O cattivo maestro chegou à tardinha. Sem pompas, de fininho, como que brotou na praça da Cinelândia. Simpaticíssimo, passeou pela ocupação, trocou abraços e afagos, conversou com acampados, assistiu à assembléia, escutou, sorriu, aplaudiu. Não quis protagonizar, não se apresentou como representante de ninguém, não foi ao centro para ler manifestos ou conscientizar as massas. O maior respeito que poderia demonstrar era esse mesmo: circular na imanência dos encontros e desencontros, naquele fim de tarde arejado. Certo momento, um morador de rua também acampado, negro, apareceu do nada e abordou o filósofo autonomista: “— Vereador! precisamos de um monte de coisas“. Algumas pessoas ao redor se preocuparam. Negri, com doçura imensa, colocou a mão no ombro do homem e respondeu: “Scusa signore, non parlo bene il portoghese.” Cumprimentaram-se, e ele foi embora. No final da visita de cerca de duas horas, deu uma palhinha ao GT Comunicações (abaixo). Precisamos de mais intelectuais assim, intelectuais da praça.
Para as legendas em português, clique em “CC”
Servidão moderna (De la servitude moderne), Jean-François Brient, França – Colômbia, 2009, 52min.
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“Nenhum homem se machuca senão por si mesmo.” Diógenes de Sinope
“Gostaria muito de entender como pode acontecer que tantos homens, tantas cidades, tantos países sofrem sob o jugo de um único tirano que não possui outro poder que não aquele concedido pelos próprios homens.” Etienne de la Boétie
“O sábio deve ter o dinheiro na cabeça, nunca no coração.” Jonathan Swift
“Que época terrível esta, onde idiotas dirigem cegos.” William Shakespeare
“A vida é breve, a alma é vasta, ter é tardar.” Fernando Pessoa
“Os jovens em todo mundo tiveram de escolher entre o amor e a lata de lixo. Em todo mundo eles escolheram a lata de lixo.” Guy Debord
“Trabalhas sem alegria para um mundo caduco, / onde as formas não encerram nenhum exemplo. / Praticas laboriosamente os gestos universais, / sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.
Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas, / e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue frio, a concepção. / À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze / ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.
Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra / e sabes, que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer. / Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina / e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.
Caminhas entre os mortos e com eles conversas / sobre coisas do tempo futuro e negócios de espírito. / A literatura estragou as tuas melhores horas de amor. / Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.
Coração orgulhoso, tens pressa de confessar a tua derrota / e adiar para outro século a felicidade coletiva. / Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição / porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.” Carlos Drummond de Andrade
*** Os músicos de Bremen (Бременские музыканты, Inessa Kovalevskaya, URSS, 1969, desenho animado, 21 min.), cult psicodélico de animação soviética [dica de Vinicius Honesko, do baudelariano Flanagens]
Os músicos de Bremen
Um homem tinha um burro, que carregava enormes fardos de milho para o moinho. Mas estava ficando velho e inútil para o trabalho. Quando o seu mestre começou a pensar em vendê-lo, o burro, percebendo, escapou e tomou a estrada para Bremen.
— Lá com certeza poderei trabalhar como músico. — o burro imaginou.
Depois de caminhar uma distância, encontrou um cachorro deitado na estrada, arfando.
— Por que você está tão cansado? — perguntou o burro.
Estou velho e fraco — respondeu o cachorro — e não consigo mais caçar. O meu mestre queria me entregar ao homem da carrocinha, por isso tive de fugir. Mas e agora, como vou conseguir comida?
— Façamos o seguinte, — disse o burro — estou indo pra Bremen, lá serei músico, vem você comigo e vamos tocar os dois. Eu vou tocar flauta e você poderá batucar o tambor.
O cachorro aceitou a proposta, e eles partiram juntos.
Logo a seguir, encontraram um gato sentado no caminho. Estava com a face encharcada de lágrimas!
— Ei, bichano, o que aconteceu com você? — perguntou o burro.
— Como eu poderia estar alegre, quando o meu pescoço está em perigo? — respondeu o gato. —- Porque fiquei velho, meus dentes não servem mais, não dá pra caçar ratos. E por isso a minha dona queria me afogar, aí eu fugi. Agora não tem mais o que fazer: aonde eu poderia ir?
— Ora, vem com a gente para Bremen. Você que costuma miar à noite, debaixo do luar, bem poderia trabalhar como músico.
O gato pensou um pouco, e foi com eles. Depois disso, os três fugitivos chegaram a uma fazenda, onde havia um galo trepado sobre a porteira. Ele cantava de modo muito triste.
— Que cantoria mais triste, — disse o burro — qual é o problema?
— Ah, você veja que algumas visitas estão vindo à fazenda no domingo, e a dona da casa mandou o cozinheiro me fazer de jantar, sem pena nenhuma, então hoje à noite cortam a minha cabeça. Só me resta chorar.
— Ah, galinho, você deveria era vir com a gente. Vamos pra Bremen, vejo que você tem uma boa voz, poderia ser o cantor de nossa banda.
O galo concordou e os quatro foram embora juntos. Como não conseguiam chegar a Bremen em um único dia, à noitinha resolveram dormir numa floresta próxima. O burro e o cachorro se deitaram sob uma grande árvore. O gato e o galo se instalaram sobre os galhos. O galo voou direto ao galho mais alto, onde estava mais seguro. Lá de cima, pôde ver tudo ao redor. E aí ele enxergou uma luz crepitando, bem longe. Chamou os outros e eles concordaram que deveria haver uma casa por lá. E decidiram ver se lá poderia haver um abrigo melhor pra passar a noite.
Seguindo a luz, chegaram até uma casa no meio da floresta. O burro, como era o maior, foi até a janela e espiou.
— O que você vê, meu cavalinho? — sussurrou o galo.
— Vejo uma sala quentinha, com uma mesa cheia de coisas gostosas de comer e beber, e ladrões comendo e se divertindo.
— Isso é o tipo de coisa que mais precisamos, hein? — disse o galo.
— Sim, como eu queria estar no lugar deles! — falou baixinho o burro.
Então os quatro companheiros fizeram um plano para afugentar o bando e ficar com o butim. O plano era o seguinte: o burro iria ficar parado abaixo da linha da janela, o cachorro pularia no seu lombo, o gato subiria no cachorro e, finalmente, o galo pularia sobre a cabeça do gato, e uma vez feito isso, eles começariam a tocar juntos: o burro zurrando, o cachorro latindo, o gato miando e o galo cantando. E deu certo. E isso foi tão bizarro que assustou muito os ladrões, que dispararam para a floresta. Os quatro puderam então se sentar à mesa, e se deliciar com o festim.
Depois de empanturrados, desligaram a luz, e cada um buscou para si um lugar para dormir. O burro se deitou sobre um monte de feno no jardim, o cachorro atrás da porta, o gato em cima do fogão, e o galo se pendurou numa viga do telhado. Todos muito cansados da viagem, logo dormiram.
Quando passou da meia-noite, os ladrões perceberam que a luz não estava mais acesa, e parecia quieto. Aí o chefe do bando disse: — Não deveríamos ser tão covardes! — e enviou um deles na frente para ver o que se passava.
O enviado encontrou tudo calmo, e entrou devagarzinho na cozinha para acender alguma luz. Contudo, confundindo os olhos do gato por pedaços de carvão, aproximou do bichano um fósforo aceso. O gato não gostou da brincadeira, saltou sobre ele, arranhando feio o rosto do homem, que entrou em pânico e correu para a porta. Mas o cachorro, que ali repousava, mordeu a sua perna. O homem, mordido e arranhado, foi tropeçando até o jardim, quando deu de cara com o burro, que lhe deu um belo coice. E o galo, por último, ao acordar com o barulho, cantou com toda a voz: — có-có-ri-có! có-có-ri-có!! có-có-ri-có!!!
Aí o ladrão desabalou numa correria, até chegar a seu chefe, e disse: — Lá na casa agora tem uma bruxa horrível, que me arranhou com suas longas unhas; e na porta tem um homem com uma faca, que me cortou a perna; e no jardim tem um monstro preto, que me bateu com uma clava de madeira; e no telhado, em cima, senta um juiz, que exigia: — Tragam esse bandido diante de mim! — então eu tive de fugir de qualquer jeito!
Os ladrões não se animaram mais a voltar à velha casa, mas ela servia muito bem aos quatro músicos de Bremen, de maneira que de lá não saíram mais e foram felizes. E de vez em quando eles são chamados nas redondezas, para tocar a sua música estranha.
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Tradução (muito) livre, pelo Quadrado, da fábula Os músicos de Bremen, dos Irmãos Grimm (versão vertida do inglês de aqui)
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*** Os saltimbancos trapalhões (J.B. Tanko, Brasil, 1981, cor, 95 min.), um dos momentos altos do cinema (des-)brasileiro, com Renato Aragão, Mussum, Zacarias, Dedé Santana e Lucinha Lins, uma adaptação rocambolesca da peça Os saltimbancos, de Sérgio Bardotti, Chico Buarque e Luís Bacalov, por sua vez inspirada no conto dos Irmãos Grimm.
Quando fiz sete anos, meu pai pôs pra tocar dois discos de vinil. No final, solene, disse: “Filho, agora você já ouviu tudo.” O primeiro era Eletric Ladyland, de Hendrix, e o segundo, Winter in America, de Gil Scott-Heron e Brian Jackson. Embora tenha compreendido de imediato Hendrix — meu arquétipo de herói trágico e infinito —, naquela idade, não poderia ainda perceber o monstruoso sentido poético e histórico, condensado naquele álbum-conceito da black music.
Gil Scott-Heron declamou poemas que eram canções e apresentou canções que eram poemas. Escreveu panfletos, ensaios e romances. Foi o poeta dos Panteras Negras. Numa terra de generais e beatniks, de hippies e assassinos, de evangélicos e ateus, Gil nunca teve medo. Cara fechada, olhar cortante, semblante nervoso, mas também lírico e toda a vida generoso. Por sua música, ativismo e raiva, tornou-se um dos símbolos de uma geração cuja revolta jamais terminará. Sempre houve a raiva — amiúde epidérmica e apaixonada, mas ainda assim, raiva dorida. Uma raiva às vezes estranha. Uma raiva plena de personalidade. E frequentemente uma raiva acabrunhada.
Na medida em que eu ficava mais velho, aos poucos fui concluindo que tudo o que veio depois — soul, hip hop, funk, rap etc — tudo já estava ali mesmo, naquela bomba político-musical de Winter in America. Como Hendrix, Scott-Heron é desses artistas incondicionais, com quem concordo em tudo e vou com tudo, — e por ele me deixo formular e sentir. Não somente por causa da mensagem, mas de todo o arranjo, conteúdo e tema, filiações estéticas, provocações, enfim, ao clima existencial e à economia de afetos, tudo isso que, no conjunto, perfaz o conteúdo pregnante de sua obra.
Não se pode abstrair assim, porém, em geral, existem canções que a gente gosta mais da parte musical e outras da letra, e em muitas gostamos da composição como um todo; sem que se possa dizer, com exatidão, qual elemento determinou o efeito global tão potente. Pois com Scott-Heron, não cesso de vibrar não só com a composição inteira, no seu efeito global, mas também com qualquer componente, quando tomado isoladamente: a poesia, o canto ao estilo almuadem, a instrumentação (finíssimo Brian Jackson!) , a performance de bardo, bem como a pegada militante, nunca ausente em absoluto.
A poesia raivosa de Gil espreita, flutua, penetra, às vezes derruba, noutras eleva, de todo modo atinge, vara as pupilas e põe a pessoa em xeque. Poesia tão pungente e tão intoxicada de fel, luta, reflexão e sobretudo caráter. Já que o tempo corre, a vida tarda e não se pode ouvir tudo, continuarei a escutar Scott-Heron todos os dias. Você vem comigo, bróder.
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Vale a matéria neo-zelandesa A raiva e a poesia de Gil Scott-Heron, de onde tirei algumas idéias para este modesto obituário.
Small Talk at 125th and Lenox
O leitor já deve ter se deparado com o clipe da música oração, do grupo a banda mais bonita da cidade. Num mantra psicoterapêutico (oito versos repetem-se em seis minutos), retrata uma galera descoladinha, que passa o vídeo entre sorrisos auto-indulgentes e um ar olha-como-sou-feliz. Pura autofagia. Oração ao quê cara-pálida? homilia-manifesto à existência-Prozac? aí tem exatamente o tipo de falso grande sentimento contra o que este blogue se insurge, anti-heroicamente, em textos como Não sou indie, eu sou índio! e Amor bárbaro (Milleriana).
Claro que iriam aparecer paródias. Abaixo, uma que remixou o áudio, para sacanear com a pobreza da letra. Vídeo-resposta convenhamos limitado, do Vida Ordinária. Afinal, o original era pra ser mesmo um mantra… da geração descafeinada.
Hoje, enfim, uma resposta mais criativa, postada por EuOsMeus. Marginal, virulenta, tropicalista, brilhante. Só por causa dela, fiz esta postagem em afinidade eletiva. É disso que se trata, leitor:
Há muitos mal-entendidos ao redor do Zé do Caixão.
Embora sempre por ele interpretado, não se confunde com seu criador, o cineasta paulista José Mojica Marins, que coloco no pódio dos mais potentes do cinema brasileiro, ombreando com Gláuber Rocha e Rogério Sganzerla. Com o diferencial que os filmes de Mojica lotavam as salas nos anos 1960.
Seu personagem mais célebre só viria a aparecer no sétimo longa-metragem da extensa filmografia de Mojica. Surgiu como protagonista do clássico À meia-noite levarei sua alma (1964), quando tinha 28 anos. Como escrevi nessa crítica, “No Brasil, não é só o primeiro grande personagem de terror. É o único.”
Outra confusão está em atribuir a Zé do Caixão poderes sobrenaturais. Na verdade, é um ateu provocador, um imoralista, que zomba das religiões e despreza os crentes. Com empáfia e galhofa, o personagem se considera um Deus. De fato, entroniza uma super-consciência egóica, critério da verdade e medida do real. Deus desce dos céus e se torna eu.
Eis o tipo de solipsismo arrogante que bloqueia qualquer ética da imanência. Zé do Caixão está destinado a sofrer nas garras da mesma autoconsciência totalizante que o liberta da religião: tem pesadelos, alucina e termina por descer ao inferno (do inconsciente) em Esta noite encarnarei no teu cadáver (1967), numa seqüência seminal, definidora da passagem à imagem em cores.
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Conheci Zé do Caixão nos primeiros anos da década de 1990, quando praticava uma erudição selvagem em bancas de jornal e locadoras de VHS. A AIDS era o mal absoluto, os editoriais da Folha eram digeríveis e ouvia-se muito Legião Urbana, pelo menos até o grito do grunge injetar uma revolta amarga na geração. Quando adolescentes nerds passavam as noites entre cafeína e BBS, enquanto os populares ficavam nas matinês de house music e ectasy. Lembro-me bem que pertencia ao primeiro grupo, pois sabia de cor a última fala do andróide Roy Batty (em Blade Runner) e tinha por anti-herói favorito o Monstro do Pântano. Zé do Caixão foi só o segundo.
Cena inesquecível de Blade Runner:
Uma das falas mais emblemáticas de Zé do Caixão:












