Mais do que a continuidade de um governo dos muitos, — que nunca-antes-na-história produziu riqueza no processo mesmo em que a difundiu, — a eleição de Dilma Rousseff exprime a potência de um novo país. Um Brasil que nunca cessa de renascer, na generosidade, na coragem e no amor — virtudes daqueles que não têm medo de se levantar diante das injustiças e lutar pelo que desejam. Um devir-Brasil que insiste em ressurgir da memória dos vencidos, saindo da Sala 101 para ocupar o Palácio da Alvorada.
Sobre os ombros do gigante multitudinário que foi (e ainda é!) o acontecimento-Lula, o novo governo reunirá mais e ainda melhores condições para aprofundar a mudança. Descortina-se uma oportunidade privilegiada para concretizar a democracia no seu sentido pleno, onde todos têm acesso aos direitos, à renda, à diferença, à participação política e cultural.
Esta foi a vitória dos excluídos, das minorias, do povão das periferias e do interior, do litoral e da Amazônia, dos saltimbancos nômades e dos espíritos livres, de todos os que preferem viver a aventura do desejo a sobreviver de esperança e temor. Venceu a militância alegre e desprendida, tão afirmativa nas ruas e praças, sobre a campanha de ódio dos rastaqüeras, fuxiqueiros e madames, tão negativa na grande imprensa. Venceu o “Dilma é Muitos!” sobre o “Deus me livre!”.
Em suma, perdeu a mais insidiosa máquina montada desde os anos de chumbo. Um organismo peçonhento e conservador, cuja dinâmica emotiva lembra o ritual dos Dois Minutos de Ódio. De fato, foram quase trinta dias de ódio, de preconceitos e recalques veiculados pela grande imprensa e pelas rodinhas ressentidas. Teve de tudo: sexismo, racismo, fundamentalismo, regionalismo (sobretudo o franquismo da direita paulista). Com direito à histórica telefraude da bolinha de papel, e à intervenção ultramontana e hipócrita do Papa.
Mas a marcha da liberdade não legitima que falem por nós, que expropriem a voz dos muitos em nome da “opinião pública”, forjada por jornalões, revistas e âncoras televisivos. As lutas se potencializaram com as novas mídias e as redes sociais, que vão além da internet e se disseminam na multidão.
Tentaram vender o Céu, mas quem prevaleceu foi o sentido da terra. Às promessas de salvação do “homem de bem”, escolheu-se a felicidade terrena, construída aqui-e-agora. Entre os especialistas em moral e os políticos da democracia, preferiram-se os últimos. E tornamo-nos eles: como pontos das redes de mídia e de cultura, como enlaces políticos e politizados de uma experiência viva revigorada pelas urnas.
Esta mulher não cabe em nossas categorias, porque, hoje, Dilma é muitas e todas as mulheres. Como elas, já dizia Neruda, sorri quando quer chorar, ri quando está nervosa, e chora quando está feliz. Escreveu Rayssa Gon no Bule Voador: “Dilma é a representante da filhas de Eva (…) é a própria bruxa”. Tal qual Eva: poder constituinte que liberta o homem da transcendência e arremessa-o à imanência do mundo, no reino dos desejos e da liberdade, pelo qual se luta e se constitui a democracia.
Peter Doherty, letras, vocal e guitarra dos Libertines
Peter Doherty sempre me chamou à atenção. Ele tem menos de um mês de diferença em relação a mim, que também sou de 1979. O lance da idade, em parte é enobrecedor para se perceber a própria mediocridade, em parte porque coloca a questão da geração. A mim, obceca: sempre quero saber o que a minha geração está produzindo, em literatura, música, cinema, filosofia. Quando se tem 20 anos, aparece só uma curiosidade. Contudo, aos 30, adquire uma conotação mais visceral, e a tensão geracional acaba por se impor, inquieta e confere urgência e angústia diante da passagem do tempo.
Peter Doherty não é só o vocalista da banda que, nos anos 2000, é tributária do melhor rock inglês, na sua força poética, ética, política. Um músico que compõe e escreve sobre os ombros do rock´n roll, do progressivo, do art rock, do punk, do britpop. Sem ingenuidades, com vigor e agressividade. À deriva numa geração apaziguada, como um romântico fora de sua época, inoportuno, Doherty é daqueles artistas raros que se alimentam da Lua sem se alienar. Que não dispensam a imaginação e a embriaguez para falar de temas sociais, de libertação, de revolta ontológica. Não à toa chamado, por um crítico, de “última rosa da modernidade maldita”, ao modo de Verlaine, Rimbaud, Wilde. Contra os projetos prontos, as grandes narrativas, as certezas comezinhas — mais libertinamente agudo, e menos contemporizador, jamais aburguesado, do que The Strokes ou Los Hermanos.
Peter foi o melhor da turma, o menino de ouro da mamãe, o poeta temporão que, aos 16 anos, ganhou um prêmio de brilhantismo para viajar pela Rússia. Apenas para achar uma Rússia (de Gogol, Dostoievski, Nabokov, Tarkovski, Eisenstein) dentro de si. Mas também o libertário inconseqüente, cuja selvageria criativa não conhece divisão de idade, gênero, sexualidade ou bom-tom, figura esquadrinhada pelo sensacionalismo — tão ávido por hilotas bêbados. Experimentou de tudo e foi experimentado por tudo, consumiu e foi consumido. Bebeu, drogou-se, prostituiu-se, roubou, foi internado e preso. Como os poetas malditos, brilhante aos 20; endividado, humilhado, sozinho e a uma dose do colapso aos 30. Não é exemplo pra ninguém? Nunca pretendeu. Apenas autêntico, honesto num nível insondável.
Um festim de vida, entre o devaneio e a terra, entre a utopia e o fracasso, só pode gerar uma obra potente. Poço de vivência a aflorar na melodia e nas letras conflagradas. Só pode interessar à geração (a mim, ao menos), que se cultiva, que se cria ela mesma através de seus intérpretes mais fecundos. Jim Morrison uma vez disse que o artista cria os mitos do amanhã. Mitologia que se faz não o futuro, abstrato e idealizado, — mas o sonho do presente, exatamente a mobilizar as pessoas, a despertá-las e instigá-las a se insurgir contra o estado das coisas. Menos esperança e falta, do que desejo e luta.
Semana passada, ouvi bastante gente reclamando da campanha do José Serra.
Até a véspera da votação, os serristas se deprimiam com a real possibilidade de Dilma Rousseff levar no primeiro turno. Remordiam-se nas suas rodinhas mas, a sós, tentavam conformar-se com a derrota prognosticada pelas pesquisas. Alguns desamparados escreviam manifestos pelo “respeito à Constituição”, como se fosse a última tábua a apegar-se, depois do naufrágio de seu projeto político. Invariavelmente terminavam por culpar os brasileiros por sua ignorância, cegueira e falência moral. Ora, votar em que os beneficia, com políticas concretas — que audácia desse povinho! Bons mesmos eram os tempos quando “opinião pública” era sinônimo para os editoriais da TV Globo, da Folha, da Veja.
Contudo, como a política é como as nuvens, veio a onda cristo-eco-indie de Marina, (aliás um fenômeno que venho diagnosticando há cachos de textos), — e eis os eleitores de Serra de volta ao campo de batalha. Empolgaram-se, deslumbraram-se, puseram as garras para fora, e assim partiram para o confronto aberto e irrestrito. Daí, nas últimas duas semanas, o desfile de preconceitos, a matraca de acusações e denúncias, a panfletagem difamatória de bastidores. Afinal, guerra é guerra, meu irmão.
Junto de tudo isso, veio também o ódio. Ódio contra as mulheres, contra os pobres, contra os nordestinos, ódio religioso e ódio racial. Panfletando nas ruas, presenciei várias vezes a bílis do eleitor de Serra irromper em xingamentos e maldições contra Dilma e “sua corja”. Ouvi inúmeros “Deus me livre dessa mulherzinha!”. Um dos encolerizados contou-me que “dia 31 é dia de queimar a bruxa!”. Um outro parou o carro, abaixou o vidro, e gritou: “Vocês esquerdalhas estão desesperados!”. A resposta: “sim, desesperados com o fascismo de vocês”.
Nada disso surpreende. Dilma não receberia metade dos insultos, fosse ela homem. A própria acusação de “falsa” ou “duas-caras” cola mais em mulher — como se sabe, réu preferencial do tribunal moral. Não se pode esquecer que o Brasil tem entranhas nojentas. Os serristas apenas põem pra fora essas tripas pútridas de nossa história, feita de preconceito, ódio de classe, obscurantismo e ressentimento. O segundo turno fez aflorar o ódio tão recalcado na tal “cordialidade tupiniquim”, afastou o pudor e alucionou o lado fascista de cada um.
Sou Lula e Dilma até a medula, e estou engajado figadalmente nesta campanha, mas não acho isso ruim. Pelo contrário. É preciso cair na real. Perceber preto-no-branco do que se constitui a sociedade brasileira, seus conflitos, suas violências, suas divisões, seus desejos, suas paixões tristes. Nosso sangue é podre, nossa história um pântano.
Não se trata simplesmente de amar a intensidade imprevisível das comoções, de amar a euforia da multidão, diante da história se fazendo a olhos vistos (embora eu as ame com excitação e ternura). O caso é ter a consciência do drama da nossa política, e a partir daí adotar uma lucidez apaixonada para lutar e vencer. O transe poético de Gláuber Rocha é mais oportuno do que nunca. Porque, quem vai à praça sabe, convencer é eficaz até o ponto em que se torna preciso vencer.
Por isso, é uma saúde o acirramento das tensões, ver as pessoas sair do armário e dançar cruéis no teatro eleitoral — tão verdadeiro, tão agônico. Isso é mil vezes mais interessante do que o comportamento indie, que, diante do movimento da história, mete a cabeça no buraco da neutralidade. Não sujam as mãos delicadas de classe-média xarope. Parte da geração está chocada com a virulência destas eleições, e se assusta com a menor possibilidade de tumulto. Essa trupe descafeinada jamais participará da imanência conflitiva que é a democracia, e nunca compreenderá a imprudência e a desmedida essenciais à política, ao amor, à revolução.
Ao ódio ressentido, religioso, classista e racista da campanha de Serra, não se deve arrefecer com bom-mocismo, apelos ao bom tom, condenações morais. Qual nada. Agora é hora de responder com outro tipo de cólera, com uma raiva lúcida que desnuda a genealogia dessa moral, que expõe a nudez dessa história vergonhosa e triste, e age. Aos xingamentos, oferecer a gargalhada cruel. Aos ataques morais, retrucar com a matéria, com o desejo por mudança real, com a urgência por vida. É hora de transformar o ódio ressentido em amor revolucionário.
É como um romance bárbaro, um amour fou, um misto cruel de amor e ódio, de erotismo e pudor, intensamente prazeroso e ao mesmo tempo profundamente melancólico.
Durante o período de convalescença do SWU Music and Arts Festival (estimado em 48 horas), sem energias para fluir o texto, deixo a super-dica do site do Movimento Dilma é Muitos!, organizado pela rede Universidade Nômade, de que participo. Lá, têm artigos, estampas, comparações, paródias, vídeos, estatísticas e toda sorte de material para a campanha internáutica da candidata que o blogue apóia. É um genuíno think tank da militância dilmista.
Dilma no primeiro turno estava bom demais para ser verdade. Política é assim mesmo, como as nuvens. O desencanto tem o seu lado positivo porque faz cair na real: ainda se vive numa sociedade majoritariamente conservadora, suscetível a virulências lacerdistas e denuncismos de ocasião. De qualquer modo, não houve nenhum desastre e nada indica que não consigamos os 3% que faltam para a vitória ser matematicamente garantida. Como nas duas eleições vencidas por Lula (2002 e 2006), agora é intensificar a campanha para conseguir essa pequena, porém indispensável, fatia.
Deve haver dezenas de explicações para o resultado frustrar tão acintosamente todas as pesquisas de opinião, inclusive de boca-de-urna.
De modo incipiente, arrisco os seguintes fatores contribuintes para a “acomodação” dos votos em Marina e Serra:
1) Marina, a candidata da moralidade, obteve o voto indie, como se votar nela fosse uma “atitude”, um “voto inteligente”, descolado e “apolítico”;
2) Marina teve também muitos votos dos evangélicos, devido ao terrorismo eleitoral das últimas semanas;
3) Serra levou boa parte dos indecisos, graças ao bombardeio da grande imprensa nos bordões anti-PT;
4) Muitos eleitores preferem o segundo turno por definição, porque não gostam de ver um grupo político acumular muita força, então resolveram forçar o novo turno votando em Serra ou Marina;
5) A militância da situação subiu no salto alto, deu a eleição por vencida, e não se concentrou no trabalho vital das ruas, do boca-a-boca, para garantir aquele sprint final.
No final de junho, o estudante goiano Paulo Reis postou no youtube a performance DILMABOY. É uma extravagância paródica “dance-pop-kitsch”, que remete a Lady Gaga, Lacraia e Ronaldo Ésper (só pra começar), em apologia à candidatura de Dilma Rousseff e deboche à de Serra (destaque ao verso “E sua secretária vai ligar pra você”). Com esse vídeo, Paulo obteve 250.000 acessos, tornou-se viral e foi contratado pela campanha da candidata. Há quem atribua o sucesso à vulgata “americanizada”, à alienação das massas, à futilidade das novas gerações, à despolitização da disputa eleitoral, hoje em dia esvaziada e reduzida a chavões, slogans, numerologias, frases de efeito e marqueteiros baratos.
Alegria militante, orgulho gay e pastiche pós-modernista em DILMABOY (Paulo Reis)
Não penso assim. Se, de acordo com a teoria cultural, no pós-modernismo se generalizam a hibridização, o pastiche, a fluidificação, então Dilma Boy expressa bem o clima existencial da época. Desde pelo menos os Beatles, Warhol e o tropicalismo, o Pop rejeita a profundidade metafísica e se entrega a uma espécie de superficialidade consciente — a uma arte de intensidades fugazes e prazeres epidérmicos, que transita sem preconceitos pela cultura de massa.
Tem quem rejeite a pós-modernidade como conceito, ou então a considere mera nota de rodapé da obra de Nietzsche. Até concedo, sabe. Porém nada elide o fato de que a aceitação generalizada dessa pseudo-pós-modernidade produza, independente de sua validade interna ou rigor histórico, uma certa atmosfera cultural, uma mobilização de autores e obras e movimentos. Isso se pode chamar, creio eu, pós-modernismo (aqui estou com o crítico Terry Eagleton).
Despreocupando-se com idéias grandiosas, o pós-modernismo assume um tom (auto)irônico, quiçá jocoso, ao mesmo tempo em que embute um ceticismo quanto às grandes narrativas, verdades e ideologias, tão atuantes nos séculos 19 e 20. Assim, fica feio adotar discursos grandiloqüentes, aspirar à natureza universal do homem, promover utopias políticas. Este o cinema de Tarantino, a música de Oasis e The Raconteurs, a literatura de José Agrippino de Paula. A força da obra pós-modernista reside menos em inovação formal ou em metafísica oculta ou em manifesto utópico (itens tão caros à arte moderna), do que na habilidade de combinar e sintetizar significados e afetos, disseminando-os de modo imanente à cultura de seu tempo. Nada se cria, tudo se movimenta.
Como efeito, abole-se a separação entre arte elevada e popular. Todo o tropicalismo brazuca e a arte conceitual lutaram contra essa dialética, ao revalorizar objetos do cotidiano, elementos da publicidade, bem como o kitsch, o mau-gosto, o cafona.
Daí a tarefa do crítico de arte mude de figura. Não é mais, por exemplo, praticar uma cinefilia de butique ou dedicar quarenta laudas sobre um quadro pós-impressionista. Agora, trata-se de dar à televisão, ao videoclipe, às técnicas de marketing, a mesma importância que sonetos de Camões, romances de Tolstoi e filmes de Jean Renoir. É mais relevante analisar como discursos e práticas circulam pelo corpo social, independente do formato atribuído: filme, peça de teatro ou comercial de televisão.
Os críticos do pós-modernismo tendem a imputar-lhe um relativismo moderninho, uma ausência de crítica real, uma rendição precoce à sociedade de espetáculo, consumo, pós-fordista e quejandos. Sucumbe-se à banalidade e se exime do distanciamento que permite a crítica, na sua (supostamente) imprescindível dialética negativa. Embora, dizem esses detratores, o pós-modernismo possa servir para interpretar a realidade, padece da impotência para transformar o mundo e politizar os debates hodiernos. Vivem-se em conseqüência os tempos de pensamento mole, da dissolução do sujeito político, de romantismo indie. E o materialismo? La nave va.
Repito: não penso assim.
Em primeiro lugar, por não não acreditar nos tais males da sociedade de consumo. A vida também é a tentativa mais ou menos desenfreada de consumir os desejos. Se somos realmente movidos por uma usina inconsciente deles, e nos movemos na vida tecendo afetos para mobilizar e concretizar tais desejos, então qual o problema do consumismo? O próprio ismo aplicado ao consumo me parece tolo. O marxismo é pra dividir a riqueza e não a pobreza. É comida, diversão e arte — tudo junto.
Não me esqueço de um debate no movimento estudantil, quando esquerdistas (jamais esquerda) diziam que o pobre não precisava de TV de plasma ou celular de último tipo, mas de comida e educação. Por acaso, a debatedora, branca e classe-média, portava um ipod bodoso, ostentava um cabelo e$covado e hidratado, e exibia em seu vestuário diversas grifes.
E não me esqueço do artigo Consumo, Logo Existo, de Frei Betto, que se sustentava, essencialmente, no argumento de que “quem trouxe a fome foi a geladeira”. Síntese do problema: antes o pobre tinha dinheiro para farinha e feijão, mas aí manipularam-no para querer também o refrigerante e o sorvete… É inacreditável, mas o militante pastoral defende que, quanto mais bens geramos e consumimos, mais pobres ficamos. Não à toa, cite o filósofo Jean Baudrillard, o mesmo que, no livro Sociedade de Consumo, denuncia o tal consumismo contemporâneo. Bom mesmo deve ser viver de sandálias e sobreviver dos frutos da terra, como bom franciscano.
Boa a resposta sutil do presidente Lula, logo em seguida, ao discursar que o pobre não quer só pão e circo, mas também geladeira e cultura. O pobre também deseja! Melhor ainda a réplica mais direta do filósofo Rodrigo Guéron na Revista Global Brasil. O artigo se chama Da fome à vontade de comer: a mais-valia da vida, e pode ser encontrado online no número 8 da publicação (pág. 40).
Em segundo lugar, porque não subscrevo a separação que fazem entre arte genuína e discurso da publicidade e da “mídia”. Qual nada! tudo é mídia, tudo é publicidade, tudo é produção de discurso e ato performativo, simultaneamente. Essas separações sempre e sempre partem de concepções fechadas, normativas, sobre arte e política. Quer atacando o seu suposto tom banalizador, quer panfletário. Tais purismos confinam com hierarquias e sistemas de validação, diletantes ou ideológicos. Em ambos os casos neutralizando a arte de sua penetração na vida, elevando-a à esfera intocável, quase sagrada, fora e protegida das agitações dos meios de comunicação, do fuzuê das turbas ignaras.
Penso que a crítica pode operar por dentro do pós-modernismo. Mas precisa reciclar-se dentro desse contexto. Vários dos operadores e parâmetros “modernos”, como totalidade, progresso ou racionalidade, tornaram-se impraticáveis. Não dá mais pra crer em instâncias transcendentes capazes de julgar de cima pra baixo, de fora pra dentro, como num tribunal da boa estética ou do bom gosto. Faz-se necessário encontrar a reinvenção por dentro da textura descentrada e multicolorida, para aflorar sentidos éticos, estéticos e políticos, libertá-los dos fluxos autoreplicantes da cultura midiática. Isto não significa imergir no Pop, mas dele roubar, com sagacidade e agressão, para fazer arte. Pop Art.
Doravante, o estranhamento inerente à crítica acontece de modo imanente, na recombinação e ressignificação da matéria viva de nosso tempo.
Por isso tudo, Dilma Boy não só é uma obra de Pop Art no século 21, mas também exemplar para se compreender a contemporaneidade. E fazê-lo de uma perspectiva pós-modernista e ainda por cima brandindo a espada crítica, sem a qual não passaríamos de reprodutores do status quo.
Versão Buddy Poke do Dilma Boy (“DILMATOY”), prossegue o processo de recombinação
Não sou mais criança o suficiente para ter livros a escrever. Não há mais obra magna. O livro é só um nervo de uma vida mais repleta e carnuda, que um dia sangra em palavras. Escrevo porque, intoxicado de tempo e memória, não sei me expressar de outra forma. É preciso ser duro e viril porém delicado; ter finesse, sutileza, veleidade; é preciso engajar-se num estilo, ainda que inacabado; é indispensável ao escritor uma tenaz autocrítica, por-se em guerra não somente contra o meu tempo e a minha geração, mas sobretudo contra mim mesmo.
Ricardo Gomes em "O personagem misantropo"
esse sol negro da doce e verde esperança, o que fazer como ele? nada? escrever é isso, desistir dignamente. Ou...
Dan Jung em "O personagem misantropo"
gostei do ensaio! Emil Cioran é assim ácido, metabólico. Não é a toa que veio de Sibiu, cidade interessantíssima, e...
Gustavo Lapido em "O personagem misantropo"
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