Passado a ferro
Publicado em 10 de novembro de 2009. Comente

Ela me faz sair pra comprar cigarros. São momentos assim em que me convenço que, de fato, tenho um bom coração. Vou enfastiado, com gosto de fim de noite. Porteiro cascudo destranca-me a saída com o olhar que certos funcionários dirigem aos clientes, quando querem denotar o desprezo de quem se arvora da superioridade moral. A pé, marcho sobre as calçadas cinzentas do centro da cidade, deixando para trás o prédio estreito do motel, apertado entre uma loja de roupas populares e um edifício antigo de apartamentos. Frio tenebroso, vento que alterna com fino chuvisco, forçando a encolher-me em meio às parcas roupas. Onde acharei o bendito cigarro? Na rodoviária decerto consigo, aliás para lá já intuitivamente me dirijo, mas no meio da jornada descubro um simpático boteco, freqüentado por peões de obra nordestinos, bêbados da velha guarda e pistoleiras da madrugada. A estética urbana aprecio antes de cruzar a rua: portas de loja laranja e vermelho, pessoas viravolteando ébrias com seus copinhos de cerveja castiça, barzinho de higiene duvidosa, banheiro tão enlameado e mijado quanto a cozinha. Dezenas de adesivos coloridos de propaganda eleitoral decoram as paredes azuladas, junto de anúncios de mãe-de-santo que traz a pessoa amada em três dias, e de crédito fácil sem consulta. A música sertaneja, um embalo melódico, uma mulher já na casa dos cinqüenta, trajes mínimos e pouco generosos, dança com um negro mirrado, de boina e impecável sapato de bico fino. Não reparam em mim, talvez pelo cheiro de noite, sexo e mundanidade, embora eu jamais, por mais que me esforce, por mais que a desgraça abata-se sobre mim, jamais serei um deles, e jamais me considerarão como um. Uma barreira entre dois mundos incompossíveis, que se pode ser transposta ocasionalmente, não pode ser afastada, pois é a própria espinha do mundo em que vivemos. E não vivemos no mundo, mas no terceiro mundo.

Só de calcinhas, ela acende o Derby e o cheiro do cigarro barato mistura-se com os lençóis, o suor, os perfumes, o látex. Sua vitalidade, tão solar há menos de uma hora, tornou-se mortiça, sem brilho, e seu olhar obstinado inspira-me um sutil sentimento de imobilidade de espírito. Ela se senta de modo estranho, me parece desconfortável: as costas na parede, uma perninha pendendo fora da cama, a outra formando um triângulo surpreendentemente equilátero, os braços cruzando por sobre o tórax, trocando a cada dois minutos o cigarro de mão — e ela fuma vários, um após o outro, enquanto o olhar se dissolve vagamente, na modorra daquele quarto tão típico. Ventilador de teto (desligado), cama rústica de madeira pobre, lençóis grossos, cortinas marrons com manchas de gordura, paredes que um dia foram brancas, agora enegrecidas, marcadas, riscadas, nelas brotam irregularidades, buracos com fios coloridos que deveriam ser tomadas, pregos tortos e perdidos, buracos recobertos por gesso, percebo como em um ponto alguém pichou uma longa citação, que resta ilegível senão no trecho “…não sei se posso achá-la eu mesmo…”.

Não posso afirmar, tantos anos depois, em que momento a situação insuflou-me a mais agressiva onda de melancolia. Não foi instilando-me — não, dominou-me! contudo! soa-me simulada esta tentativa de colocar no nível da escrita um momento superabundante, desses que se realizam livremente e por isso fogem para sempre de nossas redes dicotômicas, e resta desumano capturá-los na memória ou articulá-los em frases, de tão caleidoscópicos e sintéticos e epifânicos. Seria como inventar um modelo matemático para explicar e reproduzir, em nível microscópico, o regime turbulento das águas quando irrompem das comportas de uma hidrelétrica. Fluxos explosivos que nos molham por inteiro, exigindo-nos que fechemos os olhos. Esta vontade vã de compreender totalmente, de sistematizar, de açambarcar, finda por trair o chamado profundo do acontecimento mesmo, expurgando-o de seu brilho para apresentar-vos, leitor, um cadáver verbal, pálido, já perdendo o calor, entre lírios, devorado que é pelos vermes da duração. É preciso confessar que já devo estar longe do que me acontecera: memórias, sinais, augúrios, sonhos, potências, arrependimentos, vaidades, enigmas, ciladas, obstinações, sombras, tudo isso se mistura e pessoa alguma tem estômago para receber em sua unidade, em sua verdade vital.

Ao escrever, para ser meu o que me ocorreu, ou que aconteceu diante de mim, comigo e em mim, junto-lhe associações e maculo-o com simplificações, interregno entre o vivido e o expressado onde o tempo se rasga em relâmpagos e tempestades. Dizem que o tempo se transfigura no rio em que nunca nos banhamos duas vezes, pois navego por corredeiras desconexas, rafting das lembranças recalcitrantes, rochas em que me esfolo e sangro, circuito árduo a desaguar numa lagoa, águas escuras e muito plácidas, pássaros chilreiam, vitórias-régias estancam o bote e então ouço das matas atlânticas, assombrado como vara verde, cânticos imemoriais e incompreensíveis de homens e mulheres que não conheci, porque estão há muito mortos.

Mas para que complicar? talvez o conjunto: o semblante baço dela, disposta em posição impossível, o ambiente amortecido, o cigarro vulgar, o ventilador de teto, a noite moribunda dando lugar ao lusco-fusco, que inaugura uma manhã nuviosa e esbranquiçada, afecções confusas em cujos pólos o ódio e a adoração despem-se do sentido usual, em que a inveja, a emulação, o orgulho, a vergonha, a coragem, a esperança, tudo isso sucumbe à dor mais primeva e selvagem, como o sentimento do primata ancestral que, numa noite silenciosa e sem vida, pela primeira vez percebeu as estrelas como estrelas… e chorou. Mas ela não chorou, quando lhe perguntei:

— Agorinha mesmo, tu não tava pensando em nada, nadinha, não é?

— Em nada.

Foi então que vi o vazio de seus olhos, e contemplei-o com a maior seriedade de quem vive ou ao menos tenta viver numa realidade abundante de beleza e magia. A anatomia da melancolia resolve-se naquele olhar, pináculo de uma situação vazia, mas tão vazia que nem a morte nela poderia se meter. Um vazio assim tão eloqüente, tão esplendorosamente eloqüente, que me preencheu do estarrecimento de talvez compreender o significado da clara noite do nada. Um quarto de motel impiedosamente insignificante capaz de dimanar todos os sentidos do universo. Um quarto no qual entreolham-se, aturdidos pelo eterno retorno da corrupção redentora, duas criaturas angelicais e endiabradas, dois vigias das dobras da realidade, onde termina esta dimensão e começa outra, floresta negra onde Heidegger vislumbrou o ser, onde Santa Teresa atingiu o êxtase, onde Sidarta Gautama ascendeu ao nirvana. Perdoem-me por favor, perdoem este escriba por sua grandiloqüência, por me bandear ao misticismo, por trair as palavras, mas devo ser sincero mesmo contra meu próprio gosto pessoal, e portanto devo dizer-lhes que foi nesta ocasião, então com vinte anos, que pela primeiríssima vez experimentei a angústia, essa que somente iria ler a respeito anos mais tarde, uma angústia gutural e espantosa, que talvez outros, dizem, possam pressentir quem sabe nos estertores de uma guerra, no fervor religioso, na agonia de uma doença incurável, na dor da perda, num deserto misantrópico de emoções tortuosas, embora eu não acredite nessas histórias clássicas, tendendo a crer que isto se passa mais provavelmente numa tarde qualquer do metrô ou ao passear pela beira de uma praia na maré baixa, porém que eu, admito-o, indivíduo deslocado jamais redimido, só pude e posso autenticamente vivenciar em momentos insípidos, ilídimos e insignificantes, anti-heróicos e demeritórios, e que se perdem em absoluto instantes depois de brilharem, sobrando-me, assim, somente falsificá-los, como faço agora, repetindo-os como farsa literariamente arquitetada.

(…)

Publicado em 26 de outubro de 2009. Comente

O jogo continua em meio a bebidas, cigarros e putas. Uma hora de fluxos e refluxos dos exércitos, eventualmente estabeleço uma posição sólida: meus exércitos rubros dominam a verdejante América do Sul e engendro um novo dia D sobre a azulada Europa, invasão preparada a partir da Groenlândia, território em que acumulo dezenas de pecinhas. Tudo corre bem, já que o objetivo (incrivelmente jogávamos War seguindo a lógica das cartas de objetivo) consiste em dominar todos os territórios dos continentes da Europa e da América do Sul. No entanto, como sói ocorrer nessas situações, Richard e Jack aliam-se contra mim e realizam investidas simultâneas, desmoronando a minha estratégia. Richard parte da América do Norte para rechaçar a Groenlândia, enquanto Jack implacavelmente mina as bases sul-americanas. Eu perco. Em parte resignado pela injustiça intrínseca desse jogo, em parte contrariado, mas em todo caso reconhecendo que há certo romantismo na derrota, é uma da manhã e decido gastar o pouco que me resta para o mês, enquanto a chuva lá fora inunda os esgotos de São José dos Campos.

Bancar um programinha, claro, e passo a esquadrinhar o salão. Há quem busque o desestresse, desanuviar a ansiedade e a angústia de um mundo glacial e torpe e solitário, escapismo de um dia-a-dia cada vez mais intolerável. Há quem empreenda caçadas furiosas atrás da beleza e da aventura, numa estética do gozo que não passa de fase a superar-se, sob o risco de, não superada, resultar no desespero da vacuidade. E finalmente há aqueles que, como eu, não tem qualquer explicação convincente para se ver nessa situação, e pretextam os mais diferentes motivos para se livrarem de perguntas idiotas, razão alguma senão, quem sabe, o sentimento tênue e impreciso de, no final das contas, pertencer ao fundo da noite, na sua imprevisibilidade e soturnidade, no seu panorama barroco do ilógico. Como escreve certo romancista argentino, só é possível encarar o absurdo da vida vivendo-se absurdamente.

Demoro poucos instantes para achá-la numa cadeira postada discretamente no fundo do salão, ao lado do viveiro. Quase imperceptível, mas não, recordo-me dela chegando, há vinte ou trinta minutos, em provável retorno do primeiro, quiçá segundo cliente daquela noite. Não a conheço, e de fato no Greenhouse era costumeira a rotatividade das primas. Mas, porra, o que nela me atrai?, pergunto-me inquisitivo… não é a franja, os olhos claros e o frescor de uma pele delicada, não, decerto deve ser o olhar obstinado, resoluto, porém ao mesmo tempo defensivo e desconfiado, devem ser os seus gestos maquinais, que ela ergue como barreiras a uma análise mais aprofundada de sua personagem. Depois fui saber que contava dezenove anos, um a menos do que eu, porém naquele instante a avaliava mais velha, por certo em virtude da maquiagem sordidamente excessiva que, nessa situação específica, há-de me apetecer. Uma porção de anéis e apetrechos, ela beberica um líquido avermelhado, Campari, e fuma cigarros baratos vendidos a granel, talvez Derby. Me cumprimenta por através das brumas de cigarro, como se já nos conhecêssemos de longa data, mas não deixa de transparecer um certo desconforto, uma gravidade sombria que, uma vez mais, me instiga, ávido por mistérios lunares, à aproximação.

Trocamos breves e falseados sorrisos, ela não faz menção de vir ao meu encontro. Eu é que vou. Sei lá se deseja que me sente com ela. Estamos num prostíbulo, não é? Instalo-me ao seu lado, e tomo a palavra para abrir a conversa:

— Oi. — disse, na simplicidade e singeleza dessas duas vogais que, juntas, formam a mais mágica das palavras de língua portuguesa.

— Oi. Tudo bom. — afirmou ela.

— Mas por que você falou tudo bom, se eu não perguntei? — replico sem pestanejar num rompante.

— O quê?! — encara-me atônita, como se um alienígena recém-chegado de Andrômeda lhe escancarasse os genitais extraterrestres. Não respondo, somente fito-a maroto. Está a ponto de deixar-me, mas lhe estendo um dos mais solares sorrisos, e ela resolve ficar, talvez ficasse de qualquer modo, cumpre anotar, e estivesse tão-somente fazendo um charminho básico, outro artifício dessa profissão tão complexa quanto repleta de sutilezas.

— Vamos começar de novo, ok? — disse-lhe com naturalidade — Oi.

— Oi. — emputecida, com voz rouca e sensual.

— (longa pausa) desculpe, não consigo imaginar nada que resguarde a geometria elegante de “oi”. — confessando o faux pas.

— Olha meu, se continuar essa palhaçada, eu vou embora.

— Vai embora pra onde? estamos na última parada, a última estação da noite, não há para onde ir.

— Pro quinto dos infernos! — e quando se ergueu, seguro-lhe o braço, com discrição por baixo da mesa, mas com força, e quando eu já esperava um safanão revoltado, surpreendentemente ela cede, e então se acomoda de novo, não sem exprimir birra e contrariedade. Olha para o outro lado e pede-me para pagar um drinque. Eu pago.

Em silêncio por longos dez minutos, no puteiro toca uma música sertaneja que é lamentável não consigo lembrar o nome, e menos ainda lembrar a letra (mas se ouvir de novo, saberei que é), quando ela imerge numa tristeza mal e mal represada. Não me condôo, nem me interesso por suas agruras: falará provavelmente da família problemática, do subemprego, da falta de perspectiva etc, ou então de um grande amor do passado… na mosca!

— Essa música… Todo mundo tem uma música que marcou a sua vida, essa é a minha. Foi a época em que estava com o meu primeiro namorado. Que amei como jamais alguém amou. Foi um amor que parecia não ter mais fim. Um amor forte e devastador que jamais esquecerei. Hoje essa história de amor, faz um ano exato que acabou. Mas ainda posso sentir o calor de suas chamas. Ainda sinto o sabor de seus beijos. Ainda me lembro da primeira vez que o vi. Uma história de amor às vezes termina com um final feliz. Às vezes não. E algumas jamais acabam. Queria tanto provar que um amor verdadeiro jamais morre. Onde quer que esteja meu amor, queria que ele soubesse disso, que será eterno. Passe o tempo que passar. Um dia vamos nos encontrar outra vez. Eu sei que vamos. — finalizou ela.

E recitou essas palavras com uma voz pausada, melódica, começou triste mas ao final estava segura do que dizia, cada palavra era pronunciada com distinção, não utilizou gírias, na sua fala distinguia-se claramente uma preguiça, uma languidez sensual como numa pintura renascentista, como um sino de bronze soando compassadamente às doze horas. Eu pouco me lixo para a ladainha do que efetivamente ia dizendo, com efeito, o significante, ali, mana em tamanha beleza que o significado resta dispensável. Quando termina o discurso, eu nada digo, restrinjo-me a deslizar as mãos por seus braços, pernas e costas, aproximo-me de seu rosto e sinto o cheiro e o hálito vicioso, sinto a madrugada personificada naquele corpo muito jovem, astuto, promíscuo, naquela santidade insondável e inexaurível de segredos. Abraço-a com ternura.

Levantamos, dançamos, rodopiamos, e reflito como as mulheres não se dividem entre profissionais e amadoras, certa é a divisão da espécie entre deusas e capachos, e aquela pertencia à categoria das deusas. Desde a mais terna infância, jamais contemplei qualquer possibilidade de participação em romantismos baratos, em melodramas ignaros e repulsivos, em contos de fadas de pequeno-sonhadores, burgueses ou não, e desde cedo apaixonei-me pelos corpos, na sua verdade incontornável além da pessoa. Os personagens em geral tão rasos e previsíveis, em contraste com os corpos labirínticos e infinitos, e por mais que exploremos às carreiras o corpo, pouco sabemos de tudo aquilo de que ele é capaz. Que me importam as palavras sentimentais? talvez disfarçar e justificar a excitante ferocidade do assalto sexual? o momento manda, a premeditação é rara, quantos não são os crimes que só acontecem porque a arma está ali, à mão? Tudo isso me ocorria aos vinte anos e carregava as suas verdades e à época eu já sabia que sim.

Nesse momento, tomado por possante ereção, já a via nua, penetrada até o âmago, perfurada de minha inquietação exasperante, então me transformarei num fauno descerebrado, arremessarei o seu corpo de um lado para o outro da cama, como um vento forte decidindo o destino das folhas secas. Com um jogo de olhares e sorrisos, sem lhe dizer uma palavra, afeiçoa-se a mim, não, finge que se afeiçoa, não, uma zona limítrofe entre sinceridade e fingimento, não, a bem da verdade afeiçoa-se na sinceridade que só o franco fingimento permite.

Sai comigo, claro, por dinheiro, é claro, se faria sem dinheiro?, que me importa? é discussão tão escolástica e bizantina quanto debater quantos anjos cabem na ponta de uma agulha.

A cabeça varrida de pensamentos coordenados, o mundo se converte em frêmito e comoção, e perco a noção de quanto tempo do relógio transcorre, mas em minha mente escurecida e tumultuosa a realidade procede por saltos velozes e, em um piscar de olhos, lá estou eu, fechando a porta do quarto de motel barato, despindo-me na beira da cama, desamarrando os cadarços, ela a tomar a ducha protocolar a portas trancadas, e mal sai de lá, a ataco desenfreadamente, um despropósito da pele, olhos alucinados de vinte anos, anjo e demônio, Caliban e Ariel, Caim e Abel, Fausto e Mefistófoles, a velha dicotomia consumida no incêndio de um corpo lançando-se sobre o outro, no ápice da vitalidade e juventude, um tempo de atlético ardor e régio desejo.

E ela, levemente bêbada, lasciva e bárbara, fingiu que gostou, gostou fingindo, gostou e fingiu e gostou, ciranda de inibições e desatinos, de técnica e improvisação, de erros e acertos. Vem cá meu amor, meu anjo, tesão, tesão, pede pra eu que te coma, não, pede com jeitinho, me come seu cachorro, sim, abre as pernas pra mim, abro mas fala pra sua putinha o que tu quer fazer com ela, me fode logo, assim, não pára, gosta assim? assim?, agora se masturba pra mim enquanto eu fodo, isso homem ai tesão, vai mais fundo, mete!… e todas essas lindas expressões que se declamam nas horas oportunas, alternando voz de comando com súplicas sussurradas. Um sexo puto, minuciosamente brutal, energético e inventivo, rendendo-se e tomando de assalto, fora da ordem e da normalidade, ah, lembro-me como se fosse a noite de ontem, como queimavam as suas entranhas, a sua bucetinha muito carnuda e vermelha, encharcada com o sentido da Terra. Beijamos na boca e a obrigo a sentir o gosto desse sentido, momento telúrico em que não éramos nada além daquele santo imundo beijo.

A cama é lugar para seres desprendidos que, uma vez nela amaçarocados, não hesitam em satisfazer os seus caprichos, para aqueles que não se menosprezam com dúvidas e inseguranças inoportunas, para quem está consciente de que está forrado de carne e nervos e secreções, em quem as mucosas fermentam estrepitosamente, para quem sabe, mesmo sem ponderar a respeito, que o verdadeiro prazer, assim como a verdadeira felicidade, não tem futuro nem passado. No claro e escuro da cama, abre-se outra dimensão em que nossos corpos são mais do que nós mesmos, dialética de cintilação e sombra em que mergulhamos enlaçados pelo desejo. Nos claros e escuros da noite, ronda uma verdade supurante, que se revela na medida em que se esconde; nessa mesma noite, depois disso, eu ainda chegaria muito perto de tocá-la.

Publicado em 15 de outubro de 2009. Comente

Para ouvir enquanto lê a “Parte 12″ logo abaixo.

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Confesso que degustei a cena de antemão, nós, metáfora selvagem da classe-média, ao mesmo tempo bestializada e elitizada, e debochei orgulhoso de mais esse pecadillo: jogar War no puteiro. Ao chegarmos com a caixa preta da Grow, o gerente não reclamou, mas eu vi um dos leões de chácara encarando-nos enviesado. Ele era um armário queixudo, toras de jatobá dentro das mangas, terno azul bastante aprumado para um capanga. Turminha de filhos de papai, resmungou mentalmente.

Ao atravessar o pórtico em neon verde, letreiro “Greenhouse”, me perguntei, em mais um filosofismo de todo dispensável, quais as condições de produção de uma exceção realmente excessiva. Suposto lugar de transgressão, a etiqueta rege o prostíbulo e minudencia o seu comportamento nos mínimos detalhes. Mesmo o desvio tem a sua normalidade, e os desvios verdadeiros quedam-se severamente punidos, de modo imediato e brutal. Nada é mais autoritário, afinal, do que um estado de exceção. Uma das leis constitucionais é não reparar ostensivamente nos outros, nem mesmo naqueles dementes admiráveis, nós os inglórios, jogando War no meio das putas. Outro dia mesmo, Richard me procurou na internet: — Lembra daquela época? pois é, vou abrir uma comunidade chamada Jogando War no Puteiro, que tal? genial hã, vai ser maior sucesso hein, djou… — e desistiu — …se bem que não, queimação né, depois a Empresa descobre e já viu.

Juntamos duas mesas, uma para a vodca e as cervejas, a outra para o tabuleiro. No queijo, Aline, uma moura serpenteando enquanto tirava a calcinha de renda, invariavelmente vermelha. Nessa hora, mais uma vez noto como Richard aperta a vista, mas é claro que nada vê de especial. Elas não estão nuas, tolo, vestem-se dos fachos de luz e se ocultam no fumo espesso e vicioso.

“Como uma deusa,”, Aline rodopia convidativa, distribuindo olhares para os clientes de sempre, animada por um DJ oculto, “você me mantém…”, — INVADI VLADIVOSTOK!! — grita Jack, estupidamente mais alto do que a música, para estupefação universal dos convivas, movendo as peças brancas à fronteira desse território siberiano, sob controle, até a última rodada, de Emilio. Impassível, cigarro dançando na boca, Emilio, com sensual delicadeza abre a minúscula e bem-cuidada mão de Kelinha, “E as coisas que você me diz”, estava sentada no colo dele, unhas vermelho paixão, e nela deposita os três dados amarelos. Deixando os dados nas mãos dela, Emilio remove as suas próprias num afago quase imperceptível, mas que oriça a garota, talvez pelo contato curtido com as mãos grandes e calosas dessa mistura de tártaro e Jean Paul Belmondo, “Me levam além”, e então ele faz saltar o peitinho redondo de Kelinha pra fora da blusinha e, enquanto o beija com calculada rudeza, me lança um olhar debochado em que se lê: aprenda, amador. Kelinha sorri tão amarelo quanto os dados e, brincalhona, arremessa-os sobre a mesa, “Tão perto das lendas, tão longe do fim”, e nesse instante Richard vê atrás de sua pupila um coração de menina, povoado de delírios inocentes — a maioria deles, sonhos de consumo. A situação demanda um olhar antropológico, reflito, “A fim de dividir”, principalmente quando todos, inclusive visadas oblíquas das mesas adjacentes, se debruçam para checar o resultado da jogada putanesca. Cinco, cinco, três, Kelinha emite um gemido de satisfação, Emilio vence: — Ba-ga-cei-ra! hahaha, Kelinha eu te amo. — e conduz a mão dela, sem parcimônia alguma, para o pau, em sinal de triunfo, “no fundo do prazer”, encho metade de meu copo de uísque, Richard troca sorrisos com a dançarina (ele é cliente), mas Jack Dawson parece incomodado, noto isso precisamente por seu relance ao infinito, postando a cabeça de perfil em relação a nossa mesa, e por fim resolve passar a vez, sem nenhum novo ataque, “o amor e o poder!”.

— Gente, às vezes fico encanado, porra, isso não é exploração? pegamos nossa prata e trocamos por sexo, isso é de certa forma é violência. — disse Jack, sem olhar diretamente para ninguém, aproveitando o momento em que Kelinha foi sentar-se em outra mesa, na sua cotidiana busca profissional por resultados concretos.

— Challenge and response! — digo eu, antecipando a explosão de Emilio.

— Cacete, começou a sessão de psicanálise, qual é teu problema djou?, carência todos sentimos, todos seres bípedes sem plumas, vivemos a era do gelo e o gelo cobre-nos como uma segunda derme, paralisa a expressão, não é mesmo? mas porra, violência é tu bater na cara da tua mulher, é tu chegar bêbado e comer ela à força, é tu parar o carro num posto de gasolina e comprar uma cabocla de catorze anos, comprar a sua bucetinha inocente, comprar do pai por dez reais. Aqui só tem puta credenciada, garota de programa o caralho, é puta mesmo, é sim, acompanhada pela prefeitura , e outros grupos também, com exame, com algum apoio, é claro que tem extorsão, tem endividamento, mas dentro desse mundo comercial, tem a sua liberdade e a sua possibilidade… — disse Emilio, gesticulando muito.

— Liberdade não, aí forçou. Aqui é lei da grana, money, la plata. — Jack, ainda sem olhar-nos!

— Pára de falar merda — Emilio rindo — e tu não vai se prostituir pra algum patrão? um patrão desconhecido e impessoal, um fantasma? é tudo puta mesmo, tu é puta, eu sou puta, ele, ela, eles e tutti quanti, é tudo putaria deslavada, o negócio mesmo é saber quanto vale, quem vai aceitar pagar quanto e quem vai aceitar vender por tanto, o quê? ah, o corpo é a catedral da alma, olha que bonitinho, hahahaha, irmãozinho, o corpo é o que recebe a chicotada, é onde teus ossos vão doer no final do dia depois de carregar a pedra pra cima da montanha, pra no dia seguinte ela estar lá embaixo seu manézão, o corpo sagrado, que porra é essa, foi teu pai que te ensinou isso? o teu cu é sagrado? a tua bosta? tá vendo a Aline? ganha o quê? ganha vinte vezes mais do que em balcão de loja, na roça, secretária de algum zé buceta gordo e careca que vai assediá-la até ela chupar o seu pau ou ser cortada no corte de pessoal… ou sabe-se lá em que buraco que o destino havia reservado, isto é um buraco melhor, cada um no seu buraco, eu sou um rato com muito orgulho, mas sou um rato esperto, uma ratazana ninja, versada em jet kune dô, mestre Splinter, e vocês são as minhas tartaruguinhas de estimação, só falta o Suga pra completar.

— Jack, — interveio Richard, desistindo momentaneamente de dançar com Aline — você acha que exerce violência nessas meninas? é muito mais fácil eu pegar uma boba qualquer numa balada aí e, uma vez a sós, sentar a mão nela; experimenta estapear uma menina daqui pra você ver, em qualquer lugar que seja, das duas uma, ou ela tira satisfação na hora, e aí se segura porque pode ser facada ou tiro, ou então quem vai te pegar de jeito é algum troglodita saído de Blue Velvet, possivelmente um transtornado Dennis Hopper, ele em pessoa…

— Por sinal, o filme, que planeta obscuro e perturbador!, porém sincero e convincente, uma realidade hipnótica e assustadora, habitada por sociopatas e drogados e meretrizes, bem debaixo dos nossos narizes, bem no coração de nossa sociedade, no quarto ao lado…, vocês sabem, amigos, que eu sempre tenho a sensação de estar a um passo dessa perversão tão perigosa e alucinante, mas, estranhamente, nada acontece comigo nesse sentido, não consigo, por mais que me chafurde no subsolo, chegar na beira do abismo e contemplá-lo em todo o seu horror. — tudo isso eu pensei, mas não disse. O que eu disse foi: — Caralho, Veludo Azul a obra magna do Lynch. — mas fui interrompido pelo verbo bestial de Emilio:

— É isso mesmo Richard, o problema do cuzão é que ele quer ser amado de verdade, e esse amor que ele imagina é um amor abstrato, um amor da alma, ele tem essa aspiração religiosa pela perfeição, não é por acaso que pra ele a fidelidade seja a base de qualquer relação entre homem e mulher, a fidelidade como meta de perfeição, seres perfeitos, sem pelos, sem suvaco, sem odores, sem trepada semi-acordado de madrugada, sem tripas, sem sangue pulsando nas artérias e veias — e bateu repetidas vezes com a palma da mão no lugar onde as enfermeiras nos enfiam agulhas para tirar sangue — você divide as mulheres em dois mundos, profissionais e… amadoras, que ridículo, seu problema é que com elas, você não tem certeza que ela realmente gostou, que te amou, que te quis, teu problema é querer dominar, é um amor que não passa de exercício de tirania, num sentido ou no outro, quer saber de tudo, quer saber o que ela achou, quer saber se foi bom pra ela, quer conhecer as curvas do que ela sente, do que ela pensa, titilando de dengo, blablabla, e fica assim totalmente fragilizado, um sentimento de impotência diante do mistério da mulher, de seu fundo infinito, in-fi-ni-to!, de sua falta de fundo, superficial a doer de tão profundamente inconcebível, porra seu carente de merda, tu é tão abstrato e falso que parece… parece um médium reclamando que foi abandonado pelos espíritos, um médium carente, hahaha, a desgraça é ter espírito!, o problema todo está na sua consciência de que ela, provavelmente, não está nem aí pra você, e com essa atitude, ela tá cagando mesmo pra ti, está ali pela grana e quer que tu coma ela de uma vez, sem tentar idiotamente ultrapassar as barreiras clássicas, comer sem camisinha, dar o cu, morder, morder, beijar na boca etc, tudo isso dependendo do que tu acertou, mas enfim, as putas te mostram quem você é, a ilusão de tuas relações, tu não quer comprar a beleza, você quer que a beleza se renda a ti, quer que a beleza venha até o seu ouvido e diga, meu benzinho, meu queiridinho, que você é o dono dela, sem pagar nada!, NA-DA!, quer um amor puro, cândido, branquinho como a sua pele gringa Branca de Neve, amor do filho pela mãe sempre perfeita, da filha pelo pai sempre perfeito, eternos complexos de Édipo e Electra, quer um amor pachorrento que é uma verdade absoluta contra todos os obstáculos, um amor desenxabido, uma pureza celestial e insuportável do amor, um amor pra eternidade, ah Jack, como é vão e como eu zombo dessas imagens correntes, dessa ética tão tão, tão fraquinha, é, isso mesmo, vive num mundo arrivista, quer todos os itens desse mundo carreirista, todos sem exceção, mas tem que se borrifar desse perfuminho da poesia amorosa melodramática, desse romantismo barato de telenovela, no fundo no fundo é você, Jack Dawson, que está se portando como um garoto de programa, não no sentido de um michê, mas no sentido de performar exatamente a figura reflexa, o espelho, que você faz delas como garotas de programa, eu conheço bem o seu tipo, seu merda! seu farsante! seu hipócrita! sai da minha mesa! sai sai sai, fora!

E tendo ouvido tudo isso, as palavras cuspidas por Emilio com uma fúria verborrágica, acompanhadas de olhares fulminantes e gestos ameaçadores, uma iconografia viril, nesse momento, mais uma vez, me senti um cético desiludido diante do fogo prometeico da besta.

Fez-se silêncio.

Incomodado a ponto de contorcer-se em caretas, Jack Dawson terminou a cerveja, atirou uma nota sobre a mesa, soergueu-se, por um momento achei que iria se isolar para chorar aos borbotões, de fato fez menção de ir embora e… desistiu, sentou-se de novo, guardou a nota, cruzou as pernas, e disse, como se nada tivesse acontecido:

— Tua vez, Bruno, quantos exércitos?

(…)

Publicado em 11 de outubro de 2009. Comente

Era o inverno mais frio em cinqüenta anos. Tão gelado que, de manhã, eu levava trinta segundos à frente da pia, reunindo coragem pra lavar o rosto. Frio rascante de sangrar os lábios e queimar as orelhas, cobria de branco os carpetes de relva entre os apartamentos e o instituto. Uma névoa esclerótica, misticamente alva, em que submergíamos encolhidos às sete da matina. Naquela espessa cortina aquosa, o torpor da primeira manhã causava a mais humana das dúvidas: estaríamos verdadeiramente acordados? momento dos mais propícios para permitir à consciência vagar por novas paragens, pelos prados sem fim cortados pela imaginação, momento ideal para libertar a introspecção verrumante, e pressentir os sonhos e pesadelos da noite passada, esquecidos, porém aos poucos emergindo como uma lógica inexplicável, uma nova autopercepção, e é sabido como, depois de uma noite de sono, jamais acordamos os mesmos, somos outros seres dia após dia, pois cem comédias e tragédias sucederam-nos, sem que soubéssemos, no nosso manancial inconsciente.

Estranhamente ensimesmado, aéreo como uma sonda meteorológica, percebo como daquela neblina, à frente, um figura ganha contornos, delineia-se gradualmente na brancura bruxuleante. Será um colega? um homem? uma mulher? ou será um desconhecido? um homem imaginário? talvez um assassino, quem sabe um sicário veneziano? será um bufão visionário, um retirante e seu jegue, um saltimbanco das sombras?, seria a própria Morte, personagem bergmaniana que, em sentença de última instância e irrecorrível, ceifará o meu caminho tortuoso? Afinal, pergunto-me, dando azo a um turbilhão de pensamentos desconexos: realidade ou sonho? pergunta a partir da qual, na pré-história, nossos ancestrais puderam separar o real do irreal e assim descobrir o conceito de verdade, estruturando um sistema binário. Mas se, no princípio, os sonhos determinavam a ordem imutável do destino e profetizavam o futuro da comunidade, a história ocidental doravante se tornará a metanarrativa de como o lado onírico e fantástico decaiu em importância, perdeu em estatuto metafísico, até se tornar desprezível e sem valor, mera superstição. E se a psicanálise e o surrealismo tentaram reencantar a existência com a revalorização do outro lado da insônia, hoje tanto Freud quanto “O Cão Andaluz” jazem sepultados no esquecimento.

É preciso navegar, e é preciso resistir e cantar, mas também é preciso sonhar! sonhar ergo existir. É preciso reinventar o animismo de nossos ascendentes, expurgar a coisificação da mente, a coisificação dos seres humanos, em suma, é caso de agarrar Oswald de Andrade pelos cabelos, puxá-lo insistentemente para junto de nosso contrafeito dia-a-dia, salve Oswald!, queremos a mitologia novamente invadindo a esfera profana, os quadrinhos de Flash Gordon e os babalaorixás, Spinoza e Oiticica, Asmodeus e São Jorge, Baal e Exu Caveira, a porra toda no cock-tail de um materialismo demoníaco, inabstrato, sacramento da terra enfeitiçando as relações entre os homens, ponto final na paralisia dos refratários neopagãos, dos inertes pósbobos, dos parasitários catedráulicos, vamos pôr tudo isso no liquidificador à quarta velocidade e bum!, bomba energética contra o estrangulamento da criatividade geral em proveito da realidade, do bom tom e da breve ascensão social. Ter noção muitas vezes não passa do velho instinto gregário que nos torna pesados e, com trinta anos, já estamos nas profundezas do oceano, seres ignotos na fossa das Marianas reservando a vaga num memorial qualquer, uma lápide de mármore Carrara e um epitáfio estúpido, tirado de Drummond ou Baudelaire… dá na mesma. Não posso recuar mais, o signo da recusa penetrou os meus poros, misturou-se à linfa e espraiou-se em metástase de delírios e pequenas hecatombes, não é mais possível esta festa de débeis mentais, esta fantasmagoria de vulgares especialistas, estou possuído pela cólera, têmporas molhadas de suor, respiração incontrolável, carrego o sorriso obstinado e sem concessões e contamino o meu coração como um recipiente imundo que a tudo azeda, e daqui por diante o amor nele só entrará imperfeito, infecto e despojado de qualquer encanto besta, ou então ficará plantado à porta, indesejado, até desistir; sibilino e incompreensível, numa ética carnívora, devorarei as pessoas como uma hiena esfomeada, esfolarei a carne até os ossos, mastigarei os seus músculos, os seus nervos, as suas cartilagens, as suas tripas, e deixarei para os abutres do tempo os restos do festim antropofágico; meu propósito agora consiste em engordar, latir e gargalhar cada vez mais alto, até que meu desejo se torne músculos e tendões e nervos e nada mais, até que a loucura me consuma e me escorche, até estropiar-me na desmedida da criação e da potência na qual eu não seja mais eu, mas um outro.

Onde foi parar a idéia de justiça relacionada à beleza?, vivemos uma era impossível?, um louco se rebela, a sua revolta exprime-se na sua recusa em, acordado, deixar de sonhar, e então engendra outros mundos, dentre os quais a própria verdade revolucionária, a dicção de que dois e dois são quatro, que o produto de dois e dois também é quatro, e que dois elevado ao quadrado, vejam só, igualmente quatro, o mundo imaginado não se distancia do real, esse sonhador não emparelha às suas divagações uma utopia qualquer, doce ilusão de uma civilização de brancos em atingir a nova Canaã, a El Dorado, Shangri-lá, enfim uma nova nação idílica em que o mel jorra das pedras; sem essa, aranha! não é isso! devaneadora, a imaginação potente dá à luz a distopias, escangalhos de um país marginal, cuja força reside na sua marginalidade, na sua avacalhação, na sua gosma de sangue e suor e sêmen, eis a redenção terrena de um povo de conspurcados e humilhados e estuprados, a desordem do sonho feita realidade, uma estética do lixo, a disrupção dos esquadros e escaninhos dos incréus e pequeno-sonhadores, dos acomodados e iludidos, é preciso pagar caro pelo compromisso com o sonho e a verdade, de tempos pra cá a distopia avança e a pátria muda, não somos mais o país do “tenha a paciência”, não esperaremos mais até amanhã, o amanhã chegou, é século vinte e um, a narrativa oscilante entre o picaresco e o espasmódico alcança o clímax, a hora da verdade, do lago prorrompem criaturas pantanosas, as gralhas chilreiam, as cigarras uivam, as cobras fumam, o fastígio de um sol negro abate-se sobre os planaltos centrais, decreta o fim à marcha de bandeiras e discursos e anuncia a passagem do bezerro de ouro, mas o bezerro é manco, deformado, esquálido, e guincha com insolência e agonia, para uma platéia de ternos e gravatas, que se riem e mijam de sua parvoíce.

Só mais tarde fui descobrir que a meteorologia só fazia medições há cinqüenta anos. Quer dizer, poderia ser o inverno mais frio daquela cidade — de todos os tempos! Como resultado, nas noites de pôquer e War, improvisamos com tijolos uma lareira. Jogávamos ao lado dos apês, todos eles térreos, aquecidos pelo fogo crepitante sob as estrelas.

— Como é que é? Dá-que-eu-dou? hahaha — gargalhou Emilio, enquanto distribuía as cartas.

— Não porra, — disse Richard, franzindo as sombrancelhas — joquempô caralho. Jó quem pô: pedra, papel e tesoura. Nunca jogou Alex Kid?, isso, pra master system, então, os combates todos do bonequinho eram em joquempô.

— Nerd pra dedéu! vocês não têm vergonha não? — disse Emilio.

— E você djou, jogando War com a gente, é o quê? — disse Jack Dawson, devolvendo a provocação, e após ver a mão, concluiu: — aposto mais 50 (centavos), eu posso, sim sim, mais 50!

— Eu? Sou um gênio ou uma besta, com certeza. Ou melhor, um gênio e uma besta! mas eu tenho consciência disso. De que adiantam as histórias bonitas, os grandes projetos, e pra quê a eloqüencia?, futuros executivos e empresários? Banana pra ocês seus porras, renunciam a viver tudo o que se pode e se quer durante cada momento, em nome de uma breve… vale repetir… BRE-VE ascensão social. hahaha, vão se fuder. — disse Emilio, e nesse ponto já falava com uma voz propositalmente desafinada, exagerando as sílabas tônicas, com uma careta aqui e ali.

— Bah, seu falso, o seu discurso não poderia estar mais distante de sua prática. — arremedou Jack, pedindo somente uma carta, e comentando que se aproximava a meia-noite.

Eu vinha ouvindo essas conversas de pôquer há dois anos, e conhecia de antemão o final: Greenhouse ou Scala. Eis que, inspirados, nessa noite resolvemos levar o War para o puteiro.

Deixaram-nos entrar, é claro, não somente porque o senhorio do Greenhouse era o nosso professor de terraplenagem, mas sobretudo porque assíduos e seu dinheirinho são sempre bem-vindos. Éramos Emilio, Jack, Richard e eu.

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Publicado em 4 de outubro de 2009. Comente

— Eu… eu… — balbucio, um relâmpago fuzila o cérebro de ouvido a ouvido, ativando reminiscências graníticas. — …o Monstro do Pântano.

— Nossa, firmeza, mas qual Monstro do Pântano? o do Alan Moore? — perguntou-me Richard.

— O meu. Se participo dessa babaquice, então vou entrar com tudo, djou! Minha simpatia está com os monstros, com as criaturas rutilantes e as suas paixões inescrupulosas, a sua humanidade abscôndita, o seu terrível e delicioso segredo. Golens, vampiros, sacis, ogros, hidras e doppelgängers, monstros sombrios que caminham na estrada das aflições, o curupira, o lobisome, o basilisco, o ciclope, a medusa, o belzebu, o chupacabra. Porra, entre Teseu e o Minotauro eu fico com o último. Quem é Teseu? um assassino de aluguel, um miliciano, um simples matador com quem não tem conversa, um alpinista social em busca de fama, um neo-bobo. Sou dos que opto pelo labirinto, entro amarradão, e sem novelo, perquirindo o seu núcleo insondável, o famoso jardim central. Prefiro a luz oblíqua, a selva de muros, os átrios ocultos, as criaturas barrocas das trevas. E o Minotauro, animalidade impune, revolucionário exilado, coração bárbaro, senhor dos jogos, prefiro tudo isso a viver nas paragens radiantes sob o jugo do rei Minos, sob a égide da normalidade, das categorias metafísicas, da geometria euclidiana, dos costumes, do comercial de margarina em que o homem médio casa com a mulher honesta.

— Bem legal a escolha, Bruno, mas se pensar bem, uma metáfora até batida, o monstro como espelho de nosso tempo, nossa sociedade, nossos desejos reprimidos, enfim, o nosso duplo. Desde criança, sempre vi a monstruosidade como a desmedida da geração, e isso, claro, reverbera na arte. Ou vice-versa, né? — disse Richard, pensativo.

— Mais uma disciplina pra um futuro curso de humanidades: Teratologia Sociológica, com especialização em Monstros Rococós, Bestas Ancestrais do Extremo Oriente e Personagens Monstruosos de Chico Anysio e Zé do Caixão. A propósito, acho que o mano não volta mais, aliás, aquele barulho de carro não era a picape dele? acho que era… então perdeu a graça, vamos embora? Scala ou Greenhouse? — disse eu, ansioso pra partir.

— Espera! depois ligamos pro Emilio. Mas por que o Monstro do Pântano? se bem que é a sua cara…

— Existe personagem mais byrônico do que o Monstro do Pântano? Exclua primeiro toda idéia de uma entidade elemental, ativista da ecologia, e quão irritantes os corolas da Mãe Gaia, laranjas de grifes verdes e organizações de fachada. Não. Não é o planeta que vai mal, as pessoas é que estão fudidas. O meu Monstro é outro. Jovem e promissor pesquisador sofre terrível acidente durante experimento, sim, cem por cento clichè, converte-se numa criatura abominável com poderes extraordinários, entretanto, eis aí a virada curiosa da história, ao invés de o herói lutar contra o crime para salvar os bons dos maus e servir de exemplo às pessoas, a criatura dá as costas para a humanidade e imerge no pântano, no túmulo absoluto dos valores, o lodo quimérico da civilização, o lodaçal das grandes idéias e narrativas. Escuro e úmido, acima de tudo úmido, adornado por algas, musgos, raízes enrodilhadas, tubérculos, coberto pelo húmus radical e seus odores orgânicos. E nessa condição húmida o Monstro povoa um imaginário arrepiante, com textura e profundidade. Protótipo do artista, asila-se nos substratos nutritivos da cultura, nos dejetos e desejos marginalizados, ah que imagem do pensamento, Richard, eu junto a minha lama e subsolo, a minha loucura medonha, o meu êxtase escatológico, e com isso tudo, úmido, encharcado de vômito de bêbado e dos cheiros baratos do meretrício, impulsionado por forças subterrâneas, produz da escória inerte o alimento suculento e nutritivo, comida que os outros, famintos por música, anseiam e imploram para que lhes vertam nas bocas….

— Como em Soylent Green, com o Charlton Heston! — disse Richard.

— Como no filme Soylent Green. O mundo de meu monstro não tem redenção, o mocinho não se dá bem, os bandidos não são perdoados, tampouco condenados, não há decência, não há bom tom, não há moral da história. O mundo dele não inocenta, não julga, não condena, ele simplesmente é. A eloqüência do mutante, do fundo do suco gástrico da terra, murmurando-nos: existe lógica que se possa compreender?, alguma paginação nessa novela de atrocidades?, algum naco de verdade a revelar-se?, batalho sem descanso para impor uma estrutura ao colapso da realidade, mas hoje, olhei nos olhos do homem e contemplei o abismo, um poço infinito, e se existe resposta, uma luz no final das trevas, eu não posso encontrá-la. — disse eu, terminando a bebida.

— Sei lá, isso me cheira às vezes a um niilismo barato, fácil. Até entendo a sua renúncia ao herói trágico, ao seu idolatrado Hamlet, ou então Édipo, alguém que, envolto pelas brumas do desconhecimento, se veja, um dia, defrontado com uma tenebrosa decisão. Não importa como decida, decidirá errado, porque o erro está justamente em decidir ao invés de se deixar levar pelo destino. Um herói que age com boas intenções, porém, por ignorância dos desígnios imutáveis, acabe cometendo um crime terrível, pelo qual pagará sem ter culpa. A metáfora das metáforas. Desgraça a que somos todos submetidos, inocentes, submetidos a um sofrimento cruelmente desproporcional que, no final da tragédia, tem um sentido, o sentido trágico… — disse Richard, certeiro.

— O sentido da terra, é a expressão que procuras. Quem são os inocentes, Richard? Pergunta retórica. — e prossegui, afundando ainda mais na poltrona — O herói trágico ainda é herói, embora carregue um defeito congênito e irreparável, que o levará à ruína. O anti-herói, por sua vez, define-se pelas próprias falhas morais, na verdade, ele é amoral. O conhecimento e a inteligência não o conduzem para a virtude; é precisamente o contrário, ele usa a sua esperteza para angariar vantagens, enganar o próximo e seduzir as mulheres; pois sem as mulheres, o devir-fêmea pelo menos, não existe literatura, e se a sua sofisticação e cultura lhe conferem um charme magnético e titilante, ele disso abusa mostrando-se cínico, sarcástico, arrogante; pinta-se como esteta e superior, mas é apenas um charlatão bem dotado das armas da civilização, pronto para subverter e iludir. — defendendo a noção de anti-herói, tão cara a mim.

— Cara, o anti-herói pode ser desiludido, niilista, introspectivo, misterioso, amoral, autodestrutivo, exilado, distante das normas, desrespeitoso com o vigente, mas no frigir dos ovos, no fundo no fundo, ele pode ser apenas patético. — concluiu Richard, sorrindo.

— Hahaha, concedo. Dez horas! Greenhouse ou Scala? — perguntei, cansado da tagarelice e já suficientemente recuperado.

— Greenhouse, claro. — disse Richard.

Tiramo-nos do clube, sob o céu azulado daquela noite escura, a nossa morada desassossegada.

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Publicado em 30 de setembro de 2009. Comente

Doeu menos que eu esperava. Adrenalina, sim. Claro que, mais jovem, brigara uma dúzia de vezes, na escola, no futebol, uma vez até no xadrez. Mas quando você se torna um mamífero de oitenta quilogramas, a escala muda sobremaneira: arranhões e hematomas transmutam-se em cortes e fraturas, coisas pra se ponderar, antes de iniciar um conflito depois dos dezessete ou dezoito anos. Tinha eu muito contra aquele boné? Tinha, de verdade. Porém, ao mesmo tempo, tinha muito pouco contra o mano. Afrontar os estereótipos várias vezes finda injusto com as demais máscaras do indivíduo, ainda que na maioria das vezes a afronta seja justa. Justíssima. Sim, havia sido justa a provocação, e também justa a resposta física, pois justo o momento tormentoso que atravessou as nossas vidas, naquele dia, no Círculo. Confesso que pretendia, doce ilusão, manter-me imperturbável depois do golpe, acolhê-lo como um mártir, sustentar um olhar impassível e sereno, superioridade quod demonstrandum est. Ah, Bruno, quão artificial, planejada, ideada, livresca performance, que eu mesmo não pude agüentar um segundo que fosse. Um soco na cara deslancha o real sobre você como um balde de água. Finalmente pude entender a lógica daqueles briguentos que oferecem a face para o primeiro golpe, em geral com o desafio: “bate! bate se é homem!”

Precipito-me sobre o mano com todas as forças disponíveis. Os corpos atracam-se e, estrepitosos, desabam derrubando cadeiras. Num piscar de olhos estabilizamos, uma posição de quase imobilidade, corpos entrelaçados, forças atuando de modo estático. Visível como ele leva a melhor na queda, cai por cima e pressiona, com o antebraço, a minha clavícula esquerda. Busca encontrar um ângulo para atingir-me no rosto, mas não deixo, colando a minha cabeça ao seu corpo. Sinto o seu corpo quente em contato pleno com o meu, ambos os mamíferos arfamos, suamos, gememos, e é incrível a rapidez com que as energias se esgotam nesse tipo de embate.

Amadores, passamos para o segundo estágio da peleja, o estágio truncado, em que os movimentos são arrastados, econômicos, árduos. Como uma abertura fechada no xadrez, sem troca de peões (e recomendo “Aperturas Cerradas”, tradução para o espanhol do enxadrista tcheco Ludek Pachman). Isso penso lá embaixo, minha clavícula pede socorro com a pressão continuada, mal sinto o braço esquerdo, pescoço desconfortável, e respiro com dificuldade, pois estou realmente por baixo, literal e figurativamente… de repente, a sorte sorri, por uma destreza inesperada, obtenho êxito em libertar o braço direito, o meu braço destro. Pego um cinzeiro oportunamente ao alcance, quando Richard, provando-me que a realidade externa ainda existe além do engalfinhamento, furta-o de minha mão. Porra, mongol, mas com a pausa reparo não só Richard, mas a menina e a própria Marta tentando sem sucesso separar os rixosos. Somos pesados demais, nossa! dói demais, desse jeito ele vai deslocar o ombro e arrancar meu braço. Suga, num momento de brilhantismo, do lugar à mesa de onde não saiu por um segundo que fosse, chama a minha atenção para apontar para um objeto específico, um objeto ao alcance de meu braço livre. Sim, aquele boné. A-há. Ali, dando sopa do meu lado. Minha expressão de desconsolo, aproximando-se do choro, dá lugar a um riso. Não qualquer risada, mas uma engasgada, chiada, um riso de alguém no limite das energias, prestes a desmaiar, mas ainda rindo, rindo como último suspiro, como um tremendo brado de fodam-se os vivos que restam nesta terra indômita. 

Agarro o famigerado boné, causa do colapso do mundo, e o lanço para Suga, que se contagia com o meu riso e passa a gargalhar sardonicamente, com a prenda à mostra. 

— Na moral, parou, na moral, me devolve! me devolve! — disse o mano, afrouxando a compressão. 

Desconcentra-se e eu faço um esforço derradeiro, últimos joules de trabalho, para tirá-lo de cima. O mano rola para a minha esquerda e começa a erguer-se, no instante em que Suga põe aquele boné na mochila, e então a veste e voa para a recepção e logo depois para a rua. O mano, esquecendo-se de mim, sem olhar pra trás, dispara no encalço dele, como um cachorro atrás do osso lançado.

Com alguma dificuldade, arrasto-me até a melhor poltrona, ossos moídos, Richard acorre-me, balbucio-lhe sem voz pra não fazer drama, me arranjar outra dose, e recolocar o Rachmaninoff (três coisas que indico gesticulando com a única mão funcional). 

Recupero o fôlego, a visão expande e vislumbro o ambiente. A menina chora copiosamente nos braços de Marta, que a ampara com uma ternura memorável. — Coitadinha, calma, fica calma, vou te levar em casa, sim estou de carro, isso, isso, calma criança. — com um suave menear a novata assente, ao que Marta não perde tempo e parte, deixando-nos sem maiores comentários. Porra, nem um olhar de gratidão, nem uma despedida, a sacana. Sobramos Richard e eu.

A atendente do clube dá uma espiada no salão, não vê nada quebrado, fazemos um sinal de O.K., e ela volta satisfeita pra recepção. Aquilo não era nada comparado às doideiras rocambolescas das sessões de Vampire ou O Chamado de Ktulhu.

Richard não me traz vodca, mas um copo d´água, que imediatamente entorno no chão (o certo mesmo era atirar nele).

— Vodca, caralho!

— E o Suga, você acha que o maluco pega ele? — disse Richard, servindo-me finalmente do néctar de batata.

— Aquele pau no cu não pega o Suga nem fudendo. Não reparou? O pau no cu é marombeiro, mas só maromba da cintura pra cima. As pernas fininhas, dois gambitos. Suga é seco, esguio, esportista, corredor, nessas horas já deve ir longe. — eu, agora sim, recuperando o fôlego de verdade, o timbre retornando ao normal.

— Ficou marcado aí na sua cara. — disse Richard, mostrando-me o ponto do soco.

— Não foi nada. — realmente tive sorte, nenhum sangue nem nada. Avaliando a posteriori o ocorrido, me parece que a porrada foi com a mão fechada, mas o que me atingiu foi o pulso, um movimento em descendente, ele não era lutador decerto. Mesmo porque lutador não sai na porrada assim do nada. Acertou-me entre o olho e o queixo. Um pouco mais alto, incharia imediatamente. Um pouco mais baixo, talvez traumatizasse um dente. Onde pegou, apenas um hematoma. No dia seguinte, uma mancha roxa aparecerá. Com os dias, vai diminuindo de tamanho, misteriosamente movendo-se na face, ficando mais tênue, até desaparecer uma semana depois.

— E o braço?

— Que braço? hahahaha, não tô sentindo nada do lado esquerdo. Foda-se, eu escrevo com a direita. — agora o suor abundante me escorre, marcando a camisa.

— E se ele voltar? aliás, quando ele voltar?

— Aí eu acerto o cinzeiro na cara dele, o cinzeiro que tu me desarmou né seu puto. — disse eu, bebericando a vodca.

— Pô Bruno, achei que você iria sentá-lo na cabeça dele… e aí? quem ia se ferrar era você, se queimar assim por causa de um zé mané qualquer de São José? — largou-se no pufe à minha frente.

— Tu tem razão djou. Golpeá-lo no crânio com o cinzeiro seria uma pancada nas portas da infelicidade pra mim. Eu não queria mal a ele, de qualquer forma. Por quê? Você e seus interrogatórios. Olha, djou, por muitas razões e por nenhuma. Eu poderia escrever um tour de force no formato de ensaio sobre a violência e a literatura, poderia inscrever a raison d´être de minhas ações dentro da estética dadaísta ou da filosofia antikantiana ou da proposta teatral de Artaud, cujo objetivo é recuperar o thrill of life, poderia declamar os meus motivos em versos decassílabos, sim isso tomaria mais tempo e disciplina, mas eu poderia também fazê-lo em alexandrinos, poderia esboçar uma metanarrativa dos atos absurdos no âmbito de uma linguagem elevada, com pretensões universais, permeada de referências cultas e delicadas figuras de retórica, poderia, por último, provar por meio de algum método estatístico abstruso, que o evento ora ocorrido se conforma ao Princípio de Heinsenberg, isto é, tinha que acontecer um dia por necessidade quântica do salto do elétron, e assim expressa fenômenos dispersos dos movimentos brownianos; ainda assim, nada do que eu tivesse lhe falando, seria verdadeiro, mas no fundo seria, porque não dá mais pra operar nessa dicotomia boba entre verdade e mentira, honestidade e desonestidade, se nada é verdade, se não existe nenhum deus, então tudo é deus, tudo é verdade, percebe?

— Sei sei, você quer uma vida com intensidade, é isso? — disse Richard, com ironia.

— Não. Quem fica se dizendo intenso no fundo é só carente e, portanto, precisa de uma boa dose de maldade. — respondi.

— Cara, então não te entendo. Tudo isso só pra ser sem noção? — Richard parece realmente intrigado.

— Bingo, djou. O que mais, afinal? Não há nada entre o céu e a terra. — disse eu, teatral, abrindo os braços.

— E o seu personagem, Bruno, aposto que você ficou elucubrando um montão durante a conversa. — Richard sorriu.

— Você me conhece, é óbvio que fiquei, estendi um largo arco da Grécia Antiga, Agamênon, Creonte, Minos, Teseu, Minotauro, visitei rapidamente a obra erótica de Petrônius, depois percorri o renascimento, passei no Decamerão, em suas múltiplas histórias contadas de modo milesiano, e então no mosaico completo da Idade Média, Dante, e também Maquiavel e Petrarca, aproveitei as putas venezianas com Giordano, você sabe, os clássicos dos clássicos, complete works of William Shakespeare naquela edição tijolão da Collins, como todo mundo me conhece sabe, tu especialmente sabe, mas tudo em vão, não sou um herói trágico, não vislumbro qualquer sentido da tragédia no limiar do terceiro milênio, Nietzsche escreveu “O Nascimento da Tragédia”, alguém, não eu claro, alguém deveria escrever “A Agonia da Tragédia”, a banalidade venceu, as imagens de Apolo e a força imperiosa de Dioniso dissolveram-se na televisão, nas guerras assépticas, por Júpiter!, nem as guerras, os capítulos mais cinzentos da civilização, nem as guerras mais possuem qualquer sombra de bom gosto, será que foi Auschwitz, o fim da história? mas num fiapo de lucidez, djou, enquanto vocês discutiam vulgaridades sobre a literatura pátria, concentrei-me no imperador Dostoievski, que, com vivência de chumbo e sangue construiu um panteão inigualável de criaturas profundas e sórdidas, cortadas em múltiplos níveis, personagens mais que esféricos, em seis dimensões, cada ferramenta! cada técnica! como é que um ser franzino, Sua Majestade Imperial, um russo do século XIX, vivendo em São Petersburgo e na Sibéria, poderia percorrer a constelação de lugares inacreditáveis, com pessoas inacreditáveis, poços e galerias e minas de carvão, desassossego e miséria humana, e tanto amor e compaixão, como ele percorreu? ah, Richard, eu só queria ter um leitor, um que fosse um patife adorável, um canalha íntimo, um que não fosse meu alter ego, saca? o foda de criar um mundo seu é que, na escrita, ele tem que fazer sentido para as outras pessoas, mas que solipsismo, que egocentrismo nefasto estou eu a dizer, djou?! — me perdia nas divagações, de novo.

Richard ria e se divertia às minhas custas: 

— Bruno, relaxa meu amigo. Assista a Woody Allen, aquela comédia sobre os romances russos, qual o nome mesmo? Aquela com a Diane Keaton. O que foi que a Marta te disse aquela vez, ah sim, que você parecia um filósofo da Alta Renânia, um cineasta dinamarquês, um dramaturgo norueguês, de qualquer modo um artista do norte, escandinavo, de sangue gelado e intelecto convulsivo, acostumado às tundras emocionais e aos fiordes mentais, que chega armado até os dentes com o que de mais feroz e devastador a civilização ocidental produziu em termos de filosofia, sociologia, literatura, psicanálise, teoria da cultura e o caralho a quatro. Ah sim, e xadrez! não sei se você está mais pra cavaleiro sueco voltando de Jerusalém ou pra figura da Morte, naquela cena de “O Sétimo Selo”. O xadrez é o último prego no seu caixão viquingue, em formato de barco, o knarr, antes de ser lançado às águas glaciais para comsumir-se nas chamas purificantes. Mas qual foi a imagem que a Marta usou… lembrei… que você, Bruno, quer invadir a praia de Copacabana dentro de seu Panzer da Werhmarcht.

— hahahahaha, djou, estou até vendo, Orson Welles narrando na Hora do Brasil a invasão da 42ª panzerdivisionen wehrmacht no Posto 9 de Ipanema, tanque líder estaciona ali, bem do lado dos maconheiros, a portinhola se abre e aparece o oficial prussiano, sucessor de Rommel, o enxadrista Bruno. O que ele faz? põe o pau pra fora da farda e mija em cima de todo mundo, gritando: “seus inseC-TOS”, repare bem, “inseC-TOs” e não “inse-TOS”. Faz toda a diferença.

— Bruno, não fuja, são nove e meia, ainda temos meia-hora antes de fechar. Qual é afinal o seu personagem preferido? — interroga novamente Richard, veramente interessado.

— Cara, não vou responder nem por vaidade, nem para falar de mim, que me importa?, esse joguinho besta é grotesco. — disse eu, recusando-me a responder.

Richard levanta-se e, com o olhar fixo em mim de um modo inquisitivo, vem até bem perto, agarra-me pelos braços (ai meu braço esquerdo) e chacoalha:

— Bruno, Bruno, fala por favor, quem é o personagem? 

Não sei se foi a vodca, não sei se algum mecanismo subconsciente ativado pela dor e o aviltamento, não sei se por um interesse nascente, em trocar a resposta pela companhia dele nessa noite num tour pelos puteiros, mas o fato é que, desta vez, concedi uma resposta. E foi uma bela e surpreendente resposta!

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Publicado em 29 de setembro de 2009. Comente


— É a Capitu. — disse ela, com olhar tímido. Escolha lógica e esperada. O tipo de evento próximo da certeza que ninguém apostaria contigo. Pela primeira vez naquela noite, Marta repara na garota e lhe questiona o porquê.

— Uma porção de coisas. Ela carrega em si a indecisão de toda mulher. A Capitu é sinônimo de uma incerteza que não é só aparente, mas íntima, uma dúvida permanente, uma insegurança lá no fundo do coração. De sua alma. Ela é tão fascinante, cheia de ambigüidades. Eu sou assim, um dia posso até trair, mas me defenderei até a morte da pecha de adúltera. Ela é uma cigana? Que mulher não tem um quê cigano, um ardor pela dança, pelo inusitado, pelo mágico? Somos todas bruxas, na real, a gente jamais se adaptou ao mundinho quadrado dos homens. Na testa da Capitu, está escrito “talvez”. Isso funciona para fora e para dentro… — e desembuchou mais dezessete chavões ao redor do tema, que todos conhecíamos desde a oitava série e que ela, provável, já os tinha preparado quando sugerira a brincadeira igualmente chavona. Um porre, não fosse Marta a contribuir, numa fala tranqüila e contínua.

— Ah sim sim, a hesitação é da prosa machadiana. Não vou adentrar nessa polêmica batida: traiu ou não traiu. Vocês sabem que é mais do que isso. Joaquim Maria Machado de Assis (fazia questão de dizer nome e sobrenome) joga também com o pobre destino das mulheres extraordinárias, em amar homens limitados e até simplórios. Eh, machistas, a mulher amar o gênero por assim dizer mais vulgar de homem. Por quê? Porque quando elas encontram homens que, no âmago, só querem se dar bem, que só pensam em si mesmos, que vêem nas mulheres instrumentos de ostentação ou segurança ou acalento, é exatamente aí que elas se apaixonam de modo decisivo, pois esse tipo de macho as domina sem grandes dificuldades. Em várias obras de Machado de Assis, poesia idem, vocês verão que as mulheres são arrebatadas por homens que as fazem rir, que as divertem, que não as tomam a sério, que as tratam como presas, como objetos a conquistar-se do modo mais direto possível. O outro homem, cultivado e inteligente, do estilo que se apaixona às vísceras, raciocínio tortuoso e abstrato, capaz de escrever poemas homéricos em homenagem à Helena, esse entra na história mais como vítima do que como algoz. No fim e ao cabo, com esses últimos, a mulher machadiana termina por se sentir inferiorizada, e finalmente conclui que o varão cultivado tem uma idéia muito elevada de si mesmo, julgando-o arrogante e tagarela. No meio da novela machadiana, na hora da decisão, a mulher optará pelo mais simples de espírito, previsível, porém engraçado e divertido, ou pelo menos um pouco, de qualquer sorte um homem de paixões diretas, bom marido e bom pai, sem complicações bizantinas. E o poeta, o artista, como se sente? O que mais o deixa enraivecido nisso tudo? O fato de as mulheres, as instruídas e corretamente educadas, acomodarem-se num nível ridículo de exigência. Nível lamentável nos mais diferentes sentidos. Pois esses diletantes da arte e da ciência não podem aceitar passivamente a espécie de amor, de romantismo, de ideal de virilidade, de felicidade fraudolenta, que essas mulheres subscrevem e terminam por adotar como modus vivendi. Vêem aturdidos como elas se contentam, e conscientemente!, por tão pequenas e banais ninharias. É evidente que isso tudo gera no homem culto, preterido, um ressentimento azedo, que logo se converterá em vontade de vingança, que logo desanuviará não na ação, porque esses homens são tudo menos homens de ação, mas por meio do sarcasmo, da destilação de uma ironia raivosa contra o mundo que o cerca, e as mulheres em primeiro lugar, porque são vítimas mais expostas à sua rebuscada crueldade. A misoginia, sim, disfarçada de palavras bonitas e abstrações confusas. Para Bentinho, Capitu era governada por forças imemoriais, misteriosas, telúricas. É a mesma desculpa para a incineração de nossas irmãs: heréticas e feiticeiras, por séculos e séculos. Tudo porque as belas mulheres o deixam de lado, no final das contas. Machado de Assis realmente tem uma visão certeira das relações humanas, não acham? — arrematou Marta, como que esperando os aplausos.

— Faz sentido — prosseguiu Richard — pra mim “Dom Casmurro” me é particularmente lúcido. O que eu sinto forte, nesse romance, é a sensação de impotência dos seres humanos, uns perante os outros, uma incapacidade que vem da impossibilidade de saber a verdade, a verdade toda, por todos os lados da laranja, sobre o outro. Eu por exemplo, quando eu amo, quero saber tudo a respeito da pessoa amada. Tudo tudo tudo. Desejo com todas as forças da alma descobrir os detalhes mais infinitesimais, as vírgulas de sua biografia, o número de fios de seu cabelo, esticá-los e examiná-los um por um, quero conhecer a miríade de cores de sua íris, as quarenta maneiras dela sorrir, a forma como dorme, como ronca, e também os detalhes mais minúsculos de seus cílios, seus cotovelos, seus pés, quero entender o caleidoscópio de emoções que compõe a psique da amada, enfim, tudo, absolutamente tudo, nada é desimportante quando amo. No entanto, isso é impossível! a verdade total do outro é inacessível! nunca tenho certeza do passado, do presente e do futuro do outro. E o ciúmes, esse verme desgraçado, ele é tão persuasivo, tão retórico, tão bom promotor público, que convence mesmo a gente e os outros, convence a gente de tudo!, olhem o Bentinho, todo um livro movido a ciúme!, e que obra! que eloqüência!, com que força o amor arrasta! — Richard, em sensibilidade às margens do estrambótico, pobre estudante, quase chorava, e mais uma vez Suga e eu nos entreolhamos. Bom ator, ele.

— Vocês levam Machado muito a sério. Não foi ele, Marta, quem escreveu: “A realidade é boa; o problema é o realismo.” — meu hábito de decorar citações. Quixotesco, eu sei.

— Justamente, Richard — disse a novata, com rosto inspirado, e continuou com nebulosa lógica — a moral da história está em que devemos amar não apesar da incerteza. Mas na incerteza… De que adianta saber se era verdade ou não, o ciúmes por si só já destruiu a casa e a família de Bentinho e Capitu. O ciúmes não se restringe às fofoquinhas, não é um tema qualquer, bobo, que devemos superar. É da essência do amor o ciúmes, pois com ele somos obrigados a enfrentar o fato, que hão de concordar comigo, fato sem contestação, de que amamos só com a verdade, e para ter essa verdade só aliando-se com a confiança, já que a verdade, afinal, é uma impossibilidade. (o mano do boné pressentiu o perigo; de minha parte, anotava mentalmente os sofismas) Por isso que o amor embute a confiança e com ela vem, naturalmente, sem imposições, a fidelidade. Sem ela, não se torna viável que convivamos apesar da incerteza, e aí teremos um amor mentiroso, de conveniência, um amor inferior. — para uma colegial, seria comovente como Richard e a menina trocavam os olhares típicos de um casal em sintonia de idéias.

— Também concordo — emendou Richard — que a fidelidade não é o ponto de partida do amor, mas a sua linha de chegada. O seu objetivo. Sim, Suga, veja bem, acompanhe comigo, por que será que o ciúmes tanto aparece no diz-que-diz popular quanto nas maiores obras da literatura universal? O Machado não poderia deixar de falar do amor, ele, tão preocupado com os universais, com as grandes questões humanas, o ciúmes, a verdade, o amor… —- nesse momento, quando Richard rebôou dramaticamente “amor”, percebi o crescente alarma do mano, agora visivelmente de escanteio. Decidi mudar o sentido das coisas, pois estava ficando realmente insuportável.

— Peraí, pra mim, a verdadeira polêmica não é se Capitu deu ou não pro Escobar; se o Bentinho é ou não chifrudo, como tanto ele quer que acreditemos que seja. Parece insistir conosco que é um corno. Pra mim, o que é mais escandaloso no romance é a relação entre Bentinho e Escobar. Homossexual, sim, Marta. Amigos próximos desde a adolescência, estudaram e conviveram juntinhos no seminário, foram repreendidos por padres devido às “traquinagens”. E não foram poucas as passagens de “Dom Casmurro” em que o leitor percebe a tensão, fusão de mistério e erotismo, entre o narrador e Escobar. Tudo muito contido, por sinal. Afinal, nessa mesma época Oscar Wilde estava preso por razões análogas. A Capitu em momento algum elogia as qualidades do Escobar. Mas Bentinho sim, a todo instante louva-o como um semideus grego: atleta, garboso, inteligente, sagaz. Aliás! aliás o Bento chama em determinado capítulo o amigo de “comborço”. Sabem o que é comborço? Marta não vale. Comborço é parceiro de cama. Os três na cama? Ménage?

— Você arrebatou isso do Millôr Fernandes, Bruno. — disse Marta, com a mesma atitude da mãe que flagra o filho com a mão no bolo. Suga riu e os outros também acharam o máximo, inclusive aquele boné.

— Paráfrase não pode? por acaso o que vocês discutiam era original? escreveu um filósofo alemão: “receber é melhor que dar, mas melhor ainda é roubar.” — mas me chateei um pouco, mulher culta é foda. Sem falar que arremessei a segunda citação em menos de dez minutos.

— Pode, querido. Realmente tem uma amizade assim especial entre os dois. A passagem da admoestação ocorre quando, durante o seminário, o Bentinho abraça com ternura o Escobar no pátio, e o padre não gosta. A tradição feminista, inclusive, aproxima “Dom Casmurro” do shakespereano “Otelo”, e o próprio Bentinho cita o “lenço de Desdêmona”. — concluiu Marta, professoralmente.

— Eu sinto inveja do Escobar. Os olhos de ressaca é pra se apaixonar por eles. Olhos lindos… — disse secamente Suga, e incrivelmente venenoso: — mas e você, Richard, não se sente um pouco como Escobar?

Richard tomou um susto, paralisando na cadeira. A aguda irritação no rosto e nas mãos do mano anunciavam nuvens carregadas sobre o círculo. Oba. Finalmente uma noite agitada. Ou pelo menos burlesca.

— Meu, como assim? — o mano se dirigiu ameaçadoramente a Suga, na sua primeira participação junto ao grupo.

Nesse momento, eram nove horas e eu viro a terceira dose de vodca, ansioso por desforra.

Meat-eating orchids forgive no one just yet
Cut myself on Angel Hair and baby’s breath
Broken hymen of your highness I’m left black
Throw down your umbilical noose so I can climb right back
Hey! Wait!
I’ve got a new complaint
Forever in debt to your priceless advice
hey! Wait!
I’ve got a new complaint”
(Heart Shaped Box, NIRVANA)

Desforra! represália contra estar ali, naquele momento, no círculo, naquela noite baça, discutindo Machado de Assis, retaliação contra a indolência e a insônia de uma vida aquosa, o absurdo nas esquinas, contra a esperteza de Marta, o absurdo das mil notícias amargas dos noticiários, futuro indesejado coalhando em presente, um futuro ordinário e vulgar, não, eu não sou nem nunca serei qualquer herói trágico, jamais perto sequer do fantasma de Hamlet, sequer sombra da sombra, infinitamente distante das grandes interrogações de Rodion Romanovich Raskolnikov ou de Mersault ou mesmo de Bentinho, eis a existência reduzida a mais um dia-a-dia trivial, que mal se exaure numa canção mortiça, não haverá prêmio nem coroação no final, as filosofias calam, os oráculos emudecem, os profetas baixam as cabeças, sem segredo pra contar, nada atrás do último pano, nenhuma luz ou mensagem, tudo isso, esse grandecíssimo embuste, não passa de vaidade — e nada mais.

— É simples. O Richard é o Escobar e você… — pausa dramática para maximizar o escândalo — …você é o Bentinho, seu sonso. Fechado está o triângulo: Capitu, Escobar e Bentinho. Que tal encenarmos uma peça? Eu dirijo. — disse eu, com um olhar esnobe e um sorriso besta (que só eu sei fazer e nunca vi igual), um sorrisinho lapidado por anos de empáfia, resultado de requintada soberba e adocicada bazófia, que enervaria o mais paciente mandarim.

— Tá maluco, cara — disse ela e não ele. Pois o mano nada mais disse, levanta-se, não levaria o desaforo no bolso diante da fêmea, avança consternado, pavão metamorfose em galo de briga, testosterona no sistema, coração a mil, tu-tum tu-tum tu-tum, no olho esquerdo uma pequena veia pulsa pra fora da pele, os dentes caninamente à mostra.

Me pareceu a coisa certa a fazer, soerguer-me também… não pude evitar de fechar os olhos (tencionava permanecer impassível como um monge tibetano) um segundo antes de o bofetão açoitar-me em cheio, na face esquerda.

(…)