Arquivo para ‘Feminismo’
Publicado em 2 de março de 2012. Comente

Na terça-feira passada, aconteceu a segunda sessão de debates da OcupaTeoria*, ao redor do tema “identidade”. Cerca de 40 pessoas ocuparam uma sala do velho edifício do IFCS e a coisa ferveu.

O tema foi introduzido por Paz Berti, militante da OcupaRio cuja aparência e trejeitos lembram o jovem Caetano Veloso. Testemunhou que a vida toda teve de escapar das identidades. No Brasil, está deslocado por ser um imigrante argentino, classificado pela lei como estrangeiro. Recentemente, por não portar documentos e estar junto de moradores de rua, foi “administrativamente” recolhido para o abrigo de Antares, a 50 km do centro do Rio. Na Argentina, Paz também está deslocado. Pois não se encaixa na identidade nacional: ele é natural da Patagônia, uma região pobre no sul do país. Na sociedade patagonesa, por sua vez, também não está no lugar. É que Paz descende de brancos espanhóis e índios mapuches, provocando certa discriminação da parte de ambos os lados. Não é considerado branco o suficiente nem índio o suficiente, não é “gente da terra”. Além disso, Paz fica perplexo quando é estimulado a declarar-se quanto à sexualidade: afirma gostar de meninos e meninas e prefere não ser classificado, ou pelo menos, quando não tiver jeito, classificado como pansexual. O mapuche argentino trabalha como ator e músico, e se sentiu atraído pela cultura de resistência do funk, onde encontrou caminhos livres e companhias para elaborar a sua recusa das raízes, seu êxodo para longe das prisões e perseguições da identidade. Foi motivo parecido que o levou a participar tão intensamente no Occupy. No quesito ideologia, se diz desvinculado de filiação ou preferência de princípio, professando um sui generis “lateralismo”. Ou seja, a habilidade de participar de movimentos e ativismos ficando “ao lado” dos núcleos e lideranças mais ideológicas, identitárias ou partidárias, de saber malandramente dançar entre os jogos de verdade sem se submeter a nenhuma. Paz parece dizer que não participa de ações conjuntas por compromisso ideológico, mas por uma condição que o atravessa, que o faz afirmar-se para existir além do que pretendem que ele seja.

O debate das duas horas seguintes eu nunca presenciei em atividade alguma da academia, de tão produtivo. A história  mais individual e molecular do apresentador foi transposta às múltiplas narrativas das resistências e lutas sociais. A identidade como questão micro e macropolítica. Surgiram exemplos do movimento zapatista, indígena, quilombola, negro-identitário, feminista-lésbico e outros. Comentou-se sobre Subcomandante Marcos e Panteras Negras. Discutiu-se como todas as identidades são construções, sempre em disputa, e onde a sua posição nisso depende de uma relação de força. Não há elementos inatos e todos se tornam o que constroem para si e/ou é construído de fora. Ninguém nasce mulher, torna-se, da mesma forma que ninguém nasce negro, gay, lésbica; senão quando muito numa operação retrospectiva, para o bem ou para o mal, quando da declaração “eu sempre fui…” ou “você sempre foi…”.

Rapidamente, foram desenvolvidos pontos e contrapontos à fala de apresentação. Que as identidades podem ser utilizadas afirmativamente, para alimentar lutas sociais de minorias. Que políticas e movimentos identitários conferem coesão, adesão e força, que fortalecem grupos em condição inferiorizada e oprimida, ao espalhar auto-estima, revolta e uma pauta clara para a organização. Que a desmontagem das identidades, isso de pós-gay ou pós-feminista ou pós-racial, em última instância, acaba casando com o discurso liberal das classes médias brancas ou embranquecidas. É a premissa de que bastaria viver como se não existissem raças (todos humanos!), que elas magicamente deixariam de exercer seus efeitos biopolíticos. Esse discurso cínico de que bastaria agir sem preconceitos, cultuar a diversidade e condenar moralmente o racismo, a homofobia e o machismo, para se gerar uma democracia racial. Como se essas violências não estivessem entranhadas no mundo real, nas relações materiais, na circulação de bens e signos, na divisão do trabalho, no acesso a direitos, renda e voz política. Como se não houvesse uma espécie de racismo e machismo civis. Reduzir a questão do racismo a um problema de consciência, um problema na cabeça das pessoas racistas, — e não do funcionamento social, com consequências econômicas, culturais e psíquicas.

Nada disso, contudo, absolve a identidade de agir como engrenagem de uma máquina política de controle social. É claro que as identidades existem. Ora, o negro, a mulher, o gay existem, e não deixariam de existir se fizéssemos um esforço coletivo de descrença em raças, gêneros, classes, nacionalidades. Diga para o negro numa blitz policial que não existem raças e identidades, ao estrangeiro africano ou boliviano ao procurar trabalho, ao gay numa prisão ou abrigo de recolhimento compulsório, a qualquer mulher voltando pra casa sozinha à uma da madrugada… Na nossa sociedade desigual, se não existissem os negros, seria preciso inventá-los.

Pra que serve a carteira de identidade, o passaporte? Pra que se utiliza a impressão digital, a ficha na delegacia, os cadastros em facebook, hotmail, nas lojas, no serviço do inquilinato, nas agências de crédito? Qual o real motivo de tanto incômodo ante o trânsito anônimo pela internet? Na realidade, existem processos de identificação e mecanismos de fixação com um rendimento político bastante efetivo, que interessam a alguns setores, mas não a todos. A ordem social faz uso de inúmeras determinações coladas nas pessoas, que se tornam individualizadas pelo que supostamente seriam, e é normal precisem continuar sendo. Quer dizer, normalizadas, disciplinadas e cobradas na necessidade de identificar-se permanentemente consigo mesmas. É central. Quem entende a concepção de classe e luta de classe somente na dimensão econômica (economicista), perde de vista como as coações identitárias estão na base. Existe um paralelismo das resistências sociais onde as identidades não aparecem num segundo momento.

As identidades não podem ser desconstruídas somente na teoria, nas ideias. Porque afinal de contas a identidade não está na cabeça das pessoas. Não se trata de reino do voluntarismo, onde eu pudesse me vestir e me despir das identidades como me desse na telha. As identidades só podem ser reconstruídas por quem está resistindo, re-existindo, reinventando outra forma de vida e de relações sociais. As teorias que importam serão aquelas que potencializem essa reexistência. Não me refiro unicamente a quem resiste em movimentos mais orgânicos e institucionalizados. Mas também ao reexistente do dia-a-dia, tratado como fora do lugar, do tom, da norma, que está frequentemente sendo desqualificado, excluído, prejudicado e, no limite, agredido e violentado; porém, apesar disso tudo, reexiste, faz emergir um outro eu. O Eu fervilhar de alteridade e se multiplicar. Essa reexistência depende de organização micropolítica tanto quanto de instâncias mais duras para veicular as vozes reexistentes. E quem reexiste sabe muito bem que pouco adianta simplesmente negar a identidade, tentar esquecê-la, fingir que não opera nele, porque, só com isso, ela não cessará de existir. Porque a identidade não é uma abstração, uma ideia flutuante.

Essas pessoas muitas vezes resistem dizendo sim!, dane-se! eu sou mesmo!, sou viado, negão, vadia ou índio! e no mesmo movimento, de todo indispensável, reexistem. O único sim que importa é duplamente afirmativo: resiste e reexiste. Pra essas pessoas, em determinadas situações, pode ser um salto existencial enxergar-se, enfim, dessa maneira, encarar como a Sociedade pretende que elas sejam e permaneçam sendo, como tais, e daí exorcizar a identidade e reexistir como algo completamente outro. Ou seja, tornar visível uma violência identitária que se pretende mascarada com a ideologia que não somos racistas, para poder destroçá-la com a paródia, o riso e a legítima defesa. É preciso continuar se movendo, arisco.

Ah, mas teriam identidades boas. Os loucos serem criativos, os negros sexualmente potentes, os índios mais integrados à natureza, as lésbicas mais roqueiras, os gays mais sensíveis etc. Ingenuidade. Como é fácil para quem enuncia os jogos de verdade de uma posição de poder reconfigurar essa (mera aparência de) boa identidade. Fazer do louco um ser perigoso, do negro um ser mais animalesco, dos índios pessoas retardadas no desenvolvimento mental, e gays uns sentimentalistas afetados. Quem detém hegemonia para comandar as identidades, essa seria uma pergunta mais correta.

Penso, inclusive, que em momento algum do debate, inclusive na apresentação do Paz, se cogitou desse conto de fadas pós-identidades que acaba naturalizando ainda mais as identidades, que já são majoritárias. O caso não está em opor identidade à diferença, mas assumir um ponto de vista.

A perspectiva da identidade. Há traços e elementos já constituídos que as pessoas possam aderir, e assim empoderar-se como sujeito coletivo. Então, um exemplo, a luta identitária ocorre saindo daqui: desta identidade coagida e capturada, o negro escravo, o índio inculto ou a mulher frágil; e passar (devir) para lá: o território de uma outra identidade, o negro rebelde, o índio sofisticado e a mulher afirmativa. Não é tanto ser reconhecido pelo status quo, mas construir um outro espaço social. Buscar uma identidade cultural. O problema nisso tudo é que identidade cultural tende a ser conservadora e estanque. Esclerosa-se como tradição, desdobra-se em expectativas e normas e, logo logo, é capturada como produto (negócio cultural, turístico ou folclórico). Toda a vez que um movimento identitário consegue passar de uma identidade a outra situação, precisa recolocar-se em movimento ainda outra vez, porque sucede uma tendência interna de institucionalização, normatização e identificação, que começa a reproduzir os mesmos problemas.

Outra perspectiva é da diferença. Muitas vezes a lógica identitária não enxerga a diferença, e somente consegue pensar na identidade real de que se parte e na identidade ideal a que se quer chegar. Não vê o caminho, o tornar-se, a passagem de uma à outra. E aí toda a diferença é pensada sob o prisma da identidade, deixada em segundo plano. Uma outra proposta, dos filósofos Gilles Deleuze e Félix Guatarri, é pensar a diferença como primeira, uma diferença em si, e só a partir daí as identidades. O que é muito mais produtivo. Penso, desta maneira, em primeiro lugar, o processo e não os produtos, a força constituinte e não o já constituído, a imanência da reexistência às transcendências das culturas existentes. Com isso, posso me concentrar nas estratégias, desejos, organizações que correspondam à uma fuga reexistente das identidades, mais do que ficar idealizando outras identidades.

Não foi isso que fizeram os negros quando fugiram dos engenhos e reexistiram como quilombos? Organizações que reinventaram uma cultura de reexistência, que nada tinha de purista e onde a própria África não era o ideal maior (mesmo porque não se viam como descendentes de uma única nação, a África, uma abstração dos colonizadores)? Não foi assim que surgiu a primeira cultura brasileira de resistência, o candomblé, a capoeira, os ritmos e as lutas dos escravos auto-libertos? Quando os zapatistas deslizam de pautas identitárias e assumem o índio difuso e fragmentado pela sociedade mexicana, não estarão eles também assumindo a perspectiva da diferença, muito mais potente, expansiva e agregadora, do que se limitar a lutar por terras em Chiapas? Não é isso que propõe o antropólogo perspectivista Eduardo Viveiros de Castro, quando provoca que todos são índios, menos quem não é? O que favorece caboclos e outras agregações materialmente não-identitárias queiram tornar-se índios? Por que não? Por que partirmos do princípio que todos não somos algo, e devermos tentar provar, ou conseguir algum parecer especialista ou jornalista, para nos dizer o que somos ou o que eles gostariam que fôssemos? Enquanto a seu passo o poder constituído atribui identidades por decreto e fica por isso mesmo, se não lhe resistimos e nos reexistimos? Pode ser ridículo eu, branco de olhos claros, querer ser negro ou índio, nunca serei mesmo, mas quem disse que não pode acontecer uma negritude ou uma indianice em mim, um devir? E mais. Por que não posso assumir-me feminista, ou então devir mulher, criança, planta?

Isso tudo vale para o exercício da escrita também, que também enfrenta a prisão da identidade para voar como pássaro livre. Eu sou o Bruno e estou aqui, nesta trajetória de textos. Bom, não quero mais ser esse Bruno e agora quero estar ali. Ah, mas isso não condiz com aquele Bruno lá. Que ótimo! Porque não é o mesmo Bruno, não é pra ser. Querer que seja, exigi-lo já é uma tentativa de enquadrar e prender a escrita em certo quadro de referência e de expectativas, num lugar domesticado, bovinamente domesticado. O escritor que não consegue nomadizar-se morre e é enterrado como narrador monofônico da mesma história. Então por que não escrever anonimamente? Aproveito a reflexão do Hugo, do blogue O Descurvo. Porque se vive num mundo obsessivamente controlado onde as pessoas têm cada vez mais receio de vir à praça falar publicamente e opinar, com receio de ficarem queimadas no mercado, mal com algum vago potencial leitor, prejudicadas na sua carreira sacrossanta, — essa carreira filistina cuja meta última só pode ser um caixão de ouro e lágrimas de crocodilo. Então se torna subversivo escrever sem nenhuma moral de estado civil, escrever como exercício de radical libertação de todas as identidades, expectativas e cobranças. Devir palavras. O eu, afinal, é mesmo um outro.

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PS. Dobradinha muito incisiva ao post, por Hugo Albuquerque em 4/3: Sobre identidade e o nome de Deus

* A OcupaTeoria promove encontros entre a experiência do movimento Occupy e teorias que contribuam a um pensamento e ação de transformação social. É uma iniciativa da OcupaRio, que ocupou a Praça da Cinelândia em outubro e novembro do ano passado, e agora continua pulsando em outros territórios e redes da metrópole. A OcupaTeoria nasceu da percepção de que não se deve colocar entre parêntese o debate teórico, para garantir compartilhamentos, confrontos, consensos e dissensos que fortaleçam, tanto o movimento, quanto as teorias. Uma teoria que não se esclerose no status acadêmico ou meramente teórico, um saber vivo, uma caixa de ferramentas. A primeira atividade programada, decidida num encontro no Circo Voador, foi um ciclo de debates e apresentações no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, perto da Praça Tiradentes. [blogue da OcupaTeoria]

Publicado em 2 de julho de 2011. Comente

Mais informações sobre a Marcha das Vadias, hoje, no Rio de Janeiro: blogue oficial ou tag #MarchadasVadias, no tuíter.

Boa análise sobre esse movimento mundial, no artigo Notas sobre a marcha das putas, no Ingovernável; e para um relato vívido da passeata em Brasília, vale O Inferno de Dândi: Da marcha das vagabundas e o feminismo do dia a dia. E não poderia deixar de recomendar, como um todo, o blogue feminista já canônico Escreva Lola Escreva.

Como nem tudo são flores, uma opinião crítica contra esse panfleto, colhida de uma leitora:

“A liberdade é um mito. Essa luta é um pouco ingênua. Como se fosse possível se vestir como queremos em qualquer ocasião. Se a luta for contra a violência, concordo. Não acho o nome apropriado, associar uma pessoa libertária ao ser vadio. Se não é mulher de família, se não é mulher fácil, é necessariamente uma vadia? Saias curtas e tops é a reação da padronização da beleza? Ficar pelada é a reação de uma força maior que controla o comportamento humano. Tanto a putaria das propagandas como o nú das performances estão aí para quem quiser ver. O problema está no comportamento. Como se modifica isso? Numa única e desbundada passeata na zona sul? Acho bacana a alegria do protesto, mas não vejo efeito real. Eu não sou livre e não deixarei de ser depois da passeata. Agora, me dê renda, de igual para igual, quero ver quem manda no meu corpo. Independência está na renda para pagar as despesas, estudos, bom advogado, terapeuta e os desejos. Enquanto o salário da mulher for inferior, enquanto a relação de poder for desigual, particularmente, não haverá liberdade, pelada ou não. Se a luta é contra a violência e desigualdade, tem todo meu apoio. Vadia?? Não acho apropriado o termo. Vadia não é sinônimo de liberdade.”

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PS. Pós-Marcha:

Parabéns à mulher resistente que marchou hoje no Rio de Janeiro por um outro mundo. Um em que não haja tantas opressões, explorações e reducionismos sobre o feminino eterno feminino. Hoje ali estavam presentes todas as feministas de todos os tempos, Alexandra Kollontai, Simone de Beauvoir, Luísa Mahin, Joana D´Arc, as bruxas e as espartanas, as indígenas e as negras, mulheres de Vênus e de Atenas, na sua afirmação inestancável de direito e potência, na sua memória vívida de paixões, dores e sonhos. E ali também estava a anti-Helena do cinema marginal, Helena Ignez, a Mulher de Todos. Parabéns, vocês estavam possuídas.

Publicado em 27 de junho de 2011. Comente

Hilda Hilst

Existe toda uma inteligência na forma com que nos referimos a um autor. Falo do conjunto mais ou menos oculto de princípios, regras e cacoetes, que leva a gente a falar “Machado de Assis” em vez de “Machado” ou “Assis”, que esclarece a tendência quase irresistível de não parar no “Carlos Drummond” e completar com o “de Andrade”, que explica a rejeição universal em usar o primeiro nome de Nietzsche. Na língua, pouca coisa, talvez nada seja de fato acidental, coisa aliás que os lingüistas estão cansados de saber.

Sempre me intrigou o porquê de os autores homens serem coloquialmente referidos pelo sobrenome, enquanto para as autoras se reserva o prenome. Falam-se Dostoievski, Leminski, Genet, Godard, Brecht, Saramago, Pessoa, mas Hilda, Clarice, Simone, Lygia, Rachel, Cecília, Marguerite. Por alguma razão, as mulheres a gente tem o costume de cortar o sobrenome. Por um lado, já pensei que aí haveria por assim dizer um “carinho especial”, mas por outro não posso deixar de preocupar-me com a possibilidade disso participar de alguma construção machista do “segundo sexo”. Talvez ao falar Hilda e Clarice em vez de Hilst e Lispector, estivesse sendo estúpido e insensível. Tanto quanto quando alguém fala que o estilo de alguma autora é “bem feminino”.

Se o leitor conhecer um estudo ou postagem a respeito, agradeço se puder compartilhar.

Semana passada, escrevi “Lispector” e uma leitora mordeu a isca. Porque eu chamara Clarice de “Lispector” propositalmente, como teste, na esperança de colher alguma reação (peço que o leitor acredite). Sem saber como responder, repassei o questionamento via tuíter. E vieram duas boas respostas, da própria e de mais um. E explicam por que, numa perspectiva crítica, precisamos mesmo continuar chamando as autoras pelo primeiro nome:

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Pra finalizar a postagem adomingada, e totalmente fora do assunto, fica uma canção de R&B à moda antiga, saturada de sensualidade, melada de ressaca, pelo Queens of the Stone Age. Dedicada a quem terá de acordar cedinho e, ainda outra vez, sacrificar um dia de sua vida para alimentar a Grande Máquina:


 

Publicado em 8 de março de 2011. Comente

Para o homem, só há duas mulheres. A mãe e a puta. Na esposa, buscamos a mãe. Nas amantes, a puta. Todas as mulheres que o homem conhece não passam de variações da mãe e da puta ideais. E só. Homem que é homem não tem amigas. O sonho de consumo masculino se realiza com 1) uma casa perfeitinha, com mulher e filhos saudáveis, bem-educados e brancos, e 2) um harém, com atrizes pornôs, safadas e de todas as raças.
Este o universo machista em que fomos condicionados e somos incentivados, e contra o qual lutamos todos os dias, inclusive em nós mesmos.
O capitalismo cognitivo captura a mulher em ambos os modelos. Em especial, através dos comerciais de cerveja e de margarina. De um lado, exigida como puta, segundo a cosmética andróide da publicidade de cerveja. De outro, cobrada como mãe, conforme a estética asfixiantemente careta das margarinas. A mulher é colocada 24 horas por dia sob julgamento por dois tribunais contraditórios. Espremida entre a mulher-Skol e a mulher-Dorianna, não deve ser fácil.
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Nunca tinha assistido ao programa da Ana Maria Braga. Fiquei surpreso ao saber que Dilma participaria, na terça passada, dia 1º de março. Aconteceu o impensável: deu gosto encorpar a audiência da Globo.
Discordo de quem avalia que ela baixou a cabeça pra grande imprensa e traiu o eleitorado. Paira certa imaturidade de quem acha que está junto e misturado com o governo, isso pra não falar de dor de cotovelo. A campanha eleitoral acabou: movimento é uma coisa, governo outra. Somos um movimento na rede, uma legião, e continuaremos a ser, mas a presidenta doravante pertence ao estado. É outra dinâmica. Posso discordar de várias posturas do novo governo, mas também não sou nenhum opositor sicofanta, à procura de pelo em cabeça de ovo.
Por que não interpretar o acontecimento pela lógica inversa? Ora, a Globo teve de engolir a presidenta em seu principal show matinal, fritando uma omelete. Mais que uma concessão de Dilma, ela conquistou o direito de ser convidada, inclusive pelos maiores inimigos históricos da democracia brasileira.
A presidenta Dilma não muda uma vírgula de seu discurso, nem um trejeito de sua persona política, no congresso do PT ou numa comemoração da Folha de São Paulo. Com desenvoltura e autoconfiança, Dilma expôs as políticas do governo, defendeu a orientação de esquerda, mostrou saber do que fala e, como resultado, valorizou a própria imagem.
Comoveu-me, lá no programa da Braga, quando Dilma disse que o grosso do trabalho das mulheres não aparece. Nas últimas décadas, as mulheres se incluíram em espaços antes inacessíveis. Tornaram-se professoras universitárias, médicas, engenheiras, economistas, pilotas de caça, juízas, blogueiras, presidentas de empresa, parlamentares etc. Além do trabalho mais afetivo e doméstico, abriram caminho para postos de formulação e direção.
Portanto, silenciosamente, nas relações do dia-a-dia, e quase sem o devido reconhecimento, as mulheres vêm impregnando a sociedade de uma diferença, de uma outra cosmovisão, que desconstrói o mundo patriarcal clássico, autoritário e reificante. Tudo isso igualmente é movimento feminista, num nível molecular, numa espécie de microfísica social.
Nesse momento da entrevista, entre receitas de omelete e troca de amenidades, Dilma provou mais uma vez que tem brilho próprio. Talvez não precisemos sentir tantas saudades de Lula. Quem sabe Dilma reúna qualidades extraordinárias para liderar esse governo, à altura do anterior. Só que do seu jeito próprio, um jeito de mulher.

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A inspiração para este breve ensaio ocorreu-me ao ler A grande luta das mulheres, no blogue amigo O Inferno de Dândi, editado por Danilo Marques.

O leitor pode interessar-se por Só uma mulher para o amor vencer o ódio, texto do Quadrado por ocasião da vitória de Dilma nas eleições presidenciais.

Publicado em 2 de janeiro de 2011. Comente

Haydée, personagem de A Colecionadora, 1967, Éric Rohmer
A nouvelle vague tornou-se sinônimo de vanguarda no cinema. Propunha uma nova sensibilidade para essa arte, ao mesmo tempo poética e política, inovadora e cheia de vivacidade. O conteúdo do filme passaria a ser a forma e a forma, o conteúdo. Uma articulação permanente. O diretor deveria assumir a sua responsabilidade como artista e autor, acima do produtor. O estilo de direção, ou mise-en-scène, passaria a ser considerado o núcleo criativo dessa arte, e não mais o roteiro.
Os primórdios da nouvelle vague aconteceram na década de 1950, quando alguns cinéfilios da Cinemateca Francesa se reuniram na revista de crítica Cadernos de Cinema. A partir de ensaios veementes, os críticos dos Cadernos elaboraram cânones e listas negras. Endeusaram-se alguns cineastas (sobretudo Hitchcock e Welles) e outros tantos foram demonizados. As palavras de ordem eram: autoria, estilo, audácia, realismo, expressividade de um mundo e uma afetividade. Surgia o cineasta-total: cinéfilo, historiador, crítico e diretor, sua biografia inteira entretecida com a arte. Surgia o cinema-cinema, na feliz expressão de Rogério Sganzerla.
Os primeiros longas-metragens da nouvelle vague são da virada de 1950 para 1960. Dessa época, são Nas garras do vício (Claude Chabrol, 1958), O signo do leão (Éric Rohmer, 1959), Os incompreendidos (François Truffaut, 1959), Acossado (Jean-Luc Godard, 1959) e Paris nos Pertence (Jacques Rivette, 1960). Longas de estréia do quinteto mágico, os cinco sacudiram o cinema mundial, inovando poéticas que se consolidariam e desenvolveriam, cada um a seu modo, durante a década seguinte.
Tamanho desejo de radicalidade pode passar a impressão que a nouvelle vague esteve intimamente associada às revoltas dos anos 1960. Que era parte das organizações políticas da época. Afinal, na mesma França, houve a explosão de maio de 1968.
Mas não. A nouvelle vague não participou, como movimento artístico, de nenhuma organização ou manifestação. Nem poderia. Seu maior mentor, o crítico André Bazin, havia morrido em 1958. Durante os anos 1960, cada diretor partiu para trajetórias individuais. A bem da verdade, a nouvelle vague era menos uma escola ou um todo orgânico, do que certo ímpeto originário, certa partilha de referências e inquietações, um amálgama de idéias que se desdobraria em direções diferentes e, por vezes, irreconciliáveis.
Do quinteto mágico, Godard engajou-se mais abertamente nas lutas. Bastam recordar seus filmes O pequeno soldado (1960), cujo assunto é a opressão neocolonial na Algéria, e Tempo de guerra (1963), um alegórico manifesto antibelicista. Ou então a temática marxista, numa poética brechtiana, de Week-End à Francesa (1967) e A Chinesa (1967), — o último inspirado num romance político de Dostoievski (Os Demônios).
Talvez por isso, tenha-se a impressão de um envolvimento global da nouvelle vague, visto que Jean-Luc era seu ícone maior. Porém, se havia cumplicidade crítica nos anos 1950, depois dos primeiros longas se esfacelou paulatinamente. Não havia organicidade.
Nos sessenta, François Truffaut nem sequer esbarrou em assuntos de militância. Filmava a dinâmica íntima dos personagens: triângulos amorosos, aventuras extraconjugais, episódios anedóticos. “Nascido” em Os incompreendidos, o timorato Antoine Doinel protagonizaria mais dois filmes no período, envelhecendo com o seu ator Jean-Pirre Leáud. Leve como uma pluma, o “ciclo Doinel” narrava as desventuras do querido pupilo do cineasta.
Afetivo e condescendente, não há na filmografia de Truffaut panfletos, denúncias ou conclamações. O mais próximo do cinema político foi o seu primeiro longa em cores, Fahrenheit 411 (1966). Uma história distópica sobre um mundo onde a escrita foi proibida e a função dos bombeiros passou a ser queimar livros. Lírico. Em Beijos Roubados (1968), a única remissão ao tumulto ocorre quando Christine (Claude Jade) comenta que a irmã está envolvida nas passeatas.
Em maio de 1968, Godard e Truffaut participaram ombro a ombro na confusão que melou o festival de Cannes daquele ano. Diante da mobilização universitária e das greves por toda a França, os dois aderiram ao movimento que exigiu e, eventualmente, conseguiu o cancelamento da premiação. “O cinema ficou para trás!”, discursou Godard, “a arte hoje não está mais em Cannes, mas nas ruas e praças”. A partir daí, ele politizará decisivamente os seus trabalhos, formando o coletivo Dziga Vertov (1968-72).
Truffaut não. Em que pese a atuação em Cannes 68, manteve o mesmo tom sentimental nos filmes seguintes, consistente com o seu estilo. Insatisfeito com essa “despolitização”, Godard polemizou e terminou por romper amargamente com o antigo colega dos Cadernos, em célebre entrevero, recentemente objeto de um documentário.
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O caso de Éric Rohmer (1920-2010), o mais velho da nouvelle vague, é ainda mais sintomático. No ultraquente período entre 1963 e 1972, produziu a seqüência Contos Morais, composta por seis filmes. Tomava como assunto a classemédia média, ordinária, em temáticas semelhantes ao romance burguês do século 19, e escrutinava a dinâmica moral/passional dos personagens. Enorme a sua distância em relação à vanguarda literária: o novo romance francês, de narrativa fragmentária e tema existencial.
Rohmer filmava sem qualquer ânimo de vanguarda.  Fazia questão de permanecer “invisível” como diretor, com o mínimo de firulas. Sóbrio, circunspecto, não alardeava manifestos políticos ou estéticos, nem cultivava mitologias sobre o cinema. Sequer gostava muito de falar sobre os seus filmes e se identificava como “ex-crítico” nas entrevistas. Católico praticante, não se dizia um “homem de esquerda”.
No entanto, há nos Contos Morais de Éric Rohmer um sentido profundamente político. E de esquerda. Isso se dá em vários níveis.
Pra começar, na sua narrativa por assim dizer distanciada. Rohmer não invade a mente dos personagens. Não lhes extrai confissões. Não os conduz a clímaxes dramáticos para forçar um depoimento. Salvaguarda-lhes uma autonomia com fundo ético.
O personagem existe por si mesmo. Não há onisciência nem julgamento moral. O autor está junto de suas criaturas e não acima delas. O personagem tem esfericidade, não se mostra por inteiro e guarda de si um fundo intocado. Irredutível à imagem, ao discurso. Verdade a ser interpretada e não arrancada. E não dá pra saber a verdade última e entendê-lo totalmente.
Nisso, Rohmer é dostoievskiano, e assume uma poética dialógica com valor ético.
O “narrador” dos filmes-contos não se confunde com a instância narrativa. Quer dizer, o efetivamente narrado, — a coleção de imagem e aúdio, — excede o monólogo do personagem que “narra”. Mais exposto que os demais, é verdade, mas nem por isso o “narrador” recebe um aval. Pelo contrário, amiúde essa distância atua contra ele, denunciando-lhe o egoísmo, a hipocrisia, a soberba, a autoilusão, a ingenuidade. Fazendo o espectador desconfiar, interpretar, circular pelos argumentos.
Nesse sentido, a posição de “narrador” torna-o privilegiado para a crítica. Se o protagonista-narrador dos Contos Morais é invariavelmente o homem branco classemédia, pior pra ele. Suas paixões são desnudadas em todo o seu viés de classe, a sua egolatria pusilânime, o seu voyeurismo instrumentalizador. O bisturi de Rohmer não poupa seus personagens de uma fina cirurgia moral, expondo tumores próprios de seu gênero, classe e tempo. Erra feio quem assinala machismo no perfil do “narrador” dos Contos Morais.
Daí que as mulheres sejam ininteligíveis nesse primeiro Rohmer (até 1972). Incógnitas, sua verdade é a mais recôndita. Seu comportamento ainda mais enigmático, um quê indevassável.
Os protagonistas buscam dominá-las, fetichizá-las, usá-las, capturar-lhes a admiração. Mais do que ser amados por ela, pretendem provar que podem ser amados por elas, por qualquer uma delas. Basta quererem e zás, elas se apaixonariam. Mas elas resistem. Não resistem (apenas) dizendo não, mas afirmando a dignidade. Firmam-se como seres livres, diferentes, criadores de sua própria narrativa.
O amor para os “narradores” significa fazer do outro objeto de sua conspiração, tema de uma intriga íntima, gato-sapato de seus caprichos. O outro é uma peça do jogo e não um jogador. Desfilam homens que se acham o máximo, “donos da situação”. Mas, ultimamente, dela terminam reféns e disso se ressentem.
Daí o papel crucial de A Colecionadora (1967) no universo dos Contos Morais. Porque, nesse que é o quarto conto, as mulheres resistentes (Suzanne, Maud, Chloe) sintetizam-se em Haydée, a mais feminista entre todas as personagens de Rohmer.
Haydée é a culminação de uma ética, uma estética e uma política — uma figura mitológica. É a própria década de 1960, no seu devir minoritário, na sua afirmação no presente da mulher do futuro.
Haydée não só resiste ao mais irresistível dos personagens dos Contos, Adrien (Patrick Bauchau), como o desarma e humilha sistematicamente. Ao mesmo tempo que generosamente lhe confere chances de redenção, que ele todavia não sabe aproveitar. Pois unidimensional. Inepto em combinar desejos, limita-se a tentar impor vontades. Todo o êxito de Haydée  sem qualquer moralismo, sem gritos ou slogans, sem nem mesmo um discurso coerente. Sustenta-se o filme todo a criatura menos dogmática e mais aberta à experiência. Sem convicções sobre si e sobre os outros, que não a certeza da dignidade indevassável, de não se deixar fetichizar e dominar, — mas nem por isso menos potente como mulher amante.
Haydée é mais do que a mulher independente (Suzanne, 2º conto), mais do que a mulher emancipada (Maud, 3º), mais do que a mulher libertária (Chloe, 6º).
Haydée é evolução da inescrutável e afirmativa Anna Karina, de Viver a vida (Godard, 1962), e antecipa a libertina e avacalhadora Helena Ignez, de A mulher de todos (Sganzerla, 1969).
Um personagem só, na potência da verdade que exprime, numa narrativa que a faz transbordar, é capaz de politizar uma obra mais do que cem panfletos.
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Este ensaio supostamente seria a crítica do quarto Conto Moral de Éric Rohmer, o filme A colecionadora (1967), dando continuidade ao dossiê que estamos montando, por encomenda do CinefiliaNET . Entretanto, a pena dançou em direções inopinadas, e me perdi. Mas prometo escrever a crítica da obra citada esta semana. Para críticas do QdL de outros filmes de Éric Rohmer, abaixo os links:

Publicado em 1 de novembro de 2010. Comente

Mais do que a continuidade de um governo dos muitos, — que nunca-antes-na-história produziu riqueza no processo mesmo em que a difundiu, — a eleição de Dilma Rousseff exprime a potência de um novo país. Um Brasil que nunca cessa de renascer, na generosidade, na coragem e no amor — virtudes daqueles que não têm medo de se levantar diante das injustiças e lutar pelo que desejam. Um devir-Brasil que insiste em ressurgir da memória dos vencidos, saindo da Sala 101 para ocupar o Palácio da Alvorada.
Sobre os ombros do gigante multitudinário que foi (e ainda é!) o acontecimento-Lula, o novo governo reunirá mais e ainda melhores condições para aprofundar a mudança. Descortina-se uma oportunidade privilegiada para concretizar a democracia no seu sentido pleno, onde todos têm acesso aos direitos, à renda, à diferença, à participação política e cultural.
Esta foi a vitória dos excluídos, das minorias, do povão das periferias e do interior, do litoral e da Amazônia, dos saltimbancos nômades e dos espíritos livres, de todos os que preferem viver a aventura do desejo a sobreviver de esperança e temor. Venceu a militância alegre e desprendida, tão afirmativa nas ruas e praças, sobre a campanha de ódio dos rastaqüeras, fuxiqueiros e madames, tão negativa na grande imprensa. Venceu o “Dilma é Muitos!” sobre o “Deus me livre!”.
Em suma, perdeu a mais insidiosa máquina montada desde os anos de chumbo. Um organismo peçonhento e conservador, cuja dinâmica emotiva lembra o ritual dos Dois Minutos de Ódio. De fato, foram quase trinta dias de ódio, de preconceitos e recalques veiculados pela grande imprensa e pelas rodinhas ressentidas. Teve de tudo: sexismo, racismo, fundamentalismo, regionalismo (sobretudo o franquismo da direita paulista). Com direito à histórica telefraude da bolinha de papel, e à intervenção ultramontana e hipócrita do Papa.
Mas a marcha da liberdade não legitima que falem por nós, que expropriem a voz dos muitos em nome da “opinião pública”, forjada por jornalões, revistas e âncoras televisivos. As lutas se potencializaram com as novas mídias e as redes sociais, que vão além da internet e se disseminam na multidão.
Tentaram vender o Céu, mas quem prevaleceu foi o sentido da terra. Às promessas de salvação do “homem de bem”, escolheu-se a felicidade terrena, construída aqui-e-agora. Entre os especialistas em moral e os políticos da democracia, preferiram-se os últimos. E tornamo-nos eles: como pontos das redes de mídia e de cultura, como enlaces políticos e politizados de uma experiência viva revigorada pelas urnas.
Esta mulher não cabe em nossas categorias, porque, hoje, Dilma é muitas e todas as mulheres. Como elas, já dizia Neruda, sorri quando quer chorar, ri quando está nervosa, e chora quando está feliz. Escreveu Rayssa Gon no Bule Voador: “Dilma é a representante da filhas de Eva (…) é a própria bruxa”. Tal qual Eva: poder constituinte que liberta o homem da transcendência e arremessa-o à imanência do mundo, no reino dos desejos e da liberdade, pelo qual se luta e se constitui a democracia.

Publicado em 29 de julho de 2010. Comente

Helena nasceu em Tróia, mas desbundou na Ilha dos Prazeres Extremos.
Segundo longa-metragem de Rogério Sganzerla, logo depois da explosão criativa de O Bandido da Luz Vermelha (1968).
Helena Ignez é Ângela Carne-e-Osso, a “ultrapoderosa inimiga número um dos homens”, “rainha dos boçais”, alucinada, hiperativa e cantora bêbada. Ângela/Helena transvalora todos os valores do eterno feminino, que se faz ato puro. “Marlene Dietrich co-dirigida por Mack Sennet e José Mojica”, nas palavras do diretor.

Ângela dança, remexe, bebe, fuma charuto, se droga, se despe, esfrega-se em mais de 20 homens que cruzam o seu caminho. Homens? Vítimas emasculadas, isso sim, confusos diante da femme fatale mais libertina dos anos 1960. Ela pega, vampiriza e descarta um a um, sem deixar de “gostar do maridinho”. Mulher de todos, e todos dela, todos súditos diante da vampira pop-art, corpo a todo momento transbordando de si mesmo, fluido como o rock´n roll da trilha.
Cinema bárbaro encarnado por Sganzerla e Júlio Bressane (O Anjo Nasceu, Matou a Família e Foi ao Cinema), impropriamente “cinema marginal”, revolucionário mesmo. Insurgiam-se contra tudo e contra todos num inconformismo que não poupava sequer o cinemanovo, o neo-realismo e a nouvelle vague — no final dos 1960s já fetichizados, logo anodizados. Jamais o modernismo foi tão moderno: compreensão e recombinação do que veio antes, para fazer o novo uma vez mais, sem concessões, sem docilidade. Jogar no lixo também a tal “cultura brasileira”. E plá: make it new! Desatino implacável contra um estado deplorável das coisas do mundo. Poética do subdesenvolvimento.
Devir de Oswald de Andrade, numa antropofagia melhorada, nada deslumbrada, nada ingênua, a contornar qualquer pretensão estetizante ou autorismo ou vanguardismo, desses que dizem: “olha que legal como estou filmando”. A Mulher de Todos engole até o Bandido, e finta a crítica que já babava pelo pastiche wellesiano-godardiano do filme precedente. Em tempos de AI-5, de Guerra do Vietnã, de estrangulamento artístico e político de uma geração, nada poderia ser mais ultrajante ao artista genuíno, como Sganzerla, do que ser erigido a cânone, como referência-de-festival. Daí a perversão poética de A Mulher de Todos, isento de ânimo de citação, liberto de convenções estilísticas então na moda.

Em prosa livre, a câmera justapõe primeiríssimos planos e panorâmicas paisagísticas, travellings automotivos e quadros fixos. A chanchada das chanchadas, o mau-gosto e o o humor grosso como opção consciente, os planos inspirados pelos comics, a narrativa episódica de pornografia (mas sem sexo). A sensibilidade debochada de Serafim Ponte Grande transposta ao cinema da década de 1960. Nada de intelectuais medioclassistas querendo melhorar a classe-média. O filme foi popular. E sucesso de bilheteria.

Fundiu a cabeça da crítica, da esquerda, do cinema. Helena barbarizou.

Publicado em 14 de julho de 2010. Comente

“Quando a gente não pode fazer nada, a gente avacalha.” A citação é de O Bandido da Luz Vermelha (1968), primeiro longa-metragem de Rogério Sganzerla, mas sintetiza lapidarmente o romance Serafim Ponte Grande, de Oswald de Andrade. Não por acaso. O cinema-avacalhação de Sganzerla, o seu “faroeste do Terceiro Mundo” foi mais uma obra dos 1960 aonde desaguou a proposta antropofágica. É o modernismo oswaldiano renascido na tropicália: Zé Celso, Oiticica, Gil, Mojica, Sganzerla etc.
Publicado às portas do Estado Novo, que tanto o escritor combateu, Serafim Ponte Grande embute um esquematismo rígido. Cada unidade da obra parodia e subverte, ou melhor, avacalha um determinado gênero da (sub)literatura beletrista, em voga nos saraus sorriso-da-sociedade. Assim, pelo romance desfilam textos picarescos, chulos mesmo, mas inseridos numa sucessão rigorosa de estruturas clássicas: ópera bufa, crônica folhetinesca, rubrica teatral, diário de alcova, aventura fidalga de capa-e-espada, ensaio filosófico, efemérides empostadas, épico de viagem marítima.
Rigoroso na forma, a farsa de Serafim e seu escudeiro Pinto Calçudo faz questão de ultrapassar todos os limites do gostismo de conteúdo. Vagando pelas formas literárias, dominadas com pena de ferro pelo autor, Ponte Grande e Calçudo tiram sarro, contam piadas, dançam, cantam, sacaneiam-se. Até que o escudeiro extrapola de vez e acaba expulso do romance (!) pelo personagem-narrador. Se o estilo incorpora o melhor do modernista, na sentença curta e rascante, na ação tonificada pela centralidade do verbo, o tom é cafajeste e debochado. Sem-noção! para o desgosto até dos contemporâneos mais simpáticos às vanguardas.
Nas palavras do autor, em auto-resenha: “necrológio da burguesia” e “epitáfio do que fui”. Ele dispara: “Os retardatários — você com certeza leitor — pensam que têm bom-gosto porque aprenderam algumas coisinhas. São os zeladores do gosto. Nós endossamos o mau-gosto e recuperamos para a época o que os retardatários não tinham compreendido e difamavam. Tudo em arte é descoberta e transposição. Serafim é o primeiro passo para o classicismo brasileiro.”
Serafim Ponte Grande para Antônio Cândido: “rebelião burlesca dos instintos (…) mito da liberdade integral pelo movimento incessante”. Para Haroldo de Campos: “anarcoforma da consciência dilacerada (…) uma cultura antropófago-tecnológica, na qual o homem natural tecnizado, sob a égide do matriarcado, descobrirá a felicidade social.”
Com efeito, na biografia de Oswald, o livro aparece no momento de virada do artista burguês-boêmio, angustiado por seu isolamento existencial, ao militante materialista. É a travessia do modernismo de salão, autocentrado e autoral, ao de engajamento político-ideológico, na urgência das lutas contra o fascismo. É a passagem dos anos 1920 aos 1930 Do amor dândi por Tarsila ao romantismo bárbaro de Pagu.
Enquanto a trilogia do exílio, Os Condenados faz a travessia sem se rebelar à forma novelística, culminando de modo diligente no terceiro romance, A Escada, de 1934; Serafim Ponte Grande bate de frente com o meio cultural e intelectual, sem qualquer concessão. Trata-se de um livro de libertação das convenções e instâncias críticas, não só no plano individual, mas do modernismo enquanto movimento transformador. Rabelaisiano, Oswald faz da desmedida e do grotesco o seu manifesto antiaburguesamento, anticomodismo, antiliteratice.
Boa parte da força de Serafim Ponte Grande está na amálgama carnavalesca de gêneros, entretecidos sem solução de continuidade na narrativa. Essa mesma melange será regurgitada nas chanchadas da Atlântida e da Cinelândia Filmes, nas décadas de 1940 e 1950. São os tempos cinematográficos de Oscarito, Grande Otelo, Anselmo Duarte, Ankito e Dercy Gonçalves, sempre brindados com grandes públicos. Quando Sganzerla atira os seus dois petardos dos 1960, O Bandido da Luz Vermelha (1968) e A Mulher de Todos (1969), exerce a síntese tropicalista dessa grossura popular. 
O tropicalismo entroniza o cafona e o mau-gosto como estética de resistência do subdesenvolvido. Assim, sem deixar de assimilar e deglutir, não se rende aos nacionalismos mistificadores, da força e singularidade míticas do brasileiro (não desiste nunca…), que Sganzerla via rastros no cinema novo; nem à colonização europeizante, o que significava adesão às filosofias do absurdo, aos muitos existencialismos vindos dos anos 1950.
A avacalhação de Serafim ressurge no criminoso cafajeste, o gangster dos trópicos, interpretado por Paulo Vilhaça. O bandido da luz vermelha rouba, estupra e mata a burguesia, num personagem sem nenhuma ideologia justificadora ou romantização livresca. Como no (anti)romance oswaldiano, a desordem comparece no plano narrativo, na subversão consciente e rigorosa da poética do cinema e da literatura ditas “modernas” (nos casos, o cinemanovo e o modernismo literário).
Por isso, a aclamação intelectual de O Bandido… levou Sganzerla, interessado em investir contra a crítica-de-festival, a radicalizar a proposta antropofágica. Ao perceber que um filme-de-festival não poderia romper a essência pequeno-burguesa e as suas ridículas pretensões elitizantes, resolveu avacalhar de vez. Daí A Mulher de Todos, lançado no ano seguinte, 1969, numa furiosa rebelião contra a intelligentsia e todos os seus parâmetros de crítica cultural.
Nesse filme, Ângela Carne e Osso (Helena Ignez, no auge) passa a hora e meia num transe lisérgico, a despir-se, insinuar-se, drogar-se e esfregar-se em quase vinte homens, entre panorâmicas tropicais e contraplongeés à Wells, sob trilha de música ianque. O burguês Doktor Plirtz (Jô Soares, memorável), por sua vez, atua como personagem-pastelão, sacado diretamente dos comics — outra referência popular do filme (e do cinema de Sganzerla). Essa metachanchada feroz, filme-”C”, destrambelhado e cafona, excluía qualquer possibilidade de recepção favorável, por aqueles “radicais” que, desde O Bandido…, apostavam em Sganzerla como o novo Gláuber para a renovação do cinema brasileiro.
Foi aí, na derrisão de mau-gosto de A Mulher de Todos, que Rogério Sganzerla encontrou o melhor Oswald de Andrade, o avacalhador de Serafim Ponte Grande, o Dom Quixote do Terceiro Mundo. Duas obras de desmedida criadora, elas redefinem a arte de seu tempo, revaloram os valores, e assim inventam a crítica de si mesmas. Logo, clássicas.
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ANDRADE, Oswald de, Serafim Ponte Grande, 230 pág., Globo: 2007 [1933].
A Mulher de Todos (Rogério Sganzerla, Brasil, 93 min., 1969)