Para ler desde o início: Parte 1 e Parte 2
Chiam pulmões, expandir e contrair. aqui já dá pé. fico em pé. água pelo pescoço. caminho. diástoles e sístoles da bomba chamada ser humano. o menino chego à beira-mar em seus trinta anos. contemplo ainda outra vez o espetáculo das manadas humanas. a multidão de bombas na praia de domingo. caminham rente ao mar nas duas direções. se cruzam e se medem as fisionomias, as pernas, os peitos, as grifes dos óculos escuros. centenas de milhares de pegadas inúteis que o insolente mar não tardará em apagar. para sempre. será assim até o dia em que a bomba se recusar a funcionar. o fim de expediente. expira a vida útil. do motor, das câmaras, do fluido.
Estico os braços ao máximo. há muito desisti de entender. é como abraçar as ondas que agora batem às costas crestadas pela manhã. chego ao seco o sol pousa no rosto. frontal. tudo é luz não fosse a noite de ontem. insistente noite. Joana ontem. Alberto ontem. o gosto acre dos cigarros aguça o palato. bolinha azul do frescobol. Joana ou Laísa? Joana. rodinha de bola. atravesso a extensa faixa de areia. mata fechada de guarda-sóis. caravana de ambulantes. Joana e Alberto. lombos sinuosos com o rabo apontado ao céu, em despeito à autoridade do universo. teimosamente imperturbável.
o mosaico fica mais nítido. fluxos desordenados se condensam em nacos de recordação. o ontem se sedimenta. ontem foi a festa me recuso a chamar soirée lá na casa do Alberto. uísque e red bull. invocado de tudo, rodopiante, até o horizonte da não-lembrança. táxi me escorraçou na sarjeta, vomitado. Seu Osvaldo me pôs no elevador. disso lembro. mas da festa? saí expulso? não sei.
Alberto saberá. meu grilo piadista. o cara que sempre quando encontro tenho que ficar bêbado. e passar confidências. sua presença me ativa a vontade de Dioniso. um Dioniso vulgar, mas fecundo. me leva a delírios produtivos. Alberto conheci no final da faculdade. amigo mesmo, não como outros que já morreram aos trinta e pra quem amizade é tomar choppe de vez em quando pra falar da injustiça do mundo e da trairagem sic! das mulheres. Alberto o cara mais não-tô-nem-aí que já conheci. não discorda nada de você, te sacaneia em tudo. tem uma cosmovisão romântica não sentimental nunca melosa. um guerreiro indomável contra a Grande Máquina. se não tem nada maroto pra dizer, se limita a sorrir e sacudir a cabeça pra frente, como quem diz sim, sim, sim. seu ânimo avacalhador não deixa o tédio prevalecer em situação alguma. outro dia no bar deu dois pilas pro atendente passar discretamente um bilhete à garota sozinha-tristinha no canto. a garota leu, ficou vermelha, sorriu súplice, foi embora contente. o bilhete dizia “sou só um humilde garçom, mas eu te amo”. gentil e condescendente, porém não muito, perde o amigo e não a piada. fraseador por vocação. um dia tomando caipirinha ao poente, se virou do nada e disparou, muito sério: “como é difícil conversar com alguém que ainda não se convenceu da ausência de sentido último em todas as coisas”. ele tinha a lábia na ponta da língua. múltiplos recursos. se daria bem como vendedor de seguros, político, gigolô, alto executivo.
Alberto, nunca descobri qual era a dele de verdade. virou jornalista da página policial e não troca por nada. seu sonho de universitário era trabalhar nas Notícias Populares, leu de ponta a ponta, e escrever sobre tarados, seqüestros e bebês-diabos. se arrasou com o fechamento das NP, justo no ano da formatura. agora não tem mais bebê-diabo e seqüestro de Roberto Carlos, mas bem que ele se deliciou com a do traficante que estrangulou a namorada grávida com o cordão umbilical do feto arrancado. o texto dele ficou tão borbulhante de sentidos que parecia escrito por Gay Talese. já disse mil vezes pra ele investir em romance policial. ele acha essa de “livro” um fetiche bobo. sou um alvo preferencial de Alberto. ele só respeita as pessoas sacaneadas que não se sentem ofendidas. Alberto tem desprezo por quem se ofende com facilidade.
A última zoação dele comigo foi quando doamos sangue. chegou um mail na redação pedindo com urgência. lemos juntos o apelo tão sincero, o filho do remetente havia se acidentado e dependia de uma transfusão para sobreviver. olhamos um para o outro, e fomos, faceiros, o pedido de socorro impresso, conseguir a dispensa do trabalho que a lei concede nesses casos. passamos o dia repondo o sangue perdido no bar da Jebel. dias depois, o filho-da-puta falsificou meu resultado. dos exames que eles fazem automaticamente com o sangue do doador. forjou uma cartinha endereçada a mim, em papel timbrado, brasão do hospital, texto insuspeitável, e deixou sobre minha mesa. a carta sugeria, com bastante tato, eu entrar em contato o mais rápido possível com o “setor de infectologia”, pois “o exame havia dado alteração”, mas que eu “deveria manter a calma” porque era “necessário realizar novos testes”, segue telefone de contato. caí como um patinho. na hora tudo girou. dobrei os joelhos. até os lábios ficaram lívidos. e Alberto rindo que se mijava na sala ao lado. com outros colegas, claro. enquanto eu me derretia e corria pelo ralo. o medo da aids. a geração inteira sofreu e sofre com isso. como é que eu nunca peguei nada? Deus ajuda os pecadores. mesmo! meu prédio.
Subo pelas escadas pra contornar a velha do décimo andar. com seu poodle mais antipático que ela. subo molhado e descalço. porta destrancada. o ritual de praxe. lavar o pé. mijar. beber água. fumar. ligar o som. alto. Led e a cagada ficam pra depois. play Jimi. o bufão e o ladrão na manhã que já vai alta. tem que ter uma saída do labirinto. o vozeirão arrebenta. a guitarra arrebata. nessa, melhor que o Dylan. não é diferente, é melhor. o xamã. o maior artista do século vinte. o modelo de artista trágico. cabelo incrustado de vinho barato. resina vermelha no cabelo black. ainda está pra ser escrita a história da black music no Brasil. era mais novo que eu. tá ali ele vinte e sete anos mais novo que eu me encarando na parede. como o Jim, a Janis, o Kurt. esquento um café. ligo o celular. nenhuma mensagem. nenhuma ligação perdida. porra, Laísa. então ligo pra Alberto. minha leveza não perdurará. falsa leveza.
Alberto? soy yo, fala cara, ontem deu tudo errado né.
opa camarada, tava na praia?
é, banho de mar pra tirar a zica, e ontem de noite?
tirando a sua perfomance, a noite foi agradável, você sabe como um luar e uma guitarra flamenca são mais que suficientes pra agradar espíritos simplórios.
vai falando… eu o quê?
tás de brincadeira, não lembra, Paulo? a Joana…
a Joana, o que tem.
como venho te dizendo há séculos continua enrabichada por você, e pra valer.
sim, ela obcecou tô ligado, mas, ontem?
ontem e o Gustavo pelo visto não tá nem aí, ficou lá no jardim se exibindo, deleitou os espíritos simplórios com o seu vaaaaaasto cabedal trilíngüe sobre Rimbaud, Blake e Gláuber Rocha.
e a Joana ficou grudada, me perseguiu pela festa, Alberto tô lembrando (sim, me confrontou, disse que estava se separando, eu a entendia como ninguém, eu despertava nela uma outra Joana, mais livre e mais jovem, que naquela fase da vida dela se apaixonaria por um poste que dizer por mim, que a entendia como ninguém…)
pois é, mas você falou algo realmente comovente, sensível como só você sabe fazer, porque eu vi, ela de supetão fechou a cara e foi embora à francesa num choro contido, daqueles bem pungentes, e nem falou com marido e no momento Gustavo entretia meia-festa com truques de cartas.
não, eu, eu fui… direto, fui, quem sabe… cruel, falei coisas que não deveria, antigas (crueldade é o cru, o real, e não à toa se é cruel quando se “manda a real”).
guarde seu remorso pras tuas cabras.
a comiseração é minha.
o negócio é que, logo depois, você nos agraciou com uma apresentação de dança contemporânea, foi pro meio da sala se agitando e dançando, do jeito singular que você dança todos os ritmos, e fazendo caras e bocas, ao som de Elis Regina, ah sim, requinte da cena, a sua braguilha estava aberta.
…
e aí alguém fez uma piadinha, ou olhou com sarcasmo, você fechou o tempo na hora, parecia até que estava esperando por isso, e então ficou daquele jeito agressivo, falou em anticristo e insetos e après moi le deluge e aí, como sói ocorrer nessas ocasiões, tive que arrastar você até o táxi.
Alberto, pago uma cerveja hoje como compensação.
aceito se forem três.
feito.
que horas?
à tarde, tipo quatro horas, eu te ligo, beleza?
me liga que estarei em casa escrevendo a matéria do bebê enforcador.
aquele abraço.
até logo, maledetto!
Me deito diante do teto. Joana qual nada. Joana não. Laísa. andar de mãos dadas com ela decrépito sentimentalismo. será amar aceitar o ridículo. nas escamas do emotivo. eu que me orgulho de uma vida na chanchada. provar mais uma vez a fraqueza e a finitude. se render. admitir a baixa autoestima, amar quando não se ama o suficiente. não se é capaz de tecer relações em todas as direções sem, um dia, querer acordar colado à pele da amada. pele de Laísa que eu nunca mais terei. amar afeto passivo, rendição sem condições. término do sítio da cidadela da vaidade, assaltada pela carência. e eu, menino feito, não tenho mais muralha. o castelo construído pedra sobre pedra de experiência em trinta anos desmorona.
Laísa, ela, só ela, me provou novamente que não entendo nem nunca entenderei o porquê das coisas. eu que me convenci tão jovem que as palavras sentimentais servem para camuflar a crueza do assalto sexual. agora chafurdo qual porco no lamacento sentimento. grunhe suinamente: eu te amo. no pântano do amor soçobrou um navio de convicções. eu que nunca acreditei e sempre preguei que o amor não é um sentimento. ai, que situação novelesca. me decalco de mim mesmo noutro, só para constatar a minha perdição, só para ficar mais angustiado. Laísa meu mantra. refrão que se enfia nos minutos. maré de saudade. o amor é um mantra. no qual vacilo até ser colhido pelas primeiras imagens do sonho. adormeci.