Fulgurante mosaico da esquerda revolucionária.
Embora finalizado e projetado em festivais em 2005, o documentário de Silvio Tendler (“Os anos JK“, “Gláuber o Filme, Labirinto do Brasil“) só agora foi distribuído no circuito mais acessível aos grandes públicos. Obra multifacetada, madura e intelectual, o longa levou dezenove anos para ser concluído e inclui extenso painel de entrevistas com cineastas, filósofos (Susan Sontag, Leandro Konder, Gianni Vattimo), jornalistas (Franklin Martins), escritores (Eduardo Galeano, Amir Haddad, Augusto Boal), militares (Gen. Apolônio de Carvalho, Gen. Giap), políticos (Dilma Roussef, Arnaldo Carrilho) e dezenas de ativistas. Montado com imagens históricas de arquivo e excertos do cinema político (Eisenstein, Rossellini, Pontecorvo, Solanas, Amos Gitai), ainda traz em off três atores exercendo a narração. Esta, lado a lado com os documentos de arquivo e os depoimentos, dá o toque mais pessoal do cineasta na composição.
Focado na trajetória os movimentos de contestação da segunda metade do século XX, o filme viaja distâncias continentais para contar as guerrilhas e mobilizações no Vietnã, Camboja, México, Brasil, Argentina, Chile, Uruguai, Estados Unidos, República Dominicana, Argélia e Palestina, atravessando períodos distintos da história oficial. A afinidade eletiva dirige-se, na maioria das vezes, aos esmagados pelo rolo compressor da Operação Condor, dos aparelhos de estado, do imperialismo.
“Nunca houve um documento de cultura que também não fosse um documento da barbárie” (Walter Benjamin)
O resgate da memória não se dá pela construção de uma linha contínua da militância de esquerda, mas por fragmentos que freqüentemente são tomados desconexos. Momentos violentos de choque em que o tempo se contraiu, as coisas aconteceram muito rápido, de modo incontrolável e imprevisível, lançando as pessoas envolvidas entre a utopia dos vencidos e a barbárie dos vencedores. “Utopia e Barbárie“, com efeito, embute a filosofia da história de Walter Benjamin, e não a toa cite diretamente uma das célebres teses desse marxista judeu, surrealista e melancólico. Também não é coincidência a presença de Leandro Konder, acadêmico estudioso de Benjamin, dentre os entrevistados.
É a sua Nona Tese, escrita pelo filósofo alemão em 1940, pouco antes de ser encurralado pelos nazistas e — assim como a guerrilheira brasileira Iara Iavelberg em 1971 — suicidar-se. Eis o texto, ipsis litteris também no documentário de Tendler:
“Existe um quadro de Klee intitulado ‘Angelus Novus‘. Nele está representado um anjo, que parece estar a ponto de afastar-se de algo em que crava o seu olhar. Seus olhos estão arregalados, sua boca está aberta e suas asas estão estiradas. O anjo da história tem que parecer assim. Ele tem o seu rosto voltado para o passado. Onde uma cadeia de eventos aparece diante de nós, ele enxerga uma única catástrofe. Ele bem que gostaria de demorar-se, de despertar os mortos e juntar os destroços. Mas do paraíso sopra uma tempestade que se emaranhou em suas asas e é tão forte que o anjo não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, para o qual dá as costas, enquanto o amontoado de escombros diante dele cresce até o céu. O que nós chamamos de progresso é essa tempestade.”
Essa tese ilumina as lutas políticas de esquerda também como uma batalha da arte pela memória. Para Benjamin, enquanto as classes dominantes rodeiam-se de uma cultura e uma história que as legitimam e as glorificam, — na unidade ideológica dos slogans nação, ordem e progresso, — cabe aos derrotados rememorar as fraturas revolucionárias. “Escovar a história a contrapelo” significa não permitir que a tradição dos oprimidos seja esquecida e, com ela, num resgate consciente, alimentar o presente de suas forças liberadoras. Do ímpeto revolucionário do passado, acender a centelha das lutas atuais, nas suas mais diversas frentes. O tropicalista Zé Celso Martinez declara à câmera: “a revolução é dizer sim ao sim e não ao não, é lutar não só por uma ideologia, mas por desejos“.
Utopias barbarizadas.
Tendler, mutatis mutandis, opõe a utopia de latino-americanos, palestinos, argelinos, vietnamitas, norte-americanos, à reação bárbara desproporcional dos governos e órgãos a serviço do establishment. De um lado, imagens das manifestações de rua, da quebradeira, do furor contracultural, da juventude articulada globalmente ao redor de seus ícones — Che, Mao, Martin Luther King, Ho Chi Min. Do outro, o imaginário fotográfico e cinematográfico aterrorizador das guerras imperialistas, dos massacres de rua, da repressão policial e, suma injuria, das torturas sistemáticas e científicas.
Daí a despreocupação em transitar livremente por militâncias tão distantes quanto a Primavera de Praga e a Revolução Argelina, a luta armada no Chile e a resistência heróica dos militares vietnamitas. Em termos benjaminianos, todos são momentos de iluminação profana, em que o céu revolucionário se rasga de utopia. Ou “orgasmos históricos“, no vocabulário do documentário. O escritor uruguaio Eduardo Galeano presenteia o filme com sacadas brilhantes, tal como a que classifica a história como uma velha matrona, lenta e emburrada, de difícil convencimento.
A recusa ao sublime.
A representação do sofrimento é sempre problemática, quiçá aporética em sua essência. Para o frankfurtiano Theodor Adorno, é tarefa de uma estética libertadora apresentar os choques, as catástrofes, a memória acumulada do sofrimento humano diante do real da história. Se Schiller pregava a arte como reino da leveza e da graça, para Adorno é preciso mostrar o indivíduo nos estertores da dor, na sua aniquilação crua perante as classes dominantes, sem apaziguamento/catarse. Compete à arte expor o anjo da história aterrorizado pelos sucessivos eventos chocantes e inadmissíveis e, dos escombros desumanos, mobilizar a consciência revolucionária.
E apesar da derrota em última instância, e da conseqüente chacina dos corpos militantes — mutilados, mortos e desaparecidos, — o agora da revolução (tempo-do-agora) pode renascer, ser reavivado sob novas formas. Ao tempo linear do progresso e da história nacional, em que os vitoriosos marcham sobre pilhas de cadáveres desfigurados de gerações esmagadas, contrapõe-se o devir intensivo da revolução, o seu sonoro “mais uma vez!” — memória que espreita, pronta para explodir o continuum da história oficial. Contra um historicismo servil, tem-se neste doc uma filiação direta ao que, naquelas ocasiões, não funcionou. E sem perder as qualidades (brechtianas) do militante materialista: o humor, a auto-ironia e a astúcia.
O filme confessa, a certo ponto, o pudor em falar de revolução. Tão demodê… porém, de toda sorte, o narrador esclarece que “toda revolução tem o seu cronista“. A narrativa sublinha a precariedade de suas convicções e, melancólica junto dos entrevistados, autocritica-se, esquiva-se de tantos e tantos ismos. Docemente taciturna, uma curiosa cena acompanha uma minicaixinha de música movida por alavanca, cujo som vai diminuindo até o silêncio. Recortes do longa franco-canadense “As Invasões Bárbaras” (Denys Arcand, 2003). Neles, personagens da mesma geração que o cineasta (com cerca de 20 anos em 1968) relembram saudosistas os vários ismos a que se vincularam na vida, e concluem que foram ingênuos e ineficazes.
Revolução. Revolução cara-pálida?
A revolução ultimamente fracassa? O filme passeia por lugares onde, dizem, ela triunfou: Cuba e Vietnã. Mas passeia nos dias de hoje. Neles, entretanto, eis a marca do capitalismo homogeneizador, do consumo como raison d´être, da mediocridade cultural, para o spleen dos outrora revolucionários. É preciso conceder, todavia, que em Cuba há educação e saúde gratuitas de qualidade e, no Vietnã, os cidadãos têm voz ativa e orgulham-se de sua implausível resistência contra a superpotência então presidida por Lyndon Johnson e Richard Nixon.
Ora, talvez o problema seja justamente a concepção de revolução. Ao invés da escatologia, de sua redenção messiânica, ponto final da história, talvez seja preciso repensá-la (não só com Walter Benjamin, mas também com o filósofo pós-estruturalista Gilles Deleuze) como uma explosão momentânea de desejos, um relâmpago criador de valores — um devir. E então, tão fugaz quanto se instaurara, o ciclo revolucionário inevitavelmente amansa, desativa-se, dá lugar aos que a traem e usurpam o poder em seu nome. Contudo, apesar disso, os problemas são outros, a geração é outra, em suma, um novo tempo.
Incidentalmente, o documentário esbarrou no que é a manifestação mais audível dos processos sociais e políticos da revolução na década de 2010. Depois de sintetizar 50 anos em 120 minutos, não sobrou espaço para o tempo do agora, numa irônica contradição. Porque, concentradas na América do Sul, vivem-se hoje novas formas de luta. Com todos os limites e contradições inerentes à luta política (e sem os quais ela se paralisa), trata-se, ainda assim, de potentes mobilizações produtivas cabeça-à-cabeça com governos de esquerda no Brasil, na Bolívia, no Equador, na Venezuela — forças do trabalho, da renda e da cidadania que ainda nos fazem acreditar em palavras tão surradas e abafadas pela tradição/história dos vencedores: esquerda, revolução, utopia. Só que, sem perder a vitalidade, são palavras que devem ser redimensionadas pelas problemáticas presentes. Como não poderia deixar de ser, afinal, materialismo oblige.
Referências diretas:
KONDER, Leandro, “Walter Benjamin. O marxismo da melancolia“, 3a ed., RJ: Civilização Brasileira, 1999.
LOWY, Michael, “Walter Benjamin: aviso de incêndio“, trad. Wanda Brant, SP: Boitempo, 2005.
SELIGMANN-SILVA, Márcio, “A atualidade de Walter Benjamin e de Theodor W. Adorno“, RJ: Civilização Brasileira, 2009.