Arquivo para ‘Direito à cidade’
Publicado em 11 de julho de 2011. Comente

Em 30 de outubro de 2007, a FIFA ratificou o Brasil como país-sede da Copa do Mundo de 2014. Em maio de 2009, a cidade do Rio de Janeiro foi confirmada para receber a partida final do evento, que acontecerá no estádio do Maracanã. Em 2 de outubro do mesmo ano, o Rio também foi selecionado, desta vez pelo COI, como sede dos Jogos Olímpicos de 2016. O entusiasmo e o ufanismo tomaram conta do noticiário, reforçando o discurso dominante que o Brasil vive o melhor momento de sua história. A Cidade Maravilhosa, “cidade global” segundo os urbanistas, tornou-se o balão de ensaio desse novo Brasil-potência, síntese mitificada da nova brasilidade, assumindo lugar semelhante à Brasília dos anos 1960.

Em 1º de janeiro de 2009, Eduardo Paes, do PMDB, tomou posse como prefeito da cidade do Rio de Janeiro. A aliança ao redor dele reúne o governo do estado chefiado por Sérgio Cabral, do mesmo partido, e a administração federal encabeçada pelo PT, num portentoso consenso tri-governamental. No primeiro ano de seu mandato, Paes iniciou um conjunto de ações denominado “Choque de Ordem”. Em coordenação de órgãos e governos, o “choque de ordem” reprime o trabalho informal, remove moradores de ruas, ajuda a despejar ocupações de sem tetos e ocupa permanentemente posições estratégicas, contra a “indisciplina urbana”.

Desde 2010, invocando os megaeventos, o “choque de ordem” está focado na implantação de grandes complexos viários por toda a cidade, mediante iniciativas como a TransOeste, TransCarioca e TransOlímpica.

Não custa lembrar que a “doutrina do choque” começou como tortura psiquiátrica, passou à esfera militar, foi usada como arma política contra inimigos ideológicos e, agora, chegou ao Rio de Janeiro no melhor espírito olímpico.

Se a urbanização das favelas e a regularização fundiária tomaram 30 anos de lutas pelo direito à moradia e à cidade, tais conquistas estão sendo desprezadas e destruídas em questão de meses. Pobres têm sido removidos sem compensação minimamente equivalente, de modo truculento, amiúde na calada da noite, para áreas distantes das comunidades onde viviam há décadas. Projetos de revitalização fabricam ainda mais sem tetos. Camelódromos históricos são desmontados, as mercadorias ilegalmente confiscadas, os ambulantes expulsos na ponta do cassetete. Empreendimentos culturais “criativos” mascaram a privatização da cultura metropolitana, em favor de grandes conglomerados da mídia e entretenimento. Na base da canetada, os projetos de engenharia e urbanismo aceitam tudo, a título de modernização, disciplinamento e pacificação.

Está em curso a submissão da cidade aos imperativos da especulação imobiliária. Pretendem convertê-la em “cidade global”, enquadrada às demandas e fluxos do capitalismo globalizado, sem espaço para os negros, os quilombolas, os jovens sem trabalho, os camelôs, os sem tetos, os precários. Se a exclusão sistemática e a violência contra os pobres vêm da história escravocrata da cidade, só agora galgou o status de “consenso”. Essa política de fascismo à carioca não respeita sequer servidores do próprio estado, como os bombeiros tachados de “vândalos” pelo governador Sérgio Cabral.

Neste contexto, surpreende, da parte de setores que se identificam como esquerda, um discurso de interesse público e até mesmo socialista (!), manobrado para “limpar” as ruas e comunidades, e empurrar os pobres cada vez mais para fora da metrópole que construíram. Em meio a bandeiras vermelhas misturadas nesse consenso, Marx ressente-se, pois segue a desvalorização do homem na sua submissão à expansão de riqueza como capital. O redesenvolvimento urbano do Rio, desigual e expropriatório, somente tem sido criticado por setores minoritários da esquerda, virtualmente isolados em meio ao monolítico bloco de governos e aliados empresariais, com seus gigantescos recursos políticos e econômicos.

Nesse contexto, é lamentável a desmontagem política do Núcleo de Terras e Habitação (NUTH) da Defensoria Pública do Rio de Janeiro. Muito próximo dos movimentos sociais, vinha defendendo direitos coletivos e difusos das populações afetadas pelo trator “progressista”, numa atuação como autêntica defensoria popular. Sob nova gestão, se tornou inviável a continuidade do trabalho de defensores e estagiários combativos, comprometendo a parceria direta entre o órgão e os movimentos sociais. Como consequência, levantaram-se ainda mais barreiras para a efetiva prestação da tutela jurídica aos prejudicados pelo desenvolvimento.

Não adianta prolongar em demasiado discussões teóricas, quando o presente range de conflito e urge por ações concretas. Bertold Brecht certa vez disse que chega uma hora nas lutas que se deve aceitar uma formulação rude, mesmo grosseira. Diante da anemia crítica na imprensa e dentro do bloco de poder, é preciso continuar insurgindo-se com os resistentes, continuar produzindo redes e mídias contra o consenso dominante. E contestar alianças ditas “estratégicas”, sob a desculpa universal da “correlação de forças”, que negam e desacreditam toda a cultura de esquerda por alguns professada.

 

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O texto acima, elaborado coletivamente, foi selecionado e será utilizado na próxima reunião, aberta e horizontal, do Núcleo Biolutas do Rio de Janeiro, no dia 18 de julho (segunda-feira) a partir das 19:00, na Cinelândia, à Av. 13 de maio, nº 13, 8º andar.

Publicado em 7 de junho de 2011. Comente

Estive hoje na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), onde se concentram os protestos contra a prisão de 439 bombeiros, no sábado passado. Vi um movimento propositivo, alegre, aberto e pacífico. Acamparam na praça e improvisaram um rancho. Havia bombeiros e familiares, e também muitos estudantes, simpatizantes e curiosos. Umas mil pessoas. Do outro lado da avenida, um cordão de policiais do choque, com ar distante.

Minha vontade era pedir a palavra para defender que o inimigo deles não era o bombeiro, — como o do bombeiro não era o policial. Que o inimigo é outro: um governo biopolítico, que controla a cidade para vendê-la o mais caro possível, que submete os pobres a um disciplinamento fascista disfarçado de “interesse público”. Tudo ao sabor de um amontoado de pretensões empresariais, imobiliárias e midiáticas, intimamente associadas ao blocão de poder que agrupa esferas municipal, estadual e federal.

Nesta metrópole, o “público” não passa de superestrutura do privado. As Olimpíadas elevaram o discurso do público a um patamar intocável, a um virtual Olimpo, de onde magnatas, mega-empreendedores e banqueiros redesenham o espaço público. Higienizam, removem populações inteiras, partilham os lucros bilionários e celebram o novo Rio, moderno, global e quadradinho. Nesse contexto, não adianta clamar por mais estado e menos impunidade. O controle dos cidadãos vem estruturado pelo sistema penal e a expropriação, pela prefeitura. É preciso ir além, pensar novos conceitos e novas narrativas, além do público e do privado; além da falsa alternativa: estado ou sociedade. Essas contradições não podem ser sintetizadas ou resolvidas, quando o sistema de exploração funciona precisamente a partir delas. A saída tem que vir de outro lugar. Talvez só deslizando dessa dialética, na práxis, como aconteceu em Tahrir e na Puerta del Sol, imaginando, e muito concretamente, uma outra coisa.

No Rio, vivemos uma situação tão grave que o discurso da ordem social e política está sendo utilizado até contra os agentes do próprio estado. Se militares estaduais são tratados à base de BOPE, imagine o leitor como tratam camelôs, sem tetos, sem terras, favelados e pobres em geral. É a doutrina do choque. Começou como tortura psiquiátrica, depois virou militar, então política, e agora chegou na minha linda e insubmissa cidade, como “choque de ordem”.

Publicado em 1 de junho de 2011. Comente

O movimento camelô expressa uma singularidade. Eles não se opõem ao trabalho assalariado dentro da hierarquia capitalista. Não são reativos: não se reuniram em um movimento contra o trabalho formal. Diferente disso, afirmam uma forma de vida singular que se projeta em comportamentos, desejos, relações afetivas, em um estilo próprio. Uma estética da produção. Na sua singularidade, o trabalho informal socializa a produção, no espaço comum das ruas, da linguagem coloquial, da economia popular. Ele se constitui em produção, e produção do comum.

Nunca antes na história do Rio de Janeiro se reprimiu tanto o trabalhador das ruas. Três governos em consenso mobilizam todas as forças do estado em sucessivas operações de “choque de ordem”. Com espaço urbano disciplinado e funcionalizado, prossegue a supervalorização imobiliária, a imobilização do trabalho, o embranquecimento da população. Sob o slogan da “pacificação”, despejos sistemáticos e apreensões generalizadas empurram os pobres cada vez mais para a periferia, livrando as áreas mais próximas do mar aos ricos. Na esteira dos megaeventos da década, o Rio de Janeiro aos poucos vai tornando-se a cidade global sonhada pelas suas elites: uma grande Ipanema televisiva, branca, higienizada, nova-rica. Até uma Disney-Rio vem aí. Não admira a concentração de investimentos em áreas “pacificadas”, ou seja, a retroalimentação do acúmulo capitalista, sempre e sempre estruturada pelo estado.

Mais uma vez na história das lutas, é preciso contestar a concepção funcionalista de ruas, calçadas, praças, viadutos, estações de metrô e outros equipamentos urbanos. Como se houvesse uma “função natural”, inquestionável, para cada lugar, que caberia à prefeitura organizar, regular e fiscalizar. Esquece-se que a invenção da metrópole se dá num processo social. Menos que espaço neutro, trata-se de um lugar de conflito, intensamente político, com fundo histórico. Nesse sentido, o Rio de Janeiro, — foco intensificado de políticas de urbanização autoritária, — está servindo de tubo de ensaio para uma estratégia de disciplinamento das lutas e redução do cidadão a mero consumidor, — principalmente os contingentes da dita “classe C”. Pretende-se que as tecnologias de poder aplicadas, por exemplo, no “choque de ordem” e na ocupação do Alemão, sejam exportadas num futuro próximo para o país inteiro, como política unificada de segurança pública, urbanismo e desenvolvimento.

Afinal, se não para exercitar a democracia com ocupações, passeatas, intervenções e camelódromos, para que serviriam as ruas e praças? acaso, seria apenas para se locomover da casa ao trabalho? da casa ao shopping?!

As lutas do século 21 não se fazem só em redes virtuais, mas na ocupação, autovalorização e mobilização produtiva da cidade, — como aconteceu em Tahrir, Porta do Sol, Avenida Paulista. Na realidade, as redes criativas de relações remontam às primeiras metrópoles. Eficiência, utilidade ou mesmo beleza, bordões do discurso oficial (do estado e da imprensa), não passam de fetiches. Tais metas transcendem o processo de autoprodução dos cidadãos, geralmente para neutralizar e controlar as forças vivas da cidade, e então lucrar e acumular. No urbanismo, o “interesse público” muitas vezes esconde a tentativa de enquadrar a multiplicidade de vozes e desejos que circulam na cidade. Enquadrar na base do trator, do cassetete, do gás lacrimogêneo, da vigilância eletrônica. Esta a atuação da prefeitura municipal do Rio, cujo secretário de habitação, curiosamente, pertence a um partido de esquerda. Assim, a reorganização do espaço repercute o conflito social, numa dinâmica antagonista, com corte de classe e racial.

Ingrato capitalismo! se volta contra quem começou tudo: os camelôs, que montavam barraquinhas ao pé dos castelos medievais, situados nas rotas comerciais.

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Fico com o altermundismo de Giuseppe Cocco, quando afirma que “o planejamento de tipo novo do qual precisamos é um modelo antropofágico, de inovação e criação: é o saque e a dádiva, a relação de alteração que faz o framing das favelas, na transformação das grandes pobres cidades em grandes cidades dos pobres: devir-cidade das favelas e devir-favela das cidades!” (“Governança das Metrópoles”, 2010: AnnaBlume, p. 74)

E fico também com o protesto de Vera Malaguti: “Estão ocupando a minha cidade. A linda, insubmissa e rebelde cidade do Rio de Janeiro. Para que fluam os grandes negócios transnacionais e esportivos. Para que as pessoas possam fruir sem serem incomodadas pela nossa pobreza. Essa é a minha triste impressão dos acontecimentos.” (http://www.correiocidadania.com.br/content/view/5287/9/)

Publicado em 25 de fevereiro de 2011. Comente

Consenso autoritário e surdo.
 Remoção da Vila Harmonia, Rio, 24.02.2011
Máquina do progresso higieniza metrópole e exclui pobres 

A figura do consenso está cada vez mais adequada pra analisar o Brasil hoje. O Rio de Janeiro talvez tenha sido o protótipo desse consenso. Governos federal, estadual e municipal se concertaram à grande holding cultural-midiática (Globo), às empreiteiras, às imobiliárias, e formaram um blocão do “interesse público”, embalado por zilhões de reais do PAC e do sistema financeiro, sob o slogan das olimpíadas e do futuro. Isso atropela os pobres: varridos pra baixo do tapete, removidos injustamente, excluídos da partilha, — por mais que a urbanização e os investimentos do PAC tenham também o seu (importantíssimo) saldo social.
Esse consenso surdo e autoritário parece em franca exportação à esfera nacional, através do governo Dilma. Suas primeiras manobras por assim dizer soviéticas contornam o dissenso e centralizam o poder em si. O discurso da eficiência é endeusado. Gestão é oposta à democracia, numa disjunção exclusiva: ou…ou… Pluralismo se torna desculpa para a chapa branca. Várias políticas de esquerda começam a ser desmontadas por argumentos tecnocráticos, os mesmos que haviam sido desprezados pelo governo Lula.
A lógica soviética se realiza pela acumulação das fichas, pela luta de hegemonia, pela tentativa de criar um enorme mastodonte de poder, — só que sem efetividade. Formal e abstrato, operante pela representação e não pela expressão constituinte.
O abstrato substitui o concreto; os números substituem as pessoas; o poder, a potência. Um governo de centro-esquerda aponta o nariz para o centro. O navio, que nunca deu cavalo-de-pau, interrompe o lento movimento em curva. Muda-se a derivada do movimento, nas lutas ferrenhas do governo Lula contra as forças do status quo, sorrateiras ou histéricas.
Tudo pelo consenso, pelo fim da revolta, do conflito. Eis a ordem imperturbável, sem ouvidos para quem está fora: os pobres. O formigamento de diferenças cede a vez ao ‘senso comum’ e ao ‘bom senso’ — substâncias essencialmente insípidas e inodoras, logo conservadoras.
Por enquanto, tudo está calmo e vai mal nesse governo Dilma.

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PS. Recomendo o breve comentário do blogue O Descurvo (de Hugo Albuquerque), O Terror do Consenso, que igualmente pressente o perigo abaixo nas águas turvas desse consenso em que, atordoados, parecemos mergulhar.