Arquivo para ‘Dança’
Publicado em 28 de dezembro de 2010. Comente

Letrista e vocal da banda inglesa pós-punk Joy Division, Ian tinha um jeito único de dançar, que ficou conhecido por Mosca Agonizante (hoje em dia comum entre fãs). Os braços movem-se freneticamente num semicírculo à frente do corpo. Clinicamente epilético, o músico costumava entrar em transe no meio das apresentações, mas continuava cantando. Se nas gravações de álbuns, ele parece contido, ao vivo é uma explosão, intensificando a experiência abrasiva, insistente e turbulenta que o Joy Division proporciona. Depressivo, matou-se aos 24 anos, depois de assistir ao filme “Stroszek”, de Werner Herzog.
Já pensou em dançar assim num casamento? Eu já.

Control, Anton Corbijn, 2007, Sam Riley interpreta Curtis
Publicado em 20 de dezembro de 2010. Comente

Publicado em 1980, Tu Não Te Moves de Ti de Hilda Hilst, novela inclassificável, além e aquém do fluxo de consciência, além e aquém do narrador-cavalo, lugar de alegria e terror, do riso e da agonia, inquietação radical a toda prosa inconsolada e irresignada, refoge de todos os lugares-comuns imagináveis, de todos os pontos de apoio e expectativas literárias, para embrenhar-se no esquisito abismo de sua narrativa.

Vídeo dança inspirado nessa obra, concepção e direção artística de Marisa Lambert, criação e interpretação de Érica Tessarolo, trilha sonora de Daniel Dias e câmera e montagem de Pedro Jorge.

Trecho inicial do livro Tu Não Te Moves de Ti:

“Porque um enorme fervor se aguça em mim, eu Tadeu, de joelhos te peço que OUVE, Rute, que me escutes: como se um rio grosso encharcasse os juncos e eles mergulhassem no espírito das águas, como se tudo, luta repouso dentro de mim se entranhasse, como se a pedra fosse minha própria alma viva, assim minha vida, olho espiralado olhando o mundo, volúpia de estar vivo, ouve Rute o que se passa quando os meus olhos se abrem na manhã do gozo, (de desgosto, se repenso o mundo) muito bem, Rute, esse olho me olhando agora é bem o teu, já sei, te preocupas se fiz bem o discurso, claro, me saí como sempre, as palavras estufadas, continuo no meu alto posto se é isso o que te importa, oligopólio-impacto-dinamizado, até comedores de excedentes eu usei, a água mineral perlada à minha frente Tadeu, a empresa é um corpo que precisa de um dirigente, vão notar a estria vermelha no teu olho, mandaste o Balanço para os jornais? falavas na manhã Na sôfrega manhã de mim, no sol de minha hora, solda minha manhã, Vida, que esse fio de aço nunca estilhace, liga-me ao teu nervo, OUVE (…)”

Publicado em 14 de novembro de 2010. Comente

O Ritual da Primavera (Igor Stravinsky, Vaslav Nijinsky, 1913), 1. Gênese, reconstituição de Millicent Hodson (1987), performance do Balé Joffrey

Dança e música modernas não são a minha praia, mas impossível não se espantar com essa virtuose de O Ritual da Primavera (1913), no modernismo de Igor Stravisnky (composição) e Vaslav Nijinsky (coreografia).
O ritual da primavera remonta a eras ancestrais. Desde que o ser humano parou de vagar pelas savanas e fincou raízes, os deuses presidem cerimônias para garantir a renovação da terra e da vida. No equinócio da primavera, celebravam o ciclo sempiterno que os regenerava de fé, diante da dor e do horror da fatalidade. O ritual geralmente implicava um sacrifício, cujo sangue fertilizava a vida e propiciava o alimento do próximo ciclo. Tal regeneração pelo sangue ganhou expressão na famosa seqüência do filme Medéia, no realismo mítico-político de Pier Paolo Pasolini (1969), em que forma e conteúdo se coordenam como unha e carne. No sacrifício tratava-se de um gesto performativo em um tempo quando a vida entranhava-se de mito e o mundo da repetição sazonal e inexorável.
No Ritual da Primavera de Stravinsky/Nijinsky, tem-se na verdade um anti-ritual. O ser humano se insurge ao inexorável destino, e compunge-se e debate-se convulsivamente com todas as suas forças. Até o último suspiro, dá seus chutes, agita-se com barulho e fúria mesmo sabendo, e por saber mesmo, que nada significa. Signo da modernidade na entrada do século 20, este ritual da primavera cisalha homem e natureza, explode o ciclo sempiterno e instaura a revolta no coração da história. Não há conformismo diante do terror. Não pode haver sabedoria alguma na morte. E não se trata de mera afirmação do indivíduo: semelhante à tragédia clássica, o rosto/máscara do intérprete não se singulariza.
Como disse, sou leigo no assunto (decerto mais leigo que em cinema e literatura), mas, a mim (data venia!), a composição conforma o seu conteúdo singular graças a múltiplos êxitos de compositor e coreógrafo. Seja devido à multitonalidade e dissonância heterogêneas e radicais (tão características de Stravinsky) e à ressonância tribal (ao menos “primitivista”, como o primeiro Picasso) dos temas. Seja por causa da coreografia como anti-balé: sem graciosidade, bruta, gravitacional, travada, numa inadaptação visceral que se extravasa em todas as direções até o derradeiro suspiro de vida. Foi um succès de scandale e impactou o balé contemporâneo.
Versão em desenho animado, da Disney (Fantasia, 1940), do Rito da Primavera, 1. Gênese.

Extrato de Medéia (1969), de Pier Paolo Pasolini
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Dedicado ao leitor bailarino nômade Dan Jung, cujas contribuições enlouquecem ainda mais este Quadrado.