Desde que nasceu, a arte moderna questiona-se: ‘quem sou eu’? Poucos movimentos interrogaram tão a fundo quanto a Pop Art, a que o artista americano Keith Haring (1958-90) se filia. Rebento de sociedades altamente industrializadas, o Pop pretende reaproximar a arte da vida. Socializá-la e lhe abrir os portões ao cidadão, a todos. Desestetizá-la. Para isso, investe na produção os elementos onipresentes da cultura de massas, ressignificando-os, recontextualizando-os. Tempos warholianos dos retratos de celebridades, de Eletric Chair, de Coke Bottle, de Dollar Bill, de Blowjob.
Planos de Blowjob, de Andy Warhol
Nessa linha, Keith Haring também põe em questão os limites da arte. Radicalmente. Se a Pop Art se concentra no trivial, no óbvio, no massificado, Haring radicaliza e mergulha no totalmente banal. Se a Pop Art busca o campo mais largo da comunicação, Haring midiatiza-se ele mesmo como marca comercial auto-replicante. E se os críticos temiam pela diluição da Pop Art na mercadoria, Haring monta a sua Pop Shop, freqüentada até por Madona, em que se vendem camisetas, bonés, broches, cartazes e tutti quanti.
Na obra, Andy Warhol não perdia a oportunidade de zombar das instituições de arte. Ele mesmo uma perfomance ambulante, não cessava de provocar a indústria que tanto lhe incensava em resposta. Nas entrelinhas, Andy proclamava: ‘Gente, acordem, sou uma fraude!’. Justamente a atitude, vazia e midiática, lhe conferia o status de ícone. E disso ele sabia bem. Nesse sentido, em consciente auto-ridicularização, Warhol levava a sério a tarefa de romper a hipocrisia das artes e o absurdo de sua cultura. Fazia isso não se distanciando, mas indo até o fim das operações de mistificação do sistema.
No trabalho de Keith Haring, pós-Warhol, não se constata o mesmo ímpeto zombeteiro. Seus trabalhos transpiram uma aposta autêntica no banal. As suas figuras sempre simplórias, de contornos infantis, sem preenchimento, em ações prosaicas e derrisórias. Em geral, trata-se de desenhos com elementos icônicos da cultura de massas, pintados em três ou quatro cores básicas; às vezes compostos como comics em tirinhas.
Não há enredo elaborado. Os bonequinhos pulam, gesticulam, correm, dançam, veneram, fazem poses, abraçam-se, masturbam-se; envoltos por cenários com engenhocas, discos voadores (e seus raios) e pirâmides. A figura do cachorro é freqüente: ora aparece como líder religioso, ora como DJ. Estão amalgamados códigos de hip-hop, disco, quadrinhos, arte tradicional e iconografia religiosa (sobretudo o sacrifício e a iluminação).
No traço e nos temas, a técnica da figuração livre semelha à prosa espontânea dos surrealistas, que pretendiam criar mais diretamente do inconsciente. Keith desenha sem projetos, planos ou ideologias. Não supreendem, assim, as dez telas de Apocalipse. Os indefectíveis bonequinhos são conduzidos à imolação coletiva num juízo final caótico, numa criação em co-autoria com o escritor beatnik William Burroughs.
Duas das dez silkscreens da série Apocalipse (1988)
Por paradoxal que seja, a banalização extrema impediu a neutralização e apropriação pelo mercado de arte. Embora possuam perenidade, ao contrário de perfomances ou happenings, os desenhos são tão reprodutíveis e simplórios que se inviabilizam como mercadorias. Outsider, na década de 1980, o artista resolveu ele mesmo lançar um empório em Nova Iorque, a Pop Shop. Ali vendem-se produtos com desenhos de Haring, erigidos à marca registrada. Poucas vezes um artista fora tão honesto em comercializar a sua arte.
A Pop Shop conclui a sua trajetória iniciada como grafiteiro precário de metrôs. Antes, ele difundia os desenhos pelo espaço urbano, o que lhe rendeu uma ou outra prisão por vandalismo. Aos poucos, abriu espaço em eventos da “nova arte”, na agitada Nova Iorque do final dos anos 1970. Persistente, Keith conseguiria o breakthrough em circuitos institucionais de museus e galerias, a partir de 1980. Andy Warhol adotou-o “artisticamente” e ele chegou a participar da Bienal de São Paulo de 1983. Deixou grafites pelas ruas da metrópole, hoje perdidos.
Desenhos clandestinos no metrô, 1978
Lado de fora da Pop Shop
Isso é arte?
Uma crítica freqüente de Mário Pedrosa orientava-se contra o conformismo da arte pós-moderna. Em especial, da Pop Art norte-americana. Para ele, esses movimentos renunciam à tensão dialética diante do estado das coisas. Sem o movimento do negativo, opondo-se ao fato social, não pode haver arte. Esfuma-se a distância entre arte e cotidiano, indispensável para que a primeira critique e transforme o segundo. Ao abraçar o banal, a Pop Art depõe a dimensão estética, despotencializa-se, falha em achacar a desigualdade e injustiça sociais e confirma o modo de produção. Regressão patética, falência das vanguardas, canto do cisne da arte moderna — originariamente antiburguesa, agora servil e adaptada, publicitária.
Não vejo assim. A novidade de Keith Haring não consiste na mercantilização da arte pelo artista, que é praxe mais ou menos evidente desde que o mundo é mundo. Reside, isso sim, em contornar os circuitos de captura, que avançam sobre a arte contemporânea, mesmo sobre obras desmaterializadas, reagindo às novidades. Keith Haring conseguiu fazer com que a sua arte chegasse ao skate, ao boné do rapper, à camiseta do adolescente do Bronx. Veja-se, por exemplo, o destino das intervenções de Warhol, enquadrado que foi ao gosto estetizante da high society, branca e riquinha. Os desenhos de Haring, ao contrário, ascenderam à cultura urbana, sorvidos por pobres e precários, numa poética afirmativa e construtiva em meio ao niilismo nuclear dos anos 1980.
Criticar o consumo em si mesmo é abstração imbecil. Geralmente, aqueles que denunciam a produção de bens supérfluos vestem-se de grifes, almoçam em bons restaurantes e não deixam de portar os seus iPods e celulares de última geração. Essa crítica vulgar da “sociedade de consumo” mascara a discussão material, que é a democratização na produção e distribuição dos bens. O caso não é demonizar a riqueza e pretender dividir o essencial; mas precisamente dividir a riqueza, isto é, o excesso. Não é lutar pelo mínimo, mas pelo máximo existencial.
Independente disso, incomoda em Keith Haring o modo como coordena o valor artístico com a sua militância política. Seus desenhos abordam temas como sexo seguro, racismo, perigo das drogas, igualdade sexual. Contudo, o fazem no mesmo estilo, por sinal monocórdio, de seus trabalhos menos “engajados”. Subordinar a arte a slogans, por melhor que seja a intenção, afasta a sua característica artística, logo a potência como formulação e comunicação.
O caso é distinguir entre a subordinação da obra a finalidades externas (ex.: realismo soviético), e a integração desses fins no plano das matérias formadas, que constituem o valor artístico (ex.: Hélio Oiticica). Aliança e não hierarquia. Autonomia e não heteronomia. Isto não significa cair na armadilha oposta, da arte pela arte, do exílio na torre de marfim. Não implica, na medida em que os sentidos políticos e éticos podem ser atualizados — e muito melhor — através da obra.
Com efeito, a obra pulsa de vida, justamente, quando certos sentidos, na sua singularidade, foram e só poderiam ter sido comunicados através do estilo artístico em questão. E não de outra forma; sem arte, esses sentidos políticos e éticos não frutificariam. Noutras palavras: a arte foi a condição necessária para a emergência desses sentidos em primeiro lugar. Aconteceram — no sentido forte. Os sentidos não preexistem à obra: se criaram no ato mesmo de afirmação estética.
Daí se dizer que, em Keith Haring, a obra politiza-se mais com os processos que ela instaura, no comum dos afetos e linguagens da metrópole, do que por algum engajamento notado em certos trabalhos. Quer ao incentivar o uso da camisinha, quer ao candidamente pregar que “a droga é uma droga”, o que fica mesmo é a circulação e mobilização de signos e valores. A dimensão de Haring agiganta-se graças ao processo artístico por ele debelado, por fora das ciladas institucionais da arte, numa democratização mais palpável do que a tentada por outros artistas Pop — Warhol incluso.
Portanto, mais do que zombar e demolir, Keith Haring protagonizou um momento construtivo da arte contemporânea.
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Exposição Keith Haring – Selected Works, Caixa Cultural, Av. Paulista, 2.083 (no Conjunto Nacional).
De 31 de julho a 5 de setembro de 2010, todos os dias de 10h às 21h.