Leituras recomendadas:
ALLEN, WOODY, God: A comedy in one act (peça de teatro), 1975.
DAWKINS, RICHARD, Deus, um Delírio, Cia. das Letras: 2007 [2006].
FEYERABEND, PAUL, Contra o Método, UNESP: 2007 [1975].
POPPER, KARL, A Lógica da Pesquisa Científica, Cultrix: 2000 [1934].
SADE, MARQUÊS DE, Diálogo entre um padre e um moribundo, Iluminuras: 2009 [1782].
SAGAN, CARL, O Mundo Assombrado pelos Demônios, Cia. das Letras: 1996 [1995].
SPINOZA, BARUCH DE, Ética, Autêntica: 2007 [1677].
Blogue com pretensão literária não pode ser diário. Da mesma forma como uma história privada, pura e simplesmente, não faz um romance — a começar pelo fato da distância ontológica (e inevitável) entre autor e narrador e leitor.
Quando a produção se restringe ao blogue-diário, e ainda por cima direcionado a leitores com nome e rosto, o foco esfumaça-se e a mesmice tende a dominar. O exercício de estilo, a disciplina do pensamento, a expressão, o delírio, a infância do mundo, tudo isso se perde na burocracia monológica do diário online.
Outro dia mesmo li não-sei-onde, acho que numa entrevista, a Clarah Averbuck irritando-se com a pecha de blogueira, que a desqualificaria do estatuto de escritora. A perguntar-se: perante quem ela quer se qualificar? perante quem deseja ver-se rotulada escritora de estampa, autêntica, the real thing?
Talvez, como pioneira da blogosfera, ao invés de negar, contornar ou minimizar o seu meio e ferramenta de trabalho — aliás a construíram em primeiro lugar como escritora —, fosse mais construtivo afirmá-los, e num determinado sentido “rotular-se” blogueira, e fazê-lo às escâncaras, nas entrevistas, artigos, prefácios.
Afinal, basta folhear os lançamentos para concluir que muitos livros publicados, a gigantesca maioria, são de uma mediocridade grosseira: platitudes tacanhas e historinhas particulares, em geral mal escritas. Sem incluir aí a iniqüidade dos livros de “auto-ajuda”, inclusive mentirosos já no gênero, pois, se você compra um livro para se ajudar, não é auto-ajuda, mas ajuda exógena.
De toda sorte, o autor medíocre acha que basta uma história privada — uma infância difícil, uma perda lancinante, a mãe com câncer, uma paixão tórrida e clandestina, uma viagem qualquer —, basta algo assim que, zás, voilá tem-se um romance. Não e não. É preciso projetar-se num universo literário, marcado por densa historicidade, pautado por movimentos artísticos e literários, contextualizado por políticas e filosofias e religiões, atravessado de fora a fora, vertical e horizontalmente, diametral e diagonalmente, por linhas de força e diagramas epistemológicos, forças poderosas exercidas pela linguagem e pelos signos na sua totalidade. Etecétera. Para a arte literária, não basta um best-seller, quando este prescinde do essencial: inquietação, pressentimento, insight, renovação, profecia, expressão, um novo mundo. O livresco e o literário!
Mês passado, relendo um famoso lingüista russo, Bakhtin, recordei-me de como a história, muitas vezes, só importa na medida em que se adapta a uma proposta global. Dostoievski, para aquele pensador, tem como grande força a sua radicalização da polifonia, da relação profunda dos personagens com a verdade enunciada por eles mesmos, da inexistência de verdade global senão como realidade múltipla, composta de modo plural por sofisticadas consciências independentes… porém não farei resumos e portanto me resumo a recomendar a referência: o clássico “Problemas da Poética em Dostoievski” (Mikhail Bakhtin). Nota bene: Se não achar, me peça que eu consigo em pdf.
Assim, o enredo/argumento em si só interessa na medida em que atende a um projeto estético, uma visão de narrativa, a um pretexto literário com reverberações éticas, alegóricas, históricas, filosóficas, semióticas e todas quantas. Isto pode parecer óbvio, e de fato é-o, mas a constante lembrança reforça-nos a tenacidade da autocrítica, faz-nos inquirir permanentemente sobre as relações entre forma e conteúdo, texto e contexto, e acerca da inserção da obra na riquíssima conversação que é a literatura ocidental.
Então pra que serve literariamente o blogue? Em primeiro lugar, arrisco!, serve como work in progress, na interatividade midiática tão própria da revolução da Internet, deste século. Há dois anos, publiquei “Vida dos direitos”, um pequeno livro por uma pequena editora, sobre filosofia política e direito. Do lote de quatrocentos exemplares, se dez foram efetivamente lidos, será para mim uma notícia surpreendente. O Quadrado dos Loucos, projeto menos e por outro lado mais pretensioso, ele, mal o trouxe online, reparo muito mais gente por aí, a comentar, criticar ou simplesmente ler. O blogue embute uma força poderosa, aliás tanto mais quanto maior for a inserção no mundo online das pessoas de todas as origens e segmentos sociais. E nada mais revolucionário em termos de democracia midiática do que o acesso universal, uma das políticas culturais engendradas pelo Ministério da Cultura com Gil, que segue em concretização. A literatura só tem a ganhar com os blogues, sobretudo quando todos, sem exceção, puderem freqüentá-los e criá-los.
(…)
Palavras…, palavras?, palavras!
Sim, eu quero escrever. Mas o que quero escrever não é romance nem novela, e tampouco roteiro de cinema. Não é crônica, crítica, conto. Nem diário, didascália ou ensaio. Quero simplesmente escrever as palavras. Elas. E como elas se apresentam, como vão e como vêm, bandidas ou pudicas, como sobem e como descem, como passeiam, cabisbaixas ou de nariz empinado; como queiram, transeuntes trocistas palavras.
Tudo mentira. Ah se fosse fácil. Quero dizer, escrever é fácil, as palavras é que são difíceis. Claro que não falo das palavras difíceis. Seria injusto, porque têm palavras difíceis que são mais fáceis do que as fáceis. Tem palavra difícil que é tão fácil quanto baranga em final de noite, olha ali dançando, facinha facinha. Tem palavra fácil, contudo, que se faz de difícil. São as piores.
Me perdoem o chavão, mas são as palavras, elas mesmas, que escrevem em mim, por mim, e comigo. Me arrancam à tranqüilidade de meu silêncio as palavras. Reúnem-se numa algazarra e me fazem escrever, num jorro epilético. Inapreensível o balé das palavras, resta-me montar a macumba a Musas, Santos, Orixás, Budas e Basquiá. As palavras, quando mais estou carente delas, elas me deixam na mão. Acham um esconderijo e ficam ali, marotas, rindo baixinho. Chatas, exigem a vida mas negam a arte. As palavras nunca tiveram ética. Não só aceitam qualquer papel, como qualquer caneta. A palavra que afaga é a palavra que condena à morte.
O céu deve ser um lugar sem palavras. Não há metáfora (judaico-cristã) mais apropriada para a queda do homem do que a invasão das palavras na cabeça da criança. Uma blitzrieg de palavras: começa com “mamãe”, então “papai”, depois é “davi viu a uva”, “eu sou, eu tenho, eu quero, eu compro”, “quero um i-pod” e assim sucessivamente. De repente o leitor foi um anormal e, ainda adolescente, desvendou palavras outras com Augusto dos Anjos, Drummond, William Blake, Byron, Poe, Ezra Pound, Mário Faustino, Rimbaud, Verlaine e Leminski (nessa ordem, no caso do escritor, pavoneando-se).
Houve tempo em que não tínhamos palavras na cabeça. Ninguém se lembra porque as palavras, ciumentas, não nos permitem mais pensar sem elas. Porém, quem sabe, numa lembrança fugidia e incandescente, o leitor possa recordar-se do tempo em que não sabia falar nem entender os outros falando. Em suma, antes do Verbo, o que significa antes do Universo. Que lugar bão hein, onde não somos outra coisa que não as nossas extremidades (poros, boca, nariz, ânus, orelhas…) e somente as nossas extremidades. Tempo idílico em que dentro e fora não se discerniam, em que não havia eu e tu, nem nós, nem nenhuma pessoa ou tempo verbal. Havia somente um narrador-membrana que eleaticamente era Tudo, a Substância de Spinoza (una, unívoca, indivisível, absoluta, incondicionada e infinitamente infinita), ou seja, o mundo da interjeição eterna: ahhh!, ohhhh, hmmmmm… As palavras expulsaram o paraíso de nós, e descobrimos que do outro lado do Éden, havia um “fora”, e aí, claro, irrompeu o seu irmão gêmeo, o “dentro”. Doravante a nossa história individual não passa da problemática relação entre a interioridade e exterioridade, com todas as suas zonas cinzentas que a poesia penetra e a literatura sobrevoa.
Fez-se a Palavra, aprender a falar e ler e escrever, e essas palavras insones multiplicaram e povoaram e se dividiram em facções e guerrearam entre si com fuzis AR-15 e derrubaram helicópteros e foram parar nas manchetes amargas.
Eu não quero escrever, mas preciso, e por isso de certa forma quero… mas só como segundo momento. Preciso escrever para desabrochar os oceanos de palavras. Senão não durmo, porque as palavras não (me) deixam. Senão o delírio me inviabiliza o dia-a-dia, porque as palavras me iludem com a lógica. Senão o desassossego me desata qualquer possibilidade de causalidade psicológica. Senão o vento cósmico arremessa a minha mente para os porões da memória universal e de lá poucos voltaram. Senão confesso a minha derrota, porque as palavras me provam uma vez mais a existência da Grande Máquina. Senão me desencanto, porque as palavras me asseguram que, pelo menos nas palavras, a beleza, o amor, a salvação e a beatitude existem.
Hei de me vingar de vocês, palavras!
Não fossem o amor e a dor, os seres humanos seriam incomunicáveis entre si.
Etimologia: não quero falar do amor-eros (cupidez), do amor-philia (amizade), do amor-narciso (amor próprio), nem do vapor barato do amor-telenovela (melodrama). Quero tratar do amor-ágape (amor-banquete), febre de quarenta graus que pretendemos inocular nos outros, para contornar a mortalidade. E dela sair vencedor. Contudo, o amor intransitivo, como força expansiva irresignada à finitude, esse não conseguimos abarcar. Faltam-nos forças poéticas. É que, ao infinito, só acedemos em lampejos e relances, logo repelidos que somos por seu assombro e incompreensão. O amor, por isso, tentamos domesticá-lo e fazê-lo inteligível, coisificando-o numa pessoa, numa dada circunstância.
O que amamos já pulsa dentro de nós; apaixonar-se consiste em boa parte na projeção mais ou menos consciente dessa força interna preexistente. Ilusória passividade. O amor nada tem de falta, pois tudo nele é excesso e completeza. A carência jamais produzirá o amor, senão a impossibilidade de amar. Quem ama está a todo momento transbordando a si mesmo nos outros, e por isso conjuga exceção e excesso, e assim ama a vida.
A coisificação do amor, por um lado emocionalmente conveniente, por outro inicia o gradual processo de decomposição do amor. Decompõe-se nos outros amores, citados no começo. Em virtude disso, de tempos em tempos, ansiamos por novos amores, já que o amor coisificado converteu-se em eros ou philia ou narciso ou uma combinação de seus subprodutos. Porque o amor é quem produz o sentido e confere valor às coisas e não o contrário. Porque o amor não resiste a que lhe dêem limites. Dentro de uma gaiola, ele não canta. Porque ele não existe para ser representado, e se constitui da expressão nua: um meio sem finalidade.
Portanto, vivê-lo às últimas conseqüências significa apontar o rosto ao infinito, na magnitude espantosa de tudo o que podemos ser, uma vida em que vivemos trezentos e sessenta e cinco dias por ano e não somente cinco ou seis. Mas não reunimos a coragem suficiente para o desafio, porque somos apenas humanos. Eis o sentido do super-homem de Nietzsche: o ser que ama.









