Publicado em 10 de fevereiro de 2012
Contra a greve da PM

O motim policial na Bahia chegou ao Rio de Janeiro. Agora, o populismo, o corporativismo rasteiro e um esquerdismo burro, — todos sintonizados no misto de sensacionalismo e golpismo da grande imprensa, — começaram a chantagear a metrópole às vésperas do carnaval.

A PM em greve é só mais um motivo pra repensar a situação anacrônica de se contar com uma polícia militarizada, diferente do que acontece noutros países. A militarização que não só tende a confundir polícia com forças armadas, mas, mais grave, forças armadas com polícia, o que é ruim para ambas as instituições e sobretudo para o cidadão.

A lógica militar estrutura práticas e discursos baseados na afirmação incondicional da soberania, no combate total, de vida e morte, contra um inimigo externo. Em suma, prepara-se na paz para atuar numa situação de guerra, isto é, num segundo momento hipotético, que pode ou não se confirmar. Porém, na América Latina, essa lógica costumou permear a organização política interna, não somente para atuar em situações excepcionais, mas no cotidiano, em qualquer lugar, contra qualquer um enquadrado como inimigo público. O segundo momento, hipotético, se dilui como aqui e agora. Com uma polícia assim organizada, a exceção se torna a regra e todos ficam à mercê desse poder incerto e ambíguo, mas que sabe muito bem diferenciar o branco do negro, o rico do pobre.

As forças armadas latino-americanas levaram décadas para deixar de servir diretamente à repressão social e política da própria população (amiúde sob alto comando em Washington), quando descontente ou “subversiva” ou simplesmente pobre, e mesmo esse processo ainda precisa ser concluído (e uma boa Comissão da Verdade faz parte disso). A segurança pública continuar nesse esquema militar de guerra é mais um resíduo desses tempos abertamente ditatoriais. Mesmo porque, no Brasil, parte da ditadura não morreu, nos porões das delegacias, nas prisões e nos corações de alguns da velha geração, que não hesitariam em apoiar um novo regime de censura, arbítrio, perseguição ideológica e tortura, apesar de todas as mudanças de ventos. E apoiariam com entusiasmo!

Não pode haver na polícia pública o conceito de um inimigo absoluto, de afirmação da soberania. Permitir que se maneje política e midiaticamente esse conceito de inimigo, — seja ele o crime organizado, a cracolândia ou a guerra antidrogas, — não faz mais que promover a exceção permanente, onde a polícia se torna um soberano difuso que, muitas vezes, acaba ela mesma organizando a violência e o crime. As milícias cariocas que o digam, nesse indecidível entre o poder do crime e o crime do poder. A polícia não pode agir como operador da soberania contra o inimigo. Ela lida com o cidadão, transita nas ruas e precisa se colocar no mesmo plano, comunitária, aberta, estreitamente fiscalizada por instâncias locais de governança, imprensa e defesa de direitos.

No estado do Rio de Janeiro, isto não significa apenas desmilitarizar a PM, mas recomeçá-la praticamente do zero, retomando o controle sobre as áreas milicianas (por dentro da própria polícia) e reestruturando-a no treinamento e na doutrina. As Unidades de Polícia Pacificadora (UPP), por exemplo, poderiam ser inteiramente reconfiguradas como Unidades de Políticas do Comum (UPC), conjugando policiamento comunitário com pontos de mídia livre, cultura, saúde, esporte, educação, centros cidadãos de renda e gestão democrática da comunidade. Tornar mais local e próxima e integrada socialmente a administração do território, onde a segurança é só um elemento entre muitos.

Se a reivindicação em curso tivesse sombra dessa pauta mais social e democrática, em vez de tensionar a cidade corporativamente, instigando manchetes de sensação, ela poderia cumprir um papel importante. O que está acontecendo na Bahia e no Rio de Janeiro está longe disso e não merece aprovação.

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Recomendados:

Polícia Militar, o motim e a Bahia, por Hugo Albuquerque, no Descurvo

Notas sobre uma greve imaginária (na Bahia), por Lucas Jerzy, no Último Baile dos Guermantes

Bahia: trágica comédia de erros, por Chico Bicudo, no seu blogue

Posts relacionados ao assunto
  • Luis Carlos de Alencar

    Muito bom, Cava. Apenas toma cuidado com o discurso das polícias comunitárias que também já foi apropriado e as experiências são péssimas. De todo jeito, os princípios que vc coloca nos aponta um outro sentido, daí que acho que deveríamos enfatizar a participação social na deliberação, formulação, gestão e fiscalização das políticas de segurança pública. Isso sim seria um caminho para uma outra forma de se pensar e executar a segurança. Tradicionalmente, participam o Executivo, as forças repressoras, o capital privado e organizações pelegas ou cooptadas. Se não tocarmos a fundo nesse espaço e nessa lógica, não adiantaria falarmos de fim da PM, aumento salarial, etc. Participação social pode vir a ser um dos elementos fundamentais que acompanhe a desmilitarização, mas também contra o corporativismo, patrimonialismo, o autoritarismo e o populismo que permaneceriam, mesmo após essa suposta desmilitarização.  Abração

    • Bruno Cava

      Eu concordo, precisamos de um
      outro nome pra “polícia comunitária”, aliás, todo o discurso de
      segurança pública merece outra gramática. Você está trabalhando nisso,
      né? Fundamental. Abraços!

  • http://ultimobaile.com/ Lucas Jerzy Portela

    Sêo Cava, nego confunde aparelho ideológico de estado com proletariado.

    E mais, a PM não sabe reinvidicar, digo taticamente. Eles fizeram um motim com a maioria ainda trabalhando; e agora, motim debelado, e sem adesão das cidades médias do interior (que durante o motim foram entrando pacificamente em greve), resolvem fazer greve!

    Fosse o contrário (primeiro greve e, se nada conseguissem, então motim) faria sentido. Primeiro se cria o fato, depois tensiona. A PM tensiona sem fato, e depois cria fato sem conseguir tensionar. E mais: dando de bandeja pro governo/patrão fatos perfeitamente tensionáveis a favor dele.

    É muita falta de noções… militares! – se eu fosse de direita e security-freak já não ia querer uma PM dessas, imagine não sendo.

    E assim, a PM segue apostando na importância de sua ausência, até alcançar sua ausência de importância – como disse no comentário lá no Huguitcho Albuquerque.

    • Bruno Cava

       Tem muito esquerdista ressentido que passa o ano inteiro pintando a PM, as UPP e os militares como diabos fardados, mas basta alguém gritar “fora Dilma” ou “fora Cabral” que viram os mártires da resistência.

  • Pingback: Contra a greve da PM | Quadrado dos Loucos | Info Brasil

  • Wesley

    Devemos realmente ficar muito atentos à greve da polícia por essas questões que você trouxe, mas a coisa é mais difícil do que você colocou aí. Primeiro, por que você acha que esse movimento está aprofundando o militarismo e toda essa concepção reacionária? Há alguns anos houve um princípio de movimentação política da polícia que de fato era principalmente motivada por corporativismo e alteração política no alto escalão. Mas que elementos fazem pensar que este também é? E existe claramente no movimento um componente de subversão do autoritarismo que não pode ser desprezado (ainda que ele próprio possa estar envolvido em uma concepção autoritária – mas está?). Segundo, a causa em jogo é muito maior que interesses particulares da polícia (e isso até acontece de forma mais ou menos independente da forma como os grevistas pensam sua atuação). O que está sendo disputado é o próprio direito de protestar, o comprometimento orçamentário do Estado com a burguesia, o grau de exploração dos trabalhadores, etc. Terceiro, o movimento pode não estar colocando uma “pauta mais social”, mas por outro lado você enclausura a atuação da polícia na lógica da guerra, e com isso não leva em conta que uma manifestação de questionamento da organização institucional é essencial para a efetivação da reforma que esperamos (o maior salário e as 40 horas pleiteadas são medidas centrais nesse sentido). Enfim, eu não conheço bem esse movimento e tô pensando livremente. Só acho que você não pode dizer o que disse sem maiores explanações. 

    • Bruno Cava

      Sim, eu posso dizer o que disse sem as explanações que você gostaria de ler. A coisa é sempre mais difícil. Mais difícil que ver um movimento do proletariado fardado pelo “direito de protestar”. A greve não é algo transformador em si, falando em abstrato. Senão era fácil, era só invocar greve para qualquer tipo de movimento. Menos mística das ruas. Há mobilizações fascistas, há mobilização de medos e inseguranças. Não, o que está sendo disputado não é o direito de protestar, é uma pauta corporativa e de poder de quem se agencia em vários graus e várias articulações com o crime do poder e o poder do crime para governar os territórios da cidade, num corte através da instituição e que envolve a economia de ilegalidades e o financiamento político.

  • Geneuronios

    O que o PT (partido dos trabalhadores?!) fez desde que assumiu o governo federal para indicar um caminho para melhorar a segurança pública? Até agora só jogou gasolina na fogueira. É só ler e entender os texto do Reinaldo Azevedo na VEJA. É triste, mas políticos, assim como os religiosos, gostam é de pobreza. E governo e igrejas deitando e rolando.

  • http://fabriciokc.wordpress.com/ Fabriciokc

    Lucas: “nego confunde aparelho ideológico de estado com proletariado.”

    Não é que nego confunde, é que se trata mesmo de uma realidade ambígua. É bem óbvio que o policial militar é também essencialmente um proletário – embora sua função seja servir ao “aparelho ideológico de estado”. Aliás, a complexidade da questão é precisamente esta, independente das questões secundárias (mas igualmente gravíssimas), como “sensacionalismo e golpismo da grande imprensa” e sobretudo a atual estrutura e aplicações das Polícias Militares.

    Proletários servindo ao aparelho ideológico do estado (seja matando, pervertendo ou oprimindo).