Publicado em 15 de junho de 2013. Deixe seu pitaco.

Quando voltamos à Presidente Vargas, logo depois do carnaval na ALERJ, devíamos ser umas mil e quinhentas, talvez duas mil pessoas. Circulava a ideia de que aquele lindo protesto deveria se encerrar na Central, o coração do sistema de transportes da cidade. O fato é que tudo poderia acontecer. Desordenados, nessa hora já sem carros de som e com poucas bandeiras, éramos uma massa flutuante, um exército brancaleônico, mas partilhando uma grande sensação de poder.  Derramava-se pelas ruas como uma mancha de óleo, sem lógica aparente.

Eu não conhecia quase ninguém, um bom sinal. Estava contente em, depois de um tempo, sentir uma marcha com tantos rostos diferentes daqueles que você costuma topar no circuito militante. Vi muitos jovens na faixa dos 20 anos, e também secundaristas, adolescentes encapuzados de quinze, dezesseis anos. Um número grande de mulheres, possivelmente a maioria. A fantasia da situação só podia embriagar quem se habituou a frequentar protestos com cem ou duzentas pessoas, geralmente as mesmas. Naquela quinta à noite, estava acontecendo. Afinal! Fica difícil avaliar agora, se é por causa da Turquia, do Passe Livre, da oposição aos governos, de uma cauda longa de coletivos, redes e grupos espessando forças, ou de uma insatisfação estrutural difusa, porém imensa, finalmente condensada no nível dos corpos. Em qualquer caso, o resultado era um primeiro tumulto à altura para confrontar o crime do poder do novo Rio.

Os fantoches da imprensa insistem que não tem motivo real por trás dos levantes, viveríamos numa época de desenvolvimento e prosperidade, com oportunidades para todos. O resto é baderna. Que seria induzida, irresponsavelmente, por minúsculos aparelhos pseudorrevolucionários. Me angustia só de imaginar que argumento usar com um jornalista que acredita sermos nós os manipulados por ideologias e agendas ocultas, e ele o guardião dos fatos e do interesse geral. Não sei nem por onde começar, para explicar que maior vandalismo consiste em demolir favelas, remover ocupações, caçar camelôs, artistas e moradores de rua, precarizar os serviços públicos, vandalizar o próprio corpo das pessoas, humilhá-las, espancá-las, torturá-las como política oficial de choque de ordem e modernização. A aniquilação de Pinheirinho, uma comunidade construída na alegria e autonomia, e que produziu 6.500 sem tetos da noite para o dia, não seria o maior exemplo de vandalismo? E o que acontece cotidianamente com os pobres, os negros, os índios… ou com os manifestantes em geral? Doravante presos só por se manifestarem, por portarem máscaras ou frascos de vinagre, presos até por levarem tiros de borracha (levou tiro? então tá preso!). Um vandalismo de estado que jamais alcança as manchetes negativas; pelo contrário, é incentivado e elogiado com a maior boa consciência, direto da comodidade do sofá, do almoço de domingo ou da rodinha de Outback.

Perto da Candelária, notei que os manifestantes não perdiam tempo com mais esse cinismo jornalístico, com o bom tom medioclassista, expulsando um âncora da rede Globo sob chuva de xingamentos. É a rua aplicando a sua própria Ley de Medios, já que o governo Dilma não tem “correlação de força”.

Essa juventude possivelmente perceba como já estão entregando um mundo pronto pra ela, onde ela não tenha muito o que fazer de diferente. Um mundo renderizado, paisagens plásticas do novo Brasil, construídas sobre a violência e a exploração, e onde a juventude tenha simplesmente que se adaptar. Adaptar ou fracassar. É preciso preparar-se obsessivamente para o mercado de trabalho, qualificar-se para a competitividade sem limites do crescimento econômico. Ser bem sucedido, custe o que custar. A crise aqui se desdobra como “crise do crescimento”, uma crise da subjetividade, de ter de participar de uma realidade que não construiu, nem com a qual se identifique, uma realidade insuportavelmente cínica. Hoje, a juventude não tem nenhum direito, nasce já abarrotada de deveres. Deve galgar um status para comprar apartamento bem localizado e carro particular, ter um bom plano de saúde, previdência privada, juntar o suficiente para colocar os filhos em escola particular, e assim por diante. E se não conseguir, a culpa é sua. Se está espremida dentro de um ônibus, é porque fracassou em comprar um carro. Se está sofrendo numa fila de hospital, é porque fracassou em pagar um plano de saúde. Não se esforçou o bastante, não teve mérito: a culpa é sempre sua. Nunca de uma organização social que não somente nega os direitos mais básicos (saúde, educação, serviços decentes…), como faz cada um sentir-se individualmente culpado por isso.

Vivenciamos levantes antissistêmicos.

Em tempos de prosperidade e crescimento, a população está soterrada de cobranças e culpas, e não lhe oferecem muitas opções para livrar-se do fardo, que não um inglório esforço de adaptação acrítica, ou autoajuda e terapias, ou tarjas pretas, ou uma combinação das três soluções. Daí eu possa entender um rapaz de 18 anos, com máscara zapatista, pixando painéis de publicidade, a agência do banco do brasil e o tribunal de justiça. É mais que “autoafirmação adolescente”, a típica acusação “adulta”, outro nome para estupidamente servil. O Rio de Janeiro renderizado da Copa e das Olimpíadas não tem um lugar de sujeito para esse jovem. Se a mídia oficial, a família e a escola o enquadram como impotente devedor social, num futuro com mil coisas de que é obrigado e nenhuma capacidade de expressão, o jovem vai lá e diz: não, não aceito. Quero outra coisa, nem que tenha de inventá-la. Tatuando a cidade, os monumentos cuja reverência e autoridade ele não reconhece, o “vândalo” reafirma o simples propósito de existir.

Na quinta, um pouco antes da Rua Uruguaiana, a polícia atacou-nos de todos os lados, de uma só vez, com força total. Ou, pelo menos, foi essa a percepção de quem estava ali exercendo pacificamente o seu direito à manifestação. Vieram com tudo, de uma vez, com o arsenal completo das novas armas: bombas, pimenta, tiros de borracha, gás. Como uma técnica eficiente de tortura, essas armas machucam bastante, mas não matam. O enxame atordoava e dispersava aos primeiros pipocos. Tentei não entrar imediatamente em pânico, embora muitos debandaram em minha direção. Me perdi dos amigos logo nos primeiros segundos. Quando abriu um clarão na massa, pude antever uma parede de escudos avançando, e ouvi balas ricocheteando na lataria da banca de jornal, a uns dois metros. A boca ficou seca. Antes de me convencer que talvez fosse a atitude mais prudente pular fora, o meu corpo já disparava por conta própria, sem olhar pros lados. Corri muito, com medo. A polícia exercia a violência para evitar a violência.

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O fato é que a sensação compartilhada de poder é inaceitável. A embriaguez da multidão ofende o poder constituído. Agride o bom gosto da polícia, do judiciário, da imprensa, assistir às pessoas achando que podem. Elas não podem poder. Nessas horas, a “sociedade de bem” quer colocar a bota na cara das pessoas e gritar: fica na tua, não pode!, e estampar na primeira página a imagem da derrota. Na hora do assalto, dá pra perceber o tesão sádico com que os policiais atacam e os jornalistas noticiam. Fazem para repor o monopólio da violência que a rua ameaça. Daí atacarem indiscriminadamente, nivelando todos como vagabundos (vândalos, baderneiros, terroristas…). É para ser assim, porque se trata de um ato cuja finalidade real consiste em asseverar: quem manda aqui sou eu! O resto é detalhe, e plenamente contornável por sindicâncias corporativas e muito mea culpa. O policial e o jornalista não sentem nenhuma culpa e poderão dormir tranquilos depois dos massacres. Seu gozo é completo não somente porque bata e humilhe, mas porque é comandado a fazê-lo. Pelos comandantes, pelos editores. Pode exercer a violência ilimitada, sentir-se poderoso e ainda por cima não arcar com a má consciência. Subjetivamente amparado pelo discurso oficial, alguém como Arnaldo Jabor está se lixando pras consequências e, tranquilo no travesseiro, se compraz de ter justificado a violência policial.

Numa rua próxima depois da correria, ainda desorientado, resolvi ir embora. No caminho do metrô, lembrei que fora por ali mesmo, nos arredores da Uruguaiana, que eclodira a Revolta do Vintém (1880). Há 132 anos, uma multidão insurrecta contra o aumento da passagem dos bondes em um vintém ocupou as ruas, arrancou os trilhos, depredou os carros e enfrentou a polícia. Na época, as armas eram 100% letais e dez manifestantes morreram. Contudo, foi uma das principais revoltas a alimentar a sangria até a queda da monarquia alguns anos depois, transformando o sistema político e social. Claro que, hoje, o império é muito maior e mais pervasivo. Mas as lutas também, em São Paulo, Salvador ou Istambul. Elas são globais e contagiam a grandes velocidades. Não é uma ação truculenta que vai desmobilizar globalmente, com tanto potencial de disseminação. Porque vamos voltar. Não adianta enquadrar o exercício constitucional da democracia como “formação de quadrilha” e fixar a fiança em R$ 20 mil. O medo está mudando de lado. Outros virão com certeza, para reforçar um presente convulsivo. Até a grande imprensa brasileira, na contínua forja da boa consciência estatal, está acuada.

A sensação de força coletiva não passa pelo corpo sem plantar dinamites. Já dizia um filósofo, as principais mudanças acontecem quando o desesperadamente necessário se encontra com o subitamente possível. Com mais razão ainda, quando começamos a perceber que o subitamente possível é nada menos do que o óbvio.

 

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Imagem: Luís Fernando Tófoli

Publicado em 11 de junho de 2013. Deixe seu pitaco.

Ligo o rádio e ouço que o trânsito está um caos. Desconfio imediatamente. O trânsito me parece muito organizado. Vejo fluxos turbulentos de ônibus, carros, motos, trens, indo e vindo do subúrbio ao centro e então do centro ao subúrbio. Todos os dias, ininterruptamente. São milhões de veículos abarrotados de uma gente resignada, olhares perdidos, no tempo morto do transporte diário. Vamos sentadinhos ou de pé, em qualquer caso comprimidos na massa de semelhantes de cara fechada. Acordamos cedo para enfrentar essa via-crúcis e no final do dia só queremos que acabe logo para chegar em casa, tomar banho e no dia seguinte subir a pedra de novo. São milhões e milhões de horas humanas gastas, jamais remuneradas. Pelo contrário, taxadas a preços que não param de aumentar.

Todos os dias nos acotovelamos, nos estranhamos, nos empurramos, passamos à frente, ou somos sobrepujados pelos mais espertos ou fortes. Brigamos por lugares apertadíssimos, repelindo a carne alheia. De carro, buzinamos, fechamos, brigamos com o motorista vizinho, xingamos o motociclista. A culpa é sempre do outro mal educado. Ou então é nossa, por ainda não podermos comprar o conforto do carro particular, por não morarmos ou trabalharmos no lugar correto. No mais das vezes, nos refugiamos nas mentes, lamentando a condição miserável de passageiro. Que passe logo.

Enquanto isso, uma dinheirama à noite estará depositada nos caixas dos ônibus, ficará nas bilheterias do metrô, do trem, das barcas, ou então estará trocada nos postos de gasolina, por ainda mais crédito medido em quilômetros para rodar no purgatório de asfalto. Esse dinheiro irrigará empresários, dirigentes, burocratas, campanhas eleitorais. Será reaplicado para tirar ainda mais valor dos fluxos. Não. Sejamos realistas. O trânsito está bem organizado. Nós somos a maior prova disso. Como poderíamos aguentar ainda outro dia, amanhã mesmo, se não tivesse sido pensado de cabo a rabo para funcionar assim? Só pode ser por que é para funcionar assim.

A grande imprensa faz crer que bastaria ajustar a eficiência do sistema, melhorar a gestão, reduzir a corrupção etc. Detalhes de minúscula importância. Vejo a TV chamando o trânsito de caótico, mas nenhuma palavra sobre o completo alijamento das pessoas na decisão sobre as linhas, as empresas, as obras e os equipamentos. A ausência de caráter democrático nas macro ou micro decisões no plano dos transportes é absoluta. Tampouco alguma reportagem, notícia ou artigo a respeito da confusão de prefeitura e empresa de ônibus, unha e carne num projeto político que vai das eleições à governabilidade. Nenhum jornalista dá nome aos bois. Aí quando um ônibus cai do viaduto, a culpa foi de um passageiro agressivo. Quando a mulher é estuprada numa vã ou num ônibus, a culpa é de alguns marginais. Escondem o fato que, por trás dessas exceções, subsiste uma regra menos confessável. Atrás do que o sensacionalismo diverte, há razões estruturais. O capitalismo é um sistema de dominação indireta.

Como se a tensão entre passageiros e motoristas/cobradores não fosse causada pelo ódio que todos têm dos ônibus. O que, por sua vez, exprime vicariamente o ódio que se tem pelo sistema de transportes como um todo. Isto é, pela simbiose entre prefeitura e empresa, numa gestão que parece operar mediante algum inacessível plano divino. Como se não fôssemos desgastados e estressados diariamente, até a exaustão mental (não fossem os tarjas pretas!). Como se as mulheres não tivessem de encarar, até a neurose, um abuso sexual sistemático, quase naturalizado pela indiferença com que esse abuso é observado pelos outros ao redor. Porque muitos homens se esfregam nelas nos veículos lotados, passam-lhes o pau, e alguns fazem isso como um ritual diário. Várias são estupradas nos pontos mais isolados, de dia ou de noite.

Antigamente, os escravos eram gastos no engenho e tinham de ser trocados a cada 7 ou 8 anos. Revoltavam-se demasiado. Fugiam. Culpavam o senhor. Hoje, a carne é moída pelo menos duas vezes ao dia, de manhã cedo e à tardinha. Mas os músculos e nervos a gente dá sobrevida com os modernos tratamentos da medicina do trabalho. Principalmente a televisão, a nossa maior terapeuta. A culpa geralmente é atribuída a nós mesmos, muitas vezes autoatribuída: se estamos sofrendo é porque fracassamos. Por não nos esforçarmos o suficiente para sair dessa vida de merda, como fulana ou beltrano…

Em vez de admitir como seria muito mais fácil, muito mais prático, lutar coletivamente por um transporte para todos, achamos que o problema é individual, que no fundo teríamos uma parcela da culpa, e nos resignamos. Imagine contudo o efeito político, se as energias que despendemos para, num esforço individual inglório, sair dessa condição e “subir na vida” fossem aplicadas coletivamente na luta dos transportes? Como teríamos um transporte muito melhor e para todos, do que tentar subir sozinho somente mais um degrau na escala de degradação generalizada da vida na metrópole?

Os movimentos e lutas do passe livre são a melhor saída. Talvez a única. Arregaçam à força um rombo no beco sem saída, aonde nos coloca a falsa oposição entre “público” e “privado”. Rejeitam em bloco as narrativas da grande imprensa, seus opinólogos e especialistas, de que faltaria gestão ou eficiência (e que o povo é mal educado). O problema do transporte afinal não é ele ser público nem privado, como estas também não são suas soluções. Nem ser mal gerido. O problema é e sempre foi falta de democracia.

E democracia, inexoravelmente, significa tumulto. O tumulto é o pulmão das democracias. É nele que atua o poder constituinte, o que faz a constituição e a lei não serem apenas folhas de papel para a exegese das faculdades de direito. Não devemos confiar a constituição a capas-pretas, cortes supremas ou ao francamente conservador discurso do “ativismo judicial”. O tumulto é o momento em que nós a fazemos nossa, e de onde dimanam todos os direitos e todas as instâncias democráticas. O tumulto é um ato de dignidade, o que só acontece ao irresignar-se diante do intolerável. A dignidade não é humana: é o oposto da humilhação. Uma das maiores e mais disseminadas violências hoje está no sistema de transportes.

Publicado em 1 de junho de 2013. Deixe seu pitaco.

O pessimista alegre acorda de manhã com uma ressaca terrível. Um pilão de dor afunda-lhe a testa, os olhos estão inchados e vítreos e a língua adquiriu a consistência de uma toalha. Tem de ir trabalhar em trânsito de segunda-feira. Ele ri. É uma merda, mas é bom. Como viver no Rio de Janeiro, para Tom Jobim. O pessimista alegre compreende que a ressaca repõe, renovada, a festa de ontem. As crônicas e o pouco de prazer e loucura daquela noite restauram a serenidade, enquanto se prepara para mais um dia sair à rua. É um pessimista, mas desse afeto curtido como arte não brota a resignação. Tampouco lhe interessam as preguiças doces da melancolia. Renova-se para seguir lutando, certo de que quanto maior a ressaca, maior a alegria.

O otimista desencantado, na festa, não pára de pensar na ressaca. Não sai da cabeça a ideia de que terá de acordar cedo para trabalhar. Essa ideia o esmaga, inafastável. Ele quase não sorri. É bom, mas é uma merda. Como Nova Iorque, para Tom Jobim. O otimista desencantado nunca se ilude. Está feliz, mas resignado. Percebe que a vida lhe confere pequenos prazeres, apenas para furtá-los posteriormente. É otimista na medida em que valoriza essas pequenas joias, o que verdadeiramente vale a pena, sob o pano de fundo de uma existência insatisfatória. De que adianta agitar-se com barulho? A marcha da vida se dirige para um fundo opaco, aonde escoam todas as coisas e quaisquer felicidades. O fim é sempre a morte. Toda juventude acaba, soterrada por pás de escuridão. É difícil renovar-se, uma vez que quanto maior a festa, maior a ressaca. Mas ele continua lutando.

Militante, o pessimista alegre reconhece as derrotas. Compreende o cerco se fechando sobre si, a pouca eficácia das ações e organizações. Exaspera-se frequentemente. Sente-se sozinho, prova o sabor das decepções, e não sabe se, no fim, venceremos. Provavelmente não. E ele ri. Mas não afirma que é assim mesmo. Não se recolhe na interioridade, nem passa a cultivar cosmovisões privadas contra o entusiasmo ignorante das massas. Jamais fatalista ou preguiçosamente melancólico. Se é assim, ou talvez por que seja assim, por isso mesmo, é preciso continuar, é preciso morrer tentando. A alegria, afinal, está na luta mesmo, nos seus dias de loucura e liberdade. Industriosamente, ele continua lutando, uma triste figura.

O otimista desencantado, por sua vez, enxerga nas derrotas o gérmen da vitória. Entende que, de erro em erro, se errará mais e melhor, até o acerto derradeiro. De derrota em derrota, até a vitória final. Mas nunca a vitória sem a derrota. Desdenha silenciosamente dos jovens que acreditam que o futuro esteja logo ali na esquina, inebriados por uma facilidade revolucionária que só existe na utopia. Porém, ultimamente desiludido, está preparado para perder, mesmo quando se reúnem as condições necessárias para vencer. Lamenta-se que, vencendo, já terá perdido, pois o aliado de hoje é o inimigo de amanhã. Será preciso matar amanhã o velhote inimigo que morreu ontem. O otimista desencantado faz, mas jamais se confunde com o que faz. Não se apaixona pelo que faz. Uma disciplina estoica move o seu ânimo, ciente das dores que terá de passar a cada vez. Industriosamente, ele continua lutando, uma figura triste.

 

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PS. François Zourabichvili (que se matou) atribui a postura pessimista alegre a Gilles Deleuze (que, doente terminal, também se matou), e o otimismo desencantado a Antonio Negri (que foi aos porões do inferno e voltou). Para Deleuze, o sentimento trágico do mundo não consiste unicamente em ter de defrontar-se com o sofrimento e a morte, mas, sobretudo, no fato degradante de só haver este mundo, o mesmo dos estúpidos. Dizer sim a este mundo só pode ser um ato de intensa alegria diante do intolerável. Para Negri, outro pessimista alegre, a passione não depende propriamente da vitória ou da derrota, e não está associada a alguma teleologia para a história. Está associada, sim, ao desejo e à cupidez que impelem as pessoas a cooperar, imaginar juntas e construir a própria liberdade. Não garantem muita coisa, senão o sentido preenchido por uma força interna que nem mesmo prisões, mortes e campos podem calar. Para o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, a tarefa que se impõe hoje é conseguir acomodar no pensamento, ao mesmo tempo, a previsão (indiscutível?) de que o mundo já tenha acabado, com a ideia oswaldiana que a alegria é a prova dos nove. Como se pode viver alegre num mundo em extinção? Há algo de verdadeiramente pregnante no paradoxo, independente das condições de contorno da formulação.

 

Publicado em 29 de maio de 2013. Deixe seu pitaco.

Resenha de SINGER, André. Os sentidos do lulismo; reforma gradual e pacto conservador. São Paulo: Cia. das Letras, 2012.

O livro tem a qualidade de não padecer do banzo pós-Lula. Contra os catastróficos do “quanto pior, melhor”, André lembra Tocqueville, que enxergava as condições revolucionários nos períodos de prosperidade. Com um final honestamente aberto e prospectivo, o ex-porta voz da presidência não renega o trabalho do lulismo, cujas contradições e paradoxos não deixa de sublinhar. O governo Lula plantou a perplexidade no seio da esquerda. Contradição, por sinal, que aparece no tom do livro, registro de muitos impasses e limites do próprio objeto que analisa. Se a leveza e os afetos alegres são grandes qualidades, o defeito aparece quando intervém outro afeto, negativo, que ao longo do texto vai deixando marcas.

Embora tão perto do calor da experiência do governo Lula, com sua dose de leninismo e do bom Maquiavel, André não escapa da influência da Lua do Butantã: suas teorias assombradas por moinhos satânicos, ornitorrincos inexplicáveis, avessos conspiratórios e o esplendor irreversível do estado de exceção. André não coaduna, nas conclusões, com essas teorias, mas elas estão por perto nas análises, quase à espreita de um vacilo.

Fala-se na síntese paradoxal das duas almas do PT, aquela combativa e militante, com forte teor anticapitalista, dos anos 1980-90, esta apaziguada e burocrática, controversamente socialista, dos anos 2000-10. Não dá pra negar alguma nostalgia do antigo PT, do que ele chama “espírito de Sion”. Sem, no entanto, deprimir-se meditabundo de tempos que realmente não voltarão. André também reconhece os méritos da nova alma, do “espírito do Anhembi”, como condição indissociável da construção e dos méritos do lulismo.

Para o autor, o lulismo nasce do encontro de Lula com o “subproletariado”. Este se compõe dos despossuídos e deserdados, daqueles na faixa mais desfavorecida de renda, acesso e direitos. Uma camada com dificuldades crônicas para se organizar, composta de grossa gente vivendo exclusivamente no presente, vulnerável às intempéries da economia e da política, em suma, imersa na “lei da sobrevivência”. O lulismo emerge quando essa fatia significativa da população brasileira encontra no programa de Lula uma grande oportunidade para mudar de vida. O encontro se dá ao redor das políticas sociais massificadas, especialmente a transferência de renda, assumidas como prioridade do governo.

Se, antes do governo Lula, era mobilizado por promessas populistas da direita, por aqueles que de uma forma ou de outra poderiam negociar alentos; o subproletariado resolveu aderir em massa ao projeto lulista. O governo Lula concretizou, dessa forma, a sonhada manobra do PT de enraizar-se nos grotões, favelas e periferias, revertendo a rejeição histórica e conquistando hegemonia inclusive no Nordeste, na terra por excelência dos coronéis. O subproletariado deu ao governo Lula uma sustentação inédita a qualquer outra força organizada de esquerda da história do Brasil, suportando-o inclusive nos períodos mais críticos de bombardeio pela grande imprensa, como no caso do “mensalão”.

De 2002 a 2006, o núcleo de apoio a Lula migra das classes médias urbanas para o subproletariado, enquanto as primeiras vazam parcialmente para o PSDB. O fenômeno se confirmou, além do personalismo, com a eleição de Dilma, em 2010. A formação do lulismo determinou um ciclo político longo, um substantivo realinhamento eleitoral. As políticas sociais de Lula se tornam o terreno irrenunciável da arena política, por onde passam a caminhar todos os partidos e candidatos, magnetizando até a oposição. Se, tradicionalmente, a direita mobilizava o subproletariado para chantagear a esquerda, quase com um poder moderador de veto, agora a direita se vê forçada a convergir no programa lulista.

O efeito principal do lulismo, rapidamente percebido, foi espessar o mercado interno. Com a priorização das políticas sociais, grande parcela da população se integrou no mercado de trabalho e consumo. A trava máxima do subdesenvolvimento — a miséria — começou a ser superada, desbloqueando um enorme potencial produtivo, o que viria a garantir a passagem relativamente tranquila do Brasil pela crise do capitalismo de 2008-09. Com as múltiplas políticas, o subproletariado deixou de ser o “aglomerado inorgânico e heterogêneo, sem estruturação econômica” (Caio Prado Jr.), para afinal participar da vida produtiva do país e, assim, galgar status social.

A que custo?

Para Singer, neste ponto banhado pelas emanações da Lua do Butantã, ao custo principal do esvaziamento do conteúdo anticapitalista, com o consequente esvaziamento da luta entre esquerda e direita. Dessa equação, resultou um “reformismo fraco”, sem incomodar o grande capital, ou mesmo favorecendo. Ao invés do conflito que um “reformismo forte” solicitaria, Lula prefere a posição arbitral, mediando as classes. Compromete-se, em decorrência, o espírito de Sion, o PT de luta.

Desde a campanha de 2002, Lula tratou de forjar uma imagem ordeira, de “paz e amor”. O livro explica que o subproletariado, no fundo, nunca se pautou pela radicalidade nem se cativou por ideias anticapitalistas. Nos anos 1980, hostilizava greves a ponto de apoiar o envio de tropas militares para reprimi-las. A condição vulnerável dessa classe a induz a prezar pela sensação de segurança, que a ordem e a autoridade podem propiciar. Seguindo esse raciocínio, André não hesita em atribuir ao subproletariado um conservadorismo histórico, alimentado por de séculos de colonialismo, ditadura e exclusão.

Contudo, diferentemente de parte dos críticos ao lulismo, para o autor a sociedade brasileira não se desmobilizou nesse processo. Muito menos se despolitizou. É que a lógica do conflito, agora, se dá entre ricos e pobres, e não mais na chave proletariado x capital. E, aqui, novamente o autor segue a tese da regressão política do lulismo em relação ao “espírito de Sion”, ao estado da luta de algumas décadas antes.

André reivindica realizar “análise de classe”. Por que isso seria importante? Por um lado, porque é uma análise assentada na constituição de um sujeito que intervém na realidade. É exigência de quem deseja transformar a realidade, o que depende da ação de um sujeito em constante organização. A análise de classe permite não apenas interpretar a conjuntura histórica, mas antecipar-lhe pontos de ruptura e pesquisar pelas tendências transformadoras, que esse sujeito porta. Por outro lado, costuma ser uma boa ferramenta para a prática, uma vez que a classe em questão só se manifesta na luta (de classe). O sujeito que age como classe está em luta, então a análise, quando bem determinada, não deixa de ser uma pesquisa nas lutas e das lutas.

Bom, mas é mesmo Os sentidos do lulismo uma “análise de classe”?

Eu penso que, até aonde se proponha a ir, essa análise seja alusivamente correta mas politicamente insuficiente. Não há dúvida que o lulismo contribuiu para a integração do capitalismo no Brasil. Ainda que em condição precária e informal, eles passaram a batalhar por futuro. Mais capacitados para trabalhar e consumir, os integrantes do subproletariado engrossaram os circuitos de valorização do capital, canalizando os fluxos de trabalho aos vertedouros de mais-valor: os bancos, os fundos, os credores, as grandes empresas. A expressão “mercado interno” não é outra coisa que não o fortalecimento da economia “desde baixo”.

O problema dessa análise, no entanto, está em fazê-la apenas pelo lado das condições objetivas. Quer dizer, a análise reconhece a integração do subproletariado na modernização à brasileira, mas não se desenvolvem as contradições internas ao processo. Não se vê o outro lado, o que nessa integração transforma a própria modernização. André se restringe a sentenciar que o subproletariado deseja adaptar-se ao funcionamento existente, para assim ascender socialmente e jogar o “jogo”. Assim, ele pode e quer desaparecer como subproletariado. O que, à primeira vista, parece coincidir com a tese marxista de que a missão histórica do proletariado é abolir-se enquanto classe, é na verdade o seu oposto. O proletariado deseja abolir-se porque deseja destruir a sociedade de classes. E não porque pretende integrá-la acriticamente, como se pudesse existir uma sociedade de classes só com burgueses (a utopia liberal, geralmente cínica).

Disso, fica claro que o “subproletariado” não é uma classe, do ponto de vista da luta de classe. Faltam delinear-lhe as condições subjetivas. Falta explicar o que, no seio do “subproletariado”, resiste à dominação classista e formula, desde baixo, uma alternativa constituinte. Quais são as condições subjetivas do lulismo? Que não sejam a alienação e passivação das massas: o que seria reproduzir a velha visada reacionária sobre um povão ignaro. Seguindo Marx, poderia ser formulada a pergunta sobre a subjetividade do lulismo: como ver a nova composição social do ponto de vista das forças produtivas, e não somente das relações de produção? Noutras palavras, o que há de criação e afirmação de outro mundo, de uma sociedade sem exploração e violência, por dentro da nova classe que vem nas bases do lulismo? O que compõe as forças vivas e produtivas do lulismo, sua própria composição de classe? O que ela produz de diferente, que o lulismo potencia?

Essas perguntas sequer são colocadas. André se limita a postular uma espécie de anticlasse, o “subproletariado”, cujo desenho tende a um conservadorismo intrínseco. Vale provocar: o subproletariado que, uma vez reconhecido, quer se integrar acriticamente à sociedade existente, não se parece com a figura do mestiço? Pela via transversa, o subproletariado não seria o mestiço de parte da literatura da formação do Brasil que, uma vez elevado pela modernização emancipadora à condição de cidadão, perde a cor, i.e., se embranquece? Embranquece: adquirindo os valores, os sentidos de futuro e os protocolos de convivência do colonizador branco, tornando-se ele. Em vez de acordar do sono colonial, o lulismo só propiciaria um reforço da ordem dominante, aprofundando-a e estendendo-a. Com isso, o desejo dos pobres acaba reduzido a uma procura passiva por segurança e pertencimento, ignorando-se todo o desejo por não só viver em condições objetivas melhores, mas viver (n)outra sociedade, (n)outro Brasil.

A classe trabalhadora e seus rituais de esquerda, de fato, viraram suco. O que nos deveria alegrar. Não há nada a lamentar aí, se pensarmos que o projeto intrínseco do proletariado é mesmo dissolver-se. O caso é, sem nostalgia, pegar a geleia geral do kitsch e, das massas, produzir o biscoito fino. Disso já prefigurava a geração tropicalista, quando devastava criticamente a modernização à brasileira, antes mesmo dela se concretizar com tanta amplitude. Como queria Oswald, na descida antropofágica: é preciso sondar as forças sociais em estado ativado, no que derivam dos grandes marcos civilizatórios da própria modernidade. É pesquisar na estrutura produtiva do presente, os pés no chão, onde está a nova classe, o novo trabalhador e, em consequência, a nova esquerda. A esquerda não faliu: mudou.

André tem a consciência que o lulismo é mais do que uma solução arbitral do alto, a serviço das elites, perversamente traidora da tradição das lutas, com efeitos e resultados meramente objetivos. Seu livro não é catastrófico, e ele faz concessões aos interlocutores. As contradições podem ser lidas como ambivalências, assim como nos paradoxos habitam enigmas cuja análise deve ser continuada e desenvolvida. A abertura e a alegria com que encerra o livro dão prova da generosidade de quem não consegue se divorciar da experiência vívida do lulismo. Muitos a compartilham.

Publicado em 27 de maio de 2013. Deixe seu pitaco.

Os jesuítas inauguraram a primeira experiência socialista no Brasil. O sonho de uma sociedade harmônica e unitária, voltada para o bem comum, começou nas missões. A catequese prometia tirar o índio da danação de uma condição animalizada. Em cruzada civilizatória, os padres enfrentaram a sanha dos grandes proprietários, impacientes por apresar o índio e empregá-lo como músculo na lavoura, no engenho e em trabalhos domésticos. As bandeiras se multiplicaram, conduzidas pela subraça valente dos mamelucos paulistas, não dando trégua aos povoados jesuíticos. O socialismo precoce durou quase 250 anos, até ser abortado pela Coroa, cujo projeto se baseava no latifúndio escravista, sem margem a humanismos bem intencionados. O navio negreiro e os milhões de africanos importados completariam o painel da formação do Brasil, esparramando o país do mestiço proteiforme. Isto é, destroçado de suas culturas originárias, fabricado sob medida por um biopoder colonial.

Há cerca de 200 anos, o trabalho sofreu uma grande transformação no mundo. A energia muscular cedeu lugar para a maquinaria. As fábricas reorganizaram a sociedade, inundando-a de produtos que precisavam ser produzidos, distribuídos e consumidos. Aqui, no lugar do escravo, a empresa colonial passou a necessitar do trabalhador assalariado. A transição foi lenta, durou um século. O povo rude e pagão da ex-colônia não se prestava ao novo papel. Foi preciso importar uma raça mais preparada: o colono europeu e asiático. Talhado em valores de mármore, embranquece a gentarada indolente, fatalista e não-confiável que aqui habitava. O país teve sua primeira industrialização e sua primeira urbanização, sobre um racismo modulado.

Dentro da nova composição social, fermentou outra experiência socialista. Baseada nos sindicatos, ligas camponesas e nos primeiros partidos comunistas, se organizou para construir outra sociedade, mais justa e igualitária. Pelo menos por uma década inteira, explodiram protestos, marchas, colunas e discursos inflamados. Essa experiência também foi abortada, com a instalação do estado novo, imagem e semelhança da direita europeia. Resultado do pacto entre a ascendente burguesia nacional e as oligarquias agrárias, a primeira modernização não se divorciou do racismo de classe, que passou a reproduzir.

A formação da nação prosseguiu com mais industrialização e mais urbanização. O regime autoritário foi substituído por uma democracia segundo os bons costumes da nova ordem mundial. A construção do socialismo passou a ser invocada por uma delgada camada branca e ilustrada das grandes cidades. Opondo-se à direita representante das velhas elites proprietárias, e a quem propunha uma integração acrítica ao mercado mundial, a esquerda adotou o nacional-desenvolvimentismo. Seu principal argumento foi combater o patrimonialismo, em nome de um estado em prol do interesse de todos. Segundo a tese patrimonialista, o Brasil continuava atrasado por causa de seus dirigentes, que aparelhavam o espaço público com interesses privados. A cobiça particular frustrava a alta razão universal.

Mas não só. A culpa também era da alienação e passividade das massas. Não se mobilizava e organizava politicamente, como o sadio proletário europeu. O mestiço brasileiro reaparece como povão, um aglomerado inorgânico e heterogêneo, sem estruturação política. O mestiço incoerente, afinal, não era capaz de concrecionar valores de mármore, não tinha visão de conjunto, não compreendia o mundo ideologicamente. Não podiam assim ascender à razão desinteressada. Eram guiados essencialmente por estômago e sexo, e daí mais tolerantes diante do autoritarismo e da corrupção. Congenitamente inaptos para a consciência política, tornavam-se reféns da manipulação pelos donos do poder. Cabia àquela esquerda branca e ilustrada, como consequência lógica, conscientizar (liderar) as massas amorfas, indo à fábrica, subindo o morro e desbravando os grotões. Tempos de cepecismo cultural, de uma pedagogia cívica onde o próprio militante de esquerda, sempre dileto filho das elites, se colocava como medida de todas as coisas. Essa experiência também foi abortada e, eventualmente, exterminada em seus filões mais radicais.

O Brasil, afinal, se formou. A industrialização chegou a bom termo, formando uma burguesia brasileira destravada o suficiente para ordenar um estado autenticamente nacional. Conseguiu impor a unidade política do território, forjando uma identidade postiça. O estado-nação Brasil conquistou os bens de produção e realizou o milagre econômico. Por ironia da história, nesse instante, aconteceu outra grande transformação do trabalho. Sai a era do aço, entra a do silício. O mundo solicita capital cognitivo. Época doravante de terceirização, terciarização, flexibilidade, globalização financeira. O paradigma da formação do Brasil volta à pauta, redimensionado para o contexto. Novamente acusando o mestiço proteiforme, inepto para ciência, e desqualificado às exigências de “um mundo sempre em mutação”, direita e esquerda atribuem à falta de educação a origem última da condição inferior.

A construção do socialismo se reorganiza, desta vez num partido crítico dos rituais do nacional-popular e das soluções pelo alto. Capilarizado por sem terras, operários, negros, mulheres e índios, o partido pacientemente se constrói sobre o cenário arrasado pela ditadura. Propõe superar o vínculo interno de atraso e desenvolvimento, conjugando modernização e emancipação. Quando o partido, após mil escaramuças, finalmente chega ao poder, parte da esquerda branca e universitária se diz traída. Esta esquerda, embora tenha participado dele desde o começo, trouxe nas costas os valores de mármore do universal, que ecoam desde os antepassados jesuítas. Não conseguiu se livrar do ranço, apesar do contato com as forças vivas da terra. O governo teria abandonado a construção do socialismo e, sem firmeza moral, sucumbido a pressões e correlações. Os pobres não concordam. Conferem um suporte inédito ao governo. Além das condições objetivas, os pobres se mobilizam produtivamente. Acontece a primeira integração abrangente no mundo de trabalho, consumo e universitário. Uma integração contraditória. Mas em todo caso, eles se organizam desde baixo, minoritariamente, e formam o rico estofo subjetivo do lulismo. Se existe algum espírito de Sion, ele está vagando, qual alma penada, atrás da miragem de missões extemporâneas.

Em pleno século 21, vemos a vingança do índio, do negro, da raça rude e pagã dos pobres. Deserdada das terras e direitos, moída pelo engenho, gasta pela lavoura, humilhada diariamente na casa grande, fabricada como mestiço disforme; outra vez ela retorna das entranhas da formação do Brasil. Indigesta favela, signo da aldeia e do quilombo, é refugada como sempre: lúmpen, “ralé”, “subproletariado”. Mas a favela se afirma. Rejeita o olhar de lázaro daqueles que, das missões aos abolicionistas, dos partidões ao partidinhos, do cepecismo ao esquerdismo, pretendem guiá-los em direção à luz branca da branca razão.

Os índios não eram preguiçosos primitivos: tinham uma sociedade sofisticada cujo trabalho era outro. Seu pensamento selvagem antecipou as humanidades contemporâneas. Os negros não foram libertados: se libertaram na insurreição e no êxodo. O mestiço foi cabano e balaio e fez Canudos. O treze de maio é um insulto. Quando o trabalho se transformou no mundo, se fez em primeiro lugar para contornar a sedição generalizada da raça rude e pagã. Para continuar sugando a mão-de-obra, por outros meios. Se os escravos, na revolta coletiva ou solitariamente insurrectos, tornavam o sistema escravista cada vez mais insustentável, — introduzem-se as fábricas e o operariado com salário. Como resposta àquela luta. Depois, se os proletários massificam nas cidades uma insatisfação crônica, a sobrecarregar o capitalismo até o colapso, a sucessivas crises mundiais, — descentraliza-se a produção e se maquiniza ainda mais a sociedade. Passa-se a explorar difusamente a situação de precariedade e pobreza, na figura do operário social.

À frente de modernização, corresponde um processo antecedente de recusa, revolta e criação de alternativa. Se o moderno foram as missões, as fábricas e hoje o cognitivo; as lutas estão simultaneamente antes e depois da modernidade. Nesse sentido, os índios, os operários e os pobres em geral não são pré-modernos, mas pós-modernos. A utopia na cabeça alinhada com a promessa de modernização, — crédula numa versão “à esquerda”, racional e socialista de seus mesmos pressupostos, — não faz mais do que acompanhar o capitalista e colonizador. Serve-lhe, aliás, de boa consciência. Mas como a raça bárbara nunca a acompanha verdadeiramente, — senão, quando muito, no jogo tático e nos vaivéns da conjuntura, — essa pauta de “construção do socialismo” só pode culminar na frustração e na melancolia. Tomada assim, a história das lutas é além de história das derrotas, a do próprio derrotismo.

Falta ainda construir um ponto de vista de classe. Não falta. Ele já está. Incandescente, nas entrelinhas. Já está no incessante êxodo do Brasil, além da narrativa da formação, nas raças reconstruídas a partir do sofrimento e da luta. Elas se crispam e uma vez mais emergem eriçadas.

Publicado em 18 de maio de 2013. Deixe seu pitaco.

Em abril deste ano, mais de 200 índios ocuparam o plenário da Câmara dos Deputados, em Brasília. Protestavam contra um projeto que transfere a decisão final para a demarcação das terras indígenas do Poder Executivo ao Legislativo. Os índios chegaram sem aviso, tomando de assalto o plenário. Vários deputados fugiram amedrontados, enquanto outros ficaram para assistir, atônitos, à algazarra raivosa e alegre. Os índios sabiam que não podiam contar com um parlamento sem representatividade, nada confiável, cuja pauta conservadora vai da vedação ao casamento homoafetivo ao horror em legalizar o aborto, que ainda é crime no Brasil.

Um mês antes, outros ativistas indígenas – tucanos, guaranis, pataxós, guajajaras e outros – foram removidos da Aldeia Maracanã, adjacente ao estádio. Erguida em 2006 num terreno baldio ao lado do desativado Museu do Índio, com o propósito de transformar-se num centro de referência indigenista, a aldeia congregava dezenas de índios de várias tribos. Ela vinha ameaçada há alguns meses em razão das obras de preparação do complexo do Maracanã para a Copa do Mundo de 2014.

A resistência ao “urbanismo de choque” reuniu militantes, punks, estudantes, anarquistas e coletivos revoltados com o processo mais amplo de higienização por que passa a cidade do Rio de Janeiro. Não foi suficiente, diante do rolo compressor a serviço dos megaeventos e seus interesses de classe: os ocupantes foram removidos em truculenta ação policial, enquanto os telejornais se limitavam a noticiar que a operação atrapalhava o trânsito.

No ano passado, durante a conferência da Rio+20, os indígenas protagonizaram os momentos mais críticos dos protestos contra a cúpula global das sociedades de estado. Eles ocuparam a sede do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, o banco federal que administra diversos fundos públicos para reinvesti-los segundo as diretrizes do governo. É um dos principais financiadores das grandes obras e projetos do neodesenvolvimentismo brasileiro. Toma-se emprestado da poupança popular e fundos dos trabalhadores para aplicar conforme as altas e inacessíveis razões da ciência estatal.

Como, por exemplo, na construção da gigantesca usina hidrelétrica de Belo Monte, no Rio Xingu. Seu canteiro de obras foi ocupado no começo de maio por cerca de 150 índios indignados, principalmente do grupo Mundukuru. Também dobrados pelo cerco das forças federais, ajudado pela completa surdez da grande imprensa, semanas mais tarde. Voltando à Rio+20, em junho de 2012, foram os índios os únicos a confrontar diretamente a conferência internacional. Cerca de 500 indígenas se destacaram da marcha de movimentos sociais, que incluía os tradicionais Movimento dos Trabalhadores Sem Terra e Via Campesina, cujas lideranças já haviam transigido, comportadamente, em não avançar sobre a área de segurança ao redor do pavilhão de eventos. Os índios rejeitaram o acordão e partiram para cima de um dos bloqueios militares, levando o governo e negociar o acesso para doze caciques presentes.

Entre os doze, estava Raoni, 80 anos, o chefe guerreiro caiapó que, desde a ressurgência do indigenismo brasileiro no final dos anos 1970, vem lutando pela reconquista das terras, direitos e riquezas para a população indígena. Em entrevista recente, Raoni disse que tem trabalhado para vencer a presidenta Dilma. O cacique se refere ao desafio não só das mobilizações indígenas, como também do campo da esquerda, em combater ações de um governo sucessor dos anos Lula que justifica a violência de classe e raça com o desenvolvimento econômico, a integração do país e a inclusão social.

Não se coloca em questão a integração massiva no mercado de trabalho e consumo nos últimos quinze anos, segundo o padrão furtadiano de desenvolvimento com base na “economia interna”, industrialização e geração de emprego, o que tem guiado boa parte do pensamento econômico sobre o subdesenvolvimento. O que se questiona é como os dínamos dessa modernização acabam por moer as minorias e formas alternativas ao Brasil Maior, ao “Brasil que deu certo”, para produzir a paçoca do novo trabalhador brasileiro. Exaltado em sua diversidade proverbial, achatado contudo na feição integrada e obliterante ao mercado mundializado, suas exigências de engajamento ao trabalho, autoempreendedorismo e precariedade. A conscrição em massa a participar do novo Brasil do trabalho unificou o espectro ideológico, uma disputa de projetos de gestão (mais estatal, ou mais mercado). Cimentam-se as classes e raças, e todos os agregados sociais a quem se atribui o “arcaico” e a “pobreza”,  no consenso nacional-desenvolvimentista, da esquerda à direita, dos anos 1950 ao novo século: enfim realizado e mesmo dignificado em sua grande missão civilizatória contra o atraso e o absenteísmo.

Em vez da conclusão de que aconteceu um abandono generalizado do caráter de esquerda, pelas organizações e grupos que tradicionalmente assim se reinvindicam, — o que costuma conduzir ao velho tribunal esquerdista de traições e linhas justas, numa quase neurose de estar sempre “mais à esquerda” — trata-se de mudar a própria noção do que seja luta de esquerda hoje.

Não é outra a definição de classe – senão luta contra um esforço político de unificação, que escamoteia as divisões internas do tecido social a serviço de metas econômicas inaceitáveis. Nesse esforço, capitula a boa consciência do “menos pior”. O devir-índio das lutas no Brasil, que vem entusiasmando coletivos e militantes de várias tendências, é uma via transformadora de tudo isso que insiste em se filiar à tradição dos resistentes. Sem nenhum romantismo, sem mito do “bom selvagem”, a radicalização de uma recusa.

Publicado em 16 de maio de 2013. Deixe seu pitaco.

Minha lista absolutamente pessoal de livros brasilianistas:

1. Os sertões, Euclides da Cunha, 1902.

2. Manifesto da poesia pau brasil / Manifesto antropófago, Oswald de Andrade, 1924/1928.

3. Casa grande e senzala, Gilberto Freyre, 1933.

4. A formação da literatura brasileira, Antonio Cândido, 1957.

5. A formação econômica do Brasil, Celso Furtado, 1959.

6. A fenomenologia do brasileiro, Vilém Flusser, 1971.

7. A revolução do cinema novo, Gláuber Rocha, 1980.

8. Dos murais de Portinari aos espaços de Brasília, Mário Pedrosa, 1981.

9. Viva o povo brasileiro, João Ubaldo Ribeiro, 1984.

10. Orixás, os deuses vivos da África no Brasil, Abdias do Nascimento, 1995.

11. O povo brasileiro, Darcy Ribeiro, 1995.

12. Alegorias do subdesenvolvimento, Ismail Xavier, 1997.

13. Brasil: mito fundador e sociedade autoritária, Marilena Chauí, 2000.

14. A Inconstância da alma selvagem e outros ensaios de antropologia, Eduardo Viveiros de Castro, 2002.

15. Mundobraz: o devir-mundo do Brasil e o devir-Brasil do mundo, Giuseppe Cocco, 2009.

16. Os batalhadores brasileiros, Jessé Souza, 2010.

 

Publicado em 14 de maio de 2013. Deixe seu pitaco.

Foi em 2011 que tudo recomeçou. Vimos e participamos de ações globais inspiradas, primeiro de tudo, pelas imagens da Al-Jazeera, youtube e blogues, retratando grandes enxames de revoltados pelas ruas e praças da Tunísia, Egito e vários outros países árabes. A primavera árabe atravessou o Mediterrâneo na direção norte, refazendo o percurso da “nova ciência” na Idade Média, contagiando o verão europeu com o 15 de Maio e, a seguir, no outono do Occupy em centenas de cidades da América do Norte. Com revoltas em Londres, Portugal, Grécia, Israel, da Praça Tahrir à Puerta del Sol à Zuccotti Park, foi um ano em que o medo passou pro lado de lá. Pessoas no mundo inteiro, do Brasil à China, voltaram a acreditar na transformação do sistema estatal-capitalista, para o horror das classes dominantes.

Hoje, mais de dois anos depois, é preciso reconhecer que esse movimento perdeu o ímpeto, reduzindo-se muitas vezes a grupelhos autocentrados, incapazes de olhar além do próprio umbigo. Apaixonaram-se por si mesmos, formalizaram-se, como se os protestos tivessem nascido do nada, de sua própria lâmpada pessoal, sem memória, em vez de perceber a transmissão de impulso de e para outros tumultos, movimentos e agitações. Em muitos casos, descontextualizaram-se.

Uma das causas dessa lenta, porém nítida exaustão, estava embrionária na continuação europeia das revoluções árabes. Estas rejeitavam a modernidade colonial, uma tecnologia de poder eminentemente eurocêntrica. Revoltavam-se contra ditaduras bancadas pelas potências ocidentais, apoiadas sobre uma ordem biopolítica racista. Essa ordem encabeçada por Mubarak, Ben Ali e outros ditadores desqualificava os próprios cidadãos, especialmente os pobres, segundo diversos graus de “atraso”, ao passo que se exibia internacionalmente como governos modernizantes e plenamente integradas ao mercado mundial. As famílias dirigentes vestiam grifes e estudavam na mais vetusta academia europeia, importando a mais avançada política econômica.

Diante dessa modernidade, os insurrectos do norte da África exprimiam, sobretudo, um caráter de luta anticolonial. Sua luta também foi contra uma modernização que não passa da nacionalização da classe dominante, sob o velho pacto de um capital apátrido, na esteira de um progresso que perpetua o trabalho subordinado e precário, enquanto a maioria permanece na mesma condição subalterna, discriminada e sistematicamente violentada. Se, por um lado, isso trouxe a carga de uma recusa radical, de uma ação direta que nada aceitava senão a deposição dos governantes; por outro, carreou para dentro do incêndio revolucionário todos os paradoxos e contradições históricas da luta anticolonial. Isto é, trouxeram no bojo um componente tendencialmente teocrático coabitando com a esquerda de matiz islâmico, ativistas liberais com comunistas, patriarcalismo com feminismo, além do que sindicalistas tradicionais e ligas camponesas junto do mais antenado ativismo de internet. Em consequência, essas revoluções ainda estão em aberto.

Na vertente europeia, de maio em diante, a pauta anticolonial foi para segundo plano. Os imigrantes não foram os protagonistas dos movimentos, ainda que estivessem presentes em algum grau. Talvez por serem mais vulneráveis, por viverem constrangidos pela condição de deportabilidade. Mas, talvez, ou talvez as duas coisas, porque a “nova política” anunciada e praticada pelo 15-M não se deixara atravessar o suficiente pela contestação do racismo, da islamofobia, do fato que o regime de trabalho no velho continente se modula ao redor da raça. Direita e esquerda se unem num consenso que não representa, antes de qualquer outro, o imigrante. Ora, o precariado europeu não tem só idade, mas também gênero, raça, nacionalidade e religião. O sujeito das lutas está encarnado, ou não é. Esse déficit prático-discursivo do 15-M deu um tom ambíguo à bandeira “apartidária” e “sem líderes” que os manifestantes se obcecaram em brandir, e à verdadeira obsessão pelas formas pelas formas. Com esse foco, o conjunto de mobilizações não pôde fazer frente, na corrida mais longa, à tentativa francamente direitosa de reunificação de valores da Europa, centrada no racismo anti-imigrante, seja ele abertamente odiento, ouy quando camuflado de protecionismo. Por isso, ainda, é possível que as principais forças organizadas deste período pós-15M, seus parentes próximos, – como o Partido do Futuro na Espanha, ou o “Cinco Estrelas” na Itália – tampouco alcancem a radicalização da recusa das revoluções árabes, com o risco de flertar com o velho e anódino discurso da coalizão nacional contra os corruptos, os “maus políticos” e os especuladores malignos (geralmente judeus). Esses movimentos também estão em aberto, ainda que haja razões para maior ceticismo.

Nas Américas, a seu turno, o ano de 2011 parece encerrado. O movimento Occupy se dispersou em pequenos núcleos, incapazes de conectar-se ao movimento real de revoltas e recusas. Falhou, acima de tudo, em representar, ainda que de alguma maneira nova e impensada, os 99%. Não conseguiu colher a insatisfação difusa ante o biopoder capitalista, para afirmar uma alternativa à altura dos desafios. O que era difuso não condensou em nenhum movimento constituinte. Isto não aconteceu, como os detratores insistem, por causa da falta de pautas concretas de reivindicação — mas por causa de deficiências na composição dos sujeitos de luta, para conjugar esforços e energias de muitas pautas encarnadas além das acampadas. Perdeu força. Como consequência, a crise econômica dos subprimes vai ficando para trás, numa reacomodação geral segundo uma ordem ainda mais desigual e injusta do que antes. O trabalho de fechamento do ciclo de lutas prossegue com a reposição de um capitalismo baseado na guerra patriótica, na lógica do inimigo (interno e externo) e na precarização generalizada dos serviços, direitos e bens comuns para a maior parte da população.

Finalmente, no Brasil, a maior limitação das pequenas, porém audíveis explosões de autonomia, alegria e revolta, — igualmente brotadas na esteira das revoluções árabes, do 15-M e do Occupy, — consistiu na incapacidade de conjugar-se com a memória de lutas do subcontinente. O descontexto aqui foi maior. E sem revisionismo, sem negar a força daquela vibração. Apesar da incompreensão, da rápida desqualificação pela esquerda mais tradicional, os acampamentos urbanos resgataram um clima de otimismo revolucionário, num arejamento necessário às lutas e à militância. Mas não proliferaram enquanto prática e discurso alternativos, ficando numa crítica negativa do capitalismo, o que é insuficiente. Nesse sentido, a versão paulista das ocupas se destaca positivamente, tendo galgado duração a ponto de integrar algumas mobilizações nos anos seguintes. Em geral, o grande problema, arrisco, esteve na dificuldade de as ocupas comporem com forças políticas organizadas, além da ideia da ação direta e enfrentamentos mais prementes (e absolutamente importantes). Não reuniram as energias necessárias para participar de um levante transversal, uma composição realmente inovadora dentro de nossa realidade social e racial. Talvez por uma deficiência de copesquisa generosa com movimentos, nunca de “teoria”, que aliás não faltou. Essas energias antes são organizadas diretamente nas bases materiais, no interior da composição social e racial, num país atravessado pelo colonialismo de seus processos e elites – e não a partir da mera democratização procedimental ou inovação de formas.

Nos últimos 10 ou 15 anos no Brasil, ocorreram profundas transformações na sociedade. Menos que abolir a desigualdade, o racismo e o intolerável do noticiário, essas transformações deslocaram os conflitos e as contradições, mudaram as coordenadas de tempo e espaço não só da exploração e do racismo, mas também das lutas e organizações políticas. O país finalmente se integrou, a pleno emprego, no capitalismo mundial, ao mesmo tempo em que pôde conscrever, em massa, a população ao mercado de trabalho e de consumo. Se a tarefa materialista exige um mergulho no presente para daí, de suas dinâmicas reais de luta e criação, antecipar as potencialidades de ruptura – e nesse sentido, antecipar um futuro que rompa com o “tempo homogêneo e linear” (Walter Benjamin), isto é, com o progresso e o desenvolvimentismo da estrutura de poder, da estrutura da história do poder – essa tarefa demanda também copesquisar onde já se engendram novas recusas moleculares, insatisfações coletivas, êxodos e alternativas latentes. Antecipar a ruptura pode significar, então, aperceber-se das tendências de crise, sondá-las onde rangem mais, onde doem mais, onde as forças vivas são espremidas, se debatem, se combinam e se miscigenam, para coagular culturas de resistências e frentes de criação: digamos, na crise dos transportes, da saúde, da cultura, da universidade, do partido, na crise do modelo de cidade, em tudo isso que não acabou nem vai acabar tão cedo, mas no interior do que pulsam tendências conflitivas, franjas de recomposição e criatividade insurgente. Essas tendências, – se é possível agrupá-las, mediante um laborioso trabalho de organização e pesquisa, para fins de potenciação da luta, – passam pela raça, pela classe, pelo gênero, pela sexualidade, enfim, por todas as minorias que, em sua condição de devir minoritário, são escolhidas como alvo preferencial da violência da normalidade. É onde dói mais, e da dor também se produz o conhecimento, e se gera um amor na luta e pela luta.

O caso é que, apesar de alguns “novistas” do 15-M ou Occupy, não basta propor mais um discurso do fim: fim da política velha, das ideologias, das formas obsoletas de representação. Isso converge num “novismo” que morre antes de respirar, e que no fundo muitas vezes serve para conferir um ar radical-chic, uma vontade-de-diferenciação, em vez de diferença transformadora. Um vício talvez muito recorrente nos “novos movimentos”. O “novo” não é premissa de um processo político, mas sua conclusão, o resultado de um conflito, um estado de luta. Como escreveu Giuseppe Cocco, em recente artigo ao Le Monde Diplomatique, o discurso do fim corre o risco de decair em mais um apelo pós-moderno, quando as verdades apaixonadas e produtivas da crise, o seu cerne classista, sexista e racista, acabam sendo jogados de escanteio, em nome de alguma acomodação de síntese, de um “amor maior”: outra ideologia escamoteadora para propiciar novos negócios, empreendedorismo, sustentabilidade, terapia de grupo com pretensão emancipadora, ecologia sem conflito, circuitos de parasitismo cultural etc.

Um desafio para a repetição potente do 15-M, para uma reiteração revolucionária da revolução, passa pela retomada de linhas minoritárias do ciclo de luta. Passa por ativar o que de potente ficou silenciado, não foi aproveitado, — por uma diferenciação em relação ao próprio 15-M, o Occupy e as expressões locais das ocupas. Isso pode ser retomado desde o caráter anticolonial e antirracista das revoluções árabes — que, por sinal, incide sobre o momento de modernização colonial-capitalista do Brasil atual (e sem passar pela mediação do 15-M ou do Occupy, num eixo Sul-Sul). Mas também, pela ancoragem dos processos junto às transformações brasileiras dos últimos 10 ou 15 anos, que não foram só negativas. Se, por um lado, sofisticou a dominação e se ampliou o alcance e a profundidade do capitalismo por aqui; por outro, multiplicaram-se as crises internas a esse processo necessariamente contraditório (como ensina Marx). Se os apologetas do Brasil Maior celebram que a formação nacional finalmente se concluiu, devemos reformular a pergunta, em vez de assumir uma pauta exclusivamente negativa. Os neo-nacionalistas concluíram que o Brasil deu certo. Nós não deveríamos insistir em perguntar por que não deu certo. Melhor problema seria perguntar: onde está o erro do Brasil certo? Como esse erro pode ser desenvolvido, como pode ser retransformado, na prática, até que o certo e o errado não tenham mais vez? Até que o “Brasil errado” tenha vez?

Como também escreveu Cocco, a verdadeira inovação do último período foi a “mobilização produtiva dos pobres”. Quer dizer, a emergência avassaladora de redes, núcleos e coletivos altamente produtivos, com uma autonomia crescente, um círculo virtuoso imediatamente pensante, cultural, político e social, exprimindo a subversão e a recusa radical da raça, do gênero, da sexualidade, de todos aqueles que se apropriam das estruturas e mediações do “novo Brasil” para fazer diferente à matriz colonial-capitalista. Essa emergência remodela a própria ideia de esquerda, luta e política – não é ainda outro “novismo”, mas uma antecipação crítica em meio ao intolerável do presente. E é aí que a insatisfação difusa contra o sistema capitalista e estatal pode ganhar corpo. E, no final das contas, é o corpo aquilo que rompe, aquilo que resiste contra a polícia. E é com corpos — e não formas, e não discursos e não estruturas, e não “redes sociais”, — que se faz uma revolução.

 

 

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PS. Usei aqui o insight de Cristiano Fagundes sobre a necessidade de uma crítica pós-colonialista do 15-M e dos “novos movimentos” europeus, norte-americanos e brasileiros.

Imagem: Gravura da Cabanagem (1840, Belém)