Publicado em 1 de agosto de 2014. Deixe seu pitaco.

WBLinhas

A transição da ditadura militar não acabou com o estado de exceção no Brasil. Mantiveram-se mecanismos ditatoriais: a prática de execuções sumárias e tortura, o racismo institucional e a superconcentração dos meios de comunicação em algumas famílias intimamente ligadas à ditadura. Por outro lado, o estado de direito instituído pela Constituição de 1988 trouxe uma brecha democrática com a possibilidade de auto-organização social, direito à manifestação e garantias jurídicas básicas. A partir dessa brecha, organizaram-se novas forças políticas que ampliaram a democracia ao longo das décadas seguintes, contra a miséria, a desigualdade, o racismo.

Não é correto, portanto, falar que o Brasil simplesmente vive um estado de exceção, porque existem polaridades internas às instituições. Nem é correto falar que vive um estado de direito democrático, porque existe um contínuo de práticas da ditadura até os dias de hoje.

Esse funcionamento do direito no Brasil é consistente com teorias sobre o estado de exceção, como do jurista alemão Carl Schmitt e, mais recentemente, sua atualização pelo filósofo italiano Giorgio Agamben. Para esses autores, o estado de exceção não é um fora em relação ao estado de direito. O estado de exceção é um princípio interno do direito, um limiar que pode contrair ou dilatar, em função das forças políticas. O direito estatal, para ser eficaz, precisa de uma situação de normalidade que determina a medida do justo/injusto, do punível/não-punível e, no limite, de vida/morte.

O problema não está, portanto, na simples existência da exceção, mas no fato que os mecanismos ditatoriais se encontram normalizados no estado de direito. Isto é, as práticas de execução sumária e tortura são vistas como necessárias para o combate ao tráfico, a atuação dos grandes meios de comunicação é vista como liberdade de imprensa, a homofobia como pluralismo, a concentração de renda e propriedade privada como justa etc. Em muitos casos, a exceção é a regra.

É por isso que, melhor do que reclamar a restauração de um mistificado estado de direito, melhor resposta seja contestar a própria normalidade. Foi justamente isso que, incipientemente e às vezes até de maneira desastrada, aconteceu em escala a partir do levante de 2013. Campanhas como Cadê o Amarildo?, a recusa dos meios de comunicação (o grito “A verdade é dura…”), a resistência contra a violência policial foram ações que colocaram em xeque nem tanto o estado de direito, mas a situação de normalidade pressuposta nesse direito do estado. Nisso, foram lutas para acelerar uma transição da ditadura à democracia que parece nunca chegar às favelas, sujeitos vulnerabilizados, e minorias.

O atual inchamento do limiar de exceção é uma resposta contra essa luta por mais democracia que explodiu em junho do ano passado. Mas não é nenhuma exceção nova: é simplesmente sintoma do funcionamento normal, de suas potencialidades perversas. As práticas ditatoriais do sistema penal-policial, o racismo e a grande mídia sempre estiveram presentes, e agora dirigem seu poder contra manifestantes e manifestações.

É preciso ficar claro que o estado de exceção não significa a anomia, mas o excesso de direito: em nome da restauração do estado de direito, é exercido por meio de medidas com força de lei. Isso vale para restaurar o estado contra o “estado paralelo” da favela, ou para preservar a ordem pública contra a “desordem da manifestação”.

A resposta, portanto, não pode ser apenas “volta do estado de direito”. Tem uma importância defensiva e tática, mas é muito pouco. Seu sucesso significa, na melhor das hipóteses, o retorno à situação pré-2013, voltaremos à normalidade da exceção. Talvez seja preciso ir além, ousar um novo ciclo, seguir construindo pautas e instâncias, afirmar os desejos e aspirações manifestados nos últimos anos. E assim ir além do jogo entre estado de exceção e estado de direito. Para pensar e fazer um outro direito, um direito vivo, aquilo que Walter Benjamin chamava de “exceção efetiva”, que “melhorará a nossa posição na luta contra a ditadura.”

Publicado em 27 de julho de 2014. Deixe seu pitaco.

caravandala

Tem sido dito que a organização da Copa foi magnífica. Os aeroportos funcionaram, os estádios estiveram a contento, a recepção das delegações e turistas foi super-elogiada, e a infraestrutura das cidades-sede à altura da grande demanda. Os estrangeiros aprovaram a festa e isso melhorou a imagem do país, aumentou a nossa autoestima.

Vamos assumir que isto esteja correto.

Por um lado, de fato, depõe a favor do governo Dilma. Contrariando as críticas de que a Copa seria um caos (#ImaginanaCopa), mostrou capacidade gerencial, habilidade em compor politicamente as várias esferas de governo, estaduais, municipais.

Por outro lado, no entanto, esse sucesso imediatamente abre um questionamento. Se o governo tem capacidade de reunir as forças políticas num objetivo comum e, além disso, capacidade gerencial para realizar um megaevento, por que essas mesmas capacidades não têm sido usadas para realizar uma mudança igualmente “magnífica” nos setores da saúde, educação, mobilidade urbana e moradia, entre outros?

A resposta do governismo costuma ser: porque não temos correlação de forças. E o que fazer para mudar a correlação de forças? Fazer a reforma política e, uma vez feita, conquistar maioria no Congresso. Depois as coisas deslancham como consequência. Qualquer outra via significa enfraquecer o que foi construído a duras penas, num cenário social potencialmente reacionário em que espreitam as forças golpistas e oportunistas da direita.

Quem ouve esses argumentos tão comuns no PT ou PCdoB poderia ser levado a acreditar que a presidenta Dilma esteja refugiada no Palácio do Planalto, com uma direita traiçoeira pronta a desferir golpes, refugiada no último bastião da esquerda em meio a um caldo conservador e manipulável da sociedade brasileira.

Tal discurso atualiza o velho tema do grande líder rodeado de inimigos e intrigas palacianas, que deve ser protegido a qualquer custo. Não à toa as críticas, mesmo à esquerda, sejam sempre encaradas como “tentativas de desestabilização”.

Mas, possivelmente, em vez da paranoia tão denunciada pela palavra “desestabilização” (o velho tema do déspota paranoico e seus burocratas perversos), o problema seja outro. Depois de 12 anos, o governismo se acostumou ao poder, se encastelou numa zona de conforto, e agora guarnece muralhas contra a barbárie circundante da direita. Só que, como no conto de Kafka, os bárbaros já estão dentro.

Ora, vamos cair na real. Dilma é presidenta com ampla base aliada no Congresso, com sólida carteira de alianças estaduais, parceiros empresariais, canais de financiamento, e está caminhando para uma reeleição em primeiro turno, sem adversário à vista.

O problema está, ao contrário, já dentro, nos arranjos políticos, financeiros e empresariais que propiciam a organização e realização de um megaevento como a Copa do Mundo, mas são imprestáveis, e até contraproducentes, para mexer nas estruturas do sistema de saúde, educação, mobilidade urbana ou moradia, reforma da mídia, urbana, agrária. A Copa (ou Belo Monte) não é apenas consequência desses arranjos: mas consolida os arranjos, os torna ainda mais firmes e duradouros. Nem na CBF, depois dos 7 x 1, o governo quer mexer.

Os megaeventos e megaempreendimentos de sucesso *dão ainda mais estabilidade* aos pactos, alianças e esquemas na base do governismo, com suas pseudodivergências internas, tão de mentirinha quanto qualquer edital de concorrência entre grandes empreiteiras. O “sucesso”, aí, é sucesso desse consenso que não enfrenta a desigualdade, muito pelo contrário.

Enquanto isso, tenta-se esquecer o lado escuro desse “sucesso”: os removidos de comunidades pobres, os alvos do higienismo urbano e seus choques de ordem, os manifestantes presos, intimidados e desarticulados, os operários mortos nas obras e grande parte da população: seu dinheiro escoa através de investimentos públicos para megaprojetos cujo legado social, no fim das contas, é qualitativamente negativo.

 

***

 

Mas não é pra se deprimir. Por muito tempo no Brasil, valeu a divisão que aos movimentos cabia o papel da tática; ao partido, a estratégia. Os primeiros reivindicam, pressionam, colocam o bloco na rua. O último integra as demandas num programa duradouro de poder, e ocupa as instituições.

Um dia o partido virou governo e as táticas foram colocadas a serviço da estratégia superior, mais ou menos como numa divisão simplória entre meios e fins. “Governabilidade” se tornou primária. Com o tempo, os movimentos começaram a ser tratados como funcionários subalternos nas reuniões do planalto. Outros movimentos vieram e, com autonomia, passaram a ocupar o vazio das táticas.

Hoje talvez seja um momento para dar um passo adiante. Somente as táticas é pouco. Quando a estratégia superior se estagnou, a ponto de ser aparelhada por aliados, parceiros e esquemas, tornou-se imprestável para qualquer mudança significativa, nesse momento, é preciso também ocupar a estratégia. Ocupar as táticas e a estratégia, aí está um possível caminho dos novos movimentos e grupos autônomos.

Eis um legado de aprendizado pra quem continua acreditando na transformação, depois dessa Copa “magnífica”.

Publicado em 20 de julho de 2014. Deixe seu pitaco.

BH

O Brasil hoje não é um estado de exceção. Os anti-intelectuais me perdoem o preciosismo, mas é errado nivelar a situação atual com o período ditatorial de 1964-85. Vivemos num regime constitucional em que convivem, por dentro do direito e das instituições, dispositivos tanto democráticos quanto ditatoriais. Com a constituição de 1988, parte dos mecanismos de funcionamento da ditadura se transferiu à nova realidade jurídica e institucional. A polarização anterior entre ditadura x democracia se internalizou no novo regime.

De um lado, os mecanismos autoritários tão evidentes nas polícias, no racismo institucional, na grande mídia corporativa, num autoritarismo difuso pela sociedade que se revela em máximas “bandido bom é bandido morto”, “vagabundo tem que apanhar” ou “protesto é coisa de desocupado”. De outro lado, a possibilidade de organizar-se politicamente, de realizar manifestações, de poder escolher entre programas realmente diferentes, bem como um arcabouço institucional para se lutar contra o racismo, a miséria, a homofobia, a violência de gênero, a violência diluída no cotidiano pela exploração econômica, e refletida em precários serviços de saúde, educação ou transporte.

Todo o período de redemocratização significou uma disputa entre quem tenta desativar o estado de exceção interno ao direito e às instituições, e aqueles que tentam arrochá-lo. As lutas de 2013 foram um momento singular em que se colocou esse conflito a nu, desejando seja a ampliação da democracia, seja a contração da ditadura, por exemplo, com a campanha Cadê o Amarildo ou pela reforma das polícias. O pós-2013, no entanto, trouxe um refluxo dessas aspirações de aprofundar a redemocratização. O refluxo significou a dilatação do estado de exceção. A ditadura interna se descolou da realidade das favelas, — onde até hoje a redemocratização apenas esbarrou, — e passou também a ameaçar o direito de manifestação e a auto-organização em geral.

Isto não significa que o estado de exceção tenha vencido e que o regime constitucional de 1988 se tornou apenas uma farsa. Significa, sim, que a relação de força entre ditadura e democracia pendeu para o outro lado, depois de um momento expressivo de anseios democráticos, em 2013. Significa, além disso, que esse tensionamento entre um e outro aconteceu, e continua acontecendo, por dentro de várias instituições.

Isto aparece, nos últimos episódios, quando vemos:

a) um juiz de 1ª instância decretar uma prisão e um desembargador conceder habeas corpus;

b) um delegado de polícia chamar manifestantes de criminosos, enquanto outro não só se pronunciar contra os desmandos, como ele próprio participar dos movimentos;

c) quando a OAB de um Wadih Damous se coloca na linha de frente da resposta pela democracia;

d) quando o governo federal alinha-se ao consenso criminalizador mas elementos desse mesmo governo, minoritários porém nada desprezíveis, tentem “segurar a onda” ou abrir uma discordância pública;

e) ou mesmo no velho PT, assistirmos aos governistas mais idiotas gozando por repressão e destruição dos adversários, mas ao mesmo tempo ainda existirem cabeças preocupadas com o fato que, uma vez sedimentada a ditadura, eles próprios serão os próximos alvos — aqui não há nenhuma caridade, apenas uma avaliação lúcida de um processo repressivo que pode rapidamente fugir do controle, combinando as pulsões reacionárias que estão correndo por aí desde antes de 1988.

Portanto, não voltamos a 1964 e, me deem licença, mas está politicamente errado quem achata todo o arcabouço institucional e todo o direito, como direito do opressor ou democracia falsa. Estamos noutra situação histórica e que exige outras estratégias e outras táticas. Eu diria até outra ética e outra estética.

A luta contra o estado de exceção *também* passa por dentro do direito e das instituições, apesar de todos os retrocessos do pós-2013. Essa diferença não me parece filigrana intelectual, mas sim uma variável fundamental ao redor do problema do que fazer.

Publicado em 15 de julho de 2014. Deixe seu pitaco.

Publicado originalmente no Le Monde Diplomatique impresso, de junho de 2014. Republicado online pelo Diário Liberdade.

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Em 20 de junho de 2013, no Rio de Janeiro, muitos gritavam “sem partido” e “sem vandalismo” na avenida. Quando, no final da marcha, a aglomeração começou a aumentar na frente da prefeitura, as barreiras policiais se abateram sobre a manifestação, com chuva de balas de borracha, cortinas de gás lacrimogêneo, explosões e muita violência. Num espetáculo triste, a polícia reprimiu 1 milhão de pessoas indiscriminadamente. Aqueles que, momentos antes, entoavam o hino nacional e hostilizavam as bandeiras partidárias, agora recuavam unidos na resistência, gritando “fora Cabral” e “não vai ter Copa”. Manifestantes passaram a organizar linhas de defesa e levantar uma barricada para conter os caveirões.

Nos dias seguintes, sem qualquer pesquisa sobre o que ocorreu naquela noite de drástica plenitude, pipocaram artigos e comentários recheados de adjetivações definitivas. “Hipnose fascista”, disse um; “levante niilista”, outro; falou-se ainda que ela estaria infiltrada de “gangues mascaradas”, era manipulada pela “extrema direita” ou então seriam todos “coxinhas e seus estranhos amigos”. Meses depois, uma intelectual no pináculo acadêmico emitiria a sentença: “violência fascista” e não “revolucionária”,1 mobilizando o velho argumento conservador, que remonta a Edmund Burke, que alerta para o caráter instintivo, anárquico e perigoso da multidão. Essas foram avaliações da esquerda partidária sobre as jornadas de junho de 2013.

Diante de uma mobilização de norte a sul que tinha, entre outras pautas, a melhoria dos serviços públicos, a mobilidade urbana, maior transparência nas contas e gastos dos governos, a reforma das polícias, a democratização da mídia e os direitos LGBT. Diante da qualificação de grupos como o OcupaCâmara (Rio), o Tarifa Zero BH e o Movimento Passe Livre,2 que questionaram o grande negócio dos transportes; a campanha Cadê o Amarildo, que resgatou a favela, o racismo e a brutalidade policial da periferia da percepção;3 o Comitê dos Atingidos pela Copa (Copac) de Belo Horizonte, que conectou uma rede diversificada de comunidades e coletivos autônomos pelo direito à cidade;4 os advogados ativistas – e fotógrafos, e socorristas, e tantos profissionais anônimos que trabalharam de graça nas manifestações, para garantir os direitos que o Estado deveria proteger, mas estava violando.5 Sem falar na miríade de assembleias horizontais (como a Popular de Maranhão ou a do Largo, no Rio), “ocupas” de casas legislativas (como de Santa Maria – RS), plataformas comuns (como a Belém Livre), bem como uma cauda longa de mídias alternativas e um estilo de midiativismo via internet que, pela primeira vez, ganhou escala para disputar a comunicação com os peixes grandes.6 Isso é apenas a ponta do iceberg.

Diante desse, um dos maiores acontecimentos da história das lutas pela democracia no Brasil, a esquerda partidária se recolheu na própria zona de conforto. No lugar onde se aninhou, seja na situação, seja na oposição – nos dois casos num estado de identidade, ancorado na esfera representativa, tendo aprendido as regras, os pactos, os macetes, em suma, aprendeu a conservar o território. Quanta diferença em relação aos tempos, por exemplo, de uma prefeitura que, com Luiza Erundina (PT), em São Paulo, pensava uma política de tarifa zero para o transporte coletivo. Quando, com Olívio Dutra (PT), em Porto Alegre, pensava no orçamento participativo como o primeiro passo para deslacrar a caixa-preta dos negócios da cidade: obras, ônibus, coleta de lixo. Quando a legalização do aborto era pauta estrutural, já que afeta diretamente 50% da população e envolve nada menos do que o direito da mulher sobre si mesma. Tempos quando os militantes do partido não pareciam aspirantes a gestor público, na fila de espera por cargos de onde olharão por cima, com escopo gerencial, as contradições e caldeamentos da sociedade. Tempos quando os militantes de partido, com efeito, tomavam partido nos conflitos sociais (de classe, gênero, raça, sexualidade etc.) e atuavam imediatamentecom as partes – em vez de desligar-se delas em nome das “grandes sínteses” da nova gestão, do desenvolvimento nacional, da obsessão pela governabilidade.

Mas ser de esquerda no Brasil hoje não é ser nostálgico. As jornadas de junho – e também os rolezinhos e fluxos de rua, e um protagonismo cada vez maior das favelas e periferias – mostraram que o novo mundo se impõe sem esperar, arrancando-nos da zona de conforto e forçando-nos a pensar. Depois de junho, por alguns meses, os governantes tiveram medo dos governados. Nos gabinetes, o sorriso largo e o bom humor deram lugar à intranquilidade. Isso é bom. Thomas Jefferson, que não era nenhum Black Bloc, já dizia que toda democracia precisa de uma rebeliãozinha de vez em quando, para regenerar as instituições.7

No projetado caminho da prosperidade embutida na ideia de uma “nova classe média”, a esquerda se chocou com um continente desconhecido, que finalmente chacoalhou os cálculos e certezas. Mas encarou mal a “descoberta”. Ora reagiu chamando todos de “índios”, tratando-os como inaptos de pensamento, política e estratégia e, portanto, ideologicamente vazios, desorganizados e facilmente manipuláveis pela direita. Ora lhes deu as costas, decepcionando-se por não encontrar as Índias como previsto nos mapas. Contudo, o fato é que o continente já está povoado de uma rede de multiplicidades em franca produção de pensamento, política e estratégia, de uma classe selvagem sem nome.8 Que pode, inclusive, reconhecer a relevância das (cada vez mais) rarefeitas respostas institucionais da esquerda para, conforme o caso, acionar seus mandatos e partidos como tática, sem ceder a autonomia.9

Mover-se à esquerda hoje no Brasil significa desativar um sistema imunológico impermeável e todos os reflexos quase pavlovianos diante da alteridade, para se deixar afetar por movimentos de novo tipo e pela reinvenção dos existentes, dessa rede cuja determinação em resistir, transformar as relações de poder e construir alternativas ficou provada em junho do ano passado. Significa optar pela inconveniência de sair do lugar e, na incerteza de uma história em aberto, redescobrir-se nas lutas de seu tempo.

 


 

NOTAS

1 Marilena Chauí, em entrevista a Juvenal Savian Filho.

2  Eliana Judesnaider et al., Vinte centavos: a luta contra o aumento, Veneta, São Paulo, 2013.

3    Giuseppe Cocco, Bruno Cava e Eduardo Baker, “A luta pela paz”, Le Monde Diplomatique Brasil, jan. 2014.

4  Natacha Rena, Paula Berquó e Fernanda Chagas, “Biopolíticas espaciais gentrificadoras e as resistências estéticas biopotentes”; e Rudá Ricci e Patrick Arley, Nas ruas: a outra política que emergiu em junho de 2013, Letramento, Belo Horizonte, 2014.

5    Bruno Cava, A multidão foi ao deserto: as manifestações no Brasil em 2013, Annablume, São Paulo, 2013.

6  Bernardo Gutiérrez, “Os protestos do Brasil dialogam com as revoltas globais”; e Fábio Malini e Henrique Antoun, A internet e a rua: ciberativismo e mobilização nas redes sociais, Sulina, 2013.

7  Michael Hardt, “Thomas Jefferson ou a transição da democracia”.

8  Hugo Albuquerque, “A ascensão selvagem da classe sem nome”.

9  Pablo Ortellado, “Os protestos de junho entre o processo e o resultado”.

Publicado em 9 de julho de 2014. Deixe seu pitaco.

fimdejogo

O 7 x 1 não dá pra explicar só com futebol. E menos ainda jogando a culpa no “emocional”, que seria cair no velho complexo colonizado que atribui as próprias falhas à perda da razão e incapacidade de autodisciplina: não seríamos europeus o bastante, teríamos deixado a natureza atrasada falar mais alto ante o país da filosofia. Não é isso. Certamente o aparelhamento da CBF, a cartolagem impregnada, a falta de treinamento, a falta de inovação técnica, e escolhas estratégicas erradas são explicações melhores.

Mas 7 a 1 numa semifinal é mais do que isso. É todo um projeto nacionalista que, ontem, expôs os pés de barro. O autoelogio permanente, o tom ufanista (inclusive de parte da esquerda), o ódio contra Zuñiga, a insistência em induzir uma inimizade com os argentinos, o otimismo cegante no ar achando que a Camisa Canarinha, por si só, numa espécie de metafísica verde-amarela, poderia fazer frente à Alemanha depois de penar contra México, Colômbia e Chile e sem Neymar. Isso se chama nacionalismo.

Não sei em que ponto do evento aconteceu, mas o nacionalismo se sobrepôs ao futebol. Protestos legítimos, dissidências políticas e até palavras de ordem que vieram das ruas, como o #NãoVaiTerCopa, foram ridicularizadas, xingadas e acusadas como antipatrióticas e até, fico pasmo, ofensivas à torcida pela seleção. O nacionalismo levou a confundir paixão pelo futebol com amor próprio.

O torcedor nacionalista une seu destino com o destino da Seleção, que por sua vez estaria destinada a ser superior. Mas quando a superioridade não se verifica, fica abalado em seu amor próprio e, ressentido, vai despejar suas frustrações em quem encontrar pela frente. Daí as vaias raivosas contra a seleção que, há poucos momentos, amava; daí o ódio a Fred, daí a explosão de paixões tristes que vimos ontem com muitas brigas, bandeiras queimadas, deboche generalizado.

Os mesmos que nos xingavam por sermos dissidentes da #CopadasCopas, agora xingavam a Seleção que tanto deveríamos amar, eles inundaram as redes sociais com sarcasmo do mais barato, tentando esconjurar-se do fracasso — daqui por diante — alheio.

Nosso futebol feio e mal treinado se somou ao que o amigo Silvio chamou de crise civilizacional: nessa Copa, querendo ser grandes, grandiloquentes exibindo-se como o melhor evento de todos os tempos, em todos os sentidos, o mais bem organizado, mais bonito e com os melhores jogos, da melhor torcida, da melhor Seleção, do melhor país que finalmente se impõe diante do mundo.

Mas querendo ser tão maiores, fomos pequenos. O 7 x 1 mostrou como o projeto civilizacional inteiro, e não só o futebol, precisa urgentemente repensar-se. Não porque sejamos atrasados e emotivos, mas porque avançamos perdendo algo de essencial que havia em nosso subdesenvolvimento não-nacionalista.

Tudo foi por terra no 7 x 1 e deveríamos agradecer aos simpáticos adversários de ontem (e que classe!) pelo choque de realidade.

 

PS. Título sugerido por @andrevallias, incitado por @FilipePAlmeida

Publicado em 7 de julho de 2014. Deixe seu pitaco.

Nacionalismo

É o esporte das minorias, o balé das virtudes de 22 singularidades que colaboram para um propósito comum. Antigamente, cada grande nação era um capitalismo e elas guerreavam entre si. Hoje, o capitalismo é um só e o imperialismo não depende mais de fronteiras. Está em todo lugar, globalizado. Apesar disso, as nações continuam guerreando no futebol. Mas todo mundo sabe ou deveria saber que é de mentirinha. No futebol, as bandeiras, camisas, hinos e declarações de “guerra” são pra tirar sarro, provocar, atiçar a diversão com as rivalidades. São declarações que já nascem artifício. A Copa não é uma guerra mundial entre identidades nacionais. As seleções que perdem não saem como tropas derrotadas. Ao voltar pra casa, os guerreiros vencidos são festejados. Porque a festa é do comum do futebol. A Copa é onde aprendemos a vibrar, com grande emoção, com um gol do Messi, de James, de David Luiz, de Robben e até da Costa Rica, com Bryan Ruiz. É o momento máximo do intercâmbio de alegrias e da confraternização incondicional, onde aos poucos as identidades se desvanecem num carnaval entre torcidas, turistas e nativos. As torcidas se encontram, se provocam, se abraçam e se beijam, amam-se amando o futebol.

Quando o futebol é dominado pelas maiorias, muda tudo. E o nacionalismo é uma formação daninha de maiorias. O nacionalismo não tem nada a ver com torcer para uma seleção. Torcer pra uma seleção é parte do jogo e não precisa de nacionalismo. Quando as identidades nacionais dominam a torcida, elas reaparecem como insígnias de combate e não mais como pretexto lúdico para o futebol e suas virtudes. O nacionalismo é quando o futebol se torna um meio, um instrumento de seus fins feios. Aí o imperialismo reaparece como guerra. O balé acaba e vira ódio. Quando o hino é gritado como autoafirmação e não como prelúdio da festa. É quando o hino dos outros é vaiado. O amigo argentino, colombiano, alemão ou nigeriano aparecem como ameaças de nosso amor próprio. E assim perdemos amantes em potencial, amantes de um amor maior. Quando isso acontece, o futebol oscila entre o tédio e a violência, tendendo para o grotesco. As torcidas não se misturam mais e cada jogo fica indigesto. Torna torcedores, narradores e comentaristas estúpidos. Torna a Copa uma coisa daninha, cada vez mais distante do futebol. Dá vontade de não ver, dá vergonha.

Publicado em 6 de julho de 2014. Deixe seu pitaco.

Moons

As quatro luas galileanas descobertas pelo astrônomo em 1610 orbitando ao redor de Júpiter, graças ao recém introduzido telescópio com lente magnificadora 20x. Foram as primeiras luas encontradas noutro corpo celeste que não a Terra. A descoberta minou ainda mais o sistema de Ptolomeu (séc. II), já que definitivamente as luas de Júpiter não orbitavam a Terra. Embora contestado desde a antiguidade, o modelo geocêntrico gozava de uma fortuna crítica de 2 mil anos, era queridinho do catolicismo e do islamismo, e adotado com entusiasmo por filósofos como Aristóteles e Avicena.

As quatro luas galileanas são, com folga, as quatro maiores, dentre as 67 luas conhecidas do planeta gigante. Por ordem de proximidade a Júpiter, são elas Io, Europa, Ganimedes e Calisto (foto).

A primeira, Io, é repleta de vulcões e atividade tectônica, o corpo celeste mais geologicamente conturbado do sistema solar, um inferno dantesco coberto de lagos de enxofre e nuvens de dióxido sulfúrico. Daí a cor amarelo-esverdeada da superfície. Os vulcões de Io são tão altos quanto o monte Everest e o empuxo deles tão descomunal que a lava ejetada escapa do campo de gravidade, para formar uma nuvem de magma na órbita de Júpiter. Além disso tudo, pela proximidade, a lua é fustigada pelas tempestades de plasma geradas por aquele cataclísmico planeta.

Europa, totalmente diferente, é uma bola de gelo apinhada de despenhadeiros e canais. Tem um núcleo mineral de silicatos cuja afloração contrasta com o branco do gelo da superfície, que chega a – 160º C, tornando o gelo tão duro quanto granito. A lua conta com uma tênue atmosfera de oxigênio. Junto com Marte, Europa é séria candidata à vida extraterrestre. Debaixo da crosta congelada, a força de maré causada pela interferência gravitacional de Júpiter é tão grande que o calor produzido pode liquefazer a água, com ainda mais razão se for considerado o vulcanismo (https://gsa.confex.com/gsa/2007NE/finalprogram/abstract_117688.htm). A hipótese mais aceita é que, entre 10 e 100 km de profundidade, existiria um oceano de água líquida, o que totaliza o dobro do volume dos oceanos da Terra. Isto significa um potencial de vida extraterrestre (http://www.universetoday.com/42303/europa-capable-of-supporting-life-scientist-says/), pelo menos, semelhante ao que se verificam em fendas oceânicas, com moluscos, crustáceos e até mesmo peixes de profundidade. Em dezembro de 2013, análises de espectrometria da NASA identificaram a presença de certos silicatos na superfície europeana que podem estar associados a processo orgânicos (http://www.jpl.nasa.gov/news/news.php?release=2013-362).

A terceira das luas de Galileu, Ganimedes, é a maior lua do sistema solar. Ela é ligeiramente maior (2%) do que a segunda maior (Titã, de Saturno), tem o dobro da massa da Lua e chega a ser maior que o menor planeta, Mercúrio. É composta por uma mistura de gelo e rocha. Ela é tão grande que existe uma controvérsia se Galileu realmente foi o primeiro a observá-la. Registros compilados por um grupo de história da ciência de Pequim sugerem que o astrônomo chinês Gan De, que fez um estudo meticuloso sobre Júpiter no século 5 a.C., teria avistado Ganimedes a olho nu (http://en.wikipedia.org/wiki/Gan_De).

Finalmente, Calisto, a mais externa das quatro descobertas em 1610, é a segunda maior de Júpiter e terceira do sistema solar. Formada por rochas, gelo, amônia, silicatos diversos, tem uma muito tênue atmosfera de gás carbônico e oxigênio. Como está bem mais distante de Júpiter, o aquecimento gerado pela força de maré é bem inferior, de maneira que, se existir água em estado líquido, estaria localizada em oceanos tão profundos quanto 100 ou 150 km, debaixo da crosta congelada. Menos “midiática” do que as demais luas, Calisto no entanto foi contemplada como a lua jupiteriana mais propícia para uma colonização humana (http://tinyurl.com/pfavfvj), precisamente por se manter afastada dos efeitos deletérios do planeta Gigante, com baixos índices de radiação e estabilidade geológica. Além de conter água e oxigênio para reabastecer missões espaciais, a lua daria um bom entreposto no limiar do sistema solar exterior, inclusive para alavancar cosmonaves para outras estrelas, beneficiando-se do melhor efeito estilingue possível, tensionado a partir de Júpiter. Depois de Marte (2030-35), Calisto é o segundo destino mais visado pelos projetos de exploração do espaço extraterrestre, possivelmente na década de 2040 (http://trajectory.grc.nasa.gov/aboutus/papers/STAIF-2003-177.pdf).

As quatro luas de Galileu são tão sugestivas, em sua riqueza de potencialidades, que foram exploradas milhares de vezes na ficção não-científica, em livros, filmes, quadrinhos, videogames. Uma breve pesquisa na wikipídia mostra várias obras inspiradas, incluindo famosos como Isaac Asimov, Philip K. Dick, Stanley G. Weinbaum, Robert A. Heinlein, Arthur C. Clarke, Kim Stanley Robinson, Bruce Sterling e até H. P. Lovecraft, que em 1919 descreveu “filósofos-insetos orgulhosos e rastejantes” habitando Calisto.

Na sequência de “2001, uma odisseia no espaço”, o filme “2010″ (1984, Peter Hyamns), a nave abandonada no primeiro filme é encontrada orbitando Io. Na série “Babylon 5″, Io possui a segunda maior colônia humana, depois de Marte, e operações de mineração em Europa (que ironia). Esta lua também é o lugar escolhido para um piquenique da turma do “Futurama”, num dos episódios. Já na versão mangá da série “Yamato”, a nave vai em missão a Calisto para resgatar os amigos, mas o herói termina refém das forças de Gamilon. Em Superman, da DC Comics, quando 100 mil criptonianos decidem terraformar uma anti-Terra, eles abduzem Calisto de Júpiter, a fim de criar o efeito de maré nos oceanos particulares do novo planeta.

Por último, e aqui encerro a divagação, Ganimedes, a maior das luas galileanas, foi o esconderijo escolhido por Zordon para abrigar suas frotas estelares, os Mega Vehicles, em episódio dos “Power Rangers”.

 

Fotos: Sonda Galileo (NASA, década de 90)

Dedicada à Cristina de Amorim.

Publicado em 27 de junho de 2014. Deixe seu pitaco.

Marx

“Tudo que sei é que não sou marxista”, pronunciada em 1879, com certeza hoje Marx manteria essa frase, diante de tanto marxista de gabinete, de estado, de salão, de butique, de cátedra, apaixonados pelo poder ou filiados à hegemonia, burocráticos, academicistas, tantos marxismos em compota, patrulhas marxológicas e marxímetros acadêmicos.

Depois de 150 anos de lutas, revoluções e infinitos volumes de teoria e debate, Marx insiste em fazer-se presente, apesar das ortodoxias. Estou falando de um Marx minoritário, um Marx das lutas, anticapitalista e antiestado, Marx da transição comunista, do perspectivismo da história, da luta de classe. Um Marx renovado que adere tranquilamente à crítica de um marxismo 1) economicista, 2) dicotômico, 3) utópico, 4) teleológico, 5) estatista, e 6) antropocêntrico.

Abaixo, tento resumir pelo menos essas seis:

1) Economicista: “O Capital” é um livro escrito em polêmica aberta contra os economistas clássicos liberais e suas “leis econômicas” próprias, contra a ideia que a economia fosse ciência autônoma. Nele, Marx vai não só desmascarar os economicismos que costumam separar o mercado do estado, como dois polos opostos (Marx demonstra que são integrados e funcionais um ao outro), que sustentem uma “mão invisível” quase divina dos mercados, ou que pressuponham o homem burguês como protótipo do agente racional, calculador e autointeressado, isto é, o indivíduo econômico; como nessa obra Marx também vai subverter as teorias economicistas que tentam quantificar o valor de troca (operando a passagem da qualidade à quantidade), determinar alguma equivalência entre trabalho e salário (para Marx, não há medida justa da exploração!); ou reduzir o dinheiro a equivalente geral e neutro, ou seja, visto apenas como meio de pagamento, e não como relação criativa de poder, como crédito.

2) Dicotômico: em Marx, não dá pra falar em dois grupos pré-constituídos, duas camadas sociais, disputando o protagonismo da história. Isso seria a sociedade feudalista, que se divida por estamentos bem definidos. Na sociedade capitalista, muda a ideia de classe. Porque não existe simetria, proletariado e burguesia são dois termos incomparáveis, que não podem existir no mesmo plano. O trabalhador não precisa do capitalista pra existir, mas o capitalista precisa do trabalhador. Na sociedade capitalista, quando se dá o conflito, não se opõem dois grupos sociais. Opõem-se, sim, a sociedade capitalista e aqueles que, lutando, lutam pela abolição da sociedade capitalista. Tem-se, em Marx, como lido por exemplo por E. P. Thompson, um sujeito que se constitui libertando-se do outro grupo a que também pertence. O proletariado é a luta que se liberta da burguesia, que a destrói, destruindo a si próprio como um polo dessa relação. A luta de classe não opõe, assim, duas classes, mas constitui uma única: o proletariado, que não existe senão na luta. Isso não é dicotomia (dois lados num Fla-Flu), mas conflito na imanência, luta por libertação por si mesmo, por sua afirmação como liberdade diante do capital. É muito diferente.

3) Utópico: nenhuma análise faz sentido apenas como interpretação do mundo, sem um movimento real de lutas, em que, em primeiro lugar, essa análise possa colaborar para a transformação do mundo. Marx não fazia hipóteses, mas apostas políticas, mais ou menos implicadas nos grupos com quem pesquisava táticas e estratégias de ação. Sem sujeitos que, precária e fragmentariamente, encarnem as premissas das análises e suas linhas de desdobramento, elas não fazem sentido, se tornam opacas, bizantinas, porque impotentes, tendem a não passar de paralogismos com pendores estetizantes, para fruição pessoal mas nenhuma pungência. Marx não esculpia porcelanas teóricas, mas ferramentas de luta, armas críticas que pudessem ser usadas.

4) Teleológico: no prefácio do “Capital”, já está colocado o desafio de virar a dialética aérea de Hegel de ponta cabeça, colocando-a com os pés no chão. O esforço de Marx será por desmontar qualquer sentido da história dado, qualquer seta em direção a um irrefreável progresso, qualquer etapismo em direção a algum futuro glorioso da humanidade, do estado, do poder. Nada disso. Tudo pode dar errado, tudo pode ser revertido, desviado, multiplicado, estratificado em níveis inarticuláveis. Contrapondo-se ao séquito hegeliano à esquerda, Marx não vê nenhuma tendência natural ao bem no homem, nada a defender dalguma natureza humana, nenhum otimismo antropológico. E tampouco qualquer pessimismo determinista, como se o Mal fosse abolir-se pelas próprias falhas. Nenhuma teodiceia ao Céu nem ao Inferno. As contradições do capitalismo não vão derrubá-lo por si próprias; não vão sequer acelerar a sua derrubada. Pelo contrário. O desenvolvimento do capital procede aproveitando as contradições, provocando crises, engendrando ansiedades, que ao fim e ao cabo são recuperadas para fortalecer sua dominação, o estado e o mercado que se reestruturam pela via da destruição criativa. Dialético e mefistofélico é o capital. Hegel é seu filósofo. Produtivista é o capital, ao enquadrar a multiplicidade das potências produtivas em valor econômico, dissolução das relações sociais dissidentes, e homogeneização daquelas pacificadas e voluntariamente servis. As lutas ou são antidialéticas, ou serão facilmente recuperadas. A luta de classe está orientada pela abolição da dialética entre capital e trabalho, entre crise e reestruturação, entre estado/público e mercado/privado. O comunismo é a dialética destruída: o momento em que a história se liberta da História, quando os sentidos escapam da dialética capitalista e se esgarçam à plenitude. Isso não é o fim da história, mas seu eterno recomeço, seu kairós: é a revolução, como em W. Benjamin.

5) Estatista: sem dúvida o maior golpe ao pensamento de Marx é torná-lo um pensamento do estado, para o estado, a partir do estado. A maior derrota do marxismo talvez seja a possibilidade de falarmos em algo como um marxista-hegeliano. Tornar a categoria do estado um alfa e ômega do marxismo congela a ontologia constituinte de Marx, seu caráter essencialmente antiestado, como aquilo que revoluciona a ordem das coisas. Se Marx polemizou com os teóricos anarquistas de seu tempo, não foi porque eles eram contra o estado. Foi porque não eram contra o estado o suficiente. Não eram radicais o suficiente, ao limitar o estado à autoridade, à lei estatal, ao aparelho coercitivo, deixando de lado a estrutura metafísica que condiciona a existência do indivíduo, da sociedade e da economia no capitalismo, que também são estado. Sem entrar no mérito desses embates (particularmente vejo alguns pontos específicos em que fecharia com Bakunin e, em menos pontos, Proudhon), Marx nunca flertou com a ideia de estado como resolução de quaisquer dos problemas do comunismo. Nem mesmo na “ditadura do proletariado”, a muito incompreendida proposta de radicalização da democracia operária.

6) Antropocêntrico: outra enorme lorota sobre Marx, especialmente nas elaborações posteriores, mas não só. Já em “Questão judaica”, livro de juventude, Marx polemiza com os hegelianos de esquerda contra o humanismo secular (onde se inscrevem muitos ateísmos modernos), mostrando que há muito de teologia política nas ideias perfeitamente laicas de estado, poder público e emancipação humana. Também na Seção 4 do Cap. 1, do “Capital”, em que a crítica do fetichismo sugere um aspecto mágico do trabalho vivo, na força demoníaca do fetichismo revolucionário (tão bem reapropriado pelo cinema de um Glauber Rocha). Mas o maior golpe à modernidade antropocêntrica está mesmo no “Fragmento sobre as máquinas”, um libelo anti-humanista em que Marx vai teorizar sobre a fábrica como coletivo maquínico de humanos e não-humanos, e sobre a relevância em organizar-se na ação política a partir desses novos arranjos híbridos da revolução industrial, porque imensamente potentes e produtivos também para a revolução. No mesmo texto, Marx mostra uma tendência de generalização do maquínico pelo tecido social, quando a fábrica vira “fábrica social” e as forças produtivas imediatamente difusas pelo “General Intellect”. Desses delírios febris há 150 anos, brotará a virada maquinocêntrica do marxismo, como em Gilles Deleuze e Felix Guattari (em “Anti-Édipo” e “Mil Platôs”), ou Antonio Negri (em “Marx além de Marx”).

 

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Hoje, Marx certamente não se diria marxista, mas não há motivo para nostalgia. Nem tempo para tornar-se paleomarxista atrás de algum elo perdido do marxismo original, como fazem alguns que preferem chamar-se “marxianos”. Nunca quis ser puro sangue. Eu acho que é preciso sujar as mãos e falar marxismo, e disputar marxismo, e defender e atacar o marxismo. Marxismo de Marx, marxismo insubmisso, marxismo selvagem.

Talvez Marx, que também era contra marxistas, hoje, brincasse que os críticos ao marxismo descrito acima, muitas vezes com ar superior, debochados, como se falassem de algo ultrapassado e vulgar; no fundo, esses críticos é que estão agora aderindo, e assim, insuspeitadamente, um século depois, renovam e reativam a sua força teórica, através das entrelinhas recalcadas de seus desvirtuadores.