Arquivo para ‘Império’
Publicado em 3 de maio de 2011. Comente

Barack Obama agiu igualzinho às ditaduras da América Latina: torturou, matou, sumiu com o corpo e posou de patriota. Torturou psicológica, física e moralmente presos políticos em Guantánamo. Assassinou opositores políticos, sem qualquer processo legal, invocando um senso de justiça distorcido. Calcinou e desovou em alto mar o corpo de uma de suas vítimas. Negou o direito ao supultamento, tal qual Creonte. E usou do terrorismo de estado para salvar a sua popularidade mixuruca, na mais enojante patriotada de seu governo. O bom e velho we are the greatest… (preencha como quiser).

Nesse episódio, a única diferença de Obama para Pinochet, Lanusse ou Médici: os últimos não ganharam o Nobel da Paz — nem teriam a cara-de-pau de concorrer ao prêmio.

Bin Laden não tinha a menor importância. Filhote dos EUA no Oriente Médio, foi armado, treinado e propagandeado pelas potências ocidentais. Com a Aliança Islâmica do Mujahedin Afegão, lutou com Rambo contra o socialismo real da URSS, quando era chamado pela imprensa ocidental de “guerreiro da liberdade”.

O homicídio de Osama lança cortina de fumaça sobre o verdadeiro processo revolucionário: os levantes populares árabes. Aliás, foi a revolução árabe que propiciou o contexto para que o jihadista não tivesse mais importância. Os EUA só fizeram o papel de jagunço.

Espremido entre a direita do Tea Party e as ocupações de esquerda em Wisconsin, atolado na lama sangrenta dos desastres políticos e militares no Iraque e no Afeganistão, o presidente Obama cumpriu um arco completo. De uma campanha 2.0 tão promissora, culminou em seu avesso: no discurso do senhor da guerra. Parece ser o único discurso que lhe sobrou, num país cuja vida partidária se divide entre republicanos moderados (aka democratas) e republicanos fanáticos. Osama foi seu deus ex machina.

O império reafirma o estado de exceção. Reitera o poder soberano, alicerce de uma ordem global excludente e antidemocrática. Como tentaram eximir-se pelo crime as autoridades do Paquistão, em nota oficial: “This operation was conducted by the US forces in accordance with declared US policy that Osama bin Ladin will be eliminated in a direct action by the US forces, wherever found in the world.” Eis o recado imperial: posso invadir onde eu quiser, quando eu quiser, e exterminar quem eu quiser. Temai.

2011 começou um ano revolucionário mas parece que pode degenerar mesmo como o ano do golpismo: o fracasso definitivo do que Obama exprimia, o movimento Tea Party, a guerra “humanitária” na Líbia, a extradição de Julian Assange, a invasão saudita no Bahrein, o controle da internet, a ministra Ana de Hollanda e os abusos de Belomonte.

Estamos no ano dos Frankensteins.

Publicado em 21 de março de 2011. Comente

Publicado originalmente no Amálgama (clique para ler), em 20 de março de 2011.

Obama estava distante e cansado. Pronunciava as falas maquinalmente. Parecia cumprir a agenda em Brasília como um burocrata aborrecido, vagamente interessado pelos assuntos em pauta. Nem Lula compareceu para conferir maior vibração à visita do presidente americano. Num certo momento, um assessor lhe confidenciou algo ao pé-do-ouvido, e Barack respondeu: “proceed“.
A cabeça de Obama estava longe. Daqui, ordenou a Operação Alvorada da Odisséia. Os EUA estão à frente da intervenção militar na Líbia. Articularam seus aliados no Conselho de Segurança da ONU, Reino Unido e França, para aprovar a Resolução 1.973. Muito mais do que estabelecer uma zona restrita de voo sobre o território líbio (que por si só já infringe a soberania e é casus belli no direito internacional), como vem sendo noticiado, a medida autoriza amplamente a “adotar todas as medidas necessárias (…) para proteger civis e populações civis sob a ameaça de ataques na Líbia, inclusive Benghazi, porém excluindo a ocupação militar de território.”
Obama está acuado. Enfrenta crescente descontentamento nas bases mais tradicionais do Partido Democrata, bem como no movimento jovem que, turbinado pelas redes sociais, o elegeu. Entrementes, a oposição unificada ao redor da pauta ultraconservadora do Tea Party se fortalece a cada dia. Neocons e fundamentalistas cristãos pressionam Barack pela direita, ao mesmo tempo que irrompeu nas ocupações de Madison (Wisconsin) uma nova esquerda, insatisfeita com as hesitações e retrocessos do governo Obama.
O senador democrata John Kerry (membro do comitê de relações exteriores do senado) apoiou a ação militar. Usou argumentos humanitários, como nas intervenções do governo Clinton nos anos 1990, em Kosovo e Somália. Parte da esquerda mundial segue na mesma linha dos direitos humanos.
Por sua vez, os neocons republicanos igualmente clamaram pela intervenção, mas tomaram como exemplo as ações militares do governo Bush, no Iraque e no Afeganistão. Em síntese, é preciso reafirmar a liderança norte-americana na propagação dos valores ocidentais, e garantir a segurança de seu território diante do terrorismo.
Se o argumento republicano é simplesmente nefasto e fanático, o dos democratas e parte da esquerda mundial deve ser acolhido com um grão de sal. Achar que uma intervenção ocidental, por si só, possa resolver a guerra civil e promover a democracia na Líbia ignora a recente experiência no Iraque. Que, por sinal, não serve de exemplo para ninguém e, por isso mesmo, não vem sendo citado por nenhum dos movimentos rebeldes pelo mundo árabe. Ademais, de que democracia se está falando? A pacificação significa exatamente que tipo de poder soberano para disciplinar os árabes?
Acuado pela incapacidade de compor politicamente uma saída para a governamentalidade em crise, o presidente americano foi empurrado a um dilema amargo. Viu-se compelido a incorrer no mau hábito americano de intervir militarmente num país estrangeiro. E agir como um senhor da guerra, precisamente o que ele prometera não fazer. Na noite do dia 19, os Estados Unidos comunicaram oficialmente que estão à frente das forças intervencionistas.
Ou seja, Obama aderiu ao discurso de guerra & democracia, que é espinha dorsal da ordem imperial a que ele mesmo, desde o dia um da campanha, se propunha a construir uma alternativa. Some a manutenção do campo de concentração de Guantánamo e os fracassos no Iraque e Afeganistão, que a Líbia tem tudo para ser a pá de cal de seu projeto político. Esse governo frustrado completa o ciclo e retorna à estaca zero.
– Fogos por toda a Líbia de Gaddafi –
 
Apesar de não agir à moda John Wayne, como o antecessor, e ter conseguido negociar as abstenções de Rússia e China ante a Resolução 1.973, o presidente deu o proceed para uma aventura militar de larga escala. As repercussões de curto e longo prazo não reúnem nenhum consenso entre analistas. Na iminência de o ditador reconquistar Benghazi, num triunfo que seria a glória do regime, Barack sabia que a ação militar ganharia contornos bem mais largos do que uma mera ajuda ao estropiado exército popular do leste.
Não à toa, no dia 19, as primeiras missões não tenham se realizado com o patrulhamento dos céus líbios. Logo de início, a força aérea francesa tratou de atacar veículos terrestres, enquanto a marinha americana disparou 110 Tomahawks em direção à costa africana. Esses mísseis de cruzeiro atingem alvos a até 2.500 km, com 450 kg de carga explosiva plástica, capaz de pulverizar edificações inteiras. Na noite do dia 19 para 20, aviões bombardeiros furtivos B-2 investiram por toda a região sob controle das tropas de Gaddafi. Foram alvejados estações de radar, bases aeronáuticas, pistas de pouso, baterias antiaéreas, palácios, estradas e pontes.
É curioso como, durante as últimas semanas, tanto se debateu sobre a aplicação de uma zona restrita de voo, mas o único objeto voador abatido até agora tenha sido o solitário caça Mig-23 em poder dos revolucionários. A rede Al Jazeera informou que o piloto não sobreviveu à ejeção, realizada à altura baixa demais. A aeronave foi derrubada sobre Benghazi, coincidentemente no dia dos raids da aviação francesa e em circunstâncias que não serão aclaradas tão cedo.
Além desse aviador rebelde, a TV estatal Líbia, duvidosa quanto boa parte da imprensa ocidental, noticiou cerca de 50 mortos na conta dos bombardeios ocidentais dos dias 19 e 20. Como resultado, o primeiro esboço de oposição, por parte da China, Rússia e Liga Árabe, que declararam em termos similares que a intervenção foi longe demais.
Com o novo cenário, a batalha por Benghazi encerrou inconclusa. As tropas de Gaddafi se refugiaram nas áreas próximas. Os rebeldes fortificados na capital da insurgência comemoraram os bombardeios, mas não deixaram de reclamar que veio tarde demais. As derrotas dos últimos dias enfraqueceram-nos demasiado. No dia seguinte, em Misurata, outra cidade ocupada pelos insurgentes, mais a oeste, o exército governista acirrou o assédio com tanques e blindados.
– Gaddafi perde e ganha com a intervenção –
 
Para a contra-insurgência liderada por Muammar Gaddafi, a intervenção estrangeira parece ter unificado de vez as regiões sob seu domínio. Não se constatam mais apenas esquadrões mercenários e alguns poucos grupos leais agitando a bandeira verde vigente. As imagens mostram também milhares de líbios entusiasmados pró-Gaddafi, num número até então inédito.
Esses defensores do ditador se propõem inclusive a atuar como escudo humano, junto a potenciais alvos. No quartel-general em Trípoli, por exemplo, o New York Times relata um cinturão humano com “centenas de simpatizantes, inclusive mulheres e crianças”. Isto indica que Gaddafi conta com respaldo popular além do previsto originalmente pelo ocidente, e certamente mais do que mercenários e o núcleo duro do regime.
Resta saber como o ataque estrangeiro polarizará a população. Aqueles refratários à ideia de um protetorado ocidental, aos moldes do Iraque pós-Saddam, tendem a alinhar-se à ditadura de Gaddafi. Esse efeito pode intensificar em função da destruição causada pelos bombardeios e das baixas civis (os eufêmicos “danos colaterais”). Se a participação de mercenários em suas fileiras vinha depondo contra o nacionalismo proclamado pelo clã Gaddafi, agora, com os rebeldes abertamente aliados à ordem imperial, o ditador tem tudo para se firmar como o guardião de uma Líbia livre diante da “dominação imperialista”.
Afinal, a rede Telesur não estava tão enganada quando alertava que os pés do colosso não eram tão de barro assim. De subestimado ditador-chanchada, Gaddafi passou a estrategista respeitável, que não deve mais ser subestimado. Hugo Chávez, o único chefe de estado a apoiar abertamente o ditador, brincou: “Que loucura?…. a loucura é imperial!”
Os revolucionários líbios, de fato, pediram a intervenção. Estavam sendo cabalmente derrotados depois que o ditador reorganizou suas forças. Mais por lei da sobrevivência do que programa político, pois até então nenhum impulso revolucionário seguia nessa direção ocidentalizante. Caso Gaddafi tivesse reconquistado Benghazi e o restante do território, como acreditavam os analistas viria a fazer inexoravelmente, realizaria uma caça às bruxas, “casa por casa” nas palavras dele. A revolução teria de reorganizar-se como guerrilha, em árdua jornada, porém autônoma.
Não se pode esquecer da Al-Qaeda. O fundamentalismo islâmico da Al-Qaeda há tempos faz tabelinha com o fundamentalismo cristão dos neocons, um se alimentando politicamente do outro. Ausente no discurso e nas lutas da revolução árabe, que já cobrem 19 países da região, a intervenção ocidental pode pavimentar o caminho para a sua penetração no país. No Afeganistão, uma década de ocupação americana não foi capaz de debelar a rede de militantes radicais, que segue enraizada pelo país. Pode ser mais uma pasquinada, mas Gaddafi prometeu estender o tapete a qualquer um interessado em organizar atentados no ocidente, e citou nominalmente a Al-Qaeda.
– Império enquadra a revolução –
 
A intervenção embaralhou as cartas da revolução árabe. Quebrou o seu encanto. Passou o momento romântico e febricitante, que na Praça Tahrir condensava seu devir revolucionário. Enganou-se quem avaliava que a atmosfera geopolítica dos anos 2000 e seu discurso guerra & democracia estava superada com a eleição de Obama e a falência do neoliberalismo.
Se, na Líbia, o império assumiu a missão de derrubar Gaddafi, não hesitou em sustentar o ditador egípcio Hosni Mubarak até onde pôde, e se engaja por uma “transição ordeira” que, na prática, significa neutralizar a revolução.
Simultaneamente, mantém o fluxo de apoio político, armas e recursos às monarquias tirânicas e aliadas na Arábia e no Bahrein, onde a revolução é recebida à bala e poucos têm falado em “desastre humanitário”. Neste último protetorado imperial, a Praça Pérola foi demolida, para não servir como símbolo tal qual Tahrir.
Enquanto isso, no miserável e semiagrário (e sem petróleo) Iêmen, onde 50 pessoas foram assassinadas nos protestos de rua da última semana, limita-se a declarações esparsas de condenação moral, sequer cogitando de ação concreta contra o ditador sanguinário.
Cinicamente, vestida de humanidade e altos princípios, a ordem imperial continua operando no capitalismo mais perverso, o que depende da guerra. Os senhores da contrarrevolução não mais hesitarão em rugir seus canhões: o mais barulhento dos argumentos. Daqui por diante, a revolução é morro acima.
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Outros textos recomendados:
A revolução não cede aos Tomahawks, por Antônio Martins, no Outras Palavras (excepcional artigo usando fontes de blogues árabes ou sobre o Oriente Médio)
O teatro de Kadafi e um pensamento sobre o Conselho de Segurança e o Brasil, por Daniel Lopes, no Amálgama (opinião divergente, mas bem embasada)
Obrigado, Obama!, por Danilo Marques, no Inferno de Dândi
Quando estamos sós, por Hugo Albuquerque, no Descurvo
Publicado em 23 de fevereiro de 2011. Comente

Publicado originalmente no Ponto Outras Palavras, em 22 de fevereiro de 2011. 
Dois oficiais superiores da Líbia desertaram pousando na ilha de Malta com seus Mirage F1
Apesar dos abalos continuados no Iêmen e no pequeno Bahrein, o epicentro do terremoto revolucionário agora está na Líbia. Depois de derrubar ditaduras na Tunísia e no Egito, países fronteiriços a oeste e leste, a terceira peça do dominó parece ser mesmo o estado “socialista e popular de massas”, comandado por Muammar al-Gaddafi há 41 anos.
O desdobramento da revolução árabe contesta narrativas apressadas. Alguns analistas vêem como fator causador do movimento a aliança entre as elites dirigentes e o bloco EUA-Israel. Culpam o pacto neoliberal em vigor há três décadas, entre governos servis e interesses do capital internacional. As pessoas revoltaram-se contra os regimes tunisiano e egípcio porque perceberam não passar de instrumentos a serviço do mercado global e suas usinas de desigualdade e injustiça. A insatisfação das massas diante do capitalismo e do americanismo contrastava com a dócil subserviência dos dirigentes. Esse contraste acabou por minar a legitimidade dos ditadores Zine Ben Ali e Hosni Mubarak, que sucumbiram aos primeiros fogos.
Daí a expectativa desses analistas, que a revolução tivesse por progressão solapar os governos mais pró-ocidente da Arábia Saudita, da Argélia, do Marrocos. Mas não esperavam, — pelo menos não agora e com essa fúria, — a Líbia.
Embora um dos maiores países do continente, a população líbia se espreme numa delgada faixa de praias, palmeiras e figueiras, entre o Mediterrâneo e a imensidão do sertão saariano. Conta 6,4 milhões de cidadãos, pouco mais da metade da vizinha Tunísia, cuja área é 11 vezes menor. A capital Trípoli, no oeste do país, tem o porte de uma metrópole média como Porto Alegre. Benghazi, a segunda cidade e pólo da região leste, ombreia com a litorânea Santos.
Apesar de os líbios se originarem, na maioria, de etnias não-árabes, como a berbere, podem ser considerados um povo culturalmente árabe. 80% têm como primeiro idioma o árabe e 97% confessam o islamismo sunita.
A Líbia ocupa o 53º posto no ranking de IDH (2010), entre o Uruguai (51º) e o México (56º), melhor que o Brasil (73º), e muito à frente da Tunísia (84º) e o Egito (105º). Sua receita vem das reservas de petróleo no deserto. A Líbia responde pela 17ª produção mundial (2008), um pouco menos que Iraque, Brasil e Venezuela. Muito, levando em conta a pequena população para distribuir os dividendos.
Desde 1969, vige na Líbia um estado socialista. Depois de um dos mais insólitos golpes de estado da história, o então capitão Muammar al-Gaddafi, com apenas 27 anos, assumiu o poder. Extinguiu a monarquia, instituiu comitês municipais e o Congresso Geral do Povo, expurgou o fundamentalismo islâmico, fez reformas de base, comandou o desenvolvimento de um país que, até então, era uma colcha de elementos tribais e coloniais. Na Líbia popular-socialista, os trabalhadores são chamados de “parceiros” do estado, e não funcionários.
Gaddafi sintetizou a sua doutrina, uma mistura de democracia direta, igualitarismo e economia planejada, no Livro Verde. Espécie de manual de uso para a política líbia, foi publicado em 1975, 11 anos depois do mais célebre Pequeno Livro Vermelho, de Mao.
O organismo estatal de comitês e assembléias converge, como um funil, na liderança carismática de Gaddafi. Um autocrata nos moldes clássicos: sábio, paternal, soberano, que espalha cartazes gigantes nas ruas planas e seus edifícios com terraços ajardinados. Outorgando a dogmática do Livro Verde e manejando o mito do inimigo externo (“o imperialismo”), o regime bloqueou a formação de grupos opositores, sustando qualquer canal para o dissenso.
Com a repressão, e diferentemente do Egito e da Tunísia, não se organizaram movimentos de matiz religioso. Tampouco grupos de esquerda, haja vista que o próprio estado monopoliza esse espectro ideológico. A dialética foi usada, portanto, para sedimentar o monólogo do poder: ou se é socialista junto do regime, ou se é pró-americano e pró-Israel, logo, inimigo do povo.
Na política externa, Gaddafi construiu a reputação com um virulento discurso antiamericano e pró-Palestina. Alinhou-se ao socialismo real da URSS e aos aiatolás do Irã. Patrocinou o IRA, o ETA e a Fatah de Abu Nidal, pródiga em atentados aeronáuticos. Gaddafi apoiou Abu Nidal, na linha da rejeição da existência do estado de Israel. Apoiou-o também a título de “retaliação”, ante os bombardeios norte-americanos a Trípoli e Benghazi, determinados por Ronald Reagan, em 1986 (bombas atingiram sua casa, matando a filha do ditador, de 15 meses).
Nas últimas décadas, as mudanças no modo de produção capitalista diminuíram os lucros da indústria do petróleo, relativamente à geração global de riquezas. A incapacidade de multiplicar novas dinâmicas produtivas e disseminar renda moldou uma geração inteira de jovens precarizados. Hoje, 50% da população têm menos de 25 anos e a desocupação produtiva da juventude é vasta. Assim, por um lado, a renda per capita líbia está na 56ª posição no mundo; e por outro, 30% de sua população vivem abaixo da “linha da pobreza”, segundo a ONU. Agrava a situação a desigualdade regional no eixo oeste-leste. Enquanto Trípoli aglutina a elite econômica, ligada à família de Gaddafi e ao creme da burocracia estatal, em Benghazi se amplia um bolsão de pobreza.
A nova conjuntura forçou Gaddafi a mudar de estratégia. Nos últimos 10 anos, deixou de ser o cachorro louco para assumir o status de pop star. Espalhafatoso e anedótico, encheu-se de grifes e faz-se rodear por beldades: o protótipo do “ditador pós-moderno”. É sintomática a sua intimidade com o premiê italiano Silvio Berlusconi.
Na década de 2000, Gaddafi fez as pazes com a Europa e os EUA, anunciou a desistência de fabricar armas nucleares, expulsou os militantes ligados a Abu Nidal, indenizou as vítimas dos atentados da Fatah na década de 1980, recebeu a visita de Condelezza Rice, aderiu ao slogan da “guerra ao terror”, discursou na ONU, pôs o filho Saif al-Gaddafi pra estudar filosofia política em Londres, onde obteve seu doutorado, e personificou nele um projeto de abertura política (que, todavia, nunca foi além da promessa).
Tudo isso rendeu ao ditador a admissão no club imperial. Caíram as sanções da ONU. Grandes empresas passaram a operar em solo líbio, inclusive multinacionais com sede no Brasil: Petrobrás, Odebrecht, Queiroz Galvão, Andrade Gutierrez. Agora, todas pagam caro pela aposta num regime antidemocrático.
Gaddafi tornou-se mais um representante do socialismo do século 21. Déspota ilustrado que, se por um lado fazia o jogo do neoliberalismo, por outro reforçava o eixo “contra-hegemônico”, junto de Irã, Venezuela, Cuba e, com alguma licença poética, o Brasil (cuja política externa sumamente ambígua aproveitou ao máximo as tensões para fazer bons negócios e abrir caminho às empresas nativas).
Mas então veio 2011, ano da revolução árabe, e os líbios se contagiaram do ímpeto de mudança. Começando pelos pobres mais excluídos do leste, com foco na cidade de Benghazi, em duas semanas o tumulto se alastrou por todo o país, reunindo tribos tuaregues, jovens precários, pequenos grupos religiosos, trabalhadores e desempregados.
O estado líbio tenta, desesperadamente, interromper as redes e mídias que precipitaram a revolução. Derrubou a internet e a telefonia celular, proibiu a cobertura pela imprensa, embaralhou eletronicamente os sinais de transmissão. Nada disso surtiu efeito, e o tumulto só se aprofundou nos últimos dias.
Defrontado com uma nova verdade, de que o Livro Verde nada fala, o ditador mostrou a face mais antidemocrática. O discurso socialista unitário expôs a sua crueza: uma ditadura burocrática, um capitalismo de estado, um consenso fechado e autoritário, surdo à autoorganização popular e às demandas por trabalho livre e partilha da renda.
No Egito, no auge dos protestos, o exército não interveio, escusando-se que não poderia investir contra o próprio povo. Na república “popular” da Líbia, distintamente, esse discurso é impossível, porque o povo é o estado. Nessa operação paradoxal, uma multidão revoltada se torna inimiga do povo. Logo, as forças armadas devem reprimi-la com todos os meios.
Como Gaddafi reage?
Impõe a paz cartaginesa, ultima ratio do estado. Usa os petrodólares para contratar mercenários do Níger, do Sudão, da Serra Leoa, e monta grupos de extermínio. Daí a ordem dos bombardeios contra civis em Benghazi. A história dá voltas: eis atavismo dos bombardeios ordenados por Reagan em 1986, contra Trípoli. Recapitula ainda a repressão fascista contra líbios pelo marechal-do-ar e governador colonial Ítalo Balbo, na década de 1930. A Itália de Mussolini também usava a força aérea para conter o movimento de resistência popular (dica: o filme O Leão do Deserto, de 1981 , sobre a guerrilha anticolonial líbia, com Anthony Quinn no papel de Omar Mukhtar).
Enquanto isso, o filho e sucessor Saif Gaddafi, supostamente responsável pela Glasnost, aparece na televisão estatal em tom de confrontação irrestrita e sacrificial, “até o último homem”. Estudou em centros acadêmicos de excelência para vociferar discursos à maneira de Hitler? A transmissão do pronunciamento foi recepcionada às sapatadas, enquanto monumentos do Livro Verde eram despedaçados pela fúria dos insurgentes.
Como muitos servidores, civis ou fardados, simplesmente não compram esse discurso simplório do poder, a deserção vem em massa. Embaixadores demitem-se, guardas de fronteira abandonam os postos, unidades militares amotinam-se, pilotos desertam levando consigo as aeronaves. O sistema colapsa.
Os acontecimentos na Líbia mostram como a revolução árabe corre em diagonal pela dicotomia imperialismo x anti-imperialismo. Por mais que a ditadura tenha se aproximado da ordem imperial, ainda era pedra no sapato do establishment. Não deixou de ser considerado um garoto-problema, no nível de Ahmadinejad e Chávez.
Se as revoltas embutissem um nacionalismo pan-árabe, antiamericano ou antissemita, não faria sentido derrubar o último herdeiro do nasserismo, propugnador de um estado forte para lutar contra a opressão imperialista. Pelo menos, não antes de varrer a monarquia absolutista saudita, até agora incólume face à onda revolucionária.
O contágio tão premente da Líbia, terceira ditadura escorraçada pelos cabelos, mostra que suas causas vão muito além da dualidade capitalismo x socialismo, mercado x estado. As “ditaduras de mercado” foram demolidas tanto quanto a “ditadura de estado”. Em ambos os casos, uns poucos beneficiados exploravam os muitos, na mesma medida em que a participação política era sistematicamente bloqueada. O essencial, o mecanismo de exclusão, a desmobilização política, funcionava de um jeito ou de outro.
Com a revolução, outra vez o dique se rompeu e o medo mudou de lado, extravasando um novo mundo, desejante de compartilhamento e produtividade. A proliferação de afetos e desejos é intensiva. Ou seja, efetua-se não apenas por contiguidade (juntar-se a certo discurso ou grupo preexistentes), mas numa mutação interna de percepção, numa dinâmica de autovalorização (criar a sua verdade, formar o seu grupo).
A força da revolução também está em sua imprevisibilidade. Dinâmicas intensivas podem produzir novos focos em lugares distantes. Regimes até pouco tempo firmes como rocha ruíram como castelos de cartas. O ímpeto multitudinário ameaça contagiar países antidemocráticos do norte ao sul da África, do Magreb à Europa Mediterrânea, do Irã teocrático à China socialista.

Publicado em 5 de março de 2010. Comente

Uma versão de “Counter Strike” para o cinema. O próprio filme sugere o paradigma do videogame, quando mostra os militares jogando playstation nos intervalos das missões. Assim como os games virtuais viciam, a guerra vicia. Tema conhecido do documentário de Michael Moore, “Fahrenheit 9/11” (2004), em que jovens americanos declaram não ver a diferença entre jogar videogame e operar as armas contemporâneas, geralmente ao som de rock pesado. O longa divide-se em seqüências praticamente independentes umas das outras, em que os personagens têm de realizar missões e cumprir objetivos: desarmar bombas, identificar inimigos, matá-los e sobreviver ao processo. Numa delas, franco-atiradores digladiam à distância como em “Counter Strike” e jogos no estilo. Dá até vontade de tentar a “brincadeira“.
Tudo filmado de modo tenso, ríspido, trepidante, como um jogo de ação. Os três protagonistas findam estereotipados e poderiam pertencer a um menu de opções de “character” ao espectador/gamer, antes da primeira fase: o negro da pesada, o caipira selvagem, o novato assustado. Não há progressão da história nem arco dramático, senão uma sucessão de cenários de operações para os soldados. No final do filme, ao invés do “mission accomplished“, o game é resetado, o marcador volta à estaca zero, para ainda mais missões.
A superprodução falha em encetar qualquer espécie de crítica à invasão do Iraque pelos Estados Unidos, impelida por interesses unicamente econômicos, respaldada por uma grande mídia carneira, à revelia da ONU e do direito internacional. Os iraquianos são vistos do ponto de vista do exército americano: ameaçadores, imprevisíveis, ignorantes, potenciais homens-bomba. A ameaça vem de todo lugar, reafirma “Guerra ao Terror” em uníssono com o discurso oficial.
No final, a compaixão do sargento sulista pelo menino assassinado resta casual e fria, e a sua revolta confunde-se com o “vício” por operações ainda mais emocionantes e perigosas. O esboço de comentário sobre a relação entre consumo e guerra finda simplório, quase hipócrita, na medida em que a própria indústria cinematográfica faz parte do jogo. Diferente da tradição cáustica de filmes de guerra do Vietnã, este longa não só legitima a ocupação ilegal e ilegítima dos EUA no Iraque, como a estetiza dentro do formato do videogame, comunicando-se assim tão bem com as novas gerações (daí o sucesso de bilheteria). Não à toa veteranos do Iraque criticaram tanto o filme, por seu falso realismo. Em suma, o filme faz parte do esforço de guerra.