Introdução livre
Há uns seis ou sete anos resolvi fazer incursões pela antropologia, que pra mim era um continente desconhecido. Procurei um amigo que fazia doutorado na área e ele me passou várias indicações. Mas eu queria saber o que ele achava desse cara badalado do Museu Nacional. E o amigo: “Olha, como antropólogo é um bom deleuziano”. Falou de sacanagem, mas é claro que me interessei na hora. Fui atrás de artigos dele e, com efeito, Eduardo estava embriagado da filosofia de Gilles Deleuze. Não conhecia autor da antropologia tão teoricamente compenetrado. Achava que os antropólogos, assim como advogados e taxistas, eram criaturas menos cerebrais. Essas leituras me ajudaram nos estudos sobre o filósofo pós-estruturalista, aliás, que eu sempre estou mais ou menos estudando. Aí me deparei com as teses sobre o perspectivismo ameríndio e, confesso, num primeiro momento achei aquilo ultrajante. Quem é esse Fitzcarraldo querendo construir uma fábrica de porcelana no meio da selva amazônica? Como assim uma cosmologia comum a todas as comunidades indígenas das Américas? À fórceps? Eu não conseguia imaginar uma cosmologia que fosse comum às pessoas de meu prédio, que dirá uma para os três subcontinentes inteiros. Deixei de lado.
Anos depois estava presente numa comunicação dele, na Casa Rui Barbosa. Tive outra experiência. De repente, vi a coisa toda sob outro ângulo, zás!, percebi que não era nada do que eu tinha achado que era, que tinha sido uma apreensão vulgarizada e banalizada, de primeira hora, e aí pipocaram sentidos políticos, éticos, metafísicos, literários. É incrível como têm autores que você não está entendendo nada, mas subitamente tudo passa a fazer algum sentido fecundo (embora alguns nunca venham a fazer). Então caiu no meu colo um livro de entrevistas revisadas do Eduardo, entre(re)vistas, que é tipo os Grundrisse da nova antropologia, a antropologia simétrica. Uma floresta caótica, mas exuberante de sentidos. Ali, pude vislumbrar panoramicamente a colcha de intuições, sacadas, ousadias, maldades e impudicícias de sua obra completa. Comecei a pesquisá-la mais sistematicamente por conta própria (isto significa ler o autor de a a z), autodidata que sou. Depois encontrei conexões dessa matriz em dois livros por assim dizer mais militantes, da corrente autonomista-marxista: Mundobraz (Cocco, 2009) e Commonwealth (Negri, Hardt, 2009), que em algumas partes montam sobre os ombros do Eduardo. Recentemente, me deparei com um texto seminal dele. Tirando a parte em que afirma estar na menopausa do intelecto. Quando, a meu ver, está na akmê: quando as coisas começam a ficar interessantes. Estou falando de uma conferência que ele apresentou em agosto deste ano pra titularidade na UFRJ, republicada na revista Sopro.
Eu acho sem meias palavras que, no Brasil de 2012, há nesse corpo prático-teórico algo que está na hora certa no lugar certo. Como as massas contemporâneas comem por meio dos blogues, pretendo servir parte do biscoito fino que ele fabrica (ligeiramente diluído), nesta postagem e em futuras. Longe de mim pretender interpretá-lo com precisão acadêmica, mesmo porque não tenho nem almejo as credenciais corretas.
Tudo é Brasil
Oswald de Andrade descobriu o Brasil em Paris, num apartamento na Praça Clichy. Rogéria Sganzerla precisou enxergar o Brasil pelos olhos de Orson Welles, na quadrilogia de filmes que vai de Nem tudo é verdade (1986) a Signo do caos (2003). Só depois de exilar-se, Gláuber atingiu a obra magna de sua vida, a cristologia tropical em Idade da Terra (1980, um tantinho mais pleno que Terra em Transe), enquanto Hélio Oiticica teve de migrar para Nova Iorque amadurecer a sua Mangueira além dos romantismos de classe média deslumbrada. Mas Eduardo Viveiros de Castro foi o único que saiu do Brasil não saindo. Foi descobrir o Brasil entre os índios, entre o que ele não era e por isso desejava. Eis uma prática de amor ao distante: interessar-se pelo que não é meu, pois “a antropologia nos devolve uma imagem de nós mesmos na qual nós não nos reconhecemos” (Patrice Maniglier).
Basicamente, ele coloca um problema. Eduardo não fabulou os conceitos do perspectivismo ameríndio pra dichavar alguma essência oculta, algum núcleo duro do pensamento de todos os indígenas da América. Bem menos (mais) que isso: ele efetua um corte epistêmico, estabelece campos que se polarizam e assim polarizados entram em relação. Interpretações se interpenetram. Portanto, o que ele faz não é exatamente uma teoria dos indígenas pelos brancos, nem exatamente uma teoria dos brancos pelos indígenas, mas uma problemática que resulta dessa interzona entre índios e brancos, entre índios e brasileiros e índios e europeus. Etc! Quer dizer, ele não está fazendo (ainda outra) teoria do Brasil ou do brasileiro. Na realidade, uma das premissas desse problema específico que ele põe é que, — quem diria!, — a idéia mais fora do lugar no Brasil é a idéia de Brasil mesma.
Questão do branco
Eduardo não está preocupado propriamente na questão indígena (no singular). Nesse sentido da questão indígena como um subconjunto das preocupações do branco. Tomar o indígena dessa forma seria reproduzir a pauta da integração nacional: como integrar o índio no Brasil? Como catequisá-lo civicamente, como adaptá-lo ao Brasil do século 21, como incluí-lo socialmente num Brasil maior? Que políticas para o índio? Para a nova antropologia, o xis é menos o índio como elemento brasileiro, do que o brasileiro como elemento índio. De que modo o branco é uma das questões indígenas para os indígenas? Como eles formulam essa relação? E como isso ricocheteia na gente, como auto-antropologia via indígena? Não abrasileirar o índio, mas indianizar outros brasis. Não unificar brancos, índios e negros no Brasil, mas explodir o Brasil em muitos. Pau Brasil, diria Oswald.
Nem mais uma sociologia do brasileiro cevado na diversidade racial, espécie miscigenada para povoar o território e se apresentar à sociedade de nações. Nem mais uma antropologia da natureza indígena, o bom selvagem a preservar-se, numa pauta verde-chique. Nem indianismo nacionalista nem indianismo de butique, ambos coloridos em tecnicolor. O antropólogo sequer está preocupado em definir o índio como o não-brasileiro. Índio é aquele que se garante como índio. Em princípio, todos são índios, até que se prove não sejam. Por que não? Por que deveríamos partir da premissa contrária, que todos não somos? Por que alguém não pode virar índio? Não podem aparecer novos índios, novas aldeias, novas tribos? Querer ser índio pode parecer ridículo e de fato no meu caso seria, mas o que impede que a indianice aconteça em mim? ou a negritude? ou a feminice? o devir-índio, o devir-negro, o devir-mulher? sem banalizar isso? como?!
A etnologia de Eduardo provoca interferências, perturbações, deslocamentos entre os campos que pareciam (e só pareciam) coesos, bem amarrados e seguros. Mas quem amarrava não era por acaso. Por isso, é bem problemático mesmo, e não admira o poder constituído torça o nariz. Quem governa não quer novos problemas. É melhor que cada um fique na sua e não invente moda, isso de ficar criando caso onde não havia. A direita nunca vê problema novo.
Eu não vejo como repensar e repolitizar a questão do desenvolvimento social sem passar por esse problema que o Eduardo coloca. Que não é só dos índios. Do ponto de vista das relações, isso nem é possível: “só dos índios”. Nada “é só de alguma coisa”, porque as coisas da vida não se resolvem em propriedades intrínsecas auto-suficientes. Nada se basta em si mesmo. Tudo está por todos os lados saturado, espantosamente saturado de relações.
É o que ensina o perspectivismo, a ver.
Perspectivismo
É o seguinte. Na nossa mitologia predominante, primeiro éramos todos animais. Aí veio o elo perdido e brotou a espécie humana, que tem algo que as outras não têm. A glândula pineal, a alma, a moral, a linguagem, a razão, o simbólico, o Dasein… você nomeie. Podemos não estar mais no centro do universo, mas dentre os bichos, somos especiais. Sim, somos animais também, mas não só animais. Além da natureza animal, somos dotados de uma segunda natureza por cima, a cultura. Que são muitas. Tem aqueles que acham que todas as culturas dizem a mesma coisa com roupagens diferentes. São os universalistas, geralmente eurocêntricos. E tem aqueles que acham que as culturas são autônomas, que devem ser respeitadas segundo seus próprios valores e normas. São os multiculturalistas, geralmente descolados. Em qualquer caso, o que nos faz especiais é a cultura. Por causa dela, somos superiores a animais, plantas e minerais. Do lado da cultura, ficam as ciências humanas: sociologia, psicologia, direito, ciência política etc. Do lado da natureza, as ciências naturais: física, química, biologia etc. O homem pode ser estudado por um lado, enquanto ser social; ou pelo outro, como ser animal. No século 19, se consolidou uma ciência de transição, a antropologia, que faria a mediação entre cultura e natureza. Sintomaticamente, tomava por objeto de estudo os grupos primitivos, mais próximos da natureza. O subtexto aqui, por óbvio, é que precisávamos dar um jeito de trazê-los para a cultura, civilizando-os (no capitalismo), num contexto de impérios coloniais onde o Sol nunca se punha.
Na perspectiva ameríndia, muda tudo. Não somente vira de ponta-cabeça, como Marx virou Hegel, muda tudo mesmo. Não são dois sistemas com a mesma estrutura conceitual, análogos. Como disse o antropólogo ao começar a se relacionar com os índios: “o modo como eles não me compreendiam não era o mesmo modo como eu não os compreendia”.
Eles têm não só outro ponto de vista sobre as coisas, mas outro ponto de vista sobre o ponto de vista. O ponto de vista tradicional das nossas ciências cria o seu objeto. Digamos, o sociólogo assume por objetos o fato social, as relações e estruturas sociais, o funcionamento sistemático das sociedades. O biólogo vai perscrutar objetivamente a fisiologia animal, a evolução das espécies, os ecossistemas, as populações e por aí vai. Pros índios, isso não faz sentido. O ponto de vista constitui um sujeito. O perspectivismo subjetiva, enquanto a ciência tradicional objetiva. O outro do índio nunca é um objeto que ele toma como externo a si, que ele então pode dominar e subjugar a sua razão ordenadora. O outro do índio — seja ele outro índio, um branco, um espírito, um animal, um artefato, um fenômeno atmosférico, um astro sideral — está sempre em relação consigo, uma relação social entre sujeitos. A mata não tem nada de natural, é toda ela, de ponta a ponta socializada.
Na mitologia indígena, primeiro tudo era humano. A condição humana está em todas as coisas. Todos os animais eram humanos. Alguns continuaram humanos, somos nós. Outros se desumanizaram, se animalizaram, são os animais. Eu continuo sendo humano e animal ao mesmo tempo, mas os animais idem. Ao fim e ao cabo todos temos formas humanas, num trans-humanismo cósmico. O que difere uns dos outros? É a roupa por cima da forma humana: o corpo. Além do corpo, habitamos a mesma dimensão comum: a alma que foi o nosso uno primordial. Se os europeus enxergam a alma (a razão, a linguagem, o simbólico, a angústia, o cigarro etc) como exclusividade humana, para os indígenas a alma é do mundo. Animismo.Para os indígenas, o que diferencia é o corpo. E esse corpo não é só a pele e tal, mas uma massa heterogênea e relacional de dobras, orifícios, signos e pontos de contato, com que me comunico e me relaciono. Não à toa tanta importância nas operações de inscrição, performance, mutação e transmutação corporais, onde tudo está em jogo. Então o homem não é especial em termos de alma. Ele pode se relacionar no mesmo nível ontológico com animais, plantas, minerais, espíritos, mortos e artefatos. Mais do que isso: os animais, plantas, minerais, espíritos, mortos e artefatos também se relacionam, também tem uma socialidade, também são sujeitos e, mais importante, com uma perspectiva. Vê-se que as relações sociais, a cultura está em tudo. Não tem multiculturalismo, tem monoculturalismo.
Uma onça então é um ser social e tem uma perspectiva. Uma onça se vê como humano. Mas ela não vê as outras coisas como onças. Isso seria relativismo, cada ponto de vista constituir objetos próprios. Nada disso. A onça vê as outras onças como humanos, mas os humanos, esses ela os vê como porcos do mato. A onça vê e degusta o sangue do porco como cerveja. Os porcos do mato por sua vez vêem os porcos do mato como humanos, as frutas que comem como plantas cultivadas; e os humanos que os caçam, os porcos vêem-nos como onças. Os porcos quando pintam não pintam deuses com cara de porco, mas de homem. Não é pra pensar, com isso, que o indígena é um idiota que vê a onça como um humano. Ele vê a onça como onça. Mas também como humano. É um plus. Ou melhor, a vê como tendo a capacidade de transmutar-se em humano, quando assume a condição de sujeito. E assim se relaciona socialmente com ela, o que eu, operando na mutilada metafísica européia, não consigo fazer.
A perspectiva do outro me interpela. Me aciona coisas em mim que eu não sou, e isso pode ser perigoso. Se estou sozinho na mata e uma onça me fita primeiro, estou sendo perspectivado dentro da natureza da onça. Pode acontecer de a onça falar comigo, o que é péssimo. A recomendação, nesse caso, é não retrucar. Não aceitar os termos da realidade colocada pelo sujeito que se empodera, suas leis e posições relativas. Se respondo, aceito a interpelação e sou capturado pela onça, já estou perdido. Da mesma forma, se cruzo com um espírito da floresta, é porque já estou sendo capturado no mundo dele, subjetivado como espírito. A técnica então é se afirmar como uma pessoa, como um ser humano, e aí o espírito desaparece, porque retornei à minha perspectiva/natureza. Mais ou menos como num sonho ruim, quando percebo que estou noutra realidade e me esforço por me convencer que não sou um ser onírico, e consigo (esperançosamente) acordar antes do pesadelo ficar sério demais.
Em suma, a cultura é uma só: a onça é humano e eu sou humano e o espírito é humano, mas não podemos ser simultaneamente. Há uma luta encarniçada de perspectivas, de afetos ativos e passivos disputando primazia. Quem captura quem na sua natureza. Por isso, Eduardo desenvolve que o monoculturalismo ameríndio também é um multinaturalismo, porque existem tantas naturezas quanto modos de sentir, quanto corpos específicos. Não é que eu interiormente mude, é que as coisas mudam, quando passo de uma natureza para a outra. Num estranhamento radical, propõem-se questões bem outras, que não são nem um pouco equivalentes à sonolenta querela entre universalistas e relativistas.
Xamanismo
E quando a relação dá samba? Quando não é só captura? Quando, da conexão entre A e B, pode brotar um C potente? Será que não pode haver casos em que, mesmo percebendo estar nessa interzona burroughiana, eu possa querer me deixar levar pela perspectiva outra, pra ver se rola (um sonho bom, uma utopia…)? Não só ver pelos olhos do outro, mas mundiviver como uma experiência global, com o corpo do outro?, entre os dois corpos formando um terceiro? Um terceiro C que não estava implícito em A nem em B? Que tampouco era o denominador em comum AB, mas uma produção comum ? Essa produção comum depende do bom encontro entre A e B. Mais que isso, de um espaço produtivo de compartilhamento, que propicie os sujeitos existirem como sujeitos, numa produção desejante de devoração mútua. Não adianta celebrar a hibridação pela hibridação, porque só a antropofagia une. Porque nem sempre A e B têm um bom encontro. Pode haver medo, tristeza, ameaça, submissão. Posso me relacionar mal com outros seres sociais. No caso da onça, podia acabar sendo assassinado. No do espírito, podia acometer o sujeito de uma doença. De desgosto, por exemplo, ou esquizofrenia (sempre com expressões corporais), onde ele não conseguisse mais voltar ao corpo são, preso que está ao plano (corporal) dos espíritos.
Têm índios que são especialistas em atravessar as naturezas: os xamãs. Esses são preparados para sair do território social mais seguro, des-territorializar e re-territorializar, sem se ferir no processo. Mais do que atravessar planos homogêneos que se correspondem, como em algum espiritismo europeu, eles conectam-se entre mundos heterogêneos, um multiverso onde não há categorias equivalentes. E assim eles ajudam também a curar quem se adoentou, a comunicar-se com espíritos, mortos, plantas e animais. Como a mata é um magma de relações, seu ambiente está tão emaranhado de socialidade, os xamãs precisam desenvolver um espírito de finura, a fim de distinguir, recortar, escandir, desdobrar, desenovelar. Daí que comer um inimigo seja uma operação tão complexa. Fazem tudo isso não com sofisticadas teorias, mas ritos e pragmáticas corporais, que é onde, afinal, se processa a transmigração. Que não é de alma, que está em tudo, mas do corpo. Então não existe isso de possessão espiritual entre indígenas, mas, sim, metamorfose corporal.
Para Eduardo, na perspectiva dos brancos, o simétrico do xamã não seriam as experiências “exóticas” ou “no limite”, digamos, do candomblé ou das comunidades de viciados ou de punk-roqueiros, como se poderia pensar no senso comum; mas os cientistas, os antropólogos, os juristas. Eu acrescentaria o revolucionário, aquele sonhador prático tal qual o xamã, capaz de transitar da impossibilidade ao acontecimento, fabulando outro território de relações sociais, outra cultura de resistência. Se, na selva capitalista, o estado aparece para a gente como onça, tentando capturar-nos em suas máquinas metafísicas de categorias e tabus, a revolução pode ser esse acordar da servidão voluntária, não lhe dar fé, essa recusa em participar dos termos da realidade normalizada. Sim, da onça a gente tem mais é que fugir, mas nada impede tente pegar uma arma na fuga.
Conclusões provisórias
O perspectivismo pode não servir pra tudo, mas serve pra muita coisa. Tem toda essa senda aberta pra problematizar natureza e cultura, humano e não-humano e assim sucessivamente, contra o monólogo autolaudatório do progresso e da modernidade. Mas também tem aí uma perspectiva da perspectiva que pensa e vive a alteridade de modo rico, riquíssimo. As naturezas em questão não são meramente mundos feitos, com leis prontas e limites bem delineados. São naturezas em constituição, naturezas naturantes, panteístas e panenteístas, em constante transformação. Para o multinaturalismo, vive-se uma realidade social superabundante, onde os corpos podem muito mais do que imaginava a nossa vã ciência. A Amazônia é uma selva cultural que precisamos trazer para nossos modelos de cidade, desenvolvimento e Brasil. Amazonizar outros Brasis. Trocar de roupa: sair dessa lógica de objetivar, dominar, desanim(iz)ar. É tirar a casaca de ferro do desenvolvimentismo produtivista. Não se trata de produzir coisas e culturas como riqueza objetiva, como produtos em si, mas sujeitos e naturezas como trans-humanização do cosmos, como processos sociais em incomensurável mutação.
Pretendo, mais adiante, refazer os últimos passos do Eduardo, com foco mais no reenvolvimentismo, nessa passagem dele da provocação à proposição. Como alternativa in progress ao modelo de desenvolvimento e de Brasil em que os governos brasileiros se aferraram. É dessa antropologia que, acredito eu, mais precisamos para saber ousar, para ajudar a articular lutas e aproximar interlocutores. Sem nenhuma idéia de vanguarda, de comandar: simplesmente compartilhar e circular conceitos abertos. Não se pode ter pudor de deixar os sentidos políticos extravasarem, ainda que seja uma algazarra de demônios ao meio-dia.
É preciso mesmo uma antropologia que vá ao coração de nossas sociedades complexas. No Brasil de 2011, acho que um sujeito a ser perspectivado é a dita “classe C”. Hoje, tomada como objeto da publicidade, geografia, sociologia, das antropologias assimétricas. Isto significa analisar o processo de transformações que a sociedade passa, bem como o paradoxo da pobreza, potência e carência concomitantes, analisar tudo isso sob a espécie da nova antropologia. Concordo, ainda, que o perspectivismo ameríndio incida imediatamente nas lutas dos movimentos negros, feministas, LGBTTT, queer, imigrantes etc. Todos esses movimentos podem ser libertados de seus identitarismos pelos índios.
Por outro lado, em nota mais teórica, acredito haver inúmeras fagulhas incendiárias entre o perspectivismo ameríndio e um marxismo mais desprendido a partir dos Grundrisse. Entendo a luta pela reapropriação das condições da produção pelos produtores como uma reapropriação subjetiva, do que a perspectiva do capital tenta emplacar como condições objetivas. O capital converte as capacidades desejantes do homem em força de trabalho num processo de objetivação do valor. O excedente das relações e do desejo são aprisionados em mais-valor. Atacar essa lei do valor implica romper a dialética. Porque dialético é sempre o capital, que precisa das contradições tensionadas para manter o homem perto da onça. Quero dizer, prende a gente nas contradições mediante falsas oposições (logo, falsas semelhanças e comunhões), como se o trabalho precisasse do capital e não vice-versa. Todos os conceitos da economia política então se polarizam num antagonismo entre subjetividades, o que aparece embrionariamente em Lukács, mas sobretudo no Marx além de Marx, livro-sementeira de Negri, de 1979. É por aí também que opera o capitalismo cognitivo, colonizando subjetividades e vendendo naturezas. Nesse fio solto, já há primeiras tranças nos trabalhos citados de Giuseppe Cocco e dos pós-operaístas, usando a renovada gramática do comum.
———
Para ler mais:
Livros:
VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo (org. Renato Sztutman). Encontros. Eduardo Viveiros de Castro. Rio de Janeiro: Beco do Azougue, 2008. [entre(re)vistas]
_______________________.A Inconstância da Alma Selvagem e outros ensaios de antropologia. 1a ed. São Paulo: CosacNaif, 2002.
__________________________.Métaphysiques canibales. Lignes d´anthropologie post-structurale. Trad. Oinara Bonilla. Paris: Presses Uni., 2009.
COCCO, Giuseppe. Mundobraz. O devir-mundo do Brasil e o devir-Brasil do mundo. Rio de Janeiro: Record, 2009.
Artigos:
Os pronomes cosmológicos e o perspectivismo ameríndio, 1996
“Transformação” na antropologia, transformação da “antropologia”, na Sopro 58 (set 2011)
Desenvolvimento econômico e reenvolvimento cosmopolítico, na Sopro 51 (mai 2011)
Filiação intensiva e aliança demoníaca, 2007
Recomendo ainda, por Cléber Lambert à Revista Fórum:
Vídeo-conferência:
A morte como quase-acontecimento, 2009















