Publicado em 7 de janeiro de 2011. Deixe seu pitaco.

Crítica: Um condenado à morte que escapou, Robert Bresson, 1956, França, 35mm, pb, 99 min (em DVD pela Lume Filmes – 2010). Publicada originalmente no Amálgama, em 4 de janeiro de 2011.

Se o leitor me pedisse para indicar um único DVD para ser assistido nestas férias, não hesitaria. Um condenado à morte que escapou, obra magna do cineasta francês Robert Bresson, acabou de ser relançado no Brasil pela Lume Filmes, em cópia impecável. O longa de 1956 se baseia na história real de André Devigny, herói da Resistência Francesa, que escapou de várias prisões nazistas durante a Segunda Guerra.
Fontaine (François Leterrier) é encarcerado pelos nazistas na fortaleza de Montluc, julgado e condenado à morte. O filme se inicia com a condução dele ao presídio, ocasião em que tentará a primeira e bastante atabalhoada fuga. Torturado e confinado em solitária, promete aos algozes jamais tentar escapar de novo. O restante da hora e meia será ocupado pelo planejamento industrioso e pela execução precisa da fuga improvável de Fontaine.
Logo no primeiro plano, os letreiros anunciam que “a história será contada tal e qual aconteceu”. Robert Bresson leva a sua obsessão por simplicidade às últimas consequências. Boa parte da narrativa é elíptica, pontuando somente os acontecimentos principais. A dramaturgia reduz o drama e a emoção ao imperceptível. O espaço cênico naturalista restringe-se ao essencial – aos objetos que Fontaine instrumentalizará para o plano de fuga: uma colher, um livro, um lampião, os arames da cama etc. A todo o momento, o som intervém e “limpa” a imagem de elementos visuais. Os personagens não conversam: sussurram poucas palavras, com o máximo de objetividade. Muitos planos de dão em total silêncio e alguns ao som de Mozart.
Existe uma tradição de leitura da obra de Robert Bresson por assim dizer “espiritual”, que abusa de analogias e alegorias metafísicas. Assim, O Processo de Joana D´Arc (1962) embutiria um conteúdo cardecista, enquanto O Dinheiro (1983) é pautado pelo tema da coletivização da culpa – para falar apenas de dois filmes mais recentes do diretor.
Daí também Um condenado à morte que escapou por vezes ser interpretado como metáfora da salvação cristã. O homem sentenciado à danação perscruta dentro de si uma força interior imensurável, isto é, Deus, consegue transpor os muros do mal e se salva. Contribuem à dita leitura o subtítulo bíblico “O vento sopra onde ele quer” (João, 3:8), o estilo austero e meditativo (monástico…) e as declarações do próprio Bresson, segundo o qual a evasão do tenente Fontaine “é guiada por uma mão invisível e implícita”.
Não vejo assim e não posso concordar com as palavras do cineasta.
Um condenado à morte que escapou admite interpretação estritamente materialista, que é mais fecunda do que a espiritual. Fontaine escapou não porque tinha esperança, mas porque a queria concretamente e trabalhou pra isso. Desejava-a com todas as suas forças. O personagem não perscruta dentro de si nenhuma voz divina para consolá-lo e dar-lhe forças. Desde a primeira cena, está possuído pela revolta diante da clausura. Fontaine só consegue pensar na liberdade e mobiliza todo o seu entorno nesse intento aparentemente impossível. À fatalidade imposta pelo fascismo, obstina-se contra o destino. Tentará custe o que custar cruzar a linha do possível e escarnecer da necessidade.
A austeridade implacável do estilo não significa recolhimento à interioridade, mas foco nas coisas mesmas, na sua materialidade. A câmera não cessa de mostrar as mãos do protagonista no trabalho de transformar o mundo, de negar e direcionar os instrumentos da opressão prisional, sintetizando-os para o projeto de fuga. Além disso, Fontaine não se salva sozinho. Leva um companheiro, sem o qual não teria êxito na jornada. E mais: só consegue completar o plano com a contribuição dos demais presos, com os quais aprende nas conversas de pátio. Nessas trocas de experiência, Fontaine sofistica sucessivamente as suas estratégias, ao articular os conhecimentos numa espécie de inteligência coletiva.
É impossível não se lembrar do condenado à morte do romance O Estrangeiro (1943), de Albert Camus – que, aliás, era amigo e interlocutor de Bresson. Ambos os protagonistas, Mersault e Fontaine, são inadaptados. Vivem no absurdo de uma realidade hostil que os culpa e os pretende assassinar, esvaziada de esperança que, por isso mesmo, instaura a liberdade individual. Ambos os personagens dispensam a salvação resignada oferecida pelo padre e não renunciam ao ódio. Mas existe uma grande diferença. Se o aprisionado Mersault se acalma e, feliz, “deixa-se cair sobre a cama”, Fontaine irá desmontar essa mesma cama para construir a sua liberdade com as próprias mãos.

::: Um condenado à morte que escapou, Robert Bresson, 1956, França, p&b, 99 min., 35mm. Lançado em DVD (2010) no Brasil pela Lume Filmes :::

Publicado em 6 de janeiro de 2011. Deixe seu pitaco.

A banda inglesa pós-punk Joy Division (1976-80) debuta no programa So it goes (E assim vai), da TV Granada, de Manchester (Inglaterra), em setembro de 1978. Na época, o grupo ainda não tinha lançado o primeiro álbum Unknown pleasures. O apresentador Tony Wilson, que também era dono de gravadora, ficou tão impressionado com o desempenho que se tornou empresário da banda. Sua introdução entrou pra história do rock: “E assim vai é o programa que anteriormente já trouxe para você as primeiras aparições na TV de muitos grupos, dos Beatles aos Buzzcocks, mantendo vocês informados sobre os sons mais interessantes do Noroeste. O Joy Division é o novo som mais interessante dos últimos seis meses (…)” [um grande mérito em Manchester] Vale a pena também reparar Ian Curtis ensaiando timidamente a sua indefectível dança Mosca Agonizante.



Shadowplay (1979, Summer-Morris-Curtis-Hook, tradução livre do QdL):

To the centre of the city where all roads meet, waiting for you
Ao centro da cidade onde todas as ruas se encontram, esperando você
To the depths of the ocean where all hopes sank, searching for you

Ao profundo do oceano onde todas as esperas afundam, procurando você
I was moving through the silence without motion, waiting for you

No silêncio eu me movia sem me mover, esperando você
In a room without window in the corner, I found truth

No canto de uma sala sem janelas, encontrei a verdade
In the shadowplay, acting out your own death, knowing no more

Nas sombras, pondo a morte pra fora, sabendo mais nada
Seeing the assassins all grouped in four lines, dancing on the floor

Vendo os assassinos todos em quatro linhas, dançando no chão
And with cold steel, odour on their bodies made a move to connect

E com aço frio, o cheiro nos corpos moveu e juntou
But I could only stare in disbelief as the crowds all left

Mas descrente eu só podia contemplar: todos se foram
I did everything, everything I wanted to

Fiz de tudo, tudo que eu quis
I let them use you for their own ends

Eu deixei que usassem você como eles quisessem
To the centre of the city in the night, waiting for you

Ao centro da cidade nessa noite, esperando você
To the centre of the city in the night, waiting for you

Ao centro da cidade nessa noite, esperando você

Publicado em 5 de janeiro de 2011. Deixe seu pitaco.

Roma, 4 de janeiro de 2010, foto do La Repubblica
Todo crime é político. Em maior ou menor grau, a criminalização de uma conduta depende de escolhas políticas. No Brasil, não configura mais crime o adultério. Nem o incesto. No Irã, a mulher que trai o marido pode ser condenada ao apedrejamento. Na Suécia, transar sem camisinha em certos casos pode ser crime. No Vaticano, obviamente, não é assim. Mesmo delitos mais universais, como o assassinato, embutem uma política criminal. Em alguns lugares, o homicídio pune-se com a morte. Noutros, pode ser justificado pela defesa da honra. As condições agravantes e atenuantes divergem. A premeditação, nos EUA, agrava. Já no Brasil, é indiferente. Em todos os casos, direito e política penais se incidem mutuamente, de modo que a distinção entre “preso político” e “preso comum” acaba sendo de grau, e não de natureza. Não existe detento 100% apolítico.

No apagar das luzes do mandato, o presidente Lula se recusou a entregar Cesare Battisti a Silvio Berlusconi, negando o pedido de extradição feito pela Itália. Seguindo os termos do tratado entre os dois países, a decisão de Lula fundamentou-se na nítida conotação política do caso. Em outras palavras, entendeu o presidente que, se Battisti fosse extraditado, receberia do estado italiano um tratamento tendencioso, desproporcional, injusto.

Na decisão, a presidência ratificou o parecer técnico da Advocacia-Geral da União: “situações particulares ao indivíduo [Battisti] podem gerar riscos, a despeito do caráter democrático de ambos os Estados“. Lula também acolheu as opiniões de juristas do quilate de Dalmo Dallari, Bandeira de Mello, José Afonso, Nilo Batista e Paulo Bonavides, que assinaram juntos uma carta aberta. Outro manifesto pró-refúgio, por juristas baseados no Rio Janeiro, já havia sido publicado em outubro de 2009.

Na turbulenta Itália dos anos 1970, Battisti atuou como militante de esquerda. Participava do coletivo Proletários Armados pelo Comunismo (PAC), um dos muitos grupúsculos vermelhos da época, engajado na luta armada. Ao longo dos anos setenta, dezenas de milhares de pessoas foram presas. Houve repressão sistemática dos governos italianos a organizações de esquerda, tachadas de “terroristas”. Houve aplicação de leis de exceção, julgamentos sumários e financiamento de “comandos” paramilitares. Muita gente foi presa ou morta de roldão, sob suspeitas genéricas, tais como “mentor moral” de ações subversivas ou “associação” à militância armada.

Nesse contexto de convulsão social, e tendo como objetivo a derrubada do regime, os PAC se envolveram diretamente em furtos de carros, armas e bancos, propaganda “subversiva” e quatro mortes: um policial, um agente penitenciário e dois partidários da extrema-direita, que haviam matado militantes do outro lado.

Em 1979, o grupo foi desmantelado. Quatro de seus integrantes, mas não Cesare, foram condenados por um dos assassinatos citados. Sem conexão com os homicídios, Battisti foi acusado e condenado a doze anos de prisão pelo delito de associação (“participação em organização subversiva e em ações subversivas”), mas inocentado das mortes. Cumpriu pena numa cadeia para presos políticos não-violentos, entre 1979 e 1981, ano em que conseguiu fugir.
Foi para o México e depois à França. Esta reconheceu seu status de asilado político e ele lá viveu tranqüilamente por 14 anos. A Itália requereu a extradição em 1991, mas o governo francês negou-a, sem maiores traumas. No entanto, uma vez empossado o presidente francês de centro-direita, Jacques Chirac, e dentro já do discurso de “caça aos terroristas” de Berlusconi, em 2003 a Itália solicitou novamente a extradição. O governo francês desta vez resolveu deferi-la, mas Cesare escapou para o Brasil.
Nesse ínterim, em 1982, um dos sentenciados dos PAC por homicídio, Pietro Mutti decidiu”arrepender-se”. Para se dar bem com a delação premiada, jogou a culpa pelos quatro assassinatos nas costas do exilado Battisti. Apesar das versões conflitantes, os demais presos dos PAC confirmaram o alcagüete Mutti contra Cesare. Como dois homicídios tinham sido praticados ao mesmo tempo em lugares diferentes, explicaram que ele teria sido o “autor intelectual” de um e material do outro. Ou seja, na narrativa dos dedos-duros, de imberbe novato de 20 anos, Cesare se tornara o cérebro comandante da organização.
Como conseqüência, o processo do refugiado foi reaberto, agora como único acusado. Ausente, sem advogado constituído por ele, sem defesa minimanente eficaz, surgiu o bode expiatório. Num julgamento transformado em espetáculo, Cesare Battisti foi condenado à prisão perpétua, como único autor de todos os assassinatos políticos dos PAC.
Em 2007, Cesare Battisti foi preso no Brasil, com apoio logístico do ministro do interior francês Nicolas Sarkozy. Naquele ano, o político faria amplo uso eleitoral do fato e terminaria eleito presidente. Reconhecendo a perseguição motivada politicamente, o ministro da justiça Tarso Genro lhe concede o status de refugiado político em janeiro de 2009. Seguia o mesmo raciocínio aplicado a outros militantes italianos do período, refugiados no Brasil.

Entretanto, o Supremo Tribunal Federal, em duvidosa interpretação jurídica, cassou a decisão do MJ. E, em apertada votação, declarou que Battisti é passível de extradição, reservando a competência pela decisão ao chefe de estado brasileiro. Por sua vez, Lula, provavelmente não querendo abrir a guarda para a grande imprensa em ano eleitoral, decidiu somente no último dia do mandato.

A bem da verdade, o presidente Lula teve o singelo mérito de não contornar o óbvio. O caso de Cesare Battisti é político. Acintosamente. Não há como considerá-lo “criminoso comum“. De todos os ângulos imagináveis.

Não é questão simplesmente de ser pró-Battisti. Em situação análoga à prisão (política!) de Julian Assange do Wikileaks, o caso não é ser pró-Battisti, mas anti-anti-Battisti.

A quem interessa a extradição?

Em primeiro lugar, ao primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi. Quem acha a grande imprensa daqui a mais conservadora, oligopólica e racista, não conhece a italiana. Dono de boa parte dos jornais, rádios e TV da Itália, Berlusca encabeça um governo corrupto e às raias do fascismo. O intelectual italiano Antônio Negri compara-o à pusilânime República de Saló (1943-45), — assunto de famoso filme de Pier Paolo Pasolini. Pródigo em discriminar imigrantes e baixar o porrete em descontentes, a permanência do premiê no poder centelhou a seqüência de protestos do “dezembro quente”.
Decidida a não-extradição em 31 de dezembro, Berlusconi inaugurou uma campanha jactante, atacando o governo brasileiro e a pessoa do presidente. Afinal, intimidar sempre foi a especialidade do fascismo. Com ainda mais motivo tratando-se de países terceiromundistas. Mas suas estridências somente comprovam o caráter político da perseguição a Battisti. Tornou-se um cavalo de batalha do governo italiano porque era militante de esquerda, e não por supostamente ter cometido crimes.
Cito o Blog do Miro:
Um caso emblemático envolve Delfo Zorzi, 62 anos, ex-líder da seita neofascista Ordine Nuovo, que promoveu, nos anos 60 e 70, inúmeros atentados à bomba. Zorzi foi condenado em primeiro grau, e depois absolvido, pelo atentado da Piazza Fontana, em Milão, em 1969, que resultou em 17 mortos e 84 feridos. Atualmente, está sendo processado pelo atentado em Brescia, em 1974, contra uma manifestação sindical antifascista, que causou oito mortes e mais de 90 feridos. Zorzi vive há anos no Japão, onde se naturalizou e tornou-se um rico empresário do setor têxtil. O pedido de extradição feito ao Japão jamais foi atendido, nem o governo italiano fez muito para isso. Vários ex-integrantes do Ordine Nuovo são hoje militantes da AN (partido herdeiro do neofascista do Movimento Sociale Italiano – MSI) e da ‘Lega Nord’, um partido xenófobo. NA e Lega são aliados de Berlusconi e integram seu governo.”
Vale também recordar o caso de Nicola Calipari. Agente do serviço secreto italiano, morreu em 2005, em serviço no Iraque. Confundido com um carro-bomba pelas tropas dos Estados Unidos, seu veículo recebeu mais de 400 tiros numa barreira. Em vez de determinar uma investigação com a seriedade pertinente, Berlusconi propôs ao embaixador americano “ultrapassarmos rapidamente o incidente” [meu grifo], como demonstrou informação vazada pelo Wikileaks.
A grande imprensa brasileira é a outra interessada na remessa de Battisti a Berlusconi. Não à toa, apressou-se em colar em Cesare a pecha de “terrorista”. Contraditoriamente, chama-o também de “criminoso comum”. Deu como inquestionável a condenação do militante no processo viciado da justiça italiana. Fechou os olhos para a violação de garantias fundamentais e do devido processo legal substantivo, no julgamento espetacular de Cesare. Tapou o sol com a peneira, ao não explicar a situação histórica da Itália dos anos 1970, quando vigia praticamente uma guerra civil. Não deu espaço equivalente para os fortes argumentos da defesa de Battisti.
Tentou, com todos os artifícios de seu péssimo jornalismo, desgastar o governo Lula. Com diuturnos editoriais e notícias enviesadas, concitou os seus próceres no STF (sobremaneira o ministro Gilmar Mendes) a desautorizar o ministro da justiça e o presidente. Manobrou eleitoralmente para associar o ex-guerrilheiro Cesare à ex-guerrilheira Dilma, como “criminosos comuns”. Só noticiou os protestos de simpatizantes de Berlusconi em Piazza Navona, mas não as manifestações européias de apoio a Lula.

Em suma, como é praxe: essa grande imprensa, — sobretudo as Organizações Globo e a Folha de São Paulo (esta chegou a forjar vítimas inexistentes), — procurou fazer do quadrado redondo, em mais um desserviço à democracia brasileira.

O fato é que, hoje, a década de 1970 está no núcleo das lutas pela memória brasileira e italiana.

De um lado, o governo de Berlusconi busca reforçar a mitologia nacionalista que o sustenta, ao redor da bandeira antiterrorista. Outra farsa: a imolação de Battisti reafirmaria o triunfo do consenso autoritário que vem desde os anos setenta, entre uma direita fascistóide e a esquerda velha.
Por outro lado, a grande imprensa brasileira se assusta diante dos fantasmas, que, quarenta anos depois, insistem em levantar-se de tumbas anônimas. Simbolicamente, condenar Battisti significa mais uma vez inocentar a participação dessa mídia na ditadura brasileira. É ela, sub-repticiamente, que está começando a ser julgada. Daí a virulência de noticiários e colunas opinativas. Lançar a cortina de fumaça sobre o caso Battisti é também camuflar a si mesmo, extraditando a verdade em algum futuro distante.

Curta-metragem sobre o processo viciado que condenou Cesare Battisti
Publicado em 4 de janeiro de 2011. Deixe seu pitaco.

“Fato notório de que em todo o Estado do Rio de Janeiro, e talvez em todo o Brasil, CDs e DVDs são vendidos em grandes quantidades, por ambulantes, e por preços módicos; sobretudo, devido ao alto custo para a grande maioria da população.”
Foi assim que o desembargador Luiz Felipe Haddad começou a fundamentar seu relatório pela absolvição do operador de lavajato André Simões. Acusado criminalmente de violação do direito autoral, o réu havia sido absolvido em primeira instância, mas a promotoria apelou ao Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ). Segundo a legislação brasileira, uma das mais draconianas e irracionais do mundo, a conduta, quando tem “intuito direto ou indireto de lucro”, é punida com reclusão (prisão em regime fechado) de dois a quatro anos.
O relatório recebeu maioria de votos dos desembargadores e o acusado foi absolvido. Todo o acórdão judicial merece a leitura e pode ser invocado por advogados, defensores e militantes em sua luta pela cópia livre. Em síntese, o tribunal acolheu o argumento da defensora pública: “a compra de mídia pirata se revela como fato socialmente aceitável”. Em direito penal, a aceitação social afasta a culpabilidade da conduta e, ainda que o fato seja tipificado, conduz à sentença absolutória.
A decisão resulta dos ventos da mudança. A justiça brasileira, em especial a criminal, sempre foi um dos bastiões do conservadorismo. Se chegou ao ponto de absolver um camelô que vendia produtos “genéricos”, exprime o grau de esfacelamento do discurso oficial sobre os direitos autorais. O relator, o des. Haddad, escreveu:
“Fato também notório de que pessoas, mesmo de condição social média, média para elevada, e elevada, através da internet, obtêm cópias de filmes e de obras musicais, relegando ao oblívio os ditos direitos de autor.”
No atual estágio da luta, o que está em jogo nem é a propriedade intelectual, mas o direito à cópía. São coisas diferentes. Propriedade intelectual consiste, essencialmente, no reconhecimento da autoria, na vedação do plágio. Direito à cópia, por outro lado, reside na liberdade de o cidadão fazer uso do conhecimento de outrem, desde que credite os autores. Com a lei atual, quem detém a propriedade intelectual monopoliza a exploração, direta ou indireta, do conteúdo. Ou seja, não basta citar a fonte. Se alguém quiser usar uma música num filme, terá de pagar. Se desejar tocá-la em sua boate, terá de pagar. Se pretender mixar as músicas, paga.
Ao contrário do que as gravadoras defendem, esse monopólio não tem como principal beneficiário o artista, mas elas mesmas. A grande maioria dos autores não vê a cor do dinheiro. Desde o início, o autor cedeu os “direitos” às empresas. Só tem real interesse no monopólio a ínfima parcela de artistas celebridades (Paulo Coelho, Chico Buarque etc). Precisamente, quem já tem ganhos mais do que suficientes com shows, publicidade, aparições televisivas.
Estimativa da % na distribuição dos $$$ na venda de um CD
É preciso reconhecer que, na nova economia, a cultura impregna a cadeia produtiva. O valor imaterial (signos, marcas, publicidade) dos produtos supera, em muito, os custos da fabricação material. Daí todos com um computador e internet poderem veicular conteúdos,  exercer plenamente a cidadania e gerar valor. Vive-se uma sociedade do conhecimento, da informação, pós-industrial, um “comunismo das redes“. Nesse contexto, a força da produção está na troca de idéias, no trançamento de redes, na colaboração de produtores-artistas.
Uma produção difusa que gravadoras e editoras tentam barrar, com os monópolios e a criminalização da cópia. Para isso, as gravadoras se fazem representar por uma espécie de sindicato policialesco dos direitos autorais, o Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (ECAD). O nome diz tudo. Sua missão é cobrar “quem deve” e acusar “quem não paga”.
Por isso que a agenda da cópia livre é revolucionária. Visa a libertar o trabalho cognitivo da captura dos circuitos de acumulação. Hoje, a cópia tem custo praticamente zero. A produção de cultura se torna acessível a cada vez mais pessoas. Processo acelerado graças a programas como o pontos de cultura, pontos de mídia, o software livre, a malha da cultura digital e o acesso universal à internet. Mais do que nunca, conhecimento e valor imaterial produzidos dimanam das redes colaborativas (Wikileaks que o diga), imanentes ao tecido social, e não mais da genialidade de uma só pessoa. A singularidade do artista está em recombinar conteúdos, e daí se potencializar quanto mais bens culturais tiver acesso e puder trabalhar em cima.
E como fica sua renda? ora, excetuando o 0,1% de celebridades, o seu principal rendimento nunca foram os direitos autorais, mas a constituição de públicos. O artista investe na relação com um grupo, e depois tenta fidelizá-lo. Precisa urdir redes de distribuição e acesso, ao mesmo tempo que tenta capturar a atenção (volúvel) das pessoas. A quebra dos monopólios e a remoção da jogada dos atravessadores (cut the middle man!) significam a potencialização do artista e produtor cultural, bem como a aceleração da produção global das redes colaborativas, com ganho para a sociedade como um todo. Não só concedendo autonomia sobre o trabalho do cidadão-produtor, mas lhe conectando diretamente aos públicos e ao processo de sua constituição.
Então, o que fazer? 
A frente da luta se depara com diversas reações conservadoras no campo da política “dura”. A mais premente consiste em barrar a modernização da lei dos direitos autorais, que tramita no Congresso. A nova ministra da cultura, Ana de Hollanda, antes de assumir, chegou a dar declarações nesse sentido, além de demonstrar simpatia pelo (aberrante) ECAD. Se levar a cabo as intenções reacionárias, adotará postura imperial a desafiar todo um processo de mobilização da cultura brasileira. Vai se colocar na contramão das conquistas do governo Lula e do elã transformador do ex-ministro Gilberto Gil. Como resposta, recebeu das redes culturais uma Carta Aberta exigindo a manutenção das políticas democráticas. Outra ameaça imediata é o projeto do senador Eduardo Azeredo de controlar e criminalizar o usuário da internet. Batizado AI-5 digital, na prática significará cadeia para quem, por exemplo, baixar MP3 ou disponibilizar filmes para download via torrent.

Publicado em 3 de janeiro de 2011. Deixe seu pitaco.

A generosidade se impõe a todos aqueles que sentem o breve amor desta terra. O generoso admite para si que as coisas acabam e, por isso, é preciso calcular menos e distribuir mais. Entregar ao presente, devorar e deixar-se devorar. Não se pode chamá-lo inconseqüente ou pródigo. Pois não se aliena, com vulgaridade, no instante. Na verdade, assume uma firme e constante resolução de dizer sim. Dedica-se à simpatia, à dignidade, ao mar, à pátria da sensualidade e da estima.
O homem do cálculo, que tudo quer ter, corre o risco de terminar de olhos vazados, e só no fim entender a urgência crispada da vida. Tardou a matar a charada do amor. Entrevou-se na solidão adornada de ouro e mitra. Constituiu-se e não fecundou.
Mas o verdadeiro solitário não carece de nada, e se expande na esfaimada generosidade com que busca o outro. Menos para do outro se locupletar, atrás de plenitude e espelho, do que nele derramar a solidão. Sim, verter-lhe a chuva de fel, lágrimas e beijos, que não mais pode ser contida. O outro se faz outros, múltiplos e divisíveis. Fala sim ao outro não importa o porquê. Sim, escancara-se. Estende a sua simpatia e ama o distante como a si mesmo ele não ama.
O generoso não precisa entender. O entendimento induz a conquista e a posse, e então o desinteresse. Aracnídeo, tece malhas cada vez mais cerradas. Aperta o outro em seu domínio, para sugá-lo, tê-lo como seu, tão seu e só seu. O generoso aceita. Aceita o outro livre, jamais o possuindo, além do mel e do gemido humano. Só dessa forma pode agasalhá-lo, na falta de essência, na desmedida, em seu ser sempre outro diante de mim. Os outros passeiam monstros e não indivíduos. A generosidade consiste em não querer ser como o outro, muito menos que o outro seja como eu. Consiste em deixar ser, justamente, ele-e-eu, um entreato, um enxerto, uma criação híbrida.
A aceitação rasga a verdade única em mil fragmentos. Não cansa de permutar as possibilidades e contornar as contradições, como Lucky e Pozzo. Não esperam Godot: deliram mundos na sua ausência. Cada um dos fragmentos vive por si mesmo como pessoa. Múltiplas narrativas de aventura e tédio, de paixão e angústia, irredutíveis à verdade impingida pelo egoísta. Este pretende tudo codificar ao entendimento, porém lhe escapa o essencial: o outro. Quem sabe aceitar, na lucidez e crueldade implicadas, se poupa de decepcionar, enciumar, mentir, iludir. Reconhece o caráter passageiro de tudo. E, poroso, acata os lances da contingência.
Mas ao dizer sim, o troco por vezes vem amargo e injusto. O generoso se atira de braços abertos, lambendo os beiços, mas não recebe de volta à altura. Nunca poderia, num mundo desigual e injusto. O demônio da intemperança suga a seiva da generosidade. Também é parte do jogo. Essa assimetria não apagará a chama da generosidade. Teimosa, insistirá no belo erro. Não culpará o outro, não culpará a si, não culpará o mundo, não se ressentirá. Não condena nem perdoa: revolta-se. Sua solidão é guerreira, sua liberdade uma condição encarnada, jamais abstrata ou utópica.
Em contrapartida, a injustiça não contentará. Causará o ódio. É preciso nutrir-se dele. Odiar ao aceitar que a injustiça existe, que rasteja, iniludível, aqui e agora. Odiar é preciso. Inconformar-se nessa aceitação calcinada. O estranho amor do generoso exige uma carreira no ódio. Amante das pessoas em carne-e-osso, iluminado pelo sol do meio-dia, a generosidade e a revolta se combinam sem dissolução.
Doravante, a solidão instila a coragem e deseja a justiça viva. A mão que afaga cerra os punhos. As imprecações não se dirigem à abóbada azul, mas à terra, ao faraó, às pedras de suas pirâmides. Odeia porque ama. Luta porque deseja. Eis o desabrochar da política.

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O leitor também pode interessar-se por outros ensaios do QdL:

Embriagar-se com água pura, 30/11/2010

Cidade dos minotauros, 7/07/2010

Sedutor lírico x sedutor épico, 20/11/2010

O absurdo: o tempo dos tempos, 20/07/2010

Publicado em 2 de janeiro de 2011. Deixe seu pitaco.

Haydée, personagem de A Colecionadora, 1967, Éric Rohmer
A nouvelle vague tornou-se sinônimo de vanguarda no cinema. Propunha uma nova sensibilidade para essa arte, ao mesmo tempo poética e política, inovadora e cheia de vivacidade. O conteúdo do filme passaria a ser a forma e a forma, o conteúdo. Uma articulação permanente. O diretor deveria assumir a sua responsabilidade como artista e autor, acima do produtor. O estilo de direção, ou mise-en-scène, passaria a ser considerado o núcleo criativo dessa arte, e não mais o roteiro.
Os primórdios da nouvelle vague aconteceram na década de 1950, quando alguns cinéfilios da Cinemateca Francesa se reuniram na revista de crítica Cadernos de Cinema. A partir de ensaios veementes, os críticos dos Cadernos elaboraram cânones e listas negras. Endeusaram-se alguns cineastas (sobretudo Hitchcock e Welles) e outros tantos foram demonizados. As palavras de ordem eram: autoria, estilo, audácia, realismo, expressividade de um mundo e uma afetividade. Surgia o cineasta-total: cinéfilo, historiador, crítico e diretor, sua biografia inteira entretecida com a arte. Surgia o cinema-cinema, na feliz expressão de Rogério Sganzerla.
Os primeiros longas-metragens da nouvelle vague são da virada de 1950 para 1960. Dessa época, são Nas garras do vício (Claude Chabrol, 1958), O signo do leão (Éric Rohmer, 1959), Os incompreendidos (François Truffaut, 1959), Acossado (Jean-Luc Godard, 1959) e Paris nos Pertence (Jacques Rivette, 1960). Longas de estréia do quinteto mágico, os cinco sacudiram o cinema mundial, inovando poéticas que se consolidariam e desenvolveriam, cada um a seu modo, durante a década seguinte.
Tamanho desejo de radicalidade pode passar a impressão que a nouvelle vague esteve intimamente associada às revoltas dos anos 1960. Que era parte das organizações políticas da época. Afinal, na mesma França, houve a explosão de maio de 1968.
Mas não. A nouvelle vague não participou, como movimento artístico, de nenhuma organização ou manifestação. Nem poderia. Seu maior mentor, o crítico André Bazin, havia morrido em 1958. Durante os anos 1960, cada diretor partiu para trajetórias individuais. A bem da verdade, a nouvelle vague era menos uma escola ou um todo orgânico, do que certo ímpeto originário, certa partilha de referências e inquietações, um amálgama de idéias que se desdobraria em direções diferentes e, por vezes, irreconciliáveis.
Do quinteto mágico, Godard engajou-se mais abertamente nas lutas. Bastam recordar seus filmes O pequeno soldado (1960), cujo assunto é a opressão neocolonial na Algéria, e Tempo de guerra (1963), um alegórico manifesto antibelicista. Ou então a temática marxista, numa poética brechtiana, de Week-End à Francesa (1967) e A Chinesa (1967), — o último inspirado num romance político de Dostoievski (Os Demônios).
Talvez por isso, tenha-se a impressão de um envolvimento global da nouvelle vague, visto que Jean-Luc era seu ícone maior. Porém, se havia cumplicidade crítica nos anos 1950, depois dos primeiros longas se esfacelou paulatinamente. Não havia organicidade.
Nos sessenta, François Truffaut nem sequer esbarrou em assuntos de militância. Filmava a dinâmica íntima dos personagens: triângulos amorosos, aventuras extraconjugais, episódios anedóticos. “Nascido” em Os incompreendidos, o timorato Antoine Doinel protagonizaria mais dois filmes no período, envelhecendo com o seu ator Jean-Pirre Leáud. Leve como uma pluma, o “ciclo Doinel” narrava as desventuras do querido pupilo do cineasta.
Afetivo e condescendente, não há na filmografia de Truffaut panfletos, denúncias ou conclamações. O mais próximo do cinema político foi o seu primeiro longa em cores, Fahrenheit 411 (1966). Uma história distópica sobre um mundo onde a escrita foi proibida e a função dos bombeiros passou a ser queimar livros. Lírico. Em Beijos Roubados (1968), a única remissão ao tumulto ocorre quando Christine (Claude Jade) comenta que a irmã está envolvida nas passeatas.
Em maio de 1968, Godard e Truffaut participaram ombro a ombro na confusão que melou o festival de Cannes daquele ano. Diante da mobilização universitária e das greves por toda a França, os dois aderiram ao movimento que exigiu e, eventualmente, conseguiu o cancelamento da premiação. “O cinema ficou para trás!”, discursou Godard, “a arte hoje não está mais em Cannes, mas nas ruas e praças”. A partir daí, ele politizará decisivamente os seus trabalhos, formando o coletivo Dziga Vertov (1968-72).
Truffaut não. Em que pese a atuação em Cannes 68, manteve o mesmo tom sentimental nos filmes seguintes, consistente com o seu estilo. Insatisfeito com essa “despolitização”, Godard polemizou e terminou por romper amargamente com o antigo colega dos Cadernos, em célebre entrevero, recentemente objeto de um documentário.
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O caso de Éric Rohmer (1920-2010), o mais velho da nouvelle vague, é ainda mais sintomático. No ultraquente período entre 1963 e 1972, produziu a seqüência Contos Morais, composta por seis filmes. Tomava como assunto a classemédia média, ordinária, em temáticas semelhantes ao romance burguês do século 19, e escrutinava a dinâmica moral/passional dos personagens. Enorme a sua distância em relação à vanguarda literária: o novo romance francês, de narrativa fragmentária e tema existencial.
Rohmer filmava sem qualquer ânimo de vanguarda.  Fazia questão de permanecer “invisível” como diretor, com o mínimo de firulas. Sóbrio, circunspecto, não alardeava manifestos políticos ou estéticos, nem cultivava mitologias sobre o cinema. Sequer gostava muito de falar sobre os seus filmes e se identificava como “ex-crítico” nas entrevistas. Católico praticante, não se dizia um “homem de esquerda”.
No entanto, há nos Contos Morais de Éric Rohmer um sentido profundamente político. E de esquerda. Isso se dá em vários níveis.
Pra começar, na sua narrativa por assim dizer distanciada. Rohmer não invade a mente dos personagens. Não lhes extrai confissões. Não os conduz a clímaxes dramáticos para forçar um depoimento. Salvaguarda-lhes uma autonomia com fundo ético.
O personagem existe por si mesmo. Não há onisciência nem julgamento moral. O autor está junto de suas criaturas e não acima delas. O personagem tem esfericidade, não se mostra por inteiro e guarda de si um fundo intocado. Irredutível à imagem, ao discurso. Verdade a ser interpretada e não arrancada. E não dá pra saber a verdade última e entendê-lo totalmente.
Nisso, Rohmer é dostoievskiano, e assume uma poética dialógica com valor ético.
O “narrador” dos filmes-contos não se confunde com a instância narrativa. Quer dizer, o efetivamente narrado, — a coleção de imagem e aúdio, — excede o monólogo do personagem que “narra”. Mais exposto que os demais, é verdade, mas nem por isso o “narrador” recebe um aval. Pelo contrário, amiúde essa distância atua contra ele, denunciando-lhe o egoísmo, a hipocrisia, a soberba, a autoilusão, a ingenuidade. Fazendo o espectador desconfiar, interpretar, circular pelos argumentos.
Nesse sentido, a posição de “narrador” torna-o privilegiado para a crítica. Se o protagonista-narrador dos Contos Morais é invariavelmente o homem branco classemédia, pior pra ele. Suas paixões são desnudadas em todo o seu viés de classe, a sua egolatria pusilânime, o seu voyeurismo instrumentalizador. O bisturi de Rohmer não poupa seus personagens de uma fina cirurgia moral, expondo tumores próprios de seu gênero, classe e tempo. Erra feio quem assinala machismo no perfil do “narrador” dos Contos Morais.
Daí que as mulheres sejam ininteligíveis nesse primeiro Rohmer (até 1972). Incógnitas, sua verdade é a mais recôndita. Seu comportamento ainda mais enigmático, um quê indevassável.
Os protagonistas buscam dominá-las, fetichizá-las, usá-las, capturar-lhes a admiração. Mais do que ser amados por ela, pretendem provar que podem ser amados por elas, por qualquer uma delas. Basta quererem e zás, elas se apaixonariam. Mas elas resistem. Não resistem (apenas) dizendo não, mas afirmando a dignidade. Firmam-se como seres livres, diferentes, criadores de sua própria narrativa.
O amor para os “narradores” significa fazer do outro objeto de sua conspiração, tema de uma intriga íntima, gato-sapato de seus caprichos. O outro é uma peça do jogo e não um jogador. Desfilam homens que se acham o máximo, “donos da situação”. Mas, ultimamente, dela terminam reféns e disso se ressentem.
Daí o papel crucial de A Colecionadora (1967) no universo dos Contos Morais. Porque, nesse que é o quarto conto, as mulheres resistentes (Suzanne, Maud, Chloe) sintetizam-se em Haydée, a mais feminista entre todas as personagens de Rohmer.
Haydée é a culminação de uma ética, uma estética e uma política — uma figura mitológica. É a própria década de 1960, no seu devir minoritário, na sua afirmação no presente da mulher do futuro.
Haydée não só resiste ao mais irresistível dos personagens dos Contos, Adrien (Patrick Bauchau), como o desarma e humilha sistematicamente. Ao mesmo tempo que generosamente lhe confere chances de redenção, que ele todavia não sabe aproveitar. Pois unidimensional. Inepto em combinar desejos, limita-se a tentar impor vontades. Todo o êxito de Haydée  sem qualquer moralismo, sem gritos ou slogans, sem nem mesmo um discurso coerente. Sustenta-se o filme todo a criatura menos dogmática e mais aberta à experiência. Sem convicções sobre si e sobre os outros, que não a certeza da dignidade indevassável, de não se deixar fetichizar e dominar, — mas nem por isso menos potente como mulher amante.
Haydée é mais do que a mulher independente (Suzanne, 2º conto), mais do que a mulher emancipada (Maud, 3º), mais do que a mulher libertária (Chloe, 6º).
Haydée é evolução da inescrutável e afirmativa Anna Karina, de Viver a vida (Godard, 1962), e antecipa a libertina e avacalhadora Helena Ignez, de A mulher de todos (Sganzerla, 1969).
Um personagem só, na potência da verdade que exprime, numa narrativa que a faz transbordar, é capaz de politizar uma obra mais do que cem panfletos.
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Este ensaio supostamente seria a crítica do quarto Conto Moral de Éric Rohmer, o filme A colecionadora (1967), dando continuidade ao dossiê que estamos montando, por encomenda do CinefiliaNET . Entretanto, a pena dançou em direções inopinadas, e me perdi. Mas prometo escrever a crítica da obra citada esta semana. Para críticas do QdL de outros filmes de Éric Rohmer, abaixo os links:

Publicado em 31 de dezembro de 2010. Deixe seu pitaco.

As Revoluções do Capitalismo abre e fecha com citações do filósofo pós-estruturalista Gilles Deleuze. A presença de seus conceitos perpassa o livro, como terreno firme para as teses do sociólogo italiano Maurizio Lazzarato. Radicado na academia francesa, o autor esteve engajado nas lutas dos trabalhadores culturais na França, como uma das principais vozes do movimento. Também chamados “intermitentes do espetáculo”, a partir de 2002 se mobilizaram para afirmar novos direitos, diante da política neoliberal que os excluía. Intelectual multimídia à moda de Deleuze, suas intervenções abrangem cinema e vídeo e é co-fundador da Revista Multitudes.
Lazzarato também publicou Trabalho Imaterial (2001), em co-autoria com o filósofo marxista Antônio Negri, que tinha boas conexões com Deleuze. Nesse outro livro, é analisado o novo estatuto do trabalho no século 21, em que o imaterial, isto é, valores, crenças e desejos põem-se no centro do funcionamento do capitalismo. Logo, de sua resistência. As Revoluções do Capitalismo, por sua vez, chegou ao Brasil na coleção A Política no Império, que se propõe a abrir frentes de luta contra o capitalismo contemporâneo. Assim, a obra se situa numa convergência improvável, entre um pensamento oriundo do operaísmo italiano dos anos 1960 e 1970, de extração marxista (embora revisionista), e o pensamento dito “pós-moderno” próprio da filosofia deleuziana.   
Na questão da organização política, os marxistas mais ortodoxos apontam nos deleuzianos e pós-modernos em geral a esquiva da militância mais dura e do primado da luta de classes, bem como a propensão a um dandismo individualista e siderado; enquanto os “pós-modernos” costumam criticar o leninismo centralista e a caretice dos aparelhos tipicamente marxistas. Quanto ao sistema filosófico, esses marxistas costumam atribuir-lhes uma hipertrofia conceitual, uma linguagem esotérica e autorreferente, como uma loja de brinquedos chineses, bonitos porém intocáveis de tão delicados; enquanto os “pós-modernos” nivelam os marxismos como ortodoxias dogmáticas e simplórias, com uma concepção anacrônica das lutas, incapaz de atuar nos novos desafios do contemporâneo.
Lazzarato polemiza abertamente com o marxismo o livro todo. Com esse título, uma opção editorial (o proposto pelo autor era Por uma Política Menor), não poderia ser diferente. Para o autor, a maioria das análises marxistas ainda parte das “fábricas manchesterianas de Marx ou das manufaturas de alfinetes de Adam Smith”. Achata relações complexas de poder e totaliza uma realidade múltipla e irredutível. O marxismo perdeu o trem da história. Foi esvaziado espontaneamente pelas pessoas, assim como elas deixaram em massa os países do antigo bloco soviético. Os atuais partidos e sindicatos vermelhos não passam de “urubus”, que parecem rondar a carniça do socialismo real, mas na realidade estão atrás de sobras do capitalismo. Refugiaram-se, cínicos, em pautas corporativistas da pequena fração sindicalizada, ou então em cátedras universitárias.
Na última década, as manifestações altermundialistas a partir de Seattle (1999), os Fóruns Sociais Mundiais e as marchas globais contra a guerra do Iraque foram a ponta do icebergue de um novo ciclo de lutas, com seus novos problemas e desejos. Como na explosão insurrecional do maio de 1968, descortinou-se um horizonte político pós-capitalista e pós-socialista. Em vez do socialismo em um mundo só, se afirmou que muitos mundos são possíveis. Hordas de marxistas, trotskistas, anarquistas, midialivristas, black blocs, sem-terra, tute bianchi (macacões brancos), sindicalistas, blogueiros, todos se coordenaram numa militância sem bandeira unificada, discurso pronto ou palácio de inverno a ser capturado.
Para o autor, na esteira de Deleuze, um novo léxico se impõe às lutas. Não se trata mais de combater a exploração do trabalho pelo capital. Mas constituir mundos, onde não haja uma produção fixável ou mensurável o suficiente para o capitalismo expropriá-la. Isto significa, em primeiro lugar, desviar da perspectiva dualista, do tipo isto ou aquilo, para diversificar pautas de valores e direitos. Assim, a luta por direitos de gênero ou sexuais não deve orientar-se pelo dual homem/mulher, como no feminismo clássico, porém pela afirmação dos “mil sexos”. O movimento GLS vira LGBT e num piscar de olhos LGBTT, mas nem todas as letras do alfabeto poderão contemplar o campo dos possíveis. Do mesmo modo, a classe proletária do marxismo tradicional deve converter-se em “mil diferenças”, cada qual com seu universo de afetos e prioridades. Em vez do trabalho em equipe dos coletivos, trata-se agora da militância em rede, juntos e separados.
Isso não enfraquece a luta global? Não divide os esforços da militância, diante de um inimigo tão portentoso, tão monstruoso quanto o Capital? Justamente. Não. A força do capitalismo contemporâneo está em sua enorme capacidade de modulação. A sua monstruosidade consiste nessa multiplicação de modos de apreensão, de recodificar e reincorporar tudo aquilo que tenta se colocar além dele. Daí que dialético é sempre o capitalismo, para quem nada pode ficar de fora. Pensar e lutar dialeticamente, unificando um grande movimento da história, é já ter perdido a luta. Significa posicionar-se já dentro do mundo do inimigo. Por isso que, para Maurizio, os socialistas amiúde findam mais realistas que o rei e operam com termos irremediavelmente capitalistas, tais como exploração, dialética, regulação, trabalho, proletariado etc.
No século 21, o coração do capitalismo não é mais a fábrica, mas a empresa. Menos do que fabricar o objeto, o principal está em fabricar o desejo e a crença. A imagem chega antes do produto. O espetáculo, antes do consumo. A empresa não fabrica o objeto, mas o mundo em que esse objeto existe. O triângulo produtor-consumidor-produto existe nesse mundo. O publicitário torna-se o cérebro do sistema. O marketing, o seu motor. Não existe mercado – regido pela lei da oferta e da procura ou pela escassez. O que existe é a constituição de públicos, seguida de sua fidelização. A demanda não se subordina à oferta: é criada independentemente dela.
Hoje, o capitalismo coloniza o campo de possíveis, quer dizer, apreende os fluxos de desejos e lhes extrai lucro. Daí precisar de redes produtivas, as únicas capazes de inventar mundos e neles prender a atenção das pessoas. O trabalhador deve ser criativo e colaborativo, do operador de telemarketing à consultora financeira. Já o consumidor deve ser autônomo. Primeiro, para selecionar dentre a gama de produtos/mundos disponíveis. Segundo, para gerir ele mesmo o crédito (o campo de possíveis) e a renda. O indivíduo torna-se empreendedor de si mesmo. Espera-se que ganhe o suficiente para “investir” em sua saúde, educação, aposentadoria – atividades não mais consideradas serviços sociais, mas “investimento individual”.
Ora, pode-se objetar, a produção industrial não acabou nem perdeu relevância. Por um lado, 90% do valor de um tênis se devem à publicidade, 60% de um programa de computador ao copyright e 50% de um filme à pós-produção. Por outro, os mesmos tênis são fabricados por trabalho semiescravo na Birmânia e o hardware, em que roda o mesmo software, montado por subempregados no México. O recorte Norte/Sul prossegue e se deve ao chão-de-fábrica. Sim, responderá Lazzarato, isso em nada afasta a primazia do imaterial. Os mundos industrial e pós-industrial convivem e se combinam no grande sistema integrado do capitalismo. É só ver como muitos CEO de grandes multinacionais são recrutados no Brasil, inúmeros cientistas e pesquisadores na Índia, e não poucas crises financeiras disparam de países terceiromundistas.
Mas qual o problema disso tudo?
Sobretudo: não precisamos do capitalismo. Não é ele quem gera valor, mas as redes colaborativas das pessoas, na sua organização de fluxos e criação de mundos. O capitalismo fixa os fluxos e isola os circuitos dessa rede global, e assim acumula. Faz isso não por princípios intrínsecos (“leis econômicas”) do sistema, mas pela coação do direito. As patentes e o copyright põem os ovos de ouro das empresas. Mesmo que signifique negar acesso à cultura para muitos, ou então a cura da AIDS…
Além disso, ao mesmo tempo que tudo é possível, nada é possível. Tudo já foi inventado. Resta ao consumidor montar o seu perfil com as marcas e produtos oferecidos, nesse sonolento programa de variedades. O mundo vendido pelo capitalismo hoje é banal, entre a caretice sufocante do comercial de margarina e a cosmética biônica dos de cerveja. De que adiantam cem canais de TV, se do mesmo modo fazem-nos correr, entediados, um depois do outro?
Outros mundos são possíveis. Lazzarato propõe mudar a equação. Lutar pelo acesso universal aos direitos sem perder de vista a afirmação das mil diferenças e dos mil sexos. Igualdade não se opõe à diferença: propicia-a. Contra o capitalismo em um mundo só, multiplicá-los por mil. Para isso, o autor sugere uma “guerra semiótica”, uma “guerra estética”, uma disputa midiática dos públicos e dos processos de mobilização de sua atenção. Na nova “economia do sensível”, o ativismo cultural torna-se imediatamente político.
Ademais, ao contrário da postura cínica de parte da esquerda, não lutar pelo salário de poucos, mas pela renda de todos. O salário pressupõe a remuneração do assalariado por um serviço prestado, dentro da lógica empregatícia. Entretanto, as redes e fluxos operam transversalmente, por sobre os obstáculos impostos pela empresa. Nesse contexto, somente a renda de todos consegue ser justa na mesma medida em que fomenta a produtividade global. Esta pauta enfrentará a resistência das esquerdas “salariais”, que classificam a política de redes como assistencialista e precária. Portanto, desinteressada em deslizar da lógica industrial, essa esquerda faz a cama do capitalismo.
Maurizio Lazzarato espicaçou o marxismo em vários capítulos de seu livro. Mas como não vê-lo, revitalizado, nessa crítica tão perspicaz dos meandros do capitalismo? Com efeito, Marx analisou as relações de poder da nascente sociedade industrial, porém decerto teria alcançado outras interpretações e conclusões hoje. O marxismo é dos poucos sistemas que confessa a sua precariedade e vive em tenaz autocrítica.
Se o problema do marxismo não é Marx, mas os marxistas; o do pós-modernismo tampouco é Deleuze. O contrário do burguês não é o boêmio nem o acadêmico, mas o militante. Nesse sentido, graças ao autor, o encontro de Deleuze com Marx não foi somente feliz, na acepção spinozana, como incremento da potência, mas também um eloqüente chamado à luta a marxistas e pós-modernos.
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LAZZARATO, Maurizio, As Revoluções do Capitalismo, trad. de Leonora Corsini, ed. Record, 2006, 274 pág., Coleção A Política no Império.
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Veja também as resenhas de outros livros da mesma Coleção:

* Que aconteceu com o meu marxismo?, sobre Os Marxismos do Novo Século, de César Altamira

* O economista das revoluções pós-modernas, sobre O Lugar das Meias, de Christian Marazzi

* Amor e pós-capitalismo, sobre Commonwealth, de Antônio Negri e Michael Hardt

* Por uma esquerda pós-moderna, sobre MundoBraz, de Giuseppe Cocco

Crítica: Minha noite com ela (Ma nuit chez Maud), Éric Rohmer, França, 1969, pb, 35mm, 113 min.

Embora filmado em quarto, depois de A colecionadora, Minha noite com ela foi numerado o terceiro da sequência dos seis Contos Morais (1963-1972) do cineasta francês Éric Rohmer, e depois de A padeira do bairro e A carreira de Suzanne. Foi a primeira obra mundialmente badalada do diretor. Concorreu à Palma de Ouro e em duas categorias do Oscar (roteiro e “estrangeiro”).
O longa retoma temas dos trabalhos prévios, fazendo dos Contos Morais uma espécie de sinfonia. Os mesmos movimentos reaparecem e se revitalizam ao longo da composição. Como nos anteriores, este também escrutina as paixões e impulsos dos personagens, e como eles se confrontam com seus declarados preceitos morais.
Minha noite com ela sofistica bastante o jogo. Agora, não se trata mais de estudantes na casa dos 20 anos, vagando por cafés e repúblicas universitárias. São adultos com mais de 30, experientes e de cabeça feita. As sutilezas se multiplicam por mil e os comportamentos se tornam ainda menos codificáveis.
Reiteram-se os elementos de estilo do cineasta: naturalismo, des-dramatização, áudio ambiental, sobriedade e secura da mise-en-scène. Novamente, há várias sequencias externas, não mais de Paris, mas de uma pequena cidade industrial. A câmera captura o silêncio e a placidez de ruas cobertas de neve, em alto inverno. A locação principal é a aconchegante casa de Maud, onde se desenrola a noite do título.

Maud (Françoise Fabian) é uma mulher vibrante, inteligente, sensual, com brilho próprio, praticamente irresistível. É a evolução de Suzanne, do conto anterior, e se desdobrará ainda em duas mulheres sensacionais da série rohmeriana: Haydée (quarto conto) e Chloe (sexto). Divorciada, Maud se relaciona sem grandes compromissos com o professor de filosofia Vidal (Antoine Vitez), marxista e libertário. Este reencontra o amigo de longa data Jean-Louis, protagonista do filme e católico praticante como Éric Rohmer. A importância da religião na vida de Jean-Louis se faz mostrar com cenas de missas e sermões, por causa do Natal. Eis aí os vértices do triângulo amoroso.

Na noite na casa de Maud, os três jantam, tomam vinhos, comem queijos finos e discutem animadamente sobre religião, filosofia e comportamento. Instala-se um jogo de sedução entre Jean-Louis e Maud, nas entrelinhas. O erotismo palpita em réplicas inteligentes e sagazes insights. Notando o fato, Vidal surpreendentemente inventa uma desculpa para deixar os dois a sós.
Por que ele faz isso? para testar Maud? para testar Jean? porque no fundo a odeia? para dar uma de moderninho? fatalismo russo? humor mefistofélico? talvez nada disso ou tudo isso junto, em proporções diversas. Nem ele sabe. Num filme de Rohmer, o personagem não sabe. E o ponto é exatamente esse. A decisão se baseia em uma miríade de pequenos motivos e acidentes, que cabe ao espectador interpretar.
Maud e Jean-Louis passarão a noite juntos. Todavia, por mais que ela se insinue (deita pelada a seu lado…), Jean-Louis não corresponde. Por quê?!, indigna-se o espectador. Como assim?, não transa com uma mulher deslumbrante, disponível, depois de vinho, papo-cabeça e sex appeal, no conforto da casa dela?
Dias antes, Jean-Louis havia cruzado na rua com a jovem Françoise (Marie-Christine Barrault). Foi amor à primeira vista. E também à segunda, ao descobrir que ela igualmente professa e pratica o catolicismo. Porém, até a noite com Maud, não havia rolado nada entre Jean-Louis e Françoise. Nem sequer haviam saído juntos.
Então, Jean-Louis pretendeu manter-se fiel a esse amor puro, ainda que idealizado e talvez ilusório? Talvez por aposta pascalina: a salvação (a mulher ideal) não vale a pena arriscar por nada, mesmo que signifique trocar o incerto pelo certo. Quiçá por adotar uma lógica religiosa, em que o prêmio no final é sempre melhor do que a tentação. Ou não… pode ser que, vaidoso, só quisesse provar que poderia dormir com Maud e, uma vez ela se atirando (nua) em seus braços, ele estivesse satisfeito. Não se sabe.
Ou ainda: não foi bem assim que as coisas aconteceram. Quando Maud o abraça, num primeiro momento Jean-Louis resiste. No entanto, assim que Maud refreia a investida, o protagonista muda de idéia e tenta agarrá-la. Porém, é tarde demais (outro tema rohmeriano), ela se ultrajou com a rejeição, e nenhum outro banzé acontecerá até de manhã.
Essa dinâmica plural entre os personagens semelha a romances literários do século 19, com personagens da classemédia letrada, bem-vestida e apreciadora de bons vinhos. A arte de Éric Rohmer consiste na simplicidade e eficiência com que transpõe essa constelação ao cinema. Ou seja, o mérito não está na história em si, em todas as suas nuances psicológicas e morais, mas em como o diretor conseguiu desse amálgama compor o filme num compasso tão uniforme e firme, magistralmente ritmado, decupado em seus pequenos detalhes, em menos de duas horas de projeção.
No epílogo, Jean-Louis aparece com filhos e casado com a “mulher ideal”, a boazinha e singela Françoise, numa cena praiana. Maud reaparece. Trocam algumas palavras, mas não acontecerá nada de mais. Ela se despede e se afasta como sempre deslumbrante, mais sexy do que nunca, com aquela atitude olha-o-que-você-perdeu.
Mas Jean-Louis não se perturba, considera a noite com Maud paradoxalmente sua “última escapada”, e vive “feliz para sempre” na família que sempre idealizou. Feliz?