Crítica completa da sextologia, pelo QdL:
* 4. A colecionadora (1967)
* 5. O joelho de Claire (1970)
* 6. Amor à tarde (1972)
* Nouvelle vague, política e a super-mulher Haydée (ensaio)
Crítica completa da sextologia, pelo QdL:
Crítica: Amor à tarde (L´amour après-midi), Éric Rohmer, França, 1972, cor, 35mm, 97 min.
Logo na primeira sequência, os cinco prévios da série efetivamente se reatualizam. Frederic está falando de seu voyeurismo inocente, ao passear pelas ruas de Paris. Explica ser suficiente contemplar as beldades que passam, na sua beleza passageira, sem qualquer intenção de um dia abordá-las. Então fantasia — e a cena acompanha a imaginação — essas belas transeuntes, uma a uma, oferecendo-se, sexualmente, à menor interpelação de Frederic. A curiosidade está em ser interpretadas por atrizes dos contos morais anteriores.
Quando Chloe (Zouzou), a libertária desregrada aparece nas suas tardes no escritório, Frederic a desdenha até o exato instante em que ela decide mudar de tática e denotar indiferença. É aí que Fréderic pressente uma perda de seu poder, e resolver restaurar a condição feminina de estar à disposição que lhe parece natural.
A assistência aos seis filmes, na articulação da mise-en-scène com os motivos literários, não me deixa passar em branco ante a irritante condescendência do diretor pelos personagens principais. Eles se dão bem demais. São analisados por uma lente favorável demais.
Deficiência na construção de gênero que, especulo eu, Rohmer tenha procurado sanar no ciclo seguinte de filmes. Chamado Comédias e Provérbios (seis longas de 1981-87), neles o ponto de vista não será mais exclusivamente masculino, e assim abarcará com maior horizontalidade a intrincada rede de paixões e frustrações humanas.
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Crítica: O joelho de Claire (Le Genou De Claire), Éric Rohmer, França, 1970, cor, 35mm, 105 min.
Crítica: A Colecionadora (La Collectiounneuse), 1967, Éric Rohmer, França, cor, 35mm, 89 min.
Crítica: Minha noite com ela (Ma nuit chez Maud), Éric Rohmer, França, 1969, pb, 35mm, 113 min.
Maud (Françoise Fabian) é uma mulher vibrante, inteligente, sensual, com brilho próprio, praticamente irresistível. É a evolução de Suzanne, do conto anterior, e se desdobrará ainda em duas mulheres sensacionais da série rohmeriana: Haydée (quarto conto) e Chloe (sexto). Divorciada, Maud se relaciona sem grandes compromissos com o professor de filosofia Vidal (Antoine Vitez), marxista e libertário. Este reencontra o amigo de longa data Jean-Louis, protagonista do filme e católico praticante como Éric Rohmer. A importância da religião na vida de Jean-Louis se faz mostrar com cenas de missas e sermões, por causa do Natal. Eis aí os vértices do triângulo amoroso.
Crítica: A carreira de Suzanne (La carrière de Suzanne), Éric Rohmer, França, 1963, pb, 35mm, 53 min.
Crítica: A padeira do bairro (La Boulangère de Monceau), Éric Rohmer, França, 1963, 23 min, pb, 16mm.
Assim como O signo do leão, incorpora a predileção por tomadas externas, nas ruas e esquinas de Paris. A câmera esquadrinha as pequenas agitações do dia-a-dia, enquanto uma voz em off se preocupa em nomear cada localidade: avenida tal, esquina da rua tal com rua tal. O realismo visual e sonoro, que deixa rolar o cotidiano da cidade, aliado a um narrador “cartógrafo”, faz do filme um quase documentário. De fato, os atores parecem não estar interpretando (des-dramaturgia).
Como nos demais da série “moral”, um pequeno grupo de personagens interage num cenário bem delineado. O enredo destaca um deles e o coloca num dilema. Devo escolher isto ou aquilo? por quê? Sem invadir a mente do personagem, a narrativa cerca o processo de decisão. Contrapõem-se os princípios anunciados por ele e as condutas que efetivamente adota. Estabelece-se um inquérito da consciência, em que se chocam o que ele diz ser e o que ele se torna, uma vez confrontado com o dilema concreto.
Em A padeira do bairro, o cenário são as ruas, os cafés e uma padaria de Paris. Os personagens de relevância se restringem a três: o jovem estudante de direito (Barbet Schroeder), a refinada transeunte Jacqueline (Claudine Soubrier), e a sensual padeira Sylvie (Michèle Girardon).
O jovem se encanta com Jacqueline, ao cruzar com ela diária e casualmente. Quando finalmente a aborda, as coisas não dão certo, menos por desentrosamento, do que por azar. Ele não consegue mais encontrar Jacqueline nos caminhos usuais. O jovem então passa a cortejar Sylvie, na padaria onde compra doces.
A tensão do protagonista, mesmo sexual, Rohmer insinua pelo desfile de quitutes na vitrine da padaria. Instigado pela exuberante Sylvie, ele come um, dois, três doces. Até que um dia toma coragem e a chama para sair. Mas então Jacqueline reaparece e eis o dilema: sair com uma ou outra? E aí, talvez movido pela racionalidade burguesa, se decide pela mulher de sua classe, com quem aparece casado no epílogo, anos depois.
Com ainda menos razão no grupo dos Cadernos, para quem “a forma também é moral”. Isto é, o “como” filmar também embute decisões morais. É aí que, possivelmente, resida a moralidade maior de Rohmer. Colocar a nossa moral em xeque, e por nós mesmos, ao fazer-nos perscrutar e circular pelas razões e motivações de personagens que poderíamos ser.