O Ritual da Primavera (Igor Stravinsky, Vaslav Nijinsky, 1913), 1. Gênese, reconstituição de Millicent Hodson (1987), performance do Balé Joffrey
Dança e música modernas não são a minha praia, mas impossível não se espantar com essa virtuose de O Ritual da Primavera (1913), no modernismo de Igor Stravisnky (composição) e Vaslav Nijinsky (coreografia).
O ritual da primavera remonta a eras ancestrais. Desde que o ser humano parou de vagar pelas savanas e fincou raízes, os deuses presidem cerimônias para garantir a renovação da terra e da vida. No equinócio da primavera, celebravam o ciclo sempiterno que os regenerava de fé, diante da dor e do horror da fatalidade. O ritual geralmente implicava um sacrifício, cujo sangue fertilizava a vida e propiciava o alimento do próximo ciclo. Tal regeneração pelo sangue ganhou expressão na famosa seqüência do filme Medéia, no realismo mítico-político de Pier Paolo Pasolini (1969), em que forma e conteúdo se coordenam como unha e carne. No sacrifício tratava-se de um gesto performativo em um tempo quando a vida entranhava-se de mito e o mundo da repetição sazonal e inexorável.
No Ritual da Primavera de Stravinsky/Nijinsky, tem-se na verdade um anti-ritual. O ser humano se insurge ao inexorável destino, e compunge-se e debate-se convulsivamente com todas as suas forças. Até o último suspiro, dá seus chutes, agita-se com barulho e fúria mesmo sabendo, e por saber mesmo, que nada significa. Signo da modernidade na entrada do século 20, este ritual da primavera cisalha homem e natureza, explode o ciclo sempiterno e instaura a revolta no coração da história. Não há conformismo diante do terror. Não pode haver sabedoria alguma na morte. E não se trata de mera afirmação do indivíduo: semelhante à tragédia clássica, o rosto/máscara do intérprete não se singulariza.
Como disse, sou leigo no assunto (decerto mais leigo que em cinema e literatura), mas, a mim (data venia!), a composição conforma o seu conteúdo singular graças a múltiplos êxitos de compositor e coreógrafo. Seja devido à multitonalidade e dissonância heterogêneas e radicais (tão características de Stravinsky) e à ressonância tribal (ao menos “primitivista”, como o primeiro Picasso) dos temas. Seja por causa da coreografia como anti-balé: sem graciosidade, bruta, gravitacional, travada, numa inadaptação visceral que se extravasa em todas as direções até o derradeiro suspiro de vida. Foi um succès de scandale e impactou o balé contemporâneo.
Versão em desenho animado, da Disney (Fantasia, 1940), do Rito da Primavera, 1. Gênese.
Extrato de Medéia (1969), de Pier Paolo Pasolini
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Dedicado ao leitor bailarino nômade Dan Jung, cujas contribuições enlouquecem ainda mais este Quadrado.