Arquivo para ‘Nouvelle Vague’
Publicado em 22 de janeiro de 2011. Comente

Crítica completa da sextologia, pelo QdL:

Antes de cineasta, Éric Rohmer (1920-2010) foi jornalista, escritor e cinéfilo. Admirador dos críticos André Bazin e Jacques Doniol-Valcroze, Rohmer escrevia na legendária revista Cadernos de Cinema, na década de 1950. Seu longa-metragem de estréia, O signo do leão, data de 1959, quando o diretor contava 39 anos. Era o mais velho dos jovens turcos, como eram chamados os diretores da nouvelle vague. Godard, Truffaut, Rivette e Chabrol, todos eles também debutaram com longas na virada dos 1950 para os 60.
Depois de O signo do leão, dirigiu a sextologia intitulada Contos Morais. Foram quatro longas e dois médias-metragens entre 1963 e 1972. Seis trabalhos de mise-en-scène, ou seja, concentrados numa poética autoral em que o diretor imprime seu estilo às obras. Rohmer assinou-os com um visualmente lacônico, em locações reais, com sonoplastia artesanal, ausência de trilha não-diegética, em longos planos médios, dramaturgia naturalista, e muito mas muito diálogo.
De extração literária, os roteiros dos Contos Morais abordam encontros e desencontros, dilemas e ambiguidades, de personagens hesitantes, da classemédia média — ordinária. O “Morais” não implica julgamento moral ou bom-mocismo, e remete à tradição dos moralistas franceses, de Montaigne a Camus, passando por Pascal e Stendhal. Isto é, a finos exames do ser humano, perscrutando por suas paixões, desejos e inseguranças. Os Contos Morais investigam a máxima pascalina: “o coração tem razões que a própria razão desconhece“.
Éric Rohmer não se preocupa em ser vanguarda. Não trilha a senda de radicalização brechtiana de Godard (A Chinesa, Week-End à Francesa), nem o laboratório dramático de Jacques Rivette (Out 1, que corre por mais de 12 horas). Tampouco se deixa contagiar pela vanguarda literária da época, o Novo Romance francês, que plasmava o cinema de Alain Resnais (O ano passado em Mariebad, Hiroshima mon amour).
Os Contos Morais se estruturam como um romance do século 19. Desdobra personagens bem delineados num enredo linear e unívoco. O protagonista homem burguês se coloca no centro da história, conquanto a verdadeira instância narrativa (fílmica) o acompanha a certa distância, entre a ironia e a condescendência. Como no romance novecentista, os filmes se recheiam de nuances psicológicas, sutilezas de personalidade, pequenos gestos e impudicícias. Mas a dinâmica dos personagens dos Contos Morais é sempre contida, sem dar azo para melodrama ou conflitos abertos.
O Quadrado dos loucos completou críticas para os seis filmes, além de um ensaio sobre a personagem-chave feminista Haydée (de A colecionadora), que irão integrar o dossiê Éric Rohmer em elaboração lado a lado com o blogue TUDO [é] Crítica, para o portal Cinefilia.NET
Uma cena de meu conto moral predileto, com minha personagem predileta

Publicado em 2 de janeiro de 2011. Comente

Haydée, personagem de A Colecionadora, 1967, Éric Rohmer
A nouvelle vague tornou-se sinônimo de vanguarda no cinema. Propunha uma nova sensibilidade para essa arte, ao mesmo tempo poética e política, inovadora e cheia de vivacidade. O conteúdo do filme passaria a ser a forma e a forma, o conteúdo. Uma articulação permanente. O diretor deveria assumir a sua responsabilidade como artista e autor, acima do produtor. O estilo de direção, ou mise-en-scène, passaria a ser considerado o núcleo criativo dessa arte, e não mais o roteiro.
Os primórdios da nouvelle vague aconteceram na década de 1950, quando alguns cinéfilios da Cinemateca Francesa se reuniram na revista de crítica Cadernos de Cinema. A partir de ensaios veementes, os críticos dos Cadernos elaboraram cânones e listas negras. Endeusaram-se alguns cineastas (sobretudo Hitchcock e Welles) e outros tantos foram demonizados. As palavras de ordem eram: autoria, estilo, audácia, realismo, expressividade de um mundo e uma afetividade. Surgia o cineasta-total: cinéfilo, historiador, crítico e diretor, sua biografia inteira entretecida com a arte. Surgia o cinema-cinema, na feliz expressão de Rogério Sganzerla.
Os primeiros longas-metragens da nouvelle vague são da virada de 1950 para 1960. Dessa época, são Nas garras do vício (Claude Chabrol, 1958), O signo do leão (Éric Rohmer, 1959), Os incompreendidos (François Truffaut, 1959), Acossado (Jean-Luc Godard, 1959) e Paris nos Pertence (Jacques Rivette, 1960). Longas de estréia do quinteto mágico, os cinco sacudiram o cinema mundial, inovando poéticas que se consolidariam e desenvolveriam, cada um a seu modo, durante a década seguinte.
Tamanho desejo de radicalidade pode passar a impressão que a nouvelle vague esteve intimamente associada às revoltas dos anos 1960. Que era parte das organizações políticas da época. Afinal, na mesma França, houve a explosão de maio de 1968.
Mas não. A nouvelle vague não participou, como movimento artístico, de nenhuma organização ou manifestação. Nem poderia. Seu maior mentor, o crítico André Bazin, havia morrido em 1958. Durante os anos 1960, cada diretor partiu para trajetórias individuais. A bem da verdade, a nouvelle vague era menos uma escola ou um todo orgânico, do que certo ímpeto originário, certa partilha de referências e inquietações, um amálgama de idéias que se desdobraria em direções diferentes e, por vezes, irreconciliáveis.
Do quinteto mágico, Godard engajou-se mais abertamente nas lutas. Bastam recordar seus filmes O pequeno soldado (1960), cujo assunto é a opressão neocolonial na Algéria, e Tempo de guerra (1963), um alegórico manifesto antibelicista. Ou então a temática marxista, numa poética brechtiana, de Week-End à Francesa (1967) e A Chinesa (1967), — o último inspirado num romance político de Dostoievski (Os Demônios).
Talvez por isso, tenha-se a impressão de um envolvimento global da nouvelle vague, visto que Jean-Luc era seu ícone maior. Porém, se havia cumplicidade crítica nos anos 1950, depois dos primeiros longas se esfacelou paulatinamente. Não havia organicidade.
Nos sessenta, François Truffaut nem sequer esbarrou em assuntos de militância. Filmava a dinâmica íntima dos personagens: triângulos amorosos, aventuras extraconjugais, episódios anedóticos. “Nascido” em Os incompreendidos, o timorato Antoine Doinel protagonizaria mais dois filmes no período, envelhecendo com o seu ator Jean-Pirre Leáud. Leve como uma pluma, o “ciclo Doinel” narrava as desventuras do querido pupilo do cineasta.
Afetivo e condescendente, não há na filmografia de Truffaut panfletos, denúncias ou conclamações. O mais próximo do cinema político foi o seu primeiro longa em cores, Fahrenheit 411 (1966). Uma história distópica sobre um mundo onde a escrita foi proibida e a função dos bombeiros passou a ser queimar livros. Lírico. Em Beijos Roubados (1968), a única remissão ao tumulto ocorre quando Christine (Claude Jade) comenta que a irmã está envolvida nas passeatas.
Em maio de 1968, Godard e Truffaut participaram ombro a ombro na confusão que melou o festival de Cannes daquele ano. Diante da mobilização universitária e das greves por toda a França, os dois aderiram ao movimento que exigiu e, eventualmente, conseguiu o cancelamento da premiação. “O cinema ficou para trás!”, discursou Godard, “a arte hoje não está mais em Cannes, mas nas ruas e praças”. A partir daí, ele politizará decisivamente os seus trabalhos, formando o coletivo Dziga Vertov (1968-72).
Truffaut não. Em que pese a atuação em Cannes 68, manteve o mesmo tom sentimental nos filmes seguintes, consistente com o seu estilo. Insatisfeito com essa “despolitização”, Godard polemizou e terminou por romper amargamente com o antigo colega dos Cadernos, em célebre entrevero, recentemente objeto de um documentário.
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O caso de Éric Rohmer (1920-2010), o mais velho da nouvelle vague, é ainda mais sintomático. No ultraquente período entre 1963 e 1972, produziu a seqüência Contos Morais, composta por seis filmes. Tomava como assunto a classemédia média, ordinária, em temáticas semelhantes ao romance burguês do século 19, e escrutinava a dinâmica moral/passional dos personagens. Enorme a sua distância em relação à vanguarda literária: o novo romance francês, de narrativa fragmentária e tema existencial.
Rohmer filmava sem qualquer ânimo de vanguarda.  Fazia questão de permanecer “invisível” como diretor, com o mínimo de firulas. Sóbrio, circunspecto, não alardeava manifestos políticos ou estéticos, nem cultivava mitologias sobre o cinema. Sequer gostava muito de falar sobre os seus filmes e se identificava como “ex-crítico” nas entrevistas. Católico praticante, não se dizia um “homem de esquerda”.
No entanto, há nos Contos Morais de Éric Rohmer um sentido profundamente político. E de esquerda. Isso se dá em vários níveis.
Pra começar, na sua narrativa por assim dizer distanciada. Rohmer não invade a mente dos personagens. Não lhes extrai confissões. Não os conduz a clímaxes dramáticos para forçar um depoimento. Salvaguarda-lhes uma autonomia com fundo ético.
O personagem existe por si mesmo. Não há onisciência nem julgamento moral. O autor está junto de suas criaturas e não acima delas. O personagem tem esfericidade, não se mostra por inteiro e guarda de si um fundo intocado. Irredutível à imagem, ao discurso. Verdade a ser interpretada e não arrancada. E não dá pra saber a verdade última e entendê-lo totalmente.
Nisso, Rohmer é dostoievskiano, e assume uma poética dialógica com valor ético.
O “narrador” dos filmes-contos não se confunde com a instância narrativa. Quer dizer, o efetivamente narrado, — a coleção de imagem e aúdio, — excede o monólogo do personagem que “narra”. Mais exposto que os demais, é verdade, mas nem por isso o “narrador” recebe um aval. Pelo contrário, amiúde essa distância atua contra ele, denunciando-lhe o egoísmo, a hipocrisia, a soberba, a autoilusão, a ingenuidade. Fazendo o espectador desconfiar, interpretar, circular pelos argumentos.
Nesse sentido, a posição de “narrador” torna-o privilegiado para a crítica. Se o protagonista-narrador dos Contos Morais é invariavelmente o homem branco classemédia, pior pra ele. Suas paixões são desnudadas em todo o seu viés de classe, a sua egolatria pusilânime, o seu voyeurismo instrumentalizador. O bisturi de Rohmer não poupa seus personagens de uma fina cirurgia moral, expondo tumores próprios de seu gênero, classe e tempo. Erra feio quem assinala machismo no perfil do “narrador” dos Contos Morais.
Daí que as mulheres sejam ininteligíveis nesse primeiro Rohmer (até 1972). Incógnitas, sua verdade é a mais recôndita. Seu comportamento ainda mais enigmático, um quê indevassável.
Os protagonistas buscam dominá-las, fetichizá-las, usá-las, capturar-lhes a admiração. Mais do que ser amados por ela, pretendem provar que podem ser amados por elas, por qualquer uma delas. Basta quererem e zás, elas se apaixonariam. Mas elas resistem. Não resistem (apenas) dizendo não, mas afirmando a dignidade. Firmam-se como seres livres, diferentes, criadores de sua própria narrativa.
O amor para os “narradores” significa fazer do outro objeto de sua conspiração, tema de uma intriga íntima, gato-sapato de seus caprichos. O outro é uma peça do jogo e não um jogador. Desfilam homens que se acham o máximo, “donos da situação”. Mas, ultimamente, dela terminam reféns e disso se ressentem.
Daí o papel crucial de A Colecionadora (1967) no universo dos Contos Morais. Porque, nesse que é o quarto conto, as mulheres resistentes (Suzanne, Maud, Chloe) sintetizam-se em Haydée, a mais feminista entre todas as personagens de Rohmer.
Haydée é a culminação de uma ética, uma estética e uma política — uma figura mitológica. É a própria década de 1960, no seu devir minoritário, na sua afirmação no presente da mulher do futuro.
Haydée não só resiste ao mais irresistível dos personagens dos Contos, Adrien (Patrick Bauchau), como o desarma e humilha sistematicamente. Ao mesmo tempo que generosamente lhe confere chances de redenção, que ele todavia não sabe aproveitar. Pois unidimensional. Inepto em combinar desejos, limita-se a tentar impor vontades. Todo o êxito de Haydée  sem qualquer moralismo, sem gritos ou slogans, sem nem mesmo um discurso coerente. Sustenta-se o filme todo a criatura menos dogmática e mais aberta à experiência. Sem convicções sobre si e sobre os outros, que não a certeza da dignidade indevassável, de não se deixar fetichizar e dominar, — mas nem por isso menos potente como mulher amante.
Haydée é mais do que a mulher independente (Suzanne, 2º conto), mais do que a mulher emancipada (Maud, 3º), mais do que a mulher libertária (Chloe, 6º).
Haydée é evolução da inescrutável e afirmativa Anna Karina, de Viver a vida (Godard, 1962), e antecipa a libertina e avacalhadora Helena Ignez, de A mulher de todos (Sganzerla, 1969).
Um personagem só, na potência da verdade que exprime, numa narrativa que a faz transbordar, é capaz de politizar uma obra mais do que cem panfletos.
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Este ensaio supostamente seria a crítica do quarto Conto Moral de Éric Rohmer, o filme A colecionadora (1967), dando continuidade ao dossiê que estamos montando, por encomenda do CinefiliaNET . Entretanto, a pena dançou em direções inopinadas, e me perdi. Mas prometo escrever a crítica da obra citada esta semana. Para críticas do QdL de outros filmes de Éric Rohmer, abaixo os links:

Publicado em 27 de dezembro de 2010. Comente

Crítica: “O signo do leão”, Éric Rohmer, 1959, França.

Durante os anos 1950, a revista Cadernos de Cinema era sinônimo de vanguardismo e contestação. Inspirada pelas teorias do crítico André Bazin (1918-1958), nela militaram vários enfants terribles do cinema francês: Jean Luc-Godard, Claude Chabrol, Éric Rohmer, Jacques Rivette, François Truffaut. Militante é a designação correta para o grupo de “jovens turcos”. Ali se fazia crítica combativa, se panfletavam cânones adorados e índexes proibidos, se afirmava uma política do cinema enquanto arte transformadora. Desse amálgama de cinefilia veemente e elã de inovação, no final da década debutariam um a um os diretores da nouvelle vague, com seus primeiros longas: Chabrol com Nas Garras do vício (1958), Rohmer com O signo do leão (1959), Truffaut com Os incompreendidos (1959), Godard com Acossado (1959) e Rivette com Paris nos pertence (1960).
Éric Rohmer, morto em janeiro deste ano, era o mais velho do grupo, já beirando os 40 quando do lançamento de O signo do leão. Era considerado o menos radical, com posições políticas moderadas e moral afinada com o catolicismo, em contraste com uma época de revolução e libertação. Sua temática circunda dilemas morais e não deixa de frisar a responsabilidade pessoal pelas escolhas. Na década de 1960, reunirá seis longas consecutivos sob a legenda Contos Morais. Mais adiante, dirigirá quatro Contos das Estações e seis Comédias & Provérbios. Sua poética não se esforça em romper com a forma literária, como queria o mais herege Godard. Pelo contrário, os filmes de Rohmer são narrativos, lineares, com personagens coerentes e bem marcados. Se fosse escritor, seria um contista de mão cheia: conciso, sóbrio, cartesiano.
Primeiro longa de Rohmer, produzido pelo cupincha Chabrol, O signo do leão conta a história de um músico boêmio, Pierre, que vai à bancarrota e paulatinamente se torna mendigo. Talvez origem da expressão mendigo nouvelle vague — tema, aliás, chapliano. O começo se passa no apartamento classemédia, para depois sair às ruas e errar pela cidade junto do protagonista falido e seu violino (outro signo de Chaplin). A nouvelle vague se anuncia com as locações externas, “espontâneas”, capturando os ruídos cotidianos e as mil e uma anedotas da metrópole. Sem pressa, Rohmer filma os mercados de rua, os cafés, as pontes, o metrô, as margens do Rio Sena. Nenhum estudo da psiquê humana, da angústia da clausura, do tumulto da alma, — como no jogo de luz e sombra do pequeno-burguês sufocado em seu apartamento, de um Bergman ou Antonioni (ou Khouri). Nenhum lirismo existencial. Pierre vaga sem maiores planos atrás da próxima refeição, de um sapato velho, de uns trocados amigos. Mas não se tortura as emoções nem se questiona profundamente o “eu”. Simplesmente enxuga o suor do rosto e segue em frente, pois a fome não tarda.
Rohmer satura o ambiente de percepções sonoras e espaciais. Trabalha a interação do protagonista com as outras pessoas, os objetos, os espaços urbanos — isso tudo acaba se nivelando, cruamente, na errância esfaimada de Pierre. A sensação que se tem é de flanar com ele por Paris, numa cartografia cinematográfica. É tudo tão vívido, tão sólido quanto as pedras, tão real quanto a textura suja das ruas. Resultado de uma mise-en-scène naturalista, que incentiva o magma bruto da realidade a construir-se através da câmera.
Cinema-prosa, O signo do leão elabora uma antropologia cruel, que desnuda o boêmio individualista e lhe expõe a miséria, numa direção bem ao gosto de mestre Bazin.
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O Signo do Leão (Le Signe du Lion), Éric Rohmer, França, 1959, p&b, 103 min, 35mm.
Publicado em 4 de dezembro de 2010. Comente

Crítica: Nas Garras do Vício (Claude Chabrol, França, 1958)

O cineasta francês Claude Chabrol morreu em setembro deste ano, aos 80 anos. Educou-se nas selvagens noites cinéfilas da Cinemateca Francesa, em Paris, onde se apaixonou por Fritz Lang, Jean Renoir, Howard Hawks, Robert Aldrich, Nicholas Ray e sobretudo Alfred Hitchcock. Sobre a poética cinematográfica do último, escreveu influente livro que já nasceu clássico. Participou dos Cadernos de Cinema originários, a lendária revista de crítica fundada, em 1951, por André Bazin e Jacques Doniol-Valcroze, cerzindo o grupo de diretores que, na década seguinte, seria conhecido por nouvelle vague: Jean Luc Godard (1930- ), Jacques Rivette (1928- ), François Truffaut (1932-1984) e Eric Rohmer (1920-2010).
Nas Garras do Vício (Le Beau Serge), de 1958, foi o seu primeiro longa-metragem. Embora mais lembrados como deflagradores do movimento sejam Os Incompreendidos (Truffaut, 1959) e Acossado (Godard, 1960), ou mesmo O Signo do Leão (Rohmer, 1959), foi Chabrol o autor do primeiro filme a introduzir a nouvelle vague. O longa ganhou o prêmio Jean Vigo e um panegírico nos Cadernos: “Que importa se não conseguimos abrir todas as portas? o importante é nos deixarmos conduzir por ele pelos caminhos do sonho”.
Nas Garras do Vício é um filme de mise-en-scène, bem ao gosto da patota nuvelevaguesca. Isso quer dizer que o núcleo da composição está no trabalho do diretor. É só ele — e não o roteirista ou o produtor — quem assegura o caráter autoral do cinema. Num filme de mise-en-scène, se esforça conscientemente para afirmar um estilo, para impregnar a narrativa de escolhas, filiações e sutilezas que marcam a sua singularidade na história do cinema. Trata-se de um como filmar, de um certo olhar, de uma determinada maneira de escrever com a câmera.
Essa caracterização do estilo não depende propriamente da seleção de uma temática ou gênero, porque, para a nouvelle vague, o cinema enquanto arte adere a qualquer assunto e a qualquer gênero. Pode-se perfeitamente fazer um filme magistral sobre assuntos frívolos e temas banais. Para comprovar a tese, é isso que será feito por essa escola de cineastas — veja-se Acossado, por exemplo, e seu enredo pulp policialesco.
Nas Garras do Vício toma por assunto o reencontro de dois amigos de infância, François e Serge, depois de muitos anos, quando um deles retorna à cidade natal para se recuperar de uma tuberculose. A amizade se tensiona, à medida que não são mais os mesmos, que trilharam diferentes caminhos, num conflito crescente ao redor de uma adolescente local, Marie. O roteiro é simples, o drama marcha sem maneirismos, e a fotografia se consome nas locações plácidas da cidadezinha, tomando os nativos por figurantes. Um dos protagonistas, Serge (Gérard Blain) é sacado direto do panteão de Nicholas Ray, numa atitude à James Dean. Toda essa economia de elementos para permitir que o trabalho de direção ocupe o primeiro plano.
Chabrol pontua a ação com temas musicais do cinemão clássico. Chama a atenção a pouca naturalidade das músicas em relação ao filmado, o que, aos poucos, se mostra deliberado. A estranheza dá lugar à percepção de um jogo com regras próprias, em que significados musicais auferem novos sentidos diante das imagens.
A movimentação de câmera é tão obsessivamente artesanal, que parece ter sido pensada toda de antemão, de ponta à ponta. Daí os enquadramentos precisos, os travellings elegantes, os golpes oportunos de câmera, tudo para inervar planos-seqüências com o máximo de semântica. Chabrol aproveita cada detalhe da paisagem, a posição do horizonte, a existência de um espelho ou uma janela, a luz ambiente, e tira disso tudo uma sintaxe cinematográfica que é e será seu estilo mesmo.
Repare-se, por exemplo, na seqüência que começa com François (Jean-Claude Brialy) sentado, tomando café-da-manhã no refeitório da pousada. A dona da pousada chega, serve o pão e o café, volta para dentro da casa. Então François percebe que faltou o açúcar, e pede em voz alta para ela retornar e completar o serviço. Mas a dona não volta e, estranhamente para alguém tão solícito a história toda, manda ele mesmo ir buscar no balcão. François se levanta e aí entendemos o porquê disso: Chabrol quer filmá-lo pelo espelho, otimizando o espaço cênico. Pensamos que é exibicionismo, mas não. Quando François efetivamente pega o pote de açúcar, depara-se de supetão com a diabólica Marie (Bernardette Lafont), que o diretor colocara no fora-do-plano e que aparece quando a câmera vai buscar a trajetória de François. O balé de enquadramentos e lances é absolutamente singular e mostra a forma tão pessoal de Chabrol contar esses pequenos acontecimentos.
Impressiona o fato de Nas Garras do Vício ser o filme de estréia. Denso e conciso, Claude Chabrol formula uma poética realista sem renunciar à beleza, numa utopia cuja concretização só pode dar-se no âmago do real mesmo, de sua simplicidade e sua agudeza.

Nas Garras do Vício, 1958, França, Claude Chabrol, 35mm, 87 min.
Em DVD pela Lume Filmes (lançamento em novembro de 2010).
Publicado em 27 de maio de 2010. Comente

Fetiche, fetiche, fetiche. Está tudo lá: nouvelle vague, Godard, Truffaut, Léaud, Chabrol, Rivette, vanguardas, Cahiers du Cinéma, Cinémathèque Française, maio de 68, Eric Rohmer, André Bazin, contestação política, Henri Langlois, Anna Karina, Jean Paul-Belmondo, existencialismo, política de autores e infindáveis polêmicas intelectuais. Todos os ingredientes da mitomania ao redor da Nova Onda francesa aparecem nesse documentário de Emmanuel Laurent, que se propõe a falar do movimento a partir da intensa relação entre dois de seus expoentes: Jean-Luc Godard (1930- ) e François Truffaut (1932-84).
Seleção oficial de Cannes 2009, o filme mescla extratos dos filmes definidores da nouvelle vague nos anos 60, — a partir de “Os Incompreendidos” (Truffaut, 1959) e “Acossado” (Godard, 1960), — e entrevistas de época com artistas e intelectuais. Coerente com o objeto, ele adota um narrador em off no mesmo tom impassível e grave dos filmes godardianos. Mas diferente das obras documentadas, em que os diálogos assumem importância acessória, quem manda na narrativa é o texto, organizado linearmente dos primórdios e influências da nouvelle vague, até a ruptura derradeira pós-68.
É difícil tratar um tema tão saturado sem chover no molhado, mas o diretor fez escolhas acertadas.
Como se sabe, a nouvelle vague foi menos um movimento artístico organizado do que um clube seleto de jovens diretores amigos, — cinéfilos que viraram críticos que viraram cineastas. Assim, nada mais afinado do que contar a relação entre Godard e Truffaut por meio da trajetória de sua cria e amizade comum: o ator Jean-Pierre Léaud. Apresentado num dos filmes-manifestos da nouvelle vague, então com doze anos, Léaud ainda participaria de nove longas de Jean-Luc e sete de François. O seu personagem em “Os Incompreendidos”, Antoine Doinel, alter ego de Truffaut, repetiu-se em mais cinco filmes até 1979, cobrindo duas décadas de “vida”.
Outra boa escolha da direção foi acentuar as diferenças das biografias de um e outro, ao invés de concentrar-se nos filmes em si — assunto já esquadrinhado aos mínimos planos por interminável literatura especializada. Daí Godard aparecer como o menino de classe-média alta: viveu numa mansão à beira de um lago suíço, de família burguesa e ilustrada, abraçou a cinefilia tardiamente (depois dos 20), e desde o princípio construiu um estilo peculiar, juntando afetação artística, iconoclastia furiosa e auto-indulgência estética, que até hoje está disseminado como paradigma de certos círculos audiovisuais. E Truffaut, o mocinho deste filme, é o menino pobre, inadaptado e problemático: desertou do serviço militar, foi preso por delinqüência, salvou-se de ser aniquilado pelo “sistema” graças ao cinema, onde se refugiava todos os dias desde a infância, cinéfilo por necessidade.
O documentário é mais uma voz a pôr em questão a suposta unidade artística da nouvelle vague. No filme, o enfant terrible Godard anuncia que veio para “destruir as lendas do cinema“, desagradar e atacar os espectadores, e violentamente imprimir uma revolução na narrativa cinematográfica. Truffaut, por sua vez, sempre tranqüilo, diz que não se rebela contra a tradição, que simplesmente quis fazer filmes melhores e mais sinceros. Se Jean-Luc deseja a radicalidade sem concessões, François pretende produzir filmes autênticos, dentro do espírito existencialista que dominava a geração, desde Sartre e os anos 50.
Em 1968, no entanto, a explosão revolucionária no mundo ocidental contagia a França e termina por antagonizar os dois cineastas. Foi o ano em que o 21º Festival de Cannes foi cancelado devido ao clima de protesto. Um dos responsáveis pela “sabotagem” do festival, Jean-Luc adere à militância marxista e inaugura o grupo brechtiano Dziga Vertov, abjurando aos filmes anteriores, ditos da nouvelle vague. A seu passo, François prossegue filmando na mesma linha, sem engajar-se diretamente nas lutas, recusando-se a participar das novas empreitadas do amigo. A discordância sobre a função do cinema na revolução culmina em desavença pessoal, com trocas de cartas nada carinhosas. Em conseqüência, o denominador comum Léaud passa a ser jogado de um lado para o outro, como bolinha nesse pingue-pongue de mestres. Ora aparece num longa de Godard com indiretas a Truffaut, ora o inverso, em ambos os casos como instrumento da inimizade, situação que perduraria irreconciliada até a morte do diretor de “Os Incompreendidos”, em 1984.
O filme traz algumas pérolas. Mostra Godard em declarações por assim dizer pseudo-intelectuais, em que ele mesmo se confunde, bem como e a sua afetação descarada, personagem de si próprio, no set, em fotos e mesmo quando ele entrevista Fritz Lang. Truffaut, por sua vez, é documentado na simplicidade dos gestos, na humildade de seus depoimentos, no encorajamento doce que faz aos atores antes de uma cena. De modo que não fica dúvida sobre a afinidade eletiva do diretor entre um e outro. Mas a maior pérola deste longa, que acompanha os créditos de encerramento, é o primeiro e impagável teste de câmera do menino Léaud.

Apesar da crônica informativa recheada de anedotas e pequenas jóias, o documentário fracassa no essencial, isto é, no drama entre os seus dois protagonistas. No instante em que o conflito finalmente acontece, quando as trajetórias divergem e eles se atacam, o filme acaba. De que adianta pontuar as diferenças de gênese e biografia, se elas não se tensionam na ação dramática? O espectador chega ao fim dos 91 minutos em dúvida se assistiu a um filme vigoroso selecionado para Cannes ou a uma introdução insípida sobre a nouvelle vague.