Arquivo para ‘Década de 1960’
Publicado em 2 de janeiro de 2011. Comente

Haydée, personagem de A Colecionadora, 1967, Éric Rohmer
A nouvelle vague tornou-se sinônimo de vanguarda no cinema. Propunha uma nova sensibilidade para essa arte, ao mesmo tempo poética e política, inovadora e cheia de vivacidade. O conteúdo do filme passaria a ser a forma e a forma, o conteúdo. Uma articulação permanente. O diretor deveria assumir a sua responsabilidade como artista e autor, acima do produtor. O estilo de direção, ou mise-en-scène, passaria a ser considerado o núcleo criativo dessa arte, e não mais o roteiro.
Os primórdios da nouvelle vague aconteceram na década de 1950, quando alguns cinéfilios da Cinemateca Francesa se reuniram na revista de crítica Cadernos de Cinema. A partir de ensaios veementes, os críticos dos Cadernos elaboraram cânones e listas negras. Endeusaram-se alguns cineastas (sobretudo Hitchcock e Welles) e outros tantos foram demonizados. As palavras de ordem eram: autoria, estilo, audácia, realismo, expressividade de um mundo e uma afetividade. Surgia o cineasta-total: cinéfilo, historiador, crítico e diretor, sua biografia inteira entretecida com a arte. Surgia o cinema-cinema, na feliz expressão de Rogério Sganzerla.
Os primeiros longas-metragens da nouvelle vague são da virada de 1950 para 1960. Dessa época, são Nas garras do vício (Claude Chabrol, 1958), O signo do leão (Éric Rohmer, 1959), Os incompreendidos (François Truffaut, 1959), Acossado (Jean-Luc Godard, 1959) e Paris nos Pertence (Jacques Rivette, 1960). Longas de estréia do quinteto mágico, os cinco sacudiram o cinema mundial, inovando poéticas que se consolidariam e desenvolveriam, cada um a seu modo, durante a década seguinte.
Tamanho desejo de radicalidade pode passar a impressão que a nouvelle vague esteve intimamente associada às revoltas dos anos 1960. Que era parte das organizações políticas da época. Afinal, na mesma França, houve a explosão de maio de 1968.
Mas não. A nouvelle vague não participou, como movimento artístico, de nenhuma organização ou manifestação. Nem poderia. Seu maior mentor, o crítico André Bazin, havia morrido em 1958. Durante os anos 1960, cada diretor partiu para trajetórias individuais. A bem da verdade, a nouvelle vague era menos uma escola ou um todo orgânico, do que certo ímpeto originário, certa partilha de referências e inquietações, um amálgama de idéias que se desdobraria em direções diferentes e, por vezes, irreconciliáveis.
Do quinteto mágico, Godard engajou-se mais abertamente nas lutas. Bastam recordar seus filmes O pequeno soldado (1960), cujo assunto é a opressão neocolonial na Algéria, e Tempo de guerra (1963), um alegórico manifesto antibelicista. Ou então a temática marxista, numa poética brechtiana, de Week-End à Francesa (1967) e A Chinesa (1967), — o último inspirado num romance político de Dostoievski (Os Demônios).
Talvez por isso, tenha-se a impressão de um envolvimento global da nouvelle vague, visto que Jean-Luc era seu ícone maior. Porém, se havia cumplicidade crítica nos anos 1950, depois dos primeiros longas se esfacelou paulatinamente. Não havia organicidade.
Nos sessenta, François Truffaut nem sequer esbarrou em assuntos de militância. Filmava a dinâmica íntima dos personagens: triângulos amorosos, aventuras extraconjugais, episódios anedóticos. “Nascido” em Os incompreendidos, o timorato Antoine Doinel protagonizaria mais dois filmes no período, envelhecendo com o seu ator Jean-Pirre Leáud. Leve como uma pluma, o “ciclo Doinel” narrava as desventuras do querido pupilo do cineasta.
Afetivo e condescendente, não há na filmografia de Truffaut panfletos, denúncias ou conclamações. O mais próximo do cinema político foi o seu primeiro longa em cores, Fahrenheit 411 (1966). Uma história distópica sobre um mundo onde a escrita foi proibida e a função dos bombeiros passou a ser queimar livros. Lírico. Em Beijos Roubados (1968), a única remissão ao tumulto ocorre quando Christine (Claude Jade) comenta que a irmã está envolvida nas passeatas.
Em maio de 1968, Godard e Truffaut participaram ombro a ombro na confusão que melou o festival de Cannes daquele ano. Diante da mobilização universitária e das greves por toda a França, os dois aderiram ao movimento que exigiu e, eventualmente, conseguiu o cancelamento da premiação. “O cinema ficou para trás!”, discursou Godard, “a arte hoje não está mais em Cannes, mas nas ruas e praças”. A partir daí, ele politizará decisivamente os seus trabalhos, formando o coletivo Dziga Vertov (1968-72).
Truffaut não. Em que pese a atuação em Cannes 68, manteve o mesmo tom sentimental nos filmes seguintes, consistente com o seu estilo. Insatisfeito com essa “despolitização”, Godard polemizou e terminou por romper amargamente com o antigo colega dos Cadernos, em célebre entrevero, recentemente objeto de um documentário.
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O caso de Éric Rohmer (1920-2010), o mais velho da nouvelle vague, é ainda mais sintomático. No ultraquente período entre 1963 e 1972, produziu a seqüência Contos Morais, composta por seis filmes. Tomava como assunto a classemédia média, ordinária, em temáticas semelhantes ao romance burguês do século 19, e escrutinava a dinâmica moral/passional dos personagens. Enorme a sua distância em relação à vanguarda literária: o novo romance francês, de narrativa fragmentária e tema existencial.
Rohmer filmava sem qualquer ânimo de vanguarda.  Fazia questão de permanecer “invisível” como diretor, com o mínimo de firulas. Sóbrio, circunspecto, não alardeava manifestos políticos ou estéticos, nem cultivava mitologias sobre o cinema. Sequer gostava muito de falar sobre os seus filmes e se identificava como “ex-crítico” nas entrevistas. Católico praticante, não se dizia um “homem de esquerda”.
No entanto, há nos Contos Morais de Éric Rohmer um sentido profundamente político. E de esquerda. Isso se dá em vários níveis.
Pra começar, na sua narrativa por assim dizer distanciada. Rohmer não invade a mente dos personagens. Não lhes extrai confissões. Não os conduz a clímaxes dramáticos para forçar um depoimento. Salvaguarda-lhes uma autonomia com fundo ético.
O personagem existe por si mesmo. Não há onisciência nem julgamento moral. O autor está junto de suas criaturas e não acima delas. O personagem tem esfericidade, não se mostra por inteiro e guarda de si um fundo intocado. Irredutível à imagem, ao discurso. Verdade a ser interpretada e não arrancada. E não dá pra saber a verdade última e entendê-lo totalmente.
Nisso, Rohmer é dostoievskiano, e assume uma poética dialógica com valor ético.
O “narrador” dos filmes-contos não se confunde com a instância narrativa. Quer dizer, o efetivamente narrado, — a coleção de imagem e aúdio, — excede o monólogo do personagem que “narra”. Mais exposto que os demais, é verdade, mas nem por isso o “narrador” recebe um aval. Pelo contrário, amiúde essa distância atua contra ele, denunciando-lhe o egoísmo, a hipocrisia, a soberba, a autoilusão, a ingenuidade. Fazendo o espectador desconfiar, interpretar, circular pelos argumentos.
Nesse sentido, a posição de “narrador” torna-o privilegiado para a crítica. Se o protagonista-narrador dos Contos Morais é invariavelmente o homem branco classemédia, pior pra ele. Suas paixões são desnudadas em todo o seu viés de classe, a sua egolatria pusilânime, o seu voyeurismo instrumentalizador. O bisturi de Rohmer não poupa seus personagens de uma fina cirurgia moral, expondo tumores próprios de seu gênero, classe e tempo. Erra feio quem assinala machismo no perfil do “narrador” dos Contos Morais.
Daí que as mulheres sejam ininteligíveis nesse primeiro Rohmer (até 1972). Incógnitas, sua verdade é a mais recôndita. Seu comportamento ainda mais enigmático, um quê indevassável.
Os protagonistas buscam dominá-las, fetichizá-las, usá-las, capturar-lhes a admiração. Mais do que ser amados por ela, pretendem provar que podem ser amados por elas, por qualquer uma delas. Basta quererem e zás, elas se apaixonariam. Mas elas resistem. Não resistem (apenas) dizendo não, mas afirmando a dignidade. Firmam-se como seres livres, diferentes, criadores de sua própria narrativa.
O amor para os “narradores” significa fazer do outro objeto de sua conspiração, tema de uma intriga íntima, gato-sapato de seus caprichos. O outro é uma peça do jogo e não um jogador. Desfilam homens que se acham o máximo, “donos da situação”. Mas, ultimamente, dela terminam reféns e disso se ressentem.
Daí o papel crucial de A Colecionadora (1967) no universo dos Contos Morais. Porque, nesse que é o quarto conto, as mulheres resistentes (Suzanne, Maud, Chloe) sintetizam-se em Haydée, a mais feminista entre todas as personagens de Rohmer.
Haydée é a culminação de uma ética, uma estética e uma política — uma figura mitológica. É a própria década de 1960, no seu devir minoritário, na sua afirmação no presente da mulher do futuro.
Haydée não só resiste ao mais irresistível dos personagens dos Contos, Adrien (Patrick Bauchau), como o desarma e humilha sistematicamente. Ao mesmo tempo que generosamente lhe confere chances de redenção, que ele todavia não sabe aproveitar. Pois unidimensional. Inepto em combinar desejos, limita-se a tentar impor vontades. Todo o êxito de Haydée  sem qualquer moralismo, sem gritos ou slogans, sem nem mesmo um discurso coerente. Sustenta-se o filme todo a criatura menos dogmática e mais aberta à experiência. Sem convicções sobre si e sobre os outros, que não a certeza da dignidade indevassável, de não se deixar fetichizar e dominar, — mas nem por isso menos potente como mulher amante.
Haydée é mais do que a mulher independente (Suzanne, 2º conto), mais do que a mulher emancipada (Maud, 3º), mais do que a mulher libertária (Chloe, 6º).
Haydée é evolução da inescrutável e afirmativa Anna Karina, de Viver a vida (Godard, 1962), e antecipa a libertina e avacalhadora Helena Ignez, de A mulher de todos (Sganzerla, 1969).
Um personagem só, na potência da verdade que exprime, numa narrativa que a faz transbordar, é capaz de politizar uma obra mais do que cem panfletos.
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Este ensaio supostamente seria a crítica do quarto Conto Moral de Éric Rohmer, o filme A colecionadora (1967), dando continuidade ao dossiê que estamos montando, por encomenda do CinefiliaNET . Entretanto, a pena dançou em direções inopinadas, e me perdi. Mas prometo escrever a crítica da obra citada esta semana. Para críticas do QdL de outros filmes de Éric Rohmer, abaixo os links:

Publicado em 3 de agosto de 2010. Comente

Quando a modéstia é pretexto da preguiça
Quando a principal qualidade de um filme é a sua modéstia, alguma coisa vai mal. Existe a modéstia como moderação, tato e até reverência, mas também a modéstia como timidez e recato. Uma arte envergonhada pode ser bem-sucedida em representar e informar, mas jamais o será em expressar, em imprimir o estilo que é o conteúdo mesmo da obra, de sua matéria formada. É preciso dotar o olhar, o como-fazer , de sensibilidade própria, e a partir daí potencializar formas e reinventar vivências e transformar o mundo.
Uma noite em 67 é um documentário recatado. O autor está demasiado ausente. As escolhas orientam-se não só pela neutralidade opinativa, mas pelo receio de arriscar-se na interpretação do material. Não falo da falta de flores do estilo, de trucagem, de engajamento fácil, de exibicionismo autoral. Nem peço cinema direto, mesmo porque cine-verdade não tem nem pode ter objetivo didático, como Uma noite de 67 parece possuir, por exclusão.
É bem conhecido que aquela noite de 1967 foi a ponta do iceberg de uma crise da cultura brasileira. Ali desenham-se os limiares do caldeirão tropicalista, da guitarra elétrica, da tensão entre contracultura e luta armada.  Como toda crise, explodiu de valores e sentidos, colocou problemas novos e deslocou os antigos.
Mas fazer o quê? os diretores são modestos: mostram mas não apresentam. Propuseram-se, timidamente, a falar daquela noite. Renato Terra e Ricardo Calil juntaram audiovisual de arquivo para falar daquela noite, e dela fugiram, acuados, quando toda a a sua pregnância aparecia em fagulhas das entrevistas, principalmente com Gilberto Gil (eloqüente). A direção sente o frio da água e desiste de mergulhar atrás de pérolas. Fica na viola quebrada, nas piadinhas de Roberto Carlos, nos trejeitos dos apresentadores da Record, enfim, na anedótica superficial do evento. Ora, só isso? e justo hoje, num mundo globalizado e fluido, quando tanto se precisa de antropofagia.
O que então, se constrói com tanta modéstia? Talvez seja caso só de reavivar a “memória”, em propósito semelhante ao documentário Dzi Croquettes, cuja maior qualidade, dizem, é recordar o passado. Como se, por algum processo de simpatia anímica, fosse possível revitalizar forças pretéritas meramente através de sua re-presentação. Ainda que inexpressiva, ainda que eventual. Porque Uma noite em 67 prescinde de reinvenção, reflexão, reinserção, ou seja, de arte. Sobra o que ao documentário? a mistificação. Pena que, desse jeito, o passado permanece passado e o filme serviu apenas para confirmá-lo como tal, na sua distância insuperada, na velhice de suas noites.
Publicado em 31 de maio de 2010. Comente

Frank entra no quarto barato de motel e manda Dorothy abrir as pernas. Ele encara o sexo dela pelo robe entreaberto e, enquanto inala um gás estimulante, grunhe “mamãe, mamãe, mamãe“. Ela sussurra: “mamãe te ama” e Frank se descontrola: o olhar maníaco, as veias saltam da testa, as frases saem cuspidas com “fucks” a cada três palavras. Seu rosto em primeiro plano se contorce numa atuação (brilhantemente) horrenda, onde se alternam os pólos de “papai“, que espanca e esbraveja, e de “bebê“, que choraminga. A “mamãe” Dorothy, amedrontada, humilhada e estapeada, mas nem por isso menos sensual e excitada, enfia um lenço de veludo azul na boca de Frank. Começa uma transa alucinada, entre o estupro e o masoquismo. O espectador-voyeur está virtualmente dentro da ação, graças ao garoto Jeffrey, personagem escondido no armário, que assiste à cena de violência e erotismo.

Outra seqüência icônica. Numa noite de boemia marginal, Jeffrey acabou de dar um soco em Frank durante o “passeio da alegria” da gangue. Os comparsas arrancam Jeffrey do carro e imobilizam-no para a terrível punição que certamente virá. Rosto iluminado por uma lanterna, Frank inspira mais uma vez a droga gasosa, manda pôr no toca-fitas a música “In Dreams” (Roy Orbison), passa batom em si e beija sucessivamente na boca do garoto estarrecido. E então se sai com: “Vou te mandar uma carta de amor direto de meu coração, você sabe o que é uma carta de amor?, é uma bala da porra da minha arma, seu merda.“. Jeffrey é espancado, mas sobrevive.

Nunca um maníaco transbordou tanto de raiva animalesca quanto Frank Booth, interpretado pelo insubstituível Dennis Hopper. Nessa obra-prima de David Lynch (“Veludo Azul“, 1986), em que também atuaram Isabella Rossellini (Dorothy), Kyle MacLachlan (Jeffrey) e Laura Dern (Sandy), o ator americano de Kansas roubou a cena. A sua personificação insana de um personagem insano arrastou-nos fundo nos subterrâneos do inconsciente.
O papel caiu como uma luva para o artista bad boy, inadaptado às exigências do politicamente correto, nunca conformado ao bom-mocismo e ao caretismo cobrados pela imprensa americana de suas celebridades. Anti-social, alcoólatra e drogado, “um dos viciados em drogas mais notórios de Hollywood“, de acordo com a revista Rolling Stones. Dennis se divorciou quatro vezes, uma delas com apenas duas semanas de matrimônio, e ainda tentava um quinto divórcio antes de falecer, com a sua esposa nos últimos quatorze anos. Dentre outras delinqüências de sua “ficha corrida“, puxou uma faca para Rip Torn (“Homens de Preto“) na pré-produção de “Sem Destino“, mas fugiu de ninguém menos do que John Wayne armado, durante as filmagens de “Bravura Indômita” (1969). Em “Caçada Humana” (1958), desentendeu-se com o veterano diretor Henry Hathaway e desobedeceu as suas instruções por dezenas de tomadas.
Nesse sentido, Frank Booth, o psicopata bipolar de jaqueta preta, condensa a essência e a potência de Dennis Hopper na sua filmografia de variada qualidade, com mais de 150 longas (inclusive TV) como ator e sete como diretor. No longa de Lynch, Frank/Hopper é o supermacho que extravasa os desejos e instintos, numa explosão violenta e imprevisível. Isto se conforma à proposta surrealista da obra, que explora os meandros da mente humana. De um lado, a conservadora classe-média, representada pelo casal branco suburbano Jeffrey e Sandy, descafeinada, recalcada e assexuada. De outro, o desajuste social de Frank e Dorothy, transbordante de cafeína, erotismo e violência. Assim, Frank/Hopper ocupa a função de analista ao avesso, ou de um livro de auto-desajuda. Ao invés de tentar sublimar e apaziguar os desejos de um “paciente”, o insatisfeito Jeffrey, Frank oferece um “joy ride” no submundo de drogas, prostituição e crime, intensificando o  “thrill” da vida.
Noutra obra magna, “Apocalypse Now” (Francis Ford Coppola, 1979), Dennis é um fotojornalista frila — outro homem enlouquecido, sem rumo e decaído num ambiente doentio. Vive nas entranhas da selva do Camboja, à montante do Rio Mekong, como uma espécie de bufão da corte tribal de Coronel Kurtz (Marlon Brando). Os monólogos já confusos do fotógrafo se desordenam ainda mais na interpretação frenética de Hopper, que parece mesmo turbinado por anfetaminas e alucinógenos.

Desta vez, ao invés do corte normalidade/desajuste de Lynch, tem-se a dialética civilização/barbárie — termos jamais opostos, mas mutuamente implicados. A selvageria “primitiva” das selvas na Indochina confina com a “evolução” da civilização americana e, por isso mesmo, o lúcido Kurtz/Brando não vê contradição em se assumir bárbaro. Assim como em “Veludo Azul“, aqui Hopper é mobilizado para ajudar na viagem à desordem no coração da ordem, em mais um personagem que transgride o comportamento considerado normal, adequado e são.
Sem Destino” (1969), road-movie dirigido por Hopper e atuado por ele, Peter Fonda e Jack Nicholson, é outro longa a respeito da desrazão no centro da América. Os protagonistas são traficantes de maconha e cocaína, vivem como beatniks, viajam sem roteiro pelas estradas infindáveis dos EUA e redescobrem o horizonte infinito de liberdade da promessa original do Novo Mundo. No auge da contracultura americana, “Sem Destino” é mais um filme-manifesto do antinacionalismo, do amor livre e da recusa ao “sonho americano” recodificado como capitalismo arrivista. Não por acaso, o motoqueiro Billy/Hopper traja-se em estilo indígena com roupas de couro, tentando resgatar o projeto perdido de nação. Seu companheiro sintomaticamente veste-se como o Capitão América. E também não a toa, os protagonistas são mortos por caipiras preconceituosos, numa vingança da sociedade branca e civilizada da América contra o estilo de vida libertário dos anos 60. Na realidade, a filmografia “rebelde” de Hopper vem desde a década de 50, quando atuou junto de James Dean num papel menor em “Juventude Transviada” (1955), com apenas 19 anos.

Em seus principais filmes como ator e diretor, Dennis Hopper tornou-se o índice de uma outra América, expondo o rosto marcado, neurótico, moralmente cinzento e clandestinamente explosivo. No século XX, diversos artistas do cinema se propuseram a mostrar os esgotos da nação mais rica do mundo — terra do consumo desenfreado, do fast-food, da MTV, do sonho da ascensão social, das guerras imperialistas, — mas nenhum tão cruamente quanto Dennis Hopper. Sem estilização, sem finesse, sem meias-palavras, na frase-síntese de seu personagem mais agressivo: “Fuck you, you fucking fuck!“.


No vigor cru e na poesia suja do homem que era ele mesmo um personagem, Dennis Hopper soube expressar as contradições perigosas desse país de democratas e racistas, ídolos pop e psicopatas, intelectuais e generais, alienados e iconoclastas.

Publicado em 23 de abril de 2010. Comente

Give Peace a Chance.

Raras são as celebridades que conseguem conjugar a enorme popularidade desfrutada em seu tempo com um engajamento político verdadeiramente significativo e eficaz. Abundam por aí popstars que fazem donativos, visitam asilos, adotam órfãos de países de terceiro mundo ou então se envolvem em causas politicamente corretas: a ecologia na Amazônia (vide Sting) ou a fome na África (ex.: Bono Vox). Mas escasseiam aqueles que explicitamente tomam partido em questões prementes da época, filiando-se a movimentos sociais e militâncias políticas. O beatle John Lennon reuniu em si tais atributos, e além disso usou a sua visibilidade midiática em prol do pacifismo e dos direitos civis, nos Estados Unidos em ebulição do começo dos anos 70, fazendo dele um artista extraordinário para a geração.
O documentário “Os EUA x John Lennon” narra a participação cada vez mais intensa de John na campanha anti-guerra do Vietnã, na sua articulação com ativistas radicais, Panteras Negras e outros artistas engajados do início de 70. O músico recém-saído dos Beatles havia se juntado à performática Yoko em Nova Iorque, para o momento mais partidarizado de sua carreira. Montado com imagens de arquivo e entrevistas atuais com os então protagonistas (Chomsky, Cronkite, Gore Vidal, Bobby Seale, Tom Smothers etc), conta-se a reação virulenta e criminosa do conservador Governo Nixon (1969-74) contra Lennon, que em procedimento padrão, mobilizou os órgãos policiais e de inteligência — FBI, CIA, Imigração — para intimidá-lo a renunciar ao despertado lado militante.
Mas o beatle seguiu em frente e, mediante hits avassaladores como “Give Peace a Chance” e “Imagine”, alimentou de afetos e mantras as passeatas e comícios anti-guerra, em Washington e no resto dos EUA, enriquecendo o cancioneiro militante universal. O documentário relata a face mais ingênua, quiçá doce, de John Lennon, com suas as respostas simples e nada intelectualizadas, porém de comunicação imediata com os públicos. Expõe como ele encarou as contradições de aliar o seu irredutível pacifismo, na mesma oposição às políticas de Nixon, ao belicismo de grupos como os Panteras. E o longa demonstra, também, a tendência de polarização, cada vez mais radical dos dois lados, em disputas polêmicas da política, como era o imperialismo dos EUA.
Resultou, portanto, um documentário competente, simpático e informativo. Se de um lado, o tema concentra-se no John Lennon militante e na sua trajetória pós-Beatles com Yoko, por outro aborda a história mais geral de como um artista amado pelas massas pode envolver-se a sério na política — com todos os seus riscos, ameaças e contradições.