Publicado em 18 de setembro de 2014. Deixe seu pitaco.

Marina e Gilberto Gil

Fui assistir à Marina ontem à noite na Escola de Cinema Darcy Ribeiro, no encontro sobre cultura. Nunca na história deste país se produziu tanta estigmatização de uma candidata em tão pouco tempo, então resolvi pessoalmente conferir ao vivo o que ela tinha pra falar. Nunca comprei esse papo que uma liderança nascida da costela do PT esteja na origem de todos os males.

Os organizadores acertaram em evitar o formato comício, daquele tipo em que vem a Grande Líder ladeada de seus Grandes Artistas. Sentaram-se num esquema bate-papo a Marina e o Gilberto Gil, o MC foi o ator Marcos Palmeira. Mas a organização não conseguiu inovar além disso: foram apresentadas as tradicionais demandas setoriais por representantes das “categorias” da cultura. Isso foi um pouco cansativo, apesar do ponto alto em que um indígena assumiu o microfone para expor a demanda-mãe dos povos: queremos demarcação de terras, o que o governo Dilma não tem feito.

Gil tomou a palavra. O orixá do tropicalismo não falou muito, ele preferiu cantar. Ofereceu em primeira mão a canção elaborada pra Marina, que foi cantada ali mesmo, sem cerimônia. É linda, como todos poderão ouvir nos próximos dias, assim que o ex-ministro terminar os arranjos finais da arma secreta.

Marina então tomou a palavra, elogiou o “excelente” trabalho de Gilberto Gil como ministro do governo Lula, destacando os Pontos de Cultura, que devem ser retomados pra valer, e a participação de Célio Turino, um dos principais formuladores dessa política, na campanha. Marina afirmou que a cultura é a base para qualificar a economia, o desenvolvimento e a educação; que a cultura não é apenas um bem ou recurso estratégico: é um elemento imaterial de enriquecimento do corpo, da mente e da espiritualidade. Que não deve ser enquadrada somente em estratégia de crescimento, mas como princípio vital de qualquer sociedade. Disse que os artistas e produtores culturais não têm que se preocupar apenas com a arte, mas também com a política. Venham para a política, pediu. Frisou a dimensão estética do desenvolvimento, inseparável da ética. O “desenvolvimento sustentável”, para Marina, não tem nada de economicista: é baseado numa requalificação sobretudo política. Ela falou várias vezes em qualificar a política.

Marina começou rouca, parecia meio que extenuada, mas de repente começou a falar com extrema firmeza e muita desenvoltura. Contou de sua infância no Acre, da alegria das primícias ativistas na Amazônia, da alfabetização tardia, de quando atuou na peça “Morte e vida severina”, no papel de um cacto. Depois explicou como o programa de governo foi elaborado colaborativamente a muitas mãos, e que pretendiam fazer um debate de ideias e não uma troca de hostilidades, detalhou o golpe cartorial contra o registro da Rede no ano passado e também foi apresentando, uma a uma, as suas visões da política nacional, os impasses, as dificuldades, os entraves.

Dizem por aí que Marina é uma sonhática. E têm razão! É, sim, uma sonhadora, no mesmo grau em que é militante, acredita e luta pelo sonho. Mas é uma sonhadora rigorosa e com o sentido da terra. Talvez seja sua grande virtude num pleito em que a campanha da situação se resume a dizer que tudo vai bem e que, portanto, deveríamos ter medo de sonhar. Acusar Marina de sonhática diz muito sobre os acusadores. Marina é, sim, imaginação real, e o sonho que ela sonha não é apenas o sonho dela, pois se apoia sobre tendências de transformação da sociedade brasileira.

Marina disse que a nova política já está. É uma atualidade. Que novos sujeitos políticos emergem pelo mundo. Que as pessoas já querem fazer política e a estão reinventando, desde outros lugares e tempos. Quer o sistema político partidário goste ou não. Citou as jornadas de junho de 2013 e sem hesitação afirmou claramente que são uma expressão dessa nova política. Que longe dela querer representar a nova política. Que ela não representa junho de 2013. Ela tem consciência que pertence à “velha política”, e deixou claro que seu papel é transicional e que, embora tenha carisma e seja uma liderança, ela acredita que a democracia chegou num ponto de maturação em que não precisemos mais de alguém com carisma e esse tipo de liderança. A palavra que ela usou para descrever um eventual mandato de 4 anos como presidente foi “interregno”. Disse que esse é um processo global e que, no Brasil, não tardará a acontecer, com ela ou sem ela.

Ouvi-la é realmente uma experiência que alterna dureza e fantasia. Mesmo quem não concorda com o que Marina exprime, mesmo quem não vai votar nela, quem esteja pessimista com relação a alternativas, eu recomendo muito que vá ouvi-la. Pelo menos uma vez. E depois de escutá-la, só com uma sensibilidade limitada, ou então com muito espírito de rebanho, para não enxergar nenhuma diferença importante de mundos e imaginários que Marina traz à eleição. Mesmo que continuemos discordando. E que campanha vibrante, animada pela possibilidade de vencer, com pessoas propositivas, serenas.

Publicado em 13 de setembro de 2014. Deixe seu pitaco.

marina-silva

Marina, imagino como deve ser difícil.

Você que muito jovem subiu em lombo de jegue e canoa pra panfletar em Xapuri, Brasileia, Assis Brasil, Serra Madureira, você que militou pelos índios, os seringueiros, os pequenos agricultores, que se embrenhou na floresta imensa e com generosidade de mulher feita trabalhou por uma alternativa de Brasil.

Você que viu seus companheiros tombarem a tiros de escopeta, que viu cair Chico Mendes entre tantos sindicalistas e militantes. Você que enfrentou os ruralistas, que não teve medo dos jagunços, que viu a malária, a leishmaniose, a contaminação por mercúrio. Você que tomou café com banana perriá e sangrou árvore pra vender o sustento, tantas desventuras e lutas nos confins da Amazônia.

Você que viveu a Teologia da Libertação, que ajudou a construir as CEBs, a CUT, o PT em seus tempos melhores. Você que botou a camiseta de Lula e se indispôs com o mundo ao redor pra defendê-lo dos preconceitos, das difamações, das mentiras. E agora, é alvo da mesma ignorância que era usada contra o homem do povo. Nem criativos eles são, Marina. Os mesmos preconceitos! Mas não vai ter jeito. O Lula de hoje não é o mesmo Lula de ontem. Sei como é difícil e sei como deve doer o que está vivendo. Imagine, em mim, que não sou ninguém, dói bastante. Sei que vão falar e já estão falando que é demagogia, que são lágrimas de crocodilo, que você se vitimiza, que é tática, hipocrisia, chororô. Eu tenho certeza que não é.

E me parece claro que, pra vencer essa eleição, vai ter que passar inclusive por Lula. Você é a pessoa mais preparada para levar adiante o seu legado de combate às desigualdades sociais, ao racismo, à repressão aos movimentos. Não tem outro jeito. Que ironia as opções políticas trazerem-na até aqui, pelas vias mais tortas. Os seus adversários se mobilizam pela possibilidade de perder. Campanha do medo, do desespero, de animal acuado que não pretende largar o osso e cujos senhores não pretendem largar o osso. Você, ao contrário, faz campanha animada pela possibilidade de vencer, de traçar um caminho diferente. Tudo que eles querem é que o universo volte aos gonzos.

Na circunstância atual, não dá pra ficar em cima do muro. A continuação do menos pior é o pior perpetuado. Pode ser um erro, mas pelo menos não é um erro igual. Já dizia Beckett que não se pode ter medo de errar. Erremos de novo, erremos melhor. Nunca o menos pior: o erro melhor. Posso fazer muito pouco, mas vou fazer a minha parte.

Você pode contar comigo, Marina.

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“Se o controle do Controle é absoluto, porque o Controle precisa controlar? Resposta: o controle precisa do tempo. A morte precisa do tempo como o drogado precisa da droga.” Esta citação de William Burroughs em Ah Pook is here (1979) formula de maneira concisa a visão do autor sobre uma nova forma de dominação social, própria do capitalismo do segundo pós-guerra. Não mais a dominação do homem pelo homem, da aristocracia ou da plutocracia. Acabou o mundo de Hitlers e Stalins, de crápulas engravatados em cúpulas douradas decidindo o futuro da plebe. Chegou a vez de “forças abstratas”, de “pilotos amedrontados ante os controles de uma vasta máquina que eles não podem compreender”, de uma dominação tão sutil quanto pervasiva, tão globalizada quanto minuciosamente epitelial.

A imagem da máquina, de fato, aparece ao longo da obra de Burroughs, inclusive no título de um dos romances, The soft machine (1961). Primeiro da trilogia Nova, foi elaborado segundo a técnica cut-up, radicalizando o estilo de Naked lunch. As passagens eram escritas, recortadas e depois recompostas aleatoriamente, fissurando  a rocha do possível. O “aleatório” da narrativa, contudo, não era o puro acaso: a recombinação ora seguia padrões evanescentes, ora algoritmos esporádicos – no que contribuíram o pintor Brion Gysin e o programador de computadores Ian Sommerville. O resultado é um livro em que se tem a sensação de se estar zipando de canal da TV a cada 10 segundos, numa justaposição de subnarrativas que, aos poucos, vão exalando estranhas ressonâncias e sentidos diagonais. Ler Soft machine exige antes de tudo um descondicionamento da percepção: é preciso “esquecer” a linearidade do texto e suspender o juízo sobre a coerência do enredo, o que causa desconforto do início ao fim. Para aceitar o convite deste livro, é preciso se deixar levar pela densa imagética: road movie promíscuo nos trópicos, a onipresença de orgias homossexuais, experiências extracorpóreas e controle mental, tramas desconexas de espionagem, viagem no tempo e alucinações, muitas alucinações. A paisagem se refere à supermidiatização da sociedade e é povoada por figuras heterogêneas, mundos incompossíveis, pelo grotesco e pelo descontínuo, num roteiro de drástico descentramento da consciência, várias vezes dilacerada.

Publicado no cenário de agitação do começo dos anos 1960, o sentido político de Soft machine foi desenvolvido por Gilles Deleuze. Para o filósofo, o capitalismo hoje é marcado pela passagem das sociedades disciplinares às de controle, tão bem intuída pela obra de Burroughs. Se naquelas a dominação social se caracteriza pela lógica do confinamento – a escola, a fábrica, a prisão, o manicômio -, nestas o controle é exercido no aberto. Não se trata mais da desumanização provocada pelas instituições: a própria instituição do humano se funde com implantes perceptivos e circuitos de sensação, enquanto compulsões comportamentais são induzidas tanto nos apelos de formação da individualidade, quanto na moral de grandes massas gregárias.

Nas sociedades de controle, não se exige mais a obediência voluntária e corpos humanos dóceis: o novo homem-máquina embute as rotinas, os tiques, os automatismos e os circuitos das mais avançadas tecnologias de comunicação, ao mesmo tempo que cada um pode se enxergar livre. Enxertado de micromáquinas, seu tecido se expande nas telas de TV, nos peep shows, arcades, videogames, nos trackings com que todos seus produtos (inclusive políticos) são customizados. A sociedade se torna um gigantesco maquinário de automação, sem centro de comando, megamaquinado na mídia, no dinheiro, no vício, na liberdade.

Posso andar livremente e posso sonhar, mas meu sonho é sonhado por outra pessoa: é a ficção da Máquina de Controle, do estúdio da realidade que não está em lugar algum: está na pele, nos órgãos, na linguagem, nos gases que pairam pela atmosfera. Os Aparelhos Ideológicos de Estado penetraram na carne como espículas, molecularizados nos cinco sentidos e tantos outros que serão inventados – uma nova awareness da ambiência social. É-se controlado na liberdade mesma, no desejo de emancipação. Não existe ideologia: tudo é corpo. O Controle engendra a própria oposição, que deve ser reduzida aos termos dialéticos com que poderá exercer ainda mais controle, alargando seus limites. É a Nova Police, – de Nova express, terceiro romance da trilogia, de 1964, – a polícia nova depende dos criminosos e conta com eles para se recriar (o que Michel Foucault chamaria de “economia das ilegalidades”). A todo momento, devem ser reprogramadas as resistências, remasterizadas as revoltas, adicionando novos axiomas do código biossocial, com o que o controlato prevê o campo do possível e colmata suas brechas, ao mesmo tempo que oferece a recauchutagem como o novo.

Estaria então tudo dominado? Burroughs e Deleuze se somariam aos pessimistas da totalidade, aos depressivos do espetáculo e do esclarecimento, como Debord ou Adorno? não haveria portanto saída e qualquer resistência mera ilusão? Nada disso.

Burroughs era um grande paranoico, mas a paranoia não deve ser entendida no sentido de patologia. A paranoia é o próprio substrato da sociedade ultracontrolada, e paranoico é o ponto de partida com o que se pode começar a decodificar o real. Como no Anti-Édipo, de Deleuze e Guattari: quando as máquinas desejantes se engancham no Corpo sem Órgãos (CsO), elas são repelidas imediatamente, num magnetismo de polo inverso, porque o CsO as vê como uma perseguição generalizada.

A construção burroughsiana do controle não deve ser buscada apenas na tecnologia, mas também na biologia. Daí sua maior força explicativa do que, digamos, as prosaicas teletelas de Orwell. Em Burroughs, a droga é a base do controle: para que funcione, é necessário que o controle seja querido e buscado, que a consciência nele se imante, e que a realidade controlada seja vivida como transe, e sua maior alucinação: o trabalho. Mas a droga não vem de fora, como um agente agressivo, como se houvesse uma sociedade saudável ameaçada pelo poder contaminador. Na sociedade de controle, o homem-máquina é construído com defeitos genéticos e desarranjos enzimáticos que fazem com que o próprio corpo produza as substâncias que o intoxicarão. As toxinas vêm da saúde normal. Uma intoxicação que é sistêmica: os bancos, os teatros, as praias e os livros precisam tanto de desintoxicação quanto as pessoas. Sem que haja homem puro a retornar, nenhuma saúde anterior a defender.

No capítulo Mayan caper, de Soft machine, o anti-herói viaja no tempo para libertar os escravos da civilização maia de seus sacerdotes perversos. E consegue fazê-lo assaltando o estúdio da realidade para então recombinar a trilha sonora com que o templo controlava corpos e mentes. Técnica subversiva semelhante à aplicada pelo atendente da loja de hambúrgueres no filme alemão Decoder (Muscha, 1984). Ao trocar a música ambiente de lugares públicos da cidade, ele consegue incitar uma revolta, intoxicando as pessoas de outro humor. Em Deleuze, na sociedade do controle, a revolta se catalisa pela interferência e pelo vírus, modos passivo e ativo de tumultuar o poder do controlato. Recombinar afirmativamente, cut-up, no que Burroughs sugere a técnica de fuga, a mesma com que ele próprio escreve a trilogia Nova. Deleuze e Guatarri também urgirão por uma intervenção na sintaxe, a única via para fazer literatura menor, isto é, chamar um povo que ainda não existe à insurreição.

A contraficção põe o controle em crise através da sintaxe. O campo de possíveis se esgota na semântica de um tempo. Os anticorpos paranoicos do Corpo sem Órgãos não são capazes de anular tais anomalias sintáticas, que o excedem a programação. O Controle precisa do tempo – mas do tempo homogêneo e linear, socialmente necessário, que o capital converte em mais dinheiro. O tempo densificado da criação, kairós, é recombinação em cut-up da sintaxe.

Deleuze enxerga máquinas revolucionárias montadas a partir das ciências e das artes – e não diretamente da atividade militante, que amiúde lhe parece (talvez injustamente) engendramento do próprio Controle, repetidora das moléculas de sujeição social em suas identidades e códigos. O próprio socialismo real, interiorizado como axioma do capitalismo e vice-versa, bem como a conversão da esquerda em grilo falante dos governos. Toxicômanos, não conseguimos nos libertar do sonho dos outros: europeus orientais sonhavam com Big Macs, ao passo que os ocidentais pretendiam planificar economicamente a abundância. Mas os Sputniks vagavam no espaço e Hendrix tocava Eletric Ladyland, bombardeando o inconsciente maquínico além dos sonhos do controlato. Tantos desejos maquinados pela ciência e pela arte, recombinados no evento de Maio de 1968, abriram uma fissura inédita na sintaxe de seu tempo. O novo, aí, não é política Nova – é interferência produtiva, cut up de fragmentos inconscientes que fazem num novo real. A revolução é um estilo político.

Publicado em 11 de setembro de 2014. Deixe seu pitaco.

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1) “Marina não tem preparo para assumir a presidência”

 

O mesmo argumento foi usado contra Lula, em 2002, e contra Dilma, em 2010, que à ocasião não tinha sido eleita sequer vereadora. Marina, filiada ao PT de 1985 a 2009, foi senadora durante dois mandatos (1995-2011) e uma das ministras mais elogiadas do governo Lula (2003-08), além de deputada estadual (1991-94) e vereadora (1989-90).

 

2) “Marina é fundamentalista evangélica”

 

Marina até agora não misturou fé pessoal com ação política (http://tinyurl.com/olmkfgk) e disse não ser criacionista (http://tinyurl.com/ok674jq). Durante os 4 anos de governo, Dilma manteve na base aliada a dita “bancada evangélica”, favorecendo, por exemplo, a presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara por Marco Feliciano (PSC). Dilma esteve na inauguração do Templo de Salomão, onde afirmou “Feliz é a nação cujo Deus é o Senhor”(http://bit.ly/1phUSjF). A questão está mal colocada, dando a entender que evangélico estaria mais propenso a ser fundamentalista, não existindo “fundamentalista católico” ou “fundamentalista ateu”, quando o bloqueio a pautas de direitos no Legislativo é realizado também pela bancada católica e pela bancada laica da “família brasileira”, igualmente conservadora.

 

3) “Marina é contrária a pautas LGBT e aborto”

 

Apesar do recuo lamentável, o programa de Marina sobre os direitos LGBT ficou menos recuado do que as propostas de Dilma, que teve 4 anos para avançar e não avançou. Em seu governo, mandou recolher o kit anti-homofobia porque “não fará propaganda de opção sexual” (http://tinyurl.com/oykhg4o) e tem sido criticada pelo movimento LGBT que, numa conferência, chegou a entoar o coro “Dilma, que papelão, não se governa com religião” (http://glo.bo/1phV7eE). Além disso, Dilma também teve 4 anos para avançar na legalização do aborto e não avançou. O governo revogou uma portaria que regulamentava aborto legal pelo SUS (http://bit.ly/1vZnzrr) e pediu perdão à bancada evangélica por declarações no FSM-2012, dizendo que “não vai tomar qualquer iniciativa para alterar a legislação sobre aborto”. (http://tinyurl.com/olyve69).

 

4) “Marina é o novo Collor”

 

Collor está apoiando Dilma. O argumento pode ser entendido também no sentido que Marina não tem uma base extensa de parlamentares. É um desvio de perspectiva: o discurso de Marina é romper o bloco bipolar PT-PSDB que há 20 anos governa se revezando na aliança com o PMDB. Melhor questão para Marina seria, na realidade, perguntar como se poderiam agenciar forças sociais e construir redes de organização capazes de substituir o “pemedebismo de coalizão” da velha política, mais ou menos como o novo partido, o Podemos, tenta fazer na Espanha.

 

5) “Marina é a antipolítica”

 

A premissa da acusação é que não existe política fora da política representativa dos principais partidos, então qualquer crítica à política representativa é considerada como exterior à política. O mesmo argumento foi usado para desqualificar as manifestações de 2013 no Brasil. Dilma praticou antipolítica ao não conseguir se relacionar com os novos movimentos, lutas e demandas sociais, optando pela via da desqualificação e, em alguns casos, da criminalização (em especial, por meio do ministro da justiça). O perfil mais gerencial e tecnocrático do governo Dilma, em oposição ao governo Lula, também pode ser classificado como antipolítica.

 

6) “Marina não representa a nova política de junho de 2013″

 

A afirmação está correta, no sentido que nenhum partido ou candidato representa as manifestações do ano passado, que exprimiram uma recusa à política representativa como um todo. Por outro lado, existe uma falsa simetria na distância de Marina e Dilma em relação às jornadas de junho. Se Marina é uma tentativa de surfar na onda ou captá-la eleitoralmente, o governo Dilma foi, no mínimo, cúmplice da criminalização de ativistas. Muitos dos blogueiros “progressistas” e intelectuais governistas que agora lançam uma campanha de desqualificação de Marina são os mesmos que virulentamente trabalharam para desqualificar as jornadas de junho, tachando-as de coxinha, antipolítica, manipulada pela direita e golpista.

 

7) “Marina governará para os bancos”

 

Os bancos vêm aumentando progressivamente sua lucratividade durante os governos Lula e Dilma, faturando mais do que nos tempos de FHC. A autonomia formal ao Banco Central foi formulada por Palocci durante o governo Lula, e não nos governos do PSDB. Renan Calheiros, da base aliada de Dilma, quer aprovar a autonomia formal do BC nos próximos anos (http://tinyurl.com/ols3udj). No entanto, é correto criticar a proposta de maior independência do BC em relação ao governo, como anunciado no programa de Marina. Incorreto é dizer que Dilma tem uma proposta substancialmente à esquerda: nada fala de tributação progressiva dos ganhos de capital, e tem mantido uma política recuada na manutenção do tripé macroeconômico herdado desde FHC (câmbio flutuante + metas de inflação + rigor fiscal = superávit primário). Na verdade, o debate está mal colocado, tendendo para a denúncia moral do sistema financeiro. O aumento dos ganhos dos bancos tem mais a ver com a expansão do crédito, inclusão social e refinanciamento da dívida pública, na última década, do que por “usura”. O debate está viciado pela premissa do século 19 de que existiria uma economia real boa e uma economia especulativa degenerada, o que esconde o aumento de ganhos e a crescente lucratividade de grandes empresas do dito “setor produtivo”: montadoras, megaempreiteiras e agronegócio, que praticam economia de escala e compõem, junto com os bancos, o neodesenvolvimentismo brasileiro.

 

8) “Marina está teleguiada pelo Itaú”

 

O Itaú foi o maior banco financiador da campanha de Dilma em 2010, atrás apenas de duas empreiteiras e o grupo Friboi, e na frente da Ambev (http://tinyurl.com/o8vaqlz). Embora demonizada em chave racista, como “patroa branca” da “serviçal” Marina, Neca Setúbal participou da campanha de Fernando Haddad (PT) à prefeitura de São Paulo. Na ocasião, não só foi chamada de “educadora” e não “banqueira”, como seu nome é escrito “Maria Alice Setúbal” e não “Neca” (http://tinyurl.com/qhqvu8w).

 

9) “Marina é teleguiada pelo pastor Silas Malafaia”

 

Silas Malafaia não é da mesma igreja de Marina, ele pertence à Assembleia de Deus Vitória em Cristo, que sequer pertence à Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil, que por sua vez é rachada em várias correntes autônomas. Malafaia, no primeiro turno, está apoiando Pastor Everaldo e já disse que Marina não é “candidata evangélica” (http://tinyurl.com/noyxtsy). Ele vai apoiar Marina no segundo turno. A Igreja Universal do Reino de Deus, do Bispo Macedo, apoia Dilma.

 

10) “Marina é contra a revisão da lei da anistia”

 

Dilma tem evitado se posicionar no tema, afirmando que “reconhece e valoriza os pactos políticos que nos levaram à redemocratização” (http://tinyurl.com/nceesrk). O Clube Militar, liderado por oficiais generais reformados na faixa dos 70-80 anos, emitiu uma nota bastante ambígua dizendo que Marina seria “fio de esperança” para pôr fim nos governos do PT, embora a tenha chamado de “messiânica” e desprezado a “nova política”. Dias depois, o Clube esclareceu dizendo que a nota anterior tinha objetivo de polemizar, e que seu candidato nunca deixou de ser Aécio (http://tinyurl.com/oq5o38g).

Publicado em 5 de setembro de 2014. Deixe seu pitaco.

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Eu sou ateu. Já tentei ser panteísta e panenteísta, que seria mais “filosoficamente correto”. Mas não consigo adotar o Deus de Spinoza e Einstein. Posso apreciar sua grande beleza, o vitalismo, o rigor ao mesmo tempo matemático e ético, mas fé não rola. Talvez sejam os hormônios. Porque sou ateu desde menino. A ideia de Deus jamais se instalou em mim.

Como ateu hormonal, arrogante como muitos, tive uma adolescência difícil. Zombava dos crentes, debochava dos livros religiosos, atribuía a fonte dessas ideias ao populacho supersticioso, à irracionalidade, à fraqueza emocional. De lá pra cá, me tornei menos cretino, embora os hormônios sejam os mesmos. Se existe algo como a maturidade, é dar um salto ético para enxergar no outro não apenas a diferença, mas um universo inteiro diferente com direito próprio. Uma ética que não é apenas reconhecer as crenças dos outros ao mesmo tempo que as atribui, bondosamente, a um déficit de esclarecimento ou à pobreza. Não há nobreza de caráter em julgar os valores e ideias dos outros com menor severidade do que se julga os seus próprios.

Tal salto ético me permitiu ver com mais clareza o corte político de minha intolerância. De família católica, na infância o repúdio ao catolicismo era ambíguo: secretamente admirava a sobriedade da liturgia, a harmonia dos rituais, uma tolerância humanística em não caçar o católico no íntimo de sua consciência: a prática dos sacramentos bastava. Sobretudo, eu reconhecia o trabalho social de pastorais e franciscanos. Sentia uma atração erótica pelos jesuítas, pelas rixas teológicas, por Padre Vieira e São Tomás. A mim, o credo evangélico agredia qualquer coisa de estético. Ofendia o bom gosto mais do que a razão. Já as religiões afro, para o adolescente ateu, significava o exótico: me atraíam menos pelo que diziam, do que pelo elemento de identidade que me permitiam agregar. Hoje vejo obviamente como todas essas posturas de filho esclarecido da classe média branca embutiam preconceito de classe e, claro, racismo.

Tantos anos depois, fiz essa recapitulação por um único motivo. Para defender Marina Silva. Não faço por nenhuma campanha. Primeiro, por não acreditar que mudar o presidente conduza, por si só, a uma mudança real. Só a continuação das lutas, como as do ciclo de 2013, podem tensionar o governo à esquerda, quem quer que seja eleito. Sem a continuação da lutas, o pemedebismo de todos os partidos e os patrões de todos os setores econômicos vão ocupar a governabilidade, independente do candidato eleito. Segundo, porque não devo sequer votar nela: estou mais propenso a, pela primeira vez, anular o voto, e se decidir votar, vai ser no Eduardo Jorge, com a melhor performance à esquerda.

Mas vou defender Marina Silva, sim, porque a eleição está escancarando as vísceras do que se entende como esquerda no Brasil. Suas tripas cheias de merda preconceituosa, congestionada de medos bovinamente cultivados por doze anos no pasto, confortos pequeno-burgueses e surdez epistemológica estão expostas nas redes sociais, nos jornais, na TV. Marina, como pessoa, é candidata mais aberta do que Dilma e Aécio. Tem maior capacidade de comunicação e composição, esbanja sensibilidade social, conhece de mais perto a pobreza, seu misto de privações e potências que marcam um caráter de generosidade e firmeza.

Marina foi católica e agora é protestante. Um flanco desnudo numa sociedade em que o catolicismo está naturalizado na paisagem histórica, e onde o corte católico/protestante corresponde, grosso modo, ao corte rico/pobre. Enquanto os católicos são associados às Luzes, à convivência e à tolerância, os evangélicos são remetidos às Sombras, ao fundamentalismo e à intolerância. Como se a Igreja Católica fosse favorável à legalização do aborto, quando ela é a inimiga maior dessa ideia no mundo, incapaz sequer de reconhecer a relevância da camisinha para o controle de epidemias globais.

É preciso defender Marina Silva, ai de mim, de Jean Wyllis. Jean foi irretocável em indignar-se em termos duros contra o fato que, num dia, o programa de Marina contemplou a quase totalidade da pauta LGBT para, no seguinte, recuar em pontos importantes. Compartilhei da decepção e escrevi a respeito. Mesmo que, apesar do recuo, o programa tenha ficado menos recuado do que o de Dilma, que teve 4 anos para avançar e não avançou um centímetro. Mesmo assim, foi péssimo para Marina. Porém, a declaração de Jean merece retoque, ao dizer que, no caso da última, o recuo se deveu a um obscuro fundamentalismo pessoal.

Erro! Erro ao considerar que um evangélico está essencialmente mais à direita do que um católico ou um ateu, *pelo fato* de ser evangélico. A inversão de causa e consequência embute intolerância. Bispo Macedo, Feliciano e Malafaia não são homofóbicos porque evangélicos: eles são homofóbicos evangélicos, que seriam tão homofóbicos se fossem católicos ou ateus, embora noutros termos, com outra estética. A irracionalidade não está na religião. Uma religião é tão racional quanto qualquer outra, seja católica, protestante ou afro, e nenhuma religião menos do que o ateísmo, que também depende de inclinações, de hormônios próprios. Se alguma posição fosse mais racional do que outras, seria possível convencer racionalmente os outros e eu posso garantir ao leitor, por experiência própria, que é absolutamente impossível convencer alguém a se tornar ateu.

Tudo isso para dizer que, vença quem vencer a eleição, a esquerda precisa de uma dignidade mínima que não tem nada a ver com moral. Tem a ver com uma ética da alteridade, ética da democracia, na base de um projeto de democracia que não se resuma a multiculturalismo cínico. Campanha eleitoral não é vale tudo. Dizer que eleição é guerra e a baixaria se justifica me parece aquele argumento de humoristas racistas que se isentam de responsabilidade porque é humor. Reforçar o fascismo social é assumir uma posição à direita. Não dá pra transigir. A defesa do que se entende por esquerda não pode ser incondicional, ou eufemisticamente “estratégica”, a ponto de depor as qualidades essenciais que nos sugerem continuar adotando a esquerda por campo.

Publicado em 4 de setembro de 2014. Deixe seu pitaco.

Publicado originalmente no Le Monde Diplomatique impresso de agosto de 2014.

Com Hugo Albuquerque.

adao copa do mundo fifa

A CBF entrou em conluio com a Fifa. O Brasil entregou a semifinal para a Alemanha, em troca do título olímpico de 2016, o único que a seleção ainda não tem. Para reforçar a compensação, a Fifa garantiu o direito de o Brasil sediar outra Copa até 2030. A contusão de Neymar não foi séria e ele poderia ter jogado as partidas seguintes, mas seu afastamento do time depois das quartas de final teve de ser arranjado, para dar mais verossimilhança à marmelada do jogo seguinte.

Essa denúncia tornou-se viral dias depois dos 7 a 1, lembrando imediatamente a carta que apareceu nas redes sociais após a final de 1998. Assinada por “Gunther Schweitzer”, supostamente diretor da Rede Globo, a carta relatava a venda da Copa da França para a anfitriã. Na ocasião, a seleção francesa derrotou a brasileira por 3 a 0, num complô armado entre CBF, Fifa e a empresa patrocinadora, a Nike. Mais tarde, foi apurado que a carta era apócrifa e que, embora exista mesmo um Gunther Schweitzer, na realidade ele é personal trainer em Mogi das Cruzes. Aparentemente, catástrofes nacionais de grandes proporções costumam fertilizar o solo para as teorias da conspiração, inclusive no futebol. Na Copa de 1998, elas tiveram repercussões reais: o caso chegou a ser discutido na CPI da CBF/Nike e Ronaldo foi convocado a explicar a suposta convulsão antes da partida.

Em O tempo que resta, Giorgio Agamben explica que rumores, entreouvidos e fofocas têm um estatuto discursivo próprio, que não depende da adequação aos fatos. Diante de uma boa fofoca, não estaríamos tão preocupados com sua veracidade, e sim com os sentidos pregnantes que ela carrega, na articulação de suspeitas, de um fundo de não dito insistente que se esgueira na conversação – ainda que a história, a rigor, seja totalmente falsa. É certo que não rolou mala preta para a seleção entregar o jogo à Alemanha.

Em tempos de neoliberalismo, ninguém duvidaria que a paixão pelo futebol não se tornasse objeto privilegiado para a comodificação, a gestão de marcas e esquemas elitizados e privatistas de controle dos clubes e seleções. Ao lado do encantamento do futebol, existe uma complexa economia política baseada no marketing e na negociação de valores milionários entre os grandes players do futebol empresarial. A compra e a venda, na verdade, ocorrem o tempo todo e o negócio está em todo lugar, embora não saibamos exatamente como acontece. O resultado dessa convivência é um mal-estar, na maioria do tempo mantido sob controle, mais ou menos disfarçado, mas que pode extravasar em momentos críticos – como no fracasso numa Copa.

No entanto, se o mundo do ócio criativo é a morada do futebol, nas últimas décadas a prevalência do negócio se impôs. Jogando bonito ou feio, com fantasia ou tédio, a meta do futebol-negócio é que, no final do campeonato, o dinheiro gere mais dinheiro e o valor de troca possa ultimar seu ciclo deixando o investidor feliz. E não adianta apenas reagir nostalgicamente, atrás do elo perdido do futebol brasileiro.

Desde pelo menos a Copa de 1990, a crítica futebolística tem adotado a dicotomia entre futebol-arte e futebol-força. Os dois, no entanto, são faces da mesma moeda em circulação. A força frequentemente deve parar a derrota geradora de dívida. A situação financeira requer retrancas teimosas e muitos volantes, para guarnecer o investimento. A longo prazo, porém, não é possível sobreviver num mercado competitivo sem capitalizar a imagem, mediante narrativas com heróis, vilões e viradas emocionantes. É quando a arte precisa ser reconvocada como artifício saudável ao capital em jogo. Durante muito tempo, “jogo bonito” foi o slogan da Nike. Não confundir com aquele encantamento tão raro de um Garrincha, que nada tinha de calculado ou previsível, quase gratuito em sua bela elasticidade. Beleza hoje geralmente significa cosmética, feita sob encomenda para o slow motion dos videoclipes e os anúncios do patrocinador.

Felipão tinha essa dicotomia na cabeça antes de escalar o time contra a Alemanha. Como substituir Neymar? Escalar outro meia-atacante, como Bernard ou Willian, ou colocar mais um volante? No fim, ele optou pelo “ataque”. Isso atrapalhou a crítica futebolística, que teve de revisar os editoriais já prontos, que explicariam qualquer fracasso usando a famosa teima retranqueira do treinador.

A seleção de 1982, gravada nos mitos como façanha irrecuperável de quando se “jogava bonito”, era realmente diferente. Era diferente menos pela mitificada “ofensividade” do que por um jeito próprio, comum àquela época. Situadas no entretempo de uma ditadura que pôs o futebol para funcionar como aparelho de Estado (via Cláudio Coutinho e a preparação física “moderna”) e do futebol-negócio dos anos 1990, as seleções de 1982 e 1986 repercutiram o horizonte alargado da infância da redemocratização. Uma época de renovação de lutas e movimentos sociais, cujo otimismo se apresentou num futebol capaz de proezas além da imaginação. Foi o futebol da democracia corintiana do Dr. Sócrates, da habilidade solta e feliz de um Zico, do gênio da técnica Telê Santana.

Hoje, não faltam atacantes nos muitos times que seguem o 4-2-3-1 hegemônico, mas eles desde cedo são convertidos em garotos-propaganda em tempo integral, deixando o campo de lado. Foi assim que perdemos uma geração inteira de centroavantes e pontas de lança.

O erro maior ao restringir o fiasco do futebol e da seleção aos termos do fetichismo tático é que um José Maria Marin, o presidente da CBF e ex-burocrata da ditadura militar, bem como a corte de cartolas, empresários, lobistas e protegidos podem passar despercebidos. No entanto, não dá para passar despercebido que a compra e a venda são diárias e a “mala preta” está diluída no funcionamento normal do futebol.

As seleções do Brasil dos anos 1980 corporificaram um estado de espírito e a dignidade de uma época. Em 2014, porém, o maior ato de rebeldia em campo foi um atacante que baixava o calção para fazer propaganda de cueca. Os protestos de rua ao longo da Copa, apesar de pequenos e dispersos, foram importantes ao expor as vísceras de instituições surdamente autoritárias. E as vaias à presidente, se pouco representativas perante o povão, tiveram o mérito pelo menos de gritar uma contradição de seu governo: construir estádios para um específico segmento social poder vaiá-la.

No meio disso tudo, os 7 a 1 foram um erro de continuidade incontornável, uma fratura na narrativa grandiosa do empreendimento da Copa. A profusão de teorias conspiratórias – essas expressões folclóricas do “inconsciente coletivo” – é, pois, um sintoma da ferida aberta. Os murmúrios, as teorias de bar e os boatos circulando freneticamente pelas redes e ruas dão apenas uma imagem da verdade – mas, a partir dela, da indignação e dos desejos que exprime, podemos começar a juntar os cacos para uma verdade histórica libertadora. Até a Copa de 2018, na Rússia, quem sabe, possamos impedir que continuem vendendo o nosso futebol.

 

Ilustração: Adão Iturrusgarai

Segundoturno

Apesar da campanha sórdida baseada no medo e na baixaria, Marina continua em alta nas pesquisas. Tenho visto uma bateria anti-Marina mais aguda até do que aquela mobilizada contra Aécio, usando a origem, a fé, a trajetória política dela. Mas simplesmente não está colando: as leituras de que se tratava de comoção pós-acidente, golpe de marketing ou febre passageira estão erradas. O fenômeno é robusto e já trouxe dias difíceis pra quem tinha a eleição resolvida. Isso é muito bom.

Em primeiro lugar, mostra como não adianta tentar desconstruir uma candidatura sem construir a própria. Continua valendo a máxima que a esperança vence o medo.

Em segundo lugar, muitas pessoas definitivamente veem em Marina a mudança. Veem não só uma alternativa à Dilma, mas uma alternativa a Aécio (que ela está enterrando politicamente) e uma alternativa aos votos brancos e nulos. Isso não é uma ilusão. Eu não nutro nenhuma ilusão. Não tenho nenhuma expectativa quanto a um governo Marina. Na pior das hipóteses, vai ser igual à Dilma: um governo ocupado pela direita. Na melhor, uma ligeira esperança de inovação. As lutas continuarão de um jeito ou de outro.

Mas não acredito que as pessoas estejam iludidas com o fenômeno Marina. Acredito, sim, que se esteja usando a candidatura de Marina para tensionar com um sistema político em via de esgotamento, o que é um grande ganho em termos de recomposição da política: embaralha as cartas, mexe com esquematismos e arranca a esquerda de sua zona de conforto. Força-a a pensar, ou então isolar-se.

As coisas mudaram. Vivemos tempos muito interessantes, frustrando quem achava que junho de 2013 tinha acabado.

Publicado em 31 de agosto de 2014. Deixe seu pitaco.

Marina Chico Mendes

Foi lamentável o recuo de Marina na questão LGBT. Perdeu a chance de escancarar como o pastor Silas Malafaia não representa o “povo evangélico” e não tem o poder que sua prepotência sugere. Perdeu a chance, também, de colocar-se mais à esquerda de Dilma. Marina meteorizou nas pesquisas na última semana e se tornou assunto discutido pelas demais campanhas, pela mídia corporativa, pelas redes sociais e os blogues de todos os matizes. Era uma boa hora pra firmar uma diferença em relação ao governo Dilma não só nos conteúdos, como também nas posturas.

Um dos maiores erros do governo Dilma foi guiar-se por “trackings”. Tendo se afastado de redes e ruas, o governo está há vários anos refém de sondagens encomendadas por agências de publicidade e interpretações marqueteiras. Essas pesquisam avaliam aquelas opiniões respondidas na lata, quando a pessoa não tem tempo nem interlocução para desenvolver o tema e tende a convergir, pelo próprio método da pesquisa, nas posições mais do senso comum. O governo troca a política pela “gestão de números” e com isso institucionaliza um tipo de “opinionato”. A sombra ameaçadora do opinionato então isenta-o de responsabilidade de tomar decisões sob a desculpa do risco de perder o eleitorado. Mas na verdade não é a maioria que é conservadora: o regime de comunicação que o é.

Marina vem embalada por um fortíssimo desejo de mudança de que junho de 2013 foi só somente uma expressão. Marina está atravessada por esse fenômeno, a tal ponto que a sua simples presença já põe em crise o sistema político polarizado por PT e PSDB sob fundo pemedebista. Mas fundo pemedebista não é somente a aliança com o PMDB, o toma-lá-dá-cá, a “correlação de forças”. É sobretudo um regime comunicacional que eterniza as mesmas opiniões de sempre, esvaziando debates, anulando dissensos e descafeinando as disputas. Se Marina quer fazer jus à força do novo, e diferenciar-se pra valer de Dilma, precisa subtrair-se da homogeneização conformista provocada pelo opinionato — uma tarefa que vai da organização à comunicação, muito mais complexa do que apenas anunciar-se como novidade.

Deleuze falava que, apesar dos idiotas, apesar dos homofóbicos, é preciso acreditar neste mundo. Marina tem uma qualidade que é acreditar neste mundo, onde uma candidata cristã evangélica pode, sim, se posicionar com mais ousadia em temas polêmicos, em vez de achar que a maioria é alienada, moralista e conservadora, refugiando-se em guetos ideológicos. Marina tem a qualidade de quem viveu as coisas do mundo, uma sensibilidade aberta. Estou decepcionado.

 

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Agradeço interlocução de Cleber, Hugo, entre outros, suas ideias foram usadas em parte.
Recomendo, sobre questões programáticas, o texto balanceado de Eli Vieira, no Amálgama (http://tinyurl.com/pvonjb5).