set 2009 12

Pararam a gente na blitz da avenida da praia.

Voltando da noite, uma da manhã, havíamos os dois bebido muitos choppes. Choque de ordem, lei seca, mega-evento com bandeiras e balões, multando no atacado. Sorte que não vim com meu carro — não pude evitar o mesquinho pensamento. Encosta, desliga o motor, documentos, desce do veículo, tem que fazer o teste. É, do bafômetro, na tendinha, ali, não quer soprar?, ok, sem trauma, é multa na hora, mil reais, apreensão da carteira, perdeu playboy.

Primeiro esquema. Chamam meu camarada pro canto, acerto, quinhentos reais, “tabelado” segundo o agente. Mas ele não paga, não tem cheque, não tem como ligar pra alguém, então chorou. E o carro não sai sem que alguém faça o teste. Eu soprar? de jeito nenhum. Sem mostrar documento? — aí beleza, à guisa de ultima ratio né, opa, máquina pisca 0,38, também não tenho “condições”.

Querem guinchar, enrolamos, lá pelas duas, na encolha, a solução, pagar a um taxista pra soprar e atravessar o corredor de cones. Segundo esquema, o primeiro quer cobrar cem reais, o segundo propõe cinqüenta, porque afinal tem que dar vinte pros homens. Faz o teste, assume o volante, passa pela blitz acenando pros caras… e cinqüenta metros depois estaciona e repassa a direção pra nós, aos olhos desinteressados das autoridades. Vamos embora igualmente ébrios com o carro, mas agora sem documentos.

No dia seguinte, pergunto-lhe, e a carteira? terceiro esquema. Descolou um despachante mandrake, com seiscentos reais zerou tudo, todas as infrações, inclusive antes da multa por ter bebido na night. Seiscentos não é muito? tem que açucarar o dia de várias boas almas do Detran, então faz o acerto, no final do dia, sistema zerado, ficha limpa, a carteira volta.

Esse meu amigo vive falando mal do Brasil, que o povinho não presta, reclama da corrupção, as instituições têm a cultura do jeitinho, funcionário público só quer se dar bem, nada é levado a sério, vota no Geraldo etc.

Fui cruel em tirar proveito da situação:

Isso é pra você parar de querer viver na Alemanha. Lá, a esta hora ainda estaria na cadeia, choramingando por ter sido demitido.

set 2009 19

Sexta-feira Freitas e eu no maior trânsito.

Fim do expediente, à tardinha, o gol 2004 avança aos trancos: acelera freia acelera freia acelera freia e segunda marcha nem pensar.

Volto pra casa no carro do colega, de carona.

A passo de tartaruga em cima de um viaduto desesperadamente engarrafado. Cenário tonitruante de sensações: centenas de luzes vermelhas acendem e apagam até onde a vista alcança, ondas de calor tremebundo irradiam do asfalto, a estrutura do viaduto contorce-se sensivelmente debaixo dos pneus. Impaciência misturada com enjôo.

Mulher e filha esperam Freitas pra viajar pro litoral. Ele, um cara estressado, agora está nervosíssimo.

Não era pro trânsito estar assim hoje. Tão mal assim. Tem motivo especial, com certeza. Uma hora de suplício automotivo e, mais à frente, descortina-se a razão da mixórdia. Sirenes. Cones. Carros de bombeiro, PM, ambulância, guardinhas de trânsito, turba de curiosos. Acidente. Não? Mais cinco intermináveis minutos a resposta. Não é acidente. Nem blitz da lei seca.

Homem dependurado na borda, pernas suspensas, semblante de comiseração, ameaça cair trinta metros ante centenas de olhares de cima e debaixo do viaduto. Ameaça morrer na contramão. Só que o trânsito o cara já está atrapalhando há horas. Os bombeiros mantêm uma distância de segurança, a PM isola a cena e os guardinhas fazem de tudo para que os motoristas não desacelerem pra se delongar nesta crônica urbana. Não tem jeito. Ser humano sempre quer ver morte e sexo, especialmente dos outros.

Cada um reage diferente em situações-limite.

Ao perceber que o sururu foi causado por uma única criatura desiludida, Freitas inflama-se de uma fúria brutal, abre sofregamente a janela e berra:

“FILHO DA PUTA! SE MATA NO DOMINGO!”

E rouba a cena. Os olhares de todos — policiais, bombeiros, curiosos, outros motoristas e o próprio suicida — todos eles voltam-se pra nós. Ao mesmo tempo e de uma vez só. Minha vontade é gritar: foi só ele!, mas demonstro rara altivez ao fingir que também é comigo. Multidão de olhares cobrindo ampla diversidade de reações. Do estarrecimento à indignação, passando pelo riso; mas também o incontido apoio (especialmente dos irmãos motoristas).

Um sargento da PM, obeso, reage caminhando com uma expressão indefinível na direção de nosso veículo. Fudeu. Fechou o tempo decerto. Deve estar elucubrando no que vai enquadrar-nos.

“Vai dar merda, vai dar merda, vai dar merda” — balbucia Freitas, reconhecendo que desta vez exagerou, e levanta o vidro como se isso fosse ajudar a escapar da situação.

De súbito, aplausos e buzinas. Homem aos prantos é consolado por casal de bombeiros, que o conduzem firmes à ambulância. O nosso sargento pára no meio do caminho e, atordoado, limita-se a assistir ao salvamento. O gol 2004 ultrapassa o corredor de cones e o trânsito melhora, segunda terceira quarta marcha… incomensurável alívio.

“Não é que eu sensibilizei o maluco. Deve ter sido a minha honestidade.” — comentou o colega num tom extraordinariamente leve.

“Sensibilizou, Freitas. Mas só vamos ver se adiantou mesmo no domingo.”

set 2009 27

O sonho dela era pegar o marido masturbando-se.

Casados e morando juntos na mesma casa há dez anos, sempre foram ortodoxos e pouco inventivos. Havia sexo, mas nada de fantasia, e a relação tendia cada vez mais à doce convivência. Contudo, à beira dos trinta anos, irrompeu nela uma descarga inesperada de impulsos, levando-a a uma fase de redescoberta do ímpeto sexual. Assim, há um ou dois meses brotou o desejo, que outrora ela consideraria estranho, de flagrar o marido no seu momento mais íntimo. O fato é que jamais o tinha visto masturbando-se e tampouco reunia a coragem necessária para pedir-lhe que o fizesse na sua frente.

Suas amigas já a haviam alertado que todos os homens se masturbam uma hora ou outra. Uns mais outros menos. É normal. Mas ela nunca tinha parado e refletido a respeito. Na verdade, sequer podia imaginar, na sua crueza, a cena de seu esposo tocando umazinha.

Aplicada que era, decidiu levar o intento a sério. Teceu um plano. Em que lugar da casa ele se masturba? O banheiro configura decerto a hipótese mais plausível. Resolveu adotar o princípio da navalha de Occam: eliminar hipóteses menos prováveis (diversos lugares da casa) para depois concentrar-se na hipótese mais provável (banheiro).

Foi ao bazar e comprou uma lanterninha de luz fosforescente e uma lupa. Nos dias seguintes, passou a inspecionar atentamente vestígios suspeitos em locais estratégicos da casa. Fechava as cortinas do aposento, desligava o interruptor de luz e se debruçava diligente sobre as superfícies, atrás do corpo de delito. Sofá e tapete da sala de televisão, o chão próximo do computador, o piso ao lado da cama de dormir, os lençóis, as cuecas, o cantinho dos livros e revistas, enfim, vários pontos em que ele pudesse cometer regularmente o pecado de Onan. Apesar das vistorias minuciosas, ela nada encontrou. Nenhuma manchazinha que fosse. Puxa vida, queria tanto olhar o marido se masturbando.

Passou então à hipótese central. O banheiro. O que impunha dificuldades adicionais. Ele se trancava ocasionalmente, em especial para usar o vaso. De vez em quando, tomava banho também a portas fechadas. Sobreviventes de dez anos de matrimônio, sabiam manter a distância nas horas impróprias. Tomou uma medida drástica. Com uma chave de fenda, danificou a fechadura e disse ao marido que cuidaria de seu conserto, de modo que, em conseqüência, ganhara três ou quadro dias para tentar o flagrante, pois atrasaria propositalmente a vinda do chaveiro. Para maximizar as chances de sucesso, negou-lhe sexo desde uma semana antes da destruição da fechadura.

Toda a preparação, o suspense, a vigília, tudo isso provocou nela uma comoção especial, e mais o seu tesão se aguçava com a fantasia de pegar o marido masturbando-se. A dificuldade em consumir o desejo somente o alimentava mais, como um prêmio que mais vale quanto mais difícil de arrebanhar. A sua libido toda doravante só se libertaria desse fetiche realizando-o; por agora nenhuma outra sacanagem lhe chamava a atenção.

Durante os dias da fechadura quebrada, ela sistematicamente invadiu o banheiro durante o banho dele, em diferentes momentos: enquanto lavava o cabelo, se ensaboava, se esfregava, se enxugava. E nada. Resolveu então, audaciosamente, assaltar o toilete quando ele utilizasse o vaso sanitário, no procedimento escatológico número dois. O marido, talvez inconscientemente preocupado com a situação, passou a avisá-la que usaria a privada para fins de sólidos. Querida, estou no banheiro, ok? — coisas assim, deixando implícito que queria privacidade. Nessas horas, ela não se dava por vencida, colava os ouvidos à porta, olhava pelas frestas, pelo buraco da fechadura, porém, ainda assim, nada conseguia captar de conclusivo. Quando o marido saía, tão engajada que estava, remexia o cesto de papel higiênico, analisava umidades estranhas, cheirava as superfícies. Mas patavina! uma pista que seja!

Talvez de fato ele não se masturbe, ponderou exasperada.

Chamou enfim o chaveiro e já engendrava outras estratégias quando, à tardinha, enquanto lavava a louça, achou que a casa estava silenciosa. Silenciosa demais… Premonições da poderosa intuição feminina. Quiçá um anjo travesso avisava-lhe ao pé do ouvido. Hmmmmm, ela pressentiu, é agora. Calçou as meias e foi devagarzinho até o outro banheiro, o dos fundos, cuja porta estava fechada, porém destrancada. Furtivamente, como uma ladra, abriu a porta sem qualquer barulhinho, e olhou para o interior. No canto oposto, de costas pra ela, estava o marido, curvado, calças arriadas, mão direita nitidamente indo pra frente e pra trás na altura da pélvis, em movimento harmônico.

Ele não percebeu a invasão dela e ela se encheu de alegria, numa sucessão eufórica de pensamentos: — é agora! finalmente, que maravilha! tanta expectativa! vou chegar de mansinho, beijá-lo na nuca, nas costas, pedir para que não pare, que me deixe ver, acompanhá-lo, e com isso todo o nosso futuro sexual irá mudar, uma nova cumplicidade, nova fantasia, novo fetiche, me sinto tão mulher, mas tão incrivelmente feliz! — e foi aproximando-se, bem de mansinho, das costas do marido.

Quando, de súbito, compreendeu tudo. O punheteiro mirava fixamente através da janelinha do fundo do banheiro e, de boca idiotamente aberta, a ponto de babar, contemplava do outro lado do jardim a filha da vizinha, de quinze anos, calcinhas e sutiã, fazendo a faxina na casa do lado. Filho da puta. Com a mesma furtividade com que entrou, ela deu meia-volta, retornou e fechou a porta, para a seguir, num só estrondo, irromper de novo, para sobressalto do marido, que se encolheu na defensiva.

“— Jorge! que vergonha! com essa idade toda na cara tocando uma bronha?!”
out 2009 07

Acordo espicaçado de preocupações.

É carro na oficina, computador com vírus, chave quebrada na fechadura, fim do uísque doze anos, montanha de burocracia no escritório, filmes a que não assisti, uma dúzia de textos atrasados: contos, críticas, monografias de encomenda, ghostwriting pra político, o meu romance.

Falta de inspiração corroendo os tecidos.

Água fria na cara e olho no espelho pra confirmar que não envelhecemos, um certo dia acordamos velhos.

Percebo agora, nitidamente, o sentimento cinzento assomando desde o subconsciente, a irritação dispersa perturbando desde os calcanhares, como mil saúvas ulcerando o corpo nu, pesadelos da última noite coalhando em lógica, e por isso percebo, com meridiana clareza, que uma coisa me preocupa mais do que todo o resto:

“— Meu deus! como estou carregado de advérbios!”

out 2009 20

Palavras…, palavras?, palavras!

Sim, eu quero escrever. Mas o que quero escrever não é romance nem novela, e tampouco roteiro de cinema. Não é crônica, crítica, conto. Nem diário, didascália ou ensaio. Quero simplesmente escrever as palavras. Elas. E como elas se apresentam, como vão e como vêm, bandidas ou pudicas, como sobem e como descem, como passeiam, cabisbaixas ou de nariz empinado; como queiram, transeuntes trocistas palavras.

Tudo mentira. Ah se fosse fácil. Quero dizer, escrever é fácil, as palavras é que são difíceis. Claro que não falo das palavras difíceis. Seria injusto, porque têm palavras difíceis que são mais fáceis do que as fáceis. Tem palavra difícil que é tão fácil quanto baranga em final de noite, olha ali dançando, facinha facinha. Tem palavra fácil, contudo, que se faz de difícil. São as piores.

Me perdoem o chavão, mas são as palavras, elas mesmas, que escrevem em mim, por mim, e comigo. Me arrancam à tranqüilidade de meu silêncio as palavras. Reúnem-se numa algazarra e me fazem escrever, num jorro epilético. Inapreensível o balé das palavras, resta-me montar a macumba a Musas, Santos, Orixás, Budas e Basquiá. As palavras, quando mais estou carente delas, elas me deixam na mão. Acham um esconderijo e ficam ali, marotas, rindo baixinho. Chatas, exigem a vida mas negam a arte. As palavras nunca tiveram ética. Não só aceitam qualquer papel, como qualquer caneta. A palavra que afaga é a palavra que condena à morte.

O céu deve ser um lugar sem palavras. Não há metáfora (judaico-cristã) mais apropriada para a queda do homem do que a invasão das palavras na cabeça da criança. Uma blitzrieg de palavras: começa com “mamãe”, então “papai”, depois é “davi viu a uva”, “eu sou, eu tenho, eu quero, eu compro”, “quero um i-pod” e assim sucessivamente. De repente o leitor foi um anormal e, ainda adolescente, desvendou palavras outras com Augusto dos Anjos, Drummond, William Blake, Byron, Poe, Ezra Pound, Mário Faustino, Rimbaud, Verlaine e Leminski (nessa ordem, no caso do escritor, pavoneando-se).

Houve tempo em que não tínhamos palavras na cabeça. Ninguém se lembra porque as palavras, ciumentas, não nos permitem mais pensar sem elas. Porém, quem sabe, numa lembrança fugidia e incandescente, o leitor possa recordar-se do tempo em que não sabia falar nem entender os outros falando. Em suma, antes do Verbo, o que significa antes do Universo. Que lugar bão hein, onde não somos outra coisa que não as nossas extremidades (poros, boca, nariz, ânus, orelhas…) e somente as nossas extremidades. Tempo idílico em que dentro e fora não se discerniam, em que não havia eu e tu, nem nós, nem nenhuma pessoa ou tempo verbal. Havia somente um narrador-membrana que eleaticamente era Tudo, a Substância de Spinoza (una, unívoca, indivisível, absoluta, incondicionada e infinitamente infinita), ou seja, o mundo da interjeição eterna: ahhh!, ohhhh, hmmmmm… As palavras expulsaram o paraíso de nós, e descobrimos que do outro lado do Éden, havia um “fora”, e aí, claro, irrompeu o seu irmão gêmeo, o “dentro”. Doravante a nossa história individual não passa da problemática relação entre a interioridade e exterioridade, com todas as suas zonas cinzentas que a poesia penetra e a literatura sobrevoa.

Fez-se a Palavra, aprender a falar e ler e escrever, e essas palavras insones multiplicaram e povoaram e se dividiram em facções e guerrearam entre si com fuzis AR-15 e derrubaram helicópteros e foram parar nas manchetes amargas.

Eu não quero escrever, mas preciso, e por isso de certa forma quero… mas só como segundo momento. Preciso escrever para desabrochar os oceanos de palavras. Senão não durmo, porque as palavras não (me) deixam. Senão o delírio me inviabiliza o dia-a-dia, porque as palavras me iludem com a lógica. Senão o desassossego me desata qualquer possibilidade de causalidade psicológica. Senão o vento cósmico arremessa a minha mente para os porões da memória universal e de lá poucos voltaram. Senão confesso a minha derrota, porque as palavras me provam uma vez mais a existência da Grande Máquina. Senão me desencanto, porque as palavras me asseguram que, pelo menos nas palavras, a beleza, o amor, a salvação e a beatitude existem.

Hei de me vingar de vocês, palavras!