Arquivo para ‘Revolução Árabe’
Publicado em 21 de maio de 2011. Comente

Como não ficar otimista quando a geração ocupa em massa as ruas e as praças da metrópole? Quando pessoas como você e eu concluem para si mesmas que chegou a hora da verdade e, diante dos imperativos de seu tempo, agarram a chance de mudança e decidem não largar mais? Quando se permitem a heresia de contagiar-se pelo entusiasmo febricitante das multidões, além de suas vidinhas formatadas e previsíveis, para vivenciar esses dias de aventura e risco e sorriso, em que se provam os verdadeiros sentimentos de amor e revolução?

Estamos em 2011, ano da revolução global. Adeus à velha política, ao velho estado, à velha esquerda. Chega de repetir um physique du rôle abatido, ascético, pessimista. Tchau tchau para narrativas jeremíadas que tanto nos entediam: não haveria saída do estado de exceção, não haveria modo de libertar-se do sistema capitalista, não haveria mais sentido nas lutas concretas. Bróder, sai dessa bad trip!

Desde 15 de maio, centenas de milhares de jovens, nem-tão-jovens e aposentados, de desempregados, subempregados, precários, estudantes e revoltados em geral, enfim, uma multidão de desejos e amores irrompeu nas ruas e praças na Espanha, para exigir democracia real já! Com epicentro nas praças Portas do Sol (Madrid) e da Catalunha (Barcelona), o tumulto se disseminou em mais de 100 cidades espanholas e já alcança outros países do Velho Mundo.

Repetindo uma tendência histórica do século VIII, — quando os primeiros muçulmanos do norte da África atravessaram o Mar Mediterrâneo, — o ímpeto revolucionário dos árabes inundou a península ibérica. De forma semelhante, a revolução se concretizou com um novo modo de sentir, uma mudança de percepção que circula e faísca irrefreavelmente, agitando uma geração que o espetáculo procura sedar todos os dias. Como nas revoluções árabes,ela se desenrola numa mistura de desobediência civil e passeatas, turbinada pelas novas mídias e redes sociais.

A mobilização na Espanha nos últimos dias repercute o dezembro quente italiano, a marcha dos 400.000 em Londres e as recentes conflagrações na Grécia contra a bancocracia. Não há demandas precisas. Parece que a convergência está num desejo de viver noutro mundo, noutro modo de produzir e relacionar-se. Um que não seja nesse sistema vicioso em que poucos políticos, banqueiros e empresários vampirizam o trabalho vivo dos muitos.

Romantismo antissistema? dissolução das grandes narrativas? demasiado genérico?

Esse desejo central pode parecer vago, mas é nisso mesmo que reside a força das revoluções árabes e da onda européia de protestos. Coalhadas dos grupos e discursos mais diversos, torna-se difícil enquadrar e debelar as manifestações. Quem não lembra a angústia da ditadura egípcia ao não encontrar interlocutores entre os revoltosos na Praça Tahrir? Quando, no auge da insurreição, tentava um meio de negociar uma saída reformista, doando os anéis para manter os dedos? Na ocasião, nenhuma instância de representação emergiu das redes em movimento, e isso garantiu que suas demandas fossem mais longe que os prognósticos mais otimistas (e delirantes).

Na Europa, não há um Mubarak ou um Zine Ben-Ali, algum símbolo claro para canalizar o descontentamento, mas existem a classe política e os bancos. Alvo da maioria dos discursos, os europeus simplesmente querem outra coisa além disso. Eis uma percepção bastante aberta e ampla contra “tudo o que está aí” (como diria Leonel Brizola). O desencanto levou-os a contestar inclusive o processo eleitoral (na Espanha, três partidos dividem entre si o poder do estado, um tipo de comodato ideologicamente pastoso). De que adiantam campanhas onde  os partidos e candidatos se limitam a repetir bordões com as palavras cidadania, social, humano etc? ou então promessas genéricas para um grupo, uma região, uma causa? Multiplica-se a impressão que as eleições estão se tornando rituais melancólicos: nos restringimos a escolher quem vai decepcionar nos próximos quatro anos.

Todo esse trabalho da multidão não vem não só como resposta à ainda-mais-uma-crise do capitalismo — que, desde 2008-09, vem impondo medidas de austeridade às políticas públicas.  Talvez tenham chegado à conclusão, num raciocínio mais ou menos articulado, mais ou menos consciente, que, no fundo no fundo, não exista uma crise do capitalismo, mas que o capitalismo é a crise, — depende dela e só pode funcionar com ela. Em suma, os pobres pagam o pato e os ricos recebem “ajudas públicas” e é assim mesmo. Enquanto isso, a “culpa” é atribuída ardilosamente ao “custo social” e aos “gastos públicos”, isto é, aos pobres, os que trabalham para que tudo funcione. Essa narrativa enviesada tem servido para fortalecer uma direita chauvinista, ressentida e racista, cada vez mais despudorada na sua agenda excludente, contra imigrantes e precários.

Nesse aspecto, a esquerda da Islândia teve o enorme mérito de ser a primeira a claramente recusar e conseguir vencer as “medidas emergenciais”. Nessas horas, elas costumam aparecer na boca de “especialistas” da tecnocracia dirigente, sendo então divulgadas ad nausea pelos meios de comunicação. Porque, na verdade, essas “soluções de contingência” constituem o cerne do capitalismo atual, onde estado e mercado fazem tabelinha ao redor da insegurança do trabalho. Noutras palavras, privatizam o ganho e socializam a perda, concentram a riqueza e distribuem a pobreza, particularizam a bonança e universalizam a crise.

Basta: quer-se democracia real já, quiçá além do estado e do mercado. Se a luta é contra a corrupção, esta não configura alguma exceção ou acidente a ser corrigidos, em busca de um capitalismo mais sustentável ou humano, mas a regra mesma das dinâmicas de representação e exploração do trabalho. Afinal, o capitalismo consiste na corrupção sistematizada.

Aqui no Brasil, a grande imprensa não divulga as multidões na Europa. Se acaba divulgando, — porque até a imprensa internacional começou a cobri-las e é preciso macaquear,— não vacila em encaixá-las em narrativas comportadas, descontextualizando o movimento, escondendo o seu devir revolucionário, a sua pertinência para todos. Foi assim com a Praça Tahrir, as ocupações de Wisconsin e a rebelião de Jirau, — de que pouco ouvimos falar na TV e jornalões. Pois a grande imprensa sabe que, ao mostrar a verdadeira face da revolução, incentivará as pessoas a tomar as praças daqui.

Podemos aprender com a revolução 2.0 em Roma, Túnis, Tahrir, Atenas e Puertas del Sol, nessa dinâmica expansiva tão contagiante e alegre. Aprender como uma cacofonia dos insatisfeitos, vozes dispersas pelo tecido social, convergem na polifonia das ruas e praças. Fora da lógica da representação, todos e cada um exprimem a potência de quem não se conforma em viver subjugado e improdutivo, sem perspectivas para crescer e desenvolver-se. Diante de um arranjo político surdo e autoritário, e cada vez mais intolerante, não dá pra continuar sentado na p0ltrona ante a TV. É preciso sair de casa e determinar-se a exercer um papel ativo, junto de tantos cidadãos tratados como massa de manobra, como meros eleitores e consumidores. Porque a rua é nossa. É tudo nosso.

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Links recomendados:

http://democraciarealya.es/

http://www.juventudsinfuturo.net/

http://spanishrevolutioneurope.tk/

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http://www.outraspalavras.net/2011/05/20/%E2%80%9Cnem-politicos-nem-banqueiros%E2%80%9D/

http://moysespintoneto.wordpress.com/2011/05/20/sobre-a-minha-geracao-e-a-politica/

http://www.outraspalavras.net/2011/05/20/para-acompanhar-via-net-a-espanha-rebelde/

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Publicado em 2 de abril de 2011. Comente

 
Fotografias em preto-e-branco, fonte: Al-Jazeera
E pensar que a revolução árabe eclodiu quando um camelô teve a barraquinha apreendida numa operação “choque de ordem”. O levante tunisiano rompeu os diques e, cem dias depois, as revoltas inundam 19 países no norte da África e no Oriente Médio (ler aqui o estado da luta).

Tunísia e Egito estão na frente do que é o movimento político da geração, — um evento definidor das lutas para o século 21, dos modos de usar a revolução 2.0. Alguns temem que, se amainados os tumultos populares, o pêndulo da história inverta o balanço. O ladrão fugido pela janela retorna pela porta, como contrarrevolução, com a reorganização das elites num novo paradigma. Existe aí toda uma teoria do poder constituinte, ao redor do problema de sua “termidorização”. Por um lado, não se deve subestimar o golpismo, mas por outro o ranço fatalista não deixa de incorrer em non sequitur. Como se, relampejado o devir revolucionário, os problemas já não fossem outros. Conciso, arrematou Hugo Albuquerque no Descurvo: “nada será como antes e é isso que importa”.

Não há razão para descrer na força afirmativa da multidão. Acreditar em quê, do contrário? Pois ela tem calor e rosto, comunica-se, as suas organizações e redes, — inventadas e reinventadas na premência do choque de forças, — não se dissolvem. Uma mobilização dessa intensidade muda a percepção das pessoas e não tem como ser neutralizada. Porque a multidão tem voz para, da história oficial, irromper a sua narrativa polifônica. E tem olhos para enxergar as relações de poder, a materialidade das lutas e, sobretudo, a sua potência como sujeito constituinte. A jogada doravante, a despeito do afã de legalistas e constitucionalistas em estabilizar uma nova ordem, pode estar em não encerrar o ciclo revolucionário, em manter acesa a chama de amor e raiva que moveu tantos milhões a insurgir-se contra a exploração. E desse modo, numa versão soft, porém determinada, da revolução, ir mais além do que as promessas interessadas de quem ainda tem muito a perder.

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Esses dias, deparei-me com o Inside Out Project na Tunísia. Quem não lembra, em 2008 o artista de rua “JR” (é um coletivo?) encheu o Morro da Providência, aqui no Rio, de olhares gigantescos. Se, do asfalto ou da praia, os brancos costumam contemplar a favela sem muita judiciosidade; essa intervenção lembra a todos como os negros lá de cima também miram-nos aqui embaixo. Pois então, na Tunísia de 2011, foram espalhadas cerca de cem fotografias em preto-e-branco em ruas, monumentos, prédios públicos, ao ar livre. Elas retratam tunisianos anônimos, colocados exatamente no lugar de fotos oficiais do ditador deposto e de símbolos do poder.

Desta vez, o processo mais colaborativo envolveu não só o misterioso “JR”, mas também seis fotógrafos tunisianos, além das centenas de pessoas que posaram, confeccionaram o material e sugeriram pontos estratégicos. Arte genuína de rua, à maneira do grafite, vertida não como criação transcendente de uma classe, mas prática social e socializante.

Rio de Janeiro, 2008
 Tunísia, 2011: olhar penetrante de uma tunisiana, em paisagem tipicamente mediterrânea

Em vez da bandeira, o riso por vezes trágico de quem afronta o poder constituído
Esta foto, com o retrato de um anônimo colocado entre arquivos e fichas de dissidentes, na Goulette, — a incendiada sede da polícia secreta em Túnis, — me chamou muito a atenção. Que pregnância de sentidos! como não lembrar o conto Porta da lei? ou então os intermináveis arquivos do tribunal de O processo, ambos de Kafka? é isso, afinal, que o agrimensor encontra, uma vez dentro do Castelo? Toneladas e toneladas de papéis?

Publicado em 21 de março de 2011. Comente

Publicado originalmente no Amálgama (clique para ler), em 20 de março de 2011.

Obama estava distante e cansado. Pronunciava as falas maquinalmente. Parecia cumprir a agenda em Brasília como um burocrata aborrecido, vagamente interessado pelos assuntos em pauta. Nem Lula compareceu para conferir maior vibração à visita do presidente americano. Num certo momento, um assessor lhe confidenciou algo ao pé-do-ouvido, e Barack respondeu: “proceed“.
A cabeça de Obama estava longe. Daqui, ordenou a Operação Alvorada da Odisséia. Os EUA estão à frente da intervenção militar na Líbia. Articularam seus aliados no Conselho de Segurança da ONU, Reino Unido e França, para aprovar a Resolução 1.973. Muito mais do que estabelecer uma zona restrita de voo sobre o território líbio (que por si só já infringe a soberania e é casus belli no direito internacional), como vem sendo noticiado, a medida autoriza amplamente a “adotar todas as medidas necessárias (…) para proteger civis e populações civis sob a ameaça de ataques na Líbia, inclusive Benghazi, porém excluindo a ocupação militar de território.”
Obama está acuado. Enfrenta crescente descontentamento nas bases mais tradicionais do Partido Democrata, bem como no movimento jovem que, turbinado pelas redes sociais, o elegeu. Entrementes, a oposição unificada ao redor da pauta ultraconservadora do Tea Party se fortalece a cada dia. Neocons e fundamentalistas cristãos pressionam Barack pela direita, ao mesmo tempo que irrompeu nas ocupações de Madison (Wisconsin) uma nova esquerda, insatisfeita com as hesitações e retrocessos do governo Obama.
O senador democrata John Kerry (membro do comitê de relações exteriores do senado) apoiou a ação militar. Usou argumentos humanitários, como nas intervenções do governo Clinton nos anos 1990, em Kosovo e Somália. Parte da esquerda mundial segue na mesma linha dos direitos humanos.
Por sua vez, os neocons republicanos igualmente clamaram pela intervenção, mas tomaram como exemplo as ações militares do governo Bush, no Iraque e no Afeganistão. Em síntese, é preciso reafirmar a liderança norte-americana na propagação dos valores ocidentais, e garantir a segurança de seu território diante do terrorismo.
Se o argumento republicano é simplesmente nefasto e fanático, o dos democratas e parte da esquerda mundial deve ser acolhido com um grão de sal. Achar que uma intervenção ocidental, por si só, possa resolver a guerra civil e promover a democracia na Líbia ignora a recente experiência no Iraque. Que, por sinal, não serve de exemplo para ninguém e, por isso mesmo, não vem sendo citado por nenhum dos movimentos rebeldes pelo mundo árabe. Ademais, de que democracia se está falando? A pacificação significa exatamente que tipo de poder soberano para disciplinar os árabes?
Acuado pela incapacidade de compor politicamente uma saída para a governamentalidade em crise, o presidente americano foi empurrado a um dilema amargo. Viu-se compelido a incorrer no mau hábito americano de intervir militarmente num país estrangeiro. E agir como um senhor da guerra, precisamente o que ele prometera não fazer. Na noite do dia 19, os Estados Unidos comunicaram oficialmente que estão à frente das forças intervencionistas.
Ou seja, Obama aderiu ao discurso de guerra & democracia, que é espinha dorsal da ordem imperial a que ele mesmo, desde o dia um da campanha, se propunha a construir uma alternativa. Some a manutenção do campo de concentração de Guantánamo e os fracassos no Iraque e Afeganistão, que a Líbia tem tudo para ser a pá de cal de seu projeto político. Esse governo frustrado completa o ciclo e retorna à estaca zero.
– Fogos por toda a Líbia de Gaddafi –
 
Apesar de não agir à moda John Wayne, como o antecessor, e ter conseguido negociar as abstenções de Rússia e China ante a Resolução 1.973, o presidente deu o proceed para uma aventura militar de larga escala. As repercussões de curto e longo prazo não reúnem nenhum consenso entre analistas. Na iminência de o ditador reconquistar Benghazi, num triunfo que seria a glória do regime, Barack sabia que a ação militar ganharia contornos bem mais largos do que uma mera ajuda ao estropiado exército popular do leste.
Não à toa, no dia 19, as primeiras missões não tenham se realizado com o patrulhamento dos céus líbios. Logo de início, a força aérea francesa tratou de atacar veículos terrestres, enquanto a marinha americana disparou 110 Tomahawks em direção à costa africana. Esses mísseis de cruzeiro atingem alvos a até 2.500 km, com 450 kg de carga explosiva plástica, capaz de pulverizar edificações inteiras. Na noite do dia 19 para 20, aviões bombardeiros furtivos B-2 investiram por toda a região sob controle das tropas de Gaddafi. Foram alvejados estações de radar, bases aeronáuticas, pistas de pouso, baterias antiaéreas, palácios, estradas e pontes.
É curioso como, durante as últimas semanas, tanto se debateu sobre a aplicação de uma zona restrita de voo, mas o único objeto voador abatido até agora tenha sido o solitário caça Mig-23 em poder dos revolucionários. A rede Al Jazeera informou que o piloto não sobreviveu à ejeção, realizada à altura baixa demais. A aeronave foi derrubada sobre Benghazi, coincidentemente no dia dos raids da aviação francesa e em circunstâncias que não serão aclaradas tão cedo.
Além desse aviador rebelde, a TV estatal Líbia, duvidosa quanto boa parte da imprensa ocidental, noticiou cerca de 50 mortos na conta dos bombardeios ocidentais dos dias 19 e 20. Como resultado, o primeiro esboço de oposição, por parte da China, Rússia e Liga Árabe, que declararam em termos similares que a intervenção foi longe demais.
Com o novo cenário, a batalha por Benghazi encerrou inconclusa. As tropas de Gaddafi se refugiaram nas áreas próximas. Os rebeldes fortificados na capital da insurgência comemoraram os bombardeios, mas não deixaram de reclamar que veio tarde demais. As derrotas dos últimos dias enfraqueceram-nos demasiado. No dia seguinte, em Misurata, outra cidade ocupada pelos insurgentes, mais a oeste, o exército governista acirrou o assédio com tanques e blindados.
– Gaddafi perde e ganha com a intervenção –
 
Para a contra-insurgência liderada por Muammar Gaddafi, a intervenção estrangeira parece ter unificado de vez as regiões sob seu domínio. Não se constatam mais apenas esquadrões mercenários e alguns poucos grupos leais agitando a bandeira verde vigente. As imagens mostram também milhares de líbios entusiasmados pró-Gaddafi, num número até então inédito.
Esses defensores do ditador se propõem inclusive a atuar como escudo humano, junto a potenciais alvos. No quartel-general em Trípoli, por exemplo, o New York Times relata um cinturão humano com “centenas de simpatizantes, inclusive mulheres e crianças”. Isto indica que Gaddafi conta com respaldo popular além do previsto originalmente pelo ocidente, e certamente mais do que mercenários e o núcleo duro do regime.
Resta saber como o ataque estrangeiro polarizará a população. Aqueles refratários à ideia de um protetorado ocidental, aos moldes do Iraque pós-Saddam, tendem a alinhar-se à ditadura de Gaddafi. Esse efeito pode intensificar em função da destruição causada pelos bombardeios e das baixas civis (os eufêmicos “danos colaterais”). Se a participação de mercenários em suas fileiras vinha depondo contra o nacionalismo proclamado pelo clã Gaddafi, agora, com os rebeldes abertamente aliados à ordem imperial, o ditador tem tudo para se firmar como o guardião de uma Líbia livre diante da “dominação imperialista”.
Afinal, a rede Telesur não estava tão enganada quando alertava que os pés do colosso não eram tão de barro assim. De subestimado ditador-chanchada, Gaddafi passou a estrategista respeitável, que não deve mais ser subestimado. Hugo Chávez, o único chefe de estado a apoiar abertamente o ditador, brincou: “Que loucura?…. a loucura é imperial!”
Os revolucionários líbios, de fato, pediram a intervenção. Estavam sendo cabalmente derrotados depois que o ditador reorganizou suas forças. Mais por lei da sobrevivência do que programa político, pois até então nenhum impulso revolucionário seguia nessa direção ocidentalizante. Caso Gaddafi tivesse reconquistado Benghazi e o restante do território, como acreditavam os analistas viria a fazer inexoravelmente, realizaria uma caça às bruxas, “casa por casa” nas palavras dele. A revolução teria de reorganizar-se como guerrilha, em árdua jornada, porém autônoma.
Não se pode esquecer da Al-Qaeda. O fundamentalismo islâmico da Al-Qaeda há tempos faz tabelinha com o fundamentalismo cristão dos neocons, um se alimentando politicamente do outro. Ausente no discurso e nas lutas da revolução árabe, que já cobrem 19 países da região, a intervenção ocidental pode pavimentar o caminho para a sua penetração no país. No Afeganistão, uma década de ocupação americana não foi capaz de debelar a rede de militantes radicais, que segue enraizada pelo país. Pode ser mais uma pasquinada, mas Gaddafi prometeu estender o tapete a qualquer um interessado em organizar atentados no ocidente, e citou nominalmente a Al-Qaeda.
– Império enquadra a revolução –
 
A intervenção embaralhou as cartas da revolução árabe. Quebrou o seu encanto. Passou o momento romântico e febricitante, que na Praça Tahrir condensava seu devir revolucionário. Enganou-se quem avaliava que a atmosfera geopolítica dos anos 2000 e seu discurso guerra & democracia estava superada com a eleição de Obama e a falência do neoliberalismo.
Se, na Líbia, o império assumiu a missão de derrubar Gaddafi, não hesitou em sustentar o ditador egípcio Hosni Mubarak até onde pôde, e se engaja por uma “transição ordeira” que, na prática, significa neutralizar a revolução.
Simultaneamente, mantém o fluxo de apoio político, armas e recursos às monarquias tirânicas e aliadas na Arábia e no Bahrein, onde a revolução é recebida à bala e poucos têm falado em “desastre humanitário”. Neste último protetorado imperial, a Praça Pérola foi demolida, para não servir como símbolo tal qual Tahrir.
Enquanto isso, no miserável e semiagrário (e sem petróleo) Iêmen, onde 50 pessoas foram assassinadas nos protestos de rua da última semana, limita-se a declarações esparsas de condenação moral, sequer cogitando de ação concreta contra o ditador sanguinário.
Cinicamente, vestida de humanidade e altos princípios, a ordem imperial continua operando no capitalismo mais perverso, o que depende da guerra. Os senhores da contrarrevolução não mais hesitarão em rugir seus canhões: o mais barulhento dos argumentos. Daqui por diante, a revolução é morro acima.
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Outros textos recomendados:
A revolução não cede aos Tomahawks, por Antônio Martins, no Outras Palavras (excepcional artigo usando fontes de blogues árabes ou sobre o Oriente Médio)
O teatro de Kadafi e um pensamento sobre o Conselho de Segurança e o Brasil, por Daniel Lopes, no Amálgama (opinião divergente, mas bem embasada)
Obrigado, Obama!, por Danilo Marques, no Inferno de Dândi
Quando estamos sós, por Hugo Albuquerque, no Descurvo
Publicado em 3 de março de 2011. Comente

Publicado originalmente no Outras Palavras, em 2 de março de 2011.

Entrou o mês de março e a revolução árabe segue com ímpeto irreprimível, surpreendendo até os mais otimistas analistas de esquerda. Praticamente todos os países árabes foram impactados pelos tumultos, que irromperam na Tunísia na virada do ano. A revolta se alastrou por populações até pouco tempo tidas por “despolitizadas” e desarticuladas, contra regimes considerados sólidos como rocha. Duas ditaduras enraizadas há décadas e apoiadas pela ordem imperial (financeira, militar, midiática) tiveram seus líderes depostos em questão de semanas. Tudo indica que o déspota líbio Muammar Gaddafi seja o próximo, e o espectro revolucionário assusta governantes não só da região.
Na Tunísia e no Egito, a revolução entrou por assim dizer num segundo estágio. As multidões seguem mobilizadas, pois querem mais do que a mera troca de dirigentes. Exigem a mudança estrutural do sistema político e econômico.
Na Líbia, freme uma luta aguda entre o movimento de rebeldes e as forças remanescentes de Gaddafi, isto é, tropas leais e esquadrões mercenários de extermínio. As batalhas são encarniçadas também no Bahrein e no Iêmen, onde os manifestantes confrontam a brutal repressão por parte dos autocratas. Mas também estão cobertos de protestos, em maior ou menor grau, o Iraque, o Omã, a Jordânia, a Argélia, o Sudão e o Marrocos. Em toda parte, e os vídeos do youtube não me deixam mentir, é impressionante como os insurgentes não se amedrontam, se expõem aos maiores perigos, e seguem contestando a ordem estabelecida.
Dos estados árabes, a Arábia Saudita, o Líbano e a Palestina parecem ter sido poupados, por enquanto, dessa faxina furiosa. O que não significa muito, haja vista a rapidez com que essa revolução pega, uma vez deflagrada. Antecipando-se, a monarquia saudita concede direitos e “bondades”, tentando auferir a complacência das massas. Líbano e Palestina, com suas instâncias representativas muito firmes, e sua maior “intimidade” com Israel, parecem internalizar a onda de protestos em termos diferentes que seus vizinhos.
A nós, mais ou menos distantes, resta tentar aprender com os árabes. A quantidade de informação é gigantesca e não há qualquer interpretação fácil sobre o que gerou essa revolução.
Num viés mais socioeconômico, fala-se na situação de penúria das populações, segregadas da partilha dos recursos naturais e da produção. Décadas de neoliberalismo esgarçaram um contraste entre elite multimilionária e maioria excluída, e isso cevou uma instabilidade latente. As lutas são contra a divisão social do trabalho, contra os bloqueios produtivos impostos pela precarização induzida dos trabalhadores. Daí a expectativa de a revolução pegar na Europa mediterrânea, onde os milhões de imigrantes capilarizados se encontram em condições semelhantes.
Os analistas mais liberais, como os da grande imprensa brasileira, tendem a valorizar como fator determinante a restrição dos direitos políticos, a falta de alternância no poder, a pouca liberdade de expressão. A luta é contra a ditadura, por direitos formais, e não contra o neoliberalismo, por direitos sociais. Daí comentadores mais à direita imediatamente alertarem que o movimento reúne condições para pegar em Cuba e na Venezuela.
Subsiste ainda uma explicação mais geopolítica, que aponta a distância entre o sentimento antiimperialista das pessoas e a flexibilidade com que os governantes negociam com EUA, Europa e mesmo Israel. A revolução seria acerto de contas com as negociatas das ditaduras com os interesses do capitalismo global, capitaneado pelos EUA e seu enclave estratégico, Israel.
Embora contribuições úteis, isso tudo não é suficiente para explicar a difusão vertiginosa da revolução por países tão díspares e tão distantes e tão simultaneamente. Afora o idioma e a religião, é difícil achar denominador comum para a situação de países como Marrocos, Líbia, Egito e Bahrein. Se a revolução for uma só, sem fronteiras, como acredito, ela se concretizou de modos diferentes em cada realidade nacional.
Na Tunísia, houve muita repressão inicial, mas o movimento não parou de ganhar força, dia após dia. Quanto mais o poder constituído resistia, mais gente aderia aos protestos de rua, e mais ousados se tornavam. Diversos grupos articularam um choque frontal, que dobrou o regime e forçou a fuga do ditador tunisiano, Zine Ben Ali. O movimento na Tunísia foi o mais surpreendente de todos, porque o primeiro.
No Egito, igualmente a repressão apertou logo nos primeiros embates. Houve um primeiro choque com a polícia, mas a inundação das ruas das grandes cidades rapidamente tornou-se incontrolável. As forças policiais debandaram, muitas das quais fundindo-se ao movimento. Então o exército interveio e ocupou lugares táticos, porém se recusando a investir contra o próprio povo. O ditador egípcio, Hosni Mubarak, apelou para comandos paramilitares, e daí foram dois dias de truculências pelas ruas de Cairo (com direito à carga de camelos). Novamente, os revolucionários provaram sua determinação, não arrefecendo um dia sequer. Daí por diante foi questão de dias para a persistência invencível da Praça Tahrir dobrar a intransigência de Mubarak.
Tanto no Egito quanto na Tunísia a partida do ditador trouxe problemas. Como não houve tomada do poder, nem esfacelamento estrutural do regime, em ambos os países a classe dominante tenta se recompor. Promete mudanças constitucionais e substituição dos antigos dirigentes. Mas em um e outro caso, as multidões não se desmobilizaram, e viraram o aprendizado revolucionário contra os líderes da transição. O que foi aprendido nas ruas, permaneceu vivo.
Novamente, a multidão na Tunísia saiu na frente, ao derrubar, no final do mês passado, o sucessor de Ben Ali e outros ministros das antigas. No Egito, com impulso semelhante, permanece a mobilização na Praça Tahrir, emblema e condensação dos desejos revolucionários do mundo árabe.
Na Líbia, o clã Gaddafi resolveu lutar até a última bala. Porque não tem escolha. Tolerado pelas potências ocidentais depois que passou, na década de 2000, a fazer o jogo do império, agora o ditador líbio não tem onde se asilar. Diferentemente do caso egípcio, os militares foram ordenados ao ataque total contra os rebeldes. O resultado foi a cisão das forças armadas: unidades amotinadas e deserções. Não a toa, o ditador precise tanto dos mercenários da África subsaariana.
É curioso, noutra ótica, como a repressão ordenada por Gaddafi, não protegido pela ordem imperial (como Mubarak ou Ben Ali), seja imediatamente enquadrada como “desastre humanitário”. Algo que não aconteceu no Egito, Tunísia ou Bahrein — onde, como se sabe, também houve centenas de mortos, sujando de sangue as mãos dos déspotas. É evidente que qualquer reação truculenta contra o movimento civil de massas é criminosa e inaceitável, mas vale reparar como o establishment usa dois pesos e duas medidas, em se tratando de ditaduras servis (Egito, Tunísia, Bahrein), ou meramente toleráveis e incômodas (Líbia). Nas primeiras, nem se cogita da intervenção “humanitária”. No segundo caso, despontam porta-aviões singrando em direção ao “teatro de operações”.
Numa apreensão ainda incipiente, e não poderia deixar de sê-lo no calor dos acontecimentos, podem-se identificar dois momentos do processo constituinte árabe. Um momento mais delongado, extensivo, que vem se acumulando há décadas, relacionado à exclusão sistemática das pessoas da partilha de bens, da participação política, da produtividade. E outro mais explosivo, intensivo, que rompe os diques e inunda o tecido social de amor revolucionário, de desejo e cupidez raivosa.
Nesse segundo instante, intensivo, que é a revolução, toda aquela frustração socioeconômica, política, produtiva, enfim toda a baixa autoestima das pessoas explode, e se gera um efeito positivo. Os sentimentos negativos e paralisantes, de medo e impotência, de “não consigo“, cedem a vez a uma dinâmica de autovalorização, de alegria e afirmação, de “conseguiremos“. Transforma-se a percepção, tudo se torna ao alcance, e as pessoas agarram o momento.
Que, de fato, as populações árabes viviam na desigualdade e injustiça, subjugadas por regimes tirânicos, pró- ou anti-ocidente, nas sombras de palácios suntuosos, isso se sabe muito bem.
O que falta compreender, portanto, é o que produziu a ruptura dos diques. Como essa ruptura levou à articulação de grupos tão heterogêneos num movimento único e autônomo: a imensa juventude precária, os sindicatos, a Fraternidade Muçulmana, o baixo escalão das forças armadas, minorias tribais e outros que ainda nem se sabe os nomes para classificar.
Se uma classe política, como realidade material, se constitui na luta concreta como sujeito, é caso de perguntar pela composição de classe do movimento. E persistir nesse questionamento: é a mesma composição de classe que pode romper os diques noutros lugares? na Arábia? no Irã? na Europa, através dos imigrantes?
Ademais, como a rede uniu o múltiplo numa força tão potente? foram as redes sociais, o facebook, o tuíter, o telefone celular? houve coordenação por comitês? qual o papel da mídia organizada na articulação revolucionária? como tudo isso interagiu? e mais: qual o discurso correspondente a essas formas de organização e redes, como interpretar e ajudar a propagar esses desejos, qual a linguagem?
Todas essas questões são de importância vital para a esquerda realmente ativista. Vital no sentido que delas depende para continuar pulsando de vida. Para não morrer na inanição de conceitos e estratégias.
Através dessas questões, talvez se possa começar a entender o maior movimento revolucionário da geração, que inaugura uma nova percepção e um novo ciclo das lutas globais. Desenvolvê-las, aprimorá-las, testá-las vai permitir enxergar a revolução sob a espécie da multidão, da resistência, do poder constituinte. E não voltar como bumerangue nas interpretações tradicionais, que envolvem estados-nações e ideologias prontas, e equilíbrios regionais e declarações de Obama, que no fundo analisam o acontecimento pelo lado da ordem imperial, do capitalismo, do poder constituído. Não que sejam desimportantes tais análises, mas é que elas já predominam, numa reprodução em mil idiomas, na grande mídia.
Na revolução árabe, nós que estamos longe e tão perto, falta fazermos as perguntas “certas”. Não porque sejam mais verdadeiras ou sinceras, mas porque colocam os melhores problemas, do ponto de vista de uma esquerda revolucionária.

 

Publicado em 23 de fevereiro de 2011. Comente

Publicado originalmente no Ponto Outras Palavras, em 22 de fevereiro de 2011. 
Dois oficiais superiores da Líbia desertaram pousando na ilha de Malta com seus Mirage F1
Apesar dos abalos continuados no Iêmen e no pequeno Bahrein, o epicentro do terremoto revolucionário agora está na Líbia. Depois de derrubar ditaduras na Tunísia e no Egito, países fronteiriços a oeste e leste, a terceira peça do dominó parece ser mesmo o estado “socialista e popular de massas”, comandado por Muammar al-Gaddafi há 41 anos.
O desdobramento da revolução árabe contesta narrativas apressadas. Alguns analistas vêem como fator causador do movimento a aliança entre as elites dirigentes e o bloco EUA-Israel. Culpam o pacto neoliberal em vigor há três décadas, entre governos servis e interesses do capital internacional. As pessoas revoltaram-se contra os regimes tunisiano e egípcio porque perceberam não passar de instrumentos a serviço do mercado global e suas usinas de desigualdade e injustiça. A insatisfação das massas diante do capitalismo e do americanismo contrastava com a dócil subserviência dos dirigentes. Esse contraste acabou por minar a legitimidade dos ditadores Zine Ben Ali e Hosni Mubarak, que sucumbiram aos primeiros fogos.
Daí a expectativa desses analistas, que a revolução tivesse por progressão solapar os governos mais pró-ocidente da Arábia Saudita, da Argélia, do Marrocos. Mas não esperavam, — pelo menos não agora e com essa fúria, — a Líbia.
Embora um dos maiores países do continente, a população líbia se espreme numa delgada faixa de praias, palmeiras e figueiras, entre o Mediterrâneo e a imensidão do sertão saariano. Conta 6,4 milhões de cidadãos, pouco mais da metade da vizinha Tunísia, cuja área é 11 vezes menor. A capital Trípoli, no oeste do país, tem o porte de uma metrópole média como Porto Alegre. Benghazi, a segunda cidade e pólo da região leste, ombreia com a litorânea Santos.
Apesar de os líbios se originarem, na maioria, de etnias não-árabes, como a berbere, podem ser considerados um povo culturalmente árabe. 80% têm como primeiro idioma o árabe e 97% confessam o islamismo sunita.
A Líbia ocupa o 53º posto no ranking de IDH (2010), entre o Uruguai (51º) e o México (56º), melhor que o Brasil (73º), e muito à frente da Tunísia (84º) e o Egito (105º). Sua receita vem das reservas de petróleo no deserto. A Líbia responde pela 17ª produção mundial (2008), um pouco menos que Iraque, Brasil e Venezuela. Muito, levando em conta a pequena população para distribuir os dividendos.
Desde 1969, vige na Líbia um estado socialista. Depois de um dos mais insólitos golpes de estado da história, o então capitão Muammar al-Gaddafi, com apenas 27 anos, assumiu o poder. Extinguiu a monarquia, instituiu comitês municipais e o Congresso Geral do Povo, expurgou o fundamentalismo islâmico, fez reformas de base, comandou o desenvolvimento de um país que, até então, era uma colcha de elementos tribais e coloniais. Na Líbia popular-socialista, os trabalhadores são chamados de “parceiros” do estado, e não funcionários.
Gaddafi sintetizou a sua doutrina, uma mistura de democracia direta, igualitarismo e economia planejada, no Livro Verde. Espécie de manual de uso para a política líbia, foi publicado em 1975, 11 anos depois do mais célebre Pequeno Livro Vermelho, de Mao.
O organismo estatal de comitês e assembléias converge, como um funil, na liderança carismática de Gaddafi. Um autocrata nos moldes clássicos: sábio, paternal, soberano, que espalha cartazes gigantes nas ruas planas e seus edifícios com terraços ajardinados. Outorgando a dogmática do Livro Verde e manejando o mito do inimigo externo (“o imperialismo”), o regime bloqueou a formação de grupos opositores, sustando qualquer canal para o dissenso.
Com a repressão, e diferentemente do Egito e da Tunísia, não se organizaram movimentos de matiz religioso. Tampouco grupos de esquerda, haja vista que o próprio estado monopoliza esse espectro ideológico. A dialética foi usada, portanto, para sedimentar o monólogo do poder: ou se é socialista junto do regime, ou se é pró-americano e pró-Israel, logo, inimigo do povo.
Na política externa, Gaddafi construiu a reputação com um virulento discurso antiamericano e pró-Palestina. Alinhou-se ao socialismo real da URSS e aos aiatolás do Irã. Patrocinou o IRA, o ETA e a Fatah de Abu Nidal, pródiga em atentados aeronáuticos. Gaddafi apoiou Abu Nidal, na linha da rejeição da existência do estado de Israel. Apoiou-o também a título de “retaliação”, ante os bombardeios norte-americanos a Trípoli e Benghazi, determinados por Ronald Reagan, em 1986 (bombas atingiram sua casa, matando a filha do ditador, de 15 meses).
Nas últimas décadas, as mudanças no modo de produção capitalista diminuíram os lucros da indústria do petróleo, relativamente à geração global de riquezas. A incapacidade de multiplicar novas dinâmicas produtivas e disseminar renda moldou uma geração inteira de jovens precarizados. Hoje, 50% da população têm menos de 25 anos e a desocupação produtiva da juventude é vasta. Assim, por um lado, a renda per capita líbia está na 56ª posição no mundo; e por outro, 30% de sua população vivem abaixo da “linha da pobreza”, segundo a ONU. Agrava a situação a desigualdade regional no eixo oeste-leste. Enquanto Trípoli aglutina a elite econômica, ligada à família de Gaddafi e ao creme da burocracia estatal, em Benghazi se amplia um bolsão de pobreza.
A nova conjuntura forçou Gaddafi a mudar de estratégia. Nos últimos 10 anos, deixou de ser o cachorro louco para assumir o status de pop star. Espalhafatoso e anedótico, encheu-se de grifes e faz-se rodear por beldades: o protótipo do “ditador pós-moderno”. É sintomática a sua intimidade com o premiê italiano Silvio Berlusconi.
Na década de 2000, Gaddafi fez as pazes com a Europa e os EUA, anunciou a desistência de fabricar armas nucleares, expulsou os militantes ligados a Abu Nidal, indenizou as vítimas dos atentados da Fatah na década de 1980, recebeu a visita de Condelezza Rice, aderiu ao slogan da “guerra ao terror”, discursou na ONU, pôs o filho Saif al-Gaddafi pra estudar filosofia política em Londres, onde obteve seu doutorado, e personificou nele um projeto de abertura política (que, todavia, nunca foi além da promessa).
Tudo isso rendeu ao ditador a admissão no club imperial. Caíram as sanções da ONU. Grandes empresas passaram a operar em solo líbio, inclusive multinacionais com sede no Brasil: Petrobrás, Odebrecht, Queiroz Galvão, Andrade Gutierrez. Agora, todas pagam caro pela aposta num regime antidemocrático.
Gaddafi tornou-se mais um representante do socialismo do século 21. Déspota ilustrado que, se por um lado fazia o jogo do neoliberalismo, por outro reforçava o eixo “contra-hegemônico”, junto de Irã, Venezuela, Cuba e, com alguma licença poética, o Brasil (cuja política externa sumamente ambígua aproveitou ao máximo as tensões para fazer bons negócios e abrir caminho às empresas nativas).
Mas então veio 2011, ano da revolução árabe, e os líbios se contagiaram do ímpeto de mudança. Começando pelos pobres mais excluídos do leste, com foco na cidade de Benghazi, em duas semanas o tumulto se alastrou por todo o país, reunindo tribos tuaregues, jovens precários, pequenos grupos religiosos, trabalhadores e desempregados.
O estado líbio tenta, desesperadamente, interromper as redes e mídias que precipitaram a revolução. Derrubou a internet e a telefonia celular, proibiu a cobertura pela imprensa, embaralhou eletronicamente os sinais de transmissão. Nada disso surtiu efeito, e o tumulto só se aprofundou nos últimos dias.
Defrontado com uma nova verdade, de que o Livro Verde nada fala, o ditador mostrou a face mais antidemocrática. O discurso socialista unitário expôs a sua crueza: uma ditadura burocrática, um capitalismo de estado, um consenso fechado e autoritário, surdo à autoorganização popular e às demandas por trabalho livre e partilha da renda.
No Egito, no auge dos protestos, o exército não interveio, escusando-se que não poderia investir contra o próprio povo. Na república “popular” da Líbia, distintamente, esse discurso é impossível, porque o povo é o estado. Nessa operação paradoxal, uma multidão revoltada se torna inimiga do povo. Logo, as forças armadas devem reprimi-la com todos os meios.
Como Gaddafi reage?
Impõe a paz cartaginesa, ultima ratio do estado. Usa os petrodólares para contratar mercenários do Níger, do Sudão, da Serra Leoa, e monta grupos de extermínio. Daí a ordem dos bombardeios contra civis em Benghazi. A história dá voltas: eis atavismo dos bombardeios ordenados por Reagan em 1986, contra Trípoli. Recapitula ainda a repressão fascista contra líbios pelo marechal-do-ar e governador colonial Ítalo Balbo, na década de 1930. A Itália de Mussolini também usava a força aérea para conter o movimento de resistência popular (dica: o filme O Leão do Deserto, de 1981 , sobre a guerrilha anticolonial líbia, com Anthony Quinn no papel de Omar Mukhtar).
Enquanto isso, o filho e sucessor Saif Gaddafi, supostamente responsável pela Glasnost, aparece na televisão estatal em tom de confrontação irrestrita e sacrificial, “até o último homem”. Estudou em centros acadêmicos de excelência para vociferar discursos à maneira de Hitler? A transmissão do pronunciamento foi recepcionada às sapatadas, enquanto monumentos do Livro Verde eram despedaçados pela fúria dos insurgentes.
Como muitos servidores, civis ou fardados, simplesmente não compram esse discurso simplório do poder, a deserção vem em massa. Embaixadores demitem-se, guardas de fronteira abandonam os postos, unidades militares amotinam-se, pilotos desertam levando consigo as aeronaves. O sistema colapsa.
Os acontecimentos na Líbia mostram como a revolução árabe corre em diagonal pela dicotomia imperialismo x anti-imperialismo. Por mais que a ditadura tenha se aproximado da ordem imperial, ainda era pedra no sapato do establishment. Não deixou de ser considerado um garoto-problema, no nível de Ahmadinejad e Chávez.
Se as revoltas embutissem um nacionalismo pan-árabe, antiamericano ou antissemita, não faria sentido derrubar o último herdeiro do nasserismo, propugnador de um estado forte para lutar contra a opressão imperialista. Pelo menos, não antes de varrer a monarquia absolutista saudita, até agora incólume face à onda revolucionária.
O contágio tão premente da Líbia, terceira ditadura escorraçada pelos cabelos, mostra que suas causas vão muito além da dualidade capitalismo x socialismo, mercado x estado. As “ditaduras de mercado” foram demolidas tanto quanto a “ditadura de estado”. Em ambos os casos, uns poucos beneficiados exploravam os muitos, na mesma medida em que a participação política era sistematicamente bloqueada. O essencial, o mecanismo de exclusão, a desmobilização política, funcionava de um jeito ou de outro.
Com a revolução, outra vez o dique se rompeu e o medo mudou de lado, extravasando um novo mundo, desejante de compartilhamento e produtividade. A proliferação de afetos e desejos é intensiva. Ou seja, efetua-se não apenas por contiguidade (juntar-se a certo discurso ou grupo preexistentes), mas numa mutação interna de percepção, numa dinâmica de autovalorização (criar a sua verdade, formar o seu grupo).
A força da revolução também está em sua imprevisibilidade. Dinâmicas intensivas podem produzir novos focos em lugares distantes. Regimes até pouco tempo firmes como rocha ruíram como castelos de cartas. O ímpeto multitudinário ameaça contagiar países antidemocráticos do norte ao sul da África, do Magreb à Europa Mediterrânea, do Irã teocrático à China socialista.

Publicado em 20 de fevereiro de 2011. Comente

“Pensam vocês que os homens que experimentaram a
benção da liberdade aceitariam, calmamente, 
vê-la arrebatada?” - Toussaint Louverture
Plano de O Encouraçado Potemkin, Sergei Eisenstein, 1925

Há três meses, ninguém poderia imaginar a magnitude da revolução que varre o mundo árabe. Como a lavagem das escadarias do Bonfim, está arrastando ditaduras e suas elites para os livros de história. Imprevisível, doida varrida, a revolução já derrubou os ditadores Ben Ali, na Tunísia, e Hosni Mubarak, no Egito. Tiranos que, até pouco tempo, eram tidos por sólidos como rocha. Neste instante, uma multidão luta com gritos e pedras contra as ditaduras no Bahrein, na Líbia, no Iêmen, na Argélia. Tumultos também afloraram no sul do Iraque pós-ocupação americana, e no Irã teocrático.
A revolução chamejou como faísca na gasolina, e lançou um espectro a assombrar regimes autoritários, do Magreb à China, passando pelos governos xenófobos da Europa, pródigos em reprimir e humilhar os imigrantes. Se o pavor da classe dominante ante a revolução haitiana (1804) condicionou a história do século 19; e ante a revolução russa (1917), a do 20; quem sabe a revolução árabe (2011) não seja o evento fundante das lutas deste século.
No entanto, não faltam analistas de primeira hora, a enquadrar essa revolução sem precedentes nos seus esquemas e teorias de plantão. Em vez de tentar entender a singularidade do movimento, disputam entre si quem será o primeiro a dar-lhe a última palavra.
Por um lado, comentadores mais à direita resmungam que a revolução acabará mal. Sem alternativa organizada, o futuro da revolução estaria nas mãos dos fundamentalistas islâmicos. A Fraternidade Muçulmana, conectada ao Irã e à al-Qaeda, seria a única vanguarda ativa. Portanto, a médio prazo, o único grupo capaz de suceder as ditaduras depostas. Profetizam o retrocesso em direitos humanos e em igualdade de gênero, bem como o fortalecimento do “terrorismo” (sic). Para eles, os muçulmanos não estariam preparados para a democracia e o islamismo teria uma tendência intrínseca e historicamente comprovada ao homem-bomba. E concluem com um falso problema: melhor uma ditadura laica “ocidentalizada”, do que uma teocracia à moda aiatolá.
Por outro lado, analistas de uma esquerda nacional, herdeira do jacobinismo do século 19, igualmente antecipam o fracasso da revolução. Adotam a mesma razão em essência: ausência de vanguarda organizada. Por não haver um partido e um programa de esquerda como fios condutores, os revoltosos não teriam como resistir à contrarrevolução. Sem “mudança estrutural”, as vitórias conquistadas paulatinamente seriam diluídas, e o regime recomporia as suas bases aos bocadinhos. Muda-se tudo para não mudar nada: as novas elites e seus representantes maquiariam reformas, e o sistema de exploração enfim persistiria. O putsch militar no Egito seria sinal desse anticlímax.
Ambos os modos de analisar o tumulto falham. Escapa-lhes o mais importante: a materialidade das lutas em análise. Idealistas, vêm com modelos prontos, em vez de pinçar as relações de força e dinâmicas materiais que aconteceram. Não é que a revolução tenha ocorrido sem organização partidária ou militante coesa. É que ela só poderia ter acontecido assim, tanto que aconteceu. Que dificuldade em atribuir realidade aos acontecimentos como tais!
As pessoas que escrevem de dentro do turbilhão — quer da mídia infiltrada (al-Jazeera, Robert Fisk), quer de árabes engajados na luta (como o sociólogo Mohamed Bamyeh) — concordam que essa revolução se fez e se faz um dia após o outro. Ao deparar-se com desafios e ameaças, encara-as a sua maneira, sem receitas do que fazer, livros messiânicos ou diretivas de comitês centrais. Não houve complô de seitas iluminadas, fundamentalistas ou socialistas — e foi isso que asssegurou a potência do acontecimento.
Ora, com que peripécia os analistas podem apontar fraqueza no que, precisamente, tem sido a força da revolução? por vários motivos.
Em primeiro lugar, não acreditam na multidão. Em parte, porque estão cegos à inovação, ao que de singular pulsa no Magreb e Oriente Médio. Não conseguem explicar como os revolucionários se organizam e lutam, o seu corpo político que dispensa ideologia ou bandeira unificada. Confundem formas transversais de organização com anarquia; governo imanente da multidão com desgoverno das massas. Não enxergam que o saber revolucionário circula de boca em boca, alimenta-se da prática concreta, difunde-se nas redes sociais. Uma sabedoria inacabada e imperfeita, mas concreta. Os árabes aprenderam muitas coisas e não à toa, a Praça Tahir, enquanto experiência, se repita noutros lugares (a Praça Pérola, no Bahrein). Porém, isso não cabe no noticiário, monopolizado por comentários sobre efeitos de superfície (geopolítica), com honrosas exceções (TV al-Jazeera).
Em segundo, supervalorizam o poder. Cacoete de ler os acontecimentos com os olhos dos vencedores, isto é, por meio da História. Assim, examinado sob a espécie do poder, pensam que o exército egípcio “deixou” a revolução acontecer. Quando, na realidade, o exército foi feito refém da multidão. E findou carreado pelo processo constituinte, inclusive amalgamando-se a ele. Se, agora, o alto comando encetar algum 9 Termidor, a Praça Tahir está preparada para ser ocupada uma vez mais e mostrar à evidência quem manda.
Uma revolução impacta o modo de sentir das pessoas. O medo muda de lado e elas passam a perceber a fragilidade do poder. Menos que planos mirabolantes, a revolução é “sopro que abre brechas nos muros”. Basta as pessoas se determinarem a não mais participar, que a panóplia de autoridades e interditos colapsa em questão de dias. Aí as ruas se inundam de revolta e ódio, mas também de carnaval e amor. O porvir se abre, cada dia se torna uma aventura, as pessoas se amam com mais cupidez. Carpe diem político. Essa proliferação de afetos contagia as multidões noutros lugares e noutros tempos, retraduzindo os eventos em sua própria língua — somos todos egípcios!
As formas de organização, o saber-fazer da luta, a sensibilidade revolucionária, nada disso se perde. A História se fecha às lutas, mas não a memória e o sonho. Com efeito, o tumulto revolucionário irrompe da história e mesmo contra ela. A revolução liberta as pessoas da linha histórica, da mesmice, da narrativa do poder. Desata-as de um passado e um futuro pré-definidos de fora, e instala-as como produtoras de seu tempo, um novo tempo.
Haiti 1804, Rússia 1917, Egito 2011: a mesma luta, sempre diferente. Daí o erro dos ranzinzas ao praguejar que, “como das outras vezes”, tudo vai terminar mal. Erram ao retroagir um juízo de valor histórico, que encerra a revolução no passado: traída, malograda, nociva. O erro está em exigir da revolução uma finalidade, um fim da História, quando ela exprime, justamente, a recusa de qualquer limite. Para o historiador das paixões tristes, nada nunca muda. Mas se nada pode acontecer, o palco está entregue à paz dos vencedores, ou seja, ao status quo.
Por tudo isso, o filósofo Gilles Deleuze advertia em não confundir o futuro da revolução com o devir revolucionário. Pouco importa o futuro, pois a verdadeira metamorfose se dá e já se deu. A percepção mudou. Nenhuma revolução genuína discute o futuro, mas sim o recomeço aqui e agora. Quando passa a discutir o futuro, se fecha como constituinte, e cede a vez aos usurpadores que governarão em seu nome.
É preciso ignorar os discursos lamurientos, à direita ou à esquerda, e também os pomposos (wishful thinking), e tentar aprender com os árabes. Apreender a sua face poética, demiúrgica, a sua fagulha raivosa e seu grande amor. Somos privilegiados. Ela potencializa os corpos e encadeia os pensamentos, que surgem espessos do frágil fio do cotidiano. Temos diante de nós uma revolução de verdade.

Publicado em 13 de fevereiro de 2011. Comente

A Dança, segunda versão, Matisse, 1910
A revolução árabe abriu a nova década. O eixo revolucionário começa a migrar da América do Sul, onde tantas mudanças incutiu nos anos 2000, para o mundo árabe. Os tumultos na Tunísia contagiaram as pessoas no Egito, na Argélia, na Jordânia, no Iêmen, em todos países árabes. Esta geração assiste à revolução no seu sentido mais lídimo. A palavra andava em desuso, desde as elegias ao capitalismo, com a queda do socialismo real. Com os acontecimentos de 2011, a revolução foi resgatada dos livros de história, de volta à conversa cotidiana, não mais demodê.
Uma revolução é sempre fresca de vivências e copiosa de elementos criadores. Mas ideólogos se apressaram em deitá-la na sua cama de Procusto, com teorias e sistemas encarquilhados. Trataram de suprimir a singularidade que faz dessa revolução um acontecimento sem precedentes. Pan-islâmica? socialista? fundamentalista? liberal-constitucionalista? nada disso.
As tentativas de classificação são muitas e todas erram em perder de vista o essencial. O que essa revolução tem de único: no que ela recombina todas as outras, e faz irromper o absolutamente novo. Não a classificaria nem como assembleísmo, espontaneísmo ou democracia direta. Ora, mais modesto que isso, quero aprender o que os árabes inventaram. Quero descobrir o que nem nome tem, muito além de socialismo ou capitalismo — esse falso problema da geração passada. Nem um nem outro. É inclassificável.
Por sua vez, a grande imprensa repercute o império, numa cobertura falsária, a-histórica, desinformativa. Como o império, maneja dicotomias malandras: ditadura laica x teocracia, transição ordeira (mediada pelos EUA) x caos destrutivo. O engodo opera menos ao vender soluções erradas, do que em colocar falsos problemas. Estes sequer passaram pela cabeça dos revolucionários.
Bastam 30 minutos de assistência à Al-Jazeera para perceber o fundo do poço em que se encontra a TV brasileira e seus jornalistas ignorantes, totalmente dominados pelos falsos problemas. Na realidade o jornalismo tradicional entrou em extinção, neste tempo da comunicação pós-jornais.
Finge-se agora se tratar somente de uma luta contra um ditador octagenário. Assim genérica, uma dialética personificada no tirano. Grosseira simplificação. A revolução não se resume a “mera” luta contra um ditador, mas exprime o apoderamento do destino por uma geração esquecida, atrás de renda, liberdade, cidadania. Como se um regime não fosse a conjunção de diversas e sutis causas e efeitos, — que, todavia, os árabes conhecem muito bem, porque é a vida deles. Mas o império precisa desarticular o discurso revolucionário, desacoplando-o das práticas tão perigosas.
A revolução demonstra cabalmente quão frágil é a ordem estatal e capitalista. Toda a simbologia e liturgia do poder desmorona em questão de dias, quando as pessoas desistem de participar dela. O poder constituído manipula o medo e vende a esperança, mas chega a hora em que as pessoas desesperam e a coragem cospe no medo. Desesperar-se acaba por levar à substituição do medo pela revolta, da espera pela ação, da moral comportada pela ética da democracia, da crença no futuro pelo tempo do agora. O medo muda então de lado, eis a revolução, e o sistema colapsa. A vaca se remexe, as moscas fogem. O poder soberano em toda parte compreende, assustado, o sentido real da potência da multidão. Não por acaso, se precipitam em concessões, em negociar a docilidade e clamar pela complacência.
A revolução significa romper diques. Para lucrar e acumular, o capitalismo precisa represar desejos e frustrar amores. Tais impulsos recalcados tumultuam as consciências e não poderão ser sublimados perpetuamente. Uma hora explode e não pára mais, indo além dos limites. A revolta encontra medida em seu próprio seio e recusa quaisquer apelos ao bom tom e à prudência.
É preciso recusar a tese de que o exército egípcio refreou impulsos mais destrutivos. Primeiro, porque o exército não passa de efeito de superfície. Dentro dele correm inúmeras divisões e conflitos, cada qual com seu corpo de relações sociais, políticas e econômicas. Segundo, porque no Egito o exército foi refém da multidão. Agiu quando e onde a multidão lhe permitiu e exigiu agir. Se evitou deturpações de alguns, foi mais como resposta à ética imanente aos revoltados, porque do contrário simplesmente não conseguiria. O exército esteve a serviço da revolta menos por condescendência ou simpatia, que por ser carreado por um turbilhão invencível, do qual não teve opção senão tomar parte.
A revolução árabe também é balde de água fria na esquerda apocalíptica. Passaram as últimas duas décadas lamuriando a derrota, num decadentismo barroco. Todas as formas de revolta estariam capturadas. O capitalismo teria irremediavelmente fechado as portas da lei. Nada restaria à esquerda senão refugiar-se em coleções sobre o estado de exceção tornado a regra, à espera de algum evento messiânico. Quando a utopia pressupõe a espera, levanta as mãos para os céus e não contra os inimigos. Tristes criaturas e tristes paixões, em contraste acintoso à alegria e ao carnaval das ruas de Túnis ou Cairo. As ruas não anunciam verdades a um futuro longínquo, mas se povoam de potências e modos de sentir— aqui e agora.
A revolução árabe também frustra outra esquerda. Militarizada em minúsculos partidos, julga-se encarregada de anunciar a boa-nova e guiar as massas ao reino da justiça. Tem fé num programa esquemático, e atuam para realizá-lo de modo maçônico, por meio de complôs e segredos. Dividem a sociedade em fiéis e pecadores, iluminados e iludidos, os últimos suscetíveis de conversão por panfletos, almanaques e cursos de domingo. Arrogante vontade pedagógica! ineficaz crença que a materialidade das lutas pudesse ser substituída por diagramas e esquemas.
A verdade das lutas se faz na premência do choque de forças. Porque só a luta ensina. Jamais faltou vanguarda em todos esses dias. Se se impõem iluminados pra guiar a massa, na mesma hora as pessoas iriam para casa. Praça Tahir foi o melhor curso intensivo revolucionário do planeta. Decerto mais rico do que cem livros vermelhos ou mil aulas universitárias. O fetiche da vanguarda enfraquece o movimento, ao dissociar meios e fins e lhe usurpar ímpeto e energia.
A revolução árabe tampouco pode ser chamada de anárquica. Pulsam formas de organização e se estabeleceu certa lógica da mobilização. Porém, isso se construiu no dia-a-dia, nas ruas e praças, nos entrechoques e escaramuças, nas incursões e evasões. A lógica não veio de cima, de um plano pronto: foi-lhe imanente. Organiza-se como um enxame: de todas as direções, sem centro ou hierarquia, onde circula um saber prático, fluido, retroalimentado.
A grande mídia e os ideólogos da soberania estão confusos e amedrontados. Disfarçam o incômodo, mudando de assunto: geopolítica e implicações econômicas. Temem o aprendizado dos ativistas pelo globo. Temem que aprendam a essência-potência dessas lutas, que consiste no como exprimir, articular, mobilizar, propagar. Não posso falar quase nada sobre esse como, pois não vivenciei a revolução nos seus dias e noites de sangue e pedras. Mas sei que aprendê-lo será o desafio daqui pra frente. Ousar saber e saber ousar, na expressão de um filósofo italiano.
A revolução não é só tunisiana, egípcia ou árabe, mas de todos os jovens e pobres e desejantes. Luta que é local no embate concreto de forças, mas global na proliferação intensiva de afetos e desejos. Flui pela rede mundial e deflagra novos focos pelo planeta. Já não é mais demasiado otimismo crer que pegue na Europa de tantos milhões de imigrantes e precários. A história se faz a olhos vivos e inspira uma geração nascida sob o signo da apatia e a descrença.
Publicado em 12 de fevereiro de 2011. Comente

Cairo, 28 de janeiro de 2011.

A multidão apanha, apanha, apanha, mas chega uma hora em que aprende coisas novas, incorpora as táticas da polícia e retribui com mais inteligência (coletiva). Isso sem comando ou hierarquia, tudo na imanência do enxame, na circulação retroalimentada de saberes, no tatear doloroso em busca de pontos fracos e brechas. Os rebeldes conquistam um “caveirão” e usam-no contra a polícia. Reparem como marcham cobertos pelo veículo. Logo atrás, deslizam rolo esmagador, uma tática usada por Spartacus contra as legiões romanas, em 72 a.C., durante a Terceira Guerra dos Escravos (os rolos eram oleados e incendiados). Também se notam táticas de desobediência civil dos anos 1960, que tem alguma eficácia contra armas não-letais. O ímpeto dos revoltados nitidamente superior ao dos policiais, que acabam cedendo a posição.

Amanhã, reflexões e apontamentos do blogue sobre a revolução árabe de 2011.