Arquivo para ‘Memória Militante’
Publicado em 13 de junho de 2011. Comente

A perseguição terminou. A inquisição perdeu. Graças à coragem do movimento pela libertação, de juristas determinados e de Luís Inácio Lula da Silva, a máquina penal no coração do capitalismo desta vez ficou de mãos vazias. Há um homem que vai para casa. Quanta alegria deves ter sentido, advogado, ao chegar ao cárcere com a prenda mais gloriosa do ofício: o alvará de soltura. Em tudo ao redor do caso Battisti, há qualquer coisa de fisicamente, visceralmente insuportável, algo que faz parte de nossas instituições. O sistema penal aceita tudo. Convoca, em torno de seu ritual malsão, os magistrados, os policiais, os jornalistas e, nem tão na sombra, a sociedade de bem.

Quanta atitude farisaica, legitimada por florestas de livros, por arengas editoriais,  por interesse próprio em renegar um passado ainda vivo, que perturba o estado. O mesmo estado que, nos anos 1970 e seus comandos paramilitares, não sentia remorso em explodir bombas em praças, para dobrar a luta dos trabalhadores. O mesmo estado que, nos anos 1970 e suas leis de exceção, não via problema em prender e arrebentar, matar, estuprar, torturar, em mastigar física e simbolicamente uma geração inteira de resistências, sonhos e amores. Basta de pregação moral sem memória. Esse mesmo estado agora invoca a falácia da impunidade — quando, na realidade, há e sempre houve excesso de punição, e seletiva, e racista, por todo lado —, para rancorosamente perseguir os que, certos ou errados (que me importa o certo?), lutaram. E morreram porque lutaram. E lutaram porque tinham que lutar.

A prisão é um lugar político. Nela desemboca a história: a escuridão em que imergem seus anônimos esmagados. Battisti é um um joão-ninguém? Tanto mais justa a sua libertação. Que seria a história das lutas senão a história desses pés-de-chinelo que ninguém defende, que não valeria a pena defender? Esses pobres diabos sem pai nem mãe, escorraçados e trancados sozinhos na prisão. Esses que, em condições normais, você não poderia sequer ver e ouvir, quando muito os seus vestígios — vestígios de quem “se dana”, e se danando, nos condena.

Foucault certa vez disse ser bom que o poder punitivo por vezes se inquiete, ante estranhos paradoxos e, sempre, não se sinta jamais tão seguro de si próprio.

Dito isto, afirmo com convicção: é preciso libertar a década de 1970. Ela inteira, de A à Z. Sim, libertar todos, todos de esquerda e de direita, matadores, ladrões, estupradores, torturadores de grávidas — não façamos distinção. Que os mortos enterrem os mortos, porque os resistentes nunca morrem. Mas sem conciliação. E sem perdão. O contrário do bobajol vingancista não pode ser o bobajol medianeiro.

Abrir as prisões da história e esconjurar-lhe o silêncio, a tergiversação, a impudicícia histórica, o não-é-bem-assim. Saber tudo, de todos os ângulos, todas as verdades. Engajar-se numa tática de inquietação e provocação. Lutar não pela verdade, mas por um regime de produção dela, que nos faça… melhor, que nos coaja a inapelavemente dizer tudo, sem meias-verdades ou meias-mentiras. Eis a parrhesia como política da memória.

A prisão, a tortura, o horror não foram exceção. Nunca. Achamos que, para enfrentar a ventania que varre as nossas mesas, bastaria pôr pesos sobre os papéis, em vez de fechar a janela. Punir alguns por seus supostos excessos não redime. Instalar o vingancismo no núcleo da verdade não faz justiça aos que lutaram e morreram. Porque a ditadura foi a regra. Não houve excessos, mas normalidade. E à normalidade se alinhou boa parte da classe militar, da classe política, do Jornal Nacional, do funcionalismo público, os promotores, os advogados, os  juízes, os engenheiros, os jornalistas, os professores, a nova e a velha geração — nossos pais, tios, avós. Se todos têm culpa, ninguém a tem? Não. Se todos têm culpa, ninguém não a tem. Então conhecereis a verdade, e ela libertará.

Libertemos a todos.

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Textos recomendados sobre a soltura de Battisti:

Desmonte em dois tempos: quatro falácias sobre o caso Battisti, em A Navalha de Dali

A libertação de Battisti e o estado de exceção, em O Descurvo

Defesa de Battisti no STF (sustentação oral por Luís Roberto Barroso no youtubev — indispensável para entender o caso)

Mino Carta e a síndrome de Moby Dick, em O Descurvo

Sou anti-anti Battisti, no Amálgama

Publicado em 13 de fevereiro de 2011. Comente

A Dança, segunda versão, Matisse, 1910
A revolução árabe abriu a nova década. O eixo revolucionário começa a migrar da América do Sul, onde tantas mudanças incutiu nos anos 2000, para o mundo árabe. Os tumultos na Tunísia contagiaram as pessoas no Egito, na Argélia, na Jordânia, no Iêmen, em todos países árabes. Esta geração assiste à revolução no seu sentido mais lídimo. A palavra andava em desuso, desde as elegias ao capitalismo, com a queda do socialismo real. Com os acontecimentos de 2011, a revolução foi resgatada dos livros de história, de volta à conversa cotidiana, não mais demodê.
Uma revolução é sempre fresca de vivências e copiosa de elementos criadores. Mas ideólogos se apressaram em deitá-la na sua cama de Procusto, com teorias e sistemas encarquilhados. Trataram de suprimir a singularidade que faz dessa revolução um acontecimento sem precedentes. Pan-islâmica? socialista? fundamentalista? liberal-constitucionalista? nada disso.
As tentativas de classificação são muitas e todas erram em perder de vista o essencial. O que essa revolução tem de único: no que ela recombina todas as outras, e faz irromper o absolutamente novo. Não a classificaria nem como assembleísmo, espontaneísmo ou democracia direta. Ora, mais modesto que isso, quero aprender o que os árabes inventaram. Quero descobrir o que nem nome tem, muito além de socialismo ou capitalismo — esse falso problema da geração passada. Nem um nem outro. É inclassificável.
Por sua vez, a grande imprensa repercute o império, numa cobertura falsária, a-histórica, desinformativa. Como o império, maneja dicotomias malandras: ditadura laica x teocracia, transição ordeira (mediada pelos EUA) x caos destrutivo. O engodo opera menos ao vender soluções erradas, do que em colocar falsos problemas. Estes sequer passaram pela cabeça dos revolucionários.
Bastam 30 minutos de assistência à Al-Jazeera para perceber o fundo do poço em que se encontra a TV brasileira e seus jornalistas ignorantes, totalmente dominados pelos falsos problemas. Na realidade o jornalismo tradicional entrou em extinção, neste tempo da comunicação pós-jornais.
Finge-se agora se tratar somente de uma luta contra um ditador octagenário. Assim genérica, uma dialética personificada no tirano. Grosseira simplificação. A revolução não se resume a “mera” luta contra um ditador, mas exprime o apoderamento do destino por uma geração esquecida, atrás de renda, liberdade, cidadania. Como se um regime não fosse a conjunção de diversas e sutis causas e efeitos, — que, todavia, os árabes conhecem muito bem, porque é a vida deles. Mas o império precisa desarticular o discurso revolucionário, desacoplando-o das práticas tão perigosas.
A revolução demonstra cabalmente quão frágil é a ordem estatal e capitalista. Toda a simbologia e liturgia do poder desmorona em questão de dias, quando as pessoas desistem de participar dela. O poder constituído manipula o medo e vende a esperança, mas chega a hora em que as pessoas desesperam e a coragem cospe no medo. Desesperar-se acaba por levar à substituição do medo pela revolta, da espera pela ação, da moral comportada pela ética da democracia, da crença no futuro pelo tempo do agora. O medo muda então de lado, eis a revolução, e o sistema colapsa. A vaca se remexe, as moscas fogem. O poder soberano em toda parte compreende, assustado, o sentido real da potência da multidão. Não por acaso, se precipitam em concessões, em negociar a docilidade e clamar pela complacência.
A revolução significa romper diques. Para lucrar e acumular, o capitalismo precisa represar desejos e frustrar amores. Tais impulsos recalcados tumultuam as consciências e não poderão ser sublimados perpetuamente. Uma hora explode e não pára mais, indo além dos limites. A revolta encontra medida em seu próprio seio e recusa quaisquer apelos ao bom tom e à prudência.
É preciso recusar a tese de que o exército egípcio refreou impulsos mais destrutivos. Primeiro, porque o exército não passa de efeito de superfície. Dentro dele correm inúmeras divisões e conflitos, cada qual com seu corpo de relações sociais, políticas e econômicas. Segundo, porque no Egito o exército foi refém da multidão. Agiu quando e onde a multidão lhe permitiu e exigiu agir. Se evitou deturpações de alguns, foi mais como resposta à ética imanente aos revoltados, porque do contrário simplesmente não conseguiria. O exército esteve a serviço da revolta menos por condescendência ou simpatia, que por ser carreado por um turbilhão invencível, do qual não teve opção senão tomar parte.
A revolução árabe também é balde de água fria na esquerda apocalíptica. Passaram as últimas duas décadas lamuriando a derrota, num decadentismo barroco. Todas as formas de revolta estariam capturadas. O capitalismo teria irremediavelmente fechado as portas da lei. Nada restaria à esquerda senão refugiar-se em coleções sobre o estado de exceção tornado a regra, à espera de algum evento messiânico. Quando a utopia pressupõe a espera, levanta as mãos para os céus e não contra os inimigos. Tristes criaturas e tristes paixões, em contraste acintoso à alegria e ao carnaval das ruas de Túnis ou Cairo. As ruas não anunciam verdades a um futuro longínquo, mas se povoam de potências e modos de sentir— aqui e agora.
A revolução árabe também frustra outra esquerda. Militarizada em minúsculos partidos, julga-se encarregada de anunciar a boa-nova e guiar as massas ao reino da justiça. Tem fé num programa esquemático, e atuam para realizá-lo de modo maçônico, por meio de complôs e segredos. Dividem a sociedade em fiéis e pecadores, iluminados e iludidos, os últimos suscetíveis de conversão por panfletos, almanaques e cursos de domingo. Arrogante vontade pedagógica! ineficaz crença que a materialidade das lutas pudesse ser substituída por diagramas e esquemas.
A verdade das lutas se faz na premência do choque de forças. Porque só a luta ensina. Jamais faltou vanguarda em todos esses dias. Se se impõem iluminados pra guiar a massa, na mesma hora as pessoas iriam para casa. Praça Tahir foi o melhor curso intensivo revolucionário do planeta. Decerto mais rico do que cem livros vermelhos ou mil aulas universitárias. O fetiche da vanguarda enfraquece o movimento, ao dissociar meios e fins e lhe usurpar ímpeto e energia.
A revolução árabe tampouco pode ser chamada de anárquica. Pulsam formas de organização e se estabeleceu certa lógica da mobilização. Porém, isso se construiu no dia-a-dia, nas ruas e praças, nos entrechoques e escaramuças, nas incursões e evasões. A lógica não veio de cima, de um plano pronto: foi-lhe imanente. Organiza-se como um enxame: de todas as direções, sem centro ou hierarquia, onde circula um saber prático, fluido, retroalimentado.
A grande mídia e os ideólogos da soberania estão confusos e amedrontados. Disfarçam o incômodo, mudando de assunto: geopolítica e implicações econômicas. Temem o aprendizado dos ativistas pelo globo. Temem que aprendam a essência-potência dessas lutas, que consiste no como exprimir, articular, mobilizar, propagar. Não posso falar quase nada sobre esse como, pois não vivenciei a revolução nos seus dias e noites de sangue e pedras. Mas sei que aprendê-lo será o desafio daqui pra frente. Ousar saber e saber ousar, na expressão de um filósofo italiano.
A revolução não é só tunisiana, egípcia ou árabe, mas de todos os jovens e pobres e desejantes. Luta que é local no embate concreto de forças, mas global na proliferação intensiva de afetos e desejos. Flui pela rede mundial e deflagra novos focos pelo planeta. Já não é mais demasiado otimismo crer que pegue na Europa de tantos milhões de imigrantes e precários. A história se faz a olhos vivos e inspira uma geração nascida sob o signo da apatia e a descrença.
Publicado em 8 de outubro de 2010. Comente

Festival do Rio 2010.
Film Socialisme não é um produto imediatamente consumível. O fato de Godard assiná-lo não é acessório. Pelo contrário, constitui informação crucial e indispensável. A autoria desse filme condiciona a experiência de assistir. Por isso, não adianta o espectador ir ao cinema sem um pacto prévio com o autor, sem uma predisposição para refletir, mastigar, digerir, experimentar. 
Se não fosse assinado por Godard? Ora, a questão é retórica e não cabe. Seria outro filme. De uma forma ou de outra, vai-se ao cinema preparado para assistir a um Godard. Não fosse para o veterano cineasta produzir um filme assim, um filme godardiano, não haveria o menor sentido a esta altura do campeonato. Jean-Luc conta 80 anos e não está para brincadeiras.
Film Socialisme é arte na sua acepção mais “dura”. Embora, como estilo, remeta mais à filmografia dele dos anos 2000, como Elogio do Amor (2001) ou Nossa Música (2004), o longa reafirma um imperativo presente desde o primeiro longa — Acossado, de 1960. Desde o princípio, Godard se propôs a firmar o cinema como arte moderna, tão rigorosa e polivalente quanto a pintura ou a literatura. E a identificar no diretor a figura autoral, ou seja, o artista propriamente dito, que imprime uma estética, assina a obra e por ela responde diante dos públicos.
Como se sabe, o ímpeto por autonomia  artística/autoral inaugurou o modernismo da nouvelle vague, associada aos críticos-cineastas dos antigos Cahiers du Cinéma (Truffaut, Rivette, Rohmer, Chabrol et al), responsáveis por uma seqüência  de obras plenas de estilo, ao longo dos anos 1960.
Talvez por isso, haja a percepção mais ou menos generalizada que Film Socialisme não facilite a vida do espectador. Não foram poucos a sair aturdidos, desconsolados e mesmo irritados da sala de projeção. Outros, com expressão marota, contemporizavam: “é assim mesmo com Godard, o que você esperava?”. O que agrava o descontentamento, ao passar a impressão de tratar-se de um filme maçônico, só para os iniciados no hermetismo godardiano. 
O caso é que o diretor parisiense sempre se guiou pelo desejo de inovar, de reinventar formas, de reconstruir-se na sua trajetória cinematográfica, ultrapassando a si mesmo. Por um lado, desde cedo, sua excentricidade por assim dizer deliberada produziu uma mitologia ao redor de sua figura. Por outro, nem por isso, por essa vaidade, fica descaracterizada a robustez e originalidade de sua obra, repleta de guinadas e reavaliações. Film Socialisme ressalta um cinema de reinvenção que efetivamente pensa o meio que o possibilita e produz — como suporte, dispositivo, metiê, linguagem, construção de sentidos etc. Modernismo oblige.
Com Film Socialisme, atinge-se um patamar que, na literatura, foi alcançado pela obra de James Joyce. Por mais anacrônica e leviana a comparação, a mim esse filme causou uma sensação próxima a ler Ulysses ou Finnegans Wake. Ou seja, provocou um misto de desafio, espanto e intriga. Entre Joyce e Godard traçam-se várias paralelas. Como nos romances joycianos, em Film Socialisme vislumbram-se o fluxo de consciência, a subjetividade transbordante, as múltiplas camadas narrativas de sentido, — tudo isso numa colagem intrincada de signos e elementos do imaginário, da mitologia, da história, da política, do próprio cinema. Como em Finnegans Wake, o conjunto não admite síntese ou sinopse, numa lógica fragmentária, em que cada fragmento desestabiliza a narrativa como um todo e estilhaça o tempo-espaço. Sobram cacos de imagens e ruídos.
Film Socialisme também é convergência e aperfeiçoamento de outros projetos de Godard. Os personagens questionam o seu estatuto como personagens, e têm consciência de participar de um filme, como em Cármen de Godard (1983) ou Detetive (1985). Aprofunda-se o ensaio com o digital de Elogio do Amor (2001), graças à filmagem em HD, formato 16:9, recheada de cores intensas (em especial o azul, o dourado, o azul-turquesa) e colossais planos das paisagens mediterrâneas. Como em Nossa Música (2004), a fábula estrutura-se em três movimentos, embora não siga mais a evolução da Divina Comédia.
Sobretudo, Film Socialisme retoma a História do Cinema (1988-98), cujos 240 minutos são agora condensados para exprimir o sentimento do século, na sua irracionalidade, barbárie, incompreensão e tragicidade. Como na História do Cinema, a imagem não cessa de expor e expor-se, toma posição no fluxo da história e constitui uma memória. Realidade e ficção, história e cinema entretecem-se num mosaico incongruente.
No conjunto, a descontinuidade domina nas várias instâncias: a montagem conflitiva, o áudio dissonante, o enredo em tríptico, a dramaturgia anti-diegética e a encenação des-dramatizante. Há uma enxurrada de citações dos mais diversos pensadores do contemporâneo, na boca dos personagens e do narrador em off. De tempos em tempos, letras garrafais sobre fundo negro pontuam os “capítulos”, até o derradeiro “No Comment”. Menos que pernosticismo ou intelectualismo (Godard merece um pouco mais de crédito), está em causa a investigação de traços, pistas e lampejos de acontecimentos, na sua precariedade. Nessa direção, as escadarias de Odessa (Eisenstein), o grande ditador (Chaplin), o velho oeste (Ford), e imagens documentais sobre guerras, fascismos, comoções. 
Com o tour de force de montagem, Godard tenta tirar lascas de questões graníticas e ultimamente insolúveis: representar o irrepresentável, exprimir o inexprimível, aceitar o inaceitável. Eis o século de cinema, isto é, o terrível século 20, do qual somos crias e  no qual ainda vivemos.  Entendido “século” como na Roma Antiga: período de tempo em que floresce uma geração. E a do diretor viveu intensamente as explosões revolucionárias, seus dilemas, seus riscos, suas frustrações, suas derrotas. 
Desvela-se assim a afinidade entre Film Socialisme e a filosofia da história de Walter Benjamin. O filósofo sondava fragmentos da revolução no continuum da história. E admitia, como faz o filme, a natureza contraditória e problemática da cultura (e se ressente dela), pois sabe que, como sobrevivente, é também produto da barbárie. Daí a melancolia que permeia o longa, consciente de seu caráter inescapável como parte do sistema, como integrante da tradição dos vencedores. Godard sabe que seu manifesto ultramoderno deve ser diluído e neutralizado, na lógica de consumo cultural de hoje. Mas  não se mostra pessimista. É romântico.
Como uma filmografia tão prenhe de realismo, inspirada por André Bazin nos anos 1950, pode convergir a tão confesso socialismo utópico? Ora, o realismo autêntico tem a utopia em seu núcleo.  Utopia que escancara a realidade e acha impulsos numa cultura imobilizada, na imagem aprisionada no presente. Utopia como a imaginação a arremessar-se ao futuro, a partir do passado ideológico que critica.  A imagem se faz fragmentária e dissonante, de ruptura. Logo, a crença nessa imagem é a crença na memória, enquanto fragmento das lutas pela libertação.
Film Socialisme é uma quimera. Não pode existir um filme assim e é precisamente por causa disso que tanto precisamos dele. Godard ainda pulsa.
Publicado em 28 de abril de 2010. Comente

Fulgurante mosaico da esquerda revolucionária.
Embora finalizado e projetado em festivais em 2005, o documentário de Silvio Tendler (“Os anos JK“, “Gláuber o Filme, Labirinto do Brasil“) só agora foi distribuído no circuito mais acessível aos grandes públicos. Obra multifacetada, madura e intelectual, o longa levou dezenove anos para ser concluído e inclui extenso painel de entrevistas com cineastas, filósofos (Susan Sontag, Leandro Konder, Gianni Vattimo), jornalistas (Franklin Martins), escritores (Eduardo Galeano, Amir Haddad, Augusto Boal), militares (Gen. Apolônio de Carvalho, Gen. Giap), políticos (Dilma Roussef, Arnaldo Carrilho) e dezenas de ativistas. Montado com imagens históricas de arquivo e excertos do cinema político (Eisenstein, Rossellini, Pontecorvo, Solanas, Amos Gitai), ainda traz em off três atores exercendo a narração. Esta, lado a lado com os documentos de arquivo e os depoimentos, dá o toque mais pessoal do cineasta na composição.
Focado na trajetória os movimentos de contestação da segunda metade do século XX, o filme viaja distâncias continentais para contar as guerrilhas e mobilizações no Vietnã, Camboja, México, Brasil, Argentina, Chile, Uruguai, Estados Unidos, República Dominicana, Argélia e Palestina, atravessando períodos distintos da história oficial. A afinidade eletiva dirige-se, na maioria das vezes, aos esmagados pelo rolo compressor da Operação Condor, dos aparelhos de estado, do imperialismo.
“Nunca houve um documento de cultura que também não fosse um documento da barbárie” (Walter Benjamin)
O resgate da memória não se dá pela construção de uma linha contínua da militância de esquerda, mas por fragmentos que freqüentemente são tomados desconexos. Momentos violentos de choque em que o tempo se contraiu, as coisas aconteceram muito rápido, de modo incontrolável e imprevisível, lançando as pessoas envolvidas entre a utopia dos vencidos e a barbárie dos vencedores. “Utopia e Barbárie“, com efeito, embute a filosofia da história de Walter Benjamin, e não a toa cite diretamente uma das célebres teses desse marxista judeu, surrealista e melancólico. Também não é coincidência a presença de Leandro Konder, acadêmico estudioso de Benjamin, dentre os entrevistados. 
É a sua Nona Tese, escrita pelo filósofo alemão em 1940, pouco antes de ser encurralado pelos nazistas e — assim como a guerrilheira brasileira Iara Iavelberg em 1971 — suicidar-se. Eis o texto, ipsis litteris também no documentário de Tendler:

“Existe um quadro de Klee intitulado ‘Angelus Novus‘. Nele está representado um anjo, que parece estar a ponto de afastar-se de algo em que crava o seu olhar. Seus olhos estão arregalados, sua boca está aberta e suas asas estão estiradas. O anjo da história tem que parecer assim. Ele tem o seu rosto voltado para o passado. Onde uma cadeia de eventos aparece diante de nós, ele enxerga uma única catástrofe. Ele bem que gostaria de demorar-se, de despertar os mortos e juntar os destroços. Mas do paraíso sopra uma tempestade que se emaranhou em suas asas e é tão forte que o anjo não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, para o qual dá as costas, enquanto o amontoado de escombros diante dele cresce até o céu. O que nós chamamos de progresso é essa tempestade.”

Essa tese ilumina as lutas políticas de esquerda também como uma batalha da arte pela memória. Para Benjamin, enquanto as classes dominantes rodeiam-se de uma cultura e uma história que as legitimam e as glorificam, — na unidade ideológica dos slogans nação, ordem e progresso, — cabe aos derrotados rememorar as fraturas revolucionárias. “Escovar a história a contrapelo” significa não permitir que a tradição dos oprimidos seja esquecida e, com ela, num resgate consciente, alimentar o presente de suas forças liberadoras. Do ímpeto revolucionário do passado, acender a centelha das lutas atuais, nas suas mais diversas frentes. O tropicalista Zé Celso Martinez declara à câmera: “a revolução é dizer sim ao sim e não ao não, é lutar não só por uma ideologia, mas por desejos“.
Utopias barbarizadas.
Tendler, mutatis mutandis, opõe a utopia de latino-americanos, palestinos, argelinos, vietnamitas, norte-americanos, à reação bárbara desproporcional dos governos e órgãos a serviço do establishment. De um lado, imagens das manifestações de rua, da quebradeira, do furor contracultural, da juventude articulada globalmente ao redor de seus ícones — Che, Mao, Martin Luther King, Ho Chi Min. Do outro, o imaginário fotográfico e cinematográfico aterrorizador das guerras imperialistas, dos massacres de rua, da repressão policial e, suma injuria, das torturas sistemáticas e científicas.
Daí a despreocupação em transitar livremente por militâncias tão distantes quanto a Primavera de Praga e a Revolução Argelina, a luta armada no Chile e a resistência heróica dos militares vietnamitas. Em termos benjaminianos, todos são momentos de iluminação profana, em que o céu revolucionário se rasga de utopia. Ou “orgasmos históricos“, no vocabulário do documentário. O escritor uruguaio Eduardo Galeano presenteia o filme com sacadas brilhantes, tal como a que classifica a história como uma velha matrona, lenta e emburrada, de difícil convencimento.
A recusa ao sublime.
A representação do sofrimento é sempre problemática, quiçá aporética em sua essência. Para o frankfurtiano Theodor Adorno, é tarefa de uma estética libertadora apresentar os choques, as catástrofes, a memória acumulada do sofrimento humano diante do real da história. Se Schiller pregava a arte como reino da leveza e da graça, para Adorno é preciso mostrar o indivíduo nos estertores da dor, na sua aniquilação crua perante as classes dominantes, sem apaziguamento/catarse. Compete à arte expor o anjo da história aterrorizado pelos sucessivos eventos chocantes e inadmissíveis e, dos escombros desumanos, mobilizar a consciência revolucionária.
E apesar da derrota em última instância, e da conseqüente chacina dos corpos militantes — mutilados, mortos e desaparecidos, — o agora da revolução (tempo-do-agora) pode renascer, ser reavivado sob novas formas. Ao tempo linear do progresso e da história nacional, em que os vitoriosos marcham sobre pilhas de cadáveres desfigurados de gerações esmagadas, contrapõe-se o devir intensivo da revolução, o seu sonoro “mais uma vez!” — memória que espreita, pronta para explodir o continuum da história oficial. Contra um historicismo servil, tem-se neste doc uma filiação direta ao que, naquelas ocasiões, não funcionou. E sem perder as qualidades (brechtianas) do militante materialista: o humor, a auto-ironia e a astúcia.
O filme confessa, a certo ponto, o pudor em falar de revolução. Tão demodê… porém, de toda sorte, o narrador esclarece que “toda revolução tem o seu cronista“. A narrativa sublinha a precariedade de suas convicções e, melancólica junto dos entrevistados, autocritica-se, esquiva-se de tantos e tantos ismos.  Docemente taciturna, uma curiosa cena acompanha uma minicaixinha de música movida por alavanca, cujo som vai diminuindo até o silêncio. Recortes do longa franco-canadense “As Invasões Bárbaras” (Denys Arcand, 2003). Neles, personagens da mesma geração que o cineasta (com cerca de 20 anos em 1968) relembram saudosistas os vários ismos a que se vincularam na vida, e concluem que foram ingênuos e ineficazes.
Revolução. Revolução cara-pálida?
A revolução ultimamente fracassa? O filme passeia por lugares onde, dizem, ela triunfou: Cuba e Vietnã. Mas passeia nos dias de hoje. Neles, entretanto, eis a marca do capitalismo homogeneizador, do consumo como raison d´être, da mediocridade cultural, para o spleen dos outrora revolucionários. É preciso conceder, todavia, que em Cuba há educação e saúde gratuitas de qualidade e, no Vietnã, os cidadãos têm voz ativa e orgulham-se de sua implausível resistência contra a superpotência então presidida por Lyndon Johnson e Richard Nixon.
Ora, talvez o problema seja justamente a concepção de revolução. Ao invés da escatologia, de sua redenção messiânica, ponto final da história, talvez seja preciso repensá-la (não só com Walter Benjamin, mas também com o filósofo pós-estruturalista Gilles Deleuze) como uma explosão momentânea de desejos, um relâmpago criador de valores — um devir. E então, tão fugaz quanto se instaurara, o ciclo revolucionário inevitavelmente amansa, desativa-se, dá lugar aos que a traem e usurpam o poder em seu nome. Contudo, apesar disso, os problemas são outros, a geração é outra, em suma, um novo tempo.
Incidentalmente, o documentário esbarrou no que é a manifestação mais audível dos processos sociais e políticos da revolução na década de 2010. Depois de sintetizar 50 anos em 120 minutos, não sobrou espaço para o tempo do agora, numa irônica contradição. Porque, concentradas na América do Sul, vivem-se hoje novas formas de luta. Com todos os limites e contradições inerentes à luta política (e sem os quais ela se paralisa), trata-se, ainda assim, de potentes mobilizações produtivas cabeça-à-cabeça com governos de esquerda no Brasil, na Bolívia, no Equador, na Venezuela — forças do trabalho, da renda e da cidadania que ainda nos fazem acreditar em palavras tão surradas e abafadas pela tradição/história dos vencedores: esquerda, revolução, utopia. Só que, sem perder a vitalidade, são palavras que devem ser redimensionadas pelas problemáticas presentes. Como não poderia deixar de ser, afinal, materialismo oblige.

Referências diretas:

KONDER, Leandro, “Walter Benjamin. O marxismo da melancolia“, 3a ed., RJ: Civilização Brasileira, 1999.
LOWY, Michael, “Walter Benjamin: aviso de incêndio“, trad. Wanda Brant, SP: Boitempo, 2005.
SELIGMANN-SILVA, Márcio, “A atualidade de Walter Benjamin e de Theodor W. Adorno“, RJ: Civilização Brasileira, 2009.