Publicado em 12 de fevereiro de 2012. Deixe seu pitaco.

Texto coletivo da rede Universidade Nômade, de que este blogue participa, sobre a farsa encenada no 3º Fórum de Mídias Livres (FML) no Fórum Social Temático 2012, os novos modelos de negócios e suas capturas (Facebook, Google, cultura livre, digitalismo etc), a exploração das redes e a perspectiva do comum. Assume a rede Fora do Eixo como estudo de caso, reconstruindo o debate.

O 3º FÓRUM DE MÍDIAS LIVRES

O 3º Fórum de Mídias Livres (FML), realizado em Porto Alegre no escopo do Fórum Mundial Temático 2012, foi marcado pelo apelo à convergência. Os desafios para a democratização das comunicações no Brasil dependem de uma mobilização abrangente, de amplo espectro articulado em rede, dos grupos, coletivos e veículos que trabalham à margem dos conglomerados das comunicações. A chegada de Ana de Hollanda como ministra da cultura de Dilma, com suas relações íntimas com o ECAD, a dita “classe artística” e a grande indústria fonográfica, acabou por fechar as portas do governo aos novos protagonistas do campo cultural e das mídias livres. Em menos de um ano, o MinC da Holanda tornou-se um reduto de defesa aristocrática da “arte” contra a cultura. Daí os apelos no 3º Fórum quanto ao respeito às diferenças para a expansão de redes contra-hegemônicas ao establishment representado pela indústria cultural nacional e internacional. No “espírito do tempo” dessa convergência, não há lugar para purismos, dogmatismos, academicismos, para qualquer esboço de retorno a formas ultrapassadas de militância, consideradas analógicas ou “1.0″.

A rede Universidade Nômade, inclusive por meio da Revista Global/Brasil, participou dos dois fóruns anteriores, no Rio de Janeiro (2008) e em Vitória (2009). Em ambos, não só debateu horizontalmente, como contribuiu para a formulação de uma frente transversal de construção para as novas mídias livres e/ou redes colaborativas. O que se traduziu, por exemplo, na política dos Pontos de Mídia Livre. Numa perspectiva materialista, de fato, não adianta aferrar-se a elaborações teóricas ou cartilhas utópicas, mas, sim, identificar movimentos e lutas reais que já estão constituindo uma alternativa ao modelo da grande mídia e grande indústria cultural. Desde os primeiros fóruns, consideramos acertado o diagnóstico da importância de colocarem-se tarefas concretas para a coordenação de movimentos sociais, redes militantes e/ou mídias auto-organizadas de cauda longa. No sentido que esses vários agentes (pontos, singularidades) se qualifiquem cada vez mais para, no limite, constituirem-se como uma teia múltipla e politicamente organizada contra o status quo. Noutras palavras, constituirem-se como um comum produtivo, material e antagonista ao capitalismo: seja ele 1.0 ou 2.0, analógico ou digital.

A 3ª edição do FML, no entanto, causou estranheza. Seu calendário, a composição das mesas e suas pautas, foram pré-definidos por um círculo fechado que, quando teve a legitimidade contestada, tentou legitimar-se apelando às atividades de um “comitê executivo”, instituído em 2008, e cujas atividades e deliberações não foram apresentadas aos midialivristas em lista aberta. Em princípio, participaram desse comitê os cabeças de algumas organizações já estabelecidas. Ou seja, a maioria dos midialivristas não participou da construção do 3º FML: um evento pré-formatado e pré-pautado. Essa centralização havia se tornado conhecida pelo vazamento de um e-mail assinado por Pablo Capilé, do circuito Fora do Eixo (FdE). Vide: http://www.4shared.com/office/sgjElRbI/2012_e_as_Redes_em_Rede.html?refurl=d1url 

A mensagem, dirigida a grupos “parceiros”, convoca a formação de redes em rede e contém um calendário e uma pauta completos para 2012. Esse pacote inclui o Fórum de Mídias Livres em Porto Alegre, mas também o Festival Digitália, o Grito Rock, os encontros anuais do próprio FdE e da Casa de Cultura Digital e, finalmente, a decisão já tomada de organizar um Fórum Mundial de Mídia Livre em ocasião da Rio + 20. Entre as redes “parceiras”, citadas porém não consultadas: Pontos de Cultura, Pontos de Mídia Livre e Espaços Hackers. Quando interrogações e vozes dissonantes começavam a se fazer ouvir, o próprio Capilé informou que “não precisamos mais ficar lotando a caixa de emails de ninguém aqui com um debate que será feito a partir de agora em outras listas” Vide: http://www.4shared.com/office/VGSr5KU9/2012_e_as_Redes_em_Rede_-_2.html?refurl=d1url

O 3º FML em Porto Alegre aconteceu num ambiente onde o dissenso foi rapidamente desqualificado, e onde a convergência veio pré-estabelecida de cima a baixo. Uma forma de organização que lembra não só a burocracia estatal, como também aparelhos meramente partidários, em que são camufladas a hierarquização e a fragmentação por meio da mística do consenso. Ao invés de momento para a construção democrática, o FML se tornou o lugar de ratificação burocrática de decisões tomadas antes, alhures e por outrem! O FML tornou-se assim o teatro de mais uma comédia da representação.

Diante disso, vale a pena problematizar o estado do processo de constituição de “mídias livres” e mais em geral o movimento da “cultura” de resistência à restauração no MinC. O que significa o apelo de convergência e ao que, afinal, se pretendem fazer convergir as redes? O que está em jogo nesses consensos cada vez mais impermeáveis e institucionalizados, que são reproduzidos, muitas vezes na sua essência acriticamente, nos fóruns e encontros culturalivristas e midialivristas? O que significa que as redes (no plural) agora devam constituir-se em uma só rede?

AS REDES E OS NOVOS MODELOS DE NEGÓCIOS

De tempos para cá, se tornou costumeira a expressão “gestor de redes” e “redes em rede“. Por gestão de redes se entende a atividade de ligar os pontos e trançar os fios do que passa a ser uma cadeia produtiva. O gestor opera como um agregador dos múltiplos nós produtivos da economia da cultura. Por um lado, gere o fluxo de equipamento e trabalhadores (gestão de eventos, carreiras, plataformas); por outro, o fluxo do dinheiro (editais, patrocínios, investimentos, lucros). Na música, por exemplo, significa articular bandas, casas de show, plataformas, equipes técnicas, promoters, produtores, publicitários, críticos e intelectuais. Essas conexões compõem uma rede que o gestor administra, promovendo o empreendedorismo dos participantes e sob o guarda-chuva de uma marca. A marca, por sua vez, é construída como um modo de engajamento de seus trabalhadores, um jeito característico de trabalhar, vestir-se, negociar, em suma, uma ética e uma estética, uma forma de vida: um coletivo. O objetivo deste concerto passa a ser implementar a marca até se obter um conglomerado de redes, integradas ou “parceiras”. Funciona como um brand management, pelo qual se aplicam e aperfeiçoam processos e técnicas de marketing, determinados pelas oportunidades (e ameaças), com vistas a expandir, controlar e conservar os mercados. O processo vai produzindo sinergia e se constituindo como mercado (cultura) flexível, eficiente, sinergético, horizontal, em suma, livre como na expressão livre mercado . Tudo isso se ensina tranquilamente nas faculdades de economia ou administração da FGV, PUC, da COPPE/AD da UFRJ etc.

A REDE COMO NOVO MODELO DE NEGOCIO

Criado ao redor da música independente (indie), o Fora do Eixo opera mais fortemente na cadeia produtiva da música e se organiza no formato de coletivos de produtores. O FdE, aqui, é fora do eixo produtivo das grandes gravadoras e produtoras, e não somente fora do eixo RJ-SP. Para ser autônomo, é preciso não só fazer música fora do mainstream, mas passar a ter controle sobre os processos de distribuição, divulgação, organização de eventos, parcerias etc. Ele conta com gestores “orgânicos” que se entregam 24 horas para a “causa”, numa moral do trabalho que lembra tanto as vanguardas profissionalizadas de militantes liberados quanto o executivo workaholic das multinacionais. Desde 2005, o FdE se expandiu à margem das redes oligopólicas da indústria fonográfica, de laços amiúde familiares e muito verticalizados. Ele se propõe a desenvolver a cauda longa de produtores e bandas pelo país, sem se subordinar à indústria cultural. Nesse intuito, vem organizando shows, festivais, turnês, encontros, debates e fóruns, fornecendo plataformas e espaço para bandas menores e artistas jovens, iniciantes ou com pequenos públicos. Nos anos Lula, o FdE foi bem-sucedido em angariar sistematicamente verbas de editais do Ministério da Cultura (MinC), bem como patrocínios (que também são públicos) de empresas e bancos.

Assim como outros grupos político-culturais aliados ao MinC de Gilberto Gil e Juca Ferreira, encampou o discurso culturalivrista e digitalista, de contraposição aos atravessadores tradicionais e à supervalorização do artista criador. Trata-se de uma concepção de novos modelos de negócios, adaptados à era digital, às licenças Creative Commons e à riqueza das redes onde a informação não teria rivais.

 Mais recentemente, o FdE começou a se mover para o eixo. Nascido nas regiões centro-oeste e norte, instalou-se com sucesso em São Paulo e Minas Gerais, e agora tenta avançar mais decisivamente para o Rio de Janeiro e Pernambuco. Além disso, começou a buscar parcerias com bandas, por assim dizer, menos alternativas, contratando artistas de maior visibilidade, e também através de conexões mais fortes com o setor público (governos estaduais e prefeituras) e mesmo partidário (por meio do Partido da Cultura, de iniciativa do próprio FdE).

A PRIMEIRA GERAÇÃO DE CRÍTICAS AO NOVO MODELO DE NEGÓCIOS 

 O FdE como rede centralizadora de redes já foi objeto de uma série contundente de críticas. Em geral, essas associam uma análise correta do funcionamento material desse novo modelo de negócios a uma perspectiva teórica e política ambígua, como se o FdE fosse um “desvio” dos princípios da remuneração do “artista” ou até da luta revolucionária. Por corretas que elas possam ser no plano da análise, essas críticas são politicamente insuficientes. Contudo, merecem a atenção dos ativistas.

Dentre as críticas ao FdE, destacam-se: 1) a dependência de verbas estatais, 2) o caráter político do grupo, 3) a exploração dos artistas com o não-pagamento ou minoração dos cachês, e 4) um comportamento predatório dos mercados.

 1) Quanto às verbas estatais, argumenta-se que eles não são sustentáveis como projetos culturais, que o dinheiro público acaba aplicado em iniciativas mais amadoras e de pequeno público. Essa crítica tende a ser reacionária, na medida em que a grande indústria supostamente “profissional” também sobrevive de uma relação preferencial com os governos e, na prática, tende a se beneficiar de montantes bem mais vultosos a título de isenção fiscal, parcerias, facilitações e verbas de publicidade. Todos os artistas medalhões com os quais se identifica a Ministra Buarque de Hollanda recorrem aos subsídios estatais por meio das Leis de renuncia fiscal. Ademais, o Estado tem por função constitucional promover o acesso, a qualificação e a produção da cultura, que é por si mesma um retorno social dos investimentos. O sonho do capitalismo é todos viverem de salário e venda de produtos, duas formas sociais do mesmo fenômeno de mercantilização do trabalho, do mundo da mercadoria. A crise do capitalismo global colocou a nu essas abstrações.

2) Quanto ao componente político, à direita, a crítica tende a se contradizer, pois a indústria cultural e a grande mídia igualmente mantêm uma agenda política, rigorosamente ideológica mesmo ao silenciar a respeito de suas opções e tendências. A diferença do FdE é assumir agressivamente a pauta política, inclusive no jargão de seus membros. Já na vertente à “esquerda”, o FdE  banalizaria as lutas sociais e marchas, esvaziando o seu caráter conflitivo e antagonista. Sua aparência esquerdista não passaria de estratégia de marketing para cooptar o sentimento de revolta e insatisfação da juventude. Porém, diz-se, não ataca o sistema; pelo contrário, é parte dele. Essas avaliações, das quais o coletivo Passa Palavra é emblemático, acabam reduzindo a crítica à denúncia do desvio entre teoria e prática. É preciso avançar a análise sobre a matriz da exploração no contexto do capitalismo cognitivo, assim como a composição de classe que lhe resiste, o que falta nessas análises em comento. Não percebem como a teoria circula e viabiliza certas práticas e vice-versa, como a teoria é pensamento estruturado e organizado para fazer sentido e ser efetivo em determinado contexto de relações. Numa perspectiva materialista, não adianta acusar o FdE de anticapitalista de menos, ou de falsidade ideológica, mas destrinchar a matriz prático-discursiva que possibilite algo como o FdE avançar ao mesmo tempo sobre mercados e espaços tradicionalmente ocupados pelas esquerdas. O que interessa não é demonizar o FdE, como se fossem “traidores”, mas entender como, por quais mecanismos um novo modelo de negócio avança e consegue fazer operações de hegemonia nas redes de movimento. Até o ponto de ser – mundo afora – apresentado academicamente como “rede de ativismo descentralizado”.

3) Outro bloco de críticas circunda o pagamento dos cachês. O FdE aufere verbas públicas e de patrocínio, porém não remunera diretamente a maioria dos artistas que performam em seus shows e festivais. Geralmente paga passagens, alimentação e hospedagem apenas para os músicos (e não à toda a equipe), o que não deixa de consistir numa remuneração indireta, mas não os cachês. Em parte, isto decorre da própria concepção de cultura como cadeia produtiva. Em vez de ser encabeçada pelo artista-criador, como no discurso reacionário do ECAD e do MinC da Dilma, a economia da cultura se faz com a cauda longa de produtores, trabalhadores e serviços agregados. Daí a menor importância conferida aos cachês, em relação à retroalimentação do processo como um todo. Ao atribuir ao artista um papel quase sagrado na produção, deixando de lado o processo social como um todo, essa crítica também é insuficiente, embora legitima na boca de artistas que se recusam a entrar no esquema do Cubo Card: ou seja de receber pagamentos com base em títulos emitidos pelo próprio FdE, algo como uma moeda complementar.

4) Finalmente, quanto à predação, o FdE não esconde a sua estratégia de inserção e dominação dos mercados. Não à toa, num Fórum de Mídias Livres e no Fórum Social em geral, o extremo pragmatismo de seus membros em contornar debates para concentrar-se nas pautas do próprio grupo e suas possíveis convergências (parcerias e negócios). Atualizando o par estratégia/tática, o FdE não cansa de esclarecer que mantém a hegemonia sobre suas composições com grupos estatais ou privados: o MinC, a Petrobrás, o Itaú Cultural, a Coca-Cola etc, pois estaria “hackeando” essas instituições menos do que sendo “hackeado” por elas. Novamente, neste âmbito, o FdE lembra tanto uma vanguarda leninista (na luta expansionista por hegemonia), quanto uma multinacional (na luta expansionista pelo controle dos mercados). Se o linguajar é “pós-pós”, a prática é bem aquela de uma captura de novas redes produtivas dentro de uma só rede, sendo essa estruturada segundo os métodos mais tradicionais do século 20.   A pauta — importantissima — da flexibilização dos direitos autorais acaba sustentando como que uma “vontade geral”. Ora, quando tratada fora de um contexto de luta contra a mercantilização da vida, a flexibilização dos direitos autorais serve mais ao capital do que aos movimentos. Afinal, no novo modelo de negócios que o Facebook ou a Google expressam bem, enquanto muitos trabalham de graça (free, livre) em frente seus computadores, investindo suas vidas na internet, poucos ganham rios de dinheiro no mercado financeiro. O mesmo vale para o mercado fonográfico, e para cultura digital em geral, onde muitos trabalham de graça enquanto os gestores, ou produtores culturais dos grandes festivais e suas polpudas verbas de publicidade, negociam milhões. Esse é o novo modelo de negócios que tenta rearticular o capital no campo dos comuns, para rearranjá-lo no interior mesmo de sua nova crise. Assim, a multidão é liquidada à crowdsourcing, o objeto da exploração do trabalho livre, no sentido de gratuito.

 Mas, aqui também, o que interessa não é “denunciar” os novos modelos de negócios, mas entender como eles funcionam e por onde passam os conflitos que os atravessam.

A PERSPECTIVA DO COMUM

 É urgente ir além dessas “denúncias”. Isso significa recolocar a questão de um ponto de vista crítico e materialista. Em vez de moralizar a questão ou contornar seus principais enovelamentos práticos-discursivos, se faz necessário tomar mais analiticamente a expansão das redes sob o discurso midialivrista e culturalivrista (da qual o FdE é apenas um detalhe). Trata-se de contextualizar essas dinâmicas produtivas sob a alcunha “cultura livre” ou “mídia livre” sobre o pano de fundo do ciclo de lutas e revoluções que se afirmou, claramente, ao longo do ano de 2011.

As lutas, ocupações, marchas e acampadas globais exprimem um desejo de mudança e uma forma de organização que as conferem um caráter antissistêmico. Contudo, a crise global, essa proliferação de acontecimentos e embates, tanto pode resultar numa ruptura com o capitalismo global financeirizado, quanto numa nova reestruturação e captura, uma nova síntese, em suma, em algo como um altercapitalismo (ou capitalismo 2.0). Esse capitalismo já se anuncia como um regime de acumulação que abre mão da retórica e até das instituições democráticas, servindo como exemplo o caso da Itália, onde o sistema financeiro global decidiu compor ele mesmo o gabinete de governo do país, com o primeiro-ministro Mário Monti. Por isso, é preciso assumir a situação de crise na sua dimensão ambivalente, propugnando pelo aprofundamento do ciclo de lutas, ou seja, pela radicalização da crise. Daí a relevância de uma perspectiva da crise que não perca de vista a dimensão antagonista, em vez de convergir convenientemente para uma síntese neutralizada.

Dito isto, uma boa maneira de apreender as alternativas da crise se dá por meio da perspectiva da constituição do comum.

O comum, na esteira do marxismo operaísta, da filosofia da diferença e da antropologia canibal, é uma organização política das relações produtivas e materiais. Não só como modalidade de convivência, cooperação e produção, mas também como base material para a auto-formação e auto-valorização do trabalho, das redes colaborativas, da criação de formas de vida a partir de formas de vida, da constituição antropofágica de perspectivas de mundos além do capitalismo. O comum está além do público-estatal e do privado, como esfera transversal onde cultura, economia e política se amalgamam gerando potências de vida: biopolítica e auto-valorização. Trata-se da ocupação intensiva do espaço e do tempo, sob outra gramática organizacional. Uma organização heterogênea que se constitui não para nivelar as diferenças, mas para produzir a partir delas, gerando novos entes e processos. Sob a perspectiva do comum, se podem abordar e elaborar estratégias para muitos campos políticos: a gestão de recursos naturais e da própria relação entre natureza e cultura; a produção e reprodução da vida social (saúde, educação, políticas da mulher, ações afirmativas); a geração, circulação, distribuição e alocação de energia, renda, conhecimento e direitos.

 Por outro lado, é preciso admitir que a constituição do comum não ocorre com a produção de um espaço homogêneo e consensual, como se superasse a luta de classe numa convergência definitiva. O comum é substância híbrida que não é eclética, mas atravessada por atritos e conflitos, e que troca energia a todo momento entre as divisões sociais e as pautas políticas, entre a materialidade da pobreza e a reapropriação da riqueza social. Ademais, o comum que interessa é necessariamente antagonista. Mas não é antagonista porque se opõe a alguma grande entidade chamada Capital, ao qual devêssemos convergir para efetuar uma luta contra-hegemônica. O discurso da contra-hegemonia não questiona o poder, mas se limita meramente a disputá-lo, numa prisão dialética. O comum antagoniza ao capital enquanto relação social, dentro da qual estamos todos, da mesma maneira que as relações de poder. Por isso, não tem cabimento dissociar fins e meios, o que geralmente está implicado no par estratégia/tática. A relação social do capital não pode ser combatida senão na afirmação de relações outras, além de seus rendimentos como métrica, exploração e subordinação produtivas. O comum, portanto, é menos o fim do caminho que o ponto de partida, é menos a saída da luta do que o próprio terreno onde a luta entre comunismo e capitalismo passa a acontecer. 

Discordando dos saint-simonianos digitais (ou tecnutopistas) e dos ultra-liberais das redes, é preciso admitir que a centralidade do comum não significa que as dinâmicas produtivas que o constituem não sejam objeto de novas investidas do capitalismo, pós-moderno ou cognitivo. Quer dizer, da reconfiguração das relações sociais atravessadas pela divisão de classe e pelo comando capitalista. O domínio do comum também (ou sobretudo) é passível de expropriação.

 Mas como se controla o trabalho em dinâmicas de comuns criativos e colaborativas? Qual é a tal diferença entre o capitalismo “analógico” e “capitalismo digital” (para usar um dos chavões binários dos intelectuais apologéticos do “pós-pós”)?

Com efeito, o que muda é a exploração: o capitalismo 1.0 organizava a cooperação entre as forças produtivas para poder explora-las. O “comum” era assim “produzido” (e imediatamente subsumido) na divisão capitalista do trabalho (na relação salarial) e explorado indiretamente, por meio dessa divisão técnica. O capitalismo 2.0, ao contrário, explora diretamente o comum (a colaboração) que já existe, como condição prévia: o trabalho colaborativo entre as singularidades (os pontos). No capitalismo 1.0, a exploração determina a colaboração. Um paradoxo que emerge na ambiguidade dos temas do “emprego”. No capitalismo 2.0, a colaboração é condição da exploração e por isso pode acontecer por fora da relação de emprego, na precarização da relação salarial, no terreno da empregabilidade (workfare).

A empresa capitalista, neste cenário, não pode mais controlar diretamente a produção. Porque, na economia da cultura e do conhecimento, a dinâmica do valor está concentrada no capital variável. Noutras palavras, não está mais atrelada ao domínio dos meios de produção e das máquinas, nas condições objetivas da produção, mas na própria subjetividade, na capacidade dos sujeitos cooperarem, criarem em conjunto e se reinventarem. A vida como um todo é investida, à medida que a subjetividade atravessa não só o tempo de trabalho propriamente dito, mas as ações mais cotidianas, o dia-a-dia, a linguagem, a ética e a estética dos sujeitos. É por isso que, no capitalismo cognitivo, a produção social ocupa todas as esferas da existência: o lazer, a educação, os esportes, as relações amorosas, a família, o Estado etc. Não admiram as atividades da publicidade, isto é, a cognição sistemática dos valores de uso, conseguir enxergar valor a ser expropriado por toda parte. Desta forma, busca subsumir as potências de vida em produtos vendáveis, em um imaginário ou em estilos de vida que determinada marca representa. A atividade por excelência do capitalismo cognitivo é o brand management, que opera nas condições subjetivas da produção social.

Por um lado, essa administração capitalista das subjetividades extrai uma quantidade imensa de mais-valor a partir do comum, ao passo que camufla a exploração ao contar com a participação direta dos explorados, assim neutralizando e mistificando o antagonismo entre exploradores e explorados. Por outro, a multidão dos expropriados pode organizar-se autonomamente e dispensar o gestor capitalista. Isto significa conferir um caráter afirmativo, radicalmente democrático e antagonista ao comum. Ou o comum é uma prática política, ou não é.

VOLTANDO AO CASO DO FORA DO EIXO

A extração de mais-valor do comum no Circuito FdE não reside, como supõe certa crítica moralista, em algum desvio ou malversação de verbas públicas. Não é que as planilhas não fechem, como se houvesse um rombo escuso. O FdE é bem sucedido (a maioria das vezes) em abrir integralmente as planilhas orçamentárias e prestar contas da aplicação dos recursos. É que, dentro da lógica da teoria do valor, a expropriação do comum não aparece. Pensado isoladamente, caso a caso, o capital investido na produção dos eventos e na gestão das carreiras corresponde à remuneração das partes envolvidas e aos custos operacionais e comerciais. A questão é que, ao assumir o brand management “Fora do Eixo”, sucede uma valorização paralela e cumulativa. A acumulação de valor se dá na integração, na sinergia, na socialização dos múltiplos trabalhos e projetos tomados isoladamente. Daí a formação de um autêntico capital social, de uma intensificação da produção em rede. Essa valorização difusa supera, exponencialmente, a possível extração de lucro dos empreendimentos isolados. 

A riqueza das redes (Y. Benkler) aparece, por conseguinte, não da produção de lucros por edital ou evento, mas por meio da apropriação global do valor cognitivo: exploração do comum! Se o FdE reúne confiança coletiva para emitir débitos contra si mesmo, como promessas de pagamento sob o seu guarda-chuva, como o cubocard, isto se deve, em boa parte, ao lastro conferido pelo capital social (“In FdE We Trust!“). O comum é expropriado e se torna renda: não é por acaso que o próprio Capilé fala de um subprime do FdE! Nessa gestão rentista, quanto mais redes parceiras (“redes em rede“), quanto mais expansível o FdE se afirmar como brand, maior a captura da produtividade difusa: as redes que caem na rede. Nesse sentido, o FdE é o antípoda da política dos Pontos!

Isso aparece, evidentemente, nas polpudas verbas de publicidade, no interesse que grandes marcas e empresas manifestam em relação aos enfim reencontrados representantes da nova juventude, das lutas da geração, do estilo indie, descolado, alternativo etc. Ao não pagar cachês e informar que a planilha fechou, que não sobrou nada, redes como o FdE deixam de divulgar a cadeia produtiva da cultura em sua inteireza, em sua verdadeira cauda longa de circuitos de valorização e apropriação. Num contexto nacional de ascensão de renda e consumo, no interior e nas periferias, o interesse pelos novos mercados consumidores é redobrado. Não soa ilógico, portanto, o FdE propor a participação da Coca-Cola em uma marcha da liberdade em São Paulo, mesmo sem a marca estar diretamente exposta no evento. E é aí, também, que aparece o caráter não-transversal do “movimento”. Não admira, ainda, o caminhar do FdE em direção ao eixo. Trata-se de um ciclo, onde o indie, o alternativo, o independente rapidamente se integram no novo mainstream. Os gestores 2.0 das redes em rede aos poucos mostram a face como os novos capitalistas, afinados com o discurso altercapitalista da sustentabilidade, do cool e da indignação seletiva. São gestores do comum que precisam abafar a qualquer custo o antagonismo e o dissenso, ao mesmo tempo em que mistificam a exploração dos comuns com discursos enviesadamente radicais e antissistêmicos.

E O HOMEM CORDIAL VIROU “PÓS-PÓS”

O debate nas redes passou a ser patrulhado pelo mais último jargão: todo dissenso é rancoroso, desatualizado, analógico. O discurso tem que ser “novo” e “pós” e, nessa medida, será “digital”, plugado, pós-rancor. O homem cordial passou a esconder seu autoritarismo soberbo atrás do pensamento binário do “Pós-Pós”.

 Ao expor o processo interno de centralização dos calendários de eventos, o FdE não faz mais do que revelar novamente a relação do capital (social). Discordâncias e dissensos significam inscrição em “listas de queimados”, expressando o comando subjacente à gestão das redes. Ao pautar o Fórum de Mídias Livres com o discurso da convergência, ele e suas redes parceiras não fazem mais (e não permitem que se debata mais) do que uma reprodução e alastramento do modelo deles, que, do ponto de vista do novo negócio, vem dando certo. Vem dando certo porque se concilia bem com o funcionamento do Estado e do mercado, quiçá de modo mais eficiente e sinergético do que os modelos antigos, oligárquicos e familiares.

A apropriação do comum depende que todos não só participem da contra-hegemonia, mas invistam a subjetividade, que sejam subsumidos como subjetividades. Não basta trabalhar, é preciso se integrar 24 horas por dia à “causa”, e com entusiasmo. O discurso do pós-rancor aí se inscreve funcionalmente. Assim, se alguém dissente, só pode estar numa vibe ruim, rancorosa, e isso não é só ruim para o consenso, mas para a própria subjetividade que depende da cooperação engajada e integral em primeiro lugar. O capitalismo cognitivo prescreve mais uma subjetividade do que tarefas propriamente ditas. Daí é preciso que todos cooperem felizes numa lógica de trabalho grátis (free, livre), ou do contrário não se pode extrair a renda do comum. No fundo, talvez, o capitalismo desde sempre seja gestão de redes com o propósito de obter mais-valor e acumular a riqueza. E desde pelo menos o modelo japonês, que a sociologia do trabalho conhece por toyotismo, subsista a ideia de gestão horizontal de redes, um outro nome para o controle dos trabalhadores. Por isso, às vezes, a resistência por dentro do comum pode se dar com a não-colaboração. Através da não-colaboração, a ética hacker se mostra mais potente, hackeando consensos e comitês. A ética hacker nesse sentido é uma prática sabotadora e radical. A colaboração entre os hackers se dá através da não-colaboração com práticas antidemocráticas, cada ato de desestabilização e/ou destruição feito pelos hackers é também um ato de cooperação, entre singularidades que se mantêm enquanto tais: o fazer-se da multidão!

O BRASIL VIVO COMO POLÍTICA DO COMUM

Nos últimos tempos, tem ficado claro como é indispensável produzir o dissenso por dentro dos fóruns, congregações, discursos e práticas do culturalivrismo, midialivrismo e digitalismo. Da mesma maneira que tem ficado claro que a democracia depende das praças Tahrir, Puerta del Sol, Liberty Park e de Pinheirinho. Para que tudo isso não convirja nalguma matriz para um novo capitalismo e não a sua ruptura. É preciso, imediatamente, romper certos consensos, não só sobre a cultura livre, mas também sobre o código aberto, o software livre, a horizontalidade de redes e os creative commons.

Isso pode acontecer, como propomos, dentro de uma perspectiva antagonista de comum. Sair dos cercamentos (enclosures), com efeito, não significa contornar a apropriação do trabalho, mas somente um tipo dela. Tem acontecido uma verdadeira multiplicação das formas rentistas de valorização do capital, que poucos têm se proposto a analisar, mais preocupados em ver a questão como um problema jurídico ou de sustentabilidade profissional.

Embora o software livre conviva bem com marcas consagradas, ele permanece como importante terreno de lutas, que pode e deve ser articulado com as lutas pelo hardware livre e pela banda larga, onde persiste uma gigantesca extração de renda. As lutas não podem ser resumidas às frentes digitalistas, nem a um retorno nostálgico ao 1.0, de tomada dos meios de produção simplesmente objetivos. De qualquer modo, é fundamental repensar as formas de organização, para contestar o núcleo do modo de produção na apropriação do trabalho social. Só assim se pode manter aberto o horizonte de lutas, contra as sínteses conciliadoras. Confrontado pelo ciclo de lutas, o capitalismo se reinventa, e as teorias precisam se colocar à altura das lutas que estão a um passo a frente.

Não há solução dos quebra-cabeças da gestão e da sustentabilidade, a não ser em lutas e políticas públicas que assumam as dimensões biopolíticas da produção do comum. Está em questão o reconhecimento das dimensões produtivas da vida e da diferença como condição da geração da própria vida. Enfim, não se trata de organizar um show, ou um festival, ou um projeto, mas uma política viva, permanente, da cultura do trabalho, uma política do Brasil vivo. A política dos Pontos de Cultura, aliando dinâmicas de redes e formas transversais com uma base material de renda e liberdade, já é um esboço dessa saída potente à crise, contra todas as tentativas de reestruturação do altercapitalismo ou capitalismo 2.0. A política dos Pontos afirma experiências do comum, tão inovadoras e potentes, ao intensificar a produção desejante e os processos de auto-valorização e autonomia e, assim, abrir todos os mercados e marcas à multidão de diferenças e à proliferação de lutas sociais que é o comunismo mesmo, aqui e agora.

Rede Universidade Nômade, 11/02/2012 (original aqui)

Publicado em 10 de fevereiro de 2012. Deixe seu pitaco.

O motim policial na Bahia chegou ao Rio de Janeiro. Agora, o populismo, o corporativismo rasteiro e um esquerdismo burro, — todos sintonizados no misto de sensacionalismo e golpismo da grande imprensa, — começaram a chantagear a metrópole às vésperas do carnaval.

A PM em greve é só mais um motivo pra repensar a situação anacrônica de se contar com uma polícia militarizada, diferente do que acontece noutros países. A militarização que não só tende a confundir polícia com forças armadas, mas, mais grave, forças armadas com polícia, o que é ruim para ambas as instituições e sobretudo para o cidadão.

A lógica militar estrutura práticas e discursos baseados na afirmação incondicional da soberania, no combate total, de vida e morte, contra um inimigo externo. Em suma, prepara-se na paz para atuar numa situação de guerra, isto é, num segundo momento hipotético, que pode ou não se confirmar. Porém, na América Latina, essa lógica costumou permear a organização política interna, não somente para atuar em situações excepcionais, mas no cotidiano, em qualquer lugar, contra qualquer um enquadrado como inimigo público. O segundo momento, hipotético, se dilui como aqui e agora. Com uma polícia assim organizada, a exceção se torna a regra e todos ficam à mercê desse poder incerto e ambíguo, mas que sabe muito bem diferenciar o branco do negro, o rico do pobre.

As forças armadas latino-americanas levaram décadas para deixar de servir diretamente à repressão social e política da própria população (amiúde sob alto comando em Washington), quando descontente ou “subversiva” ou simplesmente pobre, e mesmo esse processo ainda precisa ser concluído (e uma boa Comissão da Verdade faz parte disso). A segurança pública continuar nesse esquema militar de guerra é mais um resíduo desses tempos abertamente ditatoriais. Mesmo porque, no Brasil, parte da ditadura não morreu, nos porões das delegacias, nas prisões e nos corações de alguns da velha geração, que não hesitariam em apoiar um novo regime de censura, arbítrio, perseguição ideológica e tortura, apesar de todas as mudanças de ventos. E apoiariam com entusiasmo!

Não pode haver na polícia pública o conceito de um inimigo absoluto, de afirmação da soberania. Permitir que se maneje política e midiaticamente esse conceito de inimigo, — seja ele o crime organizado, a cracolândia ou a guerra antidrogas, — não faz mais que promover a exceção permanente, onde a polícia se torna um soberano difuso que, muitas vezes, acaba ela mesma organizando a violência e o crime. As milícias cariocas que o digam, nesse indecidível entre o poder do crime e o crime do poder. A polícia não pode agir como operador da soberania contra o inimigo. Ela lida com o cidadão, transita nas ruas e precisa se colocar no mesmo plano, comunitária, aberta, estreitamente fiscalizada por instâncias locais de governança, imprensa e defesa de direitos.

No estado do Rio de Janeiro, isto não significa apenas desmilitarizar a PM, mas recomeçá-la praticamente do zero, retomando o controle sobre as áreas milicianas (por dentro da própria polícia) e reestruturando-a no treinamento e na doutrina. As Unidades de Polícia Pacificadora (UPP), por exemplo, poderiam ser inteiramente reconfiguradas como Unidades de Políticas do Comum (UPC), conjugando policiamento comunitário com pontos de mídia livre, cultura, saúde, esporte, educação, centros cidadãos de renda e gestão democrática da comunidade. Tornar mais local e próxima e integrada socialmente a administração do território, onde a segurança é só um elemento entre muitos.

Se a reivindicação em curso tivesse sombra dessa pauta mais social e democrática, em vez de tensionar a cidade corporativamente, instigando manchetes de sensação, ela poderia cumprir um papel importante. O que está acontecendo na Bahia e no Rio de Janeiro está longe disso e não merece aprovação.

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Recomendados:

Polícia Militar, o motim e a Bahia, por Hugo Albuquerque, no Descurvo

Notas sobre uma greve imaginária (na Bahia), por Lucas Jerzy, no Último Baile dos Guermantes

Bahia: trágica comédia de erros, por Chico Bicudo, no seu blogue

Publicado em 5 de fevereiro de 2012. Deixe seu pitaco.

 

Há uma percepção generalizada que o sistema financeiro é responsável pela crise da economia global. A culpa estaria no excesso de ganância dos mercados, na especulação em detrimento do desenvolvimento, do risco moral e individualismo por parte dos financistas e banqueiros. Essas leituras da crise de uma forma ou de outra costumam conferir um grau de separação entre a “economia real” e as finanças. Como se a saída da crise estivesse em voltar a valorizar mais a primeira. Por isso, prescrevem maior atenção no desenvolvimento do chamado “setor produtivo”, enquanto o “setor financeiro” exigiria maior regulamentação por parte dos estados. Essas leituras deixam de analisar a fundo o vínculo orgânico entre finanças e produção.

Como funciona esse vínculo?

No mundo hoje, a maior fatia do dinheiro não se compõe do papel-moeda como o conhecemos, mas de dívida. É que o dinheiro também é gerado quando bancos emitem débitos sobre si mesmos, virtualmente do nada. As instituições bancárias possibilitam que o dinheiro exista não só como meio de pagamento atual, mas também como promessa de pagamento. Dessa maneira, o sistema financeiro capitaliza o futuro, o que se dá com a emissão de títulos de crédito que representam essas promessas. Ocorre uma entrada antecipada de liquidez (mais dinheiro), atrelada ao pagamento futuro da parte dos tomadores do crédito.

Por exemplo. O sujeito resolve comprar um apartamento a crédito. Vai ao banco, que, preenchidas certas condições, resolve financiar a totalidade do preço de compra. Em contrapartida, é constituída uma hipoteca ou alienação fiduciária. O sujeito recebe todo o dinheiro agora, mas fica vinculado ao pagamento de prestações periódicas, acrescidas de juros e correção, até conseguir quitar o montante total.

Contrariamente ao senso comum, esse fluxo de investimento não está lastreado em alguma riqueza pré-existente. O banco cria o dinheiro ao emprestá-lo ao financiado. A bem da verdade, cria muito mais dinheiro do que o valor efetivamente emprestado. Porque o título correspondente à hipoteca ou fidúcia se desdobra noutros títulos, os derivativos (ou títulos de crédito derivados), que também circulam. Por exemplo, os derivativos que representam a securitização do crédito inscrito no papel original. Por securitização, se entende a repartição sistemática dos riscos (de o devedor não pagar, ou quitar antes da hora, cortando os juros). Isso geralmente ocorre entre o banco que financiou e outras instituições financeiras, como fundos de pensão, fundos de investimento, dívidas públicas etc, que julgam interessante participar do risco para também colher uma fração dos juros e rendimentos.

Essa multiplicação de produtos financeiros injeta ainda mais liquidez, mais dinheiro, mais base monetária para a economia. No final do ano passado, o mercado global de derivativos totalizou US$ 1.200 trilhões (ou 1,2 quatrilhões de dólares), muito mais que o PIB mundial (US$ 70 trilhões) e 50% mais que o volume existente quando da disparada da crise dos subprimes, em 2007-08 (quase US$ 800 trilhões).

Mas o que isso significa?

Significa que o bom funcionamento da economia global está subordinado ao cumprimento das promessas que originam os títulos. Esses fabulosos fluxos de investimento só podem vingar se, no refluxo, na hora das cobranças, acontecer o esperado pagamento das parcelas prometidas. O verdadeiro lastro sobre o dinheiro não é o ouro, o papel-moeda, o banco central, o PIB atual ou outra medida de riqueza existente, mas a confiança. A confiança integrada no próprio sistema financeiro em ser solvável, em garantir a solidez das dívidas e sua titularização, o ritmo equilibrado entre fluxos e refluxos de crédito e débito. Todo o jogo não está baseado na moralidade ou equivalência das operações financeiras, mas no poder de vincular e controlar o futuro, isto é, de governar a não-equivalência, o surplus.

Voltemos ao exemplo do apartamento financiado. Quando o sujeito se dirige ao banco, precisa comprovar a sua capacidade de sustentar os pagamentos ao longo do tempo. Se ele apresentar as credenciais corretas, o banco concorda em emitir o crédito (o dinheiro). Esse dinheiro está lastreado, portanto, na expectativa do futuro dessa pessoa, bem como na capacidade de essa expectativa ser garantida (pelo judiciário, polícia, pela construção de uma moral). Quanto mais “sob controle” esse futuro estiver, quanto mais confiável, menor o risco do investimento, e o risco sistêmico como um todo. O mercado de futuros e derivativos, portanto, reflete a capacidade de o banco prever, vincular e controlar o comportamento da massa de endividados, a fim de gerar rendimentos (os juros) para os credores. Com o desmonte do estado de bem estar social, a popularização do crédito se torna cada vez mais o caminho preferencial para a pessoa ter acesso à moradia, a transporte (leasing, prestações), à previdência (fundo de pensão), ao consumo (cartão de crédito), ao turismo, à saúde (plano de saúde), à educação (bolsas) etc. A massa de endividados tende cada vez mais a coincidir com a massa de trabalhadores.

Daí que, no fundo, essa confiança sistêmica está baseada na capacidade de extrair uma renda da massa de trabalhadores, por meio dos juros. A confiança em questão consiste no poder de o sistema pôr as pessoas para produzir e trabalhar, e assim permanecerem solváveis, bem como em garantir que elas paguem. Elas precisam trabalhar para gerar um excedente de seus rendimentos para o pagamento periódico dos juros e, futuramente, do principal da dívida. Assim, o lastro do dinheiro-crédito não reside na moralidade ou eficiência do sistema. A confiança, no fundo, reside na capacidade de o governo e o sistema financeiro exigirem e obterem de nós, os devedores, que trabalhemos e produzamos ininterruptamente um fluxo de excedente, um retorno garantido, um mais-valor.

Não se trata de um jogo equilibrado entre oferta e demanda. Há uma assimetria no vaivém de fluxos e refluxos. De um lado, a classe rentista; do outro, a devedora; e entre elas uma permanente transferência de renda. O sistema financeiro sempre fica com um a-mais, na figura dos juros. Menos por ganância do que por uma exigência funcional de lastrear a monetização da economia e acumular riqueza aos investidores, reproduzindo relações sociais desiguais. Correm em paralelo dois processos intrinsecamente conectados: crédito/finanças de um lado, produtividade social do outro, e a forma dessa conexão orgânica é a base da economia real mesma, o capitalismo. Um e outro processo se mobilizam reciprocamente, governando as populações e vinculando os comportamentos ao funcionamento geral do sistema.

Contrariamente ao que pregam alguns economistas, o desequilíbrio atual, a crise não nasceu no fato de um lado ter inflacionado de modo desproporcional ao outro. O desequilíbrio é intrínseco desta forma de organização social e reside no fato que o lado da produtividade social, do trabalho vivo, precisa estar implacavelmente vampirizado e controlado, e que a expansão das rendas e a acumulação das riquezas estarem determinadas essencialmente pelo endividamento e exploração do trabalho das populações. Se a confiança sistêmica se baseia neste processo assimétrico, o pretendido “equilíbrio” só poderia mistificar a relação de força e controle social, essencialmente desigual, que faz funcionar a economia real contemporânea, que é a economia financeirizada.

Dito isto, a moradia é privilegiada para a governança social do capitalismo por dois motivos.

Primeiro, por ser um desejo quase universal e envolver um investimento substantivo a ponto de vincular a família a compromissos sérios de trabalho, produção e estabilidade. Segundo, por facilitar escaladas de sobrevalorização associadas a projetos urbanísticos de revitalização (gentrificação, remoção de pobres) pelo poder constituído. Não admira a expansão do crédito e da base monetária vir acompanhada de um inflacionamento desarrazoado dos preços dos imóveis e aluguéis, a partir de uma ação coordenada entre governos, imobiliárias e bancos de investimento. Tem-se assim um modo eficaz de fechar o circuito capitalista entre rentismo, propriedade e trabalho.

Portanto, a moradia e em maior escala a metrópole se torna um terreno extremamente interessante na perspectiva dos movimentos sociais. Pelo mesmo motivo de sua centralidade como elemento da governança, mas invertido. A retomada do poder sobre a produção (presente e futura), dessa potência líquida que as finanças exprimem, encontra nas lutas da cidade um front estratégico. Foi o que aconteceu nos EUA e na Europa, onde a insurreição foi em boa parte pautada pela questão da moradia, qualificando os movimentos insurgentes,  no 15-M e no Occupy. E é o que pode suceder no Brasil, com tantos projetos de gentrificação e inflação imobiliária em curso. Embora, dentro do contexto mundial, por aqui a financeirização (ainda) não se encontre num estágio crítico de refluxo,  é desejável, desde já, compreender as lutas pela moradia como contrapoder ao controle que as finanças exercem sobre o trabalho da metrópole. Expor e desenvolver o vínculo entre finanças e produção é indispensável para o presente horizonte de lutas.

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Recomendados:

Tudo que há por trás do projeto Nova Luz, por Ermínia Maricato, no Outras Palavras

A crise da economia global, As finanças causaram a crise global? e Planeta Dívida, neste Quadrado

A economia da dívida e o leviatã imobiliário e Cracolândia, drogas, mercado imobiliário e governança da metrópole, por Hugo Albuquerque, no Descurvo

A crise do crédito global, vídeo do youtube

Publicado em 3 de fevereiro de 2012. Deixe seu pitaco.

O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, Gláuber Rocha, 1969

 

Eu conheci o Pedro no primeiro dia da OcupaRio. Foi naquele 22 de outubro ensolarado, a Cinelândia tomada de vida e agitação, uma semana depois da decisão de acampar pra valer. Logo no comecinho das atividades, se formou uma roda de poesia. As pessoas subiam no banco da praça e declamavam, ecoadas pelo megafone humano. Coisa bonita de ver e participar. Teve Manoel de Barros, Pessoa, Hilda, Faustino, Brecht. O Pedro foi lá e recitou não lembro qual poema. Troquei uma ideia. Me disse que era um marxista, que chegara a hora de fazer história. Respondi que também era, naquela brincadeira batida da tendência groucho. Comecei a falar das lutas reais da cidade do Rio de Janeiro e ele me disse que era a primeira mobilização de rua de que participava na vida. Na hora, me pareceu mais um louco entre tantos varridos, loucos por vida que éramos. Adicionei-o às redes sociais, onde ele era o Barão das Macaúbas.

O segundo momento em que o encontrei foi numa assembléia de sábado, à tardinha. Pedro foi ao centro e anunciou que leria um manifesto. Recordo que alguém levantou questão de ordem, imagine se cada um quissese ler o seu, seriam 200 manifestos. Ele insistiu, ganhou a causa. E foi lendo, em tom de manifesto, cinco, dez, vinte minutos. Na roda, conforme o tempo passava, as mãos balançando em sinal de agrado foram diminuindo, substituídas pelos códigos de “mais foco” e “conclua!”. Até que não dava mais e interromperam o Pedro, contrariado. Mas no final ele foi aplaudido. Um companheiro abraçou-o. Depois, em casa, li o texto com calma, gostei de algumas coisas, mas não curti a mensagem universalista por trás do discurso da revolução. Independente disso, achei sensacional a atitude de ler uma peça elaborada com esmero de véspera, em meio àquele assembleísmo sonolento de falas ralas e manobras de “consenso”.

Pedro ficou sumamente injuriado com a recepção do manifesto. Abandonou a ocupação. Mudou o codinome online para Caboclo Menino e passou a criticar a acampada da Cinelândia no grupo do Facebook. Queria mais assembléias, organizadas de outra maneira. Alguns encararam como intransigência de menino mimado, mas outros como personalidade forte, como indignação que recusa transigir.

No mês passado, teve a desocupação do Pinheirinho. As redes sociais inundaram de protestos. Entre tanta comoção, me saltou aos olhos um aviso no mural do Pedro, onde ele informava que estava partindo pra São José dos Campos. Nos dias seguintes, Pedro passaria a relatar a vivência na pele da neurose. Essa neurose institucionalizada que muitos pobres do Brasil conhecem bem, porque costuma se abater sobre eles. Aí o caboclo perdeu a meninice. Estancou num impasse neurótico, numa impotência induzida que é o próprio rendimento do estado policial. A cada mensagem no Facebook, num tom cada vez mais taxativo, Pedro se contorcia com as palavras para tentar exprimir minimamente o que vivera, com a gravidade e a premência com que vivera. Mas não dava conta, e o impasse foi cedendo lugar a um fanatismo moral, em defesa dos desabrigados de Pinheirinho. Pedro falava imbuído da autoridade absoluta, invocando a vergonha e convocando à luta sem tempo para poréns ou senões. Ao ler essas mensagens, eu vislumbrava os seus olhos chamejando de um fogo selvagem, entre o ódio e a paranoia, um fanático pacifista voltando dos fogos e medos da guerra.

Mas eu não condeno esse fanatismo.

Aí veio o anúncio da greve de fome. Por Pinheirinho, Pedro decidiu entrar em greve de fome por uma semana. Na última mensagem, declarou o amor pela comunidade removida pelo governo de São Paulo. E pronto, sem hesitar, fez do seu jeito, ai de quem tentasse dissuadi-lo. Foi pra frente da central de jornalismo da Globo, no Jardim Botânico, e se algemou. Aos poucos, foram chegando simpatizantes, interessados, curiosos da própria emissora, da base de trabalhadores. Alguns eram da OcupaRio, outros nem o conheciam. O protesto ganhou corpo nas redes sociais, reuniu pessoas, um real envolvimento. Descontraído, sem a atmosfera de ascetismo típica de ações de auto-imolação. Afinal de contas, a proposta é uma semana e não mais. Pedro foi entrevistado, produziu-se mídia, dispararam debates, articulações. Frisou não ser herói e não parece mesmo apaixonado pela própria imagem de crucificado.

Eu não julgo o ímpeto e a loucura dos outros, na contingência das lutas.

Causa perplexidade. Ser necessário alguém abrir uma greve de fome para chamar a atenção. Propor-se a sofrer em nome dos outros, para ser ouvido de verdade. Ser necessário prejudicar a própria saúde, voluntariar-se a um risco todavia desnecessário, tudo para dotar-se da aura de virtude, da auréola militante. Como se o ato do sofredor o convertesse num portador da verdade. Como se não bastasse o sofrimento de quem foi expulso de casa à força de bombas e cassetetes e ativismo judicial. Então é preciso sofrer ainda mais; é preciso que um branco, ilustrado, classe média, também sofra, para que os outros levem a sério o sofrimento. Em meio às intermináveis ondas de vaga solidariedade e burocráticas declarações de apoio, não se pode negar que o ato de Pedro se diferencia. Há aí uma potência ambivalente, um delírio glauberiano, entre um salvacionismo ascético e um milenarismo marxista, entre Cristo e Canudos, entre a fé e a revolução.

Nesta altura, circulam muitas opiniões sobre a greve de fome, além dos esperados apoios, alianças e elogios diante da atitude. O debate se descortina e já vi gente cogitando em ampliá-la, em adotá-la por tática recorrente. Uma discussão estratégica. De qualquer modo, fica claro como não dá pra falar em abstrato sobre a greve de fome. Na brecha do tempo de onde escrevo, tudo são vetores, percepções, sutilezas, contingências, narrativas. É possível uma greve de fome por uma semana que reinvente a greve de fome? em vez de ato redentor pela via do martírio, um protesto alegre, paródico, midiático, que potencialize a causa? onde está o fiel da balança: afirmação do sofrimento ou moralização da causa? exibição narcísica ou chamado militante? mortificação das lutas? individualismo disfarçado de abnegação pelo coletivo ou construção do comum?

Quem sou eu para condenar o ímpeto e a loucura dos outros!

A greve de fome de Pedro já é bem-sucedida como mídia tática e mobilização. Que não glorifiquemos o sofrimento, a fome e a morte. O que, num país terceiromundista, não afetaria além de certa classe média que já se sente impotente e culpada diante da miséria e da violência. Essa greve é positiva, sim, porque, sobretudo, até agora evitou misturar-se com a morte, com a pulsão de morte, com o suicídio, ainda que no horizonte, ainda que sugerido. Esse jejum não está na tradição do último recurso, como nos casos de Bobby Sands, das feministas americanas, de Potti Sriramulu, dos presos políticos de Guantánamo, de quem apodrece nas salas 101 pelos escuros da história e não acede outro caminho. Essa greve está mais para a paródia, para o riso do grande coringa que transfigura as derrotas em memória. Mesmo porque a OcupaRio, sim, é vida, é mais vida, e Pinheirinho, sim, Pinheirinho tem que viver. Com a morte não se brinca, porque ela não existe. Que a morte e suas imagens inspirem as forças da direita.

Por tudo isso, até agora, está sendo positivo, a ação ao redor do Caboclo Menino assume um sentido afirmativo em construção, nas ambivalências e perplexidades do concreto, como tem de ser e como acaba sendo de uma forma ou de outra, fora das abstrações teóricas e utopias de cátedra. Que não se perca em si mesma, e prolifere vida.

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Pedro e a Globo: seis dias algemado em greve de fome, Correio do Brasil

Próximo ato público sobre Pinheirinho no Rio, sexta-feira, 03/02, 17:00 no Largo da Carioca

Dez mentiras que cercam o Pinheirinho, post-síntese por Hugo Albuquerque, no Descurvo

Pinheirinho e o futuro das lutas, por Idelber Avelar, na Revista Fórum

Publicado em 30 de janeiro de 2012. Deixe seu pitaco.

Parem a guerra contra os pobres

O movimento veio pra ficar.

Das revoltas árabes, Praça Tahrir e acampadas da Europa, às praças e ruas das Américas, o Occupy pode não ter encontrado a resposta definitiva para os problemas do mundo. Mas abriu um novo horizonte onde esses problemas estão sendo reformulados e enfrentados diretamente. Expôs que as questões estão muito além dos parâmetros e soluções disponíveis, seja no mercado eleitoral dos partidos, nos comentaristas da grande imprensa ou na academia. É preciso reorganizar o discurso e a prática política. Pra isso, é menos tomar o poder do que subvertê-lo, cortando em diagonal pelas dicotomias estado x mercado, estado x sociedade civil, público x privado, coletivo x indivíduo, global x local etc. O jornalismo convencional não consegue sequer enxergar fundo as novas mobilizações, bitolado que está em buscar nos movimentos mais uma manifestação da “sociedade civil”, organizada para reivindicar diante do estado. No entanto, com ações diretas, desobediência civil, cartazes, panfletagem, mídias táticas, networking militante, piquetes, ações hackers, bloqueios, marchas, o Occupy reabriu a política como espaço conflitivo, para radicalização de propostas e antagonismo direto.

No Brasil, várias Ocupas saíram ou foram removidas dos espaços físicos e agora se expandem e disseminam como gases tóxicos. Volatilizaram-se para outros lugares, virtualizaram-se, reorganizando e revitalizando as lutas pela mudança. Sem perder o ímpeto, hoje as Ocupas se relacionam com redes de movimentos sociais e pautas ativistas. Decerto não descartam novas acampadas pelo ano e já fazem parte do cotidiano militante das metrópoles. Nos EUA, Occupy registra 60 ocupações em curso, cada uma com sua agenda de atividades. Ontem, por exemplo,  uma marcha do Occupy Oakland foi reprimida pela polícia, com 200 prisões. Essa agitada cidade da Califórnia, onde surgiram os Black Panthers nos anos 1960, foi cenário dos confrontos mais duros entre os 99% e representantes dos 1%.

Em 2012, é possível ser otimista, mas nem tudo são flores. O caráter multitudinário do Occupy também dá margem a agenciamentos indesejados. A multidão que se auto-organiza não é algo positivo em si mesmo (nem negativo). Depende da construção de sentidos e da prática concreta. Ela é atravessada por muitos vetores, contraditórios, por vezes de apropriação e desmobilização, e não cessa de debater-se com paixões tristes, implosões, paranoias, impasses neuróticos. Que as Ocupas embutem perigos é evidente. Isso em nada as desqualifica, pelo contrário. Sair de casa tem seus riscos e não se muda o mundo diante da novela das oito. Geralmente, esse argumento conservador é professado por quem tem muito a perder. Sim, no Occupy, pode-se falar em perigos. Já na ordem por ele contestada, em perigos que se concretizaram, uma realidade regularmente violenta e injusta. Demais, em certo sentido, é bom que um movimento seja perigoso.

Isto posto, com base nessa experiência irradiada pelo Occupy, gostaria de listar não perigos, mas impotências ameaçadoras que circundam o movimento, que brotam aqui e ali, localizadamente. Estou falando de aspectos negativos e conservadores, que bloqueiam o sentido revolucionário de que a multidão auto-organizada (e só ela) pode investir-se.

1. Fetiche do Sistema. De fato, o Occupy exprime uma luta contra causas sistêmicas em detrimento de pautas isoladas. Mas não pode ser simplesmente contra o Sistema. Isto é, contra o Complexo Industrial-Militar, o Imperialismo, o Monstro do Capital… ou qualquer outro Moloch indialetizável que impeça chamarmos os inimigos pelo próprio nome. O sistema afinal se constitui da matéria viva das relações sociais, que se desenvolvem em vários planos, macro e micro. As lutas antissistêmicas (sempre no plural) só podem vingar com a multiplicação e a articulação de muitas pautas e frentes que, coordenadas com inteligência, porventura ganhem massa crítica para a mudança global. Essa coordenação prescinde de significado-mestre, de uma ideologia que amarre as lutas nalguma dimensão primária: a economia, a cultura, os direitos humanos, o meio-ambiente. Sucede um paralelismo empoderador, um comum produtivo materializado por lutas por renda, voz política, direitos civis, minoritárias, por sabotagens e reapropriações, por vários focos em coexistência e contágio. Em determinadas situações, algumas pessoas acham que a pauta deve ser A ou B ou C, e ficam disputando sobre prioridades sem perceber como, frequentemente, a pauta potente só pode ser A e B e C, um ABC híbrido.

2. Anti-política. Muitas vezes, as manifestações das acampadas e Ocupas se colocam como apartidárias (“não quero saber de partido”) ou suprapartidárias (“toleramos qualquer partido, mas estamos acima disso”). Não se filiar a partido e não fazer militância partidária e atacar a forma-partido e anular o voto, nada disso implica enfiar todas as forças partidárias no mesmo saco. Empobrece a análise de conjuntura. É comum movimentos bastante partidários se apresentarem como apartidários e sem ideologia. No Brasil, a pauta anticorrupção funciona desse jeito da UDN e Carlos Lacerda até o movimento Cansei e a revista Veja. Por mais que a máquina representativa consista num inimigo a desconstruir-se pelas lutas antissistêmicas, é preciso reconhecer que partidos, mandatários e governos podem agir de muitas formas, podem ser reformistas, conservadores ou simplesmente reacionários (basta ver Pinheirinho). Uma boa estratégia não dispensa atravessar esferas mais institucionalizadas, buscando pontos de acoplamento e contatos esporádicos e pode ser transpartidária.

3. Vanguardismo. A composição das acampadas européias, do Occupy norte-americano e das Ocupas brasileiras é parecida. Um contingente heterogêneo de jovens de 20-30 anos, desempregados, precários, proletarizados, alguns militantes mais antigos, anarquistas, comunistas, social-democratas, socialistas, muitos universitários, secundaristas, alguns professores, um punhado de profissionais liberais, curiosos de toda espécie, gente inadaptada, punks, neo-hippies e também, num segundo momento, uma enxurrada de gente em situação de rua, sob condição mental tensa e usuários de drogas ilícitas de rua. Esse conjunto ou parte dele não pode se ver como vanguarda da revolução. Como o front das lutas sociais, superior e mais avançado que outros grupos organizados. A comunalização do espaço e a sua tomada pelos fluxos urbanos exprimem, sim, força transformadora. Porém, ainda assim, não se imagine vá formar comitês revolucionários para dar a linha. Mesmo porque a revolução não é desse jeito: um dois três e já. No Brasil, não se pode perder de vista a perspectiva dos pobres, esses que já constituem outro mundo na precariedade, formulam discursos, culturas e poéticas de resistência, produzem, desejam e sabem como ninguém como chamar os inimigos pelo próprio nome. Sem romantismos, pobreza não é só privação e sofrimento, mas potência.

Na feliz síntese de Hugo Albuquerque, no Descurvo: “A favela é o locus definitivo de resistência daqueles que foram largados para morrer ao relento, é processo de luta, portanto, sua própria existência – e sua re-existência – é positividade pura. O antropofágico Pinheirinho, mais ainda. Derrota é a resignação, é sentar-se e aceitar morrer, nada disso aconteceu.

4. Populismo anti-financeiro. O Occupy disparou em Wall Street. Isto não significa que tome por alvo primário o capitalismo financeiro e não o capitalismo como um todo. Quando alguns discursos separam economia real de especulação financista, parece que estão absolvendo a economia real. Como se não houvesse patrões, exploração do trabalho, precarização das pessoas e danos socioambientais causados pela dita “economia real”. Essa culpabilização da ganância e dos banqueiros rapidamente capturada pelas ondas de resgate de valores, da moral do bom trabalhador, do bom patrão e do bom capitalismo. Tradicionalistas puros como as paisagens de John Ford contra os yuppies e magnatas decadentes de Nova Iorque. Nos EUA, essa vibe conduz ao Tea Party, na releitura da história dos EUA como a progressiva contaminação da mensagem originária dos founding fathers pelos grandes bancos e investidores. Pior, nessa simplificação antifinanceira habita certo antissemitismo, tanto na velha acusação da conspiração judaica (Plano Cohen, Dreyfus, nazismo), quanto na rápida sinonímia entre banqueiros e judeus. Kill the bank vira kill the jew. É preciso criticar a financeirização da vida, mas não como perversão do bom capitalismo liberal, mas como modo de regulação da produção capitalista. O Occupy se propõe a construção de um novo mundo, jamais o regresso nostálgico ao velho.

5. Somos todos Um. O fetiche da comunhão universal, da Gemeinschaft. Significa recusar a divisão social como horizonte da organização e mobilização. Essa divisão de classe tão bem marcada pelo slogan dos 99% contra o 1%. Em vez disso, os unitaristas assumem que o Occupy é uma frente para os 100%, que todos podem se beneficiar e fazer parte. Esse universalismo moraliza as discussões e questões políticas, em nome da humanidade do homem, do bom selvagem maculado pela civilização capitalista. E despotencializa na medida em que impede de enxergar, logo, de combater as divisões, os cercamentos, as ilhas de confortos e as opressões violentas, os mecanismos da representação, enfim, toda a economia política autorreplicante que forja a escassez e organiza a falta, concentrando renda e propriedade. Essa vontade de comunhão não só termina por edulcorar as lutas sociais, como está bem afinada à compreensão de política da classe média liberal, para quem basta a conversa, a disposição ao diálogo e o discernimento para, no tempo certo, se chegar a consenso sobre praticamente tudo.

E está atrelado a certa terapeutização do movimento social. Onde afetos e sentimentos, melodramas, delicadezas e chororôs se sobrepõem à necessidade de enfrentamento e dissenso, — própria de qualquer ação política transformadora. Essa seria uma política afetiva mais adequada para o facebook e a televisão, onde o mundo se passa em família num processo de privatização do público. Certamente não para a contingência áspera das lutas reais, na conjunção paradoxal de entusiasmo e melancolia, ternura e brutalidade, que acompanha a militância.

Outra frente do “somos todos um” se dá com o digitalismo, que é a teoria e prática das redes levada à ideologia. A percepção de que não há dois lados quando se trata da difusão da informação (no rivals!), que o desenvolvimento das redes pode, por si mesmo, resolver os conflitos, problemas e dilemas sociais. A  sociedade estaria evoluindo em direção à democracia internética dos peers to peers. Uma nova humanidade se descortina, conectada e quântica. Nega-se o antagonismo como primado político, bem como quaisquer divisões formuladas em termos de esquerda e direita. Contornam-se as assimetrias e parasitismos por dentro da web 2.0, povoada de consultores e empresários malandros disfarçados de commons criativos. Assim, a democracia se resolve num algoritmo importado do software para as instituições políticas, num antropológico culto ao código. É o bom selvagem dos hypes criativos e das redes horizontais: no politics please, networks only. A comunhão universal reaparece como mais uma utopia tecnológica, como, outrora, pregavam os profetas das ferrovias e eletricidade (século 19) e os do rádio e televisão (século 20).

Portanto, o slogan 99% contra 1% não poderia ser mais oportuno. Destaca como não existe a Sociedade ou a Humanidade, esse bloco moralmente homogêneo que mereceria que todos nós nos juntássemos e, num consenso irrestrito, passássemos a defender para o bem de todos, sem exceção. Como dizia Mao, o Um tem que se fazer Dois, uma injunção fundamental que precisa ser repetida incansavelmente nas dinâmicas no movimento Occupy.

Publicado em 25 de janeiro de 2012. Deixe seu pitaco.

Não vou escrever sobre o massacre, a tragédia, a desumanidade de Pinheirinho. Li inúmeros textos exasperantes, tantas análises desesperançadas, tanta crítica pela via negativa. Lendo alguns comentários, parece que um ou outro inclusive torce para que tenha havido mortos (e não duvido tenha). Fico com a impressão que se aparecessem os cadáveres, essas pessoas iriam comemorar, correndo a seus tuíteres e facebooks. Talvez alguns militantes precisem assistir às coisas sofrerem e morrerem, mas sempre à distância, a uma boa e segura distância, para vicariamente viver a indignação redentora, o gozo às avessas do desastre. O mecanismo depressivo culmina na culpabilização da população como um todo. Por que não se revolta afinal?, não é possível, só pode estar alienada pela grande imprensa, ou seriam mesmo incapazes e insensíveis para reconhecer a guerra contra os pobres.

A indignação pode ser apenas o alfa, o grau zero da política, jamais o ponto de chegada. Não discordo que algumas pessoas, diante do bombardeio, se indignem a ponto de fazer a diferença. Essas compreendem ou sentem na pele que Pinheirinho é uma condição que as atravessa. Somente assim, como condição existencial, consegue mobilizar o desejo. Essa potência que nos arranca dos esquemas cotidianos e nos convoca a ser o que não somos. Coloca-nos numa posição em que temos tudo a perder, menos a liberdade. Esse desejo que instiga a ocupar praças e ruas, a envolver-se em organização política, a deslizar da rotina e reinventar o tempo de vida para a gestação de outro mundo. A arriscar o mundinho em que nos acomodamos. Menos conversão do que elaboração. Por que fazer política? Ora, como não fazer? Agora, imediatamente.

A maioria dos indignados, desconfio, se restringe a retuitar, a reproduzir murais de facebook e exprimir sentimentos vagos de revolta. Até que o tópico da vez mude, quem sabe outro quase-estupro em rede nacional (“aquela trepadinha tipo vagabundérrima”, nas palavras de uma amiga). Solidarizar-se moralmente com as vítimas nunca foi suficiente. Elas sequer desejam o nosso apoio moral, esse disfarçado sentimento de pena. Não passa de outro insulto, que repete a humilhação. As redes sociais também contêm dispositivos para desanuviar a própria culpa. E compartilhar da expiação num grande ritual coletivo de má consciência e auto-enlevo. Pintar o governador de Hitler e a juíza de Eva Braun: bodes expiatórios para a servidão voluntária de cada um. Coletivizar a culpa é isentar os algozes, mas culpar somente os algozes é isentar a todos, em erro simétrico. Hitler foi um dos responsáveis, mas também quem assistia a contingentes desaparecendo dos prédios, vizinhos sumidos do nada, e muito convenientemente se convencia que os policiais só estavam cumprindo a lei, que talvez não fosse a solução justa, mas era a solução do estado e vivemos num estado de direito. Então que se há de fazer, né. A lei se cumpre como princípio da civilização, ponto.

Que isso está muito errado é óbvio. Quem se convence disso afogou-se no próprio cinismo. Desde Eldorado de Carajás, São Bonifácio, Candelária, desde as remoções olímpicas das grandes cidades, desde o choque de ordem contra pobres, camelôs e cracolândias, desde o racismo de sempre. Desde Canudos, Palmares, Haximu, Capacete. Que a grande imprensa trabalha para a manutenção da ordem é óbvio. Qualquer um em Pinheirinho sabe porque foram removidos. Sabe melhor do que os acadêmicos de direito. Basta ouvir os moradores. Porque tem muito dinheiro envolvido, porque os poderosos não podem aceitar vida fora das regras instituídas (a propriedade e o trabalho), porque não pode virar um tão mau exemplo para os pobres do mundo. Lidar com um Pinheirinho já dá tanto trabalho, imaginem mil, dez mil ocupações atrevidas? Não pode.

Pra mim, Pinheirinho não pode ser exemplar como repressão violenta do estado, como se pretende gravar na história. Esse é o mau exemplo, que não deve ficar como exemplo. Pinheirinho é exemplar como re-existência diante dessa ação violenta, que é sistemática e permanente. A favela teve a ousadia de politizar-se, produzir ela mesma os direitos, de fazer frente à repressão, de antagonizar afirmativamente. Comprou a briga. Desabrochou uma cultura de resistência, articulou-se com movimentos e sindicatos. Essa afirmação de discurso insurgente circulava na comunidade, conferindo autoestima. Sem nenhuma ajuda do poder público, a comunidade se autoconstituiu em várias dimensões: como tempo social, cultural, político. Estava se virando na pobreza, apesar de tudo.

Quando tentaram negociar, Pinheirinho inquietou-se: por que deveriam se subordinar a projetos de moradia proletária, se havia terra desocupada e abundante para viverem como gatos, animais sociais que já nascem pobres e livres? Por que aderir a um consenso que deprime, à miséria com que tentam comprar-nos? E respondeu com todas as letras que as autoridades estavam erradas, que as pessoas tinham, sim, o direito de ali produzir o seu mundo. Que tinham o direito e que iriam ficar, porque podiam e era isso. Está desvelado o conflito que existia desde o começo, camuflado. O constituinte contra o constituído. O direito achado na rua contra o ativismo judicial, como daquele desembargador orgânico da operação, debelando in loco remédios jurídicos. O direito do comum contra essa concreção do mando capitalista chamada propriedade, uma máscara atrás da qual sempre há dois lados em posição desigual. A legalidade, sim, pode ser apropriada como arma de resistência, não deve jamais ser descartada em princípio; mas que não nos iludemos: na materialidade, o direito estatal não está imbuído de altos valores humanistas, nem pondera valores com imparcialidade, muito menos embute consensos racionais de justiça ou idéias reguladoras de bem.

Meu ponto é que, nos meios de esquerda, a questão de Pinheirinho está desfocando. Está moralizando, tendendo ao esquerdismo fácil. Falam muito da violência do estado, da truculência, da humilhação, dos direitos humanos etc etc. E, em certa medida, se está correto em falar e é verdade e indigna e não é novidade. Não me entendam mal. Mas não se pode perder a perspectiva. A força e inovação de Pinheirinho é que eles resistiram, eles tensionaram até o final, eles foram os inadaptados, os problemáticos, os pinos redondos em buracos quadrados. Poucos estão falando como Pinheirinho foi uma singularidade não porque foram vítimas, mas porque resistiram e cantaram e ainda carnavalizaram a polícia, — uma ousadia inominável ante a corporação mais fascista do estado federativo mais fascista deste país apinhado de fascistas.

Não podemos perder  o essencial, o significado afirmativo e empoderador. Do contrário estaremos fazendo exatamente o que pretendem que façamos: perpetuar a opressão no plano simbólico e botar medo em quem resiste. Torço para que as fotos dos fogos e medos não vinguem. Que continuem a inspirar ações as fotos de Pinheirinho à moda do incrível exército de Brancaleone.  Do contrário, passaremos adiante a mensagem dos poderosos: frisar a consequência exemplar para outros Pinheirinhos do Brasil. Esses mil Pinheirinhos que, sem medo, na alegria e na ousadia, instituem e sustentam outra forma de viver a liberdade e as relações sociais, reapropriando-se da riqueza de todos. Enfim, só os mil Pinheirinhos do Brasil, tensionados e insurgidos, podem comprovar quem são os fracos da história, e quem são os mortos, e quem viverá.

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Recomendo o melhor artigo sobre o caso, por João Telésforo Medeiros no Brasil & Desenvolvimento: Justiça não é pacificação.

Publicado em 22 de janeiro de 2012. Deixe seu pitaco.

Organize online. Ocupe offline.

 

Embalado pelas revoluções árabes e pelo movimento do 15 de maio (15M) europeu, pelas sucessivas revoltas na Tunísia, Egito, Espanha,  Itália, Islândia, Grécia e Reino Unido, o momento americano da revolução global irrompeu em Zuccotti Park. Em 2 de agosto de 2011, aconteceu a primeira assembléia nessa praça arborizada da Baixa Manhattan. Em 17 de setembro, centenas de pessoas levantaram acampamento na praça. Sintomaticamente, Zuccotti é classificado como “espaço público de propriedade privada”, controlado pelo banco de investimentos Brookfields. A primeira tarefa dos manifestantes do Occupy foi comunalizar o espaço: assumiram uma gestão democrática e passaram a produzir intensivamente (n)ele. Como nas demais ocupações de espaços públicos pelo mundo, a OcupaNY transformou o espaço em comum, além das categorias do público e do privado. A partir daí, instalou-se uma versão beta da política, em constante tentativa, erro e mutação. A partir de Nova Iorque, as ocupações se alastraram para mais de 400 cidades norte-americanas. Na chamada de 15 de outubro (15O), o movimento pipocou no Brasil, Equador, México, Uruguai, Colômbia, Argentina, Costa Rica e Chile.

Quem entrou em 2012 um pouco decepcionado com o ciclo de lutas, deveria fazer um exercício retrospectivo. E voltar para 1º de janeiro de 2011. Quem poderia imaginar, na época, que as ditaduras árabes seriam varridas da história por multidões? que um experimento como a Praça Tahrir fosse factível? que milhões de pessoas tomariam as ruas pela Europa, rompidas com a esquerda partidária? que, nos Estados Unidos, se voltasse da noite para o dia a falar abertamente em revolução e poder constituinte, acontecessem bloqueios de portos, piquetes em prédios empresariais, calotes coletivos de estudantes, e se organizasse a primeira greve geral no país desde 1946? De acordo com o último relato do estado da ocupação, ainda se mantêm 61 acampadas sob o fustigante inverno americano e a agenda ativista para 2012 está lotada.

Se existe uma diferença entre o ciclo OcuparTudo e os protestos anticapitalistas do final dos anos 1990 reside na prioridade da construção de uma alternativa, de já apresentar-se com propostas concretas para o outro mundo possível. Aquele ciclo de lutas se pautou, principalmente, pela agenda do confronto direto, da provocação, da perturbação das instituições globais do capitalismo e da destruição da propriedade privada. O movimento Occupy incorpora a raiva e a revolta das ações globais precedentes, mas as elabora mais afirmativamente, num desejo de coalhar o mundo de Praças Tahrirs, de enlaçar redes de auto-organização e auto-valorização. Militantes das antigas, dos dias de ação global, de Seattle e Gênova, se sentem não somente contemplados, mas entusiasmados com o vigor e a determinação dos novos. Se, antes, éramos reprimidos pela hostilização à propriedade, agora se é reprimido simplesmente por ocupar o espaço público e engendrar práticas autonomistas. A mera existência das acampadas em espaços públicos já afronta os poderes constituídos.

Toda a mobilização mudou a gramática da política americana. Voltaram-se a debater modelos de estado, estrutura social, sistema econômico e divisão de classe. Além disso, instaurou um clima de desobediência civil: ousa-se mais, desafia-se mais. A recente mobilização pelas liberdades das redes e contra o SOPA só pode ser entendida sobre o pano de fundo da agitação política que o Occupy exprime. Sobretudo, colou o slogan 99% contra 1%, que resgata ao imaginário político a divisão de classe. Descarta-se a ilusão de que na sociedade somos todos Um, que alguma harmonia universal dos diferentes pudesse resolver os problemas sociais em nome da humanidade. O Um tem que se fazer Dois. O movimento Occupy forçou a arena pública a reconhecer a profunda assimetria entre ricos e pobres, entre proprietários e precários, entre credores e devedores, um antagonismo cuja solução não se dá com reformas ou melhoramentos pontuais, da parte de governos e partidos. E não se trata, como resposta, de inaugurar sociedades alternativas, à moda dos hippies, onde essas divisões sociais não mais existiriam. Mas, sim, propor alternativas de sociedade no coração da ordem social vigente, com o propósito de abolir as segregações.

Nesse sentido, por mais demandas que sejam formuladas pelas acampadas (e muitas, claramente, o são), elas jamais chegarão à altura do desafio colocado pelo Occupy. Membros do governo e da imprensa cobram a mesmo exigem, por vezes histericamente, as pautas e exigências do movimento, esses não entenderam o ímpeto do Occupy. Ele não tem funcionado como mais uma articulação da sociedade civil, ou seja, como grupo de pressão para reivindicar ante o estado, — que a seu passo poderá atender ou não. Muitas das demandas simplesmente não podem ser atendidas. Por impossibilidade sistêmica. Se pudessem, o próprio movimento perderia o sentido, uma vez que ele se criou exatamente porque há demandas que não podem ser processadas pela máquina representativa, triplamente viciada por governos, partidos e grande imprensa. O dissenso é radical e essas demandas são vitais. E se relacionam com o acesso democratizado a bens comuns e moradia, a modelos alternativos de desenvolvimento e metrópole, a formas de trabalhar e produzir socialmente e a instituições baseadas na auto-organização e na autonomia. O que se pede simplesmente não poderia ser atendido por quem é o obstáculo primeiro das demandas. Que situação mais enervante para os representantes constituídos, afinal, você não pode fazer nada para pará-los quando eles não querem nada de você. Os problemas que o Occupy põe extrapolam as soluções disponíveis no mercado eleitoral. Daí também remeter a um slogan sessentaoitista: seja realista, demande o impossível.

Outro diferencial do movimento está na importância de produzir, no foco na atividade. Sua relevância para o movimento está no que você faz por ele, efetivamente, na aspereza do concreto, no quanto você investe o tempo, a capacidade, o desejo, a paciência e a revolta. Ocupa-se o espaço não para expressar pura e simplesmente, mas para produzir. O quê? formas de organizar, de decidir, de gerar cultura, resistência, redes colaborativas e arte-ativismo, tudo misturado; para aprender o próprio processo de ocupação, para irradiar lutas e mobilizações visando a ocupar outros lugares: escolas, fábricas, hospitais, empresas, universidades, a internet. Nisso, não reproduz a lógica reativa de alguns coletivos esquerdistas, que se limitam a expedir moções de repúdio, reclamar dos governos e resmungar contra-tudo-o-que-está-aí. Nem se restringe ao ideal participativo da classe média liberal. Isto é, achar que fazer política se resolve em participar de redes sociais, debater abertamente os tópicos e contribuir para a formação dos consensos e conversas. O mundo não se muda diretamente com idéias, mas quando elas circulam, são compartilhadas, se transformam e se enredam com as práticas concretas, com a ação direta e a organização militante, quando elas encarnam na praça e nas ruas.

Algumas pessoas deveriam parar de esperar do Occupy uma emoção permanente. O tempo da crise também desabrocha mediante um trabalho laborioso de construção, qualificação, capilarização. Tem seus refluxos, recuos e adaptações. Os fluxos e redes, as práticas e discursos vão se articulando, organizando uma sinergia no que efetivamente rola, um comum produtivo, — e isso não significa que vai ser espetacular como no cinema, os proletários marchando para ocupar triunfalmente o Palácio de Inverno. Mesmo porque não existe mais centro absoluto de poder. Não adiantaria para o Occupy tomar o poder do estado, isso seria muito pouco.  No seu dissenso, é preciso atravessá-lo, reinventá-lo, esgarçar novos horizontes de políticas, mídias e direito.

As utopias que fiquem nas cátedras e obscuros coletivos. No dia a dia das ocupações, não há lugar para a pureza de ideologias e seus programas imaculados, nem para tentativas de unificar os grupos contra alguma entidade sobrehumana de doze cabeças. Tudo se hibridiza e se intensifica nas relações sociais que nos atravessam, e está só começando. 2011 foi só o gostinho.