Publicado em 29 de outubro de 2014. Deixe seu pitaco.

Republicação da entrevista concedida ao IHU online, em 29/10/2014.

Foto DilmaFoto: Gazeta do Povo

IHU On-Line – Qual é a sua análise da reeleição da presidente Dilma? Politicamente, qual é o significado dessa reeleição e de mais quatro anos de gestão petista, totalizando 16 anos de governo?

Bruno Cava – O processo como um todo indica o esgotamento final da representação político-partidária no Brasil, na medida em que um grande espaço político não foi ocupado por nenhuma das forças que se apresentaram nessa eleição. Fala-se muito em crise econômica, mas é também uma crise política, de incapacidade do governo de inovar e remobilizar produtivamente a sociedade para um novo ciclo de desenvolvimento, mais qualificado. As manifestações de 2013 e as transformações sociais não encontraram repercussão no debate eleitoral, reduzido rapidamente a campanhas negativas, investidas acusatórias, denuncistas, a um encadeamento de angústias, fobias e reações raivosas que tomou as redes sociais e, no final, parte das ruas do país.

A reeleição de Dilma é, antes, a reafirmação do sistema político brasileiro em não mudar os termos de sua disputa, reencenando a polarização entre PT e PSDB, uma dialética do menos pior que substitui o esvaziamento da dinâmica político-partidária. O último ato dessa peça, com Dilma de branco pedindo diálogo com a oposição, teve como pano de fundo o sorriso amarelo de Michel Temer. Ali estão Kátia Abreu, Collor, Pezão, Sartori e tantos outros, onde também serão bem-vindos banqueiros, grandes proprietários e megaempresários que, terminada a eleição, se reacomodam no poder constituído. Esse pano de fundo inquestionado seria o mesmo, caso Aécio vencesse.

Quando Marina sugeriu, no 1º turno, que tentaria governar sem o PMDB, até parte da esquerda respondeu imediatamente que não se governa sem o PMDB. É um dogma. E não é só o PMDB enquanto partido, mas uma lógica, o que Marcos Nobre tem chamado de pemedebismo. Isto não significa que PT e PSDB sejam iguais, embora estejam implicados num mecanismo igualmente infernal, que leva sempre o governo mais à direita e o impermeabiliza às alternativas.

Fora dos alinhamentos automáticos de um lado e de outro, instintos maturados por 20 anos de polarização PT-PSDB e que reaparecem nas horas críticas como certezas ideológicas entre quem é esquerda e direita, boa parte do eleitorado não partilha dessa mesma chave binária de classificação.

No 2º turno, Marina levantou a bola para Aécio com um conjunto de condições, como manutenção da maioridade penal, meio ambiente e demarcação de terras indígenas, que tornariam o candidato mais palatável para aquela faixa de indecisos que não queria a continuidade do governo do PT, mas tem desconfianças quanto ao PSDB.

Aécio não se comprometeu e o apoio de Marina perdeu força, porque ela perdeu a confiança de uma fatia de apoiadores (me incluo neste grupo). Aécio então optou por reforçar seu discurso à direita, falando em Cuba, “ameaça bolivariana”, e agressivamente prometendo libertar o Brasil do PT, o que visou eleitores que já iriam votar nele de qualquer modo. Ele repetiu a estratégia usada para arrancar votos da Marina para obter ainda mais votos de seus 21,5%, mas esses que faltavam eram justamente aqueles que não tinham migrado para ele com aquela estratégia. E teve um contraefeito indesejado.

Essa estratégia não só afugentou indecisos, como propiciou à Dilma assumir o outro polo, impingindo a Aécio uma campanha preconceituosa e demofóbica, o que por sua vez provocou uma minionda já no limiar da votação, arrastando inclusive abstenções e votos que seriam nulos. Isto não demonstra que Dilma encampou uma posição à esquerda em relação aos últimos quatro anos de governo, mas sim como é fácil mostrar-se à esquerda quando você tem o PSDB do outro lado. Então talvez tenha sido interessante tê-lo do outro lado e assim reduzir a disputa a esses termos. Esse, aliás, foi o cálculo da campanha do PT no primeiro turno, quando centrou fogo em Marina.

IHU On-Line – Alguns analistas dizem que não há problema no fato de o PT estar no poder por 16 anos, porque foram dois governos de Lula e outros dois governos de Dilma. Outros, por sua vez, criticam. Como avalia esses discursos?

Bruno Cava – André Singer tem dito que a vitória eleitoral do PT em 2006, 2010 e 2014 se deu graças à força do lulismo. Com isso ele está falando dessa aliança entre o presidente e uma massa desorganizada que ele chama de “subproletariado”. Ele chama de “sub”, porque não tem a estrutura orgânica de classe nos moldes fordistas, isto é, representada por sindicatos, associações de bairro, movimento estudantil e, finalmente, pelo partido operário.

Ocorre que o “sub” aí não é só uma falta de consistência, um déficit de consciência. Com as transformações do pós-fordismo, o “sub” implica outros tipos de organização, mobilização, comunicação. O “subproletariado” vem se organizando nessas novas coordenadas políticas de classe, o que não aparece em chaves de leitura mais ancoradas na visão ortodoxa do fordismo. Em 2014, os termos lulistas da representação não estão tão claros como em 2006 e 2010, especialmente nos grandes centros urbanos, onde aconteceram as grandes manifestações de 2013.

A crise da representação no Brasil, assim, é uma crise do lulismo. Só que essa crise não é tanto o esgotamento do lulismo; é a sua qualificação, é o descolamento entre a representação e os representados, o que eu chamei noutra ocasião, com Giuseppe Cocco, de “lulismo selvagem“, ou o que Hugo Albuquerque chama de “ascensão da classe sem nome”.

IHU On-Line – Como explica a reeleição de Dilma diante dos protestos do ano passado, das manifestações contra a Copa e da militarização nas ruas? O que a reeleição indica acerca da relação do Estado com os movimentos sociais?

Bruno Cava - O governo Dilma foi madrasta com as lutas e mobilizações sociais. Ativistas presos durante a Copa, tanques e tribunais militares na favela, e os projetos de Belo Monte e Tapajós estão na conta desse governo que, em sérios apuros na eleição, anuncia arrogantemente a obrigação moral de que a esquerda vote nele.

O apoio de alguns movimentos organizados no 2º turno, como MTST, Brigadas Populares de MG ou grupos LGBT, foi para vetar o “pior maior”, que seria um governo Aécio embalado com um discurso antiesquerda. A reeleição indica, novamente, a ausência de uma alternativa capaz de furar o cerco do sistema político. Nem Marina nem Luciana nem Eduardo Jorge conseguiram canalizar em escala a expressão massiva do descontentamento e do desejo por mudança que apareceu nas ruas no ano passado. Tenho a impressão, não confirmada por pesquisas, que quem estava nas ruas se distribuiu entre os candidatos, ou invalidou o voto.

IHU On-Line – Como avalia ainda o fato de a disputa entre os dois candidatos ter sido tão apertada, com pouco mais de 3% dos votos? Na sua avaliação, o Brasil está dividido? Sim ou não e por quais razões?

Bruno Cava - O Brasil está dividido porque a desigualdade é das maiores do mundo, porque racismo, homofobia, machismo são fenômenos profundamente enraizados nas instituições. Mas a divisão eleitoral não coincide com essa polarização que é da estrutura social brasileira. Fora das caricaturas e memes, das adesões automáticas e certezas ideológicas, a maior parte do eleitorado vota no “menos pior”.

Dilma fez uma campanha mostrando que o Brasil não está tão mal, então é melhor não arriscar o pior, que a melhor mudança é a continuidade. Aécio fez uma campanha mostrando que o Brasil está tão mal conduzido, que qualquer mudança é melhor do que a continuidade, que é o pior. Essa divisão, no entanto, não significa que a maioria dos eleitores aderiu ideologicamente ao que seriam dois projetos distintos de Brasil, o do PT ou do PSDB. Esse é um discurso dicotômico que só existe nas formulações dos dois partidos, que se cacifam como inimigos entre si.

IHU On-Line – Qual é o significado de mais de 25% de abstenções nessa eleição? Politicamente, como interpreta o fato de parte significativa do eleitorado não escolher um representante? As abstenções representam o voto das pessoas que foram às ruas no ano passado? Como, no seu entendimento, as pessoas que manifestaram sua indignação com as ações do Estado votaram?

Bruno Cava - É difícil apreender um sentido político das abstenções, que têm aumentado gradualmente numa curva histórica. Não houve grande mudança no índice de votos inválidos no segundo turno da eleição presidencial; os indecisos, na hora H, se decidiram. No Rio de Janeiro, no nível estadual, a soma de nulos, brancos e indecisos ganhou por mínima margem do primeiro colocado, Pezão, do PMDB. Esse resultado já me parece mais expressivo de uma recusa engrossada pelas manifestações, considerando que é o sucessor do governador Sérgio Cabral, o alvo preferencial dos protestos com o slogan “Fora Cabral” e a ocupação em frente à sua residência. É um fenômeno que merece maior estudo. Vale apontar, também, a onda por Tarcísio, o candidato do PSOL, que chegou a 9% dos votos numa eleição em que os quatro primeiros colocados (Pezão, Crivella, Garotinho e Lindberg) contaram com Dilma em seus palanques.

IHU On-Line – A presidente Dilma disse que vai governar pela união. Isso significa que não haverá oposição ao governo, ou o PSDB fará oposição? Que alianças políticas vislumbra para o próximo mandato? Que PT sai das eleições deste ano? Na sua avaliação, qual partido sai fortalecido das eleições? O PMDB?

Bruno Cava - O discurso da união é praxe depois de uma vitória numa eleição majoritária, com ainda mais razão quando a margem é pequena. Esse discurso é protocolar. Ela falou em diálogo e alguns grupos, talvez em wishful thinking, já falam que vai dialogar com movimentos e lutas. Pode ser, também, diálogo com a oposição no Congresso, que se fortaleceu.

O PSDB se fortaleceu como oposição bem estruturada. No 1º turno, Aécio chegou a ter 15% das intenções de voto, numa reta estável, e havia rumores de que renunciaria à candidatura. A campanha do PT escolheu Marina como “mais pior” da vez, no que foi acompanhado pelo PSOL, que viu a chance de bater na Marina como oportunidade de diferenciação, e a campanha presidencial sugou quase toda a atenção. Enquanto isso o PSDB passeou, conquistou uma fatia significativa do eleitorado no Sul, Sudeste e Centro-Oeste, e aumentou suas bancadas. Ainda está para ser feita a avaliação dessa manobra perigosa no 1º turno, que quase levou Aécio à presidência.

Em certa medida, todos os partidos perderam, porque nenhum conseguiu, ou não têm condições de conseguir canalizar as transformações sociais e as novas lutas, não conseguindo recuperar confiança no sistema representativo. Dentro do jogo representativo, é claro, o apoio do PMDB se reafirma como dogma, o PSB caminha no sentido de emular o PMDB, o PT anuncia pela enésima vez a promessa de renovação e “guinada à esquerda”, a Rede perdeu muito com o desastre da campanha de Marina e o PSOL ganhou força no Rio de Janeiro, única dissonância ao consenso petista-pemedebista, embora em nível nacional a votação tenha sido aquém do que se esperaria depois de tantas lutas e mobilizações em 2013.

IHU On-Line – O que teria sido uma alternativa política à situação nesta eleição?

Bruno Cava - Não havia. Olhando em retrospectiva fica claro como as pressões eram muito fortes e bem articuladas pela anulação de qualquer alternativa, inclusive que Dilma se apresentasse como alternativa de si própria. É preciso continuar construindo essa alternativa, o que num país de dimensão continental e tantas diferenças é um desafio imenso.

Certamente não é possível seguir o caminho do PT nos anos 1980. Não basta restabelecer a horizontalidade, o participacionismo, a capacidade de composição de movimentos e lutas daquele período fundacional do PT. Não é uma questão de recuperar algum modelo puro em termos de procedimentos. A organização social do trabalho mudou. Mudou a forma das relações produtivas, do tempo, da comunicação, numa situação pós-fordista. Isto não significa que as estruturas de classe fordistas desapareceram, mas que foram requalificadas.

Sindicatos, movimentos, coletivos não desaparecem, mas precisam se reinventar, se rearticular com outras redes e fluxos produtivos, semióticos e comunicativos.

No filme “Terra em transe”, Glauber critica uma imagem do povão do imaginário “nacional-popular” que até hoje está no imaginário de esquerda. É a imagem daquela massa alegre, autêntica, apaixonada, tantas vezes romantizada pela esquerda, no que há certa desqualificação reversa. Esse povão fica à deriva, amorfo, entre as negociatas da elite e os nobres ideais de emancipação da esquerda intelectualizada. Até hoje “povão” é uma expressão ambígua, inclusive à esquerda.

Hoje, talvez, com a sucessiva organização de classe no pós-fordismo, se possa substituir a imagem do “povão” pelo conceito de multidão, nos termos de Antonio Negri e Michael Hardt. A multidão brasileira está nos vetores de mobilização, de reelaboração das dificuldades e experiências de sofrimento, de vida na metrópole, e também de alegria na cooperação, no comum, que a tornam politicamente qualificada. Além de qualquer confinamento sociológico (“batalhadores”, “ralé”), da ciência política aplicada às eleições (“subproletariado”) ou economicista (“nova classe média”), a multidão brasileira é a única força motriz capaz de requalificar o desenvolvimento com mais democracia. E ela está em êxodo das tentativas de enquadrá-la. Como isso se organiza e continuará se organizando, é tarefa de pesquisa e envolvimento militante.

Por Patrícia Fachin.

Publicado em 24 de outubro de 2014. Deixe seu pitaco.

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A Dilma vai ganhar. A lógica do menos pior prevaleceu entre aqueles indecisos necessários para o desempate. Colou a mensagem de Dilma que o Brasil não está tão ruim, então é melhor não arriscar porque pode piorar. Não colou a mensagem de Aécio que o Brasil está tão ruim, que é melhor arriscar porque não tem como piorar mais. Paradoxalmente, Dilma foi favorecida tanto pelo medo de perder de seus partidários quanto pelo otimismo da vitória dos partidários opostos. O medo de perder acionou um instinto de autopreservação que levou à luta pela sobrevivência. A essa luta partidária, se juntaram pessoas que decidiram agir por si próprias, não em nome de algum projeto, mas temerosas da piora com a alternativa. O otimismo da vitória de Aécio, por outro lado, deslocou o pessimismo com o país e a descrença geral nos políticos profissionais. Isto prejudicou a campanha aecista, pois se nutre de um sentimento antipetista que associa o partido a um projeto de poder e ao aparelhamento dos órgãos, contra o que sua candidatura cidadã e cívica viria libertar o Brasil.

Dito isto, talvez o maior erro de Dilma tenha sido inundar o primeiro turno de paixões tristes. Esta foi uma decisão deliberada e consciente, defendida por João Santana e adotada pela campanha. A campanha negativa do primeiro turno baseada em “desconstrução” (leia-se: devassa pessoal, desqualificação de caráter, memes preconceituosos, hipérboles e mentiras sucessivas) foi a maior responsável pela ascensão meteórica de Aécio. De 15% estáveis nas pesquisas cogitando renunciar à candidatura passou a 34% nas urnas e depois 51% nas intenções de voto, esboçando o que seria a maior virada histórica de uma eleição desse porte (crescimento de 250%). Se a vitória no segundo turno redime a estratégia perigosa do primeiro, o faz apenas no plano presidencial. Ainda resta avaliar em que medida tal campanha negativa centrada em Marina, que magnetizou quase toda a atenção, não comprometeu as eleições pra deputado e senador, deixando a oposição passear num clima de pessimismo que lhe era favorável.

Também fica claro, por outro lado, o erro de Marina. Sua ascensão depois da morte de Eduardo Campos, até mais de 30% nas primeiras pesquisas, se deveu a um encantamento inesperado. Enxergava-se nela uma linha de fuga para o sentimento de descrença e o pessimismo pela situação de direitos sociais e da vida urbana, que vinha forte desde as manifestações de junho de 2013. O lado sonhático era sua única chance para ocupar o espaço político aberto. O que sua campanha apresentou foram as alianças, acordos, compromissos e uma trajetória já traçada, herdadas de Campos e do PSB, e aí foi fácil, com recursos desproporcionais e muito mais meios, projetar sobre Marina a “velha política” e a atmosfera de pessimismo com a representação. Marina falhou em apresentar o mundo sonhático que também existia naquele arranjo precário de forças, e tendeu para o civismo libertador dos velhos políticos que Aécio representou melhor.

Numa entrevista pós-1º turno à TV Folha, Boulos e Safatle atribuíram à Marina o erro de tentar a tarefa impossível de fazer um “círculo quadrado”. Eu discordo. Esquerda redonda não vai longe nesse nível de disputa majoritária. O erro de Marina foi precisamente não achar solução pra quadratura do círculo: como apresentar um mundo novo brotando das condições dadas do velho? Tarefa dificílima engendrada pelos geômetras gregos e só resolvida por Lindemann no final do século 19, com a introdução do número transcendente. Faltou o surplus ontológico a uma candidatura além do sistema político existente, o que exigiria redes de formulação, organização e invenção desde as forças vivas da sociedade. Tarefa por fazer.

Chega-se assim ao final das eleições com uma disputa do menos pior com o que Dilma e Aécio preencheram o esvaziamento da representação. A tônica da campanha de um é Aécio e o PSDB de jeito nenhum; do outro, Dilma e o PT de jeito nenhum. O otimismo favorece não tanto o reconhecimento das conquistas dos últimos 12 anos (que por si só, não justificam o voto, o PSDB por hipótese poderia gerir melhor o legado), como também a percepção que é melhor não arriscar esse patrimônio, que as coisas não vão tão mal. O final da eleição ainda tem muita euforia, muita torcida de jogo apertado e algazarra, mas o fato é que os antagonismos reais da sociedade brasileira continuam do mesmo jeito que começaram, sem ganhar um novo sentido. O resto é contar os votos.

Publicado em 22 de outubro de 2014. Deixe seu pitaco.

Elvis

A estátua viva na praça não pode ser tão boa que os passantes a tomem por uma estátua real, ou não ganhará dinheiro. Mas a estátua viva não pode ser tão ruim que seja óbvio que se trate de uma pessoa, ou também não ganhará dinheiro. A estátua viva tem que ser boa de tal modo que os passantes digam: como é fantástica essa estátua viva, está igualzinha. Mas na verdade não está. Se estivesse idêntica, estaria incorporada na paisagem e seria imperceptível.

A melhor estátua viva é aquela cuja diferença em relação à paisagem é mínima, de tal modo mínima que instala a dúvida. Uma dúvida que não é tanto sobre o fato de estarmos diante de uma estátua viva. Uma vez surpreendidos por ela, sabemos muito bem que se trata de uma pessoa fantasiada de estátua. Esta “dúvida” é artificiosa, e brota de dentro da fissura entre a percepção e o entendimento. De fato, o entendimento já se decidiu (“é uma cópia”) ao mesmo tempo que a percepção se assombra de estarmos diante de algo tão singular (“incrível, será mesmo cópia?”).

É nesse sentido que a teoria de Deleuze sobre cópias e aparências é mais completa do que Platão (ou, mais sofisticadamente, Baudrillard). Em “Diferença e repetição”, ele explica como o simulacro não é meramente uma cópia ou um sistema de representação. “Ele se relaciona por meio da diferença ela própria; o essencial é que não encontramos nesses sistemas nenhuma identidade prévia, nenhuma semelhança intrínseca” A diferença é da ordem do quase imperceptível. A estátua viva é diferente com direito próprio, nem estátua nem pessoa nem uma fusão, e secreta sua própria estética. E será tão mais surpreendente, excitante e bela quanto mais mínimo o desvio, o clinamen que determina no mundo das representações.

É por isso também que, na primeira vez em que nos deparamos com uma estátua viva, acontece um ato criador. Uma nova realidade se apresenta e nos desafia, e não por acaso levamos um tempo até decidir o que fazer: deixaremos um dinheirinho ou seguiremos adiante. Em qualquer dos casos, aumentados de ser.

Publicado em 14 de outubro de 2014. Deixe seu pitaco.

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Não há nada a ser comemorado no apoio de Marina a Aécio no dia 10, seguindo o PSB e o PV de Eduardo Jorge. É realmente lamentável e as condições exigidas apenas amenizam o que é um grande erro. Tem gente soltando rojão na linha do “eu já sabia” ou “bem feito”, com um ar de satisfação íntima de quem parece estar acompanhando as intrigas da novela das oito. Não perdem uma oportunidade de espinafrar aqueles que elegeram como vilão preferencial. Pena que o “Aécio Never” não valeu para o 1º turno, porque Marina x Dilma teria comprometido o PSDB em larga escala, e transformado positivamente as coordenadas da disputa. Venceu a mesmice e o sentido à direita. “Aécio Never”, para vários, foi corolário do “Marina Never”. Se a contradição fundamental do sistema político brasileiro é entre PT e PSDB, isto é, a contradição entre dois projetos distintos de Brasil, por que essa contradição não se manifestou quando havia tantos cargos e mandatos em disputa? Quando teria sido possível usar a atenção que a eleição presidencial aufere para traçar, claramente, o mapa das forças políticas partidárias?

Ao invés disso, a máquina governista, com reforços a partir daí cinicamente elogiados (no dia seguinte ao pleito, voltarão a ser ridicularizados, pelo menos até daqui a 4 anos), bateu todos os dias na Marina, que não soube, não pôde, e não tinha como responder na mesma medida. As três coisas sucederam em distintas ocasiões: respondeu mal, não conseguiu responder, não tinha meios pra responder. Já para o PSDB, a eleição foi um domingo no parque. Não admiram, agora, as teorias conspiratórias sobre o diversionismo. Marina teria servido de boi de piranha para a tucanada passar incólume.

A realidade no entanto é mais irônica. O erro de avaliação aconteceu na campanha de Dilma, e também por aqueles que cerraram-lhe fileiras segundo a estratégia delineada por João Santana. O marqueteiro defendeu a tese ofensiva desde o momento em que, nas pesquisas, Marina passou Aécio, na época estabilizado em 15% das intenções de voto. Sob o comando de Santana, a eleição foi jogada como um videogame. O que importa é passar pra próxima fase e “zerar” o jogo. O problema disso não é, tanto, a desconsideração de alguma moral. É a desconsideração da própria política. Nada de avaliações ideológicas, de como pautar à esquerda, de como defender, afinal de contas, o que diferenciaria o projeto do PT em relação ao projeto antagônico, o que justificaria tantas alianças, recuos, estagnações, aparelhamentos. Onde esteve a tão invocada “esquerda do PT”, incapaz até de emplacar um painel programático? Quem hoje volta a jogar pedra na Marina, poderia se perguntar se uma aliança com o PSDB é pior do que uma aliança com o PMDB, a família Sarney, Cabral/Pezão, Jader Barbalho, Renan Calheiros, dos ruralistas assassinos, dos megaempresários erigidos a “campeões nacionais” pelo neodesenvolvimentismo dominante.

Outras avaliações podem ser feitas. Qual o efeito de uma campanha massiva em tom acusatório pessoal, de difusão do medo, de hostilização aberta, qual o efeito pode ter nas demais disputas em curso e no processo como um todo? Porque o medo é um afeto reativo que costuma mover o processo à direita, ao cevar instintos de autopreservação, reações patrimoniais (que tenho a perder?), pulsões identitárias (o que sou/não sou) e o sentimento gregário (familista, com todas suas neuroses).

O apoio de Marina a Aécio foi um erro, do ponto de vista de uma construção por fora da representação. Teria sido erro simétrico apoiar Dilma. E não há o que relativizar. Mas vale pôr em contexto. Marina poderia ter surpreendido com uma neutralidade enérgica. Essa sim seria uma surpresa. Porque não foi uma surpresa o alinhamento com uma das candidaturas, dado o que aconteceu no 1º turno. Tentamos, outros amigos e companheiros, em especial do suprapartidário Coletivo Biorana contrariá-lo. Você pode enfrentar preferencialmente um adversário, mas precisa ter em mente que seus eleitores continuam no jogo depois da “desconstrução”. E a maioria dos eleitores de Marina não quer ver Dilma nem tingida de verde e amarelo.

Até é possível argumentar que, em 2014 ,a diferença entre PT e PSDB é tão pequena que, sem Marina, a neutralidade deveria se impor. Ao que fui respondido, várias vezes: são iguais… MENOS uma campanha! Também não me desiludi com Marina por seguir o mesmo roteiro da “velha política” de negociar e escolher lado num binarismo esvaziado. Seria exigir que Marina seja algo que nem ela afirma ser. Porque Marina nunca, em nenhum pronunciamento, se colocou como a “nova política”. Eu mesmo fui pessoalmente ouvi-la falar em três ocasiões, no Rio de Janeiro. Nas três ocasiões, deixou claro ser “velha política”, que não deveríamos esperar nenhuma liderança messiânica, nenhum anúncio personificado do novo, mas apenas uma tentativa de induzir uma transição política. A palavra usada por Marina foi “interregno”, período entre reis, quando a maturação das forças democráticas da sociedade poderia transformar a representação, de modo que não precisássemos mais de alguém com carisma e experiência como ela.

Marina tinha plena consciência e deixava claro que, sem a emergência de um movimento desde a sociedade, de fora do sistema representativo, ela não era nada, não tinha como instrumentalizar nada, e seria capturada de volta pelo videogame. As manifestações de 2013-14 e a emergência mundial de novos sujeitos faziam nutrir o sonho de que talvez fosse possível competir institucionalmente de maneira inovadora. Essa hipótese não se verificou, mas não é absurda. Não foi à toa que essa hipótese foi desqualificada seja pela simples mentira a respeito do discurso de Marina (ela estaria se apresentando como messias da nova política redentora, o que é falso) seja através de uma desqualificação paralela das jornadas de junho, dos novos movimentos, e da tentativa de pensar e fazer política por fora da política da representação. Parte da fúria anti-Marina se deve, também, ao susto que essa hipótese significou, especialmente quando parecia possível uma candidatura majoritária nacional canalizá-la. Isto causou horror.

Equilibrada na corda bamba entre uma Rede incipiente e um PSB fragmentado, Marina sabia que sua única chance era contar com uma mobilização de baixo pra cima, na linha do “Yes we can” norte-americano. O que não aconteceu. O que foi um sonho não sonhado com a força real necessária. As redes de mobilização e organização não se formaram, e o impulso momentâneo arrefeceu, a seguir desgastado dos dois lados, diante de uma síntese impossível esboçada pela campanha hesitante de Marina. Hugo falava que o “extremismo de centro” e Silvio o pemedebismo prevaleceriam. O que se mostrou correto a posteriori. Mas a história se faz enquanto é feita, e se existe uma brecha, e uma hipótese/aposta merecedora do investimento da práxis, ela deve ser investida. E hoje vejo como era, sim, possível, mas que tal possibilidade necessariamente exigiria a chegada no 2º turno, quando poderia, pelo menos, ser ouvida. Marina não teve o direito sequer de ser ouvida. Impôs-se imediatamente o “nada a ver por aqui, para frente!”.

A derrota no 1º turno foi um balde de água fria em Marina, o que fechou qualquer brecha. Enregelada pelo fechamento induzido pelo ex-partido e pela esquerda de governo, depois do veto de 2013 ao registro da Rede, não admira que Marina tenha pra si que o PT, Dilma e Lula sejam seus inimigos declarados, que não hesitarão em mobilizar a máquina para estigmatizá-la e barrá-la. Quantas vezes for necessário. Talvez fosse muito esperar outra coisa, um gesto de grandeza agora (de que eu certamente não seria capaz), num otimismo da razão inteiramente incondizente com o cerco que ela sofreu pelas forças políticas. Marina teria, realmente, se destacado muito, tivesse seguido o exemplo de 2010, e afirmasse sem meias palavras um antagonismo ao sistema político, uma neutralidade enérgica. Não aconteceu. Perdeu-se assim ainda outra chance de escapar das dicotomias infernais, em direção ao que tudo parece inescapavelmente precipitar. Reforça-se a sensação de asfixia dessa eleição presidencial, reduzida a memes fáceis, condenações cômodas e análises previsíveis, sem inspiração, repetitivas, redundantes, interessadas somente em seus próprios umbigos identitários.

O ponto culminante desse fechamento possivelmente é o fato que, como quer que a eleição termine, será adotada a narrativa que as manifestações de 2013 propiciaram o avanço da direita. Se Dilma ganhar, os mesmos que desqualificaram as lutas como um caldo de coxinhas, despolitizados e vândalos, se colocarão como vencedores históricos, e comemorarão sobre os escombros deixados pela repressão e criminalização. Este “paradigma” será aprofundado, como afirma abertamente a campanha de Dilma. De falta de aviso, ninguém vai poder reclamar. Se Dilma perder, não tenho o menor resquício de dúvida que as manifestações de 2013 serão preferencialmente culpabilizadas (assim como, ré máxima, Marina).

Não é desejável que Dilma ganhe e confirme todos os esquematismos, adesões automáticas e certezas ideológicas, sem que ela tenha sequer esboçado uma virada à esquerda, sem que tenha afinal apresentado a diferença em relação ao PSDB, além de exibir grandes números e indicadores, como se investida exclusivamente da missão messiânica de ajudar os pobres. Por outro lado, também não é desejável que Aécio ganhe (toc toc toc na madeira), o que além de todas alianças e acordos conservadores e retrógrados, também será confirmar os esquematismos. E não esqueçamos nunca que um Aécio tão forte no segundo turno é um produto indesejado das ações conscientes e avaliações estratégicas. A vitória de Aécio também será um mérito da campanha de Dilma.

Que mais posso dizer? PT e PSDB têm diferenças mas não são forças independentes, não existiriam com a força que têm, se não existisse a contraparte. Existe um processo dialético da representação em que PT e PSDB estão enxertados, um se alimenta do medo do outro, e com uma definição negativa compensam o vazio da representação sobre o que se equilibram em primeiro lugar. Em suma, um se identifica como o não-outro, e assim eles repetem o idêntico do problema que disputam. Aécio foi escolhido para facilitar a transferência de votos, graças a instintos maturados por duas décadas de polarização. Dilma supôs que Aécio seria mais fraco, deixado para ser combatido no segundo turno. Foi uma escolha deliberada e (in)consequente. Então que faça bom proveito. Outras brechas porventura se abrirão, para quem acredita que seja possível construir novas instituições e, porque não, uma nova política.

O sol não vai deixar de nascer no dia 27 e as lutas continuarão, de um jeito ou de outro. Isso me basta, e daí recomeço.

Publicado em 13 de outubro de 2014. Deixe seu pitaco.

LPDFoto: Kátja Schilirò

Em 17/12/2013, a Aldeia Maracanã foi despejada do antigo Museu do Índio, um prédio histórico do lado do estádio homônimo. Durante a remoção violenta pela PM, José Urutau Guajajara subiu numa árvore e ali resistiu por 26 horas. A remoção se somou à série de remoções violentas realizadas pelo governo, no processo de higienização urbana e “choque de ordem”, voltado aos megaeventos da Copa e das Olimpíadas. O desmantelamento da Aldeia também se explica pelo refluxo repressivo que se seguiu às jornadas de junho-outubro no Rio de Janeiro.

A ocupação da Aldeia Maracanã foi um desses eventos que, pequenos em escala, tiveram um impacto enorme como qualificação das lutas. Ocupada em 2006 por indígenas de várias tribos, nela aconteciam ritos, cantorias, encontros militantes e um centro de acolhimento para indígenas em trânsito. Além de várias moradias, funcionava uma oca e um pequeno comércio de artesanato.

Com a ameaça de remoção, a partir de 2012, a Aldeia mobilizou a cena ativista carioca e reuniu grupos heterogêneos, desde ambientalistas a anarcopunks, passando por participantes do ciclo de ocupas (2011-12). Um acampamento paralelo se amalgamou à ocupação indígena, além de reforços  vindos de tribos de outras regiões: mundukurus, caiapós, pataxós, tucanos, arauetês etc. O fortalecimento da resistência, simbolizado no hall pelo fogo que nunca apaga, sustentou a ocupação até março de 2013, quando ocorreu a primeira remoção violenta, depois de várias escaramuças e ataques diversionistas. Na resistência, vale lembrar, juntaram-se alguns operários que trabalhavam na obra vizinha de reforma do estádio, que foram prontamente despedidos.

Depois da primeira remoção da Aldeia, as moradias e ocas foram demolidas e a área útil reduzida pela metade. Vários indígenas foram “realocados” numa área sem infraestrutura no bairro distante de Jacarepaguá. O prédio remanescente foi cercado pela polícia. Só não foi demolido porque o instituto estadual do patrimônio histórico tombou-o. Construído em 1862 pelo Duque de Saxe, o prédio tem o triplo da idade do próprio estádio.

Reocupada em agosto de 2013, numa correlação de forças mais favorável graças às jornadas, a Aldeia voltou a se tornar um centro de encontros indigenistas e militantes em geral. Foram realizadas várias reuniões de avaliação dos movimentos, bem como atividades artísticas, aulas de tupi e rituais religiosos. Mas a maré virou novamente contra os ocupantes e, em dezembro do mesmo ano, aconteceu a segunda remoção violenta, depois de uma tentativa malfadada de retomar parte do terreno perdido no primeiro despejo.

Vários indígenas e movimentos do Rio de Janeiro reivindicam a retomada da Aldeia Maracanã para uma gestão autônoma e comum. Uma das propostas é transformar o prédio numa Universidade Indígena, um sonho dos indígenas, compartilhado por Darcy Ribeiro, que teve passagem pelo lugar na época em que ali funcionava o Museu do Índio (1953-77).

A maraca ou maracá é um tipo de chocalho, com sementes secas e uma pega, agitadas geralmente em par, ou então rodadas lentamente. Hans Staden, em “Duas viagens ao Brasil” (1557), já descrevia como os índios usavam as maracas nos rituais sociais. Durante toda a ocupação da Aldeia, assim como nas muitas marchas, protestos e ocupações de que os indígenas participaram, a maraca esteve presente, nas danças de luta e de alegria de uma geração que decidiu lutar.

Publicado em 11 de outubro de 2014. Deixe seu pitaco.

HALLU

Guy Debord explicou a sociedade de espetáculo como o processo final da alienação totalitária do trabalho humano no mundo objetivo da mercadoria. George Orwell traçou o perfil de uma distopia coletivista regrada pela vigilância absoluta. Mas ao carrossel de imagens do primeiro e às teletelas do segundo, William Burroughs inclui o corpo e a biologia na descrição do controle social. Para ele, a existência supermidiatizada no capitalismo tardio corresponde à experiência extracorpórea.

Para Debord, as eleições seriam o espetáculo da superestrutura que se torna, prescindindo de infraestrutura, a própria matéria dos interesses da política. A política se confunde com a imagem, e nada mais passa a existir por trás de sua superfície furta-cor. A resistência é impossível, pois na sociedade do espetáculo toda ação produtiva conspira por sua falsificação rigorosa, que se torna abstração real. É indiferente o Facebook.

Para Orwell, as eleições seriam uma farsa planejada para enganar e domesticar os cidadãos, para deixá-los felizes com a tirania. As eleições são o momento máximo da mentira, quando o grau de hipocrisia se torna insuportável. A resistência vai à clandestinidade, de onde vanguardas desencadearão guerrilhas. É preciso sair do Facebook.

Para Burroughs, as eleições são um transe mórbido. A droga eleitoral carrega a pessoa a paisagens amplas e complexas, mas a percepção mais cuidadosa logo identificará loopings, rotinas mesmerizantes e memes. Sente-se veloz, mas na realidade está correndo em autorama. A liberdade é prometida, mas se está policiado no difuso, pela Nova Polícia do opinionato. O partido é substituído por uma nuvem de almas desencarnadas. O Facebook acelera a agregação espiritual de alucinações e delírios, ou como diria o escritor, o Ugly Spirit. Mas não se deve sair do Facebook e das eleições para a vida. A vida real, afinal de contas, também é um sonho sonhado por terceiros no qual decidimos intervir.

Para Debord, é inútil resistir, resta um niilismo comprazido ou um pessimismo angustiado. Para Orwell, a resistência é útil, mas para o Déspota, pois ele próprio a engendrou para confirmar a dominação total. Para Burroughs, a resistência ainda é possível e sobretudo desejável, apesar das eleições, apesar do Facebook.

Publicado em 8 de outubro de 2014. Deixe seu pitaco.

DIlmécio

O Brasil entrou numa espécie de transe à véspera da eleição. Uma disputa que desceu ao nível dos instintos e dos reflexos automáticos, entre dois grupos que cultuam divindades antagônicas. Um e outro se colocam como antítese entre si, diante do que se é convocado a aderir como salvação. Os termos são definitivos e incontornáveis. Ambos os templos multiplicam variações sentenciosas da máxima de Luís 15. Après moi le déluge. Depois de mim o dilúvio.

De um lado, a cruzada dos sábios justos contra a corrupção dos ignorantes. O desejo de mudança traído como marcha cívica pela pátria livre, protagonizada pelo trabalhador honesto que dá duro todos os dias e se reserva o direito de exigir que os políticos não roubem. Para esses, as manifestações de 2013 sintetizaram o basta de uma geração ao projeto de poder de uma casta de usurpadores e sanguessugas. É o Brasil do Bem. Embora essa avaliação esteja usurpando o sentido das manifestações, que lutavam em nome próprio por direitos e qualidade de vida. Seus sacerdotes pregam a causa da modernização contra os impulsos estatólatras e as mistificações ideologizantes. O recente sucesso eleitoral aparece miraculado como confirmação de sua missão civilizatória nas terras bárbaras que prometem varrer de arcaísmos, à imagem do estado de São Paulo, alfa e ômega de tudo de bom que aconteceria no Brasil.

Do outro lado, a cruzada dos defensores dos pobres contra os ricos. O desejo de mudança negado como protesto pequeno-burguês manipulado pela direita golpista. Para esses, um vasto movimento de democratização lamentavelmente foi abalado pelas manifestações de 2013, quando saiu das sombras um país antissocial, outrofóbico, despolitizado, cúmplice tradicional da opressão e da exploração, e que fora bisonhamente subestimado. É o Brasil Coxinha. Com a dubiedade de quem se engaja na causa popular ao mesmo tempo que mantém as avaliações conservadoras, seus sacerdotes falam em nome dos pobres, como se aqueles dependessem de suas divindades e sacerdotes para agir e lutar em nome próprio. O recente fracasso eleitoral é atribuído às massas fascistas (pobre população…), à ética do trabalho de São Paulo (pobre trabalhador paulista…) e até às manifestações.

Os mais céticos recorrem ao Lênin da NEP: é preciso dar um passo atrás para dar dois adiante. Do lado de lá, o passo atrás é admitir como mal menor a vitória momentânea de Aécio, para limpar o terreno para que outras forças melhores posteriormente possam ocupar as ruínas deixadas pelo PT. Do lado de cá, o passo atrás é admitir como mal menor a vitória momentânea de Dilma, para preservar as conquistas sociais e instigar a esquerda do PT a reconstruir-se a partir dos escombros que sobraram das forças progressistas.

De mal menor em mal menor, é perpetuada a dialética do pior com o que os templos se alimentam de fiéis. A julgar pela pregação apocalíptica dos púlpitos, como quer que votemos, no dia 27 de outubro as compor­tas do céu vão se abrir e a chuva cairá sobre a terra por 40 dias e 40 noites. O Brasil tão tomado pela lama que o conselho de Lênin terá sido inútil. Não mais possível andar pra frente nem pra trás. Prosperará o caranguejo.

 


Dedicado a Augusto Botelho.

Publicado em 3 de outubro de 2014. Deixe seu pitaco.

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Dilma vencer a eleição no 1º turno ou Dilma x Aécio no 2º é o fim da eleição do mesmo jeito. É a confirmação do idêntico. Uma polarização que repete o mesmo imaginário neodesenvolvimentista x neoliberal, inspirando as mesmas certezas ideológicas, adesões automáticas e esquematismos. É a repetição matemática do mesmo discurso e da mesma ausência de propostas do embate entre PT e PSDB, de 2010.

A julgar pelas campanhas, para Dilma e Aécio os últimos quatro anos simplesmente não aconteceram. Para eles, as jornadas de junho não aconteceram como evento político e repolarizador da sociedade. Seria a vitória da narrativa governista: junho de 2013 foi um espasmo golpista, manipulado pela direita, agora derrotado nas urnas pelo povo brasileiro, uma vez esclarecido da “política da verdade” pela filósofa catedrática e sua entourage, pela claque de blogueiros progressistas e bots nas redes, e por João Santana. Nessa pasmaceira, continuo a me espantar com a quantidade de apoiadores e ativistas que defendem Dilma em nome da “unidade da esquerda” sem que a presidenta oferte sequer um aceno para uma mudança de rumos.

Cambaleante sobre a corda amarrada entre Rede e PSB, a improvisada campanha de Marina cometeu erros óbvios e enfrenta um exército que convoca um milhão de soldados todas as manhãs com informes de SMS dos memes, hashtags e slogans do dia. Marina está cansada e rouca (também pudera!), mas viva. Contra os esquematismos e adesões automáticas, e pela possibilidade de um segundo turno menos estéril, minimamente politizado e positivamente imprevisível, no domingo votarei nela. Só tá morto quem não peleia.