Arquivo para ‘15-O’
Publicado em 22 de janeiro de 2012. Comente

Organize online. Ocupe offline.

 

Embalado pelas revoluções árabes e pelo movimento do 15 de maio (15M) europeu, pelas sucessivas revoltas na Tunísia, Egito, Espanha,  Itália, Islândia, Grécia e Reino Unido, o momento americano da revolução global irrompeu em Zuccotti Park. Em 2 de agosto de 2011, aconteceu a primeira assembléia nessa praça arborizada da Baixa Manhattan. Em 17 de setembro, centenas de pessoas levantaram acampamento na praça. Sintomaticamente, Zuccotti é classificado como “espaço público de propriedade privada”, controlado pelo banco de investimentos Brookfields. A primeira tarefa dos manifestantes do Occupy foi comunalizar o espaço: assumiram uma gestão democrática e passaram a produzir intensivamente (n)ele. Como nas demais ocupações de espaços públicos pelo mundo, a OcupaNY transformou o espaço em comum, além das categorias do público e do privado. A partir daí, instalou-se uma versão beta da política, em constante tentativa, erro e mutação. A partir de Nova Iorque, as ocupações se alastraram para mais de 400 cidades norte-americanas. Na chamada de 15 de outubro (15O), o movimento pipocou no Brasil, Equador, México, Uruguai, Colômbia, Argentina, Costa Rica e Chile.

Quem entrou em 2012 um pouco decepcionado com o ciclo de lutas, deveria fazer um exercício retrospectivo. E voltar para 1º de janeiro de 2011. Quem poderia imaginar, na época, que as ditaduras árabes seriam varridas da história por multidões? que um experimento como a Praça Tahrir fosse factível? que milhões de pessoas tomariam as ruas pela Europa, rompidas com a esquerda partidária? que, nos Estados Unidos, se voltasse da noite para o dia a falar abertamente em revolução e poder constituinte, acontecessem bloqueios de portos, piquetes em prédios empresariais, calotes coletivos de estudantes, e se organizasse a primeira greve geral no país desde 1946? De acordo com o último relato do estado da ocupação, ainda se mantêm 61 acampadas sob o fustigante inverno americano e a agenda ativista para 2012 está lotada.

Se existe uma diferença entre o ciclo OcuparTudo e os protestos anticapitalistas do final dos anos 1990 reside na prioridade da construção de uma alternativa, de já apresentar-se com propostas concretas para o outro mundo possível. Aquele ciclo de lutas se pautou, principalmente, pela agenda do confronto direto, da provocação, da perturbação das instituições globais do capitalismo e da destruição da propriedade privada. O movimento Occupy incorpora a raiva e a revolta das ações globais precedentes, mas as elabora mais afirmativamente, num desejo de coalhar o mundo de Praças Tahrirs, de enlaçar redes de auto-organização e auto-valorização. Militantes das antigas, dos dias de ação global, de Seattle e Gênova, se sentem não somente contemplados, mas entusiasmados com o vigor e a determinação dos novos. Se, antes, éramos reprimidos pela hostilização à propriedade, agora se é reprimido simplesmente por ocupar o espaço público e engendrar práticas autonomistas. A mera existência das acampadas em espaços públicos já afronta os poderes constituídos.

Toda a mobilização mudou a gramática da política americana. Voltaram-se a debater modelos de estado, estrutura social, sistema econômico e divisão de classe. Além disso, instaurou um clima de desobediência civil: ousa-se mais, desafia-se mais. A recente mobilização pelas liberdades das redes e contra o SOPA só pode ser entendida sobre o pano de fundo da agitação política que o Occupy exprime. Sobretudo, colou o slogan 99% contra 1%, que resgata ao imaginário político a divisão de classe. Descarta-se a ilusão de que na sociedade somos todos Um, que alguma harmonia universal dos diferentes pudesse resolver os problemas sociais em nome da humanidade. O Um tem que se fazer Dois. O movimento Occupy forçou a arena pública a reconhecer a profunda assimetria entre ricos e pobres, entre proprietários e precários, entre credores e devedores, um antagonismo cuja solução não se dá com reformas ou melhoramentos pontuais, da parte de governos e partidos. E não se trata, como resposta, de inaugurar sociedades alternativas, à moda dos hippies, onde essas divisões sociais não mais existiriam. Mas, sim, propor alternativas de sociedade no coração da ordem social vigente, com o propósito de abolir as segregações.

Nesse sentido, por mais demandas que sejam formuladas pelas acampadas (e muitas, claramente, o são), elas jamais chegarão à altura do desafio colocado pelo Occupy. Membros do governo e da imprensa cobram a mesmo exigem, por vezes histericamente, as pautas e exigências do movimento, esses não entenderam o ímpeto do Occupy. Ele não tem funcionado como mais uma articulação da sociedade civil, ou seja, como grupo de pressão para reivindicar ante o estado, — que a seu passo poderá atender ou não. Muitas das demandas simplesmente não podem ser atendidas. Por impossibilidade sistêmica. Se pudessem, o próprio movimento perderia o sentido, uma vez que ele se criou exatamente porque há demandas que não podem ser processadas pela máquina representativa, triplamente viciada por governos, partidos e grande imprensa. O dissenso é radical e essas demandas são vitais. E se relacionam com o acesso democratizado a bens comuns e moradia, a modelos alternativos de desenvolvimento e metrópole, a formas de trabalhar e produzir socialmente e a instituições baseadas na auto-organização e na autonomia. O que se pede simplesmente não poderia ser atendido por quem é o obstáculo primeiro das demandas. Que situação mais enervante para os representantes constituídos, afinal, você não pode fazer nada para pará-los quando eles não querem nada de você. Os problemas que o Occupy põe extrapolam as soluções disponíveis no mercado eleitoral. Daí também remeter a um slogan sessentaoitista: seja realista, demande o impossível.

Outro diferencial do movimento está na importância de produzir, no foco na atividade. Sua relevância para o movimento está no que você faz por ele, efetivamente, na aspereza do concreto, no quanto você investe o tempo, a capacidade, o desejo, a paciência e a revolta. Ocupa-se o espaço não para expressar pura e simplesmente, mas para produzir. O quê? formas de organizar, de decidir, de gerar cultura, resistência, redes colaborativas e arte-ativismo, tudo misturado; para aprender o próprio processo de ocupação, para irradiar lutas e mobilizações visando a ocupar outros lugares: escolas, fábricas, hospitais, empresas, universidades, a internet. Nisso, não reproduz a lógica reativa de alguns coletivos esquerdistas, que se limitam a expedir moções de repúdio, reclamar dos governos e resmungar contra-tudo-o-que-está-aí. Nem se restringe ao ideal participativo da classe média liberal. Isto é, achar que fazer política se resolve em participar de redes sociais, debater abertamente os tópicos e contribuir para a formação dos consensos e conversas. O mundo não se muda diretamente com idéias, mas quando elas circulam, são compartilhadas, se transformam e se enredam com as práticas concretas, com a ação direta e a organização militante, quando elas encarnam na praça e nas ruas.

Algumas pessoas deveriam parar de esperar do Occupy uma emoção permanente. O tempo da crise também desabrocha mediante um trabalho laborioso de construção, qualificação, capilarização. Tem seus refluxos, recuos e adaptações. Os fluxos e redes, as práticas e discursos vão se articulando, organizando uma sinergia no que efetivamente rola, um comum produtivo, — e isso não significa que vai ser espetacular como no cinema, os proletários marchando para ocupar triunfalmente o Palácio de Inverno. Mesmo porque não existe mais centro absoluto de poder. Não adiantaria para o Occupy tomar o poder do estado, isso seria muito pouco.  No seu dissenso, é preciso atravessá-lo, reinventá-lo, esgarçar novos horizontes de políticas, mídias e direito.

As utopias que fiquem nas cátedras e obscuros coletivos. No dia a dia das ocupações, não há lugar para a pureza de ideologias e seus programas imaculados, nem para tentativas de unificar os grupos contra alguma entidade sobrehumana de doze cabeças. Tudo se hibridiza e se intensifica nas relações sociais que nos atravessam, e está só começando. 2011 foi só o gostinho.

Publicado em 13 de janeiro de 2012. Comente

Cinelândia no dia seguinte à remoção, OcupaRio não foi pro lixo [Foto: Rodrigo Torres]

Warhol na Cracolândia

Em 2010, visitei a exposição Mr. America em São Paulo. Muito badalada, estavam expostos os trabalhos de Andy Warhol com latas de molhos de tomate Campbell, bananas Velvet e retratos de Marilyns, Elvis, Maos, Nixons e Johns Lennons, além de curtas-metragens como Malba ou Blow Job. Fui de metrô, descendo na estação Luz. Achava que a exposição acontecia na Pinacoteca do Estado, logo ali. Mas não, era na Estação Pinacoteca, a 500 metros de onde tinha descido. Para chegar, era preciso seguir a pé pela Rua Mauá. Quer dizer, era preciso uma caminhada de domingo na Cracolândia.

Percebi que muitas pessoas cometeram o mesmo erro que eu. Desciam na Praça da Luz de táxis vindos de bairros chiques. Eram muitos, porque a exposição bombava. Andy Warhol ainda é o príncipe da pop art e costuma atrair uma entourage de admiradores. Nas graças da mídia, Mr. America se tornou parada obrigatória para paulistanos cultivados. Um local de peregrinação para designers, estilistas, publicitários, produtores de televisão, performistas, acadêmicos da Faap e da USP, além das diversas tribos da capital: indies, emos, cools, anarco-queers, neo-punks, situacionistas de butique e todos quantos. Vinham de seus flats na Haddock Lobo ou na Oscar Freire, de seus lofts da Rua Augusta, de seus casarões no Morumbi, de condomínios em Higienópolis ou Alphaville, de apartamentos modernos com paredes de gesso e cozinhas planejadas.

Toda essa gente diferenciada também teve de cruzar a Cracolândia, no percurso entre a Praça da Luz e a Estação Pinacoteca. Definitivamente, a Cracolândia não estava no programa. O contraste chamava a atenção. Uma procissão de criaturas coloridas e bem alimentadas indo e vindo, em meio ao deserto cinzento de ossos e nóias do centro de São Paulo. Apesar do policiamento, isso não evitava que alguns visitantes fossem abordados pelos cracolandeses. A maioria dava trocados e tirava fotos, num misto de curiosidade e condescendência. Entre a antropologia e o turismo, se deparavam com um coquetel de sexo, drogas e moda que não tinha nada do glamour de Andy Warhol. Mas dava pra sentir uma adrenalina.

Depois da visita à exposição, acabei me juntando a um grupo que debatia na cafeteria. Em certo ponto da conversa, alguém disse que a única experiência estética possível na ocasião havia ocorrido lá fora. A contemplação dos trabalhos da pop art significava pouca coisa diante do passeio pela Cracolândia. Que ali pulsava uma vivência produtora de sentidos originais. Como no teatro da crueldade de Antonin Artaud, éramos atingidos pela violência e miséria em estado brutal, num só golpe e sem mediações. Em vez do luxo, o lixo. Em vez do american dream, o pesadelo paulistano. Teria sido uma injeção de vitalidade capaz de ressignificar o trabalho dos artistas, capaz de transfigurar o real nas formas pregnantes do visível e do sensível. Inspirador, concluiu a pessoa.

Polemizei na hora, o que quebrou a atmosfera de papo de cafezinho.

Pra mim, era tão inspirador quanto assistir a programas televisivos sobre o crime na cidade, com seus apresentadores fascistinhas. Era a mesma coisa, só que vista com indulgência. Alimenta-se da distância entre nós, os “civilizados”, e eles, os “cracudos”, na medida mesma em que permanece intransponível. Ir ao local e olhar com os próprios olhos não significa apreender a violência da situação. Essa só poderia ser formulada na sua verdade através da ótica e da linguagem dos que sofrem, na afirmação dessa dor como revolta e reinvenção. Que é coisa distinta de reproduzir a lógica do sujeito que vê o outro de cima, muito de cima, como objeto de suas boas intenções. Caridade de madame ou estetização da miséria dão igual: a mesma apropriação de um sofrimento alhures para o consumo do ego. Não é como se tornar a Boca do Lixo no nível da poética, mas, sim, como ir ao lixo filmar os lixeiros para concorrer ao Oscar. A caminhada na Cracolândia, desse jeito, não passa de safári urbano, como andar de trem fantasma pelos horrores tão alheios a nós. E assim nos confirmam a normalidade e, em confirmando, reconfortam-nos de nossa superioridade face aos seres desviantes.

Cracolândia na OcupaRio

Um ano depois eu estava acampado na OcupaRio, na praça da Cinelândia. Começou na mobilização de 15 de outubro (15-O), como uma ocupação intensiva do espaço público. Foi organizada por militantes e universitários determinados a construir outra política, além da representação estatal, partidária e jornalística. Reuniu um campo abrangente de personagens sociais, com múltiplas agendas e desejos de mudança. Éramos mais de 150 barracas, tendas temáticas, mídias livres, grupos e subgrupos de trabalho. Foi das experiências mais sensacionais, muito mais produtiva e expressiva do que obscuros encontros de aparelhos militantes de classe média ou que colóquios previsíveis das juventudes partidárias ou da UNE.

Aos poucos, os problemas crônicos da cidade começaram a desaguar na OcupaRio. Instalou-se a luta dos afetos ativos pela transformação contra as paixões tristes, que o lado cinzento da cidade faz circular. Paixões tristes que vagueiam sem consciência pelas ruas e casas, que irritam e ressentem e fazem todos acusarem-se uns aos outros, desencantando. Até que as redes e fluxos produtivos estancaram e a ocupação a céu aberto acabou soterrada por essa violência adensada dia após dia. A acumulação de violências não foi gerada espontaneamente pela acampada, menos ainda por falta de policiamento, mas pela própria metrópole transbordante de opressões e ressentimentos. Afligiram-nos os efeitos recalcados em vários níveis por uma ordem urbana desigual, racista e violenta, seus traumas e neuroses e recalques individuais e coletivos. A festa revolucionária cedia lugar à lei da sobrevivência; sucederam furtos, brigas, ameaças de morte, agressões sexistas e crack.

Lembro-me exatamente o instante em que percebi o ponto de neurose. O número de barracas havia caído para menos de 80, muitas já imundas e abandonadas. Eu já não estava mais virando a noite lá. Era meia-noite e a OcupaRio se preparava para mais uma noite mal dormida. Nessa hora, uma das mulheres acampadas estava incorporando uma entidade desconhecida no meio da praça, enquanto o socorrista da Cruz Vermelha, também acampado, tentava lidar com a situação da melhor maneira. Olhei ao redor e enxerguei. Vi crianças mal nutridas, mulheres em trapos, tantas pessoas magras e feias e sujas, semianalfabetas e desdentadas, eram talvez 90% de quem pernoitava. De repente, o acampamento me adquiriu outra luz. Tínhamos conseguido, sim, politizar a acampada. Ali estava o foco: todas as pautas da metrópole condensadas e intensificadas num espaço-tempo. As pessoas que sequer aparecem no mundo político, essas que, de jeito nenhum, são representadas. Mas, apesar do sucesso na composição dos vários grupos sociais, se mostrava difícil superar a montanha de afetos negativos, que infestavam todas as relações. Era como tentar abraçar violentas ondas do mar, só para levar um caldo. Começamos como acampamento de verão e tínhamos a nossa própria Cracolândia. Muitas pedras no caminho: a frustração, a culpa, o medo, a impotência.

Estávamos num impasse neurótico. Apenas inventariávamos as infelicidades, em vez de enfrentar com tudo o que tínhamos o nosso problema, que também era o problema da pólis. Daí a acepção profundamente política. Alguns lamentavam-se e culpavam-se o que não haviam causado. Foi quando sucedeu uma remobilização, um segundo esforço para superar as condições neuróticas da ocupação. Luta perdida é a que se abandona. Era preciso vencer a cracolândia molecular, a cracolândia gasosa, a cracolândia de circuitos e loops traumáticos, de loucuras circulares que a violência da ordem vai multiplicando, que o choque de ordem tem sido um transmissor central e maciço. Muitos se desmobilizaram, vieram outros, mais otimistas, mais ingênuos do amor. Um grupo de trabalho de educação começou a aplicar a pedagogia ao gosto de Paulo Freire. Organizaram-se sessões de cuidado, alfabetização, corte de cabelo, informativas de saúde, educação física e recreativas. Em suma, um conjunto de políticas sociais que tomam por vários lados a questão da saúde (física ou mental). A OcupaRio se tornou uma espécie de referência (“precedente”), para pessoas em situação de rua pelo Rio de Janeiro, objeto de comentários nas quebradas, abrigos e outras cracolândias. Com isso, ela voltava timidamente a produzir, com um enfoque mais corporal, mais biopolítico do que pautas de reivindicações ou palavras-de-ordem. Já se articulavam mutirões e reocupações para as férias de verão.

Nesse ínterim, a grande imprensa conseguiu forjar o consenso para o choque de ordem desalojar a OcupaRio.

Foi numa madrugada de sábado para domingo, depois de muitos alarmes falsos falsamente difundidos. Eles chegaram com muitas viaturas numa ação dúplice da prefeitura e do governo do estado. Policiais militares com cachorros no perímetro, guardas municipais com os coletes do Choque de Ordem e cassetetes em riste e uma tropa da Companhia Municipal de Limpeza Urbana. Foi rápido e não houve conflito. Depararam-se com uma ocupação exausta, de quase 50 dias da aspereza do concreto, de desgastes e inglórias. Desmontaram barracas, tendas e equipamentos, atirando tudo no caminhão da Comlurb. Também foram pro lixo livros, mochilas, coisas pessoais diversas. A biblioteca com 300 volumes foi esparramada pelas sarjetas de ruas próximas, onde, dias depois, encontrei dois Jorges Amados e um André Malraux. O caminhão pipa concluiu a operação com muito ódio. Em questão de hora e meia a ocupação estava completamente deletada. A Cinelândia amanhecia num domingo mais igual do que os outros, no retorno do espaço público de ninguém, o eterno retorno do mesmo.

Aí aconteceu o que eu ainda não tinha testemunhado em outras desocupações urbanas. Junto do choque de ordem e lixeiros, apareceram assistentes sociais. Escolhiam alguns acampados e levavam para as vans, para o tal recolhimento. Alguém pergunta a eles: “Mas como saber quem é cracudo?” A seleção tinha uma premissa simples. Todos eram potencialmente “cracudos”. O assistente social não precisa provar que fulano é cracudo, mesmo porque não teria como. Basta a possibilidade, basta ele poder ser cracudo. Como, de acordo com o princípio do terceiro excluído, todos podemos ser e podemos não ser cracudos, essa suspeita na prática se aplica a qualquer um. Quem decide é a força de desocupação. É suficiente, portanto, a decisão. Decidir quem é potencialmente cracudo a ponto de merecer ser recolhido. No fundo, somos todos cracudos, até que o estado diga que não somos. No caso da OcupaRio, ficou fácil para os agentes da ordem selecionarem. Quem era branco, tem domicílio e os dentes na boca, como eu, não é potencialmente cracudo, deve ser liberado. Quem é esfarrapado, preto de tão pobre, e sem todos os dentes, esse é (potencialmente) cracudo. O resultado dessa equação de primeiro grau foi que quase todos os pobres e negros foram recolhidos nas vans e escoltados pelas assistentes sociais, alguns para um abrigo a 45 km do centro da cidade. Depois que se virassem para sair e retornar.

E é difícil contra-argumentar por dentro do sistema, porque não acontecem prisões formais. Por exemplo, a OcupaRio foi removida como lixo sem a apresentação de nenhuma ordem judicial, sem a lavratura sequer de um auto de prisão em flagrante. Aliás, nenhum documento foi apresentado em absoluto. Segundo os agentes da ordem, tratava-se meramente de aplicar uma postura municipal administrativa, quanto à utilização de praças públicas. No caminho dos abrigos, passaram por delegacias para checar os antecedentes, embora os delegados tentavam se livrar deles o mais depressa, tratados como um estorvo ao serviço do plantão. Algumas crianças e adolescentes foram separados dos pais e levados para outros abrigos, de onde não podem sair. Uma semana depois, ainda tinha um adolescente gay da OcupaRio recolhido num abrigo, sob constantes agressões e abusos por outros recolhidos. Ele teve de exercer o seu direito de resistência como cidadão e fugir. Na semana seguinte, a desocupação foi comunicada à imprensa como uma bem-sucedida ação social, mais uma medida de revitalização para a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos. A desocupação e o recolhimento aconteceram em regime de estado de exceção e ainda foram considerados benéficos aos próprios removidos, num duplipensar de fazer inveja a Big Brother.

Se o crack é o novo nome do Diabo, contra quem tudo se justifica aos olhos da mídia e do estado; cracolândia é como passamos a chamar os nossos escravos mais expostos e sensíveis, contra quem nunca deixaram de vibrar os representantes desta sociedade neo-escravocrata. É tudo vagabundo.

 

Publicado em 21 de novembro de 2011. Comente

Foto: Rodrigo Torres

 

No começo, tudo era festa. E pediam à acampada mais do que ela poderia dar: uma emoção contínua, um encantamento permanente. Generosidade transbordante, sorrisos por todo lado, grupos de amigos resolvem ir juntos à praça. Contagiado pelos afetos proliferados pelo mundo, mesmo o mais calejado ativista apaixonou-se. E com razão. No grande amor da política, vivenciou uma experiência do comum, ao mesmo tempo militante, ética e estética. Mundivivência de novos tempos. Esses que temos fome de viver, mas deixamos para depois por receio ou preguiça. O avião vai embora e ficamos na plataforma, esperando. Isso mudou. Milhares atravessaram a praça, debateram, consentiram e dissentiram, ordenaram e desordenaram. Dançaram como piões frenéticos e se consumiram num brilho azul e intenso, como diria Kerouac.

Não pode haver transformação sem bloco de rua. Orientar o movimento, organizar o carnaval. É muito político. Bem mais que grupelhos a discutir revolta e socialismo em obscuras salas em domingos ensolarados. Ou que opinólogos da revolução, com seus textos patrulheiros, seu rancor de velha esquerda. Ou aparelhos partidários ou carreirismos que nem encher a barriga, enchem. Aos 30 anos, a vesícula não aguenta mais. É fazer ato disso, moção daquilo, ter opinião engajada sobre tudo, demonizar e vociferar, mas nada de construir a alternativa, de afirmar um outro mundo. Assim, o anticapitalismo acaba sendo um slogan para a má consciência da classe média e se resolve em vagas indignações por um mundo melhor. Mais que isso, a rede de ocupações globais confabula um outro mundo, na democracia real, na organização política das relações.

Aí, a OcupaRio passou da fase de seus dias de festa. Escancarada aos fluxos da cidade, inundou-se do conflito, do racismo, das drogas, da incomunicabilidade, da violência difusa e direta. Desde o primeiro dia, a brutalidade é iminente. Mais perigoso que a Guarda ou a PM, tem sido esse conflito epidérmico que tensiona a acampada dia e noite. Cinelândia: lugar de mobilizações históricas, mas também onde chicoteavam os escravos, enforcavam os condenados, onde hoje se esparramam, arredios, os micróbios e nóias e criaturas invisíveis do centro.

Também, o otimismo precisa se desencantar. Embora muitas vezes alegre, a luta culmina sempre inglória. Que não se esperem louros ou gratificações, nem mesmo morais.

Com um mês, tem um elefante na sala que não dá mais para contornar. Findo o encantamento inicial, esse elefante exige a atenção quase total. Chamam de “moradores de rua”. São eles que conferem substância e duração ao movimento Ocupar no mundo todo. Porque suportam a aspereza do concreto e sobrevivem na metrópole. Mas é uma classificação injusta. Porque grupo heterogêneo, são muitas as naturezas e singulares as histórias. Nós precisamos de teoria e ideologia para fazer política, para subjetivar-se como agentes da história. Eles, não. Trazem o choque de ordem na pele, o trauma nas falas e gestos. Já vivenciam politicamente todos os dias nos corpos, nos discursos, nos atos mais prosaicos como beber água ou ir ao banheiro ou dormir. Tudo para eles é geografia política, é narrativa oprimida, é resistência contra e apesar de tudo. Sua poética sem bom tom parece-nos irremediavelmente improdutiva. Nutrimos preconceito num nível profundo. Não são _o_ problema, mas um sintoma da pólis como um todo, muito além da questão da moradia. Ganhamos o foco.

Com eles, a OcupaRio vai sangrar até a morte? Ora, as veias da América do Sul sempre estiveram abertas. Ser derrotado, ser soterrado pela materialidade é menos crítico do que fugir, do que voltar aos apartamentos e salas de aula e corredores do poder. Seria renunciar ao que de revolucionário há na composição de classe. Se a esquerda civilizada e progressista não cessa de tentar proletarizar as pessoas no Povo Brasileiro, neste continente pulsa um povo macunaímico, índio e negro, que do limiar dos séculos recusa ser proletário. A mistura grossa que se fez na Cinelândia não acontece em praticamente nenhum espaço ou organização de esquerda. Ali, sim, estamos os mal representados, mas também aqueles que não são representados de jeito nenhum, senão como objetos para a psiquiatria, a criminologia, a assistência social. Aqueles bárbaros que rejeitam se tornar representações. Na acampada, estamos descoisificando: produz-se subjetividade.

Enquanto isso, os casmurros seguem demandando que tenhamos uma pauta inequívoca. Sua condescendência nas entrelinhas não é suficiente para camuflar o desprezo que sentem pelo novo. E escalam o seu desdém até a hora de passar o veredito. Pretendem domesticar-nos, identificar-nos com o Eu deles, avaliar se é anticapitalista o suficiente, se merecemos o seu ok crianças. Mas quando a novidade é um acinte, a geração está fazendo a coisa certa. O avião foi embora e eles deitaram na plataforma, esperando. Adeus, senhores.

É fato, se está até o pescoço de impasses, questões e limitações, mas o modo como pensar e agir pra enfrentar esses problemas é que define a verdadeira luta e experiência das acampadas. Que o conflito apareça, eis uma grande qualidade, mas maior ainda será desenvolvê-lo de um modo transformador. É ingenuamente anticapitalista quem pensa que são questões secundárias, que é mais premente encenar (ainda) outro ato contra Paes-Cabral-e-Dilma, nesse teatro enfadonho de grandes medalhas. Quando tudo está em jogo precisamente aí, onde a democracia se defronta com a realidade das ruas, diante do abismo ético onde o Eu encontra o absolutamente Outro, — este que não pode ser reduzido ao Eu.

Hoje, trinta dias depois, sabemos pedir menos do que a acampada pode dar: uma tentativa franca de reinvenção, um trabalho de formiguinha. Trinta dias na louca Cinelândia tem sido uma aposta louca e inevitável. E os seus afetos, a sua vivência, os seus gestos mantêm a olhos lúcidos o autêntico valor.

 

Publicado em 12 de novembro de 2011. Comente

[Foto: Rodrigo Torres, no CineOcupaRio]

Na quinta-feira, 10 de novembro, o governo do Rio de Janeiro organizou uma missa civil. Concedeu ponto facultativo, espalhou faixas por toda a cidade, esbanjou publicidade no rádio e televisão, providenciou ônibus, fechou 26 ruas e a praça da Cinelândia. Apesar de custeada pelo dinheiro público, havia uma área VIP para convidados especiais. Seu objetivo: “protestar” para que os royalties do petróleo se mantivessem sob a gestão deles mesmos, os governos do Rio. Mobilizaram a população a favor de si mesmos. Chamar de protesto um evento oficial autolaudatório com a participação da Xuxa só pode ser piada.

Mas se deparou com uma outra praça. A arte a o amor estavam na praça. A Cinelândia não era mais a mesma. A OcupaRio conseguiu organizar o verdadeiro protesto e tumultuou o showmício. Os papagaios artísticos não puderam se apresentar e as autoridades não conseguiram discursar. A acampada da Cinelândia tomou a palavra, quebrou o bom tom e roubou a cena no tumulto da democracia real. No dia seguinte, a previsível desinformação pelos veículos da grande imprensa.

Nada mal para um movimento “apolítico”, “vago” e “alienado”. Os casmurros da velha esquerda queimaram a língua.

Royalties pra quem? Por que não constituir um Fundo Popular para receber os imensos lucros do petróleo? Um Fundo Popular administrado diretamente pelas pessoas, usando mecanismos da internet como o Demoex? O petróleo, afinal, é de todos. Em vez de alimentar a gulosa máquina representativa (eleições, corrupção, megaeventos, indústria cultural, grande imprensa), construir uma gestão democrática, em rede, uma gestão do comum. Para organizar os investimentos e contemplar quem precisa ser contemplado. Investir diretamente em educação, saúde, transporte e renda para todos. É preciso arrancar esse recurso vultoso da mão de parasitas e predadores, que investem mal e dilapidam a riqueza: governos municipais, governo estadual do RJ o setor de investimentos sociais/culturais da Petrobrás (esfera federal).

Muito mais que protestar contra a corrupção, a violência e a injustiça, as ocupações pelo mundo vão à raiz dos problemas e protestam contra a política representativa que produz sistematicamente a corrupção, a desigualdade e a violência. ‎A política representativa que passa pelas eleições, pelos partidos, pelo choque de ordem, pela polícia. Mas também pela grande imprensa e seu jornalismo, que faz de tudo para nos representar através da ficção da opinião pública.

Frente à representação, só resta mesmo lutar por outra forma de organizar a produção e a riqueza, uma outra constituição material das relações sociais, da política e da mídia, como tem feito com alegria e criatividade a rede articulada de ocupações e protestos pelo mundo.

Publicado em 3 de novembro de 2011. Comente

Nascimento de Macunaíma, interpretado por Grande Otelo

 

A acampada da Cinelândia completou 10 dias e continua gerando perplexidade. A grande imprensa, os meios de esquerda, os transeuntes, todos repetem as perguntas: do que se trata? quem participa? o que pretendem? até quando?

Aqui, como nas milhares de ocupações do 15-O pelo mundo, se exasperam ao não obter respostas. E não é porque não existam respostas. É que as questões estão sendo mal formuladas. Se o OcupaRio é um movimento, não é do tipo orgânico, não tem líderes ou bandeiras, nem assume uma pauta fechada e definitiva. Não consiste num movimento no sentido de um grupo reivindicatório, cuja dinâmica culminará num bombardeio de demandas ante o estado e a sociedade. As ocupações pelo mundo coordenam um movimento simplesmente porque colocam em marcha outra forma de fazer política e outra organização das relações sociais de produção. Ajudam a recompor outro sujeito político, à altura de nossa geração.

Daí o slogan anticapitalismo ser pouco e até dê cartaz demais ao capitalismo. As acampadas já são um esboço da alternativa, já são um evento constituinte de outro mundo, além do mercado e do estado.

No fundo, o OcupaRio não precisa se explicar para existir. Precisa, sim, se processar para que se explique na medida que uma nova realidade seja mais discernível. Uma nova política, um novo direito e uma nova mídia se tornem mais visíveis e vivenciáveis, à luz dos novos pensamentos e práticas, que esse tipo de movimento produz por si mesmo. A gramática da esquerda partidária e no governo é incapaz sequer de enxergar a sua potência. Daí continuar demandando, junto com a grande imprensa, por uma resposta inequívoca e sem delongas. Assim, como escreveu Slavoj Zizek, exercem o papel da autoridade masculina, que interroga a mulher histérica para lhe dizer o que, afinal, ela quer. “Você só sabe reclamar!” É o chefe que exige uma resposta objetiva: “Responda em língua que eu entenda, ou cale a boca!” O senso comum opera conservador e moralista. E é fácil se aliar a ele para ridicularizar o diferente, o que inova ante o previsível.

Mas quem são os indignados acampados por um outro mundo?

No centro do Rio, com 10 dias, o movimento vem conseguindo se amalgamar com a experiência das ruas, embora o tema seja polêmico. De qualquer forma, definitivamente, não se resume a (mais) uma manifestação da classe-média branca ilustrada da Zona Sul. Não se compõe simplesmente de estudantes, internautas e acadêmicos. Nem somente de jovens militantes, artistas ou  trabalhadores da cultura. Também isso, mas muito mais.

Com 10 dias, o OcupaRio foi atravessado pelo cotidiano urbano no seu nível mais molecular, no nível do habitar. Agora, a praça ocupada não vive apenas relações superficiais e passageiras. Tornou-se um teatro espontâneo, onde as pessoas são atores e espectadores. Foram montadas tendas fixas para reuniões, música e artesanato, um centro de mídia independente, uma casbá que lembra cada vez mais, guardadas as proporções, a Praça Tahrir. Aos poucos, muitos elementos da metrópole convergem no espaço produtivo e se misturam e se intensificam. As pessoas tomam desordenadamente a palavra e ela se inscreve nos concretos, nos cartazes, nas tendas, no centro das rodas.

Essa desordem vive. Macunaímica. Isso também é a acampada da Cinelândia.

É a moradora de rua que se esparrama no meio das rodas e regurgita a opressão cotidiana, com raiva e irresignação. É o mendicante que quer rasgar os cartazes de 1968. São as brigas de hippies furiosos, esses que viajaram o Brasil inteiro três vezes, com notícias de Altamira, de Jirau, do Jalapão, do Rio Xapuri. São as ameaças, as rixas, os sururus à ponta de faca, momentos essenciais, que põem à prova o desejo de autonomia e produção em comum. São as discussões ríspidas e os desgastes na fila da comida. São os desconhecidos pretos de tão pobres, que se aconchegam em barracas vazias à noite, e conversam, e brincam, e furtam, e arrumam confusão, e simpatizam. É o punk estradeiro que não respeita convenções de assembléia e grita porque veio pra gritar. São os udigrúdis funkeiros do Alto Lapa nas noitadas molhadas. São os secundaristas que matam a aula da tarde e se iniciam na milenar arte, entre lonas clandestinas.

São os guardas municipais, quase todos pretos, mas brancos de cassetete na mão, caras feias e fixação fálica. São os saltimbancos, os palhaços fardados em performance, a milícia dos Anonymous, o comitê dos babalorixás, o alegre argentino que megafone à mão chama “compañeros! compañeros!”, o monge filipino zen-budista, as umbandistas e seus pontos de Iansã. São os pures et dures, esses fanáticos morais do Teatro de Operações, e os anarco-queers, e os roqueiros de preto do Rio Grande do Sul, e os intelectuais de praça e de pirraça, e os deleuzianos psis, e os exércitos de um homem só. São os loucos de toda espécie multiplamente classificáveis por uma psiquiatria repressora, os drogaditos e bêbados que passam e resolvem dar algum recado ou sinceramente espezinhar. É só chegar!

São indignados, inadaptados, enjeitados, rebeldes vermelhos e pretos e coloridos, malucos beleza ou treteiros, hippies e punks e beatniks e hip hops, — loucos o suficiente para ousar saber e ousar mudar o mundo e que, eventualmente, mudam o mundo. São os únicos que mudam. Tão ingênuos quanto, de fato, o mundo realmente muda de tempos em tempos.

E é também a menina de rua, em trapos, suja e semianalfabeta, prostituída, cuja salvação ela encontra na cola, no loló, no crack. Que o capitalismo fracassou salta aos olhos, mas as meninas de rua mostram como esse fracasso se naturalizou, — não escandaliza mais.

O OcupaRio não é bonitinho, não é harmônico, não é um acampamento de verão, não é um desfile de cansados e recalcados. E é bom que não seja. Porque a sociedade não é. Saturado de determinações e qualidades, da potência da cultura das margens, ele vai se construindo como mais um quilombo insubmisso, da insubmissa cidade do Rio de Janeiro. É zona autônoma de confluência das redes e os fluxos sociais antagonistas, da divisão de classe, da segregação racial, onde os preconceitos, apartheids e intolerâncias emergem e oprimem e são problematizados e enfrentados. O Um se faz Dois.

Afinal, o OcupaRio assume a sua estética da fome, a vergonha nacional sem romantizações. Seu caldeirão profundamente diferencial e mutante comunica a verdadeira miséria ao “civilizado” e não como mero dado antropológico para a academia. Convoca à recomposição da esquerda, do sujeito político, do discurso e da práxis.

É preciso resistir e é preciso cantar. Como dizia o baiano Gláuber Rocha em tempos de tropicalismo cangaceiro, eis aqui uma experimentação radical para os novos e os velhos: “um titânico e autodevastador esforço de superar a própria impotência“.

Publicado em 25 de outubro de 2011. Comente

Foto: Rodrigo Torres, do grupo Direito do Comum

 

Depois de três dias intensos de ocupação na Cinelândia, mais uns tantos de articulação prévia, e labirínticos debates online, vale pensar a partir da Acampada do 15-0 no Rio de Janeiro.

Antes de tudo: pra mim, está sendo a coisa mais sensacional do mundo. É um evento constituinte que deflagra novas verdades políticas, novas formas de viver a liberdade e agenciá-las. O salto qualitativo em relação às redes no facebook é estar ao mesmo tempo na praça e na internet.

Hoje à noite, coloquei-me à parte do circuito oficial de assembléias e grupos de trabalho (os GT). É incrível como o tempo das assembléias consome totalmente. Mas hoje, juntei-me a um grupo heterogêneo, que se encontrou para compartilhar experiências e inquietações. Foi uma espécie de pós-GT. Nele, pude presenciar em ação na praça figuras singulares, como o dérmico Patrick Sampaio, e Maurício Rocha, com seu charme deleuziano, entre outros.

Percebo que tenho em comum com outras pessoas certa insatisfação, que está no ar. Certo sentimento de insuficiência ante a forma predominante de organização e produção da acampada. Não falo do endereçamento de questões práticas, mas da questão política, que é tão essencial quanto.

Em primeira formulação, diria que é um desconforto crescente diante da obsessão em construir o consenso. Perante a importância conferida a coletivizar todo o processo. Essa afirmação quase dogmática que é necessário discutir tudo em assembléia, para que todos participem, que assim todos poderão tomar parte na decisão coletiva. Que somente a assembléia delibera em nome do todo. A discordância aqui não está no pode deliberar, mas nessa fixação no todo. É o fetiche do todo, como se o coletivo fosse a oposição ao indivíduo, seu ego, seus interesses privados e potencialmente antissociais. Como se o coletivo não fosse a própria condição de existência do indivíduo.

Essa insatisfação não significa uma dissidência, iniciar uma disputa intestina pelo poder. Não se trata (certamente não agora, tão cedo) de bombardear o quartel-general. Nem de tensionar ou nada disso que os mais apressados correm em tachar. Mas de compor outros modos de cooperar, criar e assim fortalecer o movimento. Esses modos já existem desde o início, minoritários, pouco pensados e debatidos. Está em habitar as margens, em devorar amorosamente a organicidade em construção.

A assembléia jamais se livrará do “quem somos, de onde viemos e pra onde vamos?” Parece presa a essa necessidade de recomeçar a todo momento o modo de se identificar como algo razoavelmente bem definido. Na necessidade de constituir-se. Uma pulsão de identidade. Uma necessidade de pertencimento, de fazer parte de algo maior (o todo), — e destarte se definir refletivamente, como parte do todo. A solução para os dilemas, até agora, se resolve na assembléia dita soberana, alfa e ômega da acampada no Rio. Algumas pessoas sentem que é isso que qualifica o movimento em Wall Street e do 15-M, o assembleísmo. Ontem, por exemplo, saí moído de um dia inteiro em debates e discussões atrás de consensos e pautas mínimas, para depois ser novamente moído em assembléia, para ampliar e passar tais consensos. Isso não tem como ser o esqueleto de uma democracia real, baseada no comum produtivo, mas meramente formal-deliberativa, fundada num método regrado e minucioso de discussão e decisão. Dissocia forma e conteúdo e, nessa manobra mesma, a questão política não pode emergir.

O fato é que não há consenso nem nunca haverá e nada de produtivo pode sair dessa busca. Não existe uma pauta consensual. Existem pontos em comum, mas não um consenso. Tentar formular esse comum por meio das assembléias apenas o exaure em palavras de ordem e slogans, como “anticapitalismo” ou “autogestão”. Essas palavras nada significam sem as lutas reais que as preenchem de sentido e potência de vida. E aí só o dissenso produz. O dissenso no sentido daquilo que nos distancia. Ser generoso com essa distância, amar o distante, cria o que não éramos e que não seremos.

Essa tentativa de responder à fixação de pertencimento — e, de certa forma, à grande imprensa que representa a sociedade na opinião pública, que pauta alguns mesmo que seja como negação — engessa o que o movimento tem de movimento. Fica estático: estatiza-se.  Assim, no futuro, pode começar a enrijecer estruturas de comando, que se mistificam em nome do consenso e do todo.E aí pode acontecer de a acampada fechar-se sobre si, refletir sobre si, como se houvesse um dentro, como se primeiro fosse necessário se definir (o dentro) para então se relacionar com as questões políticas do global e do local (o fora).

E aí acontece de exaltar a segurança do nosso espaço. Nosso cantinho querido. E também a abstrusa proposta, porém bem recebida, de reprimir práticas que a ordem estatal reprime. Justamente porque ela reprime, diga-se o que se quiser sobre estratégia e tática. E pretendem que as pessoas se policiem umas às outras, em nome do coletivo. Mas se pensarmos e agirmos como a polícia, nos tornamos polícia. Ipso facto. E uma onipresente, de vigilância e delação mútuas. Não existe alternativa à ordem que seja mais fascista do que a que propor uma sociedade em que todos somos polícia coletiva uns dos outros, em vez de um mundo em que não precisemos de algo como o policiamento.

Essas limitações ainda são muito incipientes e chega a ser injusto criticar a acampada, de dentro. Mas dá pra identificar tendências e riscos bastante reais. E que, portanto, precisam ser criticadas, precisamente para o movimento movimentar-se ainda mais. Essa crítica não é destrutiva. É propor a algumas pessoas, que estejam já com a inquietação, que deslizem das assembléias e dos GT, para produzir também noutro plano. E evitar ser consumido ao ecoar disciplinadamente falas atrás de consensos. Sim, é uma oficina para os que nunca saíram do condomínio, mas como exercício de democracia é quase nada.

Mas é claro que a acampada é muito mais, que corre em paralelo e mais além disso tudo, que é preciso identificar os agenciamentos e os excessos além das estruturas decisórias e pulsões de identidade, embora muitos dos mais ativos talvez não confiram tanta importância a essa margem. Penso que o caso é aproveitar e aguçar aquele excedente que transborda das dinâmicas, das muitas pessoas se encontrando e vivendo nas brechas e interlúdios da assembléia. Esse excedente, no fundo, é a própria acampada como acontecimento. Logo, é preciso fortalecer essas dinâmicas.

Por isso, o movimento não precisa se constituir. Ele não tem limites, não começou aqui e agora e vai terminar ali e mais tarde. É exatamente o que não se constitui nem tem contornos e, assim, incomoda e agride o poder constituído. Ele não tem um dentro, um o que somos e o que queremos. O movimento já está fora, já nasceu como um fora. Ele é a própria membrana entre dentro e fora. Ele já é constituinte nessa pele de cobra. Ele é rede (de afetos, de informações, de narrativas, de singularidades) em fermentação. Global enquanto repercute os afetos proliferados pelo que está acontecendo no mundo. Local enquanto atravessado pelas lutas reais e movimentos sociais da cidade do Rio de Janeiro, do Brasil, da América Latina. Por isso, ele já acontece, às escâncaras, antissistêmico, repensa por si mesmo as categorias políticas e contesta por si mesmo as políticas públicas, na dupla dimensão global e local. Quando nega isso, porque não há consenso, apenas nega que seja o acontecimento global e local que o dá vida. E assim se mortifica num assembleísmo do consenso.

Até as pedras do calçamento já sentem que se está querendo além da representação e da ordem político-econômica do modo capitalista, — na prosopopéia hiperbólica do Maurício, o militante dândi. Disse bem: o caso agora é como colocar os problemas, numa política sem vergonha de ser política. E isso passa, eu penso, pela própria forma de organizar e produzir , aliás, é isso mesmo o problema mais candente agora. Colocar bem um problema, colocá-lo politicamente, não só vence a dialética irresolúvel entre teoria e prática, bem como as armadilhas da dialética entre estratégia e tática, entre fins e meios. E colocar bem um problema passa pelo dissenso. E desse dissenso, a reconfiguração daquilo que deu a partida às acampadas em primeiro lugar. Portanto, sem dissenso, não se produz nada: será uma terapêutica e eterna discussão sobre o mesmo, o que somos, de onde viemos e pra onde vamos. Perda de tempo vivo, de trabalho vivo.

Repensar continuamente a acampada, também para deconstruí-la, para ir mais além, e sobretudo participar produtivamente, estar lá no excedente, na dimensão simultaneamente global e local da coisa, e focado na colocação de problemas políticos para um outro mundo, uma política nova e um direito novo, — eis aí o grande desafio.

Publicado em 23 de outubro de 2011. Comente

Estou saindo da acampada do 15-0 na Cinelândia e uma jovem jornalista, de um velho jornal carioca, me aborda. Depois de perguntar nome, idade, ocupação, vai direto ao ponto:

— O que vocês propõem, qual é a pauta de reivindicações do movimento?

— Acho que mais importante é perguntar o que o movimento faz, o que ele produz e, mais importante ainda, como ele faz e produz. A forma é diferente.

— Tá, mas, pode dar um exemplo…

— Por exemplo, aqui se está experimentando fazer uma mídia de maneira que não precisemos mais de jornalistas e jornalismo. — respondo sem tom de provocação, mas ela reage com uma atitude de condescendência, que é o pior tipo de arrogância.

— Sei, porque a mídia é golpista e tal, e vocês não, são os revolucionários. O jornalismo vai continuar existindo de um jeito ou de outro.

— Se o jornalismo surgiu há alguns poucos séculos, ele pode acabar também, as coisas mudam. E não entraria no mérito se é golpista, acho que seja mais simples e menos conspiratório: é porque você não é livre enquanto jornalista, a sua reportagem não será livre, esse movimento no fundo também é pra você.

— Claro que não. Por quê?

— Você tem um chefe, uma pauta, uma carreira, uma edição centralizada dos textos, você não escreve o que deseja e sobre o que deseja e, mais importante, como deseja; tem uma linha editorial, tem que respeitar certa forma de escrever, de construir e selecionar os fatos, tem truques e convenções impostos de fora pela profissão do jornalismo, do jornalismo sério. Por isso que a nova mídia tem que ser pós-jornalista e quando o jornalista vem pra nova mídia, ele precisa largar essa identidade e esses macetes. Se a nova mídia reproduz o mesmo jornalismo no formato 2.0, não é nova. — e ela vai anotando, condescendente.

— Então o melhor é deixar tudo para o estado, estatizar?

— Se fosse isso, a gente não estaria aqui acampado, teria procurado os partidos pra disputar o estado. Acho que a mídia não será livre quando toda ela for estado, mas quando todos formos mídia. Todo mundo pode colaborar numa narrativa em comum. A gente tá cansando de ouvir que no mundo socialista não tinha imprensa livre e é verdade. Mas não é muito diferente daqui. Lá na Romênia do Ceausescu o controle era mistificado pelo interesse público e o estado, e aqui ele é mistificado pela livre iniciativa, que qualquer um é livre pra montar uma empresa jornalística ou mudar de emprego, mas no fundo, aqui e na Romênia, é o mesmo jornalismo, ou seja, a falta de liberdade pra falar e de criatividade em comum. Se você for a favor da linha dos seus chefes, está bem, é livre, mas experimenta colocar opiniões verdadeiramente contrárias e que incomodam, ou então a fazer diferente, aí te censuram na certa. Claro que eles vão falar que no texto você perdeu a objetividade dos fatos, que está muito carregado de opiniões e achismos, que está político, ou horror, que está ideológico. Como se o fato e o jeito de montar esse fato que eles querem, e o modo como ensinam e pautam seus jornalistas, como prometem a carreira profissional, já não fosse a ideologia em primeiro lugar. E aí se você tem a opção de aceitar ou mudar pra outro jornal no mesmo formato controlado por outra família de poderosos, então não vai mudar muito. Você está num ciclo vicioso que se chama liberdade de imprensa, mas essa democracia não é real. Por isso quando a Acampada toma a palavra e faz diferente, essa é uma proposta importante. — nessa hora, a jornalista mudou a expressão, talvez tenha se dado conta que não ia me pegar no contrapé tão fácil, então tentou uma última.

—- Então você quer extinguir o jornalismo, isso não é complicado, não é totalitário?

— É tão totalitário quanto o fato que esta entrevista não vai aparecer no seu jornal amanhã.

E não apareceu mesmo.

 

 

 

Publicado em 17 de outubro de 2011. Comente

Primeiro eles ignoram você

depois eles riem de você

depois eles reprimem você

e então você vence.” (Gandhi)

 

Formou-se uma assembléia. Umas duzentas pessoas. No chão, cartazes derramados. As pessoas vinham ao centro e falavam. Qualquer pessoa. Falavam de descontentamento, indignação, impulso de fazer diferente, mudar o mundo, elas brincavam, erravam, dançavam, batucavam, alguns desinibidos, outros sem graça. Ali falaram gente-da-internet, gente-das-artes, gente-da-zona-sul, gente-da-militância, moradores dos morros do Chapéu-Mangueira e Babilônia, ativistas de squats, professores, estudantes, midialivristas, de tudo um pouco, inclassificáveis no conjunto e nas relações desenvolvidas. Havia vários negros, havia pobres que falavam a linguagem assim materialista, que chama as coisas pelo nome, uma outra relação pessoal com os objetos, as mãos, o espaço. As pessoas falavam e as pessoas escutavam, sem muita disciplina. Jamais anarquistas: auto-organizadas.

E assim foi a dinâmica naquela tarde de muito frio e chuva na Cinelândia, último sábado no 15-O carioca. Aclamou-se por acampar na semana seguinte. Foram divididos grupos de trabalho para as questões práticas. Definiu-se o slogan: A casa caiu, levanta o barraco — polissêmico, ressonante à política pública de submissão da cidade e remoção de pobre. O frio piorou, a chuva insuportável. Entre Festival do Rio e tão atraente agenda cultural, quem estava ali realmente queria estar. Esses voltarão. E trarão mais gente.

Sim, era vago. Mas tinha de ser. Quem anseia por um programa, não verá tão cedo. Chegar pautado seria repetir a fórmula de partidos e jornalistas. Primeiro, é caso de produzir o espaço em que se criará. A ocupação se trata disso: lançar um espaço social, uma forma, para que os conteúdos sejam criados, compartilhados e difundidos.

No começo, havia um grupo do PSTU. Uniformizado, bandeiras, slogans do udenismo esquerdista anticorrupção. Grotesco. Ofereceu megafone e se pretendeu conscientizar. Mas algumas pessoas foram lá e pediram pra que saíssem. A forma não estava condizente. Aí o movimento em estado fetal já deu o primeiro recado. As formas da representação não são toleradas. Gente-de-partido pode, mas não venha com fidelidade partidária ou palanque eleitoral, para se apropriar com mídia. Tampouco é caso de partidofobia. O movimento não se pauta por isso e não é pluralista para aceitar tudo. Não há relativismo nem chapa-branca. Quase toda a diversidade de conteúdos bem-vinda, mas dentro de certa forma do emergente ciclo de lutas. Isso ficou ainda mais claro nas falas e debates. Se o desejo é reprogramar o sistema, não pode começar adotando seus próprios algoritmos: a forma-partido, as eleições, a fidelidade aos mandatos, a grande imprensa. Todo o ímpeto das acampadas e mobilizações globais está em inventar a democracia real como resposta à democracia formal.

É ingênuo querer mudar o mundo? Não querer mudá-lo é que me parece criminoso. Quem nada faz para nada e se acha inocente é o mais culpado. As formulações são vagas? Sim, mas há uma convergência no desejo de uma forma diferente de produzir e fazer política. Ocupar o espaço e fazê-lo território produtivo. Estabelecer essa zona autônoma, de onde se poderá recombinar e circular os conteúdos. Porque a forma não é a-histórica e não cessa de se relacionar com o conteúdo. A forma afirma-se no conteúdo e, ao mesmo tempo, afirma o conteúdo. Mais do que dizer algo novo, quer-se uma nova forma de dizê-lo, e assim novos conteúdos se tornarão possíveis. Forma como matriz histórica de geração de sentidos, menos que chave universal de interpretação. Uma que seja capaz de dizer não o que não tem sido dito, mas o que não pode ser dito nem visto, dentro da forma atual. É desarranjar as ciladas e cabrestos da esquerda e reestruturar o campo do visível e do dizível. Uma outra mídia e uma outra prática.

Partidos e mandatários criticam que este ou aquele grupo é corrupto, que são traidores dos pobres, hipócritas e interesseiros, mas não podem reconhecer que eles mesmos, enquanto momentos do jogo político representativo, do processo eleitoral e do toma-lá-dá-cá dos parlamentos e meios de comunicação, eles também estão mergulhados nessa corrupção, hipocrisia e interesse privado, e a reproduzem no ato mesmo em que a combatem. A corrupção não é um conteúdo, acidental e contingente, mas a forma mesma em que funciona a política representativa. Quando não simplesmente golpista e hipócrita, a pauta anticorrupção pretende enxugar gelo, quando perde de vista a dimensão global e sistêmica do problema.

A forma através dos mecanismos existentes neutraliza a crítica e a torna interna ao próprio sistema político, anquilosada. Em nenhuma cidade isso fica mais claro do que no Rio de Janeiro, onde o principal partido de esquerda sucumbiu às políticas autoritárias de controle da pobreza. No mundo, a internalização da esquerda se agravou com a intensificação da crise político-econômica de 2008 em diante. Rendeu-se ao dogma que não há saída para a crise pela democracia senão salvar os bancos, fazer o que os sábios de olhos azuis de Davos mandam e pôr a culpa nos pobres, pretos, muçulmanos e imigrantes, e exigir que todos façam concessões, que se resignem a disciplinadamente tornar-se ainda mais austeros e mais pobres. Daí o beco sem saída em que se encontra a esquerda partidária na Europa e na América do Norte. Está rendida ao receituário das elites econômicas e financeiras.

Na América do Sul, por sua vez, a resposta à crise está em aproveitar a oportunidade, como na década de 1930 fez o governo Vargas (a seu modo). Mais desenvolvimento desigual, mais capitalismo de estado-partido, mais controle social e racial, mais agenciamento entre o empresariado nacional e os fluxos financeiros que evadem a crise no hemisfério norte. É o outro lado do beco: o esgotamento do sentido do público, convertido em mera superestrutura do privado. Democracia de fantoches. Para onde, por engessamento, estão rumando governos sul-americanos de Dilma, Chávez e Evo Morales, cada vez menos fiéis às políticas transformadoras da década passada. Alguns políticos de carreira da esquerda parecem frustrados de não ter conseguido ser executivos de bancos e grandes empresas, então se contentam em ser banqueiros e empresários através do estado (BNDES, Petrobrás…). Por isso, o aspecto conservador das críticas às empresas multinacionais estrangeiras, ao capitalismo financeiro e à globalização predatória. Não é porque a Petrobrás é nacional que seja mais justa, basta perguntar aos bolivianos. Nem que o BNDES seja menos concentrador de riqueza, por ser um banco público. Não seria a mobilização mundial do 15-M, — na esteira dos movimentos antineoliberais do final dos 1990 e dos dias de Ação Global, antiguerra do Iraque, — uma resistência propiciada pela globalização? Movimentos como wikileaks, anonymous, fóruns sociais mundiais, wikipídia, o software livre em geral demonstram que a resistência está além das fronteiras e tem de estar. Índios do Xingu tem mais a compartilhar com os quéchuas ou os sioux, do que com a nobreza neo-escravocrata do Leblon. Demais, criticar o capitalismo financeiro em si esquece que não há processo do capital sem crédito, que isso vem desde a sua formação histórica na Alta Idade Média, quando os monges templários inventaram os bancos, no esforço da guerra racista contra os árabes.

Se a representação é a presença da falta, a tarefa passa por preencher esse vazio. Inundá-lo até que transborde de tanto excesso em relação às formas limitadas e amortecidas da democracia vigente. A acampada, ponto nevrálgico das redes no real, condensa o desejo da geração em realmente viver o seu tempo, isto é, um outro mais além do que está. Em produzir seus sentidos e valores, menos do que seguir a carreira formatada da política normal e do mundo por ela estruturado. Quem aposta na acampada não acredita em fidelizar-se a pautas e programas insuficientemente transformadores na prática. Não se contenta em fazer-se presente nos eventos partidários e aguardar a sua vez na fila de espera por cargos e boquinhas. O problema não é que sejam radicais de menos, mas que a sua radicalidade não vai além do slogan e da palavra-de-ordem, amiúde como modo de autoafirmar uma identidade narcísica. Como em pequenos partidos supostamente mais à esquerda, por exemplo, que estão num beco ainda mais desolado que os governos. O problema é que estão maceteados e presos numa forma de produção, a representação e a lógica eleitoral de publicidade e financiamento (público ou privado, não muda quase nada), que não permite realizar, sequer enxergar os conteúdos que defendem e promovem no mundo real. Não é caso de ser anticapitalista de mais ou de menos, de regurgitar mais ou menos o esquerdismo de almanaque, mas apresentar-se numa outra forma de fazer, diferente, não-mistificada pela política de sempre. Diferente sobretudo.

Por isso, só podem ser cínicos ao questionar, com um sorriso sarcástico, ao movimento 15-M ou 15-O que alternativa tem para oferecer ao capitalismo. Retruco a pergunta aos apparatchiks: o que vocês têm a oferecer como alternativa ao 15-O?

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Sites do movimento:

http://www.democraciarealbrasil.org/

https://www.facebook.com/DRYBrasil (FB)

https://www.facebook.com/event.php?eid=117904894971979 (FB)

http://ocupasalvador.wordpress.com/ (Salvador)

http://15osp.org/ (São Paulo)

Textos recomendados:

Occupy Wall Street as a fight for real democracy (Antonio Negri e Michael Hardt)

As revoltas globais e o panorama brasileiro (Pedro Laureano, no Observatório de levantes)

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No topo, desenho por Andy Warhol, 1973.