continuação dos episódios I, II e III. (clique para ler)
Fomos para uma sala de estudos, conectada ao saguão principal do antigo edifício. Livros empilhavam-se pelas mesas e cortinas pesadas e beges cobriam as janelas, que davam para o matagal que um dia fora o jardim da biblioteca. Zazá havia chegado antes. Com sua namorada e mais um ajudante, montara uma mesa apropriada para a sessão, com castiçal, vela e toalha branca. Aliás, todos vestíamos roupas claras, e eu havia sido orientado previamente para não trajar tons mais frios.
Confesso que o ambiente intoxicava. O cheiro de mofo das cortinas, o pó onipresente, a imagem dos livros antigos de capa dura, tudo isso confabulava silenciosamente para a atmosfera lúgubre. Passava das dez horas e o campus já estava vazio, de maneira que não havia mais funcionários. O subreitor havia deixado a chave com Zakowics, que, como noutras ocasiões, responsabilizava-se.
É curioso como, antes da sessão propriamente dita, os presentes calavam sobre o Boa Noite. Falava-se de tudo, menos do protagonista. Estranhei a demora em começar os tão esperados trabalhos, mas o veterano da física me explicou que deveríamos aguardar a uma hora da madrugada. Avaliavam que tinham mais chances de chamar o Boa Noite no horário em que ele geralmente aparecia. Falou-me que, freqüentemente, invocavam espíritos errados e mesmo entidades zombeteiras, que atrapalhavam os serviços. Não é por acaso, disse-me, que a namorada de Zazá, a médium, primeiro fazia contato com um espírito conhecido do grupo, o tal Júlio Borges, e a partir dele contactava os demais. Esse constituía o procedimento padrão de centros mais experientes e estudados, na medida em que a ponte entre o lado de cá e o de lá freqüentemente não é confiável e pode, em casos extremos, acabar sendo insegura e perigosa. Há segredos na passagem entre os planos que mesmo os maiores grandes mestres do espiritismo não chegam a consenso, logo se recomendam cautela e prudência.
Com efeito, nessas conversas preliminares da sessão, cheguei à conclusão, que de qualquer forma eu já imaginava, de que existem diversas vertentes do espiritismo. Como nas milhares de seitas protestantes. Como no catolicismo — embora nessa religião haja uma instituição milenar, rigorosamente hierárquica e disciplinada, para manter os dogmas e liturgias coesos. É curioso como as religiões tendem a fragmentar-se, num movimento centrífugo que sempre e sempre culmina em facções, lutas intestinas, perseguições e, afinal, depurações violentas. Quanto mais o homem empreende esforços para se unir sob o estandarte da verdade última, mais se multiplicam as bandeiras e, com elas, os exércitos de fanáticos.
Enquanto não chegava a hora, comemos sanduíches e bolachas. e nos agrupamos em rodinhas. Éramos vinte. Abrimos três garrafões de quatro litros de um vinho barato, “Sangue de Boi“, que era a única bebida alcóolica “autorizada” para a ocasião. Peguei uma e servi os colegas com a jarra por cima do ombro, como fazíamos naqueles tempos de estudante. O papo animou-se e, por um tempo, abstraí do clima de filme de terror, da mesma forma que nos acalmamos quando começa o serviço de bordo num vôo agitado. Resolvi tomar vários copos para ficar bem tranqüilinho. Contrariava assim preceitos da observação científica, mas é preciso entender que, com 20 anos, o ímpeto faz com que pulemos precauções essenciais.
Lá fora, começou a relampejar e chover.
No colóquio pré-sessão, me contaram que, graças à profunda erudição de Zazá, o centro espírita tinha adotado uma linha teosófica. Fiquei sabendo que a teosofia remontaria ao século XIX na Rússia, e implicava uma doutrina de igualdade e solidariedade universal, voltada para a busca da perfeição do ser humano. Essa perfeição estaria na pureza e transcendência do espírito, encapsulado, ou melhor, aprisionado no corpo, como uma ostra em sua concha. Libertar o espírito imortal das amarras corporais significava ascender ao plano das essências perfeitas, na subida da montanha do conhecimento. Nada mais próximo da doutrina de Agostinho, refleti.
Zazá passava a maior parte do tempo cochichando com a sua namorada-médium. Falava-lhe ao pé do ouvido, com gravidade. A menina de proporções generosas vestia jeans e camiseta branca, que lhe marcavam especialmente os contornos, então não pude deixar de reparar em sua sensualidade naquela noite. Outro colega, em tom professoral, explicou-me que a mediunidade demanda intensa preparação, seja exercitando a concentração, seja o autodomínio. Pois o envolvimento com o além pode ser extenuante, a ponto de causar desmaios e ataques.
Já amaciado pelo vinho, deixei vazar sem prudência algumas de minhas descrenças, no meio das conversas. Tinha dificuldades em dar crédito ao ocultismo, quando os próprios círculos ocultistas fazem de tudo para gerar uma aura de mistério e enigma ao redor de si. É o contrário daqueles que se propõe a investigar a verdade com clareza e transparência, expliquei-me. Os ocultistas mais famosos cultivaram sociedades maçônicas, cuja principal propaganda é seu hermetismo teórico e prático. E quando aparecem em público, o ocultismo vem na forma de personalidades altamente duvidosas e oportunistas, que o consenso científico tem por charlatões talentosos, como Uri Geller ou mesmo o nosso Zé Bonitinho do espiritismo, o Chico Xavier. Devo ter acionado algum sinal de alerta, visto que Zazá, que nesse momento estava do outro lado da sala, virou-se surpreso. Como me escutara de tão longe eu não sei. Logo ele se juntou ao grupinho em que eu estava.
O líder de facto do centro foi logo metendo o pau no Uri Geller. Aproveitador, mentiroso, midiático, desvirtuador da paranormalidade e, por último, tachou-o de “merda ambulante que só quer aparecer”, anátema costumeiro a quem ele considerava impostor. Esclareceu que, assim que eu participasse de mais sessões, iria conhecer um panteão de médiuns, paranormais e estudiosos “dignos” e “comprovados”, que descartavam exibições públicas e fanfarronices, porque a sua arte oculta falava por si própria. Uma pena que não estávamos na Polônia ou na Ucrânia, pois no Brasil no mais das vezes os médiuns e estudiosos são farsantes descarados. Pedi, como resposta, e talvez sem o tato devido, um exemplo de personalidade do metiê que ele admirava, além da Petrovna e da Stanislawa, que eu já ouvira ele falar no grupo de estudos.
Então ele ficou muito sério, pôs as mãos na cabeça e, ante o silêncio imediatamente decorrente, murmurou: Grigo…ri Efimo…vich… sim, Rasputin! seus olhos brilharam.
Controlei-me para não esboçar nenhum sorriso. O místico dos Romanov? por quê? Zazá focou o infinito, como um crente falando de seu santo preferido, e recontou com riqueza de detalhes uma boa parte dos bastidores da Rússia czarista. Uma narrativa apaixonada. Narrou como os Romanov eram somente marionetes nas mãos de uma sociedade secreta praticante da teosofia, que ele todavia não podia nomear. Como a monarquia russa, em verdade, representava os interesses desse grupo de sábios e visionários. Elencou nomes, contou anedotas, relatou episódios históricos, sempre sob o ponto de vista dessa teoria que, pra mim, cético até segunda ordem, sôou conspiratória demais. E continuou a preleção, em tom seguro, até a Revolução Bolchevique, que pra ele significou o lamentável triunfo do obscurantismo, da ignorância e das falácias da utopia e da salvação. E nenhuma ideologia era mais abominável para Zazá do que o comunismo: “religião vulgar de burocratas e sobretudo professores, todos ultimamente medíocres”. Inclusive, membros da mencionada sociedade secreta ofereceram ajuda, um grande erro aliás, a Hitler, justamente pra combater o utopismo soviético. Isso explica claramente o largo envolvimento do nazi-fascismo com o ocultismo, quando se organizaram expedições ao Tibete e ao Reino do Preste João. Mas isso é outra história.
Eu não queria contestar nada naquela hora, apesar do rompante de vontade. Por mais que ali estivesse para a sessão, nada impedia de voltarem atrás e não permitirem a minha participação. E eu estava maluco pra testemunhar o que eles iriam fazer do caso “Boa Noite”. Nunca tinha chegado tão perto de um acontecimento supostamente sobrenatural e não ia por tudo a perder por ninharias. Todas as outras vezes recolhia testemunhos de terceiros e faltavam-me recursos para verificar ou refutar os argumentos. Sempre me refugiara, quiçá por comodidade, no célebre argumento de David Hume: um único evento curioso e antinatural não pode ser capaz de refutar, sozinho, a enorme massa de eventos verificados que se sedimentaram como a nossa realidade ordinária. Em outras palavras, uma ocorrência paranormal não pode ter o condão de contradizer mil ocorrências normais, na mesma circunstância. Ainda mais quando não vemos com os próprios olhos, ou quando essa ocorrência não passa por uma conferência criteriosa, por grupos independentes de pesquisadores, chegando aos mesmos resultados. Muito pelo contrário, no mundo real, tais “milagres” ou fatos paranormais restam irrepetíveis, irreprodutíveis, de toda forma realizados em circunstâncias não controladas e sujeitas a deformações, sugestões mentais, ilusões, erros e sobretudo má fé. Pensei tudo isso, decidi não criar um cavalo-de-batalha com Zazá, o guia. Por outro lado, como o vinho realmente fazia efeito, resolvi simplesmente ser sacana.
Introduzi na roda a história do pênis de Rasputin.
Como se sabe, o conselheiro místico dos Romanov foi assassinado brutalmente por palacianos. Esse crime deu-se em vários atos. Primeiro, uma garota de programa esfaqueou-o com tamanha violência que as tripas pularam da barriga. “Eu matei o anticristo”, gritava a prima. Mas o Monge Louco não morreu e, naquela mesma noite, recuperou-se do ferimento aparentemente mortal. Então , antes dele sair do hospital, envenenaram-no, com uma dose capaz de derrubar um touro. Porém o veneno simplesmente não fez efeito no corpo de Rasputin. Deram-lhe então um tiro na nuca e ele silenciou. Mas na hora de carregar o corpo, ele acordou e mordeu um dos assassinos, chamando-o de “menino mau”. Aí, horrorizados, espancaram-no violentamente, dispararam a pistola mais três vezes à queima-roupa e, não satisfeitos, fora de si, cortaram o seu pênis fora (e já retornarei a essa peça inusitada). Aí, por vias das dúvidas que o sujeito era mesmo porreta, o amarraram, embrulharam-no num tapete e lançaram-no Rio Neva, que estava congelado. Na manhã seguinte, o corpo foi achado na beira do rio, completamente livre das cordas e do tapete! a autópsia demonstrou que ele morrera por afogamento. E só se afogou porque não conseguiu romper a camada de gelo, já que estava livre e consciente.
O fim de Rasputin, mas seu pênis ainda teria um futuro próprio descolado do corpo. Porque os algozes confirmaram que realmente era um membro de dimensões formidáveis, como já corria o boato por toda a capital. Como se sabe, além de ocultista, Rasputín era um garanhão, um Dom Juan do Mal, e usava de sua persuasão por assim dizer sobrenatural para seduzir não só as beldades da corte, mas também ninfetas da cidade. Damas e princesas, mas também amantes homens, porque ele era panssexual, provaram de suas qualidades desproporcionais. Um fenômeno narrado em dezenas de diários de boudoir, como a história comprova. Depois da castração, atribuíram ao pênis, de inacreditáveis 30 centímetros, poderes paranormais: era capaz de curar a impotência e fechava o corpo de seu portador aos inimigos. Dizem, inclusive, que Stálin mandou guardar o membro conservado em seu acervo particular. Parece, a queda da União Soviética coincide com o sumiço da peça durante o governo de Gorbatchóv, na década de 80.
É evidente que a minha história, regada a vinho barato, divertira os companheiros do centro espírita. A menina da biologia deu um risinho e falou bem baixo: “que caralho mágico hein”. Mas não agradou, em definitivo, a Zakowics, cujo olhar parecia um punhal dirigido a mim. Petrificado, ele não acreditara no que eu falara com tanta sem-vergonhice. Justo naquele dia. Me preparei para o pior: a expulsão sumária. Sempre tive dificuldades em ficar quieto em momentos-chave, mas de qualquer modo, depois jamais me arrependo das estripulias. Se não for pra fazer isso, ponderei, eu nem vinha. Porém, por intervenção da sorte, a namorada dele anunciou que virava uma hora da madrugada. Ou seja, era hora de começar a sessão. A euforia da maioria rapidamente os fez esquecer Rasputin e concentrarem-se na principal atração. Era hora de convocar o Boa Noite.
Enquanto todos arrumavam a bagunça do lanche e tomavam os seus lugares, Zazá continuou sentado ali, como uma serpente ameaçadora, encarando-me. Já autoconfiante graças não só ao vinho, mas a meu firme ceticismo, não desviei o olhar, aceitando o desafio. Foi quando Zazá relaxou a expressão, ofereceu-me um sorriso de canto de boca, quase imperceptível, levantou-se e, ao passar a meu lado, sussurrou ao ouvido:
— Jamais perdoarei a sua atitude.
Acenderam a vela, apagaram as luzes e a tempestade acirrou, golpeando as janelas. Era hora do show, eu pensei, completamente imune, àquela altura, ao ambiente assustador. E como eu estava enganado, leitor…
continua…