out 2011 06

O que é roubar um banco comparado a fundar um?” — Brecht

Ou como diria Mussum, they camp e nóis acampa.

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Compilação de cartazes e imagens anônimas, realizada pela designer autonomista Bárbara Szaniecki, autora de Estética da multidão, livro resenhado pelo Quadrado dos loucos aqui.

jan 2012 22

Organize online. Ocupe offline.

 

Embalado pelas revoluções árabes e pelo movimento do 15 de maio (15M) europeu, pelas sucessivas revoltas na Tunísia, Egito, Espanha,  Itália, Islândia, Grécia e Reino Unido, o momento americano da revolução global irrompeu em Zuccotti Park. Em 2 de agosto de 2011, aconteceu a primeira assembléia nessa praça arborizada da Baixa Manhattan. Em 17 de setembro, centenas de pessoas levantaram acampamento na praça. Sintomaticamente, Zuccotti é classificado como “espaço público de propriedade privada”, controlado pelo banco de investimentos Brookfields. A primeira tarefa dos manifestantes do Occupy foi comunalizar o espaço: assumiram uma gestão democrática e passaram a produzir intensivamente (n)ele. Como nas demais ocupações de espaços públicos pelo mundo, a OcupaNY transformou o espaço em comum, além das categorias do público e do privado. A partir daí, instalou-se uma versão beta da política, em constante tentativa, erro e mutação. A partir de Nova Iorque, as ocupações se alastraram para mais de 400 cidades norte-americanas. Na chamada de 15 de outubro (15O), o movimento pipocou no Brasil, Equador, México, Uruguai, Colômbia, Argentina, Costa Rica e Chile.

Quem entrou em 2012 um pouco decepcionado com o ciclo de lutas, deveria fazer um exercício retrospectivo. E voltar para 1º de janeiro de 2011. Quem poderia imaginar, na época, que as ditaduras árabes seriam varridas da história por multidões? que um experimento como a Praça Tahrir fosse factível? que milhões de pessoas tomariam as ruas pela Europa, rompidas com a esquerda partidária? que, nos Estados Unidos, se voltasse da noite para o dia a falar abertamente em revolução e poder constituinte, acontecessem bloqueios de portos, piquetes em prédios empresariais, calotes coletivos de estudantes, e se organizasse a primeira greve geral no país desde 1946? De acordo com o último relato do estado da ocupação, ainda se mantêm 61 acampadas sob o fustigante inverno americano e a agenda ativista para 2012 está lotada.

Se existe uma diferença entre o ciclo OcuparTudo e os protestos anticapitalistas do final dos anos 1990 reside na prioridade da construção de uma alternativa, de já apresentar-se com propostas concretas para o outro mundo possível. Aquele ciclo de lutas se pautou, principalmente, pela agenda do confronto direto, da provocação, da perturbação das instituições globais do capitalismo e da destruição da propriedade privada. O movimento Occupy incorpora a raiva e a revolta das ações globais precedentes, mas as elabora mais afirmativamente, num desejo de coalhar o mundo de Praças Tahrirs, de enlaçar redes de auto-organização e auto-valorização. Militantes das antigas, dos dias de ação global, de Seattle e Gênova, se sentem não somente contemplados, mas entusiasmados com o vigor e a determinação dos novos. Se, antes, éramos reprimidos pela hostilização à propriedade, agora se é reprimido simplesmente por ocupar o espaço público e engendrar práticas autonomistas. A mera existência das acampadas em espaços públicos já afronta os poderes constituídos.

Toda a mobilização mudou a gramática da política americana. Voltaram-se a debater modelos de estado, estrutura social, sistema econômico e divisão de classe. Além disso, instaurou um clima de desobediência civil: ousa-se mais, desafia-se mais. A recente mobilização pelas liberdades das redes e contra o SOPA só pode ser entendida sobre o pano de fundo da agitação política que o Occupy exprime. Sobretudo, colou o slogan 99% contra 1%, que resgata ao imaginário político a divisão de classe. Descarta-se a ilusão de que na sociedade somos todos Um, que alguma harmonia universal dos diferentes pudesse resolver os problemas sociais em nome da humanidade. O Um tem que se fazer Dois. O movimento Occupy forçou a arena pública a reconhecer a profunda assimetria entre ricos e pobres, entre proprietários e precários, entre credores e devedores, um antagonismo cuja solução não se dá com reformas ou melhoramentos pontuais, da parte de governos e partidos. E não se trata, como resposta, de inaugurar sociedades alternativas, à moda dos hippies, onde essas divisões sociais não mais existiriam. Mas, sim, propor alternativas de sociedade no coração da ordem social vigente, com o propósito de abolir as segregações.

Nesse sentido, por mais demandas que sejam formuladas pelas acampadas (e muitas, claramente, o são), elas jamais chegarão à altura do desafio colocado pelo Occupy. Membros do governo e da imprensa cobram a mesmo exigem, por vezes histericamente, as pautas e exigências do movimento, esses não entenderam o ímpeto do Occupy. Ele não tem funcionado como mais uma articulação da sociedade civil, ou seja, como grupo de pressão para reivindicar ante o estado, — que a seu passo poderá atender ou não. Muitas das demandas simplesmente não podem ser atendidas. Por impossibilidade sistêmica. Se pudessem, o próprio movimento perderia o sentido, uma vez que ele se criou exatamente porque há demandas que não podem ser processadas pela máquina representativa, triplamente viciada por governos, partidos e grande imprensa. O dissenso é radical e essas demandas são vitais. E se relacionam com o acesso democratizado a bens comuns e moradia, a modelos alternativos de desenvolvimento e metrópole, a formas de trabalhar e produzir socialmente e a instituições baseadas na auto-organização e na autonomia. O que se pede simplesmente não poderia ser atendido por quem é o obstáculo primeiro das demandas. Que situação mais enervante para os representantes constituídos, afinal, você não pode fazer nada para pará-los quando eles não querem nada de você. Os problemas que o Occupy põe extrapolam as soluções disponíveis no mercado eleitoral. Daí também remeter a um slogan sessentaoitista: seja realista, demande o impossível.

Outro diferencial do movimento está na importância de produzir, no foco na atividade. Sua relevância para o movimento está no que você faz por ele, efetivamente, na aspereza do concreto, no quanto você investe o tempo, a capacidade, o desejo, a paciência e a revolta. Ocupa-se o espaço não para expressar pura e simplesmente, mas para produzir. O quê? formas de organizar, de decidir, de gerar cultura, resistência, redes colaborativas e arte-ativismo, tudo misturado; para aprender o próprio processo de ocupação, para irradiar lutas e mobilizações visando a ocupar outros lugares: escolas, fábricas, hospitais, empresas, universidades, a internet. Nisso, não reproduz a lógica reativa de alguns coletivos esquerdistas, que se limitam a expedir moções de repúdio, reclamar dos governos e resmungar contra-tudo-o-que-está-aí. Nem se restringe ao ideal participativo da classe média liberal. Isto é, achar que fazer política se resolve em participar de redes sociais, debater abertamente os tópicos e contribuir para a formação dos consensos e conversas. O mundo não se muda diretamente com idéias, mas quando elas circulam, são compartilhadas, se transformam e se enredam com as práticas concretas, com a ação direta e a organização militante, quando elas encarnam na praça e nas ruas.

Algumas pessoas deveriam parar de esperar do Occupy uma emoção permanente. O tempo da crise também desabrocha mediante um trabalho laborioso de construção, qualificação, capilarização. Tem seus refluxos, recuos e adaptações. Os fluxos e redes, as práticas e discursos vão se articulando, organizando uma sinergia no que efetivamente rola, um comum produtivo, — e isso não significa que vai ser espetacular como no cinema, os proletários marchando para ocupar triunfalmente o Palácio de Inverno. Mesmo porque não existe mais centro absoluto de poder. Não adiantaria para o Occupy tomar o poder do estado, isso seria muito pouco.  No seu dissenso, é preciso atravessá-lo, reinventá-lo, esgarçar novos horizontes de políticas, mídias e direito.

As utopias que fiquem nas cátedras e obscuros coletivos. No dia a dia das ocupações, não há lugar para a pureza de ideologias e seus programas imaculados, nem para tentativas de unificar os grupos contra alguma entidade sobrehumana de doze cabeças. Tudo se hibridiza e se intensifica nas relações sociais que nos atravessam, e está só começando. 2011 foi só o gostinho.

jan 2012 30

Parem a guerra contra os pobres

O movimento veio pra ficar.

Das revoltas árabes, Praça Tahrir e acampadas da Europa, às praças e ruas das Américas, o Occupy pode não ter encontrado a resposta definitiva para os problemas do mundo. Mas abriu um novo horizonte onde esses problemas estão sendo reformulados e enfrentados diretamente. Expôs que as questões estão muito além dos parâmetros e soluções disponíveis, seja no mercado eleitoral dos partidos, nos comentaristas da grande imprensa ou na academia. É preciso reorganizar o discurso e a prática política. Pra isso, é menos tomar o poder do que subvertê-lo, cortando em diagonal pelas dicotomias estado x mercado, estado x sociedade civil, público x privado, coletivo x indivíduo, global x local etc. O jornalismo convencional não consegue sequer enxergar fundo as novas mobilizações, bitolado que está em buscar nos movimentos mais uma manifestação da “sociedade civil”, organizada para reivindicar diante do estado. No entanto, com ações diretas, desobediência civil, cartazes, panfletagem, mídias táticas, networking militante, piquetes, ações hackers, bloqueios, marchas, o Occupy reabriu a política como espaço conflitivo, para radicalização de propostas e antagonismo direto.

No Brasil, várias Ocupas saíram ou foram removidas dos espaços físicos e agora se expandem e disseminam como gases tóxicos. Volatilizaram-se para outros lugares, virtualizaram-se, reorganizando e revitalizando as lutas pela mudança. Sem perder o ímpeto, hoje as Ocupas se relacionam com redes de movimentos sociais e pautas ativistas. Decerto não descartam novas acampadas pelo ano e já fazem parte do cotidiano militante das metrópoles. Nos EUA, Occupy registra 60 ocupações em curso, cada uma com sua agenda de atividades. Ontem, por exemplo,  uma marcha do Occupy Oakland foi reprimida pela polícia, com 200 prisões. Essa agitada cidade da Califórnia, onde surgiram os Black Panthers nos anos 1960, foi cenário dos confrontos mais duros entre os 99% e representantes dos 1%.

Em 2012, é possível ser otimista, mas nem tudo são flores. O caráter multitudinário do Occupy também dá margem a agenciamentos indesejados. A multidão que se auto-organiza não é algo positivo em si mesmo (nem negativo). Depende da construção de sentidos e da prática concreta. Ela é atravessada por muitos vetores, contraditórios, por vezes de apropriação e desmobilização, e não cessa de debater-se com paixões tristes, implosões, paranoias, impasses neuróticos. Que as Ocupas embutem perigos é evidente. Isso em nada as desqualifica, pelo contrário. Sair de casa tem seus riscos e não se muda o mundo diante da novela das oito. Geralmente, esse argumento conservador é professado por quem tem muito a perder. Sim, no Occupy, pode-se falar em perigos. Já na ordem por ele contestada, em perigos que se concretizaram, uma realidade regularmente violenta e injusta. Demais, em certo sentido, é bom que um movimento seja perigoso.

Isto posto, com base nessa experiência irradiada pelo Occupy, gostaria de listar não perigos, mas impotências ameaçadoras que circundam o movimento, que brotam aqui e ali, localizadamente. Estou falando de aspectos negativos e conservadores, que bloqueiam o sentido revolucionário de que a multidão auto-organizada (e só ela) pode investir-se.

1. Fetiche do Sistema. De fato, o Occupy exprime uma luta contra causas sistêmicas em detrimento de pautas isoladas. Mas não pode ser simplesmente contra o Sistema. Isto é, contra o Complexo Industrial-Militar, o Imperialismo, o Monstro do Capital… ou qualquer outro Moloch indialetizável que impeça chamarmos os inimigos pelo próprio nome. O sistema afinal se constitui da matéria viva das relações sociais, que se desenvolvem em vários planos, macro e micro. As lutas antissistêmicas (sempre no plural) só podem vingar com a multiplicação e a articulação de muitas pautas e frentes que, coordenadas com inteligência, porventura ganhem massa crítica para a mudança global. Essa coordenação prescinde de significado-mestre, de uma ideologia que amarre as lutas nalguma dimensão primária: a economia, a cultura, os direitos humanos, o meio-ambiente. Sucede um paralelismo empoderador, um comum produtivo materializado por lutas por renda, voz política, direitos civis, minoritárias, por sabotagens e reapropriações, por vários focos em coexistência e contágio. Em determinadas situações, algumas pessoas acham que a pauta deve ser A ou B ou C, e ficam disputando sobre prioridades sem perceber como, frequentemente, a pauta potente só pode ser A e B e C, um ABC híbrido.

2. Anti-política. Muitas vezes, as manifestações das acampadas e Ocupas se colocam como apartidárias (“não quero saber de partido”) ou suprapartidárias (“toleramos qualquer partido, mas estamos acima disso”). Não se filiar a partido e não fazer militância partidária e atacar a forma-partido e anular o voto, nada disso implica enfiar todas as forças partidárias no mesmo saco. Empobrece a análise de conjuntura. É comum movimentos bastante partidários se apresentarem como apartidários e sem ideologia. No Brasil, a pauta anticorrupção funciona desse jeito da UDN e Carlos Lacerda até o movimento Cansei e a revista Veja. Por mais que a máquina representativa consista num inimigo a desconstruir-se pelas lutas antissistêmicas, é preciso reconhecer que partidos, mandatários e governos podem agir de muitas formas, podem ser reformistas, conservadores ou simplesmente reacionários (basta ver Pinheirinho). Uma boa estratégia não dispensa atravessar esferas mais institucionalizadas, buscando pontos de acoplamento e contatos esporádicos e pode ser transpartidária.

3. Vanguardismo. A composição das acampadas européias, do Occupy norte-americano e das Ocupas brasileiras é parecida. Um contingente heterogêneo de jovens de 20-30 anos, desempregados, precários, proletarizados, alguns militantes mais antigos, anarquistas, comunistas, social-democratas, socialistas, muitos universitários, secundaristas, alguns professores, um punhado de profissionais liberais, curiosos de toda espécie, gente inadaptada, punks, neo-hippies e também, num segundo momento, uma enxurrada de gente em situação de rua, sob condição mental tensa e usuários de drogas ilícitas de rua. Esse conjunto ou parte dele não pode se ver como vanguarda da revolução. Como o front das lutas sociais, superior e mais avançado que outros grupos organizados. A comunalização do espaço e a sua tomada pelos fluxos urbanos exprimem, sim, força transformadora. Porém, ainda assim, não se imagine vá formar comitês revolucionários para dar a linha. Mesmo porque a revolução não é desse jeito: um dois três e já. No Brasil, não se pode perder de vista a perspectiva dos pobres, esses que já constituem outro mundo na precariedade, formulam discursos, culturas e poéticas de resistência, produzem, desejam e sabem como ninguém como chamar os inimigos pelo próprio nome. Sem romantismos, pobreza não é só privação e sofrimento, mas potência.

Na feliz síntese de Hugo Albuquerque, no Descurvo: “A favela é o locus definitivo de resistência daqueles que foram largados para morrer ao relento, é processo de luta, portanto, sua própria existência – e sua re-existência – é positividade pura. O antropofágico Pinheirinho, mais ainda. Derrota é a resignação, é sentar-se e aceitar morrer, nada disso aconteceu.

4. Populismo anti-financeiro. O Occupy disparou em Wall Street. Isto não significa que tome por alvo primário o capitalismo financeiro e não o capitalismo como um todo. Quando alguns discursos separam economia real de especulação financista, parece que estão absolvendo a economia real. Como se não houvesse patrões, exploração do trabalho, precarização das pessoas e danos socioambientais causados pela dita “economia real”. Essa culpabilização da ganância e dos banqueiros rapidamente capturada pelas ondas de resgate de valores, da moral do bom trabalhador, do bom patrão e do bom capitalismo. Tradicionalistas puros como as paisagens de John Ford contra os yuppies e magnatas decadentes de Nova Iorque. Nos EUA, essa vibe conduz ao Tea Party, na releitura da história dos EUA como a progressiva contaminação da mensagem originária dos founding fathers pelos grandes bancos e investidores. Pior, nessa simplificação antifinanceira habita certo antissemitismo, tanto na velha acusação da conspiração judaica (Plano Cohen, Dreyfus, nazismo), quanto na rápida sinonímia entre banqueiros e judeus. Kill the bank vira kill the jew. É preciso criticar a financeirização da vida, mas não como perversão do bom capitalismo liberal, mas como modo de regulação da produção capitalista. O Occupy se propõe a construção de um novo mundo, jamais o regresso nostálgico ao velho.

5. Somos todos Um. O fetiche da comunhão universal, da Gemeinschaft. Significa recusar a divisão social como horizonte da organização e mobilização. Essa divisão de classe tão bem marcada pelo slogan dos 99% contra o 1%. Em vez disso, os unitaristas assumem que o Occupy é uma frente para os 100%, que todos podem se beneficiar e fazer parte. Esse universalismo moraliza as discussões e questões políticas, em nome da humanidade do homem, do bom selvagem maculado pela civilização capitalista. E despotencializa na medida em que impede de enxergar, logo, de combater as divisões, os cercamentos, as ilhas de confortos e as opressões violentas, os mecanismos da representação, enfim, toda a economia política autorreplicante que forja a escassez e organiza a falta, concentrando renda e propriedade. Essa vontade de comunhão não só termina por edulcorar as lutas sociais, como está bem afinada à compreensão de política da classe média liberal, para quem basta a conversa, a disposição ao diálogo e o discernimento para, no tempo certo, se chegar a consenso sobre praticamente tudo.

E está atrelado a certa terapeutização do movimento social. Onde afetos e sentimentos, melodramas, delicadezas e chororôs se sobrepõem à necessidade de enfrentamento e dissenso, — própria de qualquer ação política transformadora. Essa seria uma política afetiva mais adequada para o facebook e a televisão, onde o mundo se passa em família num processo de privatização do público. Certamente não para a contingência áspera das lutas reais, na conjunção paradoxal de entusiasmo e melancolia, ternura e brutalidade, que acompanha a militância.

Outra frente do “somos todos um” se dá com o digitalismo, que é a teoria e prática das redes levada à ideologia. A percepção de que não há dois lados quando se trata da difusão da informação (no rivals!), que o desenvolvimento das redes pode, por si mesmo, resolver os conflitos, problemas e dilemas sociais. A  sociedade estaria evoluindo em direção à democracia internética dos peers to peers. Uma nova humanidade se descortina, conectada e quântica. Nega-se o antagonismo como primado político, bem como quaisquer divisões formuladas em termos de esquerda e direita. Contornam-se as assimetrias e parasitismos por dentro da web 2.0, povoada de consultores e empresários malandros disfarçados de commons criativos. Assim, a democracia se resolve num algoritmo importado do software para as instituições políticas, num antropológico culto ao código. É o bom selvagem dos hypes criativos e das redes horizontais: no politics please, networks only. A comunhão universal reaparece como mais uma utopia tecnológica, como, outrora, pregavam os profetas das ferrovias e eletricidade (século 19) e os do rádio e televisão (século 20).

Portanto, o slogan 99% contra 1% não poderia ser mais oportuno. Destaca como não existe a Sociedade ou a Humanidade, esse bloco moralmente homogêneo que mereceria que todos nós nos juntássemos e, num consenso irrestrito, passássemos a defender para o bem de todos, sem exceção. Como dizia Mao, o Um tem que se fazer Dois, uma injunção fundamental que precisa ser repetida incansavelmente nas dinâmicas no movimento Occupy.

fev 2012 18

Só posso acreditar num Lênin que saiba dançar

A erva existe exclusivamente entre grandes espaços cultivados. Ela preenche os vazios. Ela cresce entre, e no meio das outras coisas. A flor é bela, o repolho útil, a papoula enlouquece. Mas a erva é transbordamento, ela é uma lição de moral.
— Henry Miller, Hamlet.

 

O velho mundo morre enquanto o novo tarda a aparecer. No claro-escuro perfilam os monstros. A citação é de Gramsci e se aplica bem ao momento que vivemos. Quando um futuro já presente, tão alegre, se debate para existir; um presente já passado teima seus últimos golpes sem direção, em triste agonia. Nesse jogo de sombras, os monstros abrem os olhos. Despertam, caminham e logo se perguntam: quem somos? Não sabemos. Mas não deixamos de reconhecer a força, a natureza disfome, a imprevisibilidade, e os seus perigos e é bom que assustem e inspirem receios e desconfianças. Em todo processo transformador, o medo tem que mudar de lado. E se existem monstros do bem e monstros do mal, de qualquer modo, é só frequentar o cinema para saber que os monstros desejam a mesma coisa: amar e serem amados. Este grande amor, monstruoso e nada sentimental, não pode faltar em todas as lutas generosas e produtivas mobilizações por um outro mundo.

Enquanto isso, os jornalistas de esquerda não conseguem captar, buscam pautas cristalinas e líderes visíveis e acontecimentos inequívocos. Vamos dar um desconto: eles são jornalistas. Pedem fatos jornalísticos. Estamos fazendo outra coisa. Menos sintetizar do que multiplicar: produzir o máximo existencial, não se separar do turbilhão.

O movimento já mudou o léxico da política, resgatou palavras e conceitos fora de uso geral, desestabilizou o que se apresentava como dogma e senso comum. Alastrou um desejo de mudança que chacoalha o dito “campo das esquerdas”. Apesar do dissenso a respeito, penso eu que, em meio a tantas palavras e conceitos em estado de fluidez, seja importante às Ocupas articularem um discurso do ponto de vista da esquerda.

Mas não esquerda como os partidos se entendem por esquerda. Porque o Occupy não se filiou a eles, não lhe interessa a máquina da representação. Os partidos de esquerda sondam no Occupy algum ponto de acoplamento para a agenda e os mandatos, alguma maneira de enquadrá-lo nas campanhas eleitorais. Como se os movimentos devessem parar de sonhar monstros e se esforçar para funcionar conforme o modelo representativo existente, nesse subcosmo de estado e mercado, público e privado. Os partidos de esquerda são os repolhos de Henry Miller. Nem tampouco esquerda como os sindicatos e as centrais sindicais se entendem por esquerda. Não é isso. Porque esses cobrem apenas uma mínima fração da classe trabalhadora: formal ou informal, reconhecida ou não, isso quando não se prestam a organizar uma gestão mais horizontal da exploração do trabalho, cooptados. Os partidos e os sindicatos de esquerda se esforçam por disputar o estado e a fábrica, quando o estado e a fábrica são parte fundamental do problema.

Nesse sentido de esquerda, realmente não dá. Essa esquerda que joga com a direita por melhores negócios, por melhores condições para fazer negócios e gerir os lucros e investimentos. Têm pessoas de esquerda que não nasceram na família certa ou não conhecem as pessoas certas, a fim de vir a gerenciar uma grande empresa ou banco, então resolveram ser empresários e banqueiros através do estado. Além disso, do outro lado, toda grande empresa ou banco faz negócios, direta ou indiretamente, por dentro do estado; ou simplesmente não é viável. Esse agenciamento de uns e outros coloca o estado como o balcão onde se viabilizam e realizam negócios, onde são mediadas as demandas e os conflitos, sempre em nome de melhores negócios. É onde as políticas públicas cada vez mais não passam de novos modelos de gestão e negócio, cada vez mais eficientes e transparentes e sustentáveis. É o estado-empresa, sem política, isto é, sem antagonismo, que mistifica as causas sistêmicas e estruturais por meio de causas morais e acessórias.

Isto não significa aderir à pauta ultraliberal da sociedade civil contra o estado, como se não fossem dois lados da mesma moeda. Nesta, o estado impediria a liberdade individual e a livre circulação dos produtos, ou seja, o mercado livre. É o discurso que clama por uma unificação ao redor do combate à corrupção e aos impostos, e contra a especulação financeira dos yuppies de Wall Street, como se a “economia real” não fosse ela mesma o problema. Esse populismo que se diz acima da divisão entre esquerda e direita, todavia francamente direitoso, aparece no movimento Cansei e numa famosa capa da Veja com o símbolo do Anonymous; mas também no Tea Party, nos libertarians e no guru da cultura livre, Lawrence Lessig, que muito eloquentemente declarou seria interessante uma aliança entre o TP e o movimento Occupy.

Nesse outro sentido pós-esquerda, também não dá. Se o movimento Occupy é monstruoso, é porque resgata o sentido político do conflito, por afirmar com todas as letras que a luta é dos 99% contra o 1%. Aí se resgata o sentido de esquerda que importa, colocar-se na perspectiva dos pobres. E não dos modelos de negócios (certas “políticas públicas”) ou da ideologia (apelo à “gestão sustentável e eficiente”). Na perspectiva dos pobres, de esquerda!, trata-se de confrontar a desigualdade social em todas as suas expressões paralelas de opressão: classe, sexualidade, gênero, raça, imigração. É combater para sabotar as estruturas e discursos que produzem e conservam a desigualdade em primeiro lugar. E reapropriar-se da riqueza social, de baixo pra cima, apesar dos especialistas gestores, dos representantes partidários e sindicais, e também da opinião pública e seus fatos, isto é, dos jornalistas e da miséria do jornalismo.

Nas Ocupas do Brasil, o problema foi colocado além de qualquer abstração quando foram inundadas de pobres, com seu sentido pleno de vitalidade e liberdade. Uma quermesse de monstros metropolitanos. Pode não ter achado as soluções, mas achou os problemas e vem colhendo falas e contribuições em lugares e pessoas desprezados pela esquerda institucional. Quando se levantaram e tomaram a palavra, as pessoas em situação de rua, os que lutam por moradia e terras, pelo direito de produzir direitos, os resistentes terapeutizados pelo choque de ordem, o racismo de sempre e o urbanismo dos megaeventos, quando esse rio subterrâneo e lamacento por debaixo do Brasil oficial irrompeu em toda a sua feiúra, em seus dentes estragados e cabelos desgrenhados, em sua potência constituinte. Das Ocupas, incipientemente, se produziu esse não-lugar onde as vozes outras puderam articular a cultura de resistência que já corre pelo subsolo, pelos esgotos da classe média de esquerda, pelos fluxos da cidade, centros e periferias. Sem teto, sem renda, sem estudo, sem consideração, enfim, essa violência da miséria, plena de sentidos e pulsante de vida, comunicada abertamente. Que é violenta mesmo e por isso nos reeduca, nós os mal educados pelo estudo formal, porque a única forma de comunicar a miséria é pela violência, alegórica ou física — de toda sorte, política. Já não era outro o ensinamento da estética da fome, nos filmes de Gláuber Rocha. O câncer não está no movimento social, mas na Sociedade (1% e seus representantes) que o fratura de injustiça, exclusão e porrada.

O Occupy pode ser a nova esquerda. Não significa que deva refundá-la do zero, mas reorganizá-la, inclusive por dentro de forças transformadoras através de partidos e sindicatos. Sem desprezar instituições, mas as atravessando. Já está fazendo isso. A esquerda tradicional tem mais a aprender com o ciclo de lutas de que 2011 foi tão marcante, enriquecendo o seu patoá magro, do que o inverso. O movimento Occupy não tem que pedir permissão para fazer política e bagunçar o quintal da esquerda. O Occupy é erva daninha, monstruosa, e não adianta insistir que quem está nele não vai querer plantar mais um repolho.

mar 2012 02

Na terça-feira passada, aconteceu a segunda sessão de debates da OcupaTeoria*, ao redor do tema “identidade”. Cerca de 40 pessoas ocuparam uma sala do velho edifício do IFCS e a coisa ferveu.

O tema foi introduzido por Paz Berti, militante da OcupaRio cuja aparência e trejeitos lembram o jovem Caetano Veloso. Testemunhou que a vida toda teve de escapar das identidades. No Brasil, está deslocado por ser um imigrante argentino, classificado pela lei como estrangeiro. Recentemente, por não portar documentos e estar junto de moradores de rua, foi “administrativamente” recolhido para o abrigo de Antares, a 50 km do centro do Rio. Na Argentina, Paz também está deslocado. Pois não se encaixa na identidade nacional: ele é natural da Patagônia, uma região pobre no sul do país. Na sociedade patagonesa, por sua vez, também não está no lugar. É que Paz descende de brancos espanhóis e índios mapuches, provocando certa discriminação da parte de ambos os lados. Não é considerado branco o suficiente nem índio o suficiente, não é “gente da terra”. Além disso, Paz fica perplexo quando é estimulado a declarar-se quanto à sexualidade: afirma gostar de meninos e meninas e prefere não ser classificado, ou pelo menos, quando não tiver jeito, classificado como pansexual. O mapuche argentino trabalha como ator e músico, e se sentiu atraído pela cultura de resistência do funk, onde encontrou caminhos livres e companhias para elaborar a sua recusa das raízes, seu êxodo para longe das prisões e perseguições da identidade. Foi motivo parecido que o levou a participar tão intensamente no Occupy. No quesito ideologia, se diz desvinculado de filiação ou preferência de princípio, professando um sui generis “lateralismo”. Ou seja, a habilidade de participar de movimentos e ativismos ficando “ao lado” dos núcleos e lideranças mais ideológicas, identitárias ou partidárias, de saber malandramente dançar entre os jogos de verdade sem se submeter a nenhuma. Paz parece dizer que não participa de ações conjuntas por compromisso ideológico, mas por uma condição que o atravessa, que o faz afirmar-se para existir além do que pretendem que ele seja.

O debate das duas horas seguintes eu nunca presenciei em atividade alguma da academia, de tão produtivo. A história  mais individual e molecular do apresentador foi transposta às múltiplas narrativas das resistências e lutas sociais. A identidade como questão micro e macropolítica. Surgiram exemplos do movimento zapatista, indígena, quilombola, negro-identitário, feminista-lésbico e outros. Comentou-se sobre Subcomandante Marcos e Panteras Negras. Discutiu-se como todas as identidades são construções, sempre em disputa, e onde a sua posição nisso depende de uma relação de força. Não há elementos inatos e todos se tornam o que constroem para si e/ou é construído de fora. Ninguém nasce mulher, torna-se, da mesma forma que ninguém nasce negro, gay, lésbica; senão quando muito numa operação retrospectiva, para o bem ou para o mal, quando da declaração “eu sempre fui…” ou “você sempre foi…”.

Rapidamente, foram desenvolvidos pontos e contrapontos à fala de apresentação. Que as identidades podem ser utilizadas afirmativamente, para alimentar lutas sociais de minorias. Que políticas e movimentos identitários conferem coesão, adesão e força, que fortalecem grupos em condição inferiorizada e oprimida, ao espalhar auto-estima, revolta e uma pauta clara para a organização. Que a desmontagem das identidades, isso de pós-gay ou pós-feminista ou pós-racial, em última instância, acaba casando com o discurso liberal das classes médias brancas ou embranquecidas. É a premissa de que bastaria viver como se não existissem raças (todos humanos!), que elas magicamente deixariam de exercer seus efeitos biopolíticos. Esse discurso cínico de que bastaria agir sem preconceitos, cultuar a diversidade e condenar moralmente o racismo, a homofobia e o machismo, para se gerar uma democracia racial. Como se essas violências não estivessem entranhadas no mundo real, nas relações materiais, na circulação de bens e signos, na divisão do trabalho, no acesso a direitos, renda e voz política. Como se não houvesse uma espécie de racismo e machismo civis. Reduzir a questão do racismo a um problema de consciência, um problema na cabeça das pessoas racistas, — e não do funcionamento social, com consequências econômicas, culturais e psíquicas.

Nada disso, contudo, absolve a identidade de agir como engrenagem de uma máquina política de controle social. É claro que as identidades existem. Ora, o negro, a mulher, o gay existem, e não deixariam de existir se fizéssemos um esforço coletivo de descrença em raças, gêneros, classes, nacionalidades. Diga para o negro numa blitz policial que não existem raças e identidades, ao estrangeiro africano ou boliviano ao procurar trabalho, ao gay numa prisão ou abrigo de recolhimento compulsório, a qualquer mulher voltando pra casa sozinha à uma da madrugada… Na nossa sociedade desigual, se não existissem os negros, seria preciso inventá-los.

Pra que serve a carteira de identidade, o passaporte? Pra que se utiliza a impressão digital, a ficha na delegacia, os cadastros em facebook, hotmail, nas lojas, no serviço do inquilinato, nas agências de crédito? Qual o real motivo de tanto incômodo ante o trânsito anônimo pela internet? Na realidade, existem processos de identificação e mecanismos de fixação com um rendimento político bastante efetivo, que interessam a alguns setores, mas não a todos. A ordem social faz uso de inúmeras determinações coladas nas pessoas, que se tornam individualizadas pelo que supostamente seriam, e é normal precisem continuar sendo. Quer dizer, normalizadas, disciplinadas e cobradas na necessidade de identificar-se permanentemente consigo mesmas. É central. Quem entende a concepção de classe e luta de classe somente na dimensão econômica (economicista), perde de vista como as coações identitárias estão na base. Existe um paralelismo das resistências sociais onde as identidades não aparecem num segundo momento.

As identidades não podem ser desconstruídas somente na teoria, nas ideias. Porque afinal de contas a identidade não está na cabeça das pessoas. Não se trata de reino do voluntarismo, onde eu pudesse me vestir e me despir das identidades como me desse na telha. As identidades só podem ser reconstruídas por quem está resistindo, re-existindo, reinventando outra forma de vida e de relações sociais. As teorias que importam serão aquelas que potencializem essa reexistência. Não me refiro unicamente a quem resiste em movimentos mais orgânicos e institucionalizados. Mas também ao reexistente do dia-a-dia, tratado como fora do lugar, do tom, da norma, que está frequentemente sendo desqualificado, excluído, prejudicado e, no limite, agredido e violentado; porém, apesar disso tudo, reexiste, faz emergir um outro eu. O Eu fervilhar de alteridade e se multiplicar. Essa reexistência depende de organização micropolítica tanto quanto de instâncias mais duras para veicular as vozes reexistentes. E quem reexiste sabe muito bem que pouco adianta simplesmente negar a identidade, tentar esquecê-la, fingir que não opera nele, porque, só com isso, ela não cessará de existir. Porque a identidade não é uma abstração, uma ideia flutuante.

Essas pessoas muitas vezes resistem dizendo sim!, dane-se! eu sou mesmo!, sou viado, negão, vadia ou índio! e no mesmo movimento, de todo indispensável, reexistem. O único sim que importa é duplamente afirmativo: resiste e reexiste. Pra essas pessoas, em determinadas situações, pode ser um salto existencial enxergar-se, enfim, dessa maneira, encarar como a Sociedade pretende que elas sejam e permaneçam sendo, como tais, e daí exorcizar a identidade e reexistir como algo completamente outro. Ou seja, tornar visível uma violência identitária que se pretende mascarada com a ideologia que não somos racistas, para poder destroçá-la com a paródia, o riso e a legítima defesa. É preciso continuar se movendo, arisco.

Ah, mas teriam identidades boas. Os loucos serem criativos, os negros sexualmente potentes, os índios mais integrados à natureza, as lésbicas mais roqueiras, os gays mais sensíveis etc. Ingenuidade. Como é fácil para quem enuncia os jogos de verdade de uma posição de poder reconfigurar essa (mera aparência de) boa identidade. Fazer do louco um ser perigoso, do negro um ser mais animalesco, dos índios pessoas retardadas no desenvolvimento mental, e gays uns sentimentalistas afetados. Quem detém hegemonia para comandar as identidades, essa seria uma pergunta mais correta.

Penso, inclusive, que em momento algum do debate, inclusive na apresentação do Paz, se cogitou desse conto de fadas pós-identidades que acaba naturalizando ainda mais as identidades, que já são majoritárias. O caso não está em opor identidade à diferença, mas assumir um ponto de vista.

A perspectiva da identidade. Há traços e elementos já constituídos que as pessoas possam aderir, e assim empoderar-se como sujeito coletivo. Então, um exemplo, a luta identitária ocorre saindo daqui: desta identidade coagida e capturada, o negro escravo, o índio inculto ou a mulher frágil; e passar (devir) para lá: o território de uma outra identidade, o negro rebelde, o índio sofisticado e a mulher afirmativa. Não é tanto ser reconhecido pelo status quo, mas construir um outro espaço social. Buscar uma identidade cultural. O problema nisso tudo é que identidade cultural tende a ser conservadora e estanque. Esclerosa-se como tradição, desdobra-se em expectativas e normas e, logo logo, é capturada como produto (negócio cultural, turístico ou folclórico). Toda a vez que um movimento identitário consegue passar de uma identidade a outra situação, precisa recolocar-se em movimento ainda outra vez, porque sucede uma tendência interna de institucionalização, normatização e identificação, que começa a reproduzir os mesmos problemas.

Outra perspectiva é da diferença. Muitas vezes a lógica identitária não enxerga a diferença, e somente consegue pensar na identidade real de que se parte e na identidade ideal a que se quer chegar. Não vê o caminho, o tornar-se, a passagem de uma à outra. E aí toda a diferença é pensada sob o prisma da identidade, deixada em segundo plano. Uma outra proposta, dos filósofos Gilles Deleuze e Félix Guatarri, é pensar a diferença como primeira, uma diferença em si, e só a partir daí as identidades. O que é muito mais produtivo. Penso, desta maneira, em primeiro lugar, o processo e não os produtos, a força constituinte e não o já constituído, a imanência da reexistência às transcendências das culturas existentes. Com isso, posso me concentrar nas estratégias, desejos, organizações que correspondam à uma fuga reexistente das identidades, mais do que ficar idealizando outras identidades.

Não foi isso que fizeram os negros quando fugiram dos engenhos e reexistiram como quilombos? Organizações que reinventaram uma cultura de reexistência, que nada tinha de purista e onde a própria África não era o ideal maior (mesmo porque não se viam como descendentes de uma única nação, a África, uma abstração dos colonizadores)? Não foi assim que surgiu a primeira cultura brasileira de resistência, o candomblé, a capoeira, os ritmos e as lutas dos escravos auto-libertos? Quando os zapatistas deslizam de pautas identitárias e assumem o índio difuso e fragmentado pela sociedade mexicana, não estarão eles também assumindo a perspectiva da diferença, muito mais potente, expansiva e agregadora, do que se limitar a lutar por terras em Chiapas? Não é isso que propõe o antropólogo perspectivista Eduardo Viveiros de Castro, quando provoca que todos são índios, menos quem não é? O que favorece caboclos e outras agregações materialmente não-identitárias queiram tornar-se índios? Por que não? Por que partirmos do princípio que todos não somos algo, e devermos tentar provar, ou conseguir algum parecer especialista ou jornalista, para nos dizer o que somos ou o que eles gostariam que fôssemos? Enquanto a seu passo o poder constituído atribui identidades por decreto e fica por isso mesmo, se não lhe resistimos e nos reexistimos? Pode ser ridículo eu, branco de olhos claros, querer ser negro ou índio, nunca serei mesmo, mas quem disse que não pode acontecer uma negritude ou uma indianice em mim, um devir? E mais. Por que não posso assumir-me feminista, ou então devir mulher, criança, planta?

Isso tudo vale para o exercício da escrita também, que também enfrenta a prisão da identidade para voar como pássaro livre. Eu sou o Bruno e estou aqui, nesta trajetória de textos. Bom, não quero mais ser esse Bruno e agora quero estar ali. Ah, mas isso não condiz com aquele Bruno lá. Que ótimo! Porque não é o mesmo Bruno, não é pra ser. Querer que seja, exigi-lo já é uma tentativa de enquadrar e prender a escrita em certo quadro de referência e de expectativas, num lugar domesticado, bovinamente domesticado. O escritor que não consegue nomadizar-se morre e é enterrado como narrador monofônico da mesma história. Então por que não escrever anonimamente? Aproveito a reflexão do Hugo, do blogue O Descurvo. Porque se vive num mundo obsessivamente controlado onde as pessoas têm cada vez mais receio de vir à praça falar publicamente e opinar, com receio de ficarem queimadas no mercado, mal com algum vago potencial leitor, prejudicadas na sua carreira sacrossanta, — essa carreira filistina cuja meta última só pode ser um caixão de ouro e lágrimas de crocodilo. Então se torna subversivo escrever sem nenhuma moral de estado civil, escrever como exercício de radical libertação de todas as identidades, expectativas e cobranças. Devir palavras. O eu, afinal, é mesmo um outro.

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PS. Dobradinha muito incisiva ao post, por Hugo Albuquerque em 4/3: Sobre identidade e o nome de Deus

* A OcupaTeoria promove encontros entre a experiência do movimento Occupy e teorias que contribuam a um pensamento e ação de transformação social. É uma iniciativa da OcupaRio, que ocupou a Praça da Cinelândia em outubro e novembro do ano passado, e agora continua pulsando em outros territórios e redes da metrópole. A OcupaTeoria nasceu da percepção de que não se deve colocar entre parêntese o debate teórico, para garantir compartilhamentos, confrontos, consensos e dissensos que fortaleçam, tanto o movimento, quanto as teorias. Uma teoria que não se esclerose no status acadêmico ou meramente teórico, um saber vivo, uma caixa de ferramentas. A primeira atividade programada, decidida num encontro no Circo Voador, foi um ciclo de debates e apresentações no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, perto da Praça Tiradentes. [blogue da OcupaTeoria]

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