Arquivo para ‘Racismo’
Publicado em 10 de maio de 2011. Comente


Doze homens e uma sentença, Sidney Lumet, 1957

O racismo e o machismo e a homofobia não estão apenas na cabeça das pessoas. São forças que estruturam as relações sociais. Uma democracia não depende apenas dos direitos em si, mas das condições materiais de exercício dos direitos. A discriminação incide nessas condições tão prementes e vívidas. Embora negros e mulheres tenham os mesmos direitos, não desfrutam das mesmas situações concretas, possibilidades e oportunidades. Daí findam marginalizados. Na democracia de fachada, alguns são mais iguais do que outros.

Não é suficiente combater o preconceito somente coibindo-o nos indivíduos. Seria tentar salvar o paciente matando a cobra, mas não o veneno inoculado. É preciso desarmar as condições materiais, o apartheid com fundo histórico-social ou político-econômico. Por isso, tão fundamentais as ações afirmativas, que atacam as causas e não meramente os efeitos de superfície. Por isso também, a pouca efetividade de intensificar medidas punitivas, cujo maior rendimento tem sido conferir palanque aos  vingadores de plantão, sem encostar o dedo na materialidade social dos preconceitos.

Tem-se que ir além do chavão que a liberdade de um termina onde começa a do outro. Com esse raciocínio puramente formal, então a liberdade da minoria termina rapidinho, ao chocar-se com a imensa liberdade material da maioria:

Sua liberdade termina onde começa a minha… opa, já acabou!

Minoria não se trata de um conceito quantitativo, mas qualitativo. O homem branco rico diplomado do Sul/Sudeste é majoritário, mesmo que numericamente não perfaça 5% da população. É o WASP brasileiro, o protagonista dos comerciais televisivos, o profissional modelo, o bom partido, o marido ideal. É aí que se insere a discussão sobre movimentos sociais identitários. O movimento identitário, como o nome sugere, pauta-se pela afirmação ferrenha de sua identidade, isto é, tenta lutar para também ser majoritário. Nisso, ele é dialético no mau sentido, porque se define pelo que nega e, por isso, entra no jogo do inimigo, ao espelhar suas demandas nele. Apesar de alguns considerarem os identitários “muito radicais”; na verdade são bem menos radicais do que movimentos que valorizam exatamente o que têm de minoritário. Em vez de competir invejosamente com a força majoritária, procuram constituir um outro mundo em que essa distinção opressiva não faz mais sentido, desarticulando a própria lógica majoritária.

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Por que alguém, que não é racista ou machista ou homófobo, acha graça numa brincadeira preconceituosa? Justamente porque mexe com a parte conservadora e proto-fascista de nosso imaginário. Ou se preferir, com determinada produção de subjetividade, induzida pelo poder-saber dominante. É o momento que essas forças reativas, — contra as quais lutamos dentro de nós mesmos, — são excitadas a manifestar-se. A hora da verdade acontece nas crises: quando somos abalroados por uma mulher ao volante, quando perdemos uma vaga na universidade para um negro com menor nota, quando a nossa namorada nos troca por outra mulher. Justamente aí, quando somos interpelados nesse nível profundo, põe-se à prova a nossa determinação em não sermos fascistas.

No fundo, não se é moralista ao reprovar uma piada racista ou um comentário machista. Muitos tacham essa reprovação como patrulhamento, politicamente correto ou moralista. Por um lado, a crítica da crítica pode servir para questionar o movimento identitário, que amiúde se julga intocável, como agudamente escreveu Moysés Pinto Neto no Ingovernável. Mas por outro, muitas vezes não passa de reedição surrada do argumento da igualdade formal, das “liberdades”:

Todos têm os mesmos direitos: do mesmo modo que faço piadas de loiras e pretos e judeus, eles podem me sacanear por ser branquelo… não sejamos tão chatos e moralistas, piada é pra rir, né!

Sim, ria. Só não se engane, esse riso que é moralista e politicamente correto, não o inverso, a minha crítica dele como manifestação de uma força majoritária na sociedade. Reclamar de piadas contra negros e mulheres e gays não pode ser moralista, uma vez que a moral hegemônica no Brasil está saturada desses mesmos preconceitos.

A bem da verdade, politicamente correto não é quem reprova piada machista; mas o machismo ele mesmo, que é o correto histórico-político, o majoritário nesta sociedade desigual. Imoral sou eu que desafio um arranjo dominante, ainda que recalcado e espertamente negado. E não admira os “imoralistas” passem corretivos contra quem luta por um outro mundo, contra quem não admita reforçar uma desigualdade tão violenta e injusta, mesmo (e sobretudo) sob a forma “cordial” do humor.

Publicado em 11 de abril de 2011. Comente

No começo do ano, escrevi sobre como a cobertura da grande imprensa em horas de comoção costuma ser pusilânime. Reproduz a morte à exaustão, explora a comiseração humana, estimula a cultura do medo. Tudo para fortalecer a agenda de segurança pública: mais vigilância, mais controle, mais punição. Se o luto consiste na esconjuração do que o morto tem de morto, para fazer valer a sua potência de vida, no (eterno) retorno do diferente que persevera em viver; a mídia da impotência fecha o zoom e pergunta aos entrevistados: e agora, como sobreviver na falta, como conviver com a morte? O jornalismo brasileiro agonizou de vez. Cada vez mais se impõe o desejo por um mundo pós-jornais que nos livre desse horror editorial.
Enquanto isso, na surrada narrativa cristã da Queda, fala-se em falência de valores. Como se o Brasil não fosse, desde o ovo, um país profundamente desigual, semicolonial, escravagista, ultraviolento, cuja cordialidade não passa de hipocrisia letrada, da condescendência humanistóide cevada nas mais chiques vernissages de seus salões acadêmicos.
Nunca houve impunidade por aqui, mas excesso de punição. Quem crê no sistema penal para mitigar mazelas sociais desconhece a via dolorosa que vai da ação policial às prisões, passando por autuações, inquéritos, varas criminais, tribunais de justiça, recursos, varas de execução etc. Em suma, pelos mil filtros e desvios e atalhos que tornam o sistema penal uma máquina de triturar pobres e negros. Sem qualquer serventia para uma pauta de esquerda, senão uma idealista, pois está idealizando o poder punitivo. A bem da verdade, dar vivas a um estado mais forte e repressor, sob qualquer pretexto imaginável, não tem como configurar uma posição emancipadora.
Sobrou até para a internet, novamente achincalhada pela velha mídia, desesperada ante a audiência perdida para a cauda longa de sites, blogues e redes sociais. Videogames? Que graça… a periferia do Rio já vive num regime de brutalidade permanente, direta e difusa. Nenhum morador do subúrbio carioca precisa jogar Counterstrike para vivenciar ao vivo e em cores a guerra. Sim, mais um caso em que negro pobre chacina negros e pobres, ou melhor, negras. Este crime tem cor e sexo. Vale lembrar como, no homicídio passional, a mulher geralmente morre (marido traído mata esposa e esposa traída, a amante).
Wellington é um cidadão como eu e você que, submetido a circunstâncias extremas por um longo período, acabou cometendo um ato extremo. Wellington nunca será santo nem demônio: um personagem demasiado real, tomado de dramas e carências, encharcado do fel da sociedade. Esquizofrenia não causa assassinato por si mesma. Nem todos levam na boa uma vida de opressão sistemática, vinda de todos os lados, sem rota de fuga.
Menos Febrônio Índio do Brasil ou Pièrre Rivière, mais para Seung-Hui Cho, jovem aliás da mesma idade de Wellington. Em 2007, matou 32 pessoas num instituto tecnológico americano, nos mesmos moldes do massacre em Realengo. Era um imigrante coreano num país atravessado por racismo, que reclamava ser tratado como bicho pelos colegas, — abandonado a tratamentos inúteis por psiquiatras aborrecidos, vagamente interessados no paciente.
Na última década, a ascensão social e racial dos brasileiros acentuou a cultura do preconceito contra o diferente. No momento que pobres e minorias empoderam-se, que se formam mil classes-médias, a postura da reação torna-se mais agressiva, despudorada e odiosa. Ódio contra pobres, mulheres, negros, indígenas, minorias LGBT. Agrava-se um contexto de preconceito e repulsa que alimenta a criançada, — fascista menos por natureza do que por copiar acriticamente a atitude de adultos, por absorver a violência disseminada nas frinchas do nosso sistema político.
Daí a gravidade de discursos inflamados de políticos como Bolsonaro e de religiosos fanáticos (inclusive parlamentares). Por sinal, mesmo sem desejá-lo, o “único deputado de direita do Brasil” serviu de grande referência da pequena, porém sintomática manifestação fascista e neonazista ontem, na Avenida Paulista — tão famosa ultimamente por seus atentados homofóbicos na madrugada.
Esse fenômeno também aparece de modo mais “cordial”, no almoço de domingo ou na roda do bar, quando, diante dos jovens, se discriminam pessoas diferentes, se contam piadas racistas ou contra nordestinos, se fazem comentários machistas, se propagam ideais punitivos e vingativos.
Inadvertidamente ou nem tanto, banhamos os nossos adolescentes nas águas podres do que de pior temos em nós, de preconceito, de medo, de bullying, de sectarismo, de incompreensão, de completa ausência de generosidade e mesmo de desprezo pela alteridade. Quanta burrice, agora querer levantar mais muros, espalhar mais câmeras, colocar mais guardas, punir com mais violência!
O resultado a olhos vivos é isso aí: doze crianças mortas. Não deveria surpreender tanto. Torço para que o espetáculo ao redor do caso não abra a caixa de Pandora, inspirando ações semelhantes no futuro. Desta vez, pelo menos, Wellington sequer deu o gostinho para alguém sair bradando pela “pena de morte contra vagabundo”.
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Textos recomendados:

Alô, alô, Realengo“, por José Ribamar Freire, no Blog do Picica
A Columbine brasileira e o nosso mito da tolerância“, por Raphael Douglas, no Amálgama
Esquizofrenia não é caso de polícia“, do Blog do Rovai 
A tragédia no Rio“, do Descurvo
 E se você está muito abalado, o excelentemente bem escrito texto antidepressivo de Alex Castro em Dez Anos.
A imagem no topo do artigo é do filme Caché, de Michael Haneke, 2005.

Publicado em 22 de fevereiro de 2011. Comente

Reinações de Narizinho e Caçadas de Pedrinho li na terceira série do primeiro grau, por obrigação escolar.

Não me recordo de nenhuma contextualização específica, por se tratar de uma obra impregnada de preconceito racial. Não me recordo, aliás, da parte de nenhum professor que tive, contextualizar qualquer livro ou filme em termos raciais. E mais: o tema “racismo” não me lembro de ter sido abordado durante todo o ensino fundamental e médio. Talvez incidentalmente em algum livro, como passado histórico, porém não na sala de aula.
Anos mais tarde, me disseram que em Caçadas tinha racismo. Intrigado, voltei aos textos e encontrei várias ocorrências cabais. Li e reli os trechos. Cabais. Não me parecia plausível que não tivesse percebido a primeira vez, aos nove anos!
Levei um tempo pra aceitar, porque isso significava menos que Lobato era racista, mas que eu mesmo, e o meu meio social, éramos racistas até o osso, a ponto de o racismo ter se tornado invisível, de tão naturalizado.
Um bom professor não pode deixar de contextualizar. Expor o racismo não para condenar o escritor paulista (dane-se a memória do defunto), mas para expor o racismo da sociedade, isto é, o nosso.
Se, por acaso, um aluno de nove anos achar esse cuidado óbvio, desnecessário, paternalismo, ela mesma já tinha percebido tudo, ótimo. Talvez essa criança autodidata nem precisasse assistir a essas aulas.
Mas se houver uma única criança que aprender algo a partir dessa contextualização (e do debate subseqüente), isso valerá mais como educação à democracia do que todas as questões e valores da obra inteira de Monteiro Lobato.

Publicado em 15 de fevereiro de 2011. Comente

O leitor considere esta uma crítica interna. Sou ateu hormonal. Tem gente que nasce gay. Eu nasci ateu. Nunca sequer cogitei a possibilidade de Deus existir. Nem imagino com que artimanha a fé se instale e funcione na cabeça dos teístas. Quando menino, as tentativas de converter-me no máximo tiravam risinhos e olhares de galhofa. O ateísmo púbere me levava a contestar colegas, familiares, professores. Arrogante, adorava me exibir com as razões prêt-à-porter contra a existência de Deus.
O Velho Testamento li com fervor. Despertava-me impulsos sádicos o protagonista fascínora e suas suculentas histórias de destruição, poligamia e assassinato em massa. Se um dia Quentin Tarantino adaptá-lo para o cinema, sugiro desde já Jack Nicholson para Deus. É o único ator capaz de fazer a gente gostar de um vilão tão depravado. E, se o Novo Testamento pinga menos sangue, vibrei na versão de Mateus, quando o messias anuncia que não veio trazer a paz e a harmonia, mas a espada e o conflito.
Com o tempo, aprendi a controlar os impulsos. Ainda assim, de tempos em tempos, algo lá no fundo borbulha e sofro de surtos ateístas. Desenvolvi uma estratégia. Aproveito-os chafurdando na ontologia. Com ela, aprendi a desenterrar a transcendência de seus inúmeros esconderijos — profundos ou prosaicos.
Portanto, sou ateu e muito ateu. Sou mais ateu que todos vocês juntos. Mas não compro a causa do ateísmo, em si mesma.
O ateísmo lembra a ecologia. Amiúde se apresenta como movimento político, mas não diz muita coisa na prática. Pode ser de direita ou de esquerda, conservador ou libertário, racista ou pró-minorias, cientificista ou espiritualista. Como o discurso verde, os gumes podem ser usados para libertar ou para oprimir.
Como se, na urgência das lutas, houvesse tempo e paciência infinitos para debater a metafísica do divino. Imagine se, pra começo de conversa, em cada tema tivermos de dissuadir as pessoas de sua fé, em vez de partir para o que interessa: aborto, casamento livre, direito penal, exploração do trabalho, drogas, racismo etc. Conquistar direitos importa mais, do ponto de vista político, do que tentar livrá-las do que lhes é tão íntimo.
Não critico o ateísmo militante por ser militante, mas por ser ateísmo. Como militância, funciona ao menos para deslanchar a pessoa na dialética pública, na advocacia política, nas técnicas de organização. Só a luta ensina. Afinal, numa geração de zumbis, como não incentivar o ativismo enquanto tal? tem gente que se inicia no ateísmo, outros no grêmio do ensino médio, outros no PSOL. É válido.
Tampouco sou daqueles chatos a clamar pelo “ateísmo saudável”. Ramerrame da moderação. Assim pretendem apagar o brilho luciferiano dos olhos ateus, calar o seu ódio, podar a sua revolta. O caso não é apaziguar o ateu, mas potencializar esse elã de modo eficaz. Trabalhar o excesso ao invés de negá-lo. Pois não se represam hormônios para zerá-los, mas sim para liberá-los no momento certo, na ocasião certa, com as pessoas certas.
Intrigante, por outro lado, a aparição de grupos de defesa dos direitos do ateu. Como se os ateus fossem uma minoria perseguida. Sim, tem gente que não confia em ateus. Mas, pelo fato de ser ateu, alguém: a) foi espancado ao passear pela Avenida Paulista?, b) teve a porta de seu dormitório estudantil queimada?, c) foi barrado de entrar em shopping?, d) apanhou em casa do cônjuge embriagado?, e) foi “confundido” pela polícia? por acaso, alguma vez alguém olhou feio pra você na rua, por ser ateu?
Chega a ser insulto, no Brasil, os ateus nos acharmos oprimidos. O máximo que vai acontecer é não ser votado. Será mesmo? Dos últimos três presidentes (contando a atual), dois são ateus. Claro, tem que ter malandragem na campanha. Se não tem, então por que se candidatou em primeiro lugar? Iria perder de qualquer forma.
Ademais, a militância atéia se mostra enviesada quando se depara com as polêmicas da vida real. Quando se discutem direitos, o ateu reacionário adora chamar os outros à ordem. Conclamar pela unidade do movimento, supostamente ameaçado de divisão por questões esotéricas. Lembrar do verdadeiro motivo da militância: a luta contra a ignorância do mundo. Pinta aquela palavra sectária: “divisionismo”.
Nesse sentido, recentemente um site mantido por “céticos” chegou a tripudiar de um outro por “vir se tornando um blog GLS” (!). Nome aos bois: a Central Ceticismo falando do Bule Voador. Justamente do melhor site do gênero. Em vez de ateísmo desbundado, o Bule Voador foca questões concretas, defende pautas de esquerda e se articula como movimento político. Basta conferir lá artigos de Eli Vieira, Rayssa Gon ou Eduardo Patriota, um contraexemplo ao que escrevi.
Então qual é o ponto?
Meus hormônios podem não concordar, mas a ideia de Deus não é incompatível com a democracia e a liberdade. No fundo, o problema não é a fé, mas a apropriação política do medo e da esperança. Menos a religião do que as pretensões políticas de salvadores, profetas e igrejas. O problema não é a relação pessoal com a divindade, mas a inscrição dela em regimes dogmáticos de autoridade e obediência.
A militância atéia enfrenta um falso problema.
Publicado originalmente no Amálgama, em 14 de fevereiro.
Publicado em 27 de novembro de 2010. Comente

Ontem, eu estava num barzinho depois do expediente, quando vi pela primeira vez a filmagem da fuga desabalada de moradores do morro, que corriam por uma estradinha de terra batida entre duas favelas aqui do Rio. Tentavam escapar da favela Vila Cruzeiro, que estava sendo invadida pelas forças do estado. Durante a correria,  davam pra ver várias pessoas sendo alvejadas por policiais de tocaia na mata (ou em helicópteros). E ninguém ajudava, elas ficavam pra trás, desamparadas e agonizantes.
Me pareceu bastante triste, mas as pessoas a meu redor exultavam: “bandido tem mais é que morrer”, “BOPE neles!”, “tem que botar o exército pra acabar com esses vagabundos”. Nem no atentado de 11 de setembro nos EUA, presenciei tamnho deleite da maioria diante de cenas de execução. Os espectadores chegavam a salivar. Reviravam os olhinhos. Uma catarse. 
Natural que crises assim provoquem um clima de euforia pela cidade. Admito que parte de mim também se empolga em tempos de comoção. Afinal, arranca-nos da rotina e confere vibração à existência. Porém, não dá pra engolir a execução sumária televisionada ao vivo e em cores e aplaudida como se fosse uma cena do filme Tropa de Elite.
Eu sei que pedir um olhar crítico da televisão brasileira seria sonhar alto demais. Mas irritam os programas sequer informarem sobre o que está acontecendo. Tipo, pelo menos descrever os fatos. Limitam-se a exibir as cenas sob manchetes inflamadas, com direito a rostos consternados de âncoras e repórteres. A situação fica posta nos termos maniqueístas mais ignorantes, como se fosse uma guerra do bem contra o mal, do estado bonzinho versus os bandidos maus, do cidadão de bem reagindo ao traficante do mal.
O jornalismo brasileiro dos principais veículos tem que acabar.  Prevalece a exaltação à violência do bem contra a barbárie do mal. Repete-se o discurso do medo e da guerra, o fundamento de toda a tirania. Moraliza-se um debate que é político.  Ora, a violência urbana não é causada pela maldade na cabeça de algumas pessoas, mas por fatores sociais, econômicos, históricos, que condicionam as relações de poder e produzem a violência na metrópole.
Esse discurso midiático rasteiro, reproduzido acriticamente por tantos em suas micromídias (rodinhas, tuíter, facebook), pretende unificar a sociedade numa cruzada do bem contra um inimigo comum. Porém acerta gigantes imaginários. Porque não existe nenhuma relação de causa e conseqüência entre a) invadir uma favela e “passar o rodo nos soldados do tráfico”, e b) assegurar a segurança aos cidadãos do asfalto. Não preciso me delongar nisso, porque o Luiz Eduardo Soares escreve bem melhor sobre a violência e o pastiche midiático, em texto de ontem no seu blogue.
No boteco, sem agüentar mais, me senti novamente obrigado a discordar do que todos já tinham se posto em acordo. Se não for pra isso, então não sirvo pra nada.
Como assim, tocaiar as pessoas fugindo? isso não é pra aplaudir, mas pra vaiar… uma coisa é responder fogo com fogo, reagir num tiroteio pra se salvar. Outra é tocaiar um grupo se retirando do campo de batalha em desespero. Os caras não foram mortos, eles foram e-xe-cu-ta-dos. Reparem que os atingidos nem carregavam fuzis. Poderiam nem ser “bandidos”, mas moradores tomados de pânico, diante da invasão dos “caveiras”. O coro reagiu: — Ah, Bruno, nem vem, todo mundo sabe que eram da facção ou pelo menos estão envolvidos de alguma forma.
Ora, poderiam não ser bandidos, não poderiam? em tese, poderiam não ser. E isso basta, a dúvida. Um inocente executado ali não vale a prisão de todos os culpados. Aliás, e se fossem “bandidos”? tem bandido e bandido. Tem o chefão mandante de 50 homicídios e tem o aviãozinho de 14 anos que entrega a trouxinha. E, ainda que, hipoteticamente, sejam todos eles sem exceção assassinos sanguinários zé-pequenos que-nem-no-Tropa-de-Elite? (o que é bem diferente do que estar somente “envolvido de alguma forma”) mesmo assim, não há pena de morte no Brasil. E, mesmo que houvesse, não seria permitida a execução sumária — sem acusação, defesa, julgamento e apelação.
Pergunto: até onde isso não é praxe em operações assim? Invade a favela, mata-se, e depois sai na imprensa que “morreram X moradores da favela supostamente envolvidos com o tráfico”. E ponto final. A única legitimidade do estado para invadir, prender e punir reside em sua invocada superioridade moral, em relação aos criminosos. Por isso, se agentes do estado abusam, sem respeitar garantias básicas, sem seguir o devido processo legal, qualquer que seja o pretexto, deslegitimam-se. Imediatamente. Sem ponderação. E então ouvi o inevitável: que discursinho, Bruno, mas contra o crime organizado não pode ter moleza, aquela galera ali é parte desse jogo.
Discordo. Pra mim, “crime organizado” se constitui de sofisticados grupos multinacionais, com altíssimos lucros, abundantes em conchavos e conexões com os poderosos: na política, na polícia, no sistema financeiro (para lavar o dinheiro). A molecada que toca o varejo  é bucha. Mesmo os “chefões” que ocasionalmente vão presos, são só um pouquinho menos bucha. Ninguém está falando que são pobrezinhos coitados nem que sejam forçados pelas circunstâncias a aderir às facções, por descaminho. Não são. Apesar disso, é preciso admitir que tais adolescentes e jovens são totalmente acessórios e descartáveis, e não são eles que sustentam a economia das drogas ilícitas. Na realidade, essa gente é interceptada pela cadeia produtiva, administrada e comandada pelo verdadeiro “crime organizado”. Fossem eles organizados de verdade, não estariam sendo dizimados pelas milícias, que tendem a monopolizar o mercado. No ritmo atual de expansão, as milícias podem dominar quase o Rio inteiro até os megaeventos de 2014 e 2016.
Pronto, a essa altura, o estabelecimento inteiro me considera um sem-noção irremediável. Mas alguém tenta esclarecer este louco da verdade: — veja bem, agora é guerra, a bandidagem começou, pediu e recebeu, está queimando carros, metralhando postos de polícia, com tudo isso é natural que a sociedade queira uma resposta imediata e os próprios moradores das favelas apóiam as operações.
Primeiro, é tremenda ilusão acreditar em “respostas imediatas” para problemas complexos e profundos. Desconheço questão mais espinhosa, mais pontuada de armadilhas, do que a segurança pública no Rio de Janeiro. No fundo, essas “respostas imediatas” camuflam outra coisa, bem mais preocupante: estado de exceção. Isto significa: a desativação de garantias e direitos, a tolerância de excessos e abusos, de maneira que os atos ilegais do estado não sejam considerados delituosos, que cada agente se sinta livre para aplicar todos os meios disponíveis. É um cheque em branco às operações: fazer o que for preciso pra restabelecer a ordem.
Segundo, não tem guerra coisa alguma. A rigor, guerra implica declaração formal do Presidente da República e autorização do Congresso Nacional, e pressupõe dois lados perfeitamente delineados, com uniformes, bandeiras e tutti quanti. O que se tem hoje no Rio não é sequer “guerra civil”. Não existe exército separatista, nenhuma sedição nas forças armadas, nenhum grupo querendo depor os governantes e instalar um novo regime. A menos que se aceitem vagas classificações: “guerra contra o terror”, “guerra contra as drogas”, “guerra contra o crime” etc. Porém, tudo isso não é propriamente guerra, aliás, é qualquer coisa…
Terceiro, não faço apologia aos grupos de varejo de drogas, e muito menos coloco as minhas fichas “esquerdistas” nos traficantes, como se fossem uma forma de resistência. Uma forma democrática ou progressista. Não e não. As facções ocupam territórios como se fossem feudos, subjugam os moradores, impõem a lei do medo, não vão além de um governo despótico bastante precário e descontrolado.
Meu ponto é que estão fazendo as perguntas errradas. Toda a questão está mal-colocada por causa do imediatismo, do preconceito, do maniqueísmo e da pulsão da morte que a grande imprensa promove — a televisão em especial. Essa percepção oblíqua é uma das principais causas da manutenção do estado das coisas.
Nesse momento, já sem qualquer chance de travar diálogo,  sabendo que falaria doravante para as paredes, fui pra casa e passei a matutar sobre a questão das questões: então, o que fazer?
Primeiro, achar uma pergunta melhor. A pergunta  melhor, acho eu, morador do Rio, deve orientar-se pelas causas materiais dessa mixórdia, em que poder do crime e crime do poder (a expressão é do sociólogo Giuseppe Cocco) estão do mesmo lado da equação e se somam, tendo como resultado o massacre sistemático — e amiúde anônimo — de jovens negros em comunidades pobres, nos morros e na periferia. Pode não haver o xis da questão, _a_ resposta definitiva, mas alguns fatores merecem atenção.
É preciso analisar a economia por trás das ilegalidades. Como o dinheiro e o poder circulam ao redor do comércio de drogas ilícitas. Quem ganha? Quem é beneficiado politicamente? Quem trafica influência? Quem define o que é tolerado e o que não é? 
Existe uma gestão do ilegal que produz lucro e sustenta campanhas eleitorais e confere respaldo político a pessoas no poder, no estado, na mídia. Legalizar, pra essa turma, significaria o fim de um banquete: fim do monopólio comercial, fim do controle sobre a cadeia produtiva, bem como maior fiscalização — logo menos dinheiro e poder. Para o esquemão, é fundamental que as drogas ilícitas mantenham-se um caso de polícia, e de polícia com toda a sua carga de abuso e corrupção. Jamais de saúde pública.
Como efeito colateral, a “guerra ao tráfico” fragmenta ainda mais a cidade. Na cidade sitiada, multiplicam-se muros, grades, portões, câmeras, alarmes. As pessoas se retraem: vão de casa para o trabalho e deste para casa — quando muito freqüentam o shopping, a academia, o clube e outras ilhas de segurança e assepsia. O cidadão é vencido pelo indivíduo. Desmobiliza-se a metrópole como organismo vivo da democracia, nos seus fluxos horizontais de práticas e discursos, no seu amor comum.
Além disso, é preciso compreender a milícia não como alternativa menos imoral e menos bárbara do que as facções tradicionais. Com efeito, a milícia é uma evolução política e econômica, uma forma mais eficiente de gestão das ilegalidades, signo do limiar cada vez mais indistingüível entre estado e crime. A milícia está vencendo porque é uma aplicação eficiente do poder: mais rendimento, menos barulho. Como escreveu Luiz Eduardo Soares: “o modelo do tráfico armado, sustentado em domínio territorial, é atrasado, pesado, anti-econômico.” A carteira de negócios da milícia não se restringe ao comércio de drogas ilegais. Abrange toda a atividade econômica no seu território: o transporte coletivo, a TV a cabo, a venda de “proteção”, as “taxas” de construção, a renda dos camelôs etc. Menos do que salvação da lavoura, como raciocina parte da imprensa, trata-se de um refinamento e aprofundamento do poder do crime (e do crime do poder), em cima da mesma economia de ilegalidades.
Por isso tudo, não existe solução técnica. Não basta pôr tantos policiais na rua, ocupar tantos morros, aplicar maciçamente as forças armadas, tudo isso para prender X jovens-negros-pobres e executar Y jovens-negros-pobres. E não adianta devassar as instituições pra “arrumar a casa”. Como se pudesse desatar o nó górdio eliminando policiais “sujos” e políticos corruptos. Ora, não é funcionando de modo mais “limpo” ou eficiente que o sistema penal passará a defender a sociedade. No Brasil, não há carência, mas exagero de punição. O sistema é assim mesmo. Trata-se das raízes da história brasileira: o poder se constituiu assim, para funcionar desse jeito. A invocação de superioridade moral participa da farsa e serve para legitimar o crime do poder. 
Mas, caramba, o que é o tal sistema, cara-pálida?
Nesta questão particular, é um tripé: 1) a base histórica de desigualdade e racismo que atravessa a sociedade toda, 2) o funcionamento desigual do sistema punitivo (polícia, justiça, prisão), como fiador dessa base, e 3) a criminalização de determinadas substâncias, como motor da economia de ilegalidades, e sua produção de discurso, poder e lucro. 
Em resumo: o problema é falta de democracia. Daí a solução passar, necessariamente, por mais democracia. E isso se realiza com políticas concretas, a incidir sobre causas materiais, com dignóstico da situação real, evitando cair nos vários ardis acima expostos: o espetáculo da mídia, a análise maniqueísta, o discurso do medo e da exceção, a farsa do poder constituído.
Assim, à guisa de maior desenvolvimento, arrisco apresentar três caminhos para o debate e a formulação, que possam impactar, na sua estrutura mais íntima, os processos de violência urbana no Rio de Janeiro, quiçá nas metrópoles terceiromundistas em geral:
1) Políticas de desenvolvimento/urbanização de áreas pobres (ex.: PAC), de geração e distribuição de renda e bens sociais (ex.: Bolsa Família, Projovem, Prouni), conjugadas intimamente com ações afirmativas substantivas (ex.: cotas raciais na educação, nos concursos públicos). Intensificar as políticas em andamento.

2) Democratização do sistema penal, nos seus três setores: quer a polícia (ex.: polícia comunitária, assumindo o modelo das Unidades Pacificadoras – UPP como ponto de partida, a melhorar-se como mediação entre demandas da comunidade e poder público), quer a justiça criminal (ex.: criminologia crítica, constitucionalização do direito penal, quadro de juízes e promotores mais social/racialmente plural, fortalecimento das defensorias públicas, acesso à justiça), quer o complexo prisional (ex.: despenalização de condutas não-violentas, penas alternativas, revolução das cadeias como espaços de ressocialização e não como “universidades do crime”). Iniciar um debate sério e intensificar as medidas em andamento.

3) Descriminalização de todas as drogas ilícitas, sem exceção, desvinculando o uso, o porte, a produção e a venda da atenção da polícia e da justiça criminal, convertendo em problema político de saúde pública, a ser estudado, controlado e gerido por órgãos especializados que já fiscalizam fármacos, com regulamentação lúcida e democraticamente debatida e aprovada. Iniciar a experiência, possivelmente com os produtos menos perigosos, como a maconha e o ectasy.
Publicado em 15 de novembro de 2010. Comente

Republico, por julgar pertinente, comentário feito por mim em resposta ao artigo O preconceito do preconceito, publicado hoje no Amálgama (clique para ler).
O racismo não se resolve num sentimento individual na cabeça dos preconceituosos, que nos caberia extirpar pela via da educação e do direito penal. Isso é a ponta do icebergue. É sobretudo uma força histórica e estruturante, que plasma as relações sociais, e cujo combate demanda medidas igualmente estruturais, a fim de equilibrar a desigualdade do acesso a direitos e bens. E pra ontem, porque as minorias não podem ficar esperando a “revolução” pra ser contempladas por políticas públicas.
Nesse sentido, não adianta ficar reclamando contra marias-fascistinhas e outras manifestações preconceituosas, como se isso fosse o principal. Essas explosões de ódio não vão acabar. E pretender calá-las com a polícia não funcionará, porque a mais racista de nossas instituições consiste justamente no sistema penal (polícia, justiça criminal, complexo prisional). E, mesmo que não fosse, nada impedirá que tais ardores preconceituosos se desenvolvam clandestinamente, em grupos de ódio racial, como na Europa.
O caso é realizar políticas concretas que desbaratem a base da desigualdade, de fundo material e desejante, e daí o governo Lula/Dilma — sim, muito diferente ideológica e, com ainda mais razão, concretamente que o governo FHC/Serra — vem atacando essa discrepância norte-sul, e incisivamente, como se constata pelas estatísticas e pelo reconhecimento interno e internacional. Basta ver o mapa de distribuição de investimentos públicos e políticas sociais da última década, bem como a qualificação diferenciada da população por região, classe social e raça.
Talvez o primeiro passo para vencer o preconceito (corretamente) denunciado pelo articulista seja, precisamente, reconhecer e compreender a DIFERENÇA BRUTAL entre a política levada a cabo, com generalizado sucesso, pela coalizão de centro-esquerda na situação; e a política desenvolvida pela coalizão de centro-direita, na oposição. Enquanto a primeira adota a agenda social em seu núcleo, e faz da política econômica uma conseqüência desse compromisso primordial, a segunda tem por base a política financeiro-econômica, e dela deriva a política social.
O fato é que o programa bolsa família, conjugado com outras políticas substantivas de inclusão social (Prouni, microcrédito, Projovem, Luz para Todos etc), está impactando o estatuto do trabalho, com efeitos micro e macroeconômicos, e inclusive mobilizando a academia na análise de um novo ciclo de lutas no capitalismo contemporâneo.
Peço a licença para remeter o leitor a breve texto, A Revolução dos Pobres, sobre as análises de Giuseppe Cocco, em que se deslinda esse fator revolucionário, amiúde subestimado, das transformações em curso no Brasil.
Por último, sem embargo o racismo norte-sul, e a história de exclusão do norte-nordeste do eixo político-econômico do Brasil, como bem apontado pelo articulista, se existe algum “judeu brasileiro”, é antes de tudo o negro. Não se pode perder de vista a dimensão dos fenômenos, a sua escala histórica. Um país social, cultural e economicamente racista como o Brasil, racista de norte a sul até a medula, tem esse racismo incrustado na sua matriz político-histórica, e neste aspecto nada se compara à enormidade da escravidão, e das políticas segregacionistas que atravessaram a República Velha, o Estado Novo, a Ditadura. Perduram até hoje, como se nota nas tentativas conservadoras de bloqueio de ações afirmativas nas universidades, nos concursos públicos, na mídia (grande e pequena).

Publicado em 1 de julho de 2010. Comente

Transcrição de minhas respostas à entrevista para posterior publicação em revista online, sobre o debate das cotas raciais. Fui o debatedor a favor das ações afirmativas.
1- Como você se posiciona em relação as ações afirmativas ligadas à educação? Contra ou a favor, por que?
É difícil ser contrário a uma realidade que vem dando tão certo. Em 2001, as ações afirmativas chegaram à universidade pública brasileira por meio de uma lei estadual do Rio de Janeiro, que estabelecia vagas cotizadas não só para estudantes de escolas públicas e portadores de deficiência, mas também para negros e indígenas. Em momento algum, houve queda de nível, pois, de acordo com estudos anuais do Ipea, os estudantes cotistas mantém, no cômputo global, um desempenho entre 10% abaixo e 10% acima da média, dependendo do curso. Ademais, a democratização dos quadros de estudantes, agora pertencentes aos mais diversos estratos da sociedade, trouxe novos debates, preocupações, valores, fortalecendo o processo de aprendizagem, se assumirmos um ponto de vista mais abrangente e desprendido de preconceitos. Afinal, qualidade também é democracia. Desde 2001, ano após ano, a experiência de sucesso das universidades fluminenses tem sido ampliada, com sonoro respaldo social. Vale lembrar que, em 2006, pesquisa da Datafolha constatou que 65% da população apóia as cotas raciais. Em conseqüência, em 2010, já são mais de 30 instituições públicas de ensino superior que adotaram a medida através de sua autonomia interna, por deliberações dos conselhos universitários. O fato é que enfrentar o problema histórico do racismo implica enfrentá-lo nos mais diversos campos da sociedade. Não poderia ser diferente na área da educação e, em especial, do ensino superior. O racismo não é meramente um problema psicológico, como se bastasse coibir e punir o preconceito individual para acabar com ele. No Brasil, o racismo é um problema social, com raízes históricas e repercussões socioeconômicas, que demanda medidas concretas e não somente boas intenções.
2- No Brasil é realmente necessário instituir cotas para ingresso de negros nas universidades?
Essa necessidade, reconhecida por boa parte dos cidadãos e por dezenas de instituições, vem de uma concepção democrática de educação. A universidade tem que ser para todos. Com ainda mais razão a universidade pública. Antes da implementação das cotas, todas as estatísticas demonstravam que o aluno do ensino superior público brasileiro era, em regra, branco, integrante das classes A e B, oriundo de escolas particulares. As cotas somente mitigam essa desigualdade. Pode-se reclamar: mas é a sociedade como um todo que é desigual. Pois é justamente por isso que é preciso implementar ações concretas nos subsistemas da sociedade, sobretudo a educação. A discrepância se torna crítica nos cursos mais procurados, como medicina, direito e jornalismo, praticamente vedado aos pobres. Nesse contexto, as cotas são só uma política pública para enfrentar a questão. Outras medidas, também no ensino fundamental e médio, são igualmente pertinentes. Mas uma coisa não exclui a outra. Não se pode mandar o ensino superior às favas. É preciso tomar o sistema educacional de modo global e atuar em múltiplas frentes, pois cada uma intefere na outra. As cotas não são nenhum milagre e, sozinhas, não desatam o nó górdio de desigualdade, violência, racismo e falta de democracia que marcam a sociedade brasileira. Mas, ainda assim, constitui uma ação real com resultados visíveis, lado a lado com outras políticas de acesso, como o Prouni, o Reuni e a concepção da Universidade Nova. E os frutos são nítidos. Basta ver turmas de formandos das universidades com cotas raciais. E tem muitos brasileiros sem condições para estudar em escola particular ou pagar um bom cursinho, que também têm direito ao ensino superior e capacidade para estudar de igual pra igual. Esses brasileiros não têm tempo pra ficar esperando uma revolução pra entrar na faculdade.
3- Por que cotas raciais e não sociais?
São duas medidas que se complementam. No Brasil, o branco-pobre não tem exatamente as mesmas chances do preto-pobre. Há aguda ausência de negros em posições de liderança de grandes empresas, de veículos da imprensa, de universidades, em cargos políticos, em vagas que exigem “estética”. Vale repetir que o racismo não é simplesmente caso de preconceito individual, mas uma força estruturante do Brasil. Os negros e os indígenas não somente foram escravizados e exterminados, mas, uma vez “libertos”, também sistematicamente segregados da educação pública e dos empregos formais. Eles foram afirmando-se pelas beiradas, pela via da capoeira, do candomblé, do samba, da estética do malandro, numa produção cultural potente que os fez “existir” no mundo dos brancos. É um processo similar ao que acontece hoje com o rap ou o funk, uma forma de afirmação e voz dos excluídos. Assim, se a sociedade é estruturalmente racista, não basta só democratizar o acesso mediante as cotas para estudantes advindos das escolas públicas e/ou de baixa renda, mas também para os estudantes negros, indígenas e outras minorias raciais (embora sejam populacionalmente a maioria). A cota racial não deixa de ser uma cota social, visto que a desigualdade social é modulada pela raça. O projeto último da democracia deve ser o acesso universal. Ou seja, vaga para todos, independente de classe social, raça ou origem. Do ponto de vista da meritocracia, que a grande imprensa promove, tudo isso iria por água abaixo. Mas a meritocracia é abstrata e a-histórica, e não leva em consideração um passado que, ainda hoje, exerce a sua carga. Há mais no mérito do que supõem os meritocratas, de modo que esse “mérito” bastante relativo não pode ser o critério único para ingresso na educação pública. Afinal de contas, mérito mesmo só vai ser aferido depois que o estudante se forma e utiliza os conhecimentos adquiridos para o bem comum.
4 – Os críticos argumentam que com as cotas haveria uma legitimação do racismo, reafirmação das raças, ódio racial, enfim. Como você avalia essas críticas?
De fato, existe toda uma linha de argumentação que repete “não somos racistas” e diz que os verdadeiros racistas são os que defendem ações afirmativas. Na verdade, eles falam nas entrelinhas: vamos esquecer o racismo, vamos fingir que no Brasil não houve escravidão negra, holocausto indígena e segregação sistemática. É uma solução tipicamente tupiniquim: varrer o problema pra baixo do tapete e fingir que ele não existe. Ora, o Brasil é historicamente racista, culturalmente racista, religiosamente racista, socialmente racista, economicamente racista, politicamente racista. Não se trata de legitimar o racismo, mas de reconhecê-lo como fato (gritante), e então tomar ações para combatê-lo. Isso é política social: atacar as desigualdades em suas bases. No Brasil, uma das bases tem fundo racial, porque boa parte de nossa história é matizada pela questão racial. A discriminação positiva é somente uma face dessa luta que os movimentos negros encabeçam desde a fundação dos quilombos. Mas dizer que cientificamente não existem negros é tão absurdo quanto afirmar que o negro NÃO existe. Ele existe! Se há mestiços, é porque são uma mistura de branco e de negro. Se há tripla miscigenação, é porque é mistura de brancos, negros e indígenas. Se a raça é “misturada”, ela é misturada por vários elementos. Mas o componente negro, que gera o racismo, está lá. A polícia sabe diferenciar especialmente bem o branco do negro. Os entrevistadores de emprego idem. Aliás, é difícil encontrar alguém que não saiba distinguir traços europeus, africanos ou indígenas. Existe até a tendência de, psicologicamente, enbranquecermos as pessoas ricas e bem-sucedidas, e por outro lado ‘enegrecermos’ as pobres, como aconteceu quando da eleição de Obama nos EUA, mas também com o jogador de futebol Ronaldo.
5 – As cotas são suficientes? Ao que devem estar atreladas?
Não adianta abrir as portas da universidade para toda a sociedade, se não forem reunidas condições mínimas para o estudante aproveitar com sucesso os cursos. Especialmente os cursos em período integral, como medicina ou engenharia. É de interesse da sociedade que o graduando de uma universidade pública tenha pleno suporte para aprender e depois poder retribuir com sucesso à sociedade. Todavia, muitos estudantes cotistas são abandonados à própria sorte, às vezes sem apoio até de alimentação e transporte, apesar das campanhas da UNE e de medidas pontuais do MEC. O que eu vou dizer é um pouco óbvio, então desculpem-me, mas a democracia deve continuar dentro da universidade e isto significa atrelar o acesso mais universal à robusta assistência estudantil.
6 – Como você avalia a evolução das políticas públicas do governo Lula?
Não sou muito original nesse ponto. Eu avalio o governo Lula do mesmo modo que mais de 75% dos cidadãos brasileiros: “ótimo/bom”. Na educação superior, de acordo com os relatórios anuais do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), entre 2002 e 2009, o Brasil evoluiu de 73 para 93 instituições públicas federais de ensino superior, sendo 12 novas universidades, e o número de alunos na rede federal superior (presencial) saltou de 142 mil para 186 mil. Vejo que, no conjunto, a boa fase do país deve-se à uma concepção de política econômica baseada na política social, o que ninguém tinha feito antes. É uma virada conceitual: antes só se falava em risco-país, âncora cambial e taxa selic, e agora isso passou a ser conseqüência de programas de universalização de direitos (PAC, bolsa-família, Projovem, Prouni, Luz para Todos, eletrificação rural etc). 20 milhões saíram da pobreza e há muita gente consumindo o que era até pouco tempo atrás inacessível: casa própria, carro, passagem de avião, eletrônicos etc. É curioso como os indicadores abstratos melhoraram justamente quando não os colocamos como prioridade e passamos a ver o lado das pessoas concretas! E é interessante como uma parcela, de fato pequena, ainda fala mal da bolsa família e outras políticas de renda, mas foi precisamente esse investimento social, massificado no último governo, que fez circular a microeconomia e inchar o consumo interno, nas cidades e no interior, e nas cinco regiões do país. Graças ao círculo virtuoso produzido internamente, o país blindou-se perante a pior crise mundial desde o crack da bolsa de 1929. O resultado disso tudo foi crescimento econômico com distribuição de renda, outro fenômeno inédito, o que não poderia deixar de nos projetar no mundo. Hoje somos um modelo de gestão democrática, e um modelo de solução pra falta de discurso das esquerdas mundiais.

O antropólogo Viveiros de Castro disse que o Brasil um dia foi o país do futuro, mas agora somos o futuro do mundo. Ele não exagerou. E o sociólogo Giuseppe Cocco escreveu um livro contando essa singularidade brasileira: Mundobraz. O devir-Brasil do mundo e o devir-mundo do Brasil (Record, 2009, a resenha aqui no Quadrado). A política externa exuberante é reflexo desse devir e não a toa seremos a sede da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos Mundiais. E mais. Tudo isso sem perder de vista a integração latino-americana, pois de nada adiantará batermos as portas do Primeiro Mundo se ficarmos cercados por miséria. Sem ufanismos, é lógico que há ainda muitos problemas e falta de investimentos. Que programas de acesso ainda têm enormes desafios pela frente. Mas, diante de tantas estatísticas promissoras, não dá pra negar que houve importantes avanços e que se pavimentou uma opção ao mesmo tempo democrática e produtiva para a nossa sociedade.

Bruno Cava participa da Universidade Nômade, é autor de A vida dos direitos: ensaio sobre modernidade e violência (2008, Lumen Iuris), escreve resenhas, artigos e críticas para sites, e militou no movimento estudantil durante os dez anos que viveu o ensino superior público para se graduar em direito e engenharia.
Publicado em 10 de junho de 2010. Comente

Texto de minha autoria originalmente publicado no Le Monde Diplomatique online, em 25/04/2008:

“The past isn’t dead and buried. In fact, it isn’t even past.”
— William Faulkner
A partir de 2002, as medidas afirmativas de cotas raciais intensificaram o debate e polarizaram o campo político de esquerda e direita. As primeiras universidades a reservar vagas de forma generalizada a negros e indígenas foram a Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e a Universidade Estadual do Norte Fluminense. Uma lei estadual fluminense, de 2001, determinou que as entidades reservassem, no vestibular, cotas de 20% para estudantes de escolas públicas, 20% para negros, 5% para indígenas e 5% para pessoas portadoras de deficiência. Desde então, pelo menos 32 outras entidades do ensino superior — como a UFRGS, a UFPE, a UEPB — instituíram sistemática similar, seja mediante decisões legislativas, seja por deliberações internas.
As primeiras turmas da UERJ sob o novo regime de admissão graduaram-se no ano passado, sem registro de conflitos raciais sérios e com aproveitamento igual às turmas anteriores. Nessa universidade, os estudantes cotistas mantiveram um coeficiente de rendimento médio entre 5% abaixo e 5% acima dos demais, dependendo do curso. Isto é, não houve qualquer diferença mensurável de rendimento acadêmico entre alunos cotistas e não-cotistas.
Certamente não houve “queda do nível”. Como também não houve com os ingressos do Programa Universidade para Todos (Prouni), que assegura bolsas para alunos pobres em faculdades privadas. Estes foram até melhor do que os outros, inclusive os admitidos no Prouni pelo critério racial. Se, de um lado, a política afirmativa não é um sucesso absoluto — principalmente nos cursos de menor procura, em que sobram vagas —, por outro “mudou a cara” da universidade, trazendo um colorido todo-especial de novas demandas, valores, idéias, estilos.
Apesar dos bons resultados e de 65% dos brasileiros apoiarem as cotas raciais (pesquisa Datafolha de 2006), a resposta reacionária a elas persiste. Por envolverem critério racial, as cotas vêm recebendo bombardeio mais feroz que as demais políticas de inclusão, tais como as vagas para estudantes de escolas públicas. Para muitos, o problema é a cor da cota. Na UFRGS, alguns gaúchos “indignados” picharam em letras garrafais, à frente do campus: “Negro só se for na cozinha do HU”. Outros adversários, mais sofisticados, publicam livros extensos e “imparciais”, para provar que a cota racial é ruim, porque não somos racistas.
Muitos mantêm uma atitude tipicamente brasileira: ser contrário em silêncio e guardar o racismo para si, negando-o, menosprezando a história do Brasil. Mas nem sempre o racismo é tão “cordial”, como se viu no episódio dos estudantes africanos na UnB, ocasião em que se ateou fogo às suas portas, bem ao estilo Ku-klux-klan.
Argüir que cientificamente não há como definir a raça é tão estúpido quanto afirmar que o negro não existe. A raça não é um conceito biológico. Envolve noções culturais, econômicas e políticas
Que o Brasil seja um país racista é de uma evidência de doer aos olhos. Historicamente racista, economicamente racista, esteticamente racista, culturalmente racista. A democracia racial é um mito que serve à perpetuação das desigualdades socioeconômicas com modulação racial. A tese do povo brasileiro como miscigenação do branco, do indígena e do negro – o mestiço como o substrato da brasilidade – camufla a nossa história, que é a da explícita hegemonia do branco. A elite branca predomina nos cargos públicos de alto escalão, nas chefias empresariais e na direção da grande imprensa.
Negar a existência do racismo no Brasil é esquecer a desmesurada escravidão, que forjou os primeiros séculos desta sociedade. Como se, da abolição aos dias de hoje, aquela multidão de escravos tivesse sido incluída na partilha da produção de bens sociais. Não. A travessia formal do escravo ao negro liberto deu-se sem política de inclusão digna de nota. Manteve-se a posição explorada, subalterna, marginal, sob ininterrupta disciplina policial e preconceito racial. Da capoeira ao samba, do hip hop ao funk. No racismo, trata-se de reconhecer a ligação concreta entre a situação desvantajosa do escravo e a situação desvantajosa do negro no presente.
Argüir que cientificamente não há como definir a raça é tão estúpido quanto afirmar que o negro não existe. A raça não é um conceito biológico. A raça envolve noções culturais, econômicas e políticas. O negro existe. É o resultado de um processo de exploração atravessado por migrações forçadas, alienação do trabalho e repressão violenta, que não cessou até hoje e no qual a cor — seja ela “parda”, “mulata”, “escura”, “morena” – é somente uma manifestação.
A cota puramente econômica não é suficiente. Mesmo que, em princípio, o branco-pobre tenha as mesmas chances do negro-pobre, eles não têm as mesmas chances na sociedade
A ação afirmativa não fomenta o racismo, porém o reconhece para daí se fazer justiça frente a seus efeitos. Fingir que as diferenças não existem não as faz desaparecer como por mágica. O caso não é eliminar as diferenças raciais, mas não permitir que elas sigam refletindo brutais desigualdades. Se reconhecer a obviedade de que existam raças é racismo, então é necessário por assim dizer ser “racista”, pois só assim se poderá viabilizar a discriminação positiva.
Alegar que a cota racial é incompatível com a república, por causa da cidadania formal, é viver num mundo abstrato de conto-de-fadas, que favorece a perpetuação das disparidades e da injustiça. A igualdade formal achata as diferenças materiais que são a própria substância da justiça. Tratar os desiguais na medida da desigualdade… Absolutizar a meritocracia é consagrar o egoísmo e o individualismo. Ademais, a meritocracia sozinha é injusta, porque o concurso é uma fotografia que não capta a estrutura socioeconômica e familiar, que também determina o preparo dos concursandos. O concurso não pode ser um critério exclusivo.
A cota puramente econômica não é suficiente. Mesmo que, em princípio, o branco-pobre tenha as mesmas chances do negro-pobre no vestibular, eles não têm as mesmas chances na sociedade como um todo. A Universidade não é um microcosmo nem uma torre de marfim, como a enxergam muitos intelectuais. A universidade conecta-se à sociedade. A sociedade justa depende do ensino justo, que por isso mesmo é o melhor ensino.
Defender a melhoria genérica do ensino fundamental e médio como medida “menos gravosa” às quotas significa mandar a ação afirmativa às calendas gregas, perpetuando a ditadura racial. Uma coisa é diferente da outra. As duas políticas não se excluem, elas se complementam. Passaram-se muitos anos de desídia e hipocrisia nessa questão. A exigência é realizar a democracia racial – no concreto das diferenças – não daqui a cem, vinte ou dez anos, mas aqui e agora. Já!
A militância dos movimentos negros é a melhor maneira de fazer frente à opressão racial. Através da resistência, manifesta seu projeto de justiça e se define como sujeito político. Mais do que em um catálogo de diferenças empíricas, é na própria luta comum que se assenta a singularidade da raça. Expressa-a perante uma sociedade que – da esquerda à direita, a juventude inclusive – não lhe endossa e, quando o faz, resume-se à cômoda indignação.