Arquivo para ‘Gestão da Pobreza’
Publicado em 18 de outubro de 2010. Comente

Um dos leitores do blogue preferiu responder à crítica do filme num mail privado, a comentar diretamente no post. Para enriquecer o debate sobre esse longa de 2010 que já nasce polêmico, transcrevo a provocação instigante do leitor, e também a réplica do blogueiro.

Leitor: Oi Bruno, lendo sua crítica de Tropa de Elite 2, que acerta em cheio vários pontos, não pude deixar de considerar que talvez você tenha exagerado em sua militância – que obviamente reflete nos seus sempre bons textos. Fiquei pensando na velha discussão sobre o papel da cultura e que impacto ela tem na política. Historicamente, a única ocasião em que a cultura teve influência real numa situação política foi no famoso artigo “j’accuse em que Émile Zola escreveu uma carta aberta ao Presidente da França exigindo a libertação de um preso – o caso Dreyfus. Não dá para esperar, portanto, que um filme mude uma situação complexa como a questão da violência e da corrupção, nem que aponte soluções que os próprios políticos não conseguem encontrar. Levantar questões é o máximo que se pode esperar de um cinema engajado. A negação do Sistema já é o primeiro passo da dialética. Ou você tem exemplo em contrário, de filme que resolva questões políticas que ainda não foram confrontadas pela realidade? Uma pequena provocação.
Quadrado dos loucos: O problema com o filme está basicamente no travelling de Brasília e na ilação “O sistema é foda”. Foi desnecessário extrapolar, concluir além do que todo o material fílmico anterior permitia. É pretensão demais, e acaba soando como truque. Como assim, está tudo tomado pelo Sistema? Um discurso de estado de exceção tornado regra, como na filosofia de Giorgio Agamben — algo a se combater por sua generalização grosseira e infertilidade crítica. Discurso do PSOL, do Francisco de Oliveira, do Paulo Arantes.
Vou usar um coringa: Terra em Transe. Um filme que deslinda de um modo sintético, alegórico, os dilemas e conflitos do Brasil no começo da década de 60. De um lado, a esquerda populista, intelectualizada, culta; do outro, a direita moralista, modernizante, promíscua. As contradições políticas vertidas em drama poético. O debate da esquerda divide-se em antes e depois de Terra em Transe. Não sou é que falo isso, é a geração tropicalista. Nesse filme, Gláuber não tece ilações, não faz uma “grande narrativa”, mas um diagnóstico fino, emblemático, de um momento histórico, e dispara uma saída convulsiva, o transe de Paulo Martins, o lúcido apaixonado capaz de ir além da dialética esquerdismo x direitismo. Ele não está contra o Sistema como um todo, ele tem uma posição bastante material e datada sobre a luta. Isso é materialismo histórico: implode as condições de sua superação, a partir da concretude. Não por acaso depois de Terra em Transe entrem em cena os artistas do dito “cinema marginal”, além das ingenuidades, já avançando sobre outro terreno político-estético.

Publicado em 16 de outubro de 2010. Comente

José Padilha absorveu a crítica. Embora rico em bilheteria e vencedor do Urso de Ouro (Berlim), Tropa de Elite (2007) fora duramente castigado pela crítica de esquerda. Exaltação da violência, apologia policial, achatamento maniqueísta, pulsão de morte, — tais imputações irritaram o diretor, então conhecido por sua sensibilidade social em Ônibus 174 (2002). Nesse sentido, Tropa de Elite 2 esforça-se conscientemente em responder às acusações e redimir o diretor.
Ao contrário do primeiro, Tropa de Elite 2 empreende uma abrangente analítica do poder. Analisam-se as relações íntimas entre comércio de drogas, milícia, mídia, polícia e política. Menos que operações policiais e sua dinâmica de guerra, trata-se de esquadrinhar os vínculos ocultos das instituições, a realidade além da ideologia, as operações moleculares que sustentam o funcionamento do “Sistema”: as negociatas, os conchavos, as alianças políticas, o tráfico de influência, as propinas, as manipulações televisivas, o financiamento das campanhas eleitorais, os passeios de iate regados a uísque e mulatas de programa.
Mais do que sociológico, o filme galga dimensão antropológica. A “preparação do elenco” faz de tudo para rechear os diálogos de trejeitos e linguagem coloquiais, quiçá cafajestes, como mais um signo da fusão entre polícia e bandido. Na linha dos filmes de ação americanos dos anos 1980, os personagens expressam-se por frases de efeito, pontuadas por caras, bocas e armas em punho. Personagens rodriguianos sem qualquer escrúpulo moral, que fazem disso a sua identidade mesma.
Em Tropa de Elite 2, o mal deixa de habitar o inferno. Não mais transcende este mundo, como o outro absoluto do humano, a quem só caberia exterminar. Neste filme, o mal passa a ser imanente e pervasivo. O funcionamento íntimo do “Sistema” depende dos circuitos da violência, que legitimam o discurso da paz e, logo, a dominação dos territórios pelo esquemão polícia-milícia-política. Sai o maniqueísmo religioso, entram as humanidades acadêmicas. Deixa o palco o anjo vingador de preto, entra o militante esquerdista vestido de “Human Rights“. 
Findo o maniqueísmo, Nascimento não sabe mais para quê e por quem mata. Matar tornou-se um ato vazio, fútil, mecânico, um mero estalar de uma máquina autorreplicante e assustadora, chamada Sistema. A crise de consciência do protagonista é a descrença na polícia e na justiça, agora reimplicadas como válvulas da grande máquina.
Aí está a maior qualidade, mas também a maior impostura de Tropa de Elite 2. Depois de tantas seqüências destrinchando uma equação complexa e de múltiplas variáveis, o enredo converge em travelling na Esplanada dos Ministérios, em Brasília. Em off, o herói dá o veredito: “o Sistema é foda”. Todos estão implicados numa monstruosidade que não cessa de expandir seus tentáculos, para aprofundar seu domínio, para cooptar ou anular as resistências. De qualquer forma o Sistema é onisciente e onipotente, e está sempre um passo a sua frente.
Na lógica apocalíptica, em que o Anticristo triunfou sobre a Terra,  sugere-se que o único caminho para a esquerda é uma intervenção de fora, um ato radicalmente diverso e antissistêmico. Eis a pureza revolucionária, incorporada por Fraga. Para combater o Sistema, é preciso um rasgo messiânico, de fora da história, como na cena do discurso indiscriminado de Nascimento, na assembléia legislativa, contra a PM e a classe política como um todo.
Com esse final, a sensação de assistir a Tropa de Elite 2 é semelhante a de ler algumas dissertações mais “radicais” das humanidades. Bem orientadas e escritas, reforçadas por referências consagradas, com insights e exercícios de estilo, tais dissertações amiúde concluem sem propostas concretas, reduzidas a ilações vagas contra o Sistema. Tem-se um pessimismo que nada tem de radical, mas de cômodo e sem inspiração. No filme, depois de uma analítica do poder tão consistente e cuidadosamente fundamentada, o trabalho perde força. Perde porque acusa-se a torto e a direito, põe a culpa abstratamente no Sistema e descarta-se a política como atividade indispensável da democracia. Quer como visão ingênua/purista de certo esquerdismo (PSOL etc), quer como ranço apolítico de certa classe-média, a crítica ao “Sistema” esvazia-se.
Filme de ação com elementos de melodrama e cinema político, Tropa de Elite 2 não choca como o antecessor, naquela exposição crua e vibrante do “trabalho sujo” feito em nome da sociedade, mas por sua vez aprofunda a análise e, apesar das limitações, atinge seus alvos.

Publicado em 23 de junho de 2010. Comente

O Profeta é mais do que um filme sociológico. Como sociologia, ele empreende uma analítica do poder. Assim como Michel Foucault nos anos 1970, Jacques Audiard perscruta o poder na sua gênese molecular. A prisão pretexta o estudo do corpo-a-corpo das relações de poder. O poder da máfia, a força policial, a violência urbana não passam de efeitos de superfície.  Vetores resultantes dos dispositivos bem mais localizados e concretos, através dos quais o poder se exerce. O comando dos agentes penitenciários resulta secundário, quando se compreende o funcionamento estrutural da prisão. O poder da máfia igualmente, pois se constitui nesses circuitos muito concretos por onde circulam a violência e os corpos. É desse modo analítico que a arquitetura prisional, os movimentos, as pequenas maldades, tudo isso dá forma à narrativa de O Profeta.

A pesquisa do poder de Audiard realiza-se com a câmera atenta à relação fundamental entre território e poder. Ela caminha junto do protagonista-narrador para enxergar a micro-política da prisão. O pátio, os pavilhões, os corredores, os banhos, as salas de revista — cada local segue uma geografia política minuciosa. As seqüências de câmera-na-mão, bem como planos claustrofóbicos, garantem a percepção desses espaços, na sua violência intrínseca, no seu funcionamento impessoal e estrutural. Daí O Profeta ser um filme mais espacial do que temporal, mais arquitetônico do que narrativo.
A tese funciona na sinédoque: o sistema prisional comparece como explicação da sociedade lá fora. As tecnologias de poder (circulação, transmissão, formação de discursos etc), seja do aparato policial ou do mafioso, são estruturalmente as mesmas, dentro (parte) e fora da prisão (todo). Prevalece o isomorfismo estrutural: dentro e fora se confundem. No enredo, os muros são abolidos com as saídas regulares. A prisão plasma a sociedade e esta determina aquela. Âmago do pensamento de Foucault a partir de Vigiar e Punir.
No filme, Malik vence porque compreende o caráter maquiavélico das relações de poder. Daí reúna a virtude em agir estrategicamente: combinação de maquinações, coragem e timing. A história de seu crescimento na pirâmide criminosa é a história do domínio crescente das estratégias de poder. Todo conhecimento adquirido de Malik — nas aulas da escolinha prisional, no aprendizado de línguas, no mapeamento das gangues — não serve a outra coisa senão para aperfeiçoar as suas habilidades de estrategista. Nada de conhecimento conduzindo ao bem e à ressocialização, no melhor espírito socrático/humanista. Tem-se sim um jogo de poder baseado no senso de oportunidade, na determinação, na engenhosidade, em suma, na virtú renascentista. 
Como comentário de seu tempo, O Profeta sublinha o crescente contingente de imigrantes islâmicos, vindos do Oriente Médio ou do norte da África. Multidão que se organiza e gradativamente aumenta a sua força. Êxodo dos outrora colonizados que põe em risco o pacto norte-sul, implodindo a divisão capitalista do trabalho entre os hemisférios. Por isso mesmo, tais imigrantes — assim como os árabes do filme — enfrentam o racismo das direitas na Europa. O fenômeno Sarkozy, por exemplo. No longa, a ascensão dos imigrantes conclui-se na tomada do poder sobre os corsos, dentro e fora da prisão — sucede a vitalidade do Islã a “ameaçar” o Ocidente branco e cristão.
Mas onde está o profeta do título? É Malik, o presidiário humanizado, eu-lírico com o qual se estabelece a identificação do espectador. Trata-se de um tipo árabe, porém sem raízes culturais e, por essa razão, capaz de transitar livremente pelas identidades. Beneficia-se de seu materialismo radical. A voz de Deus é a força de quem não tem religião senão como vontade de potência.
Aclamado pelos públicos e crítica, O Profeta é um filme competente numa proposta sólida e bem delineada pelas humanidades francesas. Embora, no princípio, este filme-de-prisão cheire a mera tese sociológica, na sua evolução o diretor esbanja domínio formal e criatividade para potencializá-la na linguagem do cinema.
Publicado em 2 de março de 2010. Comente

Democratizo a seguir a introdução do livro “A vida dos direitos”, realizado em co-autoria entre mim e o amigo Alexandre Mendes, que é defensor público no Rio de Janeiro. Publicado através da Lumen Iuris em 2008, e resultado dos grupos de estudos do Núcleo de Pesquisa Lyriana/Grupo AGON, liderado pelo libertário João Galvão, e do círculo de filosofia política ao redor do pensador spinozista Augusto Madureira (UERJ). A coleção da AGON, da qual somos o volume 2, conta ainda com um volume 1 sobre Nietzsche, a justiça e a potência, autoria de Renato Nunes, e um terceiro volume, sobre o tempo, o messiânico, e Walter Benjamin, na pena de Vinícius Honesko. O Alexandre, só dois anos mais novo, que eu considero o meu irmão intelectual e de militância nômade, contribuiu com a solidez de seu doutorado em direito, e este escriba com os devaneios literários, um otimismo delirante, e certa grandiloqüência ainda imatura (mea culpa).   A culminação da escrita a quatro mãos foi um texto multifacetado, que ora se debruça com rigor sobre correntes da filosofia política contemporânea, ora adota um tom menos acadêmico numa enxurrada de intuições. Saudades!


INTRODUÇÃO


“Se as livrarias são motéis em que os livros dormem por algumas noites, para então serem recolhidos sem encontrar leitor, este livro talvez sequer chegue a alguma livraria. Como todo livro nos dias de hoje, já nasce como uma espécie em extinção. Sua sobrevivência improvável depende do bom encontro com espíritos livres, cuja solidão lhes incentive a percorrer estas páginas.

Isto não nos preocupa. Um livro não é tão importante assim, para que percamos o sono angustiados com o seu futuro. Mesmo porque um livro é uma peça isolada. É uma engrenagem textual de uma prática mais extensa que, um dia, transborda no papel. Este trabalho, por sinal, resulta de nosso amor por essa prática. Afinal, não vale a pena escrever um livro quando não amamos o que ele significa. Sem alegria, o esforço da escrita não passa de mortificação.
Subindo nos ombros de filósofos contemporâneos, a proposta aqui é engendrar ferramentas para a resistência. Feito o livro, que cada leitor tome o utensílio como se fosse seu e faça uso. Se não funcionar, recomendamos que o atire na lixeira. Não queremos, com pretensa eloqüência, conscientizar alguém ou algum grupo. Tampouco exercitar belos movimentos do estilo filosófico. E mais. Não nos interessa falar pelos outros, porque os resistentes, eles sabem e falam muito bem, decerto melhor do que os intelectuais tradicionais.
Não é que os indignos – os sem-terra, os camelôs, os presidiários, as prostitutas etc – não saibam ou não queiram ter voz ativa. É que toda uma rede de interdições, rotulações, perseguições e criminalizações desqualificam e calam as suas falas. Adiantamos que não consideramos a indignidade um bem em si, como se fosse positivo ser considerado indigno. Longe de nós filiação a qualquer tipo de mística do povo ou argumento ad lazarum. A indignidade é uma condição que acompanha a resistência. Produzindo o seu modo de vida, e participando das redes sociais, o indigno desafia o diagrama de poder em vigência e daí as opressões se abatem com rigor sobre eles. Onde o poder se exerce, algo resiste. E se o exercício é mais violento e sistemático, mais passional será a resistência.
É quem está resistindo, no concreto das lutas, que define em última instância os alvos, as táticas, as frentes e os métodos. O máximo que podemos esperar com a teoria é mapear um pouquinho o terreno, é analisar local e precariamente a organização do poder, é conceber possíveis e sempre difíceis ligações transversais entre os pontos de resistência. Neste sentido, a teoria pode servir como prática. Ou melhor: pode conduzir de uma prática à outra, tecendo redes de colaboração, ultrapassando barreiras invisíveis que os sistemas de saber a todo o momento nos impõem.
Este livro foi articulado contra um inimigo claro: o intelectual humanista. Temos a certeza de que não seremos nós a derrotá-lo, porém alguma espetada havemos de ter-lhe desferido. É certo que não suspeitamos da cândida boa fé humanitária que habita os corações humanistas. De fato, o que neles agredimos não são suas boas intenções. Mas, antes, duas coisas: a impotência de sua perspectiva dentro de uma concepção estratégica e a cumplicidade que o conceito universal de homem tem insistentemente mantido com práticas de expropriação produtiva, de controle da vida e de violência estatal – temas que são tratados em nossa exposição. Em suma, defendemos que fortalecer as forças da resistência não precisa passar pelo homem ou pelos direitos humanos.
Sim, dirão de nós que levantamos bandeiras revolucionárias com um discurso confuso e fragmentário, sem um posicionamento claro na luta de classes. Dirão que incidimos em um anarquismo fácil e estéril. Que dividimos a luta. Que apostamos em autores-dândi, egocêntricos e barrocos e – suma injúria – pós-modernos. Dirão, os humanistas, que o pensamento que agride o universal e o homem só pode ser de direita. Que queremos vestir o guerrilheiro com roupas de Rambo.
Que podemos dizer? Nossa prática é afirmativa e propositiva. Não há espaço para o pessimismo decadente e não acreditamos que tudo esteja perdido. A perspectiva é a resistência, porque ela não só é possível, como está acontecendo a olhos vistos, todos os dias. Não sentimos afinidade com o niilismo passivo de acadêmicos e militantes, cuja prática resume-se à indignação e lamúria generalizadas, cuja única agenda é a moralista “proteção” dos direitos humanos – de vez em quando reduzida tão-somente ao “direito à vida”.
Eles carregam nos ombros o peso dos valores humanistas. Quando esses valores chãos mostram-se drasticamente menos eficazes do que pensavam, aí sentem outro peso, o peso do real. E não o suportam. Desabam num moralismo rasteiro, culpando os outros – quiçá o mundo – pela sua própria impotência.  Acusam o pós-estruturalismo de erigir edifícios neoplatônicos de abstrações, mas são eles que, ineptos no choque com o concreto, submergiram na fábula maniqueísta. Cansaram. E assim se juntam a outros cansados – os rastaqüeras pra quem exercer a cidadania restringe-se a simpatizar com vítimas, expressar uma vaga indignação e acusar terceiros de imoralidade, como se isso comprovasse a própria moral.
A eles, afirmamos: quem vem com tudo não cansa.
O pós-estruturalismo de que nos abeberamos está comprometido com projetos políticos. Ele vive de antagonismos que não são colocados em termos morais. Aliás, desliza da moralina, pregando uma ética material da democracia, estritamente materialista e imoralista. Ademais, a analítica do poder, a genealogia, o materialismo histórico são máquinas de desestabilização dos saberes constituídos, dos estados de dominação, das centralizações do poder. O deserto intelectual não é gerado pelo excesso de polêmicas, mas pelas totalizações teóricas que patrulham e pretendem pôr arreios na produção de conhecimento. Tais edifícios fechados da verdade militante correspondem a organismos igualmente cerrados, hierárquicos e centralizados, no mais humanista espírito de rebanho. A máquina auto-replicante de militantes orgânicos confina com uma verdade moral ao redor da qual eles são, por eles mesmos, arrebanhados e policiados.
No contexto de uma academia dividida em latifúndios, nos quais especialistas mantêm reservas de mercado e se apascentam com recursos tarifados, o pós-estruturalismo embaralha as cartas, salta as barreiras epistemológicas e atravessa em diagonal as dicotomias prontas e as codificações onicompreensivas. O fascínio que pós-estruturalistas exerce está exatamente em não se terem rendido às sínteses simplórias por trás de estruturas enrijecidas, pois sua prática é a prática da liberdade produtiva.
FOUCAULT é o filósofo mais pop da atualidade porque é extremamente sedutor e seu pensamento tem enorme potência, e não porque “está na moda”; como alguns casmurros dogmáticos da esquerda invejosamente pregam. Diante do cristianismo recodificado em humanismo, toda filosofia do riso e da imanência receberá a pecha de herege.
A primeira totalização que, com o pós-estruturalismo, desprezamos é a do estado. Mas isto a esquerda tradicional não pode suportar. Em nenhum outro conceito, a organização transcendente de poder do cristianismo se mostra tão francamente atual quanto na de estado. Pensar além do estado e do mercado simplesmente não é uma opção para os humanistas, haja vista que é o estado o protetor máximo dos direitos humanos. Precisamente porque, hoje, essa afirmação é correta, devemos resistir-lhe. Ora, o estatismo monocórdio finge que toda democracia historicamente produzida o foi por sua causa. Contudo, a liberdade e a igualdade foram construídas pelas lutas democráticas apesar do estado e na maioria das vezes contra o estado. Mas, aparentemente, não tem jeito: a velha esquerda só sabe se contrapor ao discurso do mercado dizendo vivas ao estado.
Se a filosofia política teve êxito em livrar-se do conceito transcendente supremo, que é o conceito de Deus, por que, um dia, não poderia acontecer o mesmo com o conceito de estado?
O fetiche do estado também permeia a concepção de movimentos sociais. Na totalização estatista, o movimento social só faz sentido como força autônoma de pressão sobre o estado e não como plano imanente em que se constitui a produção – como poder constituinte. Pois mais importante do que aparelhos, que funcionam somente na lógica representativa, são as mobilizações produtivas, além da captura pelos dispositivos de poder. Aí reside a experiência radical de uma democracia produtiva, onde a produção é primeiramente política e, só num segundo momento, econômica. Atualmente, fomentar tais dinâmicas democráticas passa por mecanismos de remuneração da vida (ex.: programas de renda universal) e pela re-estruturação da partilha dos bens sociais (ex.: ações afirmativas, democratização do acesso universitário).
Boa parte do esforço do direito público tem sido dirigido à judicialização da política. Uma judicialização que procura, por meios cada vez mais sofisticados, neutralizar a dinâmica do conflito, que caracteriza o político. Atiram-se as fichas todas na decisão judicial: como se as lutas democráticas pudessem ser resolvidas por meio da racionalização da canetada. Condicionar o discurso jurídico, mediante teorias argumentativas da decisão, faz parte do sempiterno programa idealista. Que é exaurir os conflitos sociais, obtendo a conciliação definitiva das diferenças em um consenso derradeiro – porém sempre e sempre desigual, estático e controlado.
É preciso recordar que, no Brasil, a construção do estado de direito em que vivemos, com todas as suas vicissitudes e deficiências, só pôde ser iniciada graças às lutas democráticas do final dos anos 70 e dos anos 80. Longe de ser uma década perdida, foi um tempo de mobilização social e abertura constituinte, das bem-sucedidas greves sindicais do ABCD à mobilização popular das Diretas Já. Os anos 80 também viram o ressurgimento de movimentos sociais violentamente silenciados no período anterior.
Pretende-se que acreditemos que, em 1988, a Constituição encerrou o ciclo constituinte de democratização. Daí por diante, seria caso somente de desdobrar e efetivar a ordem jurídica outrora proclamada. Nas escassas ocasiões em que aborda o direito o mais originário: – anterior, produtor e garantidor dos demais direitos, inclusive do direito à vida – o direito à resistência, o constitucionalismo restringe-se a seu aspecto negativo, esquecendo-se do positivo: a produção de novos direitos. O direito à resistência é também um direito positivo, aberto ao poder constituinte.
A proposta deste livro é de todo diferente. À judicialização do direito, propomos a politização do direito. Sem uma sociedade politizada, não há democracia. Direito é o que fazemos dele: então queremos um direito que seja luta, jamais “paz social” ou “harmonia”. A liberdade é uma luta permanente, de produção social e colaborativa. À concessão transcendente da dignidade humana, propugnamos pela afirmação imanente da vida, inclusive pela produção na indignidade.
Portanto, apostamos numa concepção materialista da crítica. Isto significa subverter a discussão humanista sobre valores metajurídicos e transcendentes, para procurar e incentivar – nas margens dos diagramas vigentes de força, especialmente na indignidade – as linhas de fuga que potencializam a resistência. A resistência ontologicamente a primeira. O direito de resistência – surgido na “urgência da luta, na hora da verdade, mesmo diante da sentença da morte” (GLÁUBER ROCHA) – como o originário, o poder constituinte, o que produz a justiça e todos os demais direitos.”