os indígenas? Como eles formulam essa relação? E como isso ricocheteia na gente, como auto-antropologia via indígena? Não abrasileirar o índio, mas indianizar outros brasis. Não unificar brancos, índios e negros no Brasil, mas explodir o Brasil em muitos. Pau Brasil, diria Oswald.

Nem mais uma sociologia do brasileiro cevado na diversidade racial, espécie miscigenada para povoar o território e se apresentar à sociedade de nações. Nem mais uma antropologia da natureza indígena, o bom selvagem a preservar-se, numa pauta verde-chique. Nem indianismo nacionalista nem indianismo de butique, ambos coloridos em tecnicolor. O antropólogo sequer está preocupado em definir o índio como o não-brasileiro. Índio é aquele que se garante como índio. Em princípio, todos são índios, até que se prove não sejam. Por que não? Por que deveríamos partir da premissa contrária, que todos não somos? Por que alguém não pode virar índio? Não podem aparecer novos índios, novas aldeias, novas tribos? Querer ser índio pode parecer ridículo e de fato no meu caso seria, mas o que impede que a indianice aconteça em mim? ou a negritude? ou a feminice? o devir-índio, o devir-negro, o devir-mulher? sem banalizar isso? como?!

A etnologia de Eduardo provoca interferências, perturbações, deslocamentos entre os campos que pareciam (e só pareciam) coesos, bem amarrados e seguros. Mas quem amarrava não era por acaso. Por isso, é bem problemático mesmo, e não admira o poder constituído torça o nariz. Quem governa não quer novos problemas. É melhor que cada um fique na sua e não invente moda, isso de ficar criando caso onde não havia. A direita nunca vê problema novo.

Eu não vejo como repensar e repolitizar a questão do desenvolvimento social sem passar por esse problema que o Eduardo coloca. Que não é só dos índios. Do ponto de vista das relações, isso nem é possível: “só dos índios”. Nada “é só de alguma coisa”, porque as coisas da vida não se resolvem em propriedades intrínsecas auto-suficientes. Nada se basta em si mesmo. Tudo está por todos os lados saturado, espantosamente saturado de relações.

É o que ensina o perspectivismo, a ver.

Perspectivismo

É o seguinte. Na nossa mitologia predominante, primeiro éramos todos animais. Aí veio o elo perdido e brotou a espécie humana, que tem algo que as outras não têm. A glândula pineal, a alma, a moral, a linguagem, a razão, o simbólico, o Dasein… você nomeie. Podemos não estar mais no centro do universo, mas dentre os bichos, somos especiais. Sim, somos animais também, mas não só animais. Além da natureza animal, somos dotados de uma segunda natureza por cima, a cultura. Que são muitas. Tem aqueles que acham que todas as culturas dizem a mesma coisa com roupagens diferentes. São os universalistas, geralmente eurocêntricos. E tem aqueles que acham que as culturas são autônomas, que devem ser respeitadas segundo seus próprios valores e normas. São os multiculturalistas, geralmente descolados. Em qualquer caso, o que nos faz especiais é a cultura. Por causa dela, somos superiores a animais, plantas e minerais. Do lado da cultura, ficam as ciências humanas: sociologia, psicologia, direito, ciência política etc. Do lado da natureza, as ciências naturais: física, química, biologia etc. O homem pode ser estudado por um lado, enquanto ser social; ou pelo outro, como ser animal. No século 19, se consolidou uma ciência de transição, a antropologia, que faria a mediação entre cultura e natureza. Sintomaticamente, tomava por objeto de estudo os grupos primitivos, mais próximos da natureza. O subtexto aqui, por óbvio, é que precisávamos dar um jeito de trazê-los para a cultura, civilizando-os (no capitalismo), num contexto de impérios coloniais onde o Sol nunca se punha.

Na perspectiva ameríndia, muda tudo. Não somente vira de ponta-cabeça, como Marx virou Hegel, muda tudo mesmo. Não são dois sistemas com a mesma estrutura conceitual, análogos. Como disse o antropólogo ao começar a se relacionar com os índios: “o modo como eles não me compreendiam não era o mesmo modo como eu não os compreendia”.

Eles têm não só outro ponto de vista sobre as coisas, mas outro ponto de vista sobre o ponto de vista. O ponto de vista tradicional das nossas ciências cria o seu objeto. Digamos, o sociólogo assume por objetos o fato social, as relações e estruturas sociais, o funcionamento sistemático das sociedades. O biólogo vai perscrutar objetivamente a fisiologia animal, a evolução das espécies, os ecossistemas, as populações e por aí vai. Pros índios, isso não faz sentido. O ponto de vista constitui um sujeito. O perspectivismo subjetiva, enquanto a ciência tradicional objetiva. O outro do índio nunca é um objeto que ele toma como externo a si, que ele então pode dominar e subjugar a sua razão ordenadora. O outro do índio — seja ele outro índio, um branco, um espírito, um animal, um artefato, um fenômeno atmosférico, um astro sideral — está sempre em relação consigo, uma relação social entre sujeitos. A mata não tem nada de natural, é toda ela, de ponta a ponta socializada.

Na mitologia indígena, primeiro tudo era humano. A condição humana está em todas as coisas. Todos os animais eram humanos. Alguns continuaram humanos, somos nós. Outros se desumanizaram, se animalizaram, são os animais. Eu continuo sendo humano e animal ao mesmo tempo, mas os animais idem. Ao fim e ao cabo todos temos formas humanas, num trans-humanismo cósmico. O que difere uns dos outros? É a roupa por cima da forma humana: o corpo. Além do corpo, habitamos a mesma dimensão comum: a alma que foi o nosso uno primordial. Se os europeus enxergam a alma (a razão, a linguagem, o simbólico, a angústia, o cigarro etc) como exclusividade humana, para os indígenas a alma é do mundo. Animismo.Para os indígenas, o que diferencia é o corpo. E esse corpo não é só a pele e tal, mas uma massa heterogênea e relacional de dobras, orifícios, signos e pontos de contato, com que me comunico e me relaciono. Não à toa tanta importância nas operações de inscrição, performance, mutação e transmutação corporais, onde tudo está em jogo. Então o homem não é especial em termos de alma. Ele pode se relacionar no mesmo nível ontológico com animais, plantas, minerais, espíritos, mortos e artefatos. Mais do que isso: os animais, plantas, minerais, espíritos, mortos e artefatos também se relacionam, também tem uma socialidade, também são sujeitos e, mais importante, com uma perspectiva. Vê-se que as relações sociais, a cultura está em tudo. Não tem multiculturalismo, tem monoculturalismo.

Uma onça então é um ser social e tem uma perspectiva. Uma onça se vê como humano. Mas ela não vê as outras coisas como onças. Isso seria relativismo, cada ponto de vista constituir objetos próprios. Nada disso. A onça vê as outras onças como humanos, mas os humanos, esses ela os vê como porcos do mato. A onça vê e degusta o sangue do porco como cerveja. Os porcos do mato por sua vez vêem os porcos do mato como humanos, as frutas que comem como plantas cultivadas; e os humanos que os caçam, os porcos vêem-nos como onças. Os porcos quando pintam não pintam deuses com cara de porco, mas de homem. Não é pra pensar, com isso, que o indígena é um idiota que vê a onça como um humano. Ele vê a onça como onça. Mas também como humano. É um plus. Ou melhor, a vê como tendo a capacidade de transmutar-se em humano, quando assume a condição de sujeito. E assim se relaciona socialmente com ela, o que eu, operando na mutilada metafísica européia, não consigo fazer.

A perspectiva do outro me interpela. Me aciona coisas em mim que eu não sou, e isso pode ser perigoso. Se estou sozinho na mata e uma onça me fita primeiro, estou sendo perspectivado dentro da natureza da onça. Pode acontecer de a onça falar comigo, o que é péssimo. A recomendação, nesse caso, é não retrucar. Não aceitar os termos da realidade colocada pelo sujeito que se empodera, suas leis e posições relativas. Se respondo, aceito a interpelação e sou capturado pela onça, já estou perdido. Da mesma forma, se cruzo com um espírito da floresta, é porque já estou sendo capturado no mundo dele, subjetivado como espírito. A técnica então é se afirmar como uma pessoa, como um ser humano, e aí o espírito desaparece, porque retornei à minha perspectiva/natureza. Mais ou menos como num sonho ruim, quando percebo que estou noutra realidade e me esforço por me convencer que não sou um ser onírico, e consigo (esperançosamente) acordar antes do pesadelo ficar sério demais.

Em suma, a cultura é uma só: a onça é humano e eu sou humano e o espírito é humano, mas não podemos ser simultaneamente. Há uma luta encarniçada de perspectivas, de afetos ativos e passivos disputando primazia. Quem captura quem na sua natureza. Por isso, Eduardo desenvolve que o monoculturalismo ameríndio também é um multinaturalismo, porque existem tantas naturezas quanto modos de sentir, quanto corpos específicos. Não é que eu interiormente mude, é que as coisas mudam, quando passo de uma natureza para a outra. Num estranhamento radical, propõem-se questões bem outras, que não são nem um pouco equivalentes à sonolenta querela entre universalistas e relativistas.

Xamanismo

E quando a relação dá samba? Quando não é só captura? Quando, da conexão entre A e B, pode brotar um C potente? Será que não pode haver casos em que, mesmo percebendo estar nessa interzona burroughiana, eu possa querer me deixar levar pela perspectiva outra, pra ver se rola (um sonho bom, uma utopia…)? Não só ver pelos olhos do outro, mas mundiviver como uma experiência global, com o corpo do outro?, entre os dois corpos formando um terceiro? Um terceiro C que não estava implícito em A nem em B? Que tampouco era o denominador em comum AB, mas uma produção comum ? Essa produção comum depende do bom encontro entre A e B. Mais que isso, de um espaço produtivo de compartilhamento, que propicie os sujeitos existirem como sujeitos, numa produção desejante de devoração mútua. Não adianta celebrar a hibridação pela hibridação, porque só a antropofagia une. Porque nem sempre A e B têm um bom encontro. Pode haver medo, tristeza, ameaça, submissão. Posso me relacionar mal com outros seres sociais. No caso da onça, podia acabar sendo assassinado. No do espírito, podia acometer o sujeito de uma doença. De desgosto, por exemplo, ou esquizofrenia (sempre com expressões corporais), onde ele não conseguisse mais voltar ao corpo são, preso que está ao plano (corporal) dos espíritos.

Têm índios que são especialistas em atravessar as naturezas: os xamãs. Esses são preparados para sair do território social mais seguro, des-territorializar e re-territorializar, sem se ferir no processo. Mais do que atravessar planos homogêneos que se correspondem, como em algum espiritismo europeu, eles conectam-se entre mundos heterogêneos, um multiverso onde não há categorias equivalentes. E assim eles ajudam também a curar quem se adoentou, a comunicar-se com espíritos, mortos, plantas e animais. Como a mata é um magma de relações, seu ambiente está tão emaranhado de socialidade, os xamãs precisam desenvolver um espírito de finura, a fim de distinguir, recortar, escandir, desdobrar, desenovelar. Daí que comer um inimigo seja uma operação tão complexa. Fazem tudo isso não com sofisticadas teorias, mas ritos e pragmáticas corporais, que é onde, afinal, se processa a transmigração. Que não é de alma, que está em tudo, mas do corpo. Então não existe isso de possessão espiritual entre indígenas, mas, sim, metamorfose corporal.

Para Eduardo, na perspectiva dos brancos, o simétrico do xamã não seriam as experiências “exóticas” ou “no limite”, digamos, do candomblé ou das comunidades de viciados ou de punk-roqueiros, como se poderia pensar no senso comum; mas os cientistas, os antropólogos, os juristas. Eu acrescentaria o revolucionário, aquele sonhador prático tal qual o xamã, capaz de transitar da impossibilidade ao acontecimento, fabulando outro território de relações sociais, outra cultura de resistência. Se, na selva capitalista, o estado aparece para a gente como onça, tentando capturar-nos em suas máquinas metafísicas de categorias e tabus, a revolução pode ser esse acordar da servidão voluntária, não lhe dar fé, essa recusa em participar dos termos da realidade normalizada. Sim, da onça a gente tem mais é que fugir, mas nada impede tente pegar uma arma na fuga.

Conclusões provisórias

O perspectivismo pode não servir pra tudo, mas serve pra muita coisa. Tem toda essa senda aberta pra problematizar natureza e cultura, humano e não-humano e assim sucessivamente, contra o monólogo autolaudatório do progresso e da modernidade. Mas também tem aí uma perspectiva da perspectiva que pensa e vive a alteridade de modo rico, riquíssimo. As naturezas em questão não são meramente mundos feitos, com leis prontas e limites bem delineados. São naturezas em constituição, naturezas naturantes, panteístas e panenteístas, em constante transformação. Para o multinaturalismo, vive-se uma realidade social superabundante, onde os corpos podem muito mais do que imaginava a nossa vã ciência. A Amazônia é uma selva cultural que precisamos trazer para nossos modelos de cidade, desenvolvimento e Brasil. Amazonizar outros Brasis. Trocar de roupa: sair dessa lógica de objetivar, dominar, desanim(iz)ar. É tirar a casaca de ferro do desenvolvimentismo produtivista. Não se trata de produzir coisas e culturas como riqueza objetiva, como produtos em si,  mas sujeitos e naturezas como trans-humanização do cosmos, como processos sociais em incomensurável mutação.

Pretendo, mais adiante, refazer os últimos passos do Eduardo, com foco mais no reenvolvimentismo, nessa passagem dele da provocação à proposição. Como alternativa in progress ao modelo de desenvolvimento e de Brasil em que os governos brasileiros se aferraram. É dessa antropologia que, acredito eu, mais precisamos para saber ousar, para ajudar a articular lutas e aproximar interlocutores. Sem nenhuma idéia de vanguarda, de comandar: simplesmente compartilhar e circular conceitos abertos. Não se pode ter pudor de deixar os sentidos políticos extravasarem, ainda que seja uma algazarra de demônios ao meio-dia.

É preciso mesmo uma antropologia que vá ao coração de nossas sociedades complexas. No Brasil de 2011, acho que um sujeito a ser perspectivado é a dita “classe C”. Hoje, tomada como objeto da publicidade, geografia, sociologia, das antropologias assimétricas. Isto significa analisar o processo de transformações que a sociedade passa, bem como o paradoxo da pobreza, potência e carência concomitantes, analisar tudo isso sob a espécie da nova antropologia. Concordo, ainda, que o perspectivismo ameríndio incida imediatamente nas lutas dos movimentos negros, feministas, LGBTTT, queer, imigrantes etc. Todos esses movimentos podem ser libertados de seus identitarismos pelos índios.

Por outro lado, em nota mais teórica, acredito haver inúmeras fagulhas incendiárias entre o perspectivismo ameríndio e um marxismo mais desprendido a partir dos Grundrisse. Entendo a luta pela reapropriação das condições da produção pelos produtores como uma reapropriação subjetiva, do que a perspectiva do capital tenta emplacar como condições objetivas. O capital converte as capacidades desejantes do homem em força de trabalho num processo de objetivação do valor. O excedente das relações e do desejo são aprisionados em mais-valor. Atacar essa lei do valor implica romper a dialética. Porque dialético é sempre o capital, que precisa das contradições tensionadas para manter o homem perto da onça. Quero dizer, prende a gente nas contradições mediante falsas oposições (logo, falsas semelhanças e comunhões), como se o trabalho precisasse do capital e não vice-versa. Todos os conceitos da economia política então se polarizam num antagonismo entre subjetividades, o que aparece embrionariamente em Lukács, mas sobretudo no Marx além de Marx, livro-sementeira de Negri, de 1979. É por aí também que opera o capitalismo cognitivo, colonizando subjetividades e vendendo naturezas. Nesse fio solto, já há primeiras tranças nos trabalhos citados de Giuseppe Cocco e dos pós-operaístas, usando a renovada gramática do comum.

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Para ler mais:

Livros:

VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo (org. Renato Sztutman). Encontros. Eduardo Viveiros de Castro. Rio de Janeiro: Beco do Azougue, 2008. [entre(re)vistas]

_______________________.A Inconstância da Alma Selvagem e outros ensaios de antropologia. 1a ed. São Paulo: CosacNaif, 2002.

__________________________.Métaphysiques canibales. Lignes d´anthropologie post-structurale. Trad. Oinara Bonilla. Paris: Presses Uni., 2009.

COCCO, Giuseppe. Mundobraz. O devir-mundo do Brasil e o devir-Brasil do mundo. Rio de Janeiro: Record, 2009.

Artigos:

Os pronomes cosmológicos e o perspectivismo ameríndio, 1996

“Transformação” na antropologia, transformação da “antropologia”, na Sopro 58 (set 2011)

Desenvolvimento econômico e reenvolvimento cosmopolítico, na Sopro 51 (mai 2011)

Filiação intensiva e aliança demoníaca, 2007

Recomendo ainda, por Cléber Lambert à Revista Fórum:

Discurso às nações indígenas

Vídeo-conferência:

A morte como quase-acontecimento, 2009


Publicado em 20 de dezembro de 2011. Deixe seu pitaco.

América do Sul
América do Sol
América do Sal
Oswald de Andrade

Da série DILMA É MUITOS!, usado na campanha eleitoral de 2010

Não sou a favor do governo Dilma nem sou contra, mas também não sou neutro. Muito pelo contrário. Como consequência, já fui chamado de sofista de segunda e até de gato de Schrödinger, mas é isso mesmo. Gosto de complicar quando a simplificação nos deixa cegos ao essencial, achatando o debate. E não tenho problemas com dilemas críticos, tomando o cuidado de não esclerosar como algum cri-cri à moda da esquerda francófila. Tenho pra mim muito claro um compromisso ético-estético com a potência da pobreza, que deseja o luxo de viver plenamente e reinventar o mundo.

Sim, me dediquei à campanha por Dilma em 2010, assim como por Lula em 2002 e 06. Faria de novo, porque em nenhum caso havia alternativa. Agora, embora meu entusiasmo não seja caro, em nenhum momento esse governo o mereceu. A bem da verdade, no Brasil de 2011, nenhuma força ou coalizão partidária merece o tesão do militante. Quem desfrutou momentos nos anos Lula talvez já tenha se esquecido quão decepcionante costuma ser a dinâmica representativa, seus acordões, conchavos, platitudes, balcões de negócios e tráficos de influência. Por causa disso, dessa percepção desencantada da representação, não fiz como alguns companheiros que, ao longo de 2011, despencaram do otimismo diretamente para um sentimento de traição.

Ser a favor ou contra o governo como ente orgânico me soa secundário. É perder tempo em discussão sem futuro. Engajar-se na política não pode ser o mesmo que torcer pra time de futebol. Como se fosse caso de vestir a camisa e ficar com o clube aconteça o que acontecer. O fato de eu ter apoiado com entusiasmo e votado sem hesitar em Dilma em nada implica uma adesão automática às políticas e atitudes do governo. Ou não deveria implicar. Da mesma forma que, tivesse ganho a Marina, eu não pudesse vir a concordar com diversas políticas. No fundo, passa a eleição, não faz tanta diferença em quem eu votei. Não faço parte do governo nem da oposição. Esta obviedade preciso repetir sempre, ante tantos soldados governistas e oposicionistas. São os apparatchiks pra quem as efemérides não passam de pretexto para reforçar ou desgastar a imagem do governo, conforme o projeto de poder a que se esteja acoplado. Militam pela imagem, pelo ibope, pela sensação. Uma prática político-partidária que se resolve num jogo de capitalização e descapitalização eleitorais.

Vocês me perdoem: isso é simplório.

Parte da esquerda está tão ocupada em atacar ou defender Dilma, com opinião pronta sobre tudo, que fica em segundo plano o problema da organização política. Falo da importância de elaborar estratégias e programas de organização e luta, de agir criativamente na articulação de forças e discursos, na coordenação de sujeitos sociais, na formulação de coisas novas que surpreendam e dêem um drible no poder constituído, que se coloquem onde não estão à nossa espreita. Em vez de uma prática futebolística tudo-ou-nada, há um campo com múltiplos elementos, que podem entrar criativamente no jogo em várias combinações. Reduzir tudo ao binarismo estou-junto ou estou-contra, além de chantagista, perde de vista a textura complicada do governo Lula-Dilma e contorna a possibilidade de qualquer inteligência política.

Mas, à análise: onde está a polivalência?

Certamente não no campo cultural, que em 2011 foi um desastre.

Não me refiro apenas ao ministério da rainha da Holanda, mas à visão estratégica da cultura enquanto processo produtivo e à visão de economia do conhecimento, adotadas por várias instâncias desse governo. Tem sido fortalecido um modelo concentrador, em que os adjetivos criativo ou sustentável tentam legitimar a aliança entre o estado e grandes conglomerados culturais-midiáticos. Que é para onde são direcionados os investimentos públicos, foco das políticas de desenvolvimento produtivo. Se, no governo Lula, com Gilberto Gil e Juca Ferreira, formou-se um bunker de resistência à indústria dos direitos autorais/patentes/copyright, de imagem e difusão, agora o gabinete como um todo funciona como correia de transmissão dessa mesma indústria. Da noite para o dia virou consenso que uma cultura proprietária e profissionalizada é fundamental para a sustentabilidade aqui dentro e a competitividade lá fora do “Brasil”. Leia-se: os oligopólios e seus medalhões que criam pouco ou nada.

Mas vejamos o Programa Bolsa Família (PBF).

À parte dos preconceitos mais chãos (o pobre não vai mais querer pegar no batente, compra de voto etc), existe uma linha crítica que o tacha de assistencialismo. Ao invés de mudanças estruturais, maquia e perpetua a pobreza, mediante o mínimo existencial. Daí é preciso construir portas de saída, de maneira que o pobre também possa se envolver na produção, com emprego formal ou chance para empreender como microempresário. Na melhor das hipóteses, a bolsa família é medida inadiável para um país com miseráveis, mas possui caráter transitório. Nessa opinião convergem muitos governistas e oposicionistas, da esquerda à direita.

Penso, contrariamente, que aí resida uma polivalência fundamental do governo Lula, que continuou com Dilma. A bolsa família é inclusão produtiva. Não se limita a resolver uma situação de emergência. Mas a propiciar condições efetivas para a cidadania, no seu pouco falado aspecto material. Articulada com o aumento do salário mínimo, certa socialização do crédito, algum acesso universitário e medidas de massificação dos serviços públicos, a transferência de renda capitaneada pelo PBF foi e continua sendo peça fundamental para a formação da nova classe média. A dita “classe C”, com 103 milhões de brasileiros (2011). Que não se limita a reproduzir os preconceitos raciais, de classe e gênero da velha-classe-média-branca-diplomada-que-vota-no-Serra. Porque eles não se incluíram como meros consumidores, mas como novos sujeitos sociais. Também aconteceu alguma migração do reino da necessidade para o reino da liberdade, num processo de empoderamento. Mesmo porque não existem “meros consumidores”, na medida em que o consumo é dimensão central para qualquer forma de empoderamento. Muito mais que uma categoria de consumo, se constituiu uma cauda longa de subjetividades, discursos e demandas. Possivelmente daqui a algumas décadas isso venha a ser conhecido como uma espécie de revolução cultural brasileira. Não dá pra negar participação nesse processo ao governo Lula, atravessado que foi pelas forças multitudinárias.

Nesse sentido, a bolsa família pode ser vista como o embrião de uma biorrenda. É uma mobilização produtiva em sua múltipla qualidade econômica, política e cultural, — o que a filosofia continental chamaria biopolítica. Então sou a favor ou contra o PBF? Sou pelo aprofundamento e subversão, isto é, pela radicalização dele na direção dessa renda para todos, só pelo enormíssimo fato produtivo de estarmos vivos e enquanto viventes sendo explorados difusamente pelos circuitos econômico-financeiros. Não porque o PBF seja humanista (embora seja), mas porque empoderador e produtivo para todos, com efeitos em várias ordens tecido social adentro. Daí, na questão concreta, ser favorável à ampliação não só do valor das bolsas, mas sobretudo no espectro de pessoas contempladas. E ser contrário às condicionalidades, bem como a todas as concepções que nele enxergam uma medida passageira de justiça social, alguma lógica etapista visando à independência futura.

Penso que o programa dilmista Brasil Sem Miséria (BSM) é desdobramento dessa política social combinada que, no fundo, foi a base da política econômica do governo Lula. O BSM também possui transferências diretas não-reembolsáveis, universalização de serviços públicos, facilitações de crédito e apoio a cooperativas (como dos catadores e recicladores). Vai na mesma direção, que faz, sim, a diferença! Na época de FHC só se falava em indicadores econométricos e financeiros, as reuniões do Copom eram eventos badalados, mas estávamos quase sempre em crise. Com Lula, o foco se tornou as pessoas concretas, não se falou tanto economês, mas paradoxalmente a economia bombou. Será por que a economia política e a geração de valor dependem, sobretudo, da mobilização da vida de todos? Em suma, o governo Dilma não arredou pé desse núcleo de política social. Está vacilando na questão das minorias, que no final das contas perfazem a maioria, porém não na centralidade das políticas sociais. Isso por si só já deveria afastar avaliações que o governo Dilma é uma merda completa.

O bicho pega mesmo é no outro carro-chefe do governo Dilma, o Brasil Maior. Estou falando não apenas do Plano propriamente dito, mas do eixo prático-discursivo que organiza as ações e políticas do governo. Brasil Maior como modelo de desenvolvimento excludente, cujo ícone tem sido a construção da usina de Belo Monte. Brasil Maior como modelo de gestão pública de interesses privados, onde a riqueza é repartida desigualmente, como na indústria do Pré-Sal e na privatização do crédito operada principalmente pelo BNDES. Brasil Maior como modelo de cidade para ricos, no urbanismo autoritário dos megaeventos, que erradica os pobres para longe. É o duplo gume do Brasil sem pobreza: inclusão social de um lado; polícia, prisão e trator do outro. Nesse campo, é lamentável o tom dogmático das declarações da presidenta e dos ministros. Se Lula efetivamente sambava táticas e compunha de improviso, parece que essa equipe chegou com uma receita de bolo e está aplicando-a doa a quem doer. E os aparelhados nos protejam!

Com Dilma, grassa o desenvolvimentismo. Ela, a mãe de ferro do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), foi emblema essa vertente rigorosamente utópica, de 2005 a 2010. Que é acelerar a história na batalha contra o tempo, no pior socialismo teleológico. O desenvolvimentismo surgiu como resposta à crise de 1929, com o nacionalismo trabalhista de Vargas, atravessou incólume os alegres anos 50, agigantou-se na ditadura cívico-militar e os PND e agora toma distância para saltos mais grandiloquentes. Grosso modo, permanece a mesma ladainha redentora do Brasil do futuro, verdeamarelo, imenso pela própria natureza. Hoje, acontece como neo-desenvolvimentismo, que é o desenvolvimentismo financeirizado. Os fluxos globais escoam da insolvência geral do Norte e caem no colo das enormes jazidas humanas no Sul: Brasil, China, Índia. Se, no governo Lula, coalhavam ambiguidades e interstícios, entre a biopolítica e o desenvolvimentismo, a coisa toda parece pender para o lado por assim dizer mais soviético. Eis o triste deja vu dilmista: os sovietes novamente vão pra escanteio, a favor da eletricidade. As brechas, de fato, estão se fechando.

O novo brasileiro forjado no Brasil Maior é o cidadão orgulhoso de seu país, doravante de Primeiro Mundo, profissional sério e previdente e trabalhador e preparado para os desafios do século 21. Ficam em segundo plano os muitos Brasis, o brasil menor das periferias, tribos, quilombos e culturas de resistência, — do rap aos hackers, dos sertanejos aos ribeirinhos aos bolivianos, da blogosfera bárbara aos índios urbanos. Esse povo macunaímico não canta o hino e produz a riqueza que o nacional expropria. Esses, senão com o porrete, são tratados com um sorriso condescendente como curiosidade folclórica, quiçá atração turística.

Falta uma perspectiva ao mesmo tempo política e antropológica, que permita desatar o nó de desenvolvimento e inclusão social. A conjunção e está sobrando. Inclusão social é desenvolvimento, — assim como qualidade é democracia, e sustentabilidade é renda para todos. Do jeito que está colocado, parece que são duas atividades distintas e sucessivas. O mais fundamental é desenvolver; depois, distribuir, como consequência lógica. É verdade que admitem que deva acontecer simultaneamente, mas deixam claro que o segundo processo (o social) depende do sucesso do primeiro (o econômico). E volta camuflada a metáfora da divisão do bolo. Como se um produzisse a riqueza e o outro a humanizasse, — quando a riqueza humana deveria ser, desde o início, a finalidade da produção. Portanto, por trás das limitações políticas apresentadas por esse governo, há algo de muito errado no modo de medir a riqueza, o humano e o desenvolvimento. Para superar essas limitações, enseja-se uma nova métrica do valor, uma nova antropogênese, uma nova economia política do humano, — alguma ferramenta política a ser forjada, ainda magmática, entre o reenvolvimentismo perspectivista de Eduardo Viveiros de Castro e os materialistas Grundrisse de Marx.

Com um ano de governo Dilma, o desafio ainda passa por recompor os discursos e práticas, recriando estratégias dentro das lutas reais. Como nunca deixou de ser!  Sem espaço para decepções paralisantes ou ranços de velha esquerda, resgatar o poder constituinte. Essas forças históricas que, desde as mobilizações do final da década de 70 e começo de 80, construíram nas lutas este futuro presente, tão surpreendente, — quando tivemos um presidente operário sindicalista seguido de uma presidenta mulher guerrilheira. Como é óbvio, só o conflito social e as mobilizações, quando potentes e produtivas, podem fortalecer os sentidos libertadores. Não é caso de ser contra ou a favor nem mesmo de disputar o governo. Qualquer governo. É preciso atravessá-lo com inventividade nas alianças e agenciamentos, polarizar os campos e errar e assumir os erros como percurso inevitável. Saber ousar, que venha 2012.

Publicado em 13 de dezembro de 2011. Deixe seu pitaco.

 

Houve época em que a blogosfera era um território bárbaro. Na década de 90, começando com os BBS (Bulletin Board System), as newsletters (principalmente do UOL) e os chats do mIrc, tudo era novo. Vigia uma liberdade radical. As pessoas se encontravam e no caos debatiam, brigavam, se abraçavam e se amavam. O acesso, ainda limitado às subculturas geek e hacker, começava a ampliar para a classe média. Tempos em que as redes sociais participavam de um processo contracivilizatório, — embora minúsculo, quase guetificado. Como tudo de bom na vida, éramos felizes e não sabíamos.

Então veio o bum da new economy e tudo mudou. Como acontece com qualquer força produtiva, as redes foram tomadas de assalto. Mercantilizadas, formatadas, uma avalanche de publicidade. A Nasdaq bombou com o mercado dotcom. Os hackers passaram a prestar consultoria de segurança. Os geeks se converteram em yuppies na crista do sistema. Até a bolha estourar, cada ex-geek talentoso sonhava em ser milionário. E alguns conseguiram. Grandes pequenas empresas pipocaram overnight para privatizar as redes, gerir marcas e capitalizar nas finanças. Perceberam o manancial de produtividade circulante e precipitaram os seus tentáculos e ventosas.

Nos anos 2000, o número de pessoas enredadas multiplicou muitas vezes. As redes se ramificaram, se enraizaram na economia política, se miscigenaram: rede de redes. Muito mais do que ferramenta ou meio instrumental, a rede é ela própria um espaço social construtivo, um conjunto de relações sociais que organiza, articula, comunica, potencializa e enriquece a vida. Constitui-se um campo comum na confluência de culturas, éticas, políticas e socialidades, uma cauda longa multifacetada e atravessada das forças vivas. A internet não é mais um mundo, é a própria mundivivência na sua modulação mais intensiva. As redes se tornaram o terreno por excelência das articulações produtivas, da antropogênese: a criação do homem pelo homem. Logo, das tentativas de expropriar o trabalho social e a potência de vida que todos (se) investem nessa realidade tão real.

Com o mínimo de estrutura, geralmente um petit comité de gestores, advogados e publicitários, se erigiu o paraíso para capitalistas 2.0, como Bill Gates e Steve Jobs. Externalizam as internalidades negativas/onerosas e internalizam as externalidades positivas/gratuitas. Gerenciam o lado de fora, que está dentro. Exploram os fluxos criativos, difusos, capilares, amiúde anônimos, multitudinários. Mestres do copyright, outsourcing, marketing, brand management, networking, crowdsourcing e quejandos. Nasceu a economia criativa, a indústria do copyright, — a vampirização da produção social por empresas, marcas e governos.

Chegou-se então à era de Mark Zuckerberg, o homem do ano. As redes sociais estão inteiramente colonizadas. Outro ser humano vive, com outra percepção socioambiental [ambiental awareness], outro modo de sentir e relacionar-se. Agora, não há mais fora ao processo de capitalização das relações sociais. Não dá mais para sair. Fazem o Facebook ser o Facebook as 800 milhões de pessoas pelo mundo, e contando. Dessas, 400 milhões o utilizam todos os dias sem falta. 350 milhões pelo celular ou ipad que carregam consigo o tempo todo. 250 milhões de fotos são subidas diariamente. A partir do Facebook, a atividade de cada um é organizada e integrada, num gigantesco ecossistema.

Todo o valor do Facebook nasce do tempo de vida, da atenção e das relações investidas por esse quase um bilhão de pessoas. Se não houvesse ninguém conectado, por melhor que fosse o algoritmo, o Facebook não valeria nada. Mas quanto desse imenso valor retorna? Onde está a remuneração pela nossa construção do Facebook? E quanto é capturado como mais-valor para forjar dezenas de milionários e o bilionário Zuckerberg?

Do Descurvo: “A Internet, aliás, nunca esteve tão ‘social’ quanto agora. As redes sociais engoliram a velha rede baseada na navegação livre e anônima, nos prendendo a uma territorialidade, que é o nosso próprio ‘perfil real’, isto é, à nossa identidade fora da rede, o que traz junto, por tabela, chefes, contatos, amigos, colegas de trabalho e escola/faculdade, além dos parentes – é a partir desse perfil que as pessoas passam a navegar, compartilhando links e fotos (suas vidas..), de tal modo que a navegação torna-se ancorada e identificada por definição.” (toda a postagem vale muito a leitura).

Hugo Albuquerque não está contestando o realismo das redes de redes, o fato de elas trocarem energia com o que de mais real existe: a dor, a resistência, a ternura, a loucura. Não defende o aspecto lúdico, como se as redes transcendessem a vida, noutro plano de existência. Não é isso. Refere-se, na verdade, ao processo de codificação e disciplinamento que sofremos. Esse o social entre aspas, como na expressão fazer uma “social”. Gentrificaram a internet. Mais do que outros mecanismos, o Facebook vem conseguindo sedimentar a identidade de cada um. E assim participa de um ritual que busca converter bárbaros em usuários comportados, hackers em criminosos sexuais e revolucionários em blogosfera progressista. E tenta assumir o controle sobre a intensificada antropogênese, a autoprodução de sujeitos e formas de vida, que as redes fermentam. A gênese social é mais uma vez capturada pelas instituições clássicas de expropriação: a empresa, o estado, a família.

A empresa ao ocupar o território cognitivo de cada um e o próprio cada um como processo e produto da cognição. Não apenas assaltar o campo visual e auditivo e semiótico pela publicidade, mas dirigir a atenção, formatar estéticas, homogeneizar mundos e vendê-los como estilos de vida. O tempo de vida é milimetricamente colonizado, até o nível subliminar do subconsciente, dos impulsos e sonhos.

O estado ao garantir o espaço social em que as empresas atuam e lucram, na velha dialética do público e do privado. Integrado globalmente, o estado controla as redes para assegurar o copyright, o direito autoral, a identificação individual, a propriedade sobre o trabalho social (crowdsourcing) e a financeirização dos lucros (rentismo). Movimentos contestatórios — wikileaks, anonymous, cultura livre, novas mídias antijornalísticas — passam a ser sistematicamente desacreditados e criminalizados. Em tempos de redes sociais, nenhum estado precisa mais interrogar/torturar os cidadãos: basta extrair seus dados da internet.

A família ao enquadrar a pessoa nas múltiplas normatividades de convívio social e consumo, servindo como polícia próxima nas várias dimensões: moral, ideológica, sexual, cosmética e estética.

Apesar disso tudo, o antagonismo persiste, dentro e contra. É preciso resistir e é preciso ocupar.

Não é hora para saudosismos. A luta central está em imergir na ecologia das redes sociais e, do interior, transbordar dos aparelhos de captura e expropriação. Daí que, talvez, a melhor tática não seja sair do Facebook para a N-1 ou Anillosur, numa nostalgia de bom selvagem, mas ocupar maciçamente e democratizar o próprio Facebook. É preciso assumir o tempo que se vive no conjunto de seus paradoxos, contradições e perplexidades. Ao capitalismo cognitivo, corresponde um movimento social em enxame, que aparece no software livre, na cultura digital, na blogosfera não-progressista, em diversos grupos e coletivos altamente politizados e produtivos, que cooperam e convivem fora da lógica da captura. São as múltiplas corrosões e resistências por dentro do império, os índios da metrópole que já estão dentro. Eles sabem que não é possível voltar atrás, então resolvem ir ainda mais fundo na sua guerra antropofágica contra a civilização.

Publicado em 11 de dezembro de 2011. Deixe seu pitaco.

Confesso que, em quase 12 anos de intensa vida acadêmica na universidade pública, já fui a vários eventos e encontros esvaziados, com meia dúzia de gatos pingados. Já participei de muitas mesas só com cupinchas, em papo de comadre. Diria até que é a regra. E faz parte: a reunião casual de espíritos livres que acabam convergindo em organização política e intelectual. Talvez seja o motivo pelo qual ainda vale a pena manter um pé na academia. Ainda mais depois das (incipientes porém significativas) reformas dos últimos dez anos, que trouxeram novos influxos, valores e inquietações. Mas só posso admirar quem mantém os dois e abraça por completo essa luta inglória.

Lamentavelmente, existe ainda uma percepção que mestrado e doutorado têm por objetivo confeccionar um produto final. Dentro de certas especificações e expectativas, credenciam o autor com uma “bandeirinha” para o próximo estágio. Seria produtivo se escrevêssemos para nós mesmos, mas nem isso. Tudo se instrumentaliza nesse processo de passar de fase, mesmo que ninguém leia o trabalho, mesmo que somente um ou outro esteja vagamente interessado nele e se dê ao luxo de passar os olhos nas referências, quando muito na conclusão e na introdução. E aí nesse jogo da amarelinha o acadêmico profissional vai acumulando pontos e passando aos próximos estágios, até o dia em que se aposenta e morre, orgulhoso do currículo repleto de bandeirinhas. Cede a vez a novos pretendentes ao moto-contínuo, um star system que se autorreplica.

Foi a primeira vez que cheguei num seminário anual de toda a pós-graduação de uma faculdade com zero pessoas. Rigorosamente zero. Nem a organização compareceu. Quem sabe numa utopia um seminário desses, onde os pós-graduandos realimentam o sistema de trabalhos e inquietações, devesse ser capaz de parar a faculdade e envolver a todos, com professores mediando as mesas e salas cheias. Não foi o caso mais uma vez e é das contingências da academia. Mas, nesta, a sensação de engodo escalou.

Tinha chegado à universidade 30 minutos antes e fui direto ao nono andar, onde ocorreria o evento. Lá, ninguém sabia informar do seminário, as secretarias estavam fechadas, e eu não recebera por e-mail a localização definitiva. Depois de perambular cerca de 20 minutos, encontrei muito por acaso um cartaz solitário, com a indicação do local riscada à caneta. A rasura indicava o auditório 13 do primeiro andar. Preocupado com o atraso, desci correndo e consegui chegar ao auditório exatamente no horário, às nove. Entrei em rompante e não havia ninguém. Nenhum ouvinte, nenhum palestrante, ninguém da comissão organizadora, vazio total. Na meia hora seguinte, chegaram somente os outros palestrantes da mesa. Dois deles pretendiam apresentar logo aos fantasmas para cumprir tabela e ir para uma entrevista…

Como assim? Sem organização nem auditório, pra ficarmos os quatro debatendo na mesa, melhor ir pro bar. Menos impostado e mais produtivo. Ante a insistência dos demais, curvados à infâmia do pegar-o-certificado, resolvi ir embora. Desconsolei-me com o engarrafamento de hora e meia pra voltar ao centro da cidade. O tipo de situação que, na linguagem coloquial das ruas, se conhece por “palhaçada” (perdoem-me os bons clowns).

Não dá pra se conformar, porque depois são os mesmos que ficam reclamando mais autonomia universitária e mais recursos pra eles próprios, contra qualquer reforma capaz de implodir esse autismo institucionalizado e auto-indulgente, — que é a regra. É pra revoltar mesmo.

Recomendados:

O que sobrou para os intelectuais, por Ronan, no Passa Palavra

Frente de Libertação do Conhecimento (FLC)

Publicado em 10 de dezembro de 2011. Deixe seu pitaco.

Julian Assange: Eu forneço de graça a vocês as informações privadas sobre as empresas, e eu sou o vilão.

Mark Zuckerberg: Eu forneço por dinheiro às empresas as informações privadas de vocês, e eu sou o homem do ano.

Publicado em 8 de dezembro de 2011. Deixe seu pitaco.

Publicado originalmente no Coletivo Amálgama, em 6 de dezembro de 2011. Continuar lendo lá.

A crise da economia global: Mercados financeiros, lutas sociais e novos cenários políticos“, de Andrea Fumagalli e Sandro Mezzadra (orgs.)

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O capitalismo é crise. E não morrerá de morte natural, como dizia Walter Benjamin. Aprendeu a governar a crise, alimentar-se dela, perpetuar-se nela. Mas, quando a palavra capitalismo volta à ordem do dia, algo vai mal no reino. Até pouco tempo atrás, era simplesmente romântico falar em capitalismo. Esse é um livro sobre a crise. Traz o sentido da urgência de quem vive tempos comprimidos, críticos. É motivado pela premência de organizar a crise, antes que o capitalismo se reorganize em nome dela. Nessas horas, nada mais oportuno do que uma política radical. Radicada nas causas materiais e nas lutas concretas, de baixo pra cima, somente uma atuação política que vá às raízes pode evitar que a crise se traduza em regimes políticos muito piores, em warfare, em novos-velhos racismos e fascismos. Eis a primeira premissa, que explica o subtítulo: “mercados financeiros, lutas sociais e novos cenários políticos“.

O desenrolar de narrativa, que vai das finanças à revolução, não se vai encontrar nas páginas de economia dos jornais ou nas revistas “especializadas”. Nas 364 páginas, nove pesquisadores ligados à rede militante Universidade Nômade oferecem interpretações outras para a crise da economia global. Seu foco é os EUA e a Europa, foco dos múltiplos colapsos de 2007 até hoje. Suas inquietações: qual a participação das pessoas não só como objetos da crise, mas como sujeitos? Quais as oportunidades para a organização política? Como reabrir um horizonte de mudança radical, à altura de nossos tempos? Em meio a tantos especialistas de olhos azuis e populismos de última hora, o que se pode fazer?!

A resposta padrão à crise tem sido reportá-la à esfera econômica. E ponto. Contorna-se o aspecto propriamente político, a dimensão social, para atribuir a crise a desvios, abusos ou corrupções da ordem financeira. A culpa é de um capitalismo financeiro demasiado desregulado e corrompido. No fundo, é desses yuppies de Wall Street, sua ganância, seu cotidiano profissional que mistura ética de pôquer com videogame, regado a cocaína, uísque e putas de luxo. E quando tudo vem abaixo como um castelo de cartas, saem à francesa com “greed is good and so is Marx“.

Então é hora de pôr os pés no chão e chamar os tecnocratas para salvar o que resta da economia global. Fazer o que tem de ser feito, sem muita firula, sem inventar moda. É caso de opor-se a especuladores e favorecer empreendedores reais e produtivos. Retornar aos bons tempos do século 19, saudosos da teoria do valor de David Ricardo, em que o melhor para os trabalhadores é aliar-se aos bons capitalistas — esses que organizam a produção e geram a riqueza, a ser ordenadamente distribuída, a cada um o seu. Ética do trabalho, da produção real, do desenvolvimento sustentável, contra todo tipo de rentismo fácil. Eis o discurso do Partido Republicano dos EUA e do Tea Party, que o livro descarta.

Para os autores, a financeirização da economia não é acessória ou dispensável. Não basta regulá-la, coibi-la, mitigá-la — para revalorizar a dinâmica real que lhe serviria de substrato. Na cópula “capitalismo financeiro”, o “financeiro” está sobrando. Isso já sabia Rudolph Hilferding, no clássico de 1909. As finanças estão disseminadas por todo o ciclo econômico, social e político. Não há mais opção de voltar atrás em busca do elo perdido do capitalismo produtivo. Na produção, circulação, distribuição e consumo, habita o crédito como elemento essencial. As operações econômicas de um modo ou de outro passam pelos bancos, pelos cartões de crédito, pelas prestações, pelos investimentos a curto, médio e longo prazo, pela atribuição de valor segundo as ações, as cotações na bolsa, os juros e as expectativas. Hoje, não se fala mais em previdência, educação ou saúde sem falar nos fundos de investimento correspondentes: públicos ou privados ou público-privados. A métrica passa a ser definida pelas bolsas de valores, que, sob a mão invisível dos grandes players, repartem as cotas de mais-valor entre a massa.

Uma tese do livro sustenta que, para a roda continuar girando — na lógica capitalista de rendimentos a curto prazo e líquidos –, só mesmo ampliando a base financeira. Isto significa implementar uma política monetária expansiva, alavancar (leverage) em fluxo permanente e versátil, e engendrar mirabolantes produtos financeiros (securitização, refinanciamento, mercado futuro ou opções, swaps etc). Portanto, menos do que ganância de um punhado de tubarões de Wall Street, o sistema capitalista se dilatou na financeirização por razões estruturais. Foi o que contribuiu para manter o aquecimento da economia americana e do mundo por boa parte da década passada. Por isso, quando Alan Greenspan se dizia movido por ideologia, não estava de todo errado. De fato, na lógica sistêmica, era coerente.

Para os autores, a crise não é um problema técnico, como se acontecesse acima das nuvens, numa atividade esotérica reservada aos iniciados. É um problema de todos nós. Somos o alfa e o ômega da financeirização, numa reedição contemporânea da servidão voluntária. É que a financeirização não se trata de uma etapa do capitalismo, mas de uma forma específica de governo, de um “modo de regulação”, de uma “governança social” com dimensões políticas, morais e jurídicas.

Nessa forma de governo, o endividamento é uma estratégia. Ele é encorajado e chega mesmo a valer a pena. Se, antigamente, as pessoas eram consideradas incluídas quando conquistavam o welfare (emprego e seguridade social), agora o são quando auferem acesso a crédito abundante. Daí se torna normal financiar (e refinanciar) a casa própria, bens de consumo, os negócios, a bolsa de estudos, o plano de saúde, o casamento da filha, a viagem internacional etc etc.

Vive-se uma sociedade de acionistas, investidores, rentistas e 99% de endividados. Através do crédito, as pessoas acabam enquadradas e amarradas a estilos de vida. É uma moral creditícia, que demanda meticuloso planejamento da carreira, do patrimônio, da família. Suas expectativas de consumo são formatadas, metrificadas e, assim, capitalizadas. É como se o desejo fosse projetado para o futuro, dando origem a um duplo, a sua gêmea maligna: a esperança. Essa colossal esperança do conjunto da sociedade endividada é então processada (financeiramente) em títulos e promissórias. Por sua vez, esses papéis são garantidos por outros títulos, por outros produtos financeiros, os “derivativos”. O futuro é derivado do presente e então capitalizado. Estes se multiplicam como os pães de Jesus, à casa da dezena (2004), da centena de trilhão de dólares (2008). O fiador definitivo dessa sofisticada corrente de Santo Antônio? A fé no sistema. Daí que descrer no capitalismo já é resistir.

Que é essa operação milagrosa senão a colonização massiva e sistemática do futuro, das crenças populares, do enquadramento no sistema capitalista e sua forma de governar? Nunca o capitalismo foi tão místico, tão abstrato na sua maneira de medir e distribuir a produção social. E injustamente. O rentismo financeiro tem produzido uma brutal transferência de renda dos mais pobres aos mais ricos. Boa parte dessa expropriação se dá com o aumento da dívida pública. Com a crise, os estados emitem títulos para salvar os bancos, comprar títulos tóxicos (desvalorizados), semi-nacionalizar empresas (como a GM americana) e reinjetar liquidez. Acabam transferindo boa parte da arrecadação aos agora rentistas da dívida pública. Assim, pode parecer que as bolhas estouram no vácuo, na ficção de créditos e títulos derivados. Porém, no fundo desse processo, enormes jazidas humanas estão sendo governadas e espoliadas, na produção, distribuição ou consumo. Na realidade, por todo o ciclo econômico, já que as finanças atuam em cada momento.

Para os autores, a crise é mais do que um acidente de percurso. A crise foi precipitada pela própria sociedade, por 99% dela. Se, com efeito, o sistema consegue governar a esperança e o medo (da insegurança) , não pode fazer o mesmo com o desejo, que se coloca sempre em relação de desmedida. Daí a crise dos subprimes nos EUA, no fundo, basear-se numa luta social pela moradia (hipotecas…) e pela educação (bolsas…). A crise da dívida soberana européia, por sua vez, na precarização das populações, sem crédito nem welfare; principalmente os jovens, que protagonizaram os movimentos do 15 de Maio e do 15 de Outubro. Já as insurreições na Inglaterra se ancoram na desigualdade social, tão aparente em termos de consumo. O movimento Occupy, na percepção derradeira que a verdadeira forma de governo vigente no ocidente não é a democracia liberal representativa, de fachada, mas uma aristocracia capitalista, profundamente ideológica, articulada globalmente e entranhada nos principais estados-nações. Para os resistentes ficou claro como, de cima pra baixo, não tem como sair nada de bom: nem novo Bretton Woods, nem novo New Deal.

Há um fracasso generalizado nas tentativas de saída da crise, porque ela acontece fora da lógica simplesmente financeira. Não há sinal da tão esperada reacomodação de crenças e confianças na economia política em vigor. Em 2011, os tumultos cresceram e se multiplicaram. O xis da questão continua sendo o conflito entre o desejo social e a lógica dos mercados, entre as forças produtivas (a multidão) e as relações de produção (a governança financeira). A crise é da medida.

Mas que os autores propõem? Além de apostar as fichas no poder criativo das redes militantes, acampadas e tumultos?

Entre outras coisas, a rediscutir o que efetivamente se deve. Até que ponto as pessoas tem de pagar pelo colapso do sistema de crédito, pela socialização das perdas operada pelos estados? Em tempos de crise global, é plausível falar em um direito ao calote. Para ajudar não os bancos, mas as pessoas. Uma das tentativas de instituí-lo nos EUA se deu com a Lei de Ajuda às Famílias para Salvar Suas Casas (2009). O projeto original continha inédita cláusula que autorizaria o juízo de falência a modificar o valor devido pelas pessoas, quando do resgate das hipotecas. Mas o Senado americano vetou-a.

Em segundo lugar, os artigos convergem ao redor do direito à renda universal. Se o capitalismo se tornou rentista, também é nesse caminho que se pode imaginar a reapropriação da riqueza. Menos assistencialismo ou justiça social do que a devida remuneração à população. Como o valor é extraído difusamente em todo o ciclo econômico, nada mais justo do que restituir a parte dos produtores. É a “ressocialização da moeda”, que opera dentro e contra a financeirização da vida. Na renda universal, trata-se de desquantificar o valor de troca e requalificar o próprio sentido do dinheiro e da riqueza.

A qualidade desse livro está em fazer o percurso inverso do economês predominante. Ou seja resgatar a crise do capitalismo global das páginas de economia e reportá-la à sua dimensão política. Afinal, o quanto pode ser extorquido da gente nunca deixou de ser uma questão política.

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::: A crise da economia global ::: Andrea Fumagalli e Sandro Mezzadra (orgs.) ::: Civilização Brasileira, 2011, 364 páginas :::

Publicado em 5 de dezembro de 2011. Deixe seu pitaco.

Fala-se muito em crise do capitalismo financeiro. A narrativa é mais ou menos assim:

Os culpados principais da crise foram bancos internacionais e grupos de investimento, os grandes players que jogam com a riqueza mundial. Ao longo da última década, extrapolaram todos os limites da cobiça para realizar uma falsa multiplicação dos pães. Mirabolaram produtos financeiros, os derivativos, com o que criaram valor onde não havia nada. Como esse ouro de tolos, incharam bolhas especulativas, descoladas da economia real, — fantasiosas e insustentáveis. Sem ser eleitos por ninguém, jogaram muito alto e sem nenhuma garantia com o dinheiro alheio. Aproveitaram-se da desregulamentação do setor e fizeram de refém os governos nacionais, incapazes de conter a luxúria por lucros fabulosos ou talvez cúmplices. Banqueiros, financistas, acionistas e executivos deitaram e rolaram em cima da economia mundial por anos e agora todos pagamos o pato, enquanto os verdadeiros culpados são salvos com o dinheiro público e ainda posam de popstar. Não admira o movimento Occupy nos Estados Unidos tenha começado por Wall Street.

É o que temos ouvido todos os dias, mas não é bem assim.

Boa parte das críticas se fundamenta numa superficial separação entre finanças e economia real. Como se a dimensão financeira fosse um a-mais ao aspecto real da produção. Como se existissem capitalistas que realmente organizam e comandam a produção de coisas; e os meramente financeiros, que se limitam a atuar na realidade virtual dos mercados e bolsas de valores. Os bons e velhos patrões empreendedores versus os especuladores yuppies.

Essa interpretação aparece à esquerda e à direita do espectro político-ideológico.

Ambos os lados acusam o capitalismo financeiro de exagerar na dose de capital fictício em proporção ao capital real. Para um e outro, não dá pra continuar apostando na ideologia da mão invisível que vai de Adam Smith a Alan Greenspan, — nessa mistificada racionalidade “autônoma” dos mercados e agentes financeiros. Portanto, é preciso aplicar políticas regulativas para controlar o funcionamento do sistema. É preciso punir e criminalizar condutas gananciosas e irresponsáveis. É preciso repensar um novo marco monetário internacional, como o antigo Bretton Woods (1944-72). É preciso resgatar a esfera pública contra o alto clero da econometria.

A direita propugna por uma aliança entre trabalhadores de bem e capitalistas de bem, num novo pacto produtivo, em nome dos valores do trabalho (um novo New Deal). É a posição do Tea Party. A esquerda aproveita para novamente dar vivas ao estado nacional como gestor do capital coletivo, capaz não só de controlar o mercado financeiro como distribuir os seus ganhos. É o discurso do desenvolvimento com inclusão social do governo brasileiro e sua nomenklatura economista. Os dois campos concordam que, assim, se poderão gerar empregos, alimentar a demanda interna e retomar o crescimento.

Há uma limitação séria nessas interpretações, apesar de predominar nas revistas, jornais e sites, especializados ou não. Serão as finanças algo acoplado à economia dita real, que teriam pervertido o capitalismo original, tornando-o mais injusto? É possível salvar o capitalismo de antes da financeirização?

Há uma linha crítica que vem desde Marx que acha que não. Me refiro especialmente ao economista Christian Marazzi, de quem resenhei um livro ano passado. Este ano, li mais artigos e outros dois livros dele: A violência do capitalismo financeiro [2010, SemioTexte, em inglês] e O comunismo do capital: financeirização, biopolítica do trabalho e crise global [2010, ombre corte, em italiano]. Descendente da Escola da Regulação Francesa (Michel Aglietta, Robert Boyer, Alain Lipietz etc) e do pós-operaísmo italiano (Antonio Negri), o autor tem o mérito de nunca deixar de reportar as crises à sua dimensão política e social. Quer dizer, não analisa a crise pela ótica de condições objetivas, mas da própria dinâmica de produção de sujeitos sociais, antagonistas ou não.

Para ele, a financeirização é unha e carne com o capitalismo. Não há processo do capital sem crédito, — o que Marx desenvolve principalmente no Livro III de O Capital. A crise global é do capitalismo tout court. Pode-se qualificá-la como financeira apenas na medida em que é a presente forma de organização do capitalismo. Mas nunca no sentido dominante, que se poderia salvar algum capitalismo bom do capitalismo financeiro mau. O que faz toda a diferença. Não adianta tentar solucionar a crise do capitalismo financeiro corrigindo o financeiro, — quando este é apenas uma consequência daquele. O capitalismo é a crise. Tentar sair da crise melhorando o capitalismo já é repetir a própria lógica de desenvolvimento do sistema, como aconteceu ao longo das crises sistêmicas desde o século 19. Pode-se trabalhar e lutar para outra resposta, afirma Marazzi.

Para ele, as finanças estão imbricadas no processo produtivo como um todo, da produção à circulação, da distribuição ao consumo. De um modo ou de outro, as operações econômicas passam pelos bancos, operadoras de crédito, financiamentos ou investimentos a curto, médio e longo prazos. Tente sobreviver sem uma conta no banco… Cada vez que o sujeito realiza um ato econômico, — que produz, circula, troca, consome etc — já está inscrito nos inúmeros circuitos financeiros. E aí é explorado, pelo fato mesmo de submeter-se a uma métrica de valor, a uma partição de lucros e riscos embutida em juros, taxas e rendimentos. Essa métrica e suas cotações são decididas bem longe dos cidadãos, pelas bolsas de valores, políticas monetárias, agências de classificação de risco e sistema bancário. O cidadão fica à mercê de um mundo cujas leis tudo faz crer alienígenas, — tão distante de nosso cotidiano quanto as páginas de economia dos jornais diários. Enquanto isso, a cauda longa da produtividade social vai sendo vampirizada através do valor-finança, dessa lógica de medir e extrair valor, desde os atos mais prosaicos da economia.

Um ponto de Marazzi é que as finanças existem por razões estruturais do sistema. A crise das finanças constitui uma crise histórica, sintética de todas as contradições e limitações que o desenvolvimento do capitalismo acumulou ao longo dos séculos. Demais, a financeirização não é somente da economia, mas da vida. Por isso, desdobrando um conceito de Michel Foucault, ele fala em biocapitalismo. O biocapitalismo, que é o capitalismo financeirizado, opera em níveis múltiplos e articulados, grosso modo: 1) como cimentador do capitalismo global, 2) como modo de regulação da economia política, 3) como forma de governança social.

1) Nada parece ser mais central para os governos nacionais do que as políticas monetárias e os bancos centrais, que tentam disciplinar a repartição da riqueza entre devedores e rentistas. A política monetária é a primeira a sofrer a ingerência das instituições internacionais, especialmente nas crises. A globalização não só passa pelas finanças, mas nela se articula política e economicamente. É necessário que estados nacionais e políticas monetárias se integrem ao sistema financeiro. Seu funcionamento globalizado é administrado por uma aristocracia de instituições internacionais, gigantescos bancos de investimento e outros grandes players. Marazzi chama de “comunismo do capital” essa cooperação de capitalistas em organismos e fóruns como Davos, e a sua codificação linguística é sempre financeira. Com ela, permitem mensurar e organizar os fluxos de capital, fabricar consensos políticos e exercer comando sobre os governos nacionais.

2) Como modo de regulação, refere-se ao papel da financeirização para a demanda solvente. Ou seja, dinheiro para gastar + desejo (o núcleo de toda a produção). Sem a demanda solvente, o capitalista não realiza o lucro. É que, para se reproduzir, toda produção precisa concluir o ciclo com um suplemento de valor, que então é reinvestido. É o chamado regime de acumulação e varia em função da época. Hoje, disseminar crédito em toda a sociedade se torna uma estratégia para mover a economia. Em consequência, o acesso à moradia, educação, bens duráveis, pequenos negócios — tudo isso se torna possível graças à facilitação do crédito. Ao longo das últimas décadas, um conjunto de medidas nacionais e internacionais favoreceu o endividamento generalizado das pessoas, mormente na Europa e EUA. Tornou-se normal assumir hipotecas, financiar carros, investir em bolsas universitárias, aplicar na previdência privada etc. O que antes era função do estado de bem estar (emprego e seguridade social), agora se viabiliza com as finanças. Não à toa somos incentivados a usar e abusar do cartão de crédito, que chegam aos cachos pelo correio. Daí a multiplicação de recursos creditícios à população. Que é acompanhada pela mirabolação dos produtos financeiros “derivados” (refinanciamentos, colateralização de riscos, créditos swaps, mercado futuro etc), superdimensionando a base monetária.

3) Mas não é só isso. No capitalismo contemporâneo, a financeirização da vida atua também como modo de governar as populações. Nos tempos em que se estruturava no welfare, acontecia enquadrando as pessoas na tríade emprego, nação e família. Hoje, noutro modelo, a pessoa fica condicionada pelas finanças. Tem de planejar-se a longo prazo: como vai investir em moradia, em previdência (fundos de pensão), em educação, enfim, em como estruturar a sua vida mediante as estratégias de investimento, retorno e juros, em total dependência do sistema financeiro. A própria família se torna um investimento estratégico, visto que o estado não garante mais nada. A governança opera flexível e difusa, a sociedade precisa aprender a gerir os riscos e oportunidades. Não precisa mais disciplinar o sujeito estritamente nos moldes do trabalhador empregado (pleno emprego), cidadão de bem (nação) e homem/mulher de família. Reestruturam-se formas mais versáteis: empregabilidade (workfare), cidadão cosmopolita (globalização) e relacionamentos líquidos. Por isso, na financeirização, está em jogo também a produção de certa subjetividade do homem moderno, — numa dimensão antropológica que às vezes passa despercebida, mesmo em tempos de crise.

No cômputo de seus fatores, a financeirização da vida tem possibilitado não apenas uma transferência brutal da massa endividada (99%) aos rentistas (1%), mas também tem fabricado governamentalidade das populações em escala global.

Mais do que se pautar pelas estratégias florentinas e teorias conspiratórias dos tubarões, como num filme de Oliver Stone, o sistema capitalista global está entranhado no cotidiano e nas formas de vida contemporâneas. É como se fosse uma argamassa social e todos estamos incluídos em sua dinâmica. O mundo das finanças é a culminância de uma abstração que atinge proporções planetárias, e à qual ainda rendemos a nossa servidão voluntária. Nessa perspectiva biocapitalista, o sistema precisa investir a vida de todos, incluir a todos nas dinâmicas de crédito e capitalização das esperanças (investimentos) e medos (securitização), — mas ao mesmo tempo nos inclui como excluídos do rentismo. Eis aí a contradição esgarçada pela crise: entre as forças produtivas (multidão de endividados) e as relações de produção (a financeirização, que concentra a riqueza).

Esse processo não pode ser separado do capitalismo — ele é o seu próprio modo de funcionamento, radicalizado a partir das crises anteriores, nos anos 1970-80. Não há mais economia real a que pudéssemos regressar. Porque o mundo não é mais como era em 1950 ou 1960, quando em alguns países do hemisfério norte havia welfare state. Alguns economistas do campo da esquerda tupiniquim até hoje sonham com o pleno emprego e a seguridade social da Suécia de 1970, numa nostalgia do que não vivemos. Porém, não só a economia não é a mesma: as relações políticas, os sujeitos sociais e o próprio desejo sofreram mutações irreversíveis.

Isso tudo entrou em crise. Qual seria o caminho além de uma tentativa de sanear o capitalismo ou tentar voltar ao estado social europeu do pós-guerra? Como entrar na crise, assumi-la em seu sentido pleno como crise política e social, e acima de tudo radicalizá-la para tentar superar as limitações e contradições mais recônditas e simultaneamente óbvias do sistema? Eis aí desafios enormes, à altura do desejo criativo de uma geração que se revolta pelo mundo todo. É assunto apaixonante que, com as leituras de Marazzi e outros pensadores originais, pretendo abordar em próximos artigos.

 

 

Publicado em 2 de dezembro de 2011. Deixe seu pitaco.

Quando encontrar alguém que afirme participar de um movimento anticorrupção, tenho uma sugestão pra você. Em vez de imediatamente passar a tratá-lo como um completo idiota e desconversar, seja prospectivo. Explore o mundo a seu redor. Tenho feito isso sistematicamente desde o Movimento Cansei, há quatro anos, com gente de todas as idades, escolaridades e classes sociais. Cheguei a algumas conclusões provisórias, num apanhado estatístico.

Experimente perguntar sobre qual corrupção se está falando.

A grande maioria acha que a corrupção é geral, que a regra é o político burlar a lei e desviar verbas, que nunca se roubou tanto nesse país. Redirecionam o dinheiro público para o próprio benefício, da família, negócios e compadres, para o partido ou a campanha eleitoral. O discurso nunca corresponde à prática. Em geral, são fingidos, velhacos, oportunistas, gananciosos, não tem moral alguma. Senão a de trabalhar dia e noite por mais poder e dinheiro. É o típico político brasileiro, que só quer se dar bem. O Brasil não vai pra frente por causa da corrupção. Além da corrupção, o outro grande problema é a impunidade. Não faltam leis, carece é que sejam cumpridas. A polícia e o judiciário são ineficientes, fazem vistas grossas, participam da mamata. Se os políticos fossem sérios e as leis fossem aplicadas, já seríamos Primeiro Mundo há muito tempo. Dinheiro não falta: é que vai pelo ralo ou para o bolso dos corruptos.

Pergunte então sobre a desigualdade social e a pobreza.

Aí usualmente aparece um terceiro problema: a educação. A falta dela. Está abandonada às traças neste país. Pobre precisa é de escola, orientação, curso técnico e profissionalizante, pra poder ter condições de crescer na vida, pra ter um emprego decente e ser alguém. Faltam investimento e vontade política. Professores sérios, também. Prouni, cotas em universidade? Claro que não. Tem é que melhorar ensino-fundamental-e-médio pro pobre concorrer em pé de igualdade. Não pode favorecimento pra ninguém, porque vivemos uma democracia. E quem estudou vai se prejudicar só porque os pais puderam pagar escola particular pra ele? A pessoa não tem culpa de ter dinheiro. Resolver a educação é cortar o mal pela raiz: melhorar o ensino-básico-e-fundamental. O resto é populismo, pra ganhar voto e manter currais eleitorais. Aí fica fácil pro político.

Uma minoria vai mais longe que, além da educação, também tem o problema da preguiça. Nem todo pobre quer trabalhar. Ainda mais com esse programa de bolsas, bolsa-isso, bolsa-aquilo, isso todo mundo sabe que não passa de compra de votos, pura e simples.

Nesse tópico, um de meus interlocutores ainda alerta: “A gente também tem que tomar o cuidado de não julgar o Brasil como um todo pelo seu lado pobre, aqui tem muita coisa boa, muita gente bonita, muita vontade de crescer e trabalhar; temos que aprender a valorizar, não é tudo um Piauí.”

E o racismo?

A maioria concorda que exista e seja uma questão. Mas emendam que o Brasil não é um país racista. Já foi, mas não é mais. Basta ver a sua história, hoje  o negro está na novela, é normal jogar capoeira, frequentar a umbanda, até namorar um negro tem sido aceito. O problema são algumas pessoas preconceituosas. Isso independente de classe, entre pobres e ricos, aliás, entre os negros também. Não é como nos Estados Unidos, onde fica claro quem é branco ou negro. Aqui, todo mundo é meio mestiço, pardo, não tem critério. Não dá pra gente raciocinar como se estivesse na época da escravidão. Isso foi há mais de um século, ninguém vivo hoje teve participação. Alguns citam amigos negros ou então o famoso avô. Cotas? Não tem cabimento ação afirmativa. Sempre voltam ao argumento do ensino-fundamental-e-médio. E ainda incentiva o racismo, gera uma divisão na sociedade que está praticamente extinta. Numa democracia, não pode ter isso de branco e negro.

E a grande mídia?

O que tem?

A grande mídia brasileira não tem corrupção?

A maioria costuma pensar um pouquinho nessa hora. Afinal, leu sobre o movimento anticorrupção nessa mesma mídia. Muitos acabam concluindo que não. Em comparação com políticos e funcionários públicos, os jornalistas e editores são uma categoria mais profissional, mais séria. Sem dúvida, mais comprometidos com o Brasil do que os políticos, que só querem se dar bem. Democracia tem que ter imprensa atuante. Temos imprensa de qualidade no Brasil, especialmente a TV. Exportamos programas para trocentos países. Compara com o que você vê na Itália, no México, na Venezuela. Aqui tem tecnologia, tem liberdade de imprensa, quase ninguém tem rabo preso com o governo. Imagine se eles não denunciassem a corrupção. Mesmo porque numa democracia a grande mídia é privada, o dinheiro é dela, não tem que ficar prestando contas toda hora como os políticos e governos. Eu não acho que seja um dos maiores problemas, se comparar com corrupção, impunidade e educação.

E você?

Como assim?

Você, como você lida com a corrupção?

Eu sou contra. Todo cidadão de bem deveria ser. Independente de partido. Pago as minhas contas, pago os meus impostos, não tenho dívidas, acordo cedo pra trabalhar, mantenho a minha família, tudo que conquistei eu ganhei com o mérito e o trabalho próprios, então só quero que os políticos parem de roubar. É justo, não? Trabalhei duro e tenho o direito de me importar pelo meu país. É dever de cidadão. E isso vem antes de qualquer ideologia, é o básico de qualquer democracia, nem deveria ser discutido. Mas é um escândalo, aqui a lei não é cumprida e fica por isso mesmo, então tem que ter movimento pra que seja. Estou certo ou errado?!