Publicado em 27 de maio de 2012
Ocupa dos Povos: uma alternativa à altura

A Ocupa dos Povos é a intervenção do movimento Occupy no Rio de Janeiro, no contexto da Rio + 20 e da Cúpula dos Povos. Na última quinta-feira, cerca de 50 participantes da OcupaRio se reuniram na praça da Cinelândia, no centro da cidade. A dinâmica é aberta, é só aparecer. O próximo encontro está marcado para a próxima segunda, às oito da noite, no mesmo lugar. Muitas outras pessoas vêm debatendo e se mobilizando pelas redes sociais e mídias livres, em coordenação com outras ocupas, acampadas e coletivos, espalhados por vários países. Das dezenas de milhares estimadas para chegar ao Rio no meio de junho, número considerável de pessoas simpatiza, e mesmo milita, junto das mobilizações do ciclo global do 15M-12M. As ações têm disparado a partir de pequenos pontos focais, que logo se multiplicam, numa geminação sucessiva. A quantidade e o empenho dos organizadores em várias cidades não deixam a desejar a movimento orgânico algum no Brasil. Sua abertura sempre renovada tem permitido a conexão de várias demandas e ideias, a miscigenação de coletivos e organizações militantes, cujas lutas aparentavam, até então, inarticuláveis. Se o ciclo Occupy manifestou, desde o princípio, forte crítica aos mecanismos de representação política, — aos estados, eleições, partidos, jornais e sindicatos, — por outro lado, não se colocou como partidofóbico. E não pode desprezar combates de retaguarda que, alegremente, possam convergir em questões específicas com a frente constituinte dos novos movimentos.

Por enquanto, a proposta da Ocupa dos Povos consiste em afirmar uma alternativa diante de um evento, em boa parte, pautado pela lógica representativa ou capturado e amortecido pela onda de ongueiros, chapas-brancas e negociatas verde-empresariais. Isso que a grande imprensa vai cobrir e divulgar com muito sorriso. Como alternativa, pretende-se acampar, compor em meio a dinâmicas selecionadas da Cúpula e produzir mídia, — tudo isso para confluir o desejo de mudança radical, as vontades de transformação do sistema político-econômico-antropológico como um todo. Uma pauta máxima que não cabe nos formatos oferecidos a quem faz política pela via institucional, ou mediante novos modelos de negócio. É bom lembrar que o Occupy propõe uma alternativa de sociedade, — e não ainda outro projeto de sociedade alternativa, autogestionária ou meramente contracultural.

Diante do novo (velho) capitalismo, descrito até as minúcias por teóricos e acadêmicos, não se deve mais temer ou esperar. É caso de aplicar outros estilos de militância, de fazer política com novas armas. Basta de esquerdismos histéricos e catastrofismos choramingões: a crise não vai colapsar o capitalismo ou o planeta por si mesma. Não existe fim da história à vista, senão nos corações mais niilistas. O novo-velho capitalismo já está habituado a se alimentar das contradições que suscita, das recessões que provoca, das angústias e depressões que estimula, dos desastres que mediatiza para forjar consensos e fortalecer o tirano. O capitalismo funciona no paradoxo, entre o excesso e a falta, a abundância e a miséria. Boa parte dos dilemas do sustentável está contido no esforço para reequilibrar a equação capitalista. Trata-se de restabelecer o lucro seguro ao 1%, e novos modos de vincular e controlar os 99%. Muitas iniciativas para a Cúpula não tiram lasca do consenso que não há alternativa ao capitalismo, e não passam de rom-rom de gatinho, de manequim de loja etiquetado “consciência global” ou “responsabilidade socioambiental”.

Diante do potentíssimo ciclo mundial de lutas, o altercapitalismo — também presente em parte da Cúpula dos Povos, especialmente na “cúpula da Cúpula” — não se trata tanto de um refluxo, mas de uma síntese, uma estratégia de neutralização e apaziguamento contrarrevolucionários. Mudar tudo, de sacolinhas de plástico a novos impostos esverdeados, para não mudar nada.

Como escreveram Deleuze e Guatarri no seu livro de filosofia política, o capital precisa impelir sempre para mais além os limites do desejo e do consumo, ao mesmo tempo em que precisa conjurar esses limites, de modo que se mantenham mensuráveis, controláveis, governáveis. Daí que a ordem posta precisa organizar a falta, impor a necessidade e assim chantagear as pessoas a trabalhar mais, a se conformar, a se adaptar às cobranças e expectativas do velho-novo sistema. Precisa convencer-nos de nossa dívida infinita, deveres e culpas inesgotáveis; que não é outra coisa senão o modo como se processa a perpétua transferência de renda e riqueza dos 99% ao 1%. Quem atribui o verdadeiro limite do capital são as lutas constituintes. É o ingovernável em processo, esta força desejante capaz de devastar civilizações, que é bem mais do que o capital possa identificar e conter. Uma mundivivência agressiva, artística, criadora, inestancável. Um dilúvio revolucionário. Uma cosmopráxis em que homem e natureza coexistem e se coproduzem, numa ecologia liberta de transcendências.

Se a Ocupa dos Povos tem um papel relevante a exercer em junho, está em rejeitar as chantagens e conversês, as limitações e “alternativas” dos sustentáveis e malthusianos, e todas essas fórmulas bonitas que serão vendidas eloquentemente pelos maiores especialistas, doutores, cientistas e consultores do altercapitalismo. A eles, podemos responder: não há desenvolvimento suficiente, não há consumo suficiente, queremos muito mais! Outra civilização. Suas novas métricas realmente não nos importam. Onde está a desmedida dessa festa pobre? O que o novo-velho capitalismo tenta frustrar é o próprio mundo, comiserado que está, no dia a dia, por seus gerentes, gestores e burocratas. Esses serventes da classe dominante que tudo selam, registram, carimbam, avaliam, rotulam, escoando a potência de vida num tempo de merda.

Mas a vida sempre foi e será muito mais do que pregam os carimbadores malucos. E ela sempre insiste. Não se pode perder de vista o mapa movediço das novas lutas, acampadas e ocupas, bem como todo um cenário de crise profunda e sistêmica, — apesar do blecaute midiático mantido pelas velhas instituições. Nos últimos anos, ao circular pelas redes financeiras, os fluxos de dinheiro e poder têm se deparado com persistentes abcessos. E todo aneurisma é perigoso. Se, em 1968, o slogan era “demandar o impossível!”, eis agora o nosso “ocupar!”. Muitas vezes, a distância entre o possível e o impossível é do tamanho inverso da coragem da tentativa.  É ocupar e construir o impossível você mesmo, que não existe outro jeito.

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