Publicado em 14 de outubro de 2014. Deixe seu pitaco.

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Não há nada a ser comemorado no apoio de Marina a Aécio no dia 10, seguindo o PSB e o PV de Eduardo Jorge. É realmente lamentável e as condições exigidas apenas amenizam o que é um grande erro. Tem gente soltando rojão na linha do “eu já sabia” ou “bem feito”, com um ar de satisfação íntima de quem parece estar acompanhando as intrigas da novela das oito. Não perdem uma oportunidade de espinafrar aqueles que elegeram como vilão preferencial. Pena que o “Aécio Never” não valeu para o 1º turno, porque Marina x Dilma teria comprometido o PSDB em larga escala, e transformado positivamente as coordenadas da disputa. Venceu a mesmice e o sentido à direita. “Aécio Never”, para vários, foi corolário do “Marina Never”. Se a contradição fundamental do sistema político brasileiro é entre PT e PSDB, isto é, a contradição entre dois projetos distintos de Brasil, por que essa contradição não se manifestou quando havia tantos cargos e mandatos em disputa? Quando teria sido possível usar a atenção que a eleição presidencial aufere para traçar, claramente, o mapa das forças políticas partidárias?

Ao invés disso, a máquina governista, com reforços a partir daí cinicamente elogiados (no dia seguinte ao pleito, voltarão a ser ridicularizados, pelo menos até daqui a 4 anos), bateu todos os dias na Marina, que não soube, não pôde, e não tinha como responder na mesma medida. As três coisas sucederam em distintas ocasiões: respondeu mal, não conseguiu responder, não tinha meios pra responder. Já para o PSDB, a eleição foi um domingo no parque. Não admiram, agora, as teorias conspiratórias sobre o diversionismo. Marina teria servido de boi de piranha para a tucanada passar incólume.

A realidade no entanto é mais irônica. O erro de avaliação aconteceu na campanha de Dilma, e também por aqueles que cerraram-lhe fileiras segundo a estratégia delineada por João Santana. O marqueteiro defendeu a tese ofensiva desde o momento em que, nas pesquisas, Marina passou Aécio, na época estabilizado em 15% das intenções de voto. Sob o comando de Santana, a eleição foi jogada como um videogame. O que importa é passar pra próxima fase e “zerar” o jogo. O problema disso não é, tanto, a desconsideração de alguma moral. É a desconsideração da própria política. Nada de avaliações ideológicas, de como pautar à esquerda, de como defender, afinal de contas, o que diferenciaria o projeto do PT em relação ao projeto antagônico, o que justificaria tantas alianças, recuos, estagnações, aparelhamentos. Onde esteve a tão invocada “esquerda do PT”, incapaz até de emplacar um painel programático? Quem hoje volta a jogar pedra na Marina, poderia se perguntar se uma aliança com o PSDB é pior do que uma aliança com o PMDB, a família Sarney, Cabral/Pezão, Jader Barbalho, Renan Calheiros, dos ruralistas assassinos, dos megaempresários erigidos a “campeões nacionais” pelo neodesenvolvimentismo dominante.

Outras avaliações podem ser feitas. Qual o efeito de uma campanha massiva em tom acusatório pessoal, de difusão do medo, de hostilização aberta, qual o efeito pode ter nas demais disputas em curso e no processo como um todo? Porque o medo é um afeto reativo que costuma mover o processo à direita, ao cevar instintos de autopreservação, reações patrimoniais (que tenho a perder?), pulsões identitárias (o que sou/não sou) e o sentimento gregário (familista, com todas suas neuroses).

O apoio de Marina a Aécio foi um erro, do ponto de vista de uma construção por fora da representação. Teria sido erro simétrico apoiar Dilma. E não há o que relativizar. Mas vale pôr em contexto. Marina poderia ter surpreendido com uma neutralidade enérgica. Essa sim seria uma surpresa. Porque não foi uma surpresa o alinhamento com uma das candidaturas, dado o que aconteceu no 1º turno. Tentamos, outros amigos e companheiros, em especial do suprapartidário Coletivo Biorana contrariá-lo. Você pode enfrentar preferencialmente um adversário, mas precisa ter em mente que seus eleitores continuam no jogo depois da “desconstrução”. E a maioria dos eleitores de Marina não quer ver Dilma nem tingida de verde e amarelo.

Até é possível argumentar que, em 2014 ,a diferença entre PT e PSDB é tão pequena que, sem Marina, a neutralidade deveria se impor. Ao que fui respondido, várias vezes: são iguais… MENOS uma campanha! Também não me desiludi com Marina por seguir o mesmo roteiro da “velha política” de negociar e escolher lado num binarismo esvaziado. Seria exigir que Marina seja algo que nem ela afirma ser. Porque Marina nunca, em nenhum pronunciamento, se colocou como a “nova política”. Eu mesmo fui pessoalmente ouvi-la falar em três ocasiões, no Rio de Janeiro. Nas três ocasiões, deixou claro ser “velha política”, que não deveríamos esperar nenhuma liderança messiânica, nenhum anúncio personificado do novo, mas apenas uma tentativa de induzir uma transição política. A palavra usada por Marina foi “interregno”, período entre reis, quando a maturação das forças democráticas da sociedade poderia transformar a representação, de modo que não precisássemos mais de alguém com carisma e experiência como ela.

Marina tinha plena consciência e deixava claro que, sem a emergência de um movimento desde a sociedade, de fora do sistema representativo, ela não era nada, não tinha como instrumentalizar nada, e seria capturada de volta pelo videogame. As manifestações de 2013-14 e a emergência mundial de novos sujeitos faziam nutrir o sonho de que talvez fosse possível competir institucionalmente de maneira inovadora. Essa hipótese não se verificou, mas não é absurda. Não foi à toa que essa hipótese foi desqualificada seja pela simples mentira a respeito do discurso de Marina (ela estaria se apresentando como messias da nova política redentora, o que é falso) seja através de uma desqualificação paralela das jornadas de junho, dos novos movimentos, e da tentativa de pensar e fazer política por fora da política da representação. Parte da fúria anti-Marina se deve, também, ao susto que essa hipótese significou, especialmente quando parecia possível uma candidatura majoritária nacional canalizá-la. Isto causou horror.

Equilibrada na corda bamba entre uma Rede incipiente e um PSB fragmentado, Marina sabia que sua única chance era contar com uma mobilização de baixo pra cima, na linha do “Yes we can” norte-americano. O que não aconteceu. O que foi um sonho não sonhado com a força real necessária. As redes de mobilização e organização não se formaram, e o impulso momentâneo arrefeceu, a seguir desgastado dos dois lados, diante de uma síntese impossível esboçada pela campanha hesitante de Marina. Hugo falava que o “extremismo de centro” e Silvio o pemedebismo prevaleceriam. O que se mostrou correto a posteriori. Mas a história se faz enquanto é feita, e se existe uma brecha, e uma hipótese/aposta merecedora do investimento da práxis, ela deve ser investida. E hoje vejo como era, sim, possível, mas que tal possibilidade necessariamente exigiria a chegada no 2º turno, quando poderia, pelo menos, ser ouvida. Marina não teve o direito sequer de ser ouvida. Impôs-se imediatamente o “nada a ver por aqui, para frente!”.

A derrota no 1º turno foi um balde de água fria em Marina, o que fechou qualquer brecha. Enregelada pelo fechamento induzido pelo ex-partido e pela esquerda de governo, depois do veto de 2013 ao registro da Rede, não admira que Marina tenha pra si que o PT, Dilma e Lula sejam seus inimigos declarados, que não hesitarão em mobilizar a máquina para estigmatizá-la e barrá-la. Quantas vezes for necessário. Talvez fosse muito esperar outra coisa, um gesto de grandeza agora (de que eu certamente não seria capaz), num otimismo da razão inteiramente incondizente com o cerco que ela sofreu pelas forças políticas. Marina teria, realmente, se destacado muito, tivesse seguido o exemplo de 2010, e afirmasse sem meias palavras um antagonismo ao sistema político, uma neutralidade enérgica. Não aconteceu. Perdeu-se assim ainda outra chance de escapar das dicotomias infernais, em direção ao que tudo parece inescapavelmente precipitar. Reforça-se a sensação de asfixia dessa eleição presidencial, reduzida a memes fáceis, condenações cômodas e análises previsíveis, sem inspiração, repetitivas, redundantes, interessadas somente em seus próprios umbigos identitários.

O ponto culminante desse fechamento possivelmente é o fato que, como quer que a eleição termine, será adotada a narrativa que as manifestações de 2013 propiciaram o avanço da direita. Se Dilma ganhar, os mesmos que desqualificaram as lutas como um caldo de coxinhas, despolitizados e vândalos, se colocarão como vencedores históricos, e comemorarão sobre os escombros deixados pela repressão e criminalização. Este “paradigma” será aprofundado, como afirma abertamente a campanha de Dilma. De falta de aviso, ninguém vai poder reclamar. Se Dilma perder, não tenho o menor resquício de dúvida que as manifestações de 2013 serão preferencialmente culpabilizadas (assim como, ré máxima, Marina).

Não é desejável que Dilma ganhe e confirme todos os esquematismos, adesões automáticas e certezas ideológicas, sem que ela tenha sequer esboçado uma virada à esquerda, sem que tenha afinal apresentado a diferença em relação ao PSDB, além de exibir grandes números e indicadores, como se investida exclusivamente da missão messiânica de ajudar os pobres. Por outro lado, também não é desejável que Aécio ganhe (toc toc toc na madeira), o que além de todas alianças e acordos conservadores e retrógrados, também será confirmar os esquematismos. E não esqueçamos nunca que um Aécio tão forte no segundo turno é um produto indesejado das ações conscientes e avaliações estratégicas. A vitória de Aécio também será um mérito da campanha de Dilma.

Que mais posso dizer? PT e PSDB têm diferenças mas não são forças independentes, não existiriam com a força que têm, se não existisse a contraparte. Existe um processo dialético da representação em que PT e PSDB estão enxertados, um se alimenta do medo do outro, e com uma definição negativa compensam o vazio da representação sobre o que se equilibram em primeiro lugar. Em suma, um se identifica como o não-outro, e assim eles repetem o idêntico do problema que disputam. Aécio foi escolhido para facilitar a transferência de votos, graças a instintos maturados por duas décadas de polarização. Dilma supôs que Aécio seria mais fraco, deixado para ser combatido no segundo turno. Foi uma escolha deliberada e (in)consequente. Então que faça bom proveito. Outras brechas porventura se abrirão, para quem acredita que seja possível construir novas instituições e, porque não, uma nova política.

O sol não vai deixar de nascer no dia 27 e as lutas continuarão, de um jeito ou de outro. Isso me basta, e daí recomeço.

Publicado em 13 de outubro de 2014. Deixe seu pitaco.

LPDFoto: Kátja Schilirò

Em 17/12/2013, a Aldeia Maracanã foi despejada do antigo Museu do Índio, um prédio histórico do lado do estádio homônimo. Durante a remoção violenta pela PM, José Urutau Guajajara subiu numa árvore e ali resistiu por 26 horas. A remoção se somou à série de remoções violentas realizadas pelo governo, no processo de higienização urbana e “choque de ordem”, voltado aos megaeventos da Copa e das Olimpíadas. O desmantelamento da Aldeia também se explica pelo refluxo repressivo que se seguiu às jornadas de junho-outubro no Rio de Janeiro.

A ocupação da Aldeia Maracanã foi um desses eventos que, pequenos em escala, tiveram um impacto enorme como qualificação das lutas. Ocupada em 2006 por indígenas de várias tribos, nela aconteciam ritos, cantorias, encontros militantes e um centro de acolhimento para indígenas em trânsito. Além de várias moradias, funcionava uma oca e um pequeno comércio de artesanato.

Com a ameaça de remoção, a partir de 2012, a Aldeia mobilizou a cena ativista carioca e reuniu grupos heterogêneos, desde ambientalistas a anarcopunks, passando por participantes do ciclo de ocupas (2011-12). Um acampamento paralelo se amalgamou à ocupação indígena, além de reforços  vindos de tribos de outras regiões: mundukurus, caiapós, pataxós, tucanos, arauetês etc. O fortalecimento da resistência, simbolizado no hall pelo fogo que nunca apaga, sustentou a ocupação até março de 2013, quando ocorreu a primeira remoção violenta, depois de várias escaramuças e ataques diversionistas. Na resistência, vale lembrar, juntaram-se alguns operários que trabalhavam na obra vizinha de reforma do estádio, que foram prontamente despedidos.

Depois da primeira remoção da Aldeia, as moradias e ocas foram demolidas e a área útil reduzida pela metade. Vários indígenas foram “realocados” numa área sem infraestrutura no bairro distante de Jacarepaguá. O prédio remanescente foi cercado pela polícia. Só não foi demolido porque o instituto estadual do patrimônio histórico tombou-o. Construído em 1862 pelo Duque de Saxe, o prédio tem o triplo da idade do próprio estádio.

Reocupada em agosto de 2013, numa correlação de forças mais favorável graças às jornadas, a Aldeia voltou a se tornar um centro de encontros indigenistas e militantes em geral. Foram realizadas várias reuniões de avaliação dos movimentos, bem como atividades artísticas, aulas de tupi e rituais religiosos. Mas a maré virou novamente contra os ocupantes e, em dezembro do mesmo ano, aconteceu a segunda remoção violenta, depois de uma tentativa malfadada de retomar parte do terreno perdido no primeiro despejo.

Vários indígenas e movimentos do Rio de Janeiro reivindicam a retomada da Aldeia Maracanã para uma gestão autônoma e comum. Uma das propostas é transformar o prédio numa Universidade Indígena, um sonho dos indígenas, compartilhado por Darcy Ribeiro, que teve passagem pelo lugar na época em que ali funcionava o Museu do Índio (1953-77).

A maraca ou maracá é um tipo de chocalho, com sementes secas e uma pega, agitadas geralmente em par, ou então rodadas lentamente. Hans Staden, em “Duas viagens ao Brasil” (1557), já descrevia como os índios usavam as maracas nos rituais sociais. Durante toda a ocupação da Aldeia, assim como nas muitas marchas, protestos e ocupações de que os indígenas participaram, a maraca esteve presente, nas danças de luta e de alegria de uma geração que decidiu lutar.

Publicado em 11 de outubro de 2014. Deixe seu pitaco.

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Guy Debord explicou a sociedade de espetáculo como o processo final da alienação totalitária do trabalho humano no mundo objetivo da mercadoria. George Orwell traçou o perfil de uma distopia coletivista regrada pela vigilância absoluta. Mas ao carrossel de imagens do primeiro e às teletelas do segundo, William Burroughs inclui o corpo e a biologia na descrição do controle social. Para ele, a existência supermidiatizada no capitalismo tardio corresponde à experiência extracorpórea.

Para Debord, as eleições seriam o espetáculo da superestrutura que se torna, prescindindo de infraestrutura, a própria matéria dos interesses da política. A política se confunde com a imagem, e nada mais passa a existir por trás de sua superfície furta-cor. A resistência é impossível, pois na sociedade do espetáculo toda ação produtiva conspira por sua falsificação rigorosa, que se torna abstração real. É indiferente o Facebook.

Para Orwell, as eleições seriam uma farsa planejada para enganar e domesticar os cidadãos, para deixá-los felizes com a tirania. As eleições são o momento máximo da mentira, quando o grau de hipocrisia se torna insuportável. A resistência vai à clandestinidade, de onde vanguardas desencadearão guerrilhas. É preciso sair do Facebook.

Para Burroughs, as eleições são um transe mórbido. A droga eleitoral carrega a pessoa a paisagens amplas e complexas, mas a percepção mais cuidadosa logo identificará loopings, rotinas mesmerizantes e memes. Sente-se veloz, mas na realidade está correndo em autorama. A liberdade é prometida, mas se está policiado no difuso, pela Nova Polícia do opinionato. O partido é substituído por uma nuvem de almas desencarnadas. O Facebook acelera a agregação espiritual de alucinações e delírios, ou como diria o escritor, o Ugly Spirit. Mas não se deve sair do Facebook e das eleições para a vida. A vida real, afinal de contas, também é um sonho sonhado por terceiros no qual decidimos intervir.

Para Debord, é inútil resistir, resta um niilismo comprazido ou um pessimismo angustiado. Para Orwell, a resistência é útil, mas para o Déspota, pois ele próprio a engendrou para confirmar a dominação total. Para Burroughs, a resistência ainda é possível e sobretudo desejável, apesar das eleições, apesar do Facebook.

Publicado em 8 de outubro de 2014. Deixe seu pitaco.

DIlmécio

O Brasil entrou numa espécie de transe à véspera da eleição. Uma disputa que desceu ao nível dos instintos e dos reflexos automáticos, entre dois grupos que cultuam divindades antagônicas. Um e outro se colocam como antítese entre si, diante do que se é convocado a aderir como salvação. Os termos são definitivos e incontornáveis. Ambos os templos multiplicam variações sentenciosas da máxima de Luís 15. Après moi le déluge. Depois de mim o dilúvio.

De um lado, a cruzada dos sábios justos contra a corrupção dos ignorantes. O desejo de mudança traído como marcha cívica pela pátria livre, protagonizada pelo trabalhador honesto que dá duro todos os dias e se reserva o direito de exigir que os políticos não roubem. Para esses, as manifestações de 2013 sintetizaram o basta de uma geração ao projeto de poder de uma casta de usurpadores e sanguessugas. É o Brasil do Bem. Embora essa avaliação esteja usurpando o sentido das manifestações, que lutavam em nome próprio por direitos e qualidade de vida. Seus sacerdotes pregam a causa da modernização contra os impulsos estatólatras e as mistificações ideologizantes. O recente sucesso eleitoral aparece miraculado como confirmação de sua missão civilizatória nas terras bárbaras que prometem varrer de arcaísmos, à imagem do estado de São Paulo, alfa e ômega de tudo de bom que aconteceria no Brasil.

Do outro lado, a cruzada dos defensores dos pobres contra os ricos. O desejo de mudança negado como protesto pequeno-burguês manipulado pela direita golpista. Para esses, um vasto movimento de democratização lamentavelmente foi abalado pelas manifestações de 2013, quando saiu das sombras um país antissocial, outrofóbico, despolitizado, cúmplice tradicional da opressão e da exploração, e que fora bisonhamente subestimado. É o Brasil Coxinha. Com a dubiedade de quem se engaja na causa popular ao mesmo tempo que mantém as avaliações conservadoras, seus sacerdotes falam em nome dos pobres, como se aqueles dependessem de suas divindades e sacerdotes para agir e lutar em nome próprio. O recente fracasso eleitoral é atribuído às massas fascistas (pobre população…), à ética do trabalho de São Paulo (pobre trabalhador paulista…) e até às manifestações.

Os mais céticos recorrem ao Lênin da NEP: é preciso dar um passo atrás para dar dois adiante. Do lado de lá, o passo atrás é admitir como mal menor a vitória momentânea de Aécio, para limpar o terreno para que outras forças melhores posteriormente possam ocupar as ruínas deixadas pelo PT. Do lado de cá, o passo atrás é admitir como mal menor a vitória momentânea de Dilma, para preservar as conquistas sociais e instigar a esquerda do PT a reconstruir-se a partir dos escombros que sobraram das forças progressistas.

De mal menor em mal menor, é perpetuada a dialética do pior com o que os templos se alimentam de fiéis. A julgar pela pregação apocalíptica dos púlpitos, como quer que votemos, no dia 27 de outubro as compor­tas do céu vão se abrir e a chuva cairá sobre a terra por 40 dias e 40 noites. O Brasil tão tomado pela lama que o conselho de Lênin terá sido inútil. Não mais possível andar pra frente nem pra trás. Prosperará o caranguejo.

 


Dedicado a Augusto Botelho.

Publicado em 3 de outubro de 2014. Deixe seu pitaco.

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Dilma vencer a eleição no 1º turno ou Dilma x Aécio no 2º é o fim da eleição do mesmo jeito. É a confirmação do idêntico. Uma polarização que repete o mesmo imaginário neodesenvolvimentista x neoliberal, inspirando as mesmas certezas ideológicas, adesões automáticas e esquematismos. É a repetição matemática do mesmo discurso e da mesma ausência de propostas do embate entre PT e PSDB, de 2010.

A julgar pelas campanhas, para Dilma e Aécio os últimos quatro anos simplesmente não aconteceram. Para eles, as jornadas de junho não aconteceram como evento político e repolarizador da sociedade. Seria a vitória da narrativa governista: junho de 2013 foi um espasmo golpista, manipulado pela direita, agora derrotado nas urnas pelo povo brasileiro, uma vez esclarecido da “política da verdade” pela filósofa catedrática e sua entourage, pela claque de blogueiros progressistas e bots nas redes, e por João Santana. Nessa pasmaceira, continuo a me espantar com a quantidade de apoiadores e ativistas que defendem Dilma em nome da “unidade da esquerda” sem que a presidenta oferte sequer um aceno para uma mudança de rumos.

Cambaleante sobre a corda amarrada entre Rede e PSB, a improvisada campanha de Marina cometeu erros óbvios e enfrenta um exército que convoca um milhão de soldados todas as manhãs com informes de SMS dos memes, hashtags e slogans do dia. Marina está cansada e rouca (também pudera!), mas viva. Contra os esquematismos e adesões automáticas, e pela possibilidade de um segundo turno menos estéril, minimamente politizado e positivamente imprevisível, no domingo votarei nela. Só tá morto quem não peleia.

Publicado em 27 de setembro de 2014. Deixe seu pitaco.

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Com a morte de Campos, Marina assumiu a campanha em 20/8. De imediato, meteorizou nas pesquisas, chegando a ameaçar a liderança de Dilma no primeiro turno. Uma semana depois, em 28/8, escrevi sobre o fenômeno Marina usando a imagem da nuvem. O desejo de mudança manifestado nos protestos de 2013 nublou a candidatura de Marina. Indecisos, votos brancos e nulos magnetizaram nela, quebrando a polarização PT x PSDB, com fundo pemedebista, que há 20 anos monopoliza a eleição para presidente.

Quando me referi ao apoio à Marina como fenômeno gasoso tentei ser rigoroso com o regime de funcionamento e a natureza desse processo. Os fluidos não têm uma potência menor por se encontrarem em estado gasoso, como sabem meteorologistas e geólogos que estudam tempestades, vulcões ou gêiseres. As jornadas de junho de 2013, por exemplo, podem ser explicadas como o vazamento de gases a alta pressão. As placas tectônicas se mexeram e os abalos sísmicos podem ser sentidos até hoje, no período eleitoral. Estremecem as velhas dicotomias, as certezas ideológicas e as adesões automáticas.

Em 28/8, eu também diagnosticava o que, penso até hoje, é a maior lacuna da campanha de Marina. Faltam-lhe redes de organização, uma tecnopolítica de base que seja capaz de inovar na campanha não só em termos de conteúdos, como também na forma de fazê-la. Tenho em mente a capacidade de uma campanha de driblar os esquemões convencionais de estrutura eleitoral, seus financiamentos, militâncias orgânicas e marqueteiros no comando. Algo como o novo partido espanhol, o Podemos fez naquele país com as candidaturas suprapartidárias e o antagonismo declarado contra o antigo regime, isto é, a polarização PSOE-PP, com fundo monárquico. Ou então, uma campanha molecular, “de baixo pra cima”, como aquela disparada na eleição de Obama em 2008 com o slogan “Yes We Can” (Sim, nós podemos).

“Podemos”, de fato, é um slogan consistente com o empoderamento generalizado de uma nova classe no Brasil. Reduzida à “nova classe média” em estudos sociológicos, tabelas econômicas ou na publicidade do governo, essa nova classe contém em sua composição novas redes de organização, comunicação e solidariedade. Apesar disso, analistas ortodoxos de esquerda, economicistas ou sociologistas, reduzem-na à amorfa massa de consumidores e arrivistas, perfeitamente acomodados ao desenvolvimento capitalista. Essa velha esquerda se alinha à velha política no discurso de desqualificação da nova política que o levante de junho foi apenas a ponta do iceberg. Não por acaso, os mesmos analistas, sites e blogues que fizeram de tudo para desqualificar as manifestações como despolitização e golpismo, agora voltem o fogo de barragem contra a candidatura de Marina. O mecanismo de estigmatização é similar, e são idênticos os adjetivos carregados e o tom de escândalo que os acompanha.

Em 2008, nos EUA, Obama falou em mudança e o adversário, John McCain, passou a campanha inteira menosprezando-a como possibilidade. Obama não significaria mudança alguma. Pelo contrário, Obama projetaria uma sombra ameaçadora sobre os interesses do cidadão americano. McCain tentou colar em Obama preconceitos que já existiam, em relação à sua origem e trajetória política. O esforço de montagem tenta aproveitar das pulsões conservadoras já existentes no seio da sociedade. A campanha republicana, no entanto, falhou. Uma mobilização molecular, desde as bases, afirmou com ainda mais força o “Yes We Can” e contagiou o país. A onda foi invencível e Obama terminou eleito, tornando-se o primeiro presidente negro dos Estados Unidos.

A subida de Marina no fim de agosto despertou o instinto de sobrevivência de quem, de um modo ou de outro, ainda que unicamente emocional, se considera vinculado ao governo Dilma, ao PT ou mesmo à “esquerda do PT”, cada vez mais inefável. Para muitos, a possibilidade real de perder não só o governo, como também o chão existencial, foi vivida como uma experiência traumática. Prefeririam talvez perder a eleição para o PSDB, o que pelo menos reconfortaria do esquema identitário. A velha esquerda tem horror ao novo que não nasce de si própria. Seguiu-se a instauração de um estado policial nas redes, com a correspondente vigilância e corretivo ideológico contra qualquer um que ousasse pensar diferente do consenso. Tal campanha reativa foi bem sucedida, ao menos, em forjar certo bom tom e acuar vários marinistas cujo apoio se tornou tímido ou velado. Jogar pedra em Marina virou um performativo, uma declaração de pertencimento à esquerda e reconforto moral. Percebendo o refluxo da onda, a campanha governista tratou de pintar-se de vermelho e passou a liderar uma coalizão de esquerda contra as hordas neoliberais, neofundamentalistas e imperialistas à rampa do Planalto. Não adianta bravatear “uma ova!” ao fato que o governismo agradece as linhas auxiliares de última hora e grátis.

A campanha de Dilma se pautou pelo medo. Medo de quem a coordenou e realizou pelas redes, revistas e propagandas, diante da possibilidade de perder o chão. Medo a instilar-se nos destinatários, que têm sido insistentemente alertados sobre o apocalipse da eleição de Marina. De acordo com a campanha governista, a eleição de Marina significaria o fim do bolsa família e do estado laico, a privatização da Petrobrás e a renúncia ao Pré-Sal, a entrega da economia nacional aos bancos e a revogação dos direitos trabalhistas. Com os ricos e a velha classe média, cravou-se o espantalho do fundamentalismo, jogando com o preconceito de origem e contra evangélico. Com os pobres, a ameaça do fim dos programas sociais. Não votem nela ou a comida desaparecerá do prato de vocês, segundo a versão petista do reginaduartismo.

O PT acusa Marina de ser segunda via do PSDB, enquanto o PSDB faz o discurso contrário, Marina seria a segunda via do PT. Em ambos os casos, a polarização PT-PSDB é reiterada como sujeito transcendental da política brasileira. As manifestações de 2013, para um e outro, simplesmente não aconteceram como evento politizador e repolarizador. A campanha de Aécio resolveu reconquistar votos dizendo que Dilma e Marina se fundem num petismo usurpador, o que engrossou a rejeição à última motivada pelo sentimento antipetista. Marina, afinal de contas, é mais petista do que Dilma, em termos de formação e militância, e não por acaso adorada pelas alas mais jovens e arejadas do partido nos anos 2000. Estranhamente, quem alardeia isso é o PSDB, enquanto os petistas preferem queimar a apóstata.

O medo não pode explicar, por si só, a estagnação do fenômeno Marina. Por mais superdimensionada que seja a campanha dilmista, com mais recursos, tempo, expertise eleitoral e máquinas de governo, ainda tem suas limitações. Se por tantos anos o PT se afastou das bases sociais e se colocou no lado oposto dos movimentos, como conseguiria, em 2 meses, reatar milagrosamente a relação? O voto do medo foca na rejeição, mas não é capaz de impactar construtivamente. Continua sendo uma campanha baseada em grandes conjuntos estatísticos, numa coordenação “por cima”, encabeçada por João Santana. Uma campanha molar, que convoca os militantes e apoiadores como um general convoca um exército.

A única maneira de contrapor-se a uma campanha do medo, essa campanha paranoica pela conservação, é abonar a mudança e enfrentar todos os lugares comuns e argumentos de desqualificação. O que exige uma boa dose de ousadia e assume riscos significativos. Uma campanha improvisada, com 46 dias entre o anúncio e o primeiro turno, não tem como acumular redes de formulação, auto-organização e mídias alternativas para criar um Podemos ou um “Yes We Can” marinistas. O acúmulo de Marina em termos organizativos está truncado no impasse entre a Rede Sustentabilidade e o PSB, precariamente unidos ao redor dela. Fora disso, só existe a nuvem, o fenômeno em estado gasoso de que eu falava em 28/8.

Não adianta nada ter um bom programa, se não existirem redes e mídias organizadas para bancá-lo e defendê-lo. Qualquer um que passou pelo movimento estudantil sabe como apresentar 240 páginas sem estrutura para defendê-las é entregar um prato cheio para os adversários fazerem a festa com factoides políticos, hipérboles e teorias conspiratórias. O programa tem boas passagens sobre mobilidade urbana, energia, meio ambiente, política indígena, não-criminalização de movimentos e ativistas, além de propor um diálogo com as manifestações de 2013, a emergência de novos sujeitos e a regularização de ocupações urbanas. Ele é retraído, contudo, nos direitos LGBT, e tem passagens ruins na agenda econômica. Mas nada que desse a menor consistência à campanha de medo que se seguiu.

A campanha de Marina reagiu mal à ofensiva dilmista e aecista. Assumiu uma estratégia defensiva, e assim terminou pautada pelos adversários. O poder de pautar, como disse o Moysés Pinto Neto em texto recente, é decisivo. Marina se limitou a pedir fair play e acusar as mentiras, enquanto Dilma e Aécio partiram para golpes abaixo da linha da cintura desde o primeiro round. Marina, sem redes difusas de autodefesa, sem capilaridade, não dá pra responder à altura.

A campanha do medo não é capaz, apesar de eficiente até certo ponto, de dissolver completamente a nuvem de subjetividades. Isso seria admitir um postulado hobbesiano: quanto mais medo, melhor para o soberano, numa equação linear que vários governistas assumem. É mais do que isso. O medo não é solvente universal dos afetos porque a fração principal do fenômeno Marina é constituído pela classe sem nome (também conhecida, em chave objetivante, como nova classe trabalhadora, batalhadores, nova classe média, Classe C etc). São milhões de pessoas que não atribuem os direitos ao PT, como se o partido fosse dono das conquistas sociais. Atribuem a si próprios, ao empoderamento desdobrado por dentro do aumento de renda e consumo, do crédito e do maior acesso.

Apesar disso, sutilmente elitista, subsiste a boa consciência de esquerda para quem o governo Dilma é “melhor pros pobres”. Adotando uma gramática varguista, esse esquema mental passa por cima de 80 anos de transformações de classe, nivelando o Brasil descrito por um Caio Prado Júnior com o Brasil pós-modernizado de 2014. É um trabalhismo regressivo inclusive em relação aos novos sindicalismos, da época da fundação do PT. Tamanha desqualificação do fator subjetivo da nova classe, do aspecto de potência na pobreza, já apareceu durante as manifestações de junho, os rolezinhos, a emergência de sujeitos sociais, grupos autônomos e mobilizações descoladas por assim dizer do “processo do PT” — todos desacreditados como alienados, despolitizados, massa de manobra da direita ou voluntaristas sem visão estratégica.

É a essa nova classe que a campanha de Marina poderia apelar. Para escapar em diagonal, tanto do discurso elitista-paternalista, que romantiza o pobre enquanto desqualifica e condena sua voz e auto-organização, quanto do discurso moralizante ao gosto do PSDB, para quem bastaria varrer o governo dos ineficientes e renovar a gerência do país. A concepção de direito da nova classe se aproxima mais do “Podemos” ou do “Yes We Can”: uma concepção de potência, de ser capaz de exigir, defender e se organizar para assegurar os direitos autonomamente, sem depender do déspota paranoico e seus burocratas perversos. Uma concepção que é antes Spinoza (querer-poder-agir) do que Hobbes (temer-poder-depender); antes Eder Sader (multidão), do que Emir Sader (povo). Mas se a campanha de Dilma convoca o povo do “nacional-popular” e sua militância, a campanha de Marina pode chamar outro povo. Um povo que falta, porque não aceita ser totalizado nos esquemas e cálculos “por cima”: a nova classe sem nome.

A mim, parece nítido como Marina precisa parar de se preocupar em defender-se. Não há nada a defender-se. Nem o programa! A campanha só vai sair dos impasses e sinucas inovando os termos da disputa. Com ousadia e aposta. É a única chance de tentar, no segundo turno, levar à capilarização de uma campanha molecular, no olho a olho, no boca a boca. A campanha de Dilma ocupou o grande espaço de atenção a seu dispor para promover o medo e propagandear a continuação do que já está, enquanto Aécio ocupou o campo do sentimento antipetista. Marina pode ocupar, portanto, o campo da afirmação construtiva aberta e sem rodeios. Uma campanha assertiva para contrapautar a eleição.

Em vez de defender-se que não vai acabar com o bolsa família, asseverar que vai radicalizá-lo com a renda mínima universal. Eduardo Suplicy, cotado num eventual ministério de Marina, já tem acúmulo a esse respeito. Em vez de tergiversar sobre o tema ambiental, afirmar claramente que vai qualificar o desenvolvimento com a ecologia, o indigenismo e outras concepções de valor, à semelhança da experiência sul-americana do “vivir bien”. Afirmar-se mulher negra com todas as letras. Não ter medo de criticar o Pré-Sal, nem da chantagem referente à Petrobrás, deixando claro como a privatização *já está* acontecendo e a direita industrial e agroindustrial *já está* no poder. Afirmar sem meias verdades, também, que não existe contradição entre ser evangélico e apoiar os direitos LGBTT e a legalização do aborto. Nem entre uma linha econômica menos estatista, como aquela do governo Lula com Henrique Meirelles e Palocci, e a radicalização das políticas sociais, que são boas, baratas e que entram em ciclo virtuoso com o empoderamento dos pobres. E comprar a briga, também, ao redor das manifestações de 2013, frisando o diálogo proposto e rechaçando as tentativas governistas de reduzi-las a “coxinhas”, despolitizados ou de criminalizá-las ao redor da demonização dos “black blocs”.

O espaço político que citei acima está à disposição para ser ocupado por Marina. A nuvem de subjetividade paira sobre a sua candidatura, provavelmente, vai aderir e, quem sabe, até mesmo vibrar com a asseveração dessas pautas. A campanha do medo encadeia paixões tristes e paralisa pelo tédio e a ansiedade, mas uma campanha que pega no nível molecular desperta forças gigantes que as estruturas não conseguirão domar. Ao exército do PT e os mercenários do PSDB, resta à Marina apostar na guerrilha, o que começa pelos imaginários e a imaginação que a mobilizem. A fraqueza consiste em manter-se numa vaga união dos contrários, o que causa erosão da candidatura dos dois lados, vacilantemente defensiva. “Divina e maravilhosa”, por outro lado, é a energia da disjunção de afirmar os dois polos e conseguir que funcionem juntos, gerando algo novo. Ainda que quem esteja no status quo e mesmo a velha esquerda tenham horror ao novo. Afirmar a nova política que já está, sem necessidade de lideranças messiânicas, apenas de abertura institucional e políticas em ressonância aos processos da multidão.

Mais do que wishful thinking individual, coloquei aqui uma leitura da conjuntura, quando as forças do pemedebismo começam a desidratar qualquer chance de um debate político. Posso estar errado, e é importante sublinhar esta obviedade, quando do outro lado só vejo prepotência de quem acredita ter entendido absolutamente o que está em jogo. Mas estou errando melhor do que aqueles que, por dogma ou atraso, homologam a ordem posta na continuação dos mesmos esquemas. O medo propulsiona as três principais candidaturas ainda mais à direita, mais ou menos o que aconteceu no segundo turno de 2010. Não virão ousadias de Dilma/PT ou Aécio/PSDB, que esperneiam para se manterem, respectivamente, como primeira e segunda força eleitoral no país.

Para Marina reafirmar-se não a terceira, mas a segunda via à velha polarização, só de um jeito: perdendo qualquer receio de afirmar-se sonhática. Um sonho sonhado por muitos, sem ainda síntese clara em 2014. Sim, podemos sonhar e mudar, e não precisamos ter medo disso.

Publicado em 26 de setembro de 2014. Deixe seu pitaco.

Charles PierceCharles Sanders Pierce (1839-1914)

Duas acusações recorrentes em período eleitoral: ou você é ingênuo e iludido; ou é interesseiro e cínico. Ou você não vê; ou vê e finge não ver. No primeiro caso, se é acusado de pureza demais, por não ver a maldade atrás das aparências; no segundo, acusado do ardil de agir por trás das aparências. Ambas as acusações convergem para uma dupla cobrança: é preciso ser puro para optar desinteressadamente e, ao mesmo tempo, é preciso ser impuro para não servir de idiota útil aos interesses de terceiros.

Um “double bind” que atinge as raias da neurose: em qualquer caso você será cobrado, acusado e julgado. A democracia está bloqueada. Porque uma e outra acusação partem do pressuposto que o mundo que o outro não vê ou finge não ver é o meu mundo. O meu mundo é absolutizado e convertido na medida e tribunal do outro. Superar este motor de acusações, contudo, não significa aderir ao relativismo de que todos matenham crenças equivalentes e equidistantes — o que é falso. Não se trata aqui de nenhum apelo dialógico inócuo.

Não é isso. No fundo, é bem mais singelo. Basta simplesmente admitir que o outro age com base no que vê. Estranho seria considerar que o outro age com base no que não vê, enquanto nós, iluminados, seríamos diferentes. Sem atribuir intenções ocultas ou ingenuidades, déficits de realidade, como se houvesse uma realidade absoluta cujas regras gerais nos foram reveladas. Porque se o outro age com base no que vê, sua ação embute a percepção que ele tem, e como a ação tem efeitos reais, ela gera uma realidade. O que o outro vê *realiza* um mundo.

Eis aí um pressuposto fundamental do que filósofos americanos do final do século 19, como Charles S. Pierce ou William James, chamariam de pragmatismo, com profundas repercussões éticas e políticas.

É antidemocrático atribuir intenções ocultas ou déficits de conhecimento aos interlocutores, mesmo que discordemos completamente deles. Sem nenhuma razão moral. É antidemocrático porque impede o choque de mundos, a possibilidade de colocar os problemas da ação em disputa, de abrir dissensos que vão além de acusações morais, déficits de conhecimento ou da lógica de interesses. É preciso assumir o mundo do outro para dissentir dele, o que é sempre um problema da ação mais do que da crença, e que determina não um julgamento, mas uma disputa real de práticas.

Publicado em 22 de setembro de 2014. Deixe seu pitaco.

Acara

Estava demorando. Fui chamado de “esquerda festiva” por apoiar Marina. Por me colocar ao lado de “liberais pós-esquerda” como Gil ou Caetano.

 

Gostaria de responder com algumas considerações sobre a atualidade do tropicalismo:

 

Acolho a expressão com o maior prazer. Sou de fato uma pessoa que se percebe à esquerda e se percebe festiva.

 

“Esquerda festiva” foi uma pecha atribuída pela esquerda nacionalista dos anos 1960 aos tropicalistas (Gil, Caetano, Oiticica, Gal, Sganzerla, Zé Celso, Tom Zé). Embutia a acusação de irresponsabilidade política, voluntarismo, exibicionismo individualista, de convidar ao desbunde e à ego-trip em meio à barbárie da ditadura. A Tropicália era acusada de esfumar a luta de classe numa pós-história antecipada, compactuando com o mercado mundial e as indústrias culturais do imperialismo ianque.

 

No cenário pós-golpe de 64, a esquerda brasileira passava por um processo de repensamento de métodos, conceitos e referências, o que se exprimiu intensamente no cinema, na música, nas artes plásticas e no teatro. Tal situação de impasse agônico foi bem exprimida por Glauber em Terra em transe (1967), filme de crítica feroz às certezas ideológicas e ao modelo de militância de uma geração, alegorizando o desconjuntamento nacional de que os velhos esquemas não tinham como dar conta.

 

A Tropicália responde à dolorosa provocação glauberiana com um gesto deliberadamente profanador. Profanam-se as totalizações teleológicas do progresso em direção ao “Brasil do futuro”, bem como as adesões automáticas às dicotomias entre popular/erudito, massas/intelectual, primeiro/terceiro mundo, estado/mercado, entre outras. Profana-se, além disso, certo esquerdismo antiamericano que, — desbordando da correta crítica do envolvimento do governo daquele país na ditadura, — enxergava signos de dominação cultural em qualquer coisa associada aos EUA: da guitarra elétrica à Coca Cola, dos beatniks ao cinema de um Hitchcock ou Nicholas Ray (embora esse mesmo nacionalismo não via tantos problemas num afrancesamento esclarecido).

 

Ao contrário de leituras apressadas, contudo, o tropicalismo NÃO foi uma ruptura com a esquerda e não se desapegou totalmente do nacional-popular. O próprio Caetano, talvez a figura mais ambígua a esse respeito, não cansa de reconhecer as filiações com Dorival Caymmi e João Gilberto, nem de reiterar seu compromisso com a luta contra a desigualdade, a miséria e a dominação de classe. Se Terra em transe mergulha a discussão das resistências numa atoleiro de aporias, o tropicalismo anuncia novas possibilidades.

 

Em vez daquelas cartilhas de conscientização de massas, da ortodoxia do progresso econômico e da militância-partidão, se sondam energias libertadoras noutros lugares (no consumo, no pop, na favela, na africanidade, no entretenimento, na sexualidade, na antropologia, no misticismo): em suma, num “popular” renovado, doravante reencontrado em meio à massificação do consumo e a geleia geral do kitsch, a seguir exprimido num caldeamento estético e político de ícones e signos. Em vez do anti-imperialismo banal, a antropofagia, a remixagem, a globalização como potência. Em vez de negar o mercado, reconstruir uma mitologia dos mass media, na linha de um Andy Warhol ou Godard.

 

Noutras palavras, o tropicalismo foi um gesto afirmativo de renovação, tanto da esquerda quanto do conceito de povo, do “nacional-popular”. Propôs-se a orientar um movimento afinado com as transformações por que passavam o Brasil e o mundo. Sim, porque o tropicalismo desde o início se viu como novo e como movimento. Os tropicalistas em geral não se desobrigaram dos desafios, — como sugeriu Roberto Schwarz recentemente a respeito de Verdade tropical, autobiografia de formação por Caetano, numa resenha em que o uspiano mal consegue disfarçar o fascínio, embora não deixe de prestar contas às bancadas veteromarxistas nalguns parágrafos. Mas a Tropicália não era alienação histórica nem desobrigação ética: era antes a construção de uma inocência, no sentido positivo que Nietzsche lhe atribui. Reduzi-la à esquerda festiva e vira-casaca denota, precisamente, o quão pertinente esse movimento era, num período-chave de rediscussão de rumos da esquerda.

 

Hoje, quase 50 anos depois da Tropicália, só posso sorrir comigo mesmo quando, ao apoiar Marina, sou chamado de esquerda festiva. Porque do outro lado vejo uma campanha túrgida que caricaturiza a luta de classe, com uma candidata que prefere engenheiros a advogados, que desmerece aulas de filosofia ou sociologia, e que sonha o sonho dos nacional-crescimentistas, com certa ideia de progresso e de povo, sempre e sempre compulsiva por indicadores econômicos e tabelas estatísticas. Enxergo um governo que desmontou as políticas do “do-in antropológico”, como os Pontos de Cultura, do Ministério da Cultura com Gilberto Gil (2003-08), desmontado a partir da gestão de Ana de Hollanda. De uma candidata em cujo recente comício, no Rio de Janeiro, apresentou à plateia (rigorosamente isso: “plateia”) de artistas e intelectuais uma visão de cultura com pouca sensibilidade: vamos pegar os bilhões do Pré-Sal, plantá-los na cultura e depois colher o crescimento do PIB. Um esquema que, trocando cultura por agronegócio, não mudaria muito. É essa a sensibilidade.

 

Então a esquerda festiva do tropicalismo não poderia ser mais oportuna para qualificar o debate. E que tal revisitarmos Terra em transe para 2014?