Arquivo para ‘Christian Marazzi’
Publicado em 10 de janeiro de 2012. Comente

Esse gráfico circulou bastante nas redes. Representa a porcentagem por área de investimento, em relação ao orçamento da União projetado para 2012. Nele, estão contidos os gastos federais planejados pelo governo para o ano, o que ainda depende da aprovação do congresso nacional.

Salta aos olhos a fatia da dívida, com quase metade do total de 2,2 trilhões de reais. Desse bolão, a fatia da dívida dá um trilhão de reais (um milhão de milhões), o que corresponde a 23% do PIB brasileiro, avaliado em R$ 4,4 trilhões (dez. 2011, por paridade de compra). Com base nesse gráfico, o esquerdismo saiu espalhando que Dilma governa para os banqueiros e que nunca antes na história desse país eles lucraram tanto à custa do trabalhador. Que eles vão amealhar 50% da arrecadação, enquanto coube à saúde apenas 3,98% e à cultura, 0,09% (um milésimo do orçamento). No fundo no fundo, até socorre alguma razão a declarações desse naipe, mas por razões bem outras. Às vezes, no afã de sentenciar o governo de morte ideológica, os oposicionistas isolam a bola pra fora do campo. Disparates, com uma oposição assim, quem precisa de governismo?

É que, nessa fábula de um trilhão de reais, não foram incluídos somente os juros da dívida, mas também as amortizações e o refinanciamento. Refinanciamento ou rolagem é a novação da dívida: uma operação contábil que substitui créditos antigos por novos. O governo adia o pagamento renovando o empréstimo, o que ocorre por meio do lançamento de títulos novos. A rolagem da dívida depende da aceitação dos credores, do concerto do governo com bancos e financeiras, que podem exigir condições mais vantajosas para o refinanciamento, em função de conjuntura e barganha. A necessidade de rolar os débitos confere a eles poder de retaliação, quando desagradados por medidas impopulares: maior controle dos fluxos financeiros, reduções da taxa básica, investimentos sociais demais, ou a tributação progressiva sobre fortunas (tributo inexistente no país) ou operações financeiras (como a CPMF, esse imposto sensacional cuja principal vítima eram, adivinhe, os bancos e as financeiras). Amortização, por sua vez, é outro nome para o pagamento periódico do saldo devedor, reduzindo a débito e cortando o efeito bola de neve. Além disso, é preciso calcular o valor real dos juros, abatendo-se a inflação do valor nominal. Pois se os juros fossem iguais à inflação, o empréstimo não produziria lucro. Sobre um empréstimo indexado pela taxa básica do governo (ou seja, a meta trimestral definida pelo índice SELIC) são cobrados juros de 11,0 % ao ano (jan. 2012, Copom). Debitando uma inflação de 6,5% (2011, pelo IPCA), resulta um juro corrigido de 4,5%. Sim, esses cálculos embutem critérios que podem ser problematizados e há nuances. Apesar disso, independente do método de cálculo, em nenhuma hipótese se pode concluir que, do orçamento geral da união, 47% são transferidos ao deus dará do mercado financeiro.

Nem perto disso, a ver.

O estado da dívida brasileira, em janeiro de 2012, é estimado em 2,3 trilhões de reais. Desse montante, a dívida considerada “externa” acumula 516 bilhões de reais, compensada todavia por uma reserva internacional em dólares, equivalente a R$ 640 bi. Isso é bom? Em termos. Porque boa parte do saldo “externo” (relação entre dívida e reserva) se obteve através da emissão de títulos da dívida pública interna, tomados por emprestadores privados de “dentro”. Nas duas últimas décadas, a dívida foi por assim dizer interiorizada.

Os credores “internos” atualmente fazem jus a mais de R$ 1,8 trilhões do débito público. Esse é o bicho. Dá 41% do PIB. Que é muito, sem dúvida, mas ainda assim distante das maiores dívidas públicas do mundo. Um pouco maior que a argentina ou mexicana. Na Europa, os países estão endividados até a espinha: Grécia, Itália e Irlanda, os casos mais críticos, possuem dívidas públicas acima de 100% do PIB, em iminente insolvência. A dos Estados Unidos beira os 100% e a do Japão ultrapassa 200%, ainda que sejam estados mais solváveis que os europeus. Tampouco a corrente dívida interna é a maior da história do Brasil. Em 1994, no lançamento do Plano Real, ela correspondia a 20% do PIB. Sob a bandeira do combate à inflação, o governo FHC adotou uma política de sobrevalorização da moeda, com a estratégia da âncora cambial. Pra isso se sustentar, entre outras medidas, eram sistematicamente emitidos títulos da dívida pública a juros altíssimos, a fim de atrair moeda forte dos consultores, gestores e padrinhos do capital globalizado (aka mercados). Conquanto o neoliberalismo até hoje impute o endividamento aos investimentos públicos (previdência, funcionalismo, estatais, saúde, educação etc), — que seriam um “luxo” para a realidade brasileira, — sua causa principal foi a necessidade de lastrear o real mediante um permanente superávit primário. Como consequência, em 1999, a dívida interna chegou a 40% do PIB, e continuou subindo, proporcionalmente, até o pico próximo de 60%, em 2003, vindo a cair em ritmo constante para 50%, em 2006, e 43%, em 2009.

Considerando o total da dívida interna (R$ 1,8 trilhões) e uma taxa média de juros reais de 4,5% ao ano, — 11,0% da SELIC menos 6,5% da inflação/IPCA, — resulta dessa conta de multiplicação o valor de 81 bilhões de reais, para pagamento de juros pelo governo. Na prática, no entanto, são pagos juros acima da taxa SELIC. Isso acontece por causa do dispositivo do spread, isto é, uma margem flutuante ao redor da taxa básica. Demais, vários papéis não se baseiam pela SELIC — há os pré-fixados na emissão, os indexados por outras variáveis etc —, bem como os pagamentos vencem em datas dispersas pelo ano, e sucedem flutuações de várias naturezas em índices e mensurações, e ainda outros fatores menos significativos e não considerados. Vale então majorar a primeira conta de R$ 80 bi, digamos, em 25%. Computados os efeitos, que sejam R$ 100 bi, que fechemos em 100 bilhões de reais para o bem da argumentação. É um bom valor como ordem de grandeza do que é distribuído anualmente aos rentistas da dívida interna, como lucro real. O leitor repare que se aplicássemos juros nominais, não-corrigidos pela inflação, se chegaria a quase R$ 200 bi.

A nossa estimativa chegou a um percentual de 4,6% do orçamento da união (R$ 100 bi sobre R$ 2,2 tri), repassados a título de juros reais da dívida interna. As estimativas de mão mais pesada que se encontram pelas redes falam em R$ 160 bi (7% do orçamento). Apesar da imprecisão, dá pra se ter uma idéia que está em questão um valor bem inferior aos 47% (mal) interpretados do gráfico, embora ainda seja muitíssimo. Escandalosamente mais do que os 3,18% de previsão total para a educação. Cada redução de meio ponto percentual da taxa SELIC implica, por conseguinte, um corte de cerca de R$ 10 bilhões do lucro dos rentistas, —- essas pessoas muito concretas que jogam golfe, voam de jatinho e bebem uísques que até poderiam votar, e muito dedicadas à política, também tratadas sinedoquicamente por “mercados”. Não à toa o estardalhaço quando o Copom não decide exatamente como haviam combinado entre si, isto é, com seus parceiros pelos governos e bancos centrais.

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O que se pretendeu colocar com toda a matemática deste texto árido, além de polemizar com argumentos acometidos de esquerdismo?

Em primeiro lugar, como é fundamental para a esquerda dissecar e explicar a economia política de seu tempo, como Marx já propunha no século 19. Isto hoje passa por um entendimento mais global do sistema financeiro, ou melhor, dos processos de financeirização. Em vez de tentar glosar todos os acontecimentos, atrás da primeira opinião que confirme o que supostamente já se sabia; compreender e aprender a língua dos gaviões. Trata-se menos ainda de dançar ao redor da fogueira da crise mundial, se limitando a profetizar em tintas vermelhas o apocalipse econômico. A crise é lugar de disputa e pode ser torcida para qualquer direção. O capital não é uma entidade de sete cabeças sentada num trono de marfim, mas uma relação bastante epidérmica com a gente, constitutiva dos sujeitos e relações sociais, do dia a dia. É preciso se livrar dos vícios do economês e destrinchar explicações não-econômicas para a economia, com perspectivas mais arejadas, com pontos de fuga para uma outra política. Mais ou menos como propõe o filósofo Michel Foucault, pra quem a economia é antes de tudo “a ciência dos comportamentos”.

Afinal, não só a economia: a vida é financeirizada. Nesse sentido, os mecanismos e dinâmicas da dívida pública têm servido para socializar o débito. A dívida pública está no núcleo do processo de financeirização, cabeça a cabeça com o endividamento privado das famílias. Antes a questão da dívida externa praticamente induzia a esquerda às teorias da dependência e à agenda anti-imperialista, mas agora a primazia da dívida interna sugere que o colonizador nunca esteve tão dentro. O imperialismo se disseminou em uma cauda longa de micro-explorações mistificada pelo economês, num âmbito simultaneamente global, nacional e local. Uma nova ordem global, financeirizada e pós-imperialista. O que os filósofos políticos Antônio Negri e Michael Hardt chamam Império, no livro de mesmo nome. A financeirização faz a fronteira entre ricos e pobres, entre credores e devedores, interiorizar-se e aprofundar-se pelo tecido social. A disseminação de algum crédito e alguma renda a todos está chegando casada com uma socialização bem mais profunda da dívida. Pública ou privada, mas dívida, relação de poder que capitaliza o futuro para dominar o presente. E a partir da relação da dívida, por dentro de sua articulação política e comportamental, reproduz-se a divisão de classe entre os 99% e o 1% da população global. A revolução, de fato, não virá da economia.

Publicado em 8 de dezembro de 2011. Comente

Publicado originalmente no Coletivo Amálgama, em 6 de dezembro de 2011. Continuar lendo lá.

A crise da economia global: Mercados financeiros, lutas sociais e novos cenários políticos“, de Andrea Fumagalli e Sandro Mezzadra (orgs.)

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O capitalismo é crise. E não morrerá de morte natural, como dizia Walter Benjamin. Aprendeu a governar a crise, alimentar-se dela, perpetuar-se nela. Mas, quando a palavra capitalismo volta à ordem do dia, algo vai mal no reino. Até pouco tempo atrás, era simplesmente romântico falar em capitalismo. Esse é um livro sobre a crise. Traz o sentido da urgência de quem vive tempos comprimidos, críticos. É motivado pela premência de organizar a crise, antes que o capitalismo se reorganize em nome dela. Nessas horas, nada mais oportuno do que uma política radical. Radicada nas causas materiais e nas lutas concretas, de baixo pra cima, somente uma atuação política que vá às raízes pode evitar que a crise se traduza em regimes políticos muito piores, em warfare, em novos-velhos racismos e fascismos. Eis a primeira premissa, que explica o subtítulo: “mercados financeiros, lutas sociais e novos cenários políticos“.

O desenrolar de narrativa, que vai das finanças à revolução, não se vai encontrar nas páginas de economia dos jornais ou nas revistas “especializadas”. Nas 364 páginas, nove pesquisadores ligados à rede militante Universidade Nômade oferecem interpretações outras para a crise da economia global. Seu foco é os EUA e a Europa, foco dos múltiplos colapsos de 2007 até hoje. Suas inquietações: qual a participação das pessoas não só como objetos da crise, mas como sujeitos? Quais as oportunidades para a organização política? Como reabrir um horizonte de mudança radical, à altura de nossos tempos? Em meio a tantos especialistas de olhos azuis e populismos de última hora, o que se pode fazer?!

A resposta padrão à crise tem sido reportá-la à esfera econômica. E ponto. Contorna-se o aspecto propriamente político, a dimensão social, para atribuir a crise a desvios, abusos ou corrupções da ordem financeira. A culpa é de um capitalismo financeiro demasiado desregulado e corrompido. No fundo, é desses yuppies de Wall Street, sua ganância, seu cotidiano profissional que mistura ética de pôquer com videogame, regado a cocaína, uísque e putas de luxo. E quando tudo vem abaixo como um castelo de cartas, saem à francesa com “greed is good and so is Marx“.

Então é hora de pôr os pés no chão e chamar os tecnocratas para salvar o que resta da economia global. Fazer o que tem de ser feito, sem muita firula, sem inventar moda. É caso de opor-se a especuladores e favorecer empreendedores reais e produtivos. Retornar aos bons tempos do século 19, saudosos da teoria do valor de David Ricardo, em que o melhor para os trabalhadores é aliar-se aos bons capitalistas — esses que organizam a produção e geram a riqueza, a ser ordenadamente distribuída, a cada um o seu. Ética do trabalho, da produção real, do desenvolvimento sustentável, contra todo tipo de rentismo fácil. Eis o discurso do Partido Republicano dos EUA e do Tea Party, que o livro descarta.

Para os autores, a financeirização da economia não é acessória ou dispensável. Não basta regulá-la, coibi-la, mitigá-la — para revalorizar a dinâmica real que lhe serviria de substrato. Na cópula “capitalismo financeiro”, o “financeiro” está sobrando. Isso já sabia Rudolph Hilferding, no clássico de 1909. As finanças estão disseminadas por todo o ciclo econômico, social e político. Não há mais opção de voltar atrás em busca do elo perdido do capitalismo produtivo. Na produção, circulação, distribuição e consumo, habita o crédito como elemento essencial. As operações econômicas de um modo ou de outro passam pelos bancos, pelos cartões de crédito, pelas prestações, pelos investimentos a curto, médio e longo prazo, pela atribuição de valor segundo as ações, as cotações na bolsa, os juros e as expectativas. Hoje, não se fala mais em previdência, educação ou saúde sem falar nos fundos de investimento correspondentes: públicos ou privados ou público-privados. A métrica passa a ser definida pelas bolsas de valores, que, sob a mão invisível dos grandes players, repartem as cotas de mais-valor entre a massa.

Uma tese do livro sustenta que, para a roda continuar girando — na lógica capitalista de rendimentos a curto prazo e líquidos –, só mesmo ampliando a base financeira. Isto significa implementar uma política monetária expansiva, alavancar (leverage) em fluxo permanente e versátil, e engendrar mirabolantes produtos financeiros (securitização, refinanciamento, mercado futuro ou opções, swaps etc). Portanto, menos do que ganância de um punhado de tubarões de Wall Street, o sistema capitalista se dilatou na financeirização por razões estruturais. Foi o que contribuiu para manter o aquecimento da economia americana e do mundo por boa parte da década passada. Por isso, quando Alan Greenspan se dizia movido por ideologia, não estava de todo errado. De fato, na lógica sistêmica, era coerente.

Para os autores, a crise não é um problema técnico, como se acontecesse acima das nuvens, numa atividade esotérica reservada aos iniciados. É um problema de todos nós. Somos o alfa e o ômega da financeirização, numa reedição contemporânea da servidão voluntária. É que a financeirização não se trata de uma etapa do capitalismo, mas de uma forma específica de governo, de um “modo de regulação”, de uma “governança social” com dimensões políticas, morais e jurídicas.

Nessa forma de governo, o endividamento é uma estratégia. Ele é encorajado e chega mesmo a valer a pena. Se, antigamente, as pessoas eram consideradas incluídas quando conquistavam o welfare (emprego e seguridade social), agora o são quando auferem acesso a crédito abundante. Daí se torna normal financiar (e refinanciar) a casa própria, bens de consumo, os negócios, a bolsa de estudos, o plano de saúde, o casamento da filha, a viagem internacional etc etc.

Vive-se uma sociedade de acionistas, investidores, rentistas e 99% de endividados. Através do crédito, as pessoas acabam enquadradas e amarradas a estilos de vida. É uma moral creditícia, que demanda meticuloso planejamento da carreira, do patrimônio, da família. Suas expectativas de consumo são formatadas, metrificadas e, assim, capitalizadas. É como se o desejo fosse projetado para o futuro, dando origem a um duplo, a sua gêmea maligna: a esperança. Essa colossal esperança do conjunto da sociedade endividada é então processada (financeiramente) em títulos e promissórias. Por sua vez, esses papéis são garantidos por outros títulos, por outros produtos financeiros, os “derivativos”. O futuro é derivado do presente e então capitalizado. Estes se multiplicam como os pães de Jesus, à casa da dezena (2004), da centena de trilhão de dólares (2008). O fiador definitivo dessa sofisticada corrente de Santo Antônio? A fé no sistema. Daí que descrer no capitalismo já é resistir.

Que é essa operação milagrosa senão a colonização massiva e sistemática do futuro, das crenças populares, do enquadramento no sistema capitalista e sua forma de governar? Nunca o capitalismo foi tão místico, tão abstrato na sua maneira de medir e distribuir a produção social. E injustamente. O rentismo financeiro tem produzido uma brutal transferência de renda dos mais pobres aos mais ricos. Boa parte dessa expropriação se dá com o aumento da dívida pública. Com a crise, os estados emitem títulos para salvar os bancos, comprar títulos tóxicos (desvalorizados), semi-nacionalizar empresas (como a GM americana) e reinjetar liquidez. Acabam transferindo boa parte da arrecadação aos agora rentistas da dívida pública. Assim, pode parecer que as bolhas estouram no vácuo, na ficção de créditos e títulos derivados. Porém, no fundo desse processo, enormes jazidas humanas estão sendo governadas e espoliadas, na produção, distribuição ou consumo. Na realidade, por todo o ciclo econômico, já que as finanças atuam em cada momento.

Para os autores, a crise é mais do que um acidente de percurso. A crise foi precipitada pela própria sociedade, por 99% dela. Se, com efeito, o sistema consegue governar a esperança e o medo (da insegurança) , não pode fazer o mesmo com o desejo, que se coloca sempre em relação de desmedida. Daí a crise dos subprimes nos EUA, no fundo, basear-se numa luta social pela moradia (hipotecas…) e pela educação (bolsas…). A crise da dívida soberana européia, por sua vez, na precarização das populações, sem crédito nem welfare; principalmente os jovens, que protagonizaram os movimentos do 15 de Maio e do 15 de Outubro. Já as insurreições na Inglaterra se ancoram na desigualdade social, tão aparente em termos de consumo. O movimento Occupy, na percepção derradeira que a verdadeira forma de governo vigente no ocidente não é a democracia liberal representativa, de fachada, mas uma aristocracia capitalista, profundamente ideológica, articulada globalmente e entranhada nos principais estados-nações. Para os resistentes ficou claro como, de cima pra baixo, não tem como sair nada de bom: nem novo Bretton Woods, nem novo New Deal.

Há um fracasso generalizado nas tentativas de saída da crise, porque ela acontece fora da lógica simplesmente financeira. Não há sinal da tão esperada reacomodação de crenças e confianças na economia política em vigor. Em 2011, os tumultos cresceram e se multiplicaram. O xis da questão continua sendo o conflito entre o desejo social e a lógica dos mercados, entre as forças produtivas (a multidão) e as relações de produção (a governança financeira). A crise é da medida.

Mas que os autores propõem? Além de apostar as fichas no poder criativo das redes militantes, acampadas e tumultos?

Entre outras coisas, a rediscutir o que efetivamente se deve. Até que ponto as pessoas tem de pagar pelo colapso do sistema de crédito, pela socialização das perdas operada pelos estados? Em tempos de crise global, é plausível falar em um direito ao calote. Para ajudar não os bancos, mas as pessoas. Uma das tentativas de instituí-lo nos EUA se deu com a Lei de Ajuda às Famílias para Salvar Suas Casas (2009). O projeto original continha inédita cláusula que autorizaria o juízo de falência a modificar o valor devido pelas pessoas, quando do resgate das hipotecas. Mas o Senado americano vetou-a.

Em segundo lugar, os artigos convergem ao redor do direito à renda universal. Se o capitalismo se tornou rentista, também é nesse caminho que se pode imaginar a reapropriação da riqueza. Menos assistencialismo ou justiça social do que a devida remuneração à população. Como o valor é extraído difusamente em todo o ciclo econômico, nada mais justo do que restituir a parte dos produtores. É a “ressocialização da moeda”, que opera dentro e contra a financeirização da vida. Na renda universal, trata-se de desquantificar o valor de troca e requalificar o próprio sentido do dinheiro e da riqueza.

A qualidade desse livro está em fazer o percurso inverso do economês predominante. Ou seja resgatar a crise do capitalismo global das páginas de economia e reportá-la à sua dimensão política. Afinal, o quanto pode ser extorquido da gente nunca deixou de ser uma questão política.

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::: A crise da economia global ::: Andrea Fumagalli e Sandro Mezzadra (orgs.) ::: Civilização Brasileira, 2011, 364 páginas :::

Publicado em 5 de dezembro de 2011. Comente

Fala-se muito em crise do capitalismo financeiro. A narrativa é mais ou menos assim:

Os culpados principais da crise foram bancos internacionais e grupos de investimento, os grandes players que jogam com a riqueza mundial. Ao longo da última década, extrapolaram todos os limites da cobiça para realizar uma falsa multiplicação dos pães. Mirabolaram produtos financeiros, os derivativos, com o que criaram valor onde não havia nada. Como esse ouro de tolos, incharam bolhas especulativas, descoladas da economia real, — fantasiosas e insustentáveis. Sem ser eleitos por ninguém, jogaram muito alto e sem nenhuma garantia com o dinheiro alheio. Aproveitaram-se da desregulamentação do setor e fizeram de refém os governos nacionais, incapazes de conter a luxúria por lucros fabulosos ou talvez cúmplices. Banqueiros, financistas, acionistas e executivos deitaram e rolaram em cima da economia mundial por anos e agora todos pagamos o pato, enquanto os verdadeiros culpados são salvos com o dinheiro público e ainda posam de popstar. Não admira o movimento Occupy nos Estados Unidos tenha começado por Wall Street.

É o que temos ouvido todos os dias, mas não é bem assim.

Boa parte das críticas se fundamenta numa superficial separação entre finanças e economia real. Como se a dimensão financeira fosse um a-mais ao aspecto real da produção. Como se existissem capitalistas que realmente organizam e comandam a produção de coisas; e os meramente financeiros, que se limitam a atuar na realidade virtual dos mercados e bolsas de valores. Os bons e velhos patrões empreendedores versus os especuladores yuppies.

Essa interpretação aparece à esquerda e à direita do espectro político-ideológico.

Ambos os lados acusam o capitalismo financeiro de exagerar na dose de capital fictício em proporção ao capital real. Para um e outro, não dá pra continuar apostando na ideologia da mão invisível que vai de Adam Smith a Alan Greenspan, — nessa mistificada racionalidade “autônoma” dos mercados e agentes financeiros. Portanto, é preciso aplicar políticas regulativas para controlar o funcionamento do sistema. É preciso punir e criminalizar condutas gananciosas e irresponsáveis. É preciso repensar um novo marco monetário internacional, como o antigo Bretton Woods (1944-72). É preciso resgatar a esfera pública contra o alto clero da econometria.

A direita propugna por uma aliança entre trabalhadores de bem e capitalistas de bem, num novo pacto produtivo, em nome dos valores do trabalho (um novo New Deal). É a posição do Tea Party. A esquerda aproveita para novamente dar vivas ao estado nacional como gestor do capital coletivo, capaz não só de controlar o mercado financeiro como distribuir os seus ganhos. É o discurso do desenvolvimento com inclusão social do governo brasileiro e sua nomenklatura economista. Os dois campos concordam que, assim, se poderão gerar empregos, alimentar a demanda interna e retomar o crescimento.

Há uma limitação séria nessas interpretações, apesar de predominar nas revistas, jornais e sites, especializados ou não. Serão as finanças algo acoplado à economia dita real, que teriam pervertido o capitalismo original, tornando-o mais injusto? É possível salvar o capitalismo de antes da financeirização?

Há uma linha crítica que vem desde Marx que acha que não. Me refiro especialmente ao economista Christian Marazzi, de quem resenhei um livro ano passado. Este ano, li mais artigos e outros dois livros dele: A violência do capitalismo financeiro [2010, SemioTexte, em inglês] e O comunismo do capital: financeirização, biopolítica do trabalho e crise global [2010, ombre corte, em italiano]. Descendente da Escola da Regulação Francesa (Michel Aglietta, Robert Boyer, Alain Lipietz etc) e do pós-operaísmo italiano (Antonio Negri), o autor tem o mérito de nunca deixar de reportar as crises à sua dimensão política e social. Quer dizer, não analisa a crise pela ótica de condições objetivas, mas da própria dinâmica de produção de sujeitos sociais, antagonistas ou não.

Para ele, a financeirização é unha e carne com o capitalismo. Não há processo do capital sem crédito, — o que Marx desenvolve principalmente no Livro III de O Capital. A crise global é do capitalismo tout court. Pode-se qualificá-la como financeira apenas na medida em que é a presente forma de organização do capitalismo. Mas nunca no sentido dominante, que se poderia salvar algum capitalismo bom do capitalismo financeiro mau. O que faz toda a diferença. Não adianta tentar solucionar a crise do capitalismo financeiro corrigindo o financeiro, — quando este é apenas uma consequência daquele. O capitalismo é a crise. Tentar sair da crise melhorando o capitalismo já é repetir a própria lógica de desenvolvimento do sistema, como aconteceu ao longo das crises sistêmicas desde o século 19. Pode-se trabalhar e lutar para outra resposta, afirma Marazzi.

Para ele, as finanças estão imbricadas no processo produtivo como um todo, da produção à circulação, da distribuição ao consumo. De um modo ou de outro, as operações econômicas passam pelos bancos, operadoras de crédito, financiamentos ou investimentos a curto, médio e longo prazos. Tente sobreviver sem uma conta no banco… Cada vez que o sujeito realiza um ato econômico, — que produz, circula, troca, consome etc — já está inscrito nos inúmeros circuitos financeiros. E aí é explorado, pelo fato mesmo de submeter-se a uma métrica de valor, a uma partição de lucros e riscos embutida em juros, taxas e rendimentos. Essa métrica e suas cotações são decididas bem longe dos cidadãos, pelas bolsas de valores, políticas monetárias, agências de classificação de risco e sistema bancário. O cidadão fica à mercê de um mundo cujas leis tudo faz crer alienígenas, — tão distante de nosso cotidiano quanto as páginas de economia dos jornais diários. Enquanto isso, a cauda longa da produtividade social vai sendo vampirizada através do valor-finança, dessa lógica de medir e extrair valor, desde os atos mais prosaicos da economia.

Um ponto de Marazzi é que as finanças existem por razões estruturais do sistema. A crise das finanças constitui uma crise histórica, sintética de todas as contradições e limitações que o desenvolvimento do capitalismo acumulou ao longo dos séculos. Demais, a financeirização não é somente da economia, mas da vida. Por isso, desdobrando um conceito de Michel Foucault, ele fala em biocapitalismo. O biocapitalismo, que é o capitalismo financeirizado, opera em níveis múltiplos e articulados, grosso modo: 1) como cimentador do capitalismo global, 2) como modo de regulação da economia política, 3) como forma de governança social.

1) Nada parece ser mais central para os governos nacionais do que as políticas monetárias e os bancos centrais, que tentam disciplinar a repartição da riqueza entre devedores e rentistas. A política monetária é a primeira a sofrer a ingerência das instituições internacionais, especialmente nas crises. A globalização não só passa pelas finanças, mas nela se articula política e economicamente. É necessário que estados nacionais e políticas monetárias se integrem ao sistema financeiro. Seu funcionamento globalizado é administrado por uma aristocracia de instituições internacionais, gigantescos bancos de investimento e outros grandes players. Marazzi chama de “comunismo do capital” essa cooperação de capitalistas em organismos e fóruns como Davos, e a sua codificação linguística é sempre financeira. Com ela, permitem mensurar e organizar os fluxos de capital, fabricar consensos políticos e exercer comando sobre os governos nacionais.

2) Como modo de regulação, refere-se ao papel da financeirização para a demanda solvente. Ou seja, dinheiro para gastar + desejo (o núcleo de toda a produção). Sem a demanda solvente, o capitalista não realiza o lucro. É que, para se reproduzir, toda produção precisa concluir o ciclo com um suplemento de valor, que então é reinvestido. É o chamado regime de acumulação e varia em função da época. Hoje, disseminar crédito em toda a sociedade se torna uma estratégia para mover a economia. Em consequência, o acesso à moradia, educação, bens duráveis, pequenos negócios — tudo isso se torna possível graças à facilitação do crédito. Ao longo das últimas décadas, um conjunto de medidas nacionais e internacionais favoreceu o endividamento generalizado das pessoas, mormente na Europa e EUA. Tornou-se normal assumir hipotecas, financiar carros, investir em bolsas universitárias, aplicar na previdência privada etc. O que antes era função do estado de bem estar (emprego e seguridade social), agora se viabiliza com as finanças. Não à toa somos incentivados a usar e abusar do cartão de crédito, que chegam aos cachos pelo correio. Daí a multiplicação de recursos creditícios à população. Que é acompanhada pela mirabolação dos produtos financeiros “derivados” (refinanciamentos, colateralização de riscos, créditos swaps, mercado futuro etc), superdimensionando a base monetária.

3) Mas não é só isso. No capitalismo contemporâneo, a financeirização da vida atua também como modo de governar as populações. Nos tempos em que se estruturava no welfare, acontecia enquadrando as pessoas na tríade emprego, nação e família. Hoje, noutro modelo, a pessoa fica condicionada pelas finanças. Tem de planejar-se a longo prazo: como vai investir em moradia, em previdência (fundos de pensão), em educação, enfim, em como estruturar a sua vida mediante as estratégias de investimento, retorno e juros, em total dependência do sistema financeiro. A própria família se torna um investimento estratégico, visto que o estado não garante mais nada. A governança opera flexível e difusa, a sociedade precisa aprender a gerir os riscos e oportunidades. Não precisa mais disciplinar o sujeito estritamente nos moldes do trabalhador empregado (pleno emprego), cidadão de bem (nação) e homem/mulher de família. Reestruturam-se formas mais versáteis: empregabilidade (workfare), cidadão cosmopolita (globalização) e relacionamentos líquidos. Por isso, na financeirização, está em jogo também a produção de certa subjetividade do homem moderno, — numa dimensão antropológica que às vezes passa despercebida, mesmo em tempos de crise.

No cômputo de seus fatores, a financeirização da vida tem possibilitado não apenas uma transferência brutal da massa endividada (99%) aos rentistas (1%), mas também tem fabricado governamentalidade das populações em escala global.

Mais do que se pautar pelas estratégias florentinas e teorias conspiratórias dos tubarões, como num filme de Oliver Stone, o sistema capitalista global está entranhado no cotidiano e nas formas de vida contemporâneas. É como se fosse uma argamassa social e todos estamos incluídos em sua dinâmica. O mundo das finanças é a culminância de uma abstração que atinge proporções planetárias, e à qual ainda rendemos a nossa servidão voluntária. Nessa perspectiva biocapitalista, o sistema precisa investir a vida de todos, incluir a todos nas dinâmicas de crédito e capitalização das esperanças (investimentos) e medos (securitização), — mas ao mesmo tempo nos inclui como excluídos do rentismo. Eis aí a contradição esgarçada pela crise: entre as forças produtivas (multidão de endividados) e as relações de produção (a financeirização, que concentra a riqueza).

Esse processo não pode ser separado do capitalismo — ele é o seu próprio modo de funcionamento, radicalizado a partir das crises anteriores, nos anos 1970-80. Não há mais economia real a que pudéssemos regressar. Porque o mundo não é mais como era em 1950 ou 1960, quando em alguns países do hemisfério norte havia welfare state. Alguns economistas do campo da esquerda tupiniquim até hoje sonham com o pleno emprego e a seguridade social da Suécia de 1970, numa nostalgia do que não vivemos. Porém, não só a economia não é a mesma: as relações políticas, os sujeitos sociais e o próprio desejo sofreram mutações irreversíveis.

Isso tudo entrou em crise. Qual seria o caminho além de uma tentativa de sanear o capitalismo ou tentar voltar ao estado social europeu do pós-guerra? Como entrar na crise, assumi-la em seu sentido pleno como crise política e social, e acima de tudo radicalizá-la para tentar superar as limitações e contradições mais recônditas e simultaneamente óbvias do sistema? Eis aí desafios enormes, à altura do desejo criativo de uma geração que se revolta pelo mundo todo. É assunto apaixonante que, com as leituras de Marazzi e outros pensadores originais, pretendo abordar em próximos artigos.

 

 

Publicado em 6 de agosto de 2010. Comente

Publicado originalmente na coluna que escrevo no Outras Palavras, em 6 de agosto.
Christian Marazzi é um economista pós-moderno.
O leitor pode até torcer o nariz com o adjetivo. Afinal, com tantas idas e vindas ao redor dele, pós-moderno pode ser qualquer coisa. De filosofias maneiristas a niilismos dogmáticos, de ecletismos dândis a relativismos moderninhos. Talvez valha mesmo a impostura: pós-moderno, no fundo, é o que se quer de mais muderno.
Ademais, tampouco se pode precisar o “moderno” antes do “pós-” — ou a modernidade, ou o modernismo. Três termos por sinal distintos. Tem autor aí dizendo que jamais fomos, sequer, modernos. Que dirá pós-modernos.
Apesar disso, em 1979, Jean-François Lyotard sedimentou um significado para pós-moderno. O seu livro A Condição Pós-Moderna marcaria o debate das três décadas seguintes. Para o filósofo francês, a condição pós-moderna se caracteriza pela descrença irremediável nas metanarrativas.
As narrativas do progresso, do desenvolvimento, da civilização simplesmente não convencem mais. Doravante, o retorno à comunidade de valores, aos universais e às utopias não passa de tentativa inautêntica e ineficaz. As ciências e a filosofia demonstraram a impossibilidade de uma narrativa capaz de explicar e abarcar a multiplicidade do mundo. Reinam a ambigüidade, o paradoxo, o paralogismo, a dissolução dos grandes esquemas.
Nesse sentido, o pós-modernismo deslegitimou duas das mais corpulentas narrativas do século 20: o marxismo e a psicanálise (alvos prediletos de Michel Foucault, por exemplo). A primeira estruturada, grosso modo, ao redor da dialética histórica, do planejamento como modelo de gestão econômica, da centralidade do modo de produção como fator de explicação e intervenção. A segunda em cima do teatrinho edipiano, e do inconsciente como mola propulsora do indivíduo e da sociedade. A primeira abalada desde o estruturalismo francês dos anos 1960. A segunda, decisivamente a partir de O Anti-Édipo (1972), por Gilles Deleuze e Felix Guatarri.
O pós-moderno do pensamento de Christian Marazzi igualmente recusa as metanarrativas – nele também não há esquemas rígidos ou teleologias supra-históricas – mas não se furta à narrativa. Em O Lugar das Meias, a sua principal obra, publicada em francês em 1994 e reeditada no Brasil somente quinze anos depois, o economista não se esquiva de narrar uma história, para nela identificar rupturas e viradas, que definem configurações do capitalismo e de sua resistência.
A narrativa de Marazzi acompanha a corrente de pensadores materialistas que relacionam o pós-moderno ao surgimento de um novo modo de produção, logo uma nova sociedade. Pensadores como Alain Touraine ou Daniel Bell, para quem a sociedade pós-industrial tem por força econômica vital o conhecimento e a informação. E principalmente como Antônio Negri, filósofo que é a principal referência do autor.
Ao longo da agitada década de 1970, Marazzi e Negri foram ativistas do grupo Autonomia Operária, que congregava intelectuais não-alinhados à ortodoxia do Partido Comunista Italiano (PCI). Esse círculo operaísta criticou ferozmente o pacto neokeynesiano entre a burguesia industrial-desenvolvimentista e um sindicalismo obsoleto, — que ainda operava sob categorias do marxismo industrial, fordista e gramsciano. Esta conjuntura consolidou-se com a famosa aliança entre a Democrazia Cristiana e o PCI, contra a qual se insurgiu toda a extrema-esquerda italiana.
O Lugar das Meias, como conseqüência, atribui à parcela da esquerda o erro de trabalhar com conceitos e práticas que não fazem mais sentido dentro da nova configuração do capitalismo: o pós-moderno. A esquerda girava em falso porque estava presa a uma concepção de trabalho, distribuição e resistência, que eram pertinentes na antiga sociedade industrial, mas não na sociedade pós-industrial.
Na esteira de Antônio Negri, Marazzi narra que, nas décadas de 1960 e 1970, exauriu-se o potencial transformador das lutas sindicais e estudantis dentro do formato tradicional de pressão ao estado por mais empregos, direitos do trabalho formal e desenvolvimento industrial. Houve aí uma virada paradigmática, que conduziu o capitalismo do moderno ao pós-moderno, do fordista ao pós-fordista, do capitalismo industrial ao cognitivo. O pós-moderno passou a exigir outro ciclo de lutas.
Singular nessa matriz negriana de O Lugar das Meias, a posição das lutas como fator reconfigurador do capitalismo. A emergência de um novo modo de produção deve-se menos à lógica interna do capital do que às lutas democráticas por mais liberdade. As lutas vêm antes: o capital não se renova, ele é forçado a renovar-se. A cada etapa capitalista corresponde um ciclo de lutas, que afirma outro mundo e assim revoluciona o sistema. Nesse sentido, a passagem do moderno ao pós-moderno significou uma conquista dos trabalhadores; ao invés de mera captura e anulação das forças revolucionárias pela classe dominante, como profetizado de maneira pessimista, e até apocalíptica, por alguns intelectuais da esquerda.
Portanto, antes, na modernidade, tinha-se a economia baseada na unidade da fábrica, na divisão técnica do trabalho, na massificação do consumo, no modelo corporativo tradicional, na lei da oferta e da procura, na prevalência do “setor produtivo de base” (industrial), na interpenetração e cumplicidade entre estado e burguesia industrial. A educação hierarquizada, o sistema de saúde, a previdência, a democracia parlamentar e partidária, tudo isso se coordena nesse modo de produção, constituindo, no conjunto integrado de relações de poder, a sociedade industrial, a tal modernidade ocidental.
O pós-moderno, por sua vez, irrompe do ciclo de lutas dos anos 1960 e 1970, cujo mote essencial era romper essa lógica industrial e moderna de trabalho. Opor-se-lhe como um todo, afirmando outro modo de vida. O cidadão não queria mais simplesmente melhores salários e direitos trabalhistas, mas sobretudo não ser operário, não ser instrumentalizado num mundo-fábrica hierarquizado e espoliatório. É nesse prisma que podem ser lidos slogans de maio de 1968, como o “Não trabalhar jamais!” ou “Autogestão da vida cotidiana já!”, bem como o célebre pôster em que as pessoas são retratadas como engrenagens de uma grande máquina.
Ainda na narrativa de O Lugar das Meias, o ciclo de lutas dos anos 1960 e 1970 culmina num novo modo de produção. A narrativa anuncia o seu capítulo pós-moderno. O regime de produção torna-se, destarte, pós-fordista. Implica profundas transformações na sociedade, inaugurando a sociedade pós-industrial. Como resultado de lutas globais, essa sociedade mundializa também os fluxos socioeconômicos, transpondo as fronteiras dos estados-nação. Como conseqüência, recompõem-se, em caráter global, tanto as classes dominantes (a “aristocracia” financista e multinacional), quanto redes de militância, colaboração e produção livre (a multidão).
Para Marazzi, no pós-moderno aparece uma nova linguagem social, potencializada pela intensificação da comunicação. As redes comunicativas entram na esfera da produção. Tornam-se vitais nos processos de valorização e circulação dos bens. Um capitalismo de redes. Quem detém a informação, produz mais e melhor. Inverte-se a lei econômica tradicional: não mais a oferta cria a sua demanda, mas a demanda é quem inventa a sua oferta. A teoria do valor deve ser remodelada para captar o trabalho imaterial. Os direitos autorais, as patentes, o copyright e o marketing passam a agregar mais valor aos bens do que o custo (industrial) de fabricação.
A fluidez do novo capitalismo exige reações rápidas e enorme adaptabilidade. A cadeia produtiva fica cada vez mais enxuta (“lean production”), demite, flexibiliza contratos de emprego, terceiriza (“out-sourcing”), elimina grandes estoques, expele métodos e processos onerosos, agora chamados externalidades. Pretende atender às demandas em tempo zero (“just-in-time’). A generalização das externalidades, associada ao hiper-crescimento do setor terciário, faz com que a fábrica dissemine-se na sociedade. Ao invés do regime disciplinar do chão-de-fábrica, nasce uma sociedade de controle que modula a aplicação do poder e a captura a vida mediante dispositivos difusos e anônimos. Fábrica por assim dizer social, porém controlada e socialmente desprotegida. Implode-se o regime fordista de direitos e fragmentam-se os cidadãos em classes e subclasses.
No campo da formulação teórica, o neoliberalismo substitui o desenvolvimentismo do período anterior. E serve de ferramenta preferencial para a direita pós-industrial. Enquanto isso, incapaz de reconhecer a mutação profunda no trabalho, parte da esquerda reedita o keynesianismo, propondo um retorno ao período anterior. Neokeynesianismo baseado na soberania nacional, no “setor produtivo de base”, no emprego formal — não a toa, termine por servir ao projeto reacionário da burguesia nacional-desenvolvimentista destronada.
Mas o modo de produção induz a desarticulação do “welfare state”. A sociedade pós-industrial conforma com um estado-crise. Vive-se um capitalismo de catástrofe iminente. Risco de desemprego, de recessão, de colapso. Festim dos grupos especulativos. O neoliberalismo pauta-se pela gestão do risco, traduzida no economês financeiro. Indicadores financeiros, como o risco-país e as taxas de juros, determinam as técnicas de governo (e os noticiários), concentradas em impedir que o risco saia das margens toleráveis.
Daí a prioridade passar à regulamentação financeira: estabilidade da moeda, geração de superávit e eliminação de custos fixos do estado. Na sociedade pós-industrial, inexiste separação entre economia real (industrial e serviços) e economia financeira (gestão do risco, especulação). Nela, não é que os mercados ocupem o lugar do estado, mas é o próprio estado que se reconfigura, política e juridicamente, para servir de arcabouço e garantia para o funcionamento dos mercados. Estado e mercado são unha-e-carne e é preciso inventar alternativa a um e outro. Atravessá-los em diagonal.
A narrativa de Marazzi conclui com a identificação do ciclo de lutas correspondente ao pós-moderno. O caso é que existe um impasse no modelo atual de capitalismo. Agora, para produzir valor, ele precisa promover a vida social, fazer circular afetos e valores, multiplicar os nós comunicativos. Necessita incentivar redes sociais, as mesmas que também se articulam em trabalho livre e militância global. Assim, o novo operário social torna-se cada vez mais independente dos circuitos de acumulação.
Tome-se o exemplo do telefone celular. A lucratividade das companhias situa-se mais no seu uso do que na compra dos aparelhos. Mas o que define o uso? A vida. Tanto mais valor será produzido quanto mais relações sociais ocorrerem. Este, o modelo da “new economy”. Na nova economia, a vida está investida ela mesma nos processos produtivos.
Como se pode produzir sem o recurso a grandes aparatos fabris, os meios de produção tornam-se acessíveis à maioria. Na sociedade pós-industrial, pode-se produzir ao difundir conteúdos, digitalizar experiências, inventar linguagens, comunicar-se criativamente. A informação esquiva-se do controle pós-fordista — copyright e patentes — e se dispersa, incontrolável, pelo corpo social. Tempos de democratização da informação, midialivrismo, ativismo internauta, Wikipédia, tuíter e Googleleaks.
Se o capitalismo tenta governar hoje as vidas através da pobreza difusa, do risco e do medo, é dessa mesma crise, da enorme classe de precários e internautas-artistas, que podem se articular as redes de resistência e a transformação.
Nada mau para uma narrativa pós-moderna. Marazzi demonstra que as políticas democráticas também funcionam com a força da narrativa. Que o pós-moderno significa menos a dissolução final das narrativas do que a sua multiplicação, a sua explosão em mini-narrativas e nos múltiplos ciclos de lutas. Narrativas agora menos pretensiosas e grandiosas, escritas e reescritas ao sabor das aventuras militantes e movimentos sociais. Na verdade, a erosão da narrativa-mestra fortalece a luta. Pois, além de evitar a mistificação da história única e absoluta da liberdade e prosperidade, também deslegitima o suposto triunfo do mercado como ponto final da História.
Se, com Marazzi, a constituição do sujeito político ainda dependa da força criativa da narrativa, temos a ousadia de juntar duas palavras fora de moda para lutar por uma revolução pós-moderna.
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MARAZZI, Christian, “O lugar das meias: a virada lingüística da economia e seus efeitos sobre a política“, tradução Paulo Domenech Oneto – Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009 [1994]. Coleção “A Política no Império”.
Publicado em 22 de junho de 2010. Comente

Christian Marazzi é um economista pós-moderno.

Há leitor que torce o nariz com o adjetivo. Afinal, pós-moderno pode ser qualquer coisa. Basta ver o tanto publicado sob a legenda. De filosofias udigrúdis a dandismos obaobas, de relativismos imobilizantes a “niilismos” dogmáticos. Talvez valha mesmo a impostura: pós-moderno, no fundo, é o que se quer de mais muderno.
Ora, tampouco se sabe precisar o “moderno” antes do “pós-” — ou a modernidade, ou o modernismo. Três termos por sinal distintos. Tem autor aí dizendo que jamais fomos, sequer, modernos. Que dirá pós-modernos.
Sem embargo da semântica polêmica, a partir da década de 60, na filosofia francesa, pelo menos vingou um significado para pós-moderno. A condição pós-moderna se caracterizaria pela descrença irremediável nas metanarrativas.
Isso é mais, portanto, do que certo mal-entendido, que confunde pós-moderno como mera relativização da verdade, destruição de valores, amoralidade cinzenta. Como combate à razão. Nada menos rigoroso, pois a razão desde a origem come o próprio rabo. Platão, Descartes, Kant, incontáveis os racionalistas a colocar as pretensões da razão no banco dos réus. Esse pós-modernismo terra-a-terra não passaria de (mais) um relativismo moderninho (mas antiqüíssimo).
Não, pós-moderno como metanarrativa é outra coisa. Metanarrativa quer dizer o procedimento teórico de esquematizar a narrativa. Estabelecer um fundo intocado, mais ou menos oculto, mais ou menos coerente, onde se ancoram os conceitos e explicações.
Exemplo. Para Michel Foucault, o marxismo e a psicanálise constituem duas metanarrativas. A primeira construída sobre a dialética histórica. A segunda em cima do teatrinho edipiano. Marx e Freud. A primeira renegada desde o estruturalismo. A segunda decisivamente a partir do livro O Anti-Édipo, de Gilles Deleuze e Felix Guatarri.
Tudo isso pra dizer que o pós-moderno de Christian Marazzi não tem a ver com o pós-modernismo antimetanarrativa e nem é pós-modernismo ‘mudernoso”. Porque em O Lugar das Meias, o economista suíço ancora a sua argumentação sobre uma narrativa de fundo histórico. Daí a alcunha pós-moderna mais confunda do que esclareça a sua linha de pensamento. Há “mudernos” que vão subscrevê-lo, e “pós-mudernos” que o condenarão. Quiçá mais acertada a definição altermoderno, ou seja, um outro projeto de modernidade, concorrente com uma pluralidade de modernidades.
A referência maior da pós-modernidade de Marazzi está na filosofia política de Antônio Negri. Marazzi foi seu aluno e partidário. Militaram lado a lado como intelectuais orgânicos do movimento operário, na Itália em ebulição dos anos 1970. Hoje, Negri é das maiores referências do pensamento de esquerda mundial. Graças não somente à obra fecunda e extensa, como também à militância permanente em movimentos sociais. Em Negri, a concepção singular da democracia expressa uma alternativa tanto às promessas capitalistas quanto às utopias socialistas. Além do mercado e do estado, o filósofo de Pádua promove uma democracia radical,num governo global dos muitos, através da libertação do trabalho vivo dos circuitos capitalistas de fixação e expropriação.
A narrativa de O Lugar das Meias, portanto, constrói-se ao redor do tema da libertação do trabalho. A bem da verdade, a centralidade do trabalho é indispensável a qualquer teoria que se pretenda de esquerda. Materialismo oblige — homo faber. É preciso compreender o modo de produção, a formação do valor e a composição de classe, como ferramentas para transformar a sociedade. A diferença entre moderno e pós-moderno, na aludida narrativa, consiste precisamente na diferença entre dois momentos do capitalismo. Duas maneiras de produzir e de explorar o trabalho. E, por conseguinte, dois ciclos de lutas, um para cada etapa. Em síntese, uma narrativa que periodiza a luta de classes.
Por moderno, afinado à narrativa negriana, Marazzi entende o modo de produção marcado pelo fordismo, o taylorismo e, enfim, o toyotismo — dominantes do final da Primeira Guerra até os anos 1960 e 1970. Trata-se de técnicas de produção baseadas na unidade da fábrica, na divisão técnica do trabalho, na administração científica, na massificação do consumo, na forma corporativa tradicional, na lei da oferta e da procura, na prevalência do “setor produtivo de base” (industrial), na interpenetração e cumplicidade entre estado e burguesia industrial. A educação, o sistema de saúde, a previdência, a democracia parlamentar e partidária, tudo isso coordena-se nesse modo de produção, constituindo, no conjunto integrado de relações de poder, a “sociedade industrial”.
Os direitos usufruídos na sociedade industrial nascem do ciclo de lutas operárias do fim do século 19 e começo do 20. Em meio a insurreições e revoltas, à irrupção de estados socialistas, conquistam-se as primeiras liberdades e direitos coletivos. Eis a ascensão dos sindicatos legalizados, dos partidos comunistas com representação parlamentar, dos códigos trabalhistas. Tempos que convergem no keynesianismo: estado de bem-estar social, garantias do trabalho assalariado, inclusão dos pobres mediante o emprego formal e o vínculo estável com a empresa.
Sociedade industrial: pirâmide política dividida em classes de operários, dos menos aos mais qualificados/remunerados, encabeçada pelas elites industriais, conglomeradas no estado nacional. Seus imperativos: desenvolver o país, aumentar a produção, melhorar a balança comercial, fortalecer o consumo, crescer o PIB, para que todos, no final das contas, saiam ganhando. Teoria do bolo: crescer e repartir segundo a posição de cada qual.
Isto perdura até os anos 1960 e 1970, quando um novo ciclo de lutas provoca transformações no capitalismo. Veja o leitor que, na narrativa de Marazzi e Negri, são as lutas que determinam a mutação do trabalho e não o contrário. Quer dizer, não é o capitalismo que se adapta para apaziguar os politicamente insatisfeitos e insurrectos. É a multidão, organizada no e pelo trabalho, que força passagem no capitalismo e lhe provoca mudanças. A quebra de paradigma, por vezes violenta, vem de baixo. Os direitos são conquistados na luta permanente e não  meramente concedidos — como sempre afirmava, aliás, Maquiavel e Thomas Jefferson.
A explosão multitudinária e globalizada dos anos 60, conseqüentemente, explica-se pela insatisfação diante da sociedade industrial. O novo ciclo de lutas ocorre na recusa, principalmente das novas gerações, em se tornar outra peça da engrenagem fordista. No desejo de uma liberdade mais ampla, de um trabalho mais livre, fora do regime de subordinação e controle das corporações ou do estado burocrático. Uma liberdade mais além do patriarcalismo, do racismo, do nacionalismo, dos partidos tradicionais — instrumentos de conservação da sociedade industrial e suas hierarquias. O operário tinha como principal missão deixar de ser operário e não simplesmente angariar melhores condições de emprego.
O movimento de libertação se potencializa por diversos fatores: nova linguagem absorvida pelas lutas, comunicação disseminada, popularização da arte (reprodutibilidade técnica), televisão e cinema. Globalizam-se as resistências ao capitalismo: na Europa, nas Américas, na Ásia.
O ciclo de lutas dos anos 1960 e 1970 culmina num novo modo de produção. A narrativa anuncia o seu capítulo pós-moderno. O regime de produção torna-se, assim, pós-fordista. Implica profundas transformações na sociedade, inaugurando a sociedade pós-industrial. Como resultado de lutas globais, esta sociedade mundializa também os fluxos socioeconômicos, transpondo as fronteiras dos estados-nação. Em conseqüência, recompõem-se, em caráter global, tanto as classes dominantes (a “aristocracia” do Império), quanto redes de militância e produção livre (a multidão).
No pós-moderno, a informação, o conhecimento, as redes de comunicação tornam-se vitais para o processo produtivo. Um capitalismo de redes. Quem detém a informação, produz mais e melhor. Inverte-se a Lei de Say: não mais a oferta cria a sua demanda, mas a demanda é quem inventa a sua oferta. A teoria do valor deve ser remodelada para captar o trabalho imaterial. As marcas, as patentes, o copyright, o marketing passam a agregar mais valor aos bens do que o custo (industrial) da fabricação.  Pode parecer que o trabalho imaterial vire de ponta-cabeça o materialismo de esquerda, mas na verdade ele o atualiza noutra perspectiva. Como tem de ser: ferramentas teóricas devem atuar sobre a realidade histórica.
A fluidez do novo capitalismo exige reações rápidas e enorme adaptabilidade. A fábrica minimiza-se (lean production), demite, terceiriza (out-sourcing), elimina estoques, expele pedaços agora chamados “externalidades”. Pretende atender às demandas em tempo zero (just-in-time). A generalização das “externalidades”, associada à prevalência do setor terciário, faz com que a fábrica dissemine-se na sociedade como um todo. Ao invés do regime disciplinar do chão-de-fábrica, uma sociedade de controle que modula a aplicação do poder e captura a vida por dispositivos difusos. Fábrica por asssim dizer social, porém controlada e socialmente desprotegida. Implode-se o regime fordista de direitos e fragmentam-se os cidadãos. Contraste entre quem está dentro, cidadão de uma democracia quase sem direitos, e quem está fora, como precário excluído de qualquer garantia.
O modo de produção induz a desarticulação do welfare state. A sociedade pós-industrial conforma com um estado-crise. Vive-se um capitalismo de catástrofe iminente. Não poderia ser diferente, pois o rendimento do sistema é pautado pela gestão do risco, traduzida pelo economês financeiro. Risco de desemprego, de recessão, de colapso — festa dos grupos especulativos. Indicadores financeiros, como risco-país ou taxa de juros, pautam as técnicas de governo (e os noticiários), concentradas em impedir que o risco saia do controle.
A prioridade passa à regulamentação financeira: estabilidade da moeda, geração de superávit e eliminação de custos fixos do estado. Na sociedade pós-industrial, inexiste separação entre economia real (industrial e serviços) e economia financeira (gestão do risco) — são unha-e-carne. Nela, não é que os mercados ocupem o lugar do estado, mas é o próprio estado que se remodela, política e juridicamente, como garantia para o funcionamento dos mercados. Da mesma forma que o estado fordista surge casado com a alta burguesia corporativa, i.e., como componentes inextricáveis da sociedade industrial desenvolvimentista.
No campo da formulação teórica, o neoliberalismo substitui o desenvolvimentismo do período anterior. E serve de ferramenta preferencial para a direita pós-industrial.  Enquanto isso, incapaz de reconhecer a mutação profunda no trabalho, parte da esquerda reedita o keynesianismo, propondo um retorno ao período anterior. Neo-keynesianismo baseado na soberania nacional, no “setor produtivo de base”, no emprego formal — não a toa,  termine por concordar em parte com o projeto reacionário da burguesia nacional-desenvolvimentista destronada.
É nesse planeta pós-moderno que emerge um novo ciclo de lutas.

O caso é que existe um impasse no modelo atual de capitalismo. Para produzir valor, ele precisa promover a vida social, fazer circular afetos e valores. Necessita incentivar redes sociais, as mesmas que também se articulam em trabalho livre e militância global.

Tome-se o exemplo do telefone celular. A lucratividade das companhias situa-se muito mais no seu uso do que na compra dos aparelhos. Mas o que define o uso? A vida. Tanto mais valor será produzido quanto mais relações sociais ocorrerem. Na nova economia, a vida está investida ela mesma nos processos produtivos.
Como o valor sobreleva no trabalho imaterial, pela primeira vez na história, os meios de produção tornam-se acessíveis à maioria. Na sociedade pós-industrial, pode-se produzir simplesmente ao integrar-se à comunicação, difundir conteúdos, digitalizar experiências, inventar linguagens. A informação esquiva-se do controle pós-fordista — copyright e patentes — e se dissemina pelo corpo social. Tempos de cultura livre (ou pirataria), midialivrismo, ativismo internauta.

Se o capitalismo governa hoje as nossas vidas através da pobreza difusa, do risco e do medo, é dessa mesma crise, da enorme classe de precários que se articulam as redes de resistência e a transformação.

Se, com Marazzi, a constituição do sujeito político ainda dependa da força da narrativa, temos a ousadia de juntar duas palavras fora de moda para lutar por uma revolução pós-moderna.   

MARAZZI, Christian, “O lugar das meias: a virada lingüística da economia e seus efeitos sobre a política”, tradução Paulo Domenech Oneto – Rio de Janeiro: Civlização Brasileira, 2009. Coleção “A Política no Império”.