Publicado em 19 de julho de 2011. Deixe seu pitaco.

Os governos cuja sorte depende da sabedoria de um só homem têm curta duração, porque sua virtude se extingue com a vida do príncipe, raramente seu vigor se restabelece com o sucessor.” – Maquiavel

Junto com correlação de forças, é uma das expressões mais banalizadas. Se a primeira tem sido usada para desculpar qualquer tomada de posição dos governos, a segunda incorre no erro simétrico. Não abriu os arquivos da ditadura? Falta de vontade política. Não realizou a reforma agrária? Falta de vontade política. Um Brasil Banda Larga foi neutralizado? Falta de vontade política. Fome na África? Falta de vontade política. E assim sucessivamente, à náusea, a vontade política como o principal problema.

Como se a ação política estivesse posta em função do arbítrio do titular do poder. Como se a decisão surgisse do nada, do firmamento das boas intenções diretamente à cidade dos homens, mediada pela consciência do governante, a única variável. Como fosse possível aplicar o dever-ser ao ser, realizando um possível idealizado. Como se a ação política, para ser eficaz, não estivesse vinculada a uma cadeia de causas e efeitos, numa determinada realidade histórica, numa matriz complexa de vontades, forças e estratégias. Basta o grupo no poder querer e zás, já é. Para quem reduz, como a grande imprensa, a vontade política a essa platitude mistificadora, não se equivoca quem lhe sugere a correlação de forças como instrumento analítico.

O governante não tem vontade política. Para chegar ao poder, é obrigado a partilhar lençóis com todo o bloco histórico que o antecede e o condiciona, de mil maneiras abertas ou veladas. Uma vez no poder, se vê na contingência de negociar o tempo todo, para conservá-lo. A tratar com um espectro ideológico muito mais vasto do que o professado, inclusive na campanha eleitoral. Porque manter-se no poder implica recear e desbaratar conspirações e, por conseqüência, ser forçado a preocupar-se, sobretudo, consigo próprio, e a enganar a multidão mais do que a salvaguardar. Não há espaço para voluntarismo.

Quem confia a sua liberdade à vontade política dos governantes está prestes a perdê-la. Esperar vontade política já constitui erro de princípio. Não adianta votar no candidato ou partido X ou Y, se, no dia seguinte da posse, sentarmos no sofá achando que agora está resolvido. O cidadão que crê que só é cidadão na hora do voto vai decepcionar-se sempre. O transcorrer do mandato de seu candidato e partido não passará de uma inexorável desilusão, em relação a promessas e expectativas de campanha, e mesmo a uma acreditada consciência política. Esse desencanto acabará por incentivar a desmobilização e a paralisia teórico-prática e, por vezes, o refúgio amargurado dos “idealistas” na academia e seus rituais vazios.

Tem gente que realmente acredita que ao cidadão de bem basta acordar pra trabalhar todos os dias, cuidar da família, respeitar a lei, ficar na sua e votar uma vez a cada dois anos. Não e não. O voto, na realidade, é um momento qualificado de uma atuação cotidiana que, no acúmulo e sinergia de todos, constitui a democracia. Daí a relevância das marchas de 2011 no Brasil, em si mesmas, como centelhas de uma outra percepção do que seja política. Talvez a recessão mundial de 2008-09, mais esse imenso fracasso do capitalismo, tenha, finalmente, despertado muita gente. Que, se não agirmos por conta própria, além de governos e partidos, não pode haver democracia real. Afinal, ainda segundo Maquiavel, “o povo é mais prudente, menos volúvel e, num certo sentido, mais judicioso que o príncipe.”

Nenhum mandato é o ano zero da história. Na democracia representativa, não tem jeito. Todo mandato majoritário acaba viciado, atravessado por ambiguidades e conflitos, contradições e limitações. A questão reside em como o grupo no poder se apropria dessa situação pastosa e multicolorida e, a partir dela, consegue conferir um sentido libertador. Um sentido que é, antes de qualquer outra coisa, a subversão da própria matriz institucional conservadora em que se inscreveu quando fora eleito e decidiu jogar o jogo. Isso é possível? O debate revolução x reforma incide aqui. Até que ponto é possível, com políticas governamentais, por dentro do poder, por dentro do regime capitalista, é possível desativar instituições tão conservadoras e reacionárias?

Para Slavoj Zizek, “se você não tem idéia sobre o que colocar no lugar do estado, não tem o direito de subtrair-se e retirar-se do estado: a verdadeira tarefa consiste em como fazer o estado funcionar de um modo não-estatal.” Não se trata, portanto, de tomar distância do estado e apenas fortalecer o movimento, ou abraçar o estado como a via principal da mudança, seja chegando a ele pelas eleições ou outras vias. A proposta do filósofo esloveno é radicalmente transformá-lo por dentro e por fora, “mudando a sua relação com a base”.

Por isso, mais que rupturas utópicas a partir da vontade política, primeiro há todo um trabalho de construção democrática, de empoderamento da base, de quem realmente é mais judicioso e menos volúvel e, por conseguinte, pode sustentar mudanças duradouras e profundas. Nesse sentido, políticas que disseminem condições concretas de exercício da cidadania, como: renda universal, mídia multitudinária, inclusão racial, fortalecimento de uma cultura de resistência, difusa e articulada em rede, entre outras.

Em vez de vontade política, é preciso buscar a força política. O príncipe só governa contra uma ordem social conservadora quando reúne forças para tal, de modo contínuo. Esse força não vem somente das eleições, seja qual for a quantidade de votos. Tampouco de pesquisas de popularidade, na medida em que, ante uma imprensa antidemocrática, a opinião pública muitas vezes está contra o povo. E sim de uma permanente mobilização das forças vivas sociais, de revolta e indignação, a partir dos cidadãos e seus movimentos e marchas e mídias livres, que determinem e mesmo imponham as políticas de (seu próprio) empoderamento.

Neste contexto, mesmo votando em certo candidato e certo partido, como opção entusiasmada ou recalcitrante, nada mais coerente do que, uma vez governo, fazer-lhe críticas, ainda que severas, e construir por fora dele e mesmo contra ele, em tudo aquilo que ele não demonstrar força política. E exatamente para forçar-lhe a agir no sentido libertador, contra todas as injunções e ameaças, contra todo o lastro histórico de exclusão e desigualdade. Aí consiste, quem sabe, a verdadeira virtude política do governante: saber utilizar-se e mesmo concitar essa força social, navegando nas ambiguidades, atuando nessa brecha fugidia entre a vontade política e a correlação de forças.

Para pegar ainda outro tópico do pensador florentino, somente o tumulto da multidão, a imanência conflitiva da democracia real, esse drama de revoltas e indignações, somente aí pode haver vontades radicalmente políticas e transformadoras, somente aí se explicam o atrevimento desmedido de uma Antígona, a determinação férrea de um Lênin, a crença inabalável de um São Paulo.

Publicado em 18 de julho de 2011. Deixe seu pitaco.

Na política, a expressão há tempos não esteve tão em voga. E jamais tão mal utilizada. Mau sinal para um governo que pretende manter o foco social dos oito anos com Lula. É que a correlação de forças tem servido como argumento universal, para rebater qualquer crítica dirigida aos lances conservadores do governo Dilma.

Mas o que é a tal correlação de forças? Em primeiro lugar, enxergar a política não como religião ou futebol, onde dogmas irrenunciáveis e paixões misteriosas comandam a nossa vontade. Na política, não bastam a consciência e a decisão individual. Todo purista uma hora tem o idealismo fustigado pelo tacão da realidade. Como incide sobre a realidade concreta, é preciso que a ação política tenha eficácia. E ser eficaz implica algum domínio sobre o tempo e o espaço, sobre a cadeia de causalidades que constitui o mundo das coisas e pessoas. Em vez de assaltar o céu com boas intenções, trata-se de mudar a vida dos homens na terra, no sentido da terra. O que se torna inviável sem um constante calibrar de causas e efeitos, compassar as medidas e resultados, calcular custos e benefícios. O que exige, sem cessar, a preocupação de compreender os fluxos e refluxos históricos, o lastro de real, a reserva do possível, a hora apropriada para ousar e para retroceder, para arriscar e para se preservar. Sintonia fina adquirida com muita experiência e algum talento, mas também a sua dose de sorte. E, a partir disso tudo, dessa fina arte das ocasiões, saber articular vontades, convergir pautas, e assim elaborar metas, programas e meios. Noutras palavras, estratégias e táticas mais ou menos determinadas, mais ou menos abertas à mudança, e para diferentes contendas políticas, e para diferentes cenários. Como a realidade está sempre à frente dos conceitos, — e estes se enredam entre si e com o real dos modos os mais caóticos e inusitados, — isto significa repensar e reinventá-los todo momento, sempre em função das batalhas, das situações situadas histórica e geograficamente. Não é à toa que Foucault dizia que “a política é a continuação da guerra por outros meios”. Como na guerra, a política se faz no meio de uma nuvem de fumaça, onde tudo o que temos à mão são apostas e previsões precárias. Demanda a prudência no trato de inúmeras variáveis, que não dispensa a análise permanente dos acontecimentos, a digestão lenta de forças e vontades, o rito social de diálogo, debate e conflito, o metabolizar contínuo de visões alheias e contradições em processo. Exige contornar envolvimentos emocionais, precipitações taxativas e sínteses fáceis. Hesitante Hamlet, entre a urgência da ação e a impossibilidade de certeza!

Nesse sentido, correlação de forças é um conceito fecundo para a política. Permite tomá-la na sua labiríntica complexidade, como campo de múltiplas e mutantes forças, de entrechoque de vetores distintos entre si, por suas quantidades e qualidades. Significa também perceber que contra força não adianta opor a moral. Contra força, só outra força à altura pode resistir. De pouco servem, também, grandiloquências e santidades, ainda que a título de indignação e repúdio. Não adiantam quando não há prática potente o suficiente para alterar, mesmo que minimamente, o estado das coisas. Na política, discursos encantados ou cândidos, mas sem efeito real, não passam de poemas ruins de primavera. Não há crítica materialista, portanto, que não seja atravessada pela matriz tensa de estratégias e táticas, pelos paradoxos constitutivos para uma ação política eficaz.

Até aqui, tudo bem. O problema é quando um grupo no poder adota a-tal-correlação-de-forças para legitimar tudo. Em vez de enriquecer a análise e multiplicar os personagens, a expressão atua para simplificar tudo e unificar o mundo numa opereta de quinta categoria. Os meios refogem dos fins e os fins dos meios, em direções opostas. Com isso, se justificam a priori quaisquer engessamentos e recuos, adiamentos “estratégicos” e concessões “táticas”, impudicícias e sacanagens políticas do poder. E aí nasce mais uma platitude. A expressão se torna tão vazia quanto dizer “sou sempre pela vida, logo contra a legalização do aborto”, ou “drogas fazem mal, logo devem ser proibidas”. Essa platitude aparece frequentemente na boca dos falcões. São aqueles defensores (ou opositores) incondicionais, pra quem a campanha eleitoral nunca termina. Dogmaticamente dialéticos, se convenceram ter encontrado a chave da inteligibilidade universal: ou está com X, ou contra X — e a partir daí julgam e rotulam de um golpe só todas as questões do universo, por mais intrincadas e multifacetadas. Lidam com a política com se fosse futebol. Reagem à crítica política como se houvessem ofendido o time do coração. Não admira tenderem a levar tudo para o campo pessoal, o lugar das crenças íntimas e das paixões irracionais. Tais dogmáticos “materialistas” acabam atuando como o enxadrista fantoche vestido à turca de Walter Benjamin. Parecia ele mesmo a fazer as jogadas; porém, na verdade, repetia maquinalmente as estratégias de um anão corcunda, que engana a platéia escondido debaixo da mesa.

A correlação de forças é sensacional como instrumento de análise e prudência, nunca como bordão de acríticos funcionários do que está posto.

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PS. No próximo artigo, falarei de outra expressão rapidamente convertida em platitude: a tal vontade política.

Publicado em 11 de julho de 2011. Deixe seu pitaco.

Em 30 de outubro de 2007, a FIFA ratificou o Brasil como país-sede da Copa do Mundo de 2014. Em maio de 2009, a cidade do Rio de Janeiro foi confirmada para receber a partida final do evento, que acontecerá no estádio do Maracanã. Em 2 de outubro do mesmo ano, o Rio também foi selecionado, desta vez pelo COI, como sede dos Jogos Olímpicos de 2016. O entusiasmo e o ufanismo tomaram conta do noticiário, reforçando o discurso dominante que o Brasil vive o melhor momento de sua história. A Cidade Maravilhosa, “cidade global” segundo os urbanistas, tornou-se o balão de ensaio desse novo Brasil-potência, síntese mitificada da nova brasilidade, assumindo lugar semelhante à Brasília dos anos 1960.

Em 1º de janeiro de 2009, Eduardo Paes, do PMDB, tomou posse como prefeito da cidade do Rio de Janeiro. A aliança ao redor dele reúne o governo do estado chefiado por Sérgio Cabral, do mesmo partido, e a administração federal encabeçada pelo PT, num portentoso consenso tri-governamental. No primeiro ano de seu mandato, Paes iniciou um conjunto de ações denominado “Choque de Ordem”. Em coordenação de órgãos e governos, o “choque de ordem” reprime o trabalho informal, remove moradores de ruas, ajuda a despejar ocupações de sem tetos e ocupa permanentemente posições estratégicas, contra a “indisciplina urbana”.

Desde 2010, invocando os megaeventos, o “choque de ordem” está focado na implantação de grandes complexos viários por toda a cidade, mediante iniciativas como a TransOeste, TransCarioca e TransOlímpica.

Não custa lembrar que a “doutrina do choque” começou como tortura psiquiátrica, passou à esfera militar, foi usada como arma política contra inimigos ideológicos e, agora, chegou ao Rio de Janeiro no melhor espírito olímpico.

Se a urbanização das favelas e a regularização fundiária tomaram 30 anos de lutas pelo direito à moradia e à cidade, tais conquistas estão sendo desprezadas e destruídas em questão de meses. Pobres têm sido removidos sem compensação minimamente equivalente, de modo truculento, amiúde na calada da noite, para áreas distantes das comunidades onde viviam há décadas. Projetos de revitalização fabricam ainda mais sem tetos. Camelódromos históricos são desmontados, as mercadorias ilegalmente confiscadas, os ambulantes expulsos na ponta do cassetete. Empreendimentos culturais “criativos” mascaram a privatização da cultura metropolitana, em favor de grandes conglomerados da mídia e entretenimento. Na base da canetada, os projetos de engenharia e urbanismo aceitam tudo, a título de modernização, disciplinamento e pacificação.

Está em curso a submissão da cidade aos imperativos da especulação imobiliária. Pretendem convertê-la em “cidade global”, enquadrada às demandas e fluxos do capitalismo globalizado, sem espaço para os negros, os quilombolas, os jovens sem trabalho, os camelôs, os sem tetos, os precários. Se a exclusão sistemática e a violência contra os pobres vêm da história escravocrata da cidade, só agora galgou o status de “consenso”. Essa política de fascismo à carioca não respeita sequer servidores do próprio estado, como os bombeiros tachados de “vândalos” pelo governador Sérgio Cabral.

Neste contexto, surpreende, da parte de setores que se identificam como esquerda, um discurso de interesse público e até mesmo socialista (!), manobrado para “limpar” as ruas e comunidades, e empurrar os pobres cada vez mais para fora da metrópole que construíram. Em meio a bandeiras vermelhas misturadas nesse consenso, Marx ressente-se, pois segue a desvalorização do homem na sua submissão à expansão de riqueza como capital. O redesenvolvimento urbano do Rio, desigual e expropriatório, somente tem sido criticado por setores minoritários da esquerda, virtualmente isolados em meio ao monolítico bloco de governos e aliados empresariais, com seus gigantescos recursos políticos e econômicos.

Nesse contexto, é lamentável a desmontagem política do Núcleo de Terras e Habitação (NUTH) da Defensoria Pública do Rio de Janeiro. Muito próximo dos movimentos sociais, vinha defendendo direitos coletivos e difusos das populações afetadas pelo trator “progressista”, numa atuação como autêntica defensoria popular. Sob nova gestão, se tornou inviável a continuidade do trabalho de defensores e estagiários combativos, comprometendo a parceria direta entre o órgão e os movimentos sociais. Como consequência, levantaram-se ainda mais barreiras para a efetiva prestação da tutela jurídica aos prejudicados pelo desenvolvimento.

Não adianta prolongar em demasiado discussões teóricas, quando o presente range de conflito e urge por ações concretas. Bertold Brecht certa vez disse que chega uma hora nas lutas que se deve aceitar uma formulação rude, mesmo grosseira. Diante da anemia crítica na imprensa e dentro do bloco de poder, é preciso continuar insurgindo-se com os resistentes, continuar produzindo redes e mídias contra o consenso dominante. E contestar alianças ditas “estratégicas”, sob a desculpa universal da “correlação de forças”, que negam e desacreditam toda a cultura de esquerda por alguns professada.

 

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O texto acima, elaborado coletivamente, foi selecionado e será utilizado na próxima reunião, aberta e horizontal, do Núcleo Biolutas do Rio de Janeiro, no dia 18 de julho (segunda-feira) a partir das 19:00, na Cinelândia, à Av. 13 de maio, nº 13, 8º andar.

Publicado em 10 de julho de 2011. Deixe seu pitaco.

Segue abaixo a terceira resenha da série sobre a crítica começada pelo coletivo Passa Palavra, com A esquerda fora do eixo (17/06). Em 29/06, o Quadrado dos loucos publicou o comentário Sair dos eixos à esquerda e, em 3/07, Pós-modismo pós-festivo, que dialoga com texto de Ivana Bentes ao Trezentos, A esquerda nos eixos e o novo ativismo.

Neste, enfrenta quatro artigos sob o título Domingo na marcha, também do Passa Palavra: aqui, aqui, aqui e aqui.

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Cada vez mais fica clara a referência teória do Passa Palavra. Em 1987, o teórico marxista e capo militante João Bernardo escreveu Capital, Sindicatos, Gestores (1987). Nesse livro, expõe a sua teoria dos gestores — burocratas do estado ou gerentes/executivos de empresas. Os gestores não integram a classe proletária, servem como altos funcionários do capital e são centrais para a cooptação do movimento operário. Em síntese, “A partir do momento em que são os gestores que comandam incontestadamente o capitalismo, é o antagonismo entre eles e a classe operária que passa para primeiro plano.” (p. 9).

No Brasil, o sociólogo do trabalho Ricardo Antunes, fundador e intelectual orgânico do PSOL, em Adeus ao trabalho? (2008, 15ª ed.), entre outros, compartilha de tese semelhante, tomando por objeto de estudo o sindicalismo: “Uma tendência crescente de burocratização e institucionalização das entidades sindicais, que se distanciam dos movimentos sociais autônomos”, com consequente “distanciamento cada vez maior de ações anticapitalistas e perda da radicalidade social” e “incapacidade para desenvolver e desencadear uma ação para além do capital” (p. 70). Logo a seguir, em nota de fim de capítulo, elogia João Bernardo, que “levou ao limite esta crítica, mostrando, não sem boa dose de razão, que os sindicatos tornaram-se também grandes empresas capitalistas, atuando, enquanto tal, sob uma lógica que em nada difere das empresas privadas. (p. 75)

Essa matriz é então utilizada para identificar uma lógica de gestão empresarial capitalista, seja no coletivo Fora do Eixo, no Instituto Overmundo, na Casa da Cultura Digital e, generalizando, no amplo e heterogêneo espectro de grupos e coletivos organizados ao redor de editais e programas do ministério da cultura no governo Lula, com Gilberto Gil (2003-08) e Juca Ferreira (2009-10).

Na ótica do Passa Palavra, tais grupos não passam de “ativismo empresarial”, sob o ponto de vista do trabalho. Disfarçam-se de inovação, militância 2.0 e discurso revolucionário para fazer o mais do mesmo: a exploração capitalista do trabalho. Assim, cooptam energias rebeldes da juventude, usurpam as bandeiras da esquerda e agem como colaboracionistas para o desenvolvimento de um novo capitalismo de redes e fluxos. A disputa entre esses movimentos político-culturais 2.0, de um lado, e a indústria cultural, ECAD, IIPA, SECULT-PT e medalhões, do outro, não vai além de uma briga interna ao capital, entre os exploradores fordistas e os pós-fordistas. Sim, é o novo contra o velho, porém todos inteiramente atrelados à lógica do capital e sua mercantilização da cultura. O Overmundo, o Fora do Eixo, o Creative Commons, a Casa da Cultura Digital, os Pontos de Cultura em geral, tudo isso não é anticapitalista o bastante, apesar da propaganda. Falta tensão dialética, falta luta de classe, falta rancor. Basta analisar a dinâmica produtiva do Tecnobrega, para ali perceber a formação de uma indústria desigual, da divisão social e de um regime de acumulação. Se esse é o “novo modelo de negócios”, nada mais capitalista, logo injusto.

Na realidade, para o Passa Palavra, todas essas iniciativas sob crítica são ainda outra vez capitalismo — um capitalismo mais profundo e abrangente. Não admira o rapper Emicida vender a sua contracultura e atitude irresignada e se tornar o garoto-propaganda do Banco Itaú. Nem tantos slogans de “responsabilidade social” ou “consciência ambiental” na publicidade empresarial. Starts with you! O capitalismo cognitivo, enfim, não vende produtos, mas mundos em que esses produtos existem. Isso já se conhecia desde as sofisticadas propagandas de cigarro nos anos 1980/90, em que todo um modo de vida modernoso era engendrado para cada marca.

Assim como a geléia geral da contracultura dos anos 1960 terminou reapropriada pela ordem capitalista, o pós-modernismo se integrou inteiramente ao fetichismo da mercadoria na sociedade de consumo. Daí o rancor dos textos, quando os novos gestores e empresários, e o Fora do Eixo em especial, tentam capitalizar simbolicamente em cima das marchas das liberdades. Pior do que isso, agora os gestores não fazem mais nada, limitando-se a capturar o ciclo produtivo de fora, chamando-o malandramente de “externalidade positiva”. Nada mais vampiresco. Eis a origem da necessidade de denunciá-los, de expô-los como traidores da classe, colaboracionistas em pele de cordeiro.

Afinal, vocês, ativistas 2.0, não passam de acadêmicos new age deslumbrados e empresários da novidade-que-veio-dar-à-praia, em qualquer caso distantes da verdadeira revolta que move os oprimidos e alimenta o motor das rupturas históricas. Então, a certa altura, o Passa Palavra mostra o muque, cospe no chão e se proclama mais militante: “Não há teoria que não seja reflexão sobre lutas concretas, reais, vividas, sentidas na pele e narradas por aqueles que lutam, enquanto lutam. E é o que temos feito.

A análise é pertinente, bem estruturada, marxista e parte de premissas indisputáveis. Mas onde está o erro? o tremendo desvio de perspectiva? nas conclusões?

É claro que o mercado engorda os olhos para o manancial de novos movimentos político-culturais. É evidente que as suas engrenagens buscarão reapropriar-se e alimentar-se dos novos modos de produzir e organizar, transformando-os em mercadorias e imagens e espetáculo. O carnaval, o tropicalismo, o samba, o funk, o hip hop, a cultura hacker, o compartilhamento, as redes produtivas de cultura, os fluxos de afetos e desejos da geração, tudo isso é óbvio que se tentará tirar da circulação comum, privatizar, pôr um preço e atrapalhar, quiçá criminalizar o uso livre. É assim mesmo que funciona a Grande Máquina: canibalizando o trabalho vivo, o trabalho social combinado, tudo o que os homens produzem e se produzem e se valorizam, nesse processo de constituição do mundo.

Os autores do Passa Palavra insistem na luta de classe. Ora, isso é reconhecer, em primeiro lugar, que a relação social mediada pelas coisas possui dois pólos. Que, onde há exploração e explorado, também há resistência e sujeito político. Que, se o capitalismo tanto se interessa por certos processos de produção e valoração, é porque ali há trabalho e riqueza. Porque sem isso, sem o trabalho vivo, sem a potência de vida dos homens, o capital não é capaz de produzir nada. Então menos do que recuar e torcer o nariz para esses movimentos tão produtivos (eureca, o capitalismo já percebeu isso!), é preciso mergulhar neles. Pessimismo na razão, otimismo na ação. Faz-se urgente mergulhar com todo o senso crítico e toda a revolta rancorosa nunca-ressentida da geração.

O tropicalismo, a contracultura, ora, a Revolução Russa tiveram seus momentos de lutas inovadoras, seus devires libertários e comunistas. Toda revolução são muitas revoluções. Se depois foram neutralizados, mastigados, deformados, se depois passaram a falar em nome disso tudo para outros propósitos, como de fato passaram, ora, isso foi depois. Não dá pra julgar a revolução pelo futuro da revolução. Seria a suma injúria. Existe toda uma memória militante, muito além da história que ficou, onde faíscas e lampejos podem ressignificar o presente e, uma vez mais, efetuarem-se no sentido da libertação. Porque, acredito, ninguém é ingênuo para sustentar que a virada digital resolva os problemas do estado, dos partidos e dos patrões, como se sovietes e internet conduzisse ao fim da história.

Vale escutar o coletivo EduFactory: “Acolher a radical inovação da forma-rede significa, antes de tudo, assumi-la como um campo de batalha, continuamente atravessado por diferenciais de potência e por linhas de força antagonistas, pela produção do comum e pelas tentativas de capturá-lo.  E evitar toda e qualquer teleologia ingênua que termine por ler a intelectualização do trabalho como desmaterialização das relações sociais e o fim das experiências de luta. A rede é, ao contrário, uma estrutura hierárquica, e que a horizontalidade não é nada além de uma relação de força que é posta em questão. As práticas de subtração e autonomia, por um lado, e os processos de captura e de subsunção, por outro, constituem o ponto de tensão imanente à cooperação social.

Portanto, identificar e esquadrinhar as estratégias da reconfiguração capitalista, do fordismo ao pós-fordismo, é fundamental. Nisso, o Passa Palavra acerta. Forte no diagnóstico, mas por enquanto insuficiente em como resistir. Deve-se passar, agora, ao segundo estágio. O que fazer. Como imergir nesse movimento, sem medo ou ressentimento, e contribuir para dar-lhe um sentido libertador? Como caçar o capitalismo de dentro, já que a relação social é antagonista? Porque se há trabalho vivo ali, habemus proletariado. Quem são os aliados e parceiros nessa luta? Como entrelaçar-se com eles, dialogicamente, ajudar a “sistematizar seus anseios e construir uma pauta que movimente todos numa direção comum“?

Decerto jamais com conclusões peremptórias, que apontam o dedo ao diferente para acusar-lhe de inimigo ou traidor de classe. A crítica constrói quando explora as condições de possibilidade da superação do que existe. E não como dialética puramente negativa, que tende ao diletantismo e à paralisia prática. Não há como contornar, em todo esse formidável esforço do Passa Palavra, certo tom sectário e até mesmo auto-indulgente. O que, aliás, o MinC com Gil e Juca menos adotou, uma vez ocupado pelos movimentos sociais que fazem a luta do trabalho e por dentro dele.

 

Publicado em 8 de julho de 2011. Deixe seu pitaco.

Fala-se muito em reforma política, mas nenhuma reforma política é mais fundamental do que a democratização da mídia. Esta a grande reforma que o país aguarda há décadas. Governos mudam, regimes mudam, séculos mudam, mas o mesmo regime excludente e oligárquico prevalece nas comunicações brasileiras. Aqui, sequer o capitalismo liberal chegou. É um oligopólio de empresas familiares. Partilham entre si as concessões de TV e rádio, de ponta a ponta do país em suas filiais e retransmissoras. E ainda controlam simultaneamente jornais, revistas, editoras, produtoras de filmes e teatro.

Esses grandes grupos se vendem como imparciais e neutros, mas estão entranhados na política nacional e global, com posições conservadoras. Apoiaram a ditadura cívico-militar e agora se opõem à busca pela verdade histórica (que os desmascara). Colocam-se como paladinos da liberdade de expressão, mas são os primeiros a censurar vozes discordantes e despedir funcionários incômodos. Apresentam-se como sacerdotes da ética pública, mas as suas campanhas moralizantes não passam de instrumentos de chantagem e intimidação. Dizem-se praticantes do bom jornalismo, mas isto só significa certa forma vertical e elitizante de produzir e circular verdade e legitimidade. A opinião pública está contra o povo.

Um regime democrático não se concretiza quando toda a mídia for estatal, mas quando todos formos mídia. Quando for concedida voz aos sem-voz. Quando uma multidão de verdades e narrativas ocupar e disputar o espaço público. Mais vital à democracia que a tal “reforma política”, como vem se apresentando, é pôr em movimento um processo de empoderamento midiático de todos os cidadãos. Sem intermediário$ ou usurpadores da opinião pública, afirmar condições materiais para exercício do direito à expressão e construção coletiva e compartilhamento. Nessa luta, o estado não é o guardião da comunicação democrática, mas o seu maior inimigo. Não basta construir uma “TV pública” e muito menos fortalecer a TV dos bispos.

Mas para não cair na abstração, é preciso reconhecer que a voz nunca será concedida aos sem-voz. É preciso conquistar a polifonia, contra o coro da grande imprensa. Não está em jogo uma luta pela verdade, mas pelo regime de produção de verdades. A história da imprensa brasileira é a história de sua concentração e elitização. As forças democráticas foram derrotadas em praticamente todas as tentativas de desconstituir o oligopólio. E já estamos perdendo de novo. Nos últimos dez anos, foi perdida a batalha pela TV digital, por outro marco regulatório das comunicações, pelas rádios comunitárias. E estão sendo perdidas as batalhas por um Brasil banda larga, pelo compartilhamento de conteúdos, pela multiplicação de pontos de cultura e mídia livres.

O que fazer?

O movimento pode pressionar o estado por mais democracia na mídia. Mas isso cai num ciclo vicioso. Porque, para pressionar, tem que ter mídia, senão não faz efeito. É preciso capilaridade social, construção de redes e formulação de discursos pervasivos. Então é preciso, primeiro, tornar-se mídia. Mais do que isso, uma mídia diferente, inovadora e alternativa — além dos vícios do bom jornalismo, da qualidade formal e de edição centralizada, que caracterizam a grande imprensa. Quando os blogueiros progressistas reproduzem o mesmo modus operandi dessa mídia velha, não fazem outra coisa que fortalecê-la, reafirmando a estrutura conservadora. Fica parecendo que, no fundo, ambicionam ser grande imprensa eles mesmos, com o sinal trocado. E não progridem senão no caminho errado.

Constituir novas mídias apesar do estado. Isto é, constituindo um outro mundo que pode atravessar e reconstruir as instâncias tradicionais de representação: governo, partidos e grande imprensa. A tarefa reside em promover e ampliar a cauda longa de blogues e sites de esquerda, pontos e portais de mídia livre, rádios comunitárias, redes militantes e coletivos político-culturais das periferias, político-midiáticos e de artivismo subversivo. A criação de um potente discurso altermundista não se dá somente na língua escrita, mas também com filmes digitais, peças independentes, grafite, dança de rua, festivais fora do eixo comercial etc. Tudo isso numa teia de relações transversais e colaborativas, em sinergia de ações e resistências, cada um na sua diferença, num ativismo de enxame. Essa rede mobilizada, que circula conhecimento e o reformula, que inventa e reinventa modos de organizar e produzir, esse movimento dos movimentos, já está arrancando audiência do Jornal Nacional, — e tem tudo para constituir uma força política além do esquema tradicional de governos e partidos.

Nesse caldeirão, nascem iniciativas de contrapoder, como o Wikileaks, a Wikipídia, o Anonymous, a Universidade Nômade, o Centro de Mídia Independente, o Outras Palavras, o Diário Liberdade, o Trezentos, entre tantos outros. Assim, não admira o vigilantismo da internet, com seus AI5 digitais e leis Sinde, mas também de modo mais sutil, como no controle de Facebook e tuíter. Não admira, tampouco, a reação das operadoras de telefonia contra a universalização da banda larga e o compartilhamento wi-fi, — que dobrou, pela força política (midiática), a minoria de esquerda na composição do governo Dilma. Enquanto isso, os movimentos sociais das rádios comunitárias, dos grupos de compartilhamento livre, dos coletivos hackers vêm sofrendo com a intensificação da criminalização.

Mas não sejamos ingênuos, nem nos furtemos à permanente e saudável autocrítica. As novas mídias por vezes acabam reproduzindo estruturas hierárquicas, onde a horizontalidade não é nada além de uma relação de força posta em questão. Os novos modos de organizar em rede e enxame significam, sobretudo, assumi-los como um campo de batalha, continuamente atravessados pela produção comum e pelas tentativas de capturá-lo comercial ou publicitariamente. É fundamental manter-se lúcido sobre os riscos e limitações da forma-rede. Não perder de vista a horizontalidade, o compartilhamento, a lógica de código aberto e o excedente de cooperação (em relação ao mercado), — que é o próprio trabalho vivo e que, portanto, faz vivificar o movimento social.

O que fazer?

Articular mais redes, empoderar mais gente no processo de produção de verdades e narrativas, promover mais espaços dialógicos e horizontais. Seguir debatendo-se contra o gigantesco polvo das comunicações, nesta democracia mais-que-imperfeita. E continuar lutando e blogando e tuitando.

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PS. Recomendo a leitura do artigo de Fábio Malini em seu blogue, sobre os dilemas e desafios da fragmentação da cultura digital, sobre a dificuldade em atuar coletivamente através das redes.

Aproveito para recortar e colar suas propostas principais:

  • o estímulo à produção de ambientes agregadores da diversidade da cultura digital, mas que sejam criados e administrados pelos próprios usuários.
  • o estímulo à produção de mídias colaborativas em instituições de educação e cultura no sentido de ampliar a prática de expressão escrita, audiovisual e multimídia da cultura, como ainda produzir relacionamentos e redes sociais.
  • acesso à infra-estrutura de acesso universal e gratuito à internet via banda larga como política de comunicação das cidades. Isso para ampliar que novos produtores de cultura possam disponibilizar suas criações no universo das redes digitais.
  • o estabelecimentos de encontros (na forma de seminário, barcamp, wordshop etc) para ocupar a cidade com conteúdos e linguagens provenientes da cultura digital, ao mesmo tempo, para reforçar a participação social nos espaços públicos da cidade.
Publicado em 5 de julho de 2011. Deixe seu pitaco.

Servidão moderna (De la servitude moderne), Jean-François Brient, França – Colômbia, 2009, 52min.

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“Nenhum homem se machuca senão por si mesmo.” Diógenes de Sinope


“Gostaria muito de entender como pode acontecer que tantos homens, tantas cidades, tantos países sofrem sob o jugo de um único tirano que não possui outro poder que não aquele concedido pelos próprios homens.” Etienne de la Boétie


“O sábio deve ter o dinheiro na cabeça, nunca no coração.” Jonathan Swift


“Que época terrível esta, onde idiotas dirigem cegos.” William Shakespeare


“A vida é breve, a alma é vasta, ter é tardar.” Fernando Pessoa


“Os jovens em todo mundo tiveram de escolher entre o amor e a lata de lixo. Em todo mundo eles escolheram a lata de lixo.” Guy Debord


Trabalhas sem alegria para um mundo caduco, / onde as formas não encerram nenhum exemplo. / Praticas laboriosamente os gestos universais,  / sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.

Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas, / e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue frio, a concepção. / À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze / ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.

Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra / e sabes, que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer. / Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina / e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.

Caminhas entre os mortos e com eles conversas / sobre coisas do tempo futuro e negócios de espírito. / A literatura estragou as tuas melhores horas de amor. / Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.

Coração orgulhoso, tens pressa de confessar a tua derrota / e adiar para outro século a felicidade coletiva. / Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição / porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.” Carlos Drummond de Andrade

 

#Eblog. muito mais que virtual: Anticapitalista e libertário – Nota política da nova frente de luta de blogueiros e blogueiras de esquerda brasileiros, de que o Quadrado dos loucos participa sem renunciar ao senso crítico.

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Quem somos

O #Eblog é um grupo de blogueir@s de esquerda, unidos ao redor das bandeiras anticapitalista, antirracismo, antihomofobia, antimachismo, feminista, ecossocialista, em defesa dos povos indígenas e quilombolas, sobretudo pelas lutas cotidianas das trabalhadoras e dos trabalhadores pela emancipação de sua classe internacionalmente, que defende uma concepção material de democracia socialista, revolucionária, de baixo para cima feita, vivida e instaurada cotidianamente pelos de baixo, isto é, que não se restrinja à democracia capitalista liberal, sua liberdade formal e seus direitos abstratos.

Progressismo ou anticapitalismo?

O #Eblog não se propõe ser uma associação orgânica de “blogueir@s de oposição ao governo” (embora conosco possam atuar opositores/as de esquerda ao atual governo), ou uma associação jornalística extraoficial, mas um agrupamento de lutadores e lutadoras que, reunid@s numa frente de lutas comuns, pretende ocupar e resistir no caminho abandonado por forças outrora de esquerda.

A atual guinada liberal-conservadora do Governo Dilma, sob o argumento da “correlação de forças”, está acometendo parte da blogosfera que se coloca no campo de esquerda, e que, recentemente, assumiu para si o adjetivo “progressista”. Não negamos o fato de que a política também se faz no jogo de forças entre as classes sociais, na chamada “correlação de forças”, mas é preciso reconhecer o momento em que essa expressão se torna um argumento universal para se responder a qualquer questionamento e se esquivar de todas as críticas políticas. É preciso construir projetos políticos capazes de ir além da consolidação de burocracias e aparelhos, que acabam ficando pra trás do movimento das forças sociais vivas de resistência e luta em geral.

Propomos, pois, lutar por alternativas a essas práticas políticas, colocando-nos sempre à disposição de ações de luta unificadas em favor de bandeiras políticas emancipatórias em comum que vão para além da defesa deste ou daquele governo, este ou aquele partido, e sim de emancipações inadiáveis e urgentes. (…)

Continue lendo no Diário Liberdade

Publicado em 3 de julho de 2011. Deixe seu pitaco.

Continuo a série de resenhas deste blogue, a respeito do debate da esquerda, iniciado pelo coletivo Passa Palavra, com o texto A esquerda fora do eixo. Na primeira resenha do Quadrado, Sair dos eixos à esquerda (1), dialoguei com aquele artigo inaugural. Neste, passo à apreciação crítica da réplica de Ivana Bentes, no portal Trezentos, A esquerda nos eixos e o novo ativismo.

Quero agradecer: ao Pablo Ortellado, que incluiu o artigo anterior na cronologia ao final do texto no blogue dele, Capitalismo e cultura livre; ao Pìmentalab, que também organizou um catálogo abrangente sobre as ramificações da discussão pela blogosfera; e ao Matutações, que me replicou mais diretamente aqui e a quem pretendo retorquir em breve.

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II. A esquerda nos eixos e o novo ativismo“, Trezentos / Ivana Bentes, 22/06/2011

Numa primeira leitura, podem parecer deslumbramento as exclamativas e palavras em maiúsculas. Essa poética nada acadêmica tem razão de ser. Conhecida pela polêmica que travou contra a cosmética da fome no começo dos anos 2000, sobre filmes-de-favela como Cidade de Deus, a autora tem por referência o cinema de Gláuber Rocha. Daí o transe, à moda tropicalista. Daí a poética delirante, numa verborragia de conceitos, explosões retóricas, divagações e frases de efeito, esse deixar-se errar — tudo isso consiste numa estratégia discursiva.

Em A revolução é uma eztetyka, Gláuber defende que a poética revolucionária envolve a coordenação de uma didática e uma épica. Se a didática visa a informar e conscientizar as massas, a épica as estimula, ao apelar às forças mais instintivas do mito, da criatividade, do desejo. Didática sem épica produz “informação estéril, e degenera em consciência passiva nas massas e em boa consciência nos intelectuais.” Épica sem didática gera “o romantismo moralista e degenera em demagogia histérica”. Talvez aí se mova a autora, nessa brecha entre um discurso enfadonho e ressentido de “esquerda velha”, e a histeria romântica e demagógica de “esquerda nova”.

Descabe ao texto, de qualquer modo, a acusação de pós-modernismo débil. Isto é, esvaziado de lutas concretas e tendente ao lero-lero autofágico. Nos últimos tempos, essa acusação tem aparecido como causa célebre na pena de intelectuais preguiçosos, enjaulados em seus sistemas-mundo, incapazes de metabolizar novas teorias, prontos a vomitar razões pretaportês contra elas. Não é o caso, doutores, não há no texto do Trezentos nenhuma deriva indiferente de signos ou clima de ambiguidade generalizada, nenhum niilismo dogmático, ecletismo dândi ou relativismo modernoso. Primeiro, porque assume uma narrativa. Por sinal, etapista. Do fordismo ao pós-fordismo, percebe as transições, os vaivéns, as tendências, os nexos em termos de causa e conseqüência, as superações críticas, as reconfigurações do modo de produção. Segundo, porque admite a necessidade de constituir um sujeito político, de identificar e potencializar as articulações e os enrodilhamentos das lutas contemporâneas. Ora, que pós-modernismo mais estranho, com sujeito e com história e com revolução social…

Alguns anti-pós-modernistas deveriam mesmo era conhecer e estudar mais, deveriam beber o sangue do dragão e falar a língua dos passarinhos.

No tom glauberiano, o texto de Ivana Bentes responde ao coletivo Passa Palavra no nível da linguagem. Exprime poeticamente que a história das lutas não passa pela linha justa, por alguma dogmática unicamente didática. Mas por uma narrativa esburacada, multidimensional, cheia de fios soltos e coisas inacabadas, — uma narrativa que se debate com a linguagem mesma, atrás de uma alternativa ética, estética e política, simultaneamente. Isso é burilar um discurso que multiplique as lutas sem separá-las, sem perder a sinergia do movimento como um todo, a sua potencialização em comum. A teoria pode ajudar a derrubar os muros que separam as práticas, e a prática derrubar os que separam as teorias. Eis uma preocupação irrenunciável das esquerdas: renovar os modos de lutar e trabalhar e, assim, reinventar ainda outra vez a roda da resistência, para continuar girando.

O artigo no Trezentos sublinha: a resistência ao capital se dá  através da constituição de novas formas de produzir. O o que também implica, no campo do trabalho, uma nova articulação entre didática e épica, em suma, uma nova poética das lutas. Os movimentos sociais mais radicais serão, portanto, aqueles que souberem inventar e reinventar, criativamente, essas formas de trabalho vivo, de autovalorização e organização transversal, em rede. Se o capitalismo incide sobre o trabalho, para dele se locupletar, então trabalhar e produzir em certo sentido, de libertação, já significa imediatamente estar lutando, estar na luta de classe. Lênin nunca cansou de ensinar que uma política insurrecional depende da organização da produção.

Nisso, nesse mapeamento dos dilemas e desafios contemporâneos para as esquerdas, não há o que ressalvar na réplica de Ivana Bentes. Senão a insuficiência do artigo em avançar na crítica, de modo mais esclarecedor e concreto, sobre a práxis do Fora do Eixo. Pois esse coletivo arte-ativista tinha sido o exemplo tomado pelo Passa Palavra para desqualificar, de maneira mais geral, os movimentos político-culturais 2.0. Refiro-me aos movimentos e grupos aglutinados nas legendas cultura livre, cultura viva, pontos de cultura e cultura digital, que se empoderaram, inclusive com recursos públicos, ao longo do governo Lula, no ministério da cultura de Gilberto Gil (2003-08) e Juca Ferreira (2009-10). O exame tem de ser caso a caso, mas esse coletivo está no cerne da questão, pelo vulto, simbolismo e referencial prático. Essa análise concreta deve servir não para incensar uns e desqualificar outros, como etiqueta, o que nada acrescenta a nada. E sim para encontrar o ponto em que a luta se concretiza e range, em que a exploração e a resistência se chocam. Para, a partir daí, desse antagonismo crítico e premente, adotar estratégias que fortaleçam o sentido da libertação.

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Vale ressaltar o novo, tão presente na argumentação dela, porque o novo aqui é, sim!, fundamental. Não pode haver processo revolucionário sem a descontinuidade. Toda ruptura implica a irrupção de algo que não existia. Que, aliás, sequer poderia existir, porque não lhe permitiam as condições de existência. Que, precisamente por não ter lugar na ordem vigente, é estimulado ao desejo inestancável de resistir e revolucioná-la. “A tradição não explica a ruptura”. Não é preciso pesquisar muitos momentos históricos para perceber como a esquerda não costuma renunciar ao novo. Paradoxalmente, e com todas as suas aporias, o novo constitui mesmo uma tradição das lutas. E se, ao capitalismo, tanto interessa se apropriar dele, silenciá-lo e lucrar em cima de sua passividade; talvez seja porque, de fato, no novo que se afirma e produz haja potência de vida e geração de valor. É aí que, quem sabe, devamos enxergar o sujeito político. Não deveria a esquerda, que resiste e canta, igualmente batalhar por esse novo? O novo desliza dos velhos problemas sem refutá-los, mas coloca novos problemas, novos horizontes de luta, novas e esquisitas alianças. É preciso reconhecer o prestígio do novo e, ao mesmo tempo, evitar terrorismos teóricos ou superstições deslumbradas. Por isso, menos que fundar uma religião do futuro e substituir o velho, o novo pode servir para reorganizar o velho de modo mais potente, para revitalizá-lo e seguir pensando e seguir lutando. Militantes querem, sim, algo novo e diferente. Como diria Clarice, algo ainda sem nome.