Arquivo para ‘Ateísmo’
Publicado em 18 de setembro de 2011. Comente

O ator Enrique Irazoqui (Jesus) e o diretor Pier Paolo Pasolini, em locação de O Evangelho segundo Mateus (Itália, 1964), um filme materialista e ateu dirigido por um comunista e ateu, com temática e assunto religiosos, dedicado à memória do papa João XXIII

Abaixo, versão livre da piada contada por Slavoj Zizek em Vivendo no fim dos tempos [Living in end times] (2010, Verso, p. 401):

Um comunista talentoso, propagandista da Revolução Russa, morre nos confrontos com as forças leais ao czar e, ateu, é mandado pro Inferno. Mas ele rapidamente consegue reverter a situação, convencendo os guardas do Céu a deixá-lo entrar. Quando o Diabo dá falta do novo súdito, resolve pedir satisfação. Mas assim que começa a se dirigir a Deus, iniciando por “Meu Senhor…”, Deus o interrompe, dizendo: “Em primeiro lugar, não me trate por Senhor mas por você, somos todos camaradas. Segundo, não me venha com essas ficções — eu não tenho nenhum poder sobrenatural. E terceiro, seja breve senão perco a próxima reunião do Partido!”

E o filósofo esloveno comenta:

“Este é o tipo de Deus que a esquerda radical precisa hoje: um Deus que plenamente ‘se fez homem’, um camarada entre nós, crucificado junto com os socialmente excluídos. Se a teologia está novamente emergindo como um ponto de referência à política radical, não é tanto por prover um divino grande Outro, que poderia garantir o sucesso das ações, mas, ao contrário, como lembrete que a nossa liberdade radical está em não possuir um grande Outro para nele confiar. Foi Dostoievski quem mostrou como Deus nos concede tanto liberdade quanto responsabilidade — ele não é um mestre benevolente conduzindo-nos à segurança, mas um que nos lembra que estamos totalmente entregues a nossas coisas mundanas. Precisamos de um Deus que não apenas ‘não existe’, mas que também sabe que não existe, aceita seu próprio anonimato, convergindo inteiramente no amor que liga todos os membros do ‘Espírito Santo’, ou seja, do Partido ou coletivo emancipatórios.”


Sequência de Idade da Terra (Brasil, 1980), onde Gláuber Rocha desenvolve sua cristologia terceiromundista, estética da fome e delírio tropicalista

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[Trad. pelo QdL]

Publicado em 15 de fevereiro de 2011. Comente

O leitor considere esta uma crítica interna. Sou ateu hormonal. Tem gente que nasce gay. Eu nasci ateu. Nunca sequer cogitei a possibilidade de Deus existir. Nem imagino com que artimanha a fé se instale e funcione na cabeça dos teístas. Quando menino, as tentativas de converter-me no máximo tiravam risinhos e olhares de galhofa. O ateísmo púbere me levava a contestar colegas, familiares, professores. Arrogante, adorava me exibir com as razões prêt-à-porter contra a existência de Deus.
O Velho Testamento li com fervor. Despertava-me impulsos sádicos o protagonista fascínora e suas suculentas histórias de destruição, poligamia e assassinato em massa. Se um dia Quentin Tarantino adaptá-lo para o cinema, sugiro desde já Jack Nicholson para Deus. É o único ator capaz de fazer a gente gostar de um vilão tão depravado. E, se o Novo Testamento pinga menos sangue, vibrei na versão de Mateus, quando o messias anuncia que não veio trazer a paz e a harmonia, mas a espada e o conflito.
Com o tempo, aprendi a controlar os impulsos. Ainda assim, de tempos em tempos, algo lá no fundo borbulha e sofro de surtos ateístas. Desenvolvi uma estratégia. Aproveito-os chafurdando na ontologia. Com ela, aprendi a desenterrar a transcendência de seus inúmeros esconderijos — profundos ou prosaicos.
Portanto, sou ateu e muito ateu. Sou mais ateu que todos vocês juntos. Mas não compro a causa do ateísmo, em si mesma.
O ateísmo lembra a ecologia. Amiúde se apresenta como movimento político, mas não diz muita coisa na prática. Pode ser de direita ou de esquerda, conservador ou libertário, racista ou pró-minorias, cientificista ou espiritualista. Como o discurso verde, os gumes podem ser usados para libertar ou para oprimir.
Como se, na urgência das lutas, houvesse tempo e paciência infinitos para debater a metafísica do divino. Imagine se, pra começo de conversa, em cada tema tivermos de dissuadir as pessoas de sua fé, em vez de partir para o que interessa: aborto, casamento livre, direito penal, exploração do trabalho, drogas, racismo etc. Conquistar direitos importa mais, do ponto de vista político, do que tentar livrá-las do que lhes é tão íntimo.
Não critico o ateísmo militante por ser militante, mas por ser ateísmo. Como militância, funciona ao menos para deslanchar a pessoa na dialética pública, na advocacia política, nas técnicas de organização. Só a luta ensina. Afinal, numa geração de zumbis, como não incentivar o ativismo enquanto tal? tem gente que se inicia no ateísmo, outros no grêmio do ensino médio, outros no PSOL. É válido.
Tampouco sou daqueles chatos a clamar pelo “ateísmo saudável”. Ramerrame da moderação. Assim pretendem apagar o brilho luciferiano dos olhos ateus, calar o seu ódio, podar a sua revolta. O caso não é apaziguar o ateu, mas potencializar esse elã de modo eficaz. Trabalhar o excesso ao invés de negá-lo. Pois não se represam hormônios para zerá-los, mas sim para liberá-los no momento certo, na ocasião certa, com as pessoas certas.
Intrigante, por outro lado, a aparição de grupos de defesa dos direitos do ateu. Como se os ateus fossem uma minoria perseguida. Sim, tem gente que não confia em ateus. Mas, pelo fato de ser ateu, alguém: a) foi espancado ao passear pela Avenida Paulista?, b) teve a porta de seu dormitório estudantil queimada?, c) foi barrado de entrar em shopping?, d) apanhou em casa do cônjuge embriagado?, e) foi “confundido” pela polícia? por acaso, alguma vez alguém olhou feio pra você na rua, por ser ateu?
Chega a ser insulto, no Brasil, os ateus nos acharmos oprimidos. O máximo que vai acontecer é não ser votado. Será mesmo? Dos últimos três presidentes (contando a atual), dois são ateus. Claro, tem que ter malandragem na campanha. Se não tem, então por que se candidatou em primeiro lugar? Iria perder de qualquer forma.
Ademais, a militância atéia se mostra enviesada quando se depara com as polêmicas da vida real. Quando se discutem direitos, o ateu reacionário adora chamar os outros à ordem. Conclamar pela unidade do movimento, supostamente ameaçado de divisão por questões esotéricas. Lembrar do verdadeiro motivo da militância: a luta contra a ignorância do mundo. Pinta aquela palavra sectária: “divisionismo”.
Nesse sentido, recentemente um site mantido por “céticos” chegou a tripudiar de um outro por “vir se tornando um blog GLS” (!). Nome aos bois: a Central Ceticismo falando do Bule Voador. Justamente do melhor site do gênero. Em vez de ateísmo desbundado, o Bule Voador foca questões concretas, defende pautas de esquerda e se articula como movimento político. Basta conferir lá artigos de Eli Vieira, Rayssa Gon ou Eduardo Patriota, um contraexemplo ao que escrevi.
Então qual é o ponto?
Meus hormônios podem não concordar, mas a ideia de Deus não é incompatível com a democracia e a liberdade. No fundo, o problema não é a fé, mas a apropriação política do medo e da esperança. Menos a religião do que as pretensões políticas de salvadores, profetas e igrejas. O problema não é a relação pessoal com a divindade, mas a inscrição dela em regimes dogmáticos de autoridade e obediência.
A militância atéia enfrenta um falso problema.
Publicado originalmente no Amálgama, em 14 de fevereiro.
Publicado em 9 de novembro de 2010. Comente

Com o subtítulo Introdução a uma espiritualidade sem Deus, é o livro mais audacioso de André Comte-Sponville. O filósofo iniciou a carreira na tradicional academia francesa, mas sua inquietação não-acadêmica acabou por afastá-lo de bancas e auditórios e currículos online. Passou a escrever mais livremente, quase diletante, de todo modo em clima didático e descontraído. Propôs-se a divulgar a filosofia, na sua vertente materialista, naturalista, humanista e atéia. Publicou obras com títulos frugais como Pequeno tratado das grandes virtudes, Uma educação filosófica e Viver.
Livre do pesadume de notas de rodapé e longas citações, seus livros conseguem articular conteúdos sem atrofiar em lição de escola ou, horror!, auto-ajuda travestida de ensinamento filosófico. Tributário de uma prosa confessional, em primeira pessoa, na melhor tradição de Michel de Montaigne e Blaise Pascal, as obras vertem a ontologia de Epicuro, Spinoza, Nietzsche ou Wittgenstein, em ensaios palatáveis e salpicados de insights, digressões elucidativas e humor inteligente. Correndo por fora do mainstream intelectual, o autor tem sido um êxito editorial, como educador eloqüente, que não hesita em comparecer à televisão para se dirigir ao grande público, — por assim dizer fusão (improvável) de Marilena Chauí e Viviane Mosé.
Em O Espírito do Ateísmo, o materialista epicuro-spinozano pretende conciliar-se com o lado espiritual. Sem Deus, transcendência, esperança ou autoridade religiosa; mas com “fidelidade”, “sentimento oceânico”, “serenidade” e “comunhão”. Em síntese, um lado espiritual independente das religiões. Sua meta: explicar como um ateu não precisa renunciar à espiritualidade, e como esta não está associada necessariamente à crença em Deus e menos ainda à filiação religiosa.
Para isso, Comte-Sponville divide a peça em três atos: Pode-se viver sem religião?, Deus existe? e Que espiritualidade para os ateus?.
No primeiro ato, reafirma-se a repulsa por qualquer sistema de autoridade baseado no dogma, na moral institucional, na verdade anunciada, — com seus “janízaros do absoluto” e suas cruzadas assassinas. Se Deus existe tudo é permitido, pois não se transige com o absoluto. Por um lado, Comte-Sponville admite que as religiões, quando moderadas e submetidas ao poder civil laico, podem ser úteis como consolo metafísico ou fio condutor de comportamento. Afinal, diante do sofrimento e da morte, cada um se arranja como pode. Quem somos nós para frustrá-los. Mas, por outro lado, sustenta que a religião é dispensável para fundamentar uma ética, logo, a felicidade. Que se pode jogar a água da banheira fora, mas não o bebê.
Daí Comte-Sponville introduzir a sua versão humanista-e-secular de ética não-religiosa. Eis um cristianismo mundanizado, e por isso esboça chamá-lo, paradoxalmente, de “ateísmo cristão”, para então se contentar com “ateísmo fiel”. Isto significa um ateísmo que não prescinde dos valores cristãos, nominalmente a comunhão e a fidelidade. Não rejeita a memória da comunidade e o convívio humanista com as pessoas, no sentido de assistência, caridade, temperança, eqüidade e polidez. Um ateísmo light, entre o agnosticismo pudico e o (ele rotula) “niilismo bárbaro” — tão nocivo e incivilizado à sociedade quanto os piores fundamentalismos religiosos.
O segundo ato, Deus existe?, é o menos polêmico. E gerará menos calores nas mãos do leitor ateu. Aqui, Comte-Sponville compila seis cadeias de argumentos para não se acreditar numa entidade pessoal, transcendente e eterna, criadora do mundo, acima do bem e do mal, que gerou o ser humano a sua imagem e semelhança, com o fito de cumprir um plano providencial e secreto, que visa à salvação das almas. Deus do cristianismo, islamismo e judaísmo. Seguem refutações loquazes, elegantes, das célebres provas de Deus — ontológica, cosmológica e física, — bem como os conhecidos argumentos da enormidade do mal e da mediocridade do homem. Capítulo leve, quase burocrático, não fosse a prosa límpida do autor, menos passional que Richard Dawkins, mas igualmente convincente. Até aqui, nada de novo no reino do ateísmo.
O bicho pega é no terceiro ato, a razão de ser do livro.
Convocando usuais referências do cânone ocidental, mas também “orientais”, como Lao-Tsé, Nagarjuna, Krishnamurti e Prajnanpad, o autor pretende estabelecer que o ateu também tem espírito, ou melhor, um lado espiritual. Nada tem de anímico, transcendente ou participante do divino, mas também não possui sentido figurado.  É espírito mesmo. Trata-se de um atributo que distingue o humano dos demais animais. Que faz o homem contemplar uma bela paisagem ou gozar estupefato de uma sinfonia de Mozart. E permite, assim, que uma criatura finita e relativa possa experimentar o absoluto e o ilimitado.
A mãe dos argumentos dele é uma experiência absolutamente pessoal do absoluto, um sentimento do Todo que, na sua inteireza e desproporção, seria inenarrável. Epifânica. É uma vivência reveladora, num “sentimento oceânico” que várias pessoas relatam em certas ocasiões singulares. Um amor por todas as coisas que dá vontade de chorar, uma revelação de plenitude imensamente serena; uma aceitação total do enigma agasalhado no peito; uma prostração apaziguadora e venerável, pela insignificância do homem diante de um universo infinito, do universo indiferente, do “eterno silêncio desses espaços infinitos”. 
Ousado, Comte-Sponville confessa filiar-se ao misticismo, ao mistério, ao “fazer silêncio”. Subscreve Ludwig Wittgenstein, no seu mergulho calado nos confins da lógica e da ontologia. Subscreve Martin Heidegger, no seu escutar do Ser, nas entranhas da floresta negra da existência.
São sessenta páginas tentando verbalizar essa epifania que, para o autor, inaugura e possibilita uma espiritualidade atéia, — nada contraditória com seu materialismo e naturalismo. 
Audacioso, porém impotente.
A impressão que tive, ao finalizar O Espírito do Ateísmo, é que Carlos Drummond foi mais sintético e expressivo, mais feliz, com o poema A Máquina do Mundo, — entre outros de sua fase metafísico-sentimental. É curioso como tais teodicéias místicas sempre e sempre se realizam com viagens para a floresta, em imersões na natureza silvestre. Quer diante de um lago bucólico, de um velho plátano, de uma cachoeira tropical, de uma estradinha de Minas Gerais… o “sentimento oceânico” jamais ocorre no burburinho da metrópole, na azáfama de vozes e cheiros das ruas e praças. A meditação pressupõe paisagens amplas e contemplativas, e afasta o homem de suas preocupações (supostamente) menores e mais imediatas.
Mas a fuga da cidade é também o distanciamento da política. A estética da aceitação, da escuta do Ser e a contemplação assombrada, não importa, todas elas contrariam uma ética da revolta. Na medida em que não se revolvem e se remordem com o absurdo, mas o abraçam e se contentam. Esse contentamento me enche de ódio. Fazem do absurdo um bonsai e não uma máquina de guerra, e assim adormecem no conformismo deslumbrado.
Mais uma vez Camus foi clarividente, quando escreveu que só o ateísmo é pouco, pois a negação pela negação nada produz. O ateísmo não viceja seus frutos podres se não passar ao campo da prática, na revolta no seu tempo, contra o seu tempo. Viver absurdamente demanda que o absurdo se conjugue com o orgulho e a revolta, numa recusa militante à finitude, à totalidade, ao absoluto, isto é, a todas as formas de fraqueza, conciliação e subjugação. O homem exila-se em sua vida menos por se prostar e aceitar sua falibilidade e torpeza, do que por insubmissão n´importe quoi
Mesmo nos últimos suspiros, sentirá o ciúmes daqueles que ficam, que poderão saborear um sorriso, uma risada, um bom vinho ou a boca da mulher. “Eu irei para debaixo da terra, e você, você caminhará ao sol!” O ateu revoltado morrerá irreconciliado, sua sabedoria não virá jamais. E não escreverá odes ao poente nem se inebriará com a sua insignificância. Disso, no máximo, poderá rir, com timbre trágico, nunca aceitar.
André Comte-Sponville assume uma ética do apaziguamento. Pretende saciar a sua fome de absoluto com uma outra religião. Religião pós-moderna? pós-materialista? Uma religião orientalizada (nunca oriental), um misticismo desesperado, um pessimismo passivo disfarçado de contemplação, na mesma linha de Arthur Schopenhauer, e de infindáveis autores esotéricos contemporâneos. Prefere o silêncio da floresta e a sua clara noite, à alegria carnavalesca da metrópole, ao espetáculo de dança e sangue da política mundana. Prefere os olhos e as pupilas cansadas aos dentes e mandíbulas vorazes. Zaratustra não foi ao deserto para reconciliar-se com o mistério, mas para sofrer até a última gota de absurdo e não se purificar.
Na busca por simpatia universal, Comte-Sponville não concilia o ateu com o seu lado espiritual. Domestica-o com a “espiritualidade” e termina por oferecer apenas mais uma religião da decadência, — tão contemporânea, tão débil.

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Comte-Sponville, André; O Espírito do Ateísmo, 1a ed., 2a tiragem, São Paulo: 2009, Martins Fontes [2006], 192 pág.

Publicado em 31 de agosto de 2010. Comente

Citação apócrifa.
Por reducionismo ou ignorância, costuma ser atribuída a Nietzsche e/ou a Dostoievski, mas nenhum dos dois sequer a esboçou.
N escreveu sobre a morte de Deus no livro Gaia Ciência.  O personagem do louco anuncia que Deus morreu, que o matamos, que erigimos monumentos fúnebres em seu réquiem (as igrejas). Para ele, assassinar Deus foi uma ação grandiosa que pode inaugurar “uma história mais elevada do que toda que jamais existiu!”. Mas o homem do século 19 ainda não está preparado, e o profeta insensato desanima-se.
No romance Os Irmãos Karamázov, o irmão do meio, Ivan, literato  cínico e cético provocador, fala: “Tudo é permitido. À noite com o assassino: — Vê, meu amigo, Cristo foi pura e simplesmente um homem comum, como qualquer outro, só que virtuoso.” A partir daí, outros personagens vão desenvolver a fala. Rakítin irá imputar a Ivan a frase: “se não existe a imortalidade da alma, então não existe tampouco a virtude, logo, tudo é permitido.” Mais adiante, o diabo — duplo dramático do intelectual — dará mais uma contribuição, considerando como sua a declaração: “não há virtude se não há imortalidade.”
Contudo, nenhum dos dois autores, nem qualquer dos personagens do panteão, disse algo como “Se Deus está morto então tudo é permitido.” Nem poderiam. Seria reduzi-los à vulgata a mais tacanha.
Para N, Deus morre quando a civilização conclui pela irremediável ausência de valores e sentidos definitivos. Quando descobre que “sentido da vida” é uma sentença absurda, porque “sentido” e “vida” não se conjugam entre si. As idéias modernas contém um erro na origem, cujo desenvolvimento leva inexoravelmente a um clima  romântico de descrença generalizada. Percebe-se afinal que não pode haver instância transcendente com direito de julgar a vida — todos os ismos erraram.
Menos que passividade e fatalismo, que o filósofo atribui a Schoppenhauer e seu “budismo ocidental”, para N isto significa que a vida é mais importante do que a moral, do que os valores que pretendem julgar aquela. O caso não é avaliar a vida pelos valores, mas os valores pela vida. É ela, primeiro de tudo, quem transvalorará os valores. Não se trata de jogo de palavras, mas de uma declaração de liberdade ontológica. Ela confere à criatura uma potência além da finitude e da necessidade, além das definições e injunções do homem, ou seja, além do próprio homem. Nasce o super-homem, que ama o destino imanente a si mesmo.
Para D, a conclusão do “tudo é permitido” é rechaçada ferozmente ao longo de toda a obra e com muita agudeza em Os Irmãos Karamázov. Para D, o ser humano se constrói somente na interação com os outros. O campo relacional precede a essência individual. Existência antes da essência. E os personagens de D são pessoas reais transfiguradas na literatura, sem jamais renunciar ao caráter múltiplo e inacabado que os encarna no texto. A essência do homem só se concretiza na alteridade, e por isso o amor mundano condiciona a existência ética. Justifica-a no sentido da terra, na costura de corpos e afetos capaz de dar sentido aos atos e valor à realidade humana.
Para N, o cristianismo matou Deus. Seja Deus na expressão religiosa judaico-cristã, seja Deus nos ideais modernos do humanismo e da ciência positiva. O anticristo é o único e verdadeiro cristão. Porque faz renascer Cristo na sua afirmação radical da vida, que por sua vez é o sentido de si mesma e criadora de todos os valores. Um Deus transfigurado, um deus dançarino, um deus-artista. Assim, Deus não está morto. Está livre.
Para D, mesmo que Cristo estivesse errado, que ele não tivesse existido, devemos ficar com ele. Pois Cristo implica a conversa interior que inventa o outro e eu mesmo no processo dialógico. D descrê no Deus transcendente assim como rejeita o narrador onisciente. Tal qual um Jesus mundano e revolucionário, coloca-se junto de seus personagens — aqui! no sentido da terra, através do discurso indireto livre. O criador está com as criaturas e se faz presente nelas e com elas, porque é, justamente, a sua multiplicidade. Isso resta claro ao final do capítulo O Grande Inquisidor (também publicado à parte, como single), quando o messias terreno beija o inquisidor. Um beijo de amor no grau máximo: afirmativo e desprendido. Deus não está morto. Deus é o outro.
Tanto D quanto N respondem com extrema inteligência, arrisco dizer, à questão moral do “tudo é permitido”. Um traçando uma ética da potência, da criação, da arte. O outro por meio de uma ética do amor terreno, e da alteridade como poder constituinte. Duas éticas potentes contra uma moral impotente. Um e outro desviando a perspectiva da pergunta moral que quer outorgar a autoridade e a submissão. E cuja resposta, para driblar as vivandeiras do bem e da verdade, precisa deslizar de suas premissas enviesadas e reinstaurar o problema em outros termos.
Talvez quem tenha formulado, às últimas conseqüências, a querela do “tudo é permitido” tenha sido o Marquês de Sade, com seus libertinos ateus, furiosos, pusilânimes, insidiosos. Nesse sentido, Nietzsche e Dostoievski retrucam-lhe à altura, sem qualquer moralismo.
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PS. Este breve ensaio ocorreu-me como comentário a um post da amiga Rayssa Gon no (ótimo) blogue Bule Voador. Refiro-me ao post “Por que você ainda não se matou?“, quando um dos primeiros a comentar atribuiu a citação em pauta a Nietzsche. A atéia Rayssa mantém o blogue presença da peste, que combina sarcasmo, lirismo & vinganças. Estava a comentar com ela, a propósito, como subscrevo e defendo a militância atéia. Como admiro a prosa de Dawkins, na sua infusão de amor e ódio (ver o post Meu Ateísmo Radical).

PPS.Por outro lado, até como autocrítica, acho que o ateísmo em si, quando desvinculado de políticas concretas ou sistemas éticos, acho-o estéril. O ateísmo pelo ateísmo é ponto de partida e não linha de chegada. Chega a ser uma armadilha para rebeldes de primeira hora, tanto quanto assumir acriticamente iconoclastas como Nietzsche, Cioran ou Debord. Depois do deslumbramento, ficar só no ateísmo é como recusar-se a sair da puberdade filosófica, e dormir no jardim da infância do pensamento e da liberdade.

Publicado em 15 de julho de 2010. Comente

O artigo Meu ateísmo: Sagan, Dawkins, Woody, publicado no blogue coletivo Amálgama.

Publicado em 11 de julho de 2010. Comente

Nunca acreditei em entidade sobrenatural. Desde as lembranças mais remotas, com cinco ou seis anos, recordo-me de um menino absolutamente cético diante do sobrenatural. O sobrenatural não existe. O menino jamais teve medo de espíritos, demônios, assombrações, monstros, mulas-sem-cabeça. Nunca anteviu um pós-vida: quando o homem morre, é como antes de nascer, um nada. Já intuía que o temor embutido nessas crenças fundamentava a submissão a arautos da verdade, e a renúncia a pensar e experimentar por si mesmo. Criança, tinha orgulho de proclamar-se ateu, menos por autoafirmação, do que por uma incompreensão do que levava as pessoas a prostrar-se, humilhadas, diante dos deuses da tribo. Um Deus pessoal, imagem e semelhança do homem, não me convenceu em qualquer instante da vida. Passei incólume por catequismos e proselitismos. Nem a leitura dos livros sagrados nem ninguém conseguiu tirar lasca que fosse do firme ateísmo. Nenhuma situação vivida pôs em dúvida a ausência de fé no transcendente, ausência que traduzo como  crença conseqüente na realidade concreta.
Guardo viva a lembrança da vez em que, no recreio da pré-escola, um coleguinha falou em “papai-do-céu”. Agarrei-o pela gola: quem é esse tal “papai-do-céu”? apontou para cima e disse-me que era um pai bondoso e misericordioso, habitante do céu, que tudo vê e tudo pode, a quem se pode pedir proteção e favorecimento, se a pessoa for merecedora. Foi também a primeira vez em que o escárnio ateu me assaltou, e conclui como aquilo era ridículo, como era inacreditável que tantas pessoas mais ou menos inteligentes levassem a sério, e como era necessário insurgir-se contra aquela farsa coletiva, estruturada por sacerdotes e igrejas.
Aos doze anos, inquirido certa ocasião por uma crente sobre a minha escolha religiosa, trocei, mas como se estivesse falando sério, que era o “anticristo”. A atitude do pequeno ateu alternava entre a ironia , quando estava de bom humor, e o escárnio, direto e seco, quando sem paciência. Ria na cara dos crentes e ridicularizava sem freios as igrejas. De zoação, chutava macumbas, cuspia na cruz, rasgava a bíblia. É que, desde cedo, descobrira que não havia sentido em argumentar, em gastar o latim com fanáticos e iludidos, e que mais eficiente era tentar, pela via do sarcasmo e da paródia, demonstrar o ridículo implicado na fé e na crença num Deus-juiz onisciente e onipotente. Afinal, a provocação deixa mais marcas que a retórica. Podia em ocasião alegre reconhecer um ateu, mas sabia ser inglório tentar “ateizar” um crente. E se podia, num esforço ciclópico, desencaminhar uma ovelha das religiões, não conseguia demovê-la da crença num ser pessoal supremo.
O fato é que o menino era irrequieto com explicações e porquês e, por causa disso, um cético. Mas um cético curioso, preparado para aumentar o seu conhecimento do real, quando defrontado com evidência, lógica e sistema. Na realidade, o ateísmo não foi ponto de partida, mas linha de chegada de certo clima existencial presente desde a infância. O ateísmo resultou do ceticismo, este sim, uma ética completa, um modus vivendi, uma atmosfera existencial.  Bom ceticismo não é aquele que cerra a percepção e encastela o mundo conhecido. O bom ceticismo é o prospectivo que, insaciável, faz da dúvida a técnica para investigar e interrogar. A boa dúvida amplia os horizontes da mente e perscruta a vida atrás do desconhecido. Pautado pelo ceticismo, não há risco de o ateísmo enjaular-se em disfarçado dogmatismo, numa descrença igualmente fanática. O ateísmo do cético não se fecha sobre si, não se submete à heteronomia de pastores ou igrejas “atéias”, como sói ocorrer com o religioso nas instituições de fé, verdade e moral.
Naturalmente, ao amadurecer, a civilização foi domando a fera irascível. Ao vestir calças compridas, o pequeno ateu passou a apresentar-se pudicamente como agnóstico. Evitou indispor-se com os asilados na ignorância, por estratégia, já que assumia outras agendas como mais prioritárias do que a militância atéia. Assim, tive em Carl Sagan a maior referência da adolescência,  na sua promoção de um saudável, moderado e humanista ceticismo. O Mundo Assombrado pelos Demônios deveria ser leitura recomendada de todas as escolas. Instigado por Sagan, substituí o escárnio anti-social pela construção de um edifício de métodos e explicações, capazes de sustentar o ateísmo em debates mais civilizados. Foi nessa altura que prestei o vestibular, quando minhas redações, bem mais dóceis, incorporavam a sábia tolerância diante da infinita credulidade (ignorância) humana.
Richard Dawkins quase destruiu essa capa cultural. Em seus livros, o autor de Deus, um Delírio (“The God Delusion”, 2006) tem o poder de despertar o menino luciferiano em mim. Com ele, concluo que, ao me vestir agnóstico, não passo de ateu sem personalidade. Dawkins escreve tão bem e com tanta cólera, e eu concordo tanto mas tanto com ele, que me dá vontade de sair pelas ruas berrando contra a sociedade teísta, de me assumir a criança que nunca deixamos de ser. Ressurge mil vezes vingativo o enfant terrible. Dawkins me faz lembrar como é importante não perder a faculdade de odiar assim como a de amar — faculdades irmãs. É um dos poucos autores que apela ao coração de menino, na sua imprudência e seu excesso, nas suas lágrimas ingênuas e no seu prazer destrutivo. Dawkins quase me faz esquecer o bom-tom e a medida, me torna novamente puro, e uma vez mais converte o agnóstico em ateu praticante. Renasço intacto.
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Construí o meu sistema-mundo com a leitura paulatina da literatura científica e da filosofia da ciência. Não fiz das ciências um dogma às avessas. Com Karl Popper, nelas encontrei precisamente uma forma não-dogmática de pensamento, cuja essência de suas verdades reside na refutabilidade mesma. Aprendi como o conhecimento científico não somente procede por refutações sucessivas, mas também por saltos qualitativos, por rupturas paradigmáticas, como Thomas Kuhn descreveu em livro clássico. O que se alinhava à minha percepção de um mundo-fluxo, em mutação profunda. O  antidogmatismo e a visão aberta do mundo culminaram na entusiasmada adesão no anarquismo metodológico de Paul Feyerabend, radicalmente averso a cânones, metanarrativas e esquematismos.
Atribuo as religiões a dezenas de causas. Politicamente, por servir como peça importante da dominação de classe, exercida com base no temor e na ignorância. Moralmente, por ajudar no controle social/sexual pelo poder constituído contra as minorias políticas, a mulher, o jovem. Culturalmente, ao comodismo do hábito, à preguiça intelectual, ao zelo bovino pelas tradições familiares. Individualmente, à fraqueza de caráter, que anseia por consolo metafísico, diante do sofrimento e da morte; ou então como reação igualmente impotente perante a culpa, a baixa autoestima, o desespero. Esteticamente, à aspiração pela perfeição, pureza e sublime, num amor transcendente. Genealogicamente, como ressentimento dos fracos contra os fortes, como inversão da lógica do bom x ruim (potência), pela do bom x mau (moral), como vingança abstrata contra um mundo insatisfatório. Racionalmente, à ingenuidade de pretender uma explicação totalizante e definitiva, num sistema fechado e reconfortador, capaz de apaziguar a dúvida angustiante que move o homem.
Nessa recusa esclarecida da religião, não fujo da tradição do pensamento anticlerical, ainda que eu também abomine os teísmos e deísmos que os iluministas (traidores), em geral, incorriam. Daquela época, o único ateu lídimo que eu li foi o Marquês de Sade, no seu furioso materialismo. Antes dele, Spinoza: teórico do Deus filosófico, imanente, amoral e impessoal, adotado também por Einstein, que por sinal nada tem do Deus dos monoteísmos.
No século 20, por sua vez, abundam os ateus assumidos entre escritores e intelectuais. Poderia citar mais de cem, mas destaco o mais irônico: Woody Allen. No século 21, o aumento da população atéia contrasta com a onda de fundamentalismos cristãos, islâmicos e sionistas. Estes se espalham como epidemia sobretudo nos Estados Unidos, nos países árabes, em Israel, acuando os seus muitos cidadãos livres e inteligentes. É preciso resistir e é preciso ceticismo.

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Leituras recomendadas:
ALLEN, WOODY, God: A comedy in one act (peça de teatro), 1975.
DAWKINS, RICHARD, Deus, um Delírio, Cia. das Letras: 2007 [2006].
FEYERABEND, PAUL, Contra o Método, UNESP: 2007 [1975].

KUHN, THOMAS, A Estrutura das Revoluções Científicas, Perspectiva, 2003 [1962].
POPPER, KARL, A Lógica da Pesquisa Científica, Cultrix: 2000 [1934].

SADE, MARQUÊS DE, Diálogo entre um padre e um moribundo, Iluminuras: 2009 [1782].
SAGAN, CARL, O Mundo Assombrado pelos Demônios, Cia. das Letras: 1996 [1995].
SPINOZA, BARUCH DE, Ética, Autêntica: 2007 [1677].
Publicado em 29 de maio de 2010. Comente

continuação dos episódios I, II e III. (clique para ler)

Fomos para uma sala de estudos, conectada ao saguão principal do antigo edifício. Livros empilhavam-se pelas mesas e cortinas  pesadas e beges cobriam as janelas, que davam para o matagal que um dia fora o jardim da biblioteca. Zazá havia chegado antes. Com sua namorada e mais um ajudante, montara uma mesa apropriada para a sessão, com castiçal, vela e toalha branca. Aliás, todos vestíamos roupas claras, e eu havia sido orientado previamente para não trajar tons mais frios.
Confesso que o ambiente intoxicava. O cheiro de mofo das cortinas, o pó onipresente, a imagem dos livros antigos de capa dura, tudo isso confabulava silenciosamente para a atmosfera lúgubre. Passava das dez horas e o campus já estava vazio, de maneira que não havia mais funcionários. O subreitor havia deixado a chave com Zakowics, que, como noutras ocasiões, responsabilizava-se.
É curioso como, antes da sessão propriamente dita, os presentes calavam sobre o Boa Noite. Falava-se de tudo, menos do protagonista. Estranhei a demora em começar os tão esperados trabalhos, mas o veterano da física me explicou que deveríamos aguardar a uma hora da madrugada. Avaliavam que tinham mais chances de chamar o Boa Noite no horário em que ele geralmente aparecia. Falou-me que, freqüentemente, invocavam espíritos errados e mesmo entidades zombeteiras, que atrapalhavam os serviços. Não é por acaso, disse-me, que a namorada de Zazá, a médium, primeiro fazia contato com um espírito conhecido do grupo, o tal Júlio Borges, e a partir dele contactava os demais. Esse constituía o procedimento padrão de centros mais experientes e estudados, na medida em que a ponte entre o lado de cá e o de lá freqüentemente não é confiável e pode, em casos extremos, acabar sendo insegura e perigosa. Há segredos na passagem entre os planos que mesmo os maiores grandes mestres do espiritismo não chegam a consenso, logo se recomendam cautela e prudência.
Com efeito, nessas conversas preliminares da sessão, cheguei à conclusão, que de qualquer forma eu já imaginava, de que existem diversas vertentes do espiritismo. Como nas milhares de seitas protestantes. Como no catolicismo — embora nessa religião haja uma instituição milenar, rigorosamente hierárquica e disciplinada, para manter os dogmas e liturgias coesos. É curioso como as religiões tendem a fragmentar-se, num movimento centrífugo que sempre e sempre culmina em facções, lutas intestinas, perseguições e, afinal, depurações violentas. Quanto mais o homem empreende esforços para se unir sob o estandarte da verdade última, mais se multiplicam as bandeiras e, com elas, os exércitos de fanáticos.
Enquanto não chegava a hora, comemos sanduíches e bolachas. e nos agrupamos em rodinhas. Éramos vinte. Abrimos três garrafões de quatro litros de um vinho barato, “Sangue de Boi“, que era a única bebida alcóolica “autorizada” para a ocasião. Peguei uma e  servi os colegas com a jarra por cima do ombro, como fazíamos naqueles tempos de estudante. O papo animou-se e, por um tempo, abstraí do clima de filme de terror, da mesma forma que nos acalmamos quando começa o serviço de bordo num vôo agitado. Resolvi tomar vários copos para ficar bem tranqüilinho. Contrariava assim preceitos da observação científica, mas é preciso entender que, com 20 anos, o ímpeto faz com que pulemos precauções essenciais.
Lá fora, começou a relampejar e chover.
No colóquio pré-sessão, me contaram que, graças à profunda erudição de Zazá, o centro espírita tinha adotado uma linha teosófica. Fiquei sabendo que a teosofia remontaria ao século XIX na Rússia, e implicava uma doutrina de igualdade e solidariedade universal, voltada para a busca da perfeição do ser humano. Essa perfeição estaria na pureza e transcendência do espírito, encapsulado, ou melhor, aprisionado no corpo, como uma ostra em sua concha. Libertar o espírito imortal das amarras corporais significava ascender ao plano das essências perfeitas, na subida da montanha do conhecimento. Nada mais próximo da doutrina de Agostinho, refleti.
Zazá passava a maior parte do tempo cochichando com a sua namorada-médium. Falava-lhe ao pé do ouvido, com gravidade. A menina de proporções generosas vestia jeans e camiseta branca, que lhe marcavam especialmente os contornos, então não pude deixar de reparar em sua sensualidade naquela noite. Outro colega, em tom professoral, explicou-me que a mediunidade demanda intensa preparação, seja exercitando a concentração, seja o autodomínio. Pois o envolvimento com o além pode ser extenuante, a ponto de causar desmaios e ataques.
Já amaciado pelo vinho, deixei vazar sem prudência algumas de minhas descrenças, no meio das conversas. Tinha dificuldades em dar crédito ao ocultismo, quando os próprios círculos ocultistas fazem de tudo para gerar uma aura de mistério e enigma ao redor de si. É o contrário daqueles que se propõe a investigar a verdade com clareza e transparência, expliquei-me. Os ocultistas mais famosos cultivaram sociedades maçônicas, cuja principal propaganda é seu hermetismo teórico e prático. E quando aparecem em público, o ocultismo vem na forma de personalidades altamente duvidosas e oportunistas, que o consenso científico tem por charlatões talentosos, como Uri Geller ou mesmo o nosso Zé Bonitinho do espiritismo, o Chico Xavier. Devo ter acionado algum sinal de alerta, visto que Zazá, que nesse momento estava do outro lado da sala, virou-se surpreso. Como me escutara de tão longe eu não sei. Logo ele se juntou ao grupinho em que eu estava.
O líder de facto do centro foi logo metendo o pau no Uri Geller. Aproveitador, mentiroso, midiático, desvirtuador da paranormalidade e, por último, tachou-o de “merda ambulante que só quer aparecer”, anátema costumeiro a quem ele considerava impostor. Esclareceu que, assim que eu participasse de mais sessões, iria conhecer um panteão de médiuns, paranormais e estudiosos “dignos” e “comprovados”, que descartavam exibições públicas e fanfarronices, porque a sua arte oculta falava por si própria. Uma pena que não estávamos na Polônia ou na Ucrânia, pois no Brasil no mais das vezes os médiuns e estudiosos são farsantes descarados. Pedi, como resposta, e talvez sem o tato devido, um exemplo de personalidade do metiê que ele admirava, além da Petrovna e da Stanislawa, que eu já ouvira ele falar no grupo de estudos.
Então ele ficou muito sério, pôs as mãos na cabeça e, ante o silêncio imediatamente decorrente, murmurou: Grigo…ri Efimo…vich… sim, Rasputin! seus olhos brilharam.
Controlei-me para não esboçar nenhum sorriso. O místico dos Romanov? por quê? Zazá focou o infinito, como um crente falando de seu santo preferido, e recontou com riqueza de detalhes uma boa parte dos bastidores da Rússia czarista. Uma narrativa apaixonada. Narrou como os Romanov eram somente marionetes nas mãos de uma sociedade secreta praticante da teosofia, que ele todavia não podia nomear. Como a monarquia russa, em verdade, representava os interesses desse grupo de sábios e visionários. Elencou nomes, contou anedotas, relatou episódios históricos, sempre sob o ponto de vista dessa teoria que, pra mim, cético até segunda ordem, sôou conspiratória demais. E continuou a preleção, em tom seguro, até a Revolução Bolchevique, que pra ele significou o lamentável triunfo do obscurantismo, da ignorância e das falácias da utopia e da salvação. E nenhuma ideologia era mais abominável para Zazá do que o comunismo: “religião vulgar de burocratas e sobretudo professores, todos ultimamente medíocres”. Inclusive, membros da mencionada sociedade secreta ofereceram ajuda, um grande erro aliás, a Hitler, justamente pra combater o utopismo soviético. Isso explica claramente o largo envolvimento do nazi-fascismo com o ocultismo, quando se organizaram expedições ao Tibete e ao Reino do Preste João. Mas isso é outra história.
Eu não queria contestar nada naquela hora, apesar do rompante de vontade. Por mais que ali estivesse para a sessão, nada impedia de voltarem atrás e não permitirem a minha participação. E eu estava maluco pra testemunhar o que eles iriam fazer do caso “Boa Noite”. Nunca tinha chegado tão perto de um acontecimento supostamente sobrenatural e não ia por tudo a perder por ninharias. Todas as outras vezes recolhia testemunhos de terceiros e faltavam-me recursos para verificar ou refutar os argumentos. Sempre me refugiara, quiçá por comodidade, no célebre argumento de David Hume: um único evento curioso e antinatural não pode ser capaz de refutar, sozinho, a enorme massa de eventos verificados que se sedimentaram como a nossa realidade ordinária. Em outras palavras, uma ocorrência paranormal não pode ter o condão de contradizer mil ocorrências normais, na mesma circunstância. Ainda mais quando não vemos com os próprios olhos, ou quando essa ocorrência não passa por uma conferência criteriosa, por grupos independentes de pesquisadores, chegando aos mesmos resultados. Muito pelo contrário, no mundo real, tais “milagres” ou fatos paranormais restam irrepetíveis, irreprodutíveis, de toda forma realizados em circunstâncias não controladas e sujeitas a deformações, sugestões mentais, ilusões, erros e sobretudo má fé. Pensei tudo isso, decidi  não criar um cavalo-de-batalha com Zazá, o guia. Por outro lado, como o vinho realmente fazia efeito, resolvi simplesmente ser sacana.
Introduzi na roda a história do pênis de Rasputin.
Como se sabe, o conselheiro místico dos Romanov foi assassinado brutalmente por palacianos. Esse crime deu-se em vários atos. Primeiro, uma garota de programa esfaqueou-o com tamanha violência que as tripas pularam da barriga. “Eu matei o anticristo”, gritava a prima. Mas o Monge Louco não morreu e, naquela mesma noite, recuperou-se do ferimento aparentemente mortal. Então , antes dele sair do hospital, envenenaram-no, com uma dose capaz de derrubar um touro. Porém o veneno simplesmente não fez efeito no corpo de Rasputin. Deram-lhe então um tiro na nuca e ele silenciou. Mas na hora de carregar o corpo, ele acordou e mordeu um dos assassinos, chamando-o de “menino mau”. Aí, horrorizados, espancaram-no violentamente, dispararam a pistola mais três vezes à queima-roupa e, não satisfeitos, fora de si, cortaram o seu pênis fora (e já retornarei a essa peça inusitada). Aí, por vias das dúvidas que o sujeito era mesmo porreta, o amarraram, embrulharam-no num tapete e lançaram-no Rio Neva, que estava congelado. Na manhã seguinte, o corpo foi achado na beira do rio, completamente livre das cordas e do tapete! a autópsia demonstrou que ele morrera por afogamento. E só se afogou porque não conseguiu romper a camada de gelo, já que estava livre e consciente.
O fim de Rasputin, mas seu pênis ainda teria um futuro próprio descolado do corpo. Porque os algozes confirmaram que realmente era um membro de dimensões formidáveis, como já corria o boato por toda a capital. Como se sabe, além de ocultista, Rasputín era um garanhão, um Dom Juan do Mal, e usava de sua persuasão por assim dizer sobrenatural para seduzir não só as beldades da corte, mas também ninfetas da cidade. Damas e princesas, mas também amantes homens, porque ele era panssexual, provaram de suas qualidades desproporcionais. Um fenômeno narrado em dezenas de diários de boudoir, como a história comprova. Depois da castração, atribuíram ao pênis, de inacreditáveis 30 centímetros, poderes paranormais: era capaz de curar a impotência e fechava o corpo de seu portador aos inimigos. Dizem, inclusive, que Stálin mandou guardar o membro conservado em seu acervo particular. Parece, a queda da União Soviética coincide com o sumiço da peça durante o governo de Gorbatchóv, na década de 80.
É evidente que a minha história, regada a vinho barato, divertira os companheiros do centro espírita. A menina da biologia deu um risinho e falou bem baixo: “que caralho mágico hein”. Mas não agradou, em definitivo, a Zakowics, cujo olhar parecia um punhal dirigido a mim. Petrificado, ele não acreditara no que eu falara com tanta sem-vergonhice. Justo naquele dia. Me preparei para o pior: a expulsão sumária. Sempre tive dificuldades em ficar quieto em momentos-chave, mas de qualquer modo,  depois jamais me arrependo das estripulias. Se não for pra fazer isso, ponderei, eu nem vinha. Porém, por intervenção da sorte, a namorada dele anunciou que virava uma hora da madrugada. Ou seja, era hora de começar a sessão. A euforia da maioria rapidamente os fez esquecer Rasputin e concentrarem-se na principal atração. Era hora de convocar o Boa Noite.
Enquanto todos arrumavam a bagunça do lanche e tomavam os seus lugares, Zazá continuou sentado ali, como uma serpente ameaçadora, encarando-me. Já autoconfiante graças não só ao vinho, mas a meu firme ceticismo, não desviei o olhar, aceitando o desafio. Foi quando Zazá relaxou a expressão, ofereceu-me um sorriso de canto de boca, quase imperceptível, levantou-se e, ao passar a meu lado, sussurrou ao ouvido:
— Jamais perdoarei a sua atitude.
Acenderam a vela, apagaram as luzes e a tempestade acirrou, golpeando as janelas. Era hora do show, eu pensei, completamente imune, àquela altura, ao ambiente assustador. E como eu estava enganado, leitor…

continua…

Publicado em 23 de maio de 2010. Comente

Acordei invocado porque me lembrara do pesadelo.
Tinha morrido e reaparecido num limbo azulado imerso em nuvens espessas. Pensei: então existe um pós-morte? Pequepê… Mas de repente a neblina se dispersou em uma região e, ali, surgiu a cara de um velhinho de barba. Gigante e severo:
— Shhhhhhhhh… sabe quem eu sou? — disse com voz retumbante e ameaçadora.
— O Deus do Velho Testamento, eu presumo. — respondi, sincero.
— SIM. E por que não acreditaste em mim?
Abri os braços:
— Ausência de evidências, Senhor, ausência de evidências…
E foi então que fiquei sabendo, diretamente da Boca Divina que, na verdade, a mudez metafísica do universo infinito nada mais é do que um teste. Um plano divino elaborado para os seres humanos, para separar o joio do trigo, para Deus poder selecionar os seus.
É tudo um estrategema para analisar o quão crédulo e estúpido pode ser o homem. Desta forma, os supersticiosos, os espíritas, os crentes, os beatos e demais almas carneiras terminam a passagem da vida reprovados, pois optaram pelo caminho diabólico do consolo, da esperança, da preguiça mental e da submissão. Já os infiéis, apóstatas, hereges, ateus —, mesmo alguns ateus que se proclamam agnósticos por falta de personalidade — esses cumpriram a vocação humana da dúvida e assim ascenderam ao estado de graça, realizando o projeto ultraterreno.
E Deus mesmo, Ele me contou, não deseja que os ímpios inaugurem uma Igreja em seu nome. Pelo contrário, tem horror a isso. Explicou-me que os espíritos livres, em geral, tendem a não obedecer a sistemas de autoridade moral, e pensam por si mesmos sobre os mistérios e desafios do universo.

— Como Eu queria que fosse! imaginar um rebanho de ateus é tão absurdo quanto tentar formar um rebanho de gatos — animais independentes e de personalidade, que não costumam ir pra onde os mandam.

E então as portas do Céu se abriram e eu entrei, franqueado por São Pedro.