Publicado em 31 de agosto de 2014. Deixe seu pitaco.

Marina Chico Mendes

Foi lamentável o recuo de Marina na questão LGBT. Perdeu a chance de escancarar como o pastor Silas Malafaia não representa o “povo evangélico” e não tem o poder que sua prepotência sugere. Perdeu a chance, também, de colocar-se mais à esquerda de Dilma. Marina meteorizou nas pesquisas na última semana e se tornou assunto discutido pelas demais campanhas, pela mídia corporativa, pelas redes sociais e os blogues de todos os matizes. Era uma boa hora pra firmar uma diferença em relação ao governo Dilma não só nos conteúdos, como também nas posturas.

Um dos maiores erros do governo Dilma foi guiar-se por “trackings”. Tendo se afastado de redes e ruas, o governo está há vários anos refém de sondagens encomendadas por agências de publicidade e interpretações marqueteiras. Essas pesquisam avaliam aquelas opiniões respondidas na lata, quando a pessoa não tem tempo nem interlocução para desenvolver o tema e tende a convergir, pelo próprio método da pesquisa, nas posições mais do senso comum. O governo troca a política pela “gestão de números” e com isso institucionaliza um tipo de “opinionato”. A sombra ameaçadora do opinionato então isenta-o de responsabilidade de tomar decisões sob a desculpa do risco de perder o eleitorado. Mas na verdade não é a maioria que é conservadora: o regime de comunicação que o é.

Marina vem embalada por um fortíssimo desejo de mudança de que junho de 2013 foi só somente uma expressão. Marina está atravessada por esse fenômeno, a tal ponto que a sua simples presença já põe em crise o sistema político polarizado por PT e PSDB sob fundo pemedebista. Mas fundo pemedebista não é somente a aliança com o PMDB, o toma-lá-dá-cá, a “correlação de forças”. É sobretudo um regime comunicacional que eterniza as mesmas opiniões de sempre, esvaziando debates, anulando dissensos e descafeinando as disputas. Se Marina quer fazer jus à força do novo, e diferenciar-se pra valer de Dilma, precisa subtrair-se da homogeneização conformista provocada pelo opinionato — uma tarefa que vai da organização à comunicação, muito mais complexa do que apenas anunciar-se como novidade.

Deleuze falava que, apesar dos idiotas, apesar dos homofóbicos, é preciso acreditar neste mundo. Marina tem uma qualidade que é acreditar neste mundo, onde uma candidata cristã evangélica pode, sim, se posicionar com mais ousadia em temas polêmicos, em vez de achar que a maioria é alienada, moralista e conservadora, refugiando-se em guetos ideológicos. Marina tem a qualidade de quem viveu as coisas do mundo, uma sensibilidade aberta. Estou decepcionado.

 

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Agradeço interlocução de Cleber, Hugo, entre outros, suas ideias foram usadas em parte.
Recomendo, sobre questões programáticas, o texto balanceado de Eli Vieira, no Amálgama (http://tinyurl.com/pvonjb5).

Publicado em 28 de agosto de 2014. Deixe seu pitaco.

Marina Silva

A polarização entre PT x PSDB acabou de vez. Não só politicamente. O imaginário esgotou. As velhas demarcações perderam poder de mobilizar. Os esquemas tão válidos em 2010, 2006 e 2002 se dissolveram. Daqui pra frente, quem insistir nos mesmos esquemas mentais pode acabar reduzido a guetos, perdendo a capacidade de afetar e ser afetado.

As manifestações de 2013 exprimiram o desejo por uma polarização diferente. Fissuras se abriram e gases que vinham se condensando vazaram sob alta pressão em muitos sentidos. A nuvem agora chegou nas eleições e paira sobre a cabeça de Marina. Ela não é causa, está sendo atravessada. O dissenso é tão agudo que, a não votar ou votar nulo, preferem perturbar o sistema político representativo com uma candidata claramente indesejada. E quanto mais aecistas e dilmistas se insurgem mobilizando os velhos argumentos e esquemas, mais Marina se fortalece, porque o voto nela se apoia justamente no fato dela ser indesejada, dela gerar crise e mexer com as certezas. E quanto mais aparecerem ataques que Marina tem “cara de empregada”, ou que é mulher, negra, acriana e evangélica, mais ela se fortalece.

A situação lembra aqueles filmes de ficção científica: as tentativas desastradas de evitar que um futuro indesejado se realize acabam desencadeando a sequência de acontecimentos que o confirmam. Então não adianta culpar Marina agora. A responsabilidade pelo fracasso iminente da candidatura Aécio e os dias difíceis que virão pra de Dilma é deles próprios, que não souberam ouvir junho de 2013, perderam a capacidade de acompanhar as transformações da sociedade, não conseguiram renovar as instituições.

Mas Marina não é o centro de gravidade desse fenômeno gasoso. Se não souber relacionar-se com ele, pode ser expelida tão rápido quanto foi atravessada. Marina não é o Podemos, o novo partido espanhol, cujo antagonismo ao sistema político se baseia em círculos autônomos locais, redes do 15-M e núcleos de formulação política. Porque resolver a campanha por “cima” é fácil: que grande empresário ou grupo de interesses não quer financiar uma campanha com chances de vitória? Financiam várias.

Vivemos um momento de grande reorganização, que vai muito além das eleições ou de Marina, um tempo de transição para modular a escuta e ampliar a força dos movimentos. Essa percepção já vinha sendo compartilhada em vários espaços de discussão, e se confirma de novo. Os mais jovens, menos patrimoniais em seus gostos e artigos de identidade, não mostram nenhuma relutância em deixar velhos símbolos e ídolos de lado, em busca de possíveis novos.

Vão se isolar aqueles que se encastelarem em símbolos e termos antigos da disputa, que não se engajarem na construção das alternativas a uma representação esgotada. Muitas pessoas estão embarcando noutra coisa e querem, sim, fazer outra política.

Publicado em 27 de agosto de 2014. Deixe seu pitaco.

Cascavel

O jornalista americano James Foley foi decapitado pelo Estado Islâmico (ISIS), em 19 de agosto deste ano. O vídeo do Youtube correu as mídias internacionais chocando todas as sensibilidades. Cinco dias depois, dois presos foram decapitados durante uma rebelião em Cascavel, no Paraná. Dois presos que não saberemos os nomes, porque nenhum jornal vai noticiar. Aparecem como anônimos. Os triturados cotidianamente pelo sistema penal nunca tiveram nome. Conseguir dar o nome a um deles, chamá-lo de Amarildo, já é uma grande vitória.

O Brasil tem hoje 720 mil presos, atrás apenas de China e Estados Unidos. Desse contingente, 210 mil estão acima da lotação dos presídios. 74% dos presos são homens negros e pobres, entre 18 e 34 anos. Tem ainda 4 mil presos em hospitais psiquiátricos, em condições piores. Numa grande cidade onde a execução costuma ser sumária, para muitos chegar ao presídio significa uma carreira de sucesso. Os presos condenados não votam e não tem nenhuma forma de representação política.

O direito moderno nasceu com os 20 mil decapitados da Place de la Concorde, no verão de 1793. Por aqui, os agentes da lei expuseram em Salvador a cabeça decapitada de Antonio Conselheiro, troféu da república e do republicanismo. Já as cabeças de Lampião e seu bando compuseram um altar macabro da pacificação dos sertões, ainda em 1938, como retratado em foto imortal. Depois, em Aracaju, as cabeças dos cangaceiros foram medidas, pesadas e estudadas pelo Dr. Carlos Menezes e criminalistas, para averiguar a anatomia de um criminoso.

Não são indivíduos maus ou grupos sanguinários que promovem a violência. Ela é sistêmica e estruturante, e orgânica ao funcionamento do estado. A cor no Iraque ou no Paraná é a mesma: os presos vestem laranja. A barbárie não está distante, em lugares exóticos, incitada por extremistas religiosos e guerras santas: está bem mais perto, entranhada naquilo que chamamos, com insuperável idealismo, de estado democrático de direito. A exceção pra muita gente é a regra. Nossos presídios deveriam ser aposentados, convertidos em museus da barbárie.

Foto: Jairo Filho

Publicado em 26 de agosto de 2014. Deixe seu pitaco.

O Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIS) hoje controla um território no coração do Oriente Médio, onde proclamou um califado islâmico, e é um fenômeno expansivo, ganhando não só batalhas militares, mas sobretudo do imaginário.

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Nas narrativas mais à direita, o ISIS é descrito como um bando de fundamentalistas fanáticos com fuzis na mão cometendo as piores atrocidades. A descrição lembra filmes de ação americanos em que os árabes não passam de figurantes genéricos atirando a esmo em nome de Alá. O ISIS é representado como o Mal Absoluto, uma mancha sinistra esparramando-se através do Oriente Médio tal qual as hordas de Sauron, o senhor da escuridão, em Senhor dos Anéis. Essa representação se encaixa perfeitamente no esquema do “choque das civilizações”, cuja transposição política significa responder à ascensão dos fundamentalismos com o mal menor ocidental, isto é: financiar ditaduras (como a Arábia Saudita), executar bombardeios aéreos, infiltrar tropas especiais para cometer assassinatos políticos e todo o receituário tradicional das intervenções humanitárias e guerras justas conduzidas pelas potências ocidentais na região. A ocidentalização, assim, seria o mal menor.

Mais à esquerda, por sua vez, as narrativas apontam como é justamente a intervenção militar ocidental, com os EUA à frente, que irriga as condições de crescimento de algo como o ISIS. Assim como a Alcaida, o ISIS surge de uma região minada pela brutalidade, o ódio contra a ocupação militar estrangeira, e as “alianças táticas” com teocracias e seitas guerrilheiras. É um ciclo vicioso de longa duração: os EUA apoiam Saddam Hussein contra o Aiatolá Khomeini, apoiam os mujahadins talibãs contra a URSS, apenas para anos mais tarde invadir o Iraque e o Afeganistão. Os guerreiros da liberdade de Rambo 3 se tornam terroristas, e uma liderança laica ponderada e progressista vira o mais pérfido tirano disposto a despejar insanamente suas armas de destruição em massa. Mas elas só existiam nas imprecações da Casa Branca. Nas narrativas à esquerda, o ISIS é cria maldita desse caos super-armado e super-violento no Oriente Médio, cujos últimos episódios foram a invasão do Iraque e a guerra civil na Síria, a ponto de Bashar Al-Assad, inimigo mortal dos EUA no ano passado, agora ser cogitado como aliado para barrar o ISIS. A ocidentalização da geopolítica local, assim, é a raiz do mal.

Tendo a ficar com esta última leitura, mas problematizaria um pouco. Não tem nenhuma dúvida que o ISIS não é melhor do que as demais forças militares na região: além de massacrar minorias e escravizar mulheres, traz como programa o sonho dourado dos neocons globais: uma sociedade submetida à autoridade moral e religiosa. Mas ele tem algumas diferenças. A maioria do ISIS é composta por jovens na casa dos vinte anos que não têm nada de bárbaros ignorantes das montanhas. Eles dominam as redes e mídias sociais, falam várias línguas, alguns vêm da melhor educação europeia. O assassino de James Foley, por exemplo, é inglês. O ISIS não atira apenas mísseis, mas tuítes, instagram, vídeos no Youtube e até filme blockbuster.

Em 2014, os jihadistas lançaram “Clinging of Swords IV”, um filme de ação cuja estética lembra jogos de computador, como “Call of duty”. Rodam também um aplicativo para tuíter, o “Dawn of Glad Tidings”. E, depois de serem banidos do Facebook e Youtube, migraram com muita agilidade para o Diaspora e redes sociais baseadas no Leste Europeu. A Alcaida era underground e sorrateira, mas o ISIS é espetáculo ruidoso; aquela se organizava na forma-rede e células descentralizadas, este na tecnopolítica emotiva, no estilo “jihad cool” da juventude. Não à toa ISIS e Alcaida tenham rompido entre si: o califado islâmico desejado pelo ISIS se aproxima mais ao projeto de Israel de abertamente fundar um novo estado na região do que da existência difusa e latente da Alcaida.

Para enfrentar o ISIS, certamente, não vai funcionar o discurso maniqueísta da “ameaça civilizacional”, embutido nos achatamentos que os reduzem ao Mal Absoluto. A vitória política dessa narrativa geralmente conduz a mais bombas, mais invasões militares. Esse discurso não é sequer usado para resolver qualquer coisa que não o giro de capital envolvido no tráfico de armas, extração de petróleo e empreendimentos de reconstrução. Não é pra resolver, mas pra piorar, porque quanto pior melhor pra essas indústrias. E tampouco basta, por outro lado, culpar os EUA ou o “imperialismo ocidental”, como erros estratégicos da macropolítica, na medida em que se perde de vista a produção de subjetividade intrínseca do fenômeno ISIS. Essas narrativas à esquerda focadas na geopolítica do Oriente Médio não veem como o ISIS é um fenômeno global, midiático e militar ao mesmo tempo. Somente respostas paliativas podem sair se nos restringirmos a esse xadrez entre estados, quando o problema principal está noutro patamar.

O ISIS é das expressões mais fascistoides do capitalismo global contemporâneo e só pode ser encarado de frente no plano da subjetividade. Particularmente, não conheço a fundo as alternativas e nuances no coração do Oriente Médio. Mas do que conheço, me parece que resposta potente ao ISIS no horizonte seja uma guinada política semelhante ao que ocorreu a partir de 2011, com a irrupção das primaveras e revoltas árabes, do norte da África ao Iêmen. Só uma tecnopolítica outra, com produção de subjetividade à altura, poderá desativar o espetáculo do terror e fazer frente a essa mancha sinistra. O resto é tratar sintoma.

Publicado em 22 de agosto de 2014. Deixe seu pitaco.

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Pelos seguintes motivos:

1) PSDB fora do segundo turno e Aécio politicamente enterrado em nível nacional.

2) Se Dilma ganha no primeiro turno, governo se tornará ainda mais convicto de seu projeto neodesenvolvimentista e de sua leitura fechada e até criminalizadora das jornadas de 2013, dos movimentos e coletivos autônomos.

3) Sou pela superação da democracia representativa, mas isto não pode ser uma posição abstrata. Ser contra a representação significa ser contra os arranjos materiais e as forças reais que compõem o sistema político. No Brasil, isto significa 20 anos de bipolaridade PT x PSDB com fundo pemedebista, na esteira da expansão do capitalismo no Sul global.

4) Marina não é a superação da democracia representativa, nem exprime uma tendência mais à esquerda, nem representa as jornadas de 2013. Seria ingênuo e reducionista acreditar nisso.

5) Mas a candidatura de Marina ajuda a esboroar, pelo menos, o bloco bipolar PT x PSDB. Indício disso é o horror com que essa candidatura é encarada por aecistas e dilmistas linhas-duras. Indício disso, ainda, é que votos nulos e brancos e prováveis abstenções estejam migrando para o voto em Marina. Não vejo porque abrandar as contradições internas ao sistema político.

6) Eu acredito que existam energias de transformação cristalizadas no PT e no governo Dilma. Elas são minoritárias. Proporcionalmente é menos do que fora do PT, porém, como o PT é enorme, em números absolutos é algo relevante. Aécio x Dilma ajuda a manter essas energias cristalizadas, ao reproduzir esquemas mentais (fantasma da direita, menos pior, volta do FHC etc). Dilma x Marina, ao contrário, coloca os esquemas mentais em crise. Não é fácil, considerando o governo Dilma, recriar esses esquemas, sem revelar as próprias contradições (exemplo: chamar a Marina de fundamentalista revela a própria intimidade com a pauta religiosa e, ao mesmo tempo, o preconceito contra evangélico). Isso vai forçar uma requalificação da campanha. É possível que Dilma x Marina force essas energias cristalizadas a sair da zona de conforto e ter de mover-se, e entrar em fluxo. Algo de bom pode sair daí.

7) Por último, é claro que as eleições são secundárias em relação às lutas, não acredito que devemos nos subjetivar pelo processo eleitoral, tampouco temos muito tempo pra isso considerando outras urgências. No entanto, elas têm sim alguma relevância, ou pelo menos a maioria das pessoas acredita que tenha e vá dedicar alguma atenção nas eleições. Isso não é desprezível, para quem não se arroga da posição de estar “acima das massas”.

Publicado em 14 de agosto de 2014. Deixe seu pitaco.

Posfácio ao livro Nietzsche no complexo [do] alemão, de João Galvão (Liberars, 2014).

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Na trajetória de João Galvão Jr., o tema da violência exerce o papel articulador, formando um eixo para as suas inquietações, problemas e hipóteses. Percebe-se claramente no texto um instinto – no melhor sentido nietzschiano do termo – de superação da impotência, uma vontade em superar o complexo de colonizado, este que nunca deixou de perseguir, histórica e sorrateiramente, o intelectual brasileiro. Somos crias de uma colonização que via e vê nas letras a oportunidade de elevar a dominação ao estatuto de ciência, a seguir transfiguradas como artigo de troca simbólica para as elites. Vitalizando-se em territórios onde a existência range, o autor pode conferir bases materiais às próprias ousadias, – e assim impregnar a escrita daquela tensão existencial que, quando não machuca e mata, robustece o pensamento. Torna-o sadio: reabilita dos vícios, indolências e veleidades cujo grande signo é a ostentatória acadêmica de títulos, currículos e seus rituais próprios. Nada disso encanta João, corpo e mente irrequietos. Diferentemente, ele busca na exceção apaixonada a chance de realizar uma ação teórica.

O autor sobe o morro do Alemão antes da invasão militar de novembro de 2010 – prelúdio para a instalação de uma nova “política de pacificação”, expressão que é senha histórica do estado brasileiro para operações de supressão, invariavelmente racista, dos focos de tumulto, revolta e autonomia. É aí, nesse território pré-pacificação, que o pesquisador vai testar as hipóteses, munido de um autêntico arsenal de conceitos, principalmente afiados junto de Nietzsche e Walter Benjamin, até o “direito achado na rua”, do jurista marxista brasileiro Roberto Lyra Filho.

Não há meias verdades: o inimigo é o estado e o direito estatal. Mas longe de renunciar ao direito, de adentrar na seara de uma negação muitas vezes imberbe, na figura fantasmática do “antidireito”, o autor prefere disputá-lo. Ou melhor: prefere erigir um teatro de forças onde essa disputa se torne factível. Para isso, o “direito achado na rua”, de Lyra Filho, serve de fio condutor para uma afirmação do direito além do direito estatal, um direito vivo, encarnado nos sujeitos de luta, incrustado na existência conflagrada de quem traz a condição de resistência em seus corpos, no dia a dia. O direito vivo além e contra os direitos mortos, se posso reatualizar uma metáfora marxista.

Tema cheio de armadilhas e particularmente espinhoso, a violência é um tipo de frontier para qualquer pesquisa que recuse a preguiça intelectual, e se proponha a conhecer o real onde ele é mais apaixonado e profícuo. Isto não significa admitir uma noite onde todos os gatos sejam pardos, algum faroeste ianque em que só haja lugar para os fortes, o triunfo dos leões contra os cordeiros. Fraco é o estado que, não podendo gerar, tem de controlar e modular quem pode, separar a lei do desejo e, desta forma, vampirizar as forças produtivas. A força, em Nietzsche, é força de criação de ser, é afirmação ontológica da imanência, a capacidade de dobrar a circunstância e seu estatuto moral (o realismo tétrico das aranhas…), para existir diferente. Os leões sabem transfigurar-se, hibridar-se, tornar-se grifos, felinos intergaláticos, tigres pop art, gatos que riem, o mel da leoa.

Situar-se na frontier, nessa fronteira móvel de recriações, onde acontecem fenômenos ainda em estado bruto, – perpassados por forças vivas, latências e lampejos, – sempre foi um desafio para quem deseja pensar além de suas zonas de conforto, além da rarefação teórica. Porque pensar, diz Deleuze, é isto: forçar-se a pensar, forçar-se a conhecer a alteridade total, a buscar nela o princípio motor, a vivê-la, perseguindo o ponto sempre fugidio em que perdemos os referenciais e consolos, e onde algo de novo, e vivo, pode acontecer conosco. Esse conhecimento pode libertar, embora seja desconfortável, especialmente a nós próprios. Embora nos subtraia o chão para tornar tudo instável e inacabado, na precariedade muitas vezes exaustiva das deambulações pelos desertos. Desertos-plenitudes onde achamos outros chãos.

Em Nietzsche no complexo [do] alemão, o conceito de “vontade de potência” permite pensar um direito que não se separa da força. Um direito que não separa a capacidade de agir do julgamento da ação, que não erige tribunais, não duplica a existência segundo um duplo moral, sempre pronto a cobrar-se e culpar-se pelos males do mundo, ressentindo-se de sua própria fraqueza. O mundo onde age a “vontade de potência” se constitui de um incessante jogo de forças, em cujas faíscas de bons ou maus encontros se exprimem desejos, instintos, alegrias e amores. É o mundo da favela como usina, além do inferno pintado em cores dantescas pelo regime de verdade que corresponde à colonização. Quer dizer, pensar a favela como exceção efetiva, um lugar de intensidades flutuantes e devires-artistas: onde a violência é também resistência e recusa. Para o regime de verdade do estado (da grande mídia, da academia hegemônica, do bom tom…), o oposto da violência é ele próprio: o monopólio da violência legítima. Fora do direito instituído pelo estado só poderia haver crime e barbárie. A modernidade ocidental logrou integrar as várias esferas históricas do direito, o direito policêntrico e pluralista de outras épocas e lugares, na figura transcendente da soberania estatal. Esse direito se dissocia do desejo, da capacidade de agir e existir, do âmbito elástico de atualização e produção dos direitos, apenas para repetir sua forma autoidêntica, vazia. Nela, nunca deixa de subsistir a autoafirmação da validade, quer dizer, a eficácia imediata de que deve ser respeitado porque é o direito, porque é Lei. A tautologia é exercida, assim, em nome da legitimidade (igualmente tautológica) – com que o direito conserva a ordem violenta que o sustenta.

Nesse sentido, Walter Benjamin fala de uma violência que conserva o direito, intrínseca à existência de um ordenamento estatal, um estado de direito, em que o estado de exceção é seu princípio interno, e ativável segundo a “necessidade”. A exceção efetiva, outro conceito-chave benjaminiano, desta forma, aparece menos como o oposto ao estado de direito, do que ao estado tout court. É exceção efetiva versus a dialética entre estado de direito e estado de exceção. Por isso, quando João Galvão Jr. fala em “direito achado na rua” em suas andanças teóricas e práticas, não me parece ele esteja simplesmente propondo excepcionar o direito estatal com o não-direito, com um estado de exceção (que seria igualmente baseado na coerção, na sistematização dela) – mas com uma exceção efetiva, outro direito. Porém direito, ainda e sobretudo. Habemus direito!

É por essa linha de afirmação do direito que podemos imaginar a “vontade de potência” como criadora de novos valores e sentidos. Como a força diferencial capaz de disputar o teatro de forças, de transformar a realidade iníqua e corrupta da dominação estatal, em vez de simplesmente negá-la, com má consciência. Não temer o poder, não fingir que a violência não exista ou que não possa existir. Dizer sim: abrir a possibilidade de criar os direitos. Essa pesquisa obviamente não pode ser situada nalguma torre de marfim. Depende essencialmente de uma investigação implicada no “movimento real de abolição do estado de coisas”, para usar a fórmula clássica de Marx e Engels. Uma pesquisa dos lugares em que, nas dores do parto, estão brotando direitos, formas de organizar e se relacionar, formas de exercer a própria cultura de resistência, sede de vida, desejo de efetivar-se (“o prazer de experimentar a própria potência” – para afetar-se, ser afetado, amar, cantar, resistir, reexistir) – apesar e diante da economia das coações, de um estado que institucionaliza a violência racial e de classe. Resistência e afirmação estão rimadas.

Quando escrevo estas linhas, vivemos um ciclo potentíssimo de tumultos em todo o país. A participação das favelas e seus sujeitos conferiu novas qualidades e virtudes ao movimento. Trouxeram à rua as culturas do funk, do rap, a capacidade de desnudar um estado de direito que discrimina, explora e mata na favela. Dos black blocs aos rolezinhos de shopping, da campanha Cadê o Amarildo à crítica da política das UPP, a periferia voltou ao centro da percepção não como inferno e horror, mas como potência. Isso não deixou de acionar a histeria punitiva das elites muito bem instaladas no estado, quase mitologicamente amedrontadas diante da perspectiva de o céu se juntar à terra e, com a invasão dos bárbaros, serem varridas do mapa. Nem acionar a esquerdologia com que os próceres da esquerda brasileira não cansam de separar o trigo do joio, isto é, o branco do preto, para reiterar sua impotência confortável. Todos unidos no cinismo com que falam em “atos de vandalismo”, “infiltração do crime” e “arrastões”. Quando vê o povo que elogia nos livros, foge e chama a polícia. O sonho da esquerda esquerdológica são mujiques em mansardas prontos a seguir as lideranças já há muito homologadas pelo estado. Mas não é assim. Felizmente.

Um grande desafio para a continuação de tal pesquisa, me parece, consista em perscrutar as linhas onde a exceção efetiva possa expandir-se e generalizar-se. Quais são os nódulos organizativos, composicionais, que poderiam pôr em risco, tendencialmente , toda a estrutura coativa do estado (de direito e, ipso facto, de exceção)? Onde está o movimento real onde poderemos assentar a nossa práxis? E então, com ação teórica, prolongá-las – alternada no tempo oportuno com as práticas. Não se trata simplesmente de romantizar os sujeitos de luta, exaltar-lhes as energias, nem mergulhar num vitalismo que se resuma a elogiar o fluxo, sem perceber as finas diferenças, as nuances, os paradoxos, as linhas de fuga. A política é uma arte: pode ser bruta e às vezes deve ser grosseira, mas não pode nivelar o mundo numa única dimensão, e precisa resolutamente evadir das dicotomias infernais. A dicotomia entre estado formal e tráfico, por exemplo: ambos amiúde atuam de maneira coordenada, revezam-se no exercício do controle, e se baseiam em similar domínio coercitivo do território, na mesma “vontade de potência” ressentida em formas pacificadoras – com pedagogias do terror que os presídios, esquadrões da morte, execuções sumárias, salas de torturas e “forninhos micro-ondas” são realidades comuns. A favela é usina também para desbaratar os diferentes estados – formais, informais, paralelos, oficiais, de direito ou de exceção – que tentam usurpar-lhe a riqueza e a vitalidade repondo em seu lugar o signo do horror.

Para isso, para a complexificação do teatro de forças, João Galvão Jr. está bem acompanhado teoricamente, com filósofos que viveram na pele as várias facetas do intolerável, que pressentiram catástrofes, mas que mesmo assim renunciaram às chantagens do “menos pior”, abraçaram os perigos da contingência, e se forçaram a pensar diferente porque sabiam que o pior perigo, o maior golpe e o mais terrível fascismo, eles já aconteceram: são o nosso próprio presente, sua inércia, seu autocomprazimento colonialista. Este livro exprime um corajoso esforço pessoal para seguir essas pistas e ousar saber.

No Dia do Trabalho deste ano, o blogue publicou Lênin para o século 21, arriscando novamente dizer “Lênin”. Invocá-lo num momento de recomposição não foi por acaso, considerando os impasses, recuos e dificuldades das lutas, diante de um capitalismo altamente pervasivo, pronto a esquadrinhar e recuperar as formas de vida que resistem e criam alternativas. Mas dificuldades também diante de um estado neocolonial que se mostra histericamente repressivo apenas à exposição pela resistência da violência de classe e racista, normalizada na concentração de mídias, propriedade, meios punitivos e riqueza nas mãos de poucos. Lênin é ir além da questão do antagonismo, e pensar também a organização do comum. Não de fora, mas como Lênin: nas lutas e para as lutas, sem receio de apostar forças organizativas e assumir a iniciativa. Ousar. O comum começa e termina (recomeçando) nas lutas.

Este texto avança nas questões e se orienta, em princípio, como um prolongamento do debate proposto em Dialogando com o comum, publicado nas Brigadas Populares de MG, por Guilherme B. Lima.

Lenin

1. Lênin injetou pragmatismo em Marx. Ele deslocou o foco do marxismo da época: de ciência econômica à política de classe, da espera das condições objetivas aos fatores subjetivos da revolução, de ideais progressistas de construção do socialismo à ruptura histórica, de boas intenções à força organizativa real, suas tarefas, sua paciência. Marx é filósofo do antagonismo, Lênin também da organização. Sem autonomia, não há organização comunista; sem organização, as lutas se tornam episódicas.

2. O triângulo leninista: subjetividade – organização – revolução. Lênin analisa o desenvolvimento capitalista na Rússia e enxerga não só uma mudança de técnica e formas econômicas, mas mutações antropológicas, de sensibilidade, de percepção de tempo e espaço, de sonhos implicados na vida. Uma imaginação maior, em movimento. Diferentemente da tradição proudhoniana, os humanos não caem do céu na luta como indivíduos livres prontos a depor a autoridade: os participantes do soviete se forjaram numa nova composição subjetiva, e o soviete foi a maneira como tentaram levar adiante, até o fim, essa transformação. O soviete, em consequência, embora em 1905 tivesse como pauta consolidada a revolução burguesa, à semelhança da francesa, foi muito inovador porque envolveu novos meios subjetivos de luta proletária no terreno da organização. Por mais que o capitalismo na Rússia estivesse atrasado; a potência subjetiva dos trabalhadores vinha se qualificando por décadas de agitação e organização.

3. Lênin não mistifica o soviete, nem romantiza a horizontalidade, nem vê revolução acontecendo apenas com a generalização de instâncias de consenso e autogoverno. Em 1917, socialistas e mencheviques tentavam limitar o soviete às funções de representação dos interesses de classe, incorporando-o à democracia burguesa a partir das palavras “pluralismo” e “participação social”. Num pluriverso de condições históricas favoráveis, o partido bolchevique de Lênin decidiu apostar tudo e passou a tensionar os impasses e limitações do soviete para, pela via do partido, tomar a vanguarda dos acontecimentos e levar a revolução até o fim.

4. O triângulo leninista, no século 21, deve ser atualizado, assim como Lênin atualizou Marx; o soviete, a comuna.  O desenvolvimento capitalista não se dá como progresso homogêneo e linear, mas por saltos. Tais saltos acontecem porque o capitalismo tem uma capacidade adaptativa. Reestrutura-se para neutralizar os avanços da luta de classe, assim como o governo provisório de 1917 tentou recuperar a revolução proletária na democracia burguesa, inclusive empregando a esquerda no próprio governo. Os saltos do capitalismo, portanto, são reflexos e decorrentes dos saltos das próprias lutas, quando conseguem “circuitar” o triângulo subjetividade – organização – revolução.

5. O soviete exprimia a subjetividade da sociedade fabril, através da greve de ocupação, da rede entre sovietes das cidades, da imprensa operária, da possibilidade de gestão democrática da produção. Essa subjetividade não acontecia somente na fábrica. Era uma inteira reorganização da sociedade e incidia, sobretudo, na formação do próprio humano, dos indivíduos e coletivos. Hoje, depois de sucessivas reestruturações do capitalismo, a subjetividade não só escapou dos muros da fábrica, como se disseminou pelas redes produtivas da metrópole. A metrópole é a usina biopolítica do século 21, cujos fluxos são geradores de valor e explorados como tal. Essa situação decorre, acima de tudo, das conquistas das lutas que ampliaram a produção de subjetividade. Mudaram o próprio conceito de sujeito de luta: abarcando lutas de afirmação racial, feministas, LGBTT, sem-teto, sem-emprego etc.

6. Na realidade, o leninismo é desde o princípio biopolítico e isto já está germinal no Manifesto comunista, em que Marx e Engels não separam luta de classe de formas de vida. No entanto, a biopolítica conquistou centralidade a partir das lutas do ciclo sessentoitista e alterglobalização, bem como da reestruturação capitalista dos anos 1970 e 80. Muda o conceito de luta de classe: a classe é multiplicidade. Isto não significa desorganização, mas uma mudança qualitativa do triângulo de Lênin. Não adianta, agora, ficar nostálgico de relações de produção de subjetividade obsoletas. Seria incorrer na romantização dos narodnikis, — liquidada teoricamente por Lênin ou Rosa Luxemburgo, — atrás de enclaves passadistas, pré-capitalistas, quando a franja do desenvolvimento capitalista, suas instâncias de controle e exploração, já estão muito além disso, mais inteligentes e pervasivas.

7. O “comum”, portanto, atualiza o marxismo e o leninismo como aposta para a organização nas condições da multiplicidade. O propósito é reagrupar forças dispersas e sem conexão entre si, que só aparecem conectadas na condição de exploração e dominação, segundo a matriz integrada do capitalismo hoje. Conectando-se, requalificam-se em suas diferenças próprias, sem imperativo de unificação nalgum novo sujeito universal de classe. Menos que solução milagrosa ou panaceia, o discurso do comum põe o terreno do conflito, e não existe fora dos processos de luta e subjetivação. O capitalismo já percebeu isso há pelo menos uma década. O “comum”, além de terreno material dos conflitos sociais, é também disputado na teoria. Desde a super-financiada rede de pesquisadores referenciada em Elinor Ostrom, a nobel da economia de 2009, que tenta recuperar o “comum” pela via neoliberal, até os desvios mistificadores ou utópicos, como os “redistas” (Benkler), “culturalivristas” (Lessig), “digitalistas” e “cognitivistas” (apologia acrítica do “capitalismo cognitivo”).

8. O enfraquecimento da forma estado-nação, na realidade, já está no próprio Lênin, ao se debater com as teorias de Kautsky e Hilferding. Contra o primeiro, ele rejeitou sumamente a hipótese de uma globalização capitalista “lisa”, que nivelaria todos os estados. Na virada para o século 20, o estado-nação deu lugar ao estado-imperialista, que passa a terceirizar as contradições, e provocar um realinhamento global dos circuitos capitalistas entre as potências hegemônicas.

Negri e Hardt atualizam essa passagem leninista, do estado-imperialista para o Império. Não significa, como alguns lugares comuns doutrinários insistem, em voltar ao achatamento de Kautsky. Pelo contrário, significa uma nova estratificação: o esquema negriano se dá em três níveis integrados, articulados segundo as formas polibianas da monarquia, aristocracia e democracia. Existe, sim, o nível dos estados, em que vigora uma monarquia (os EUA), mas também o nível da governança financeira, seus institutos de mercado mundial e instâncias de decisão e, além disso, — Marx demanda, — o nível de um proletariado global explorado de maneira deslocalizada, em rede e a grandes distâncias e velocidades. Quer dizer, existe também a força viva e produtiva que impele as lutas e, parasitada, o próprio capitalismo global e todos os estados, e que deve ser considerada como potencial de produção de um “comum” globalizado.

Nesse cenário, Negri e Hardt não propõem abrandar nenhuma contradição (seria a missão do capital), mas aguçá-las num esquema mais complexo, sugerindo estratégias mais sincréticas e flexíveis, do que aquele vigente à época do choque de imperialismos, de Lênin. Daí, também o funcionamento multinível das resistências: tanto contra os golpes monárquicos dos EUA, por ex., a invasão do Iraque; contra o fortalecimento de estados cada vez mais ditatoriais, a serviço da expansão e aprofundamento do capitalismo financeiro, como na China ou, em parte, no neodesenvolvimentismo brasileiro, dirigido pela ânsia em atrair capitais e garantir altas margens de lucro aos investimentos; e em favor, sempre, da possibilidade de articular lutas aproveitando os contágios — também em rede e a grandes distâncias e velocidades, como no ciclo alterglobalização, nos Dias de Ação Global e nas lutas do tipo “Praça Tahrir”, a partir de 2011, — que eu chamaria de “lutas do comum”.

9. O ponto leninista é, ao mesmo tempo, compreender a subjetividade e fortalecer linhas de organização, no sentido das lutas. Nem apenas fazer ciência das contradições do capitalismo, como D. Harvey, porque o capital não morre de contradição. Nem recuar nostalgicamente para refúgios não-capitalistas ou depósitos de pureza, como socialistas populistas, apologetas das “bases”. Nem incorrer em qualquer tipo de elogio ao desenvolvimento por si mesmo. Nem ficar apenas na denúncia moral, porque se dependesse de crítica moral o capitalismo já teria acabado, além do que, sem força organizativa, o triângulo não fecha. Ir além da mera “federação das barricadas” proudhoniana, e contornando sucessivamente as tentativas de recuperação pela democracia burguesa do “pluralismo e participação social”, ou de maneiras mais sofisticadas, numa espécie de “capitalismo 2.0″. O “comum”, assim, não é hipótese teórica. É aposta política em andamento, interna às lutas de um novo ciclo intensificado no Brasil e no mundo nos últimos anos.

10. Em termos práticos, isto significa deslindar das transformações de subjetividade o potencial de organização e ruptura. Ou seja, é construir na expansão de redes e fluxos da cidade, a capacidade de difundir “sovietes biopolíticos”, articulando produção e decisão; construir para além do direito à moradia, o direito de cultivar e desenvolver formas de vida imediatamente implicadas na luta; para além da reivindicação de trabalho, constituir modos autônomos de trabalhar cooperativamente, em organização transversal, reapropriando-se da riqueza social; fazer da produção cultural uma trincheira para a retomada expressiva da paisagem (pixo, intervenções) e do espaço público/privado (ocupação do “comum”) ; derrubar os muros epistêmicos da universidade para conectá-la aos saberes no sentido mais amplo; não apenas defender a favela do racismo institucionalizado no estado, mas construir a favela como cidade, a favela como qualificador da cidade em suas várias dimensões; é ir além da discussão das tarifas de ônibus, para promover a mobilidade urbana e, além dela, a mobilização. Essa mobilização das subjetividades, intensificada por uma força organizativa de novo tipo, imanente à multiplicidade, ela é a própria multidão — que não está dada, é tarefa leninista a fazer.

 

Imagem: Lenin (Andy Warhol, 1986).

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