Ela me faz sair pra comprar cigarros. São momentos assim em que me convenço que, de fato, tenho um bom coração. Vou enfastiado, com gosto de fim de noite. Porteiro cascudo destranca-me a saída com o olhar que certos funcionários dirigem aos clientes, quando querem denotar o desprezo de quem se arvora da superioridade moral. A pé, marcho sobre as calçadas cinzentas do centro da cidade, deixando para trás o prédio estreito do motel, apertado entre uma loja de roupas populares e um edifício antigo de apartamentos. Frio tenebroso, vento que alterna com fino chuvisco, forçando a encolher-me em meio às parcas roupas. Onde acharei o bendito cigarro? Na rodoviária decerto consigo, aliás para lá já intuitivamente me dirijo, mas no meio da jornada descubro um simpático boteco, freqüentado por peões de obra nordestinos, bêbados da velha guarda e pistoleiras da madrugada. A estética urbana aprecio antes de cruzar a rua: portas de loja laranja e vermelho, pessoas viravolteando ébrias com seus copinhos de cerveja castiça, barzinho de higiene duvidosa, banheiro tão enlameado e mijado quanto a cozinha. Dezenas de adesivos coloridos de propaganda eleitoral decoram as paredes azuladas, junto de anúncios de mãe-de-santo que traz a pessoa amada em três dias, e de crédito fácil sem consulta. A música sertaneja, um embalo melódico, uma mulher já na casa dos cinqüenta, trajes mínimos e pouco generosos, dança com um negro mirrado, de boina e impecável sapato de bico fino. Não reparam em mim, talvez pelo cheiro de noite, sexo e mundanidade, embora eu jamais, por mais que me esforce, por mais que a desgraça abata-se sobre mim, jamais serei um deles, e jamais me considerarão como um. Uma barreira entre dois mundos incompossíveis, que se pode ser transposta ocasionalmente, não pode ser afastada, pois é a própria espinha do mundo em que vivemos. E não vivemos no mundo, mas no terceiro mundo.
Só de calcinhas, ela acende o Derby e o cheiro do cigarro barato mistura-se com os lençóis, o suor, os perfumes, o látex. Sua vitalidade, tão solar há menos de uma hora, tornou-se mortiça, sem brilho, e seu olhar obstinado inspira-me um sutil sentimento de imobilidade de espírito. Ela se senta de modo estranho, me parece desconfortável: as costas na parede, uma perninha pendendo fora da cama, a outra formando um triângulo surpreendentemente equilátero, os braços cruzando por sobre o tórax, trocando a cada dois minutos o cigarro de mão — e ela fuma vários, um após o outro, enquanto o olhar se dissolve vagamente, na modorra daquele quarto tão típico. Ventilador de teto (desligado), cama rústica de madeira pobre, lençóis grossos, cortinas marrons com manchas de gordura, paredes que um dia foram brancas, agora enegrecidas, marcadas, riscadas, nelas brotam irregularidades, buracos com fios coloridos que deveriam ser tomadas, pregos tortos e perdidos, buracos recobertos por gesso, percebo como em um ponto alguém pichou uma longa citação, que resta ilegível senão no trecho “…não sei se posso achá-la eu mesmo…”.
Não posso afirmar, tantos anos depois, em que momento a situação insuflou-me a mais agressiva onda de melancolia. Não foi instilando-me — não, dominou-me! contudo! soa-me simulada esta tentativa de colocar no nível da escrita um momento superabundante, desses que se realizam livremente e por isso fogem para sempre de nossas redes dicotômicas, e resta desumano capturá-los na memória ou articulá-los em frases, de tão caleidoscópicos e sintéticos e epifânicos. Seria como inventar um modelo matemático para explicar e reproduzir, em nível microscópico, o regime turbulento das águas quando irrompem das comportas de uma hidrelétrica. Fluxos explosivos que nos molham por inteiro, exigindo-nos que fechemos os olhos. Esta vontade vã de compreender totalmente, de sistematizar, de açambarcar, finda por trair o chamado profundo do acontecimento mesmo, expurgando-o de seu brilho para apresentar-vos, leitor, um cadáver verbal, pálido, já perdendo o calor, entre lírios, devorado que é pelos vermes da duração. É preciso confessar que já devo estar longe do que me acontecera: memórias, sinais, augúrios, sonhos, potências, arrependimentos, vaidades, enigmas, ciladas, obstinações, sombras, tudo isso se mistura e pessoa alguma tem estômago para receber em sua unidade, em sua verdade vital.
Ao escrever, para ser meu o que me ocorreu, ou que aconteceu diante de mim, comigo e em mim, junto-lhe associações e maculo-o com simplificações, interregno entre o vivido e o expressado onde o tempo se rasga em relâmpagos e tempestades. Dizem que o tempo se transfigura no rio em que nunca nos banhamos duas vezes, pois navego por corredeiras desconexas, rafting das lembranças recalcitrantes, rochas em que me esfolo e sangro, circuito árduo a desaguar numa lagoa, águas escuras e muito plácidas, pássaros chilreiam, vitórias-régias estancam o bote e então ouço das matas atlânticas, assombrado como vara verde, cânticos imemoriais e incompreensíveis de homens e mulheres que não conheci, porque estão há muito mortos.
Mas para que complicar? talvez o conjunto: o semblante baço dela, disposta em posição impossível, o ambiente amortecido, o cigarro vulgar, o ventilador de teto, a noite moribunda dando lugar ao lusco-fusco, que inaugura uma manhã nuviosa e esbranquiçada, afecções confusas em cujos pólos o ódio e a adoração despem-se do sentido usual, em que a inveja, a emulação, o orgulho, a vergonha, a coragem, a esperança, tudo isso sucumbe à dor mais primeva e selvagem, como o sentimento do primata ancestral que, numa noite silenciosa e sem vida, pela primeira vez percebeu as estrelas como estrelas… e chorou. Mas ela não chorou, quando lhe perguntei:
— Agorinha mesmo, tu não tava pensando em nada, nadinha, não é?
— Em nada.
Foi então que vi o vazio de seus olhos, e contemplei-o com a maior seriedade de quem vive ou ao menos tenta viver numa realidade abundante de beleza e magia. A anatomia da melancolia resolve-se naquele olhar, pináculo de uma situação vazia, mas tão vazia que nem a morte nela poderia se meter. Um vazio assim tão eloqüente, tão esplendorosamente eloqüente, que me preencheu do estarrecimento de talvez compreender o significado da clara noite do nada. Um quarto de motel impiedosamente insignificante capaz de dimanar todos os sentidos do universo. Um quarto no qual entreolham-se, aturdidos pelo eterno retorno da corrupção redentora, duas criaturas angelicais e endiabradas, dois vigias das dobras da realidade, onde termina esta dimensão e começa outra, floresta negra onde Heidegger vislumbrou o ser, onde Santa Teresa atingiu o êxtase, onde Sidarta Gautama ascendeu ao nirvana. Perdoem-me por favor, perdoem este escriba por sua grandiloqüência, por me bandear ao misticismo, por trair as palavras, mas devo ser sincero mesmo contra meu próprio gosto pessoal, e portanto devo dizer-lhes que foi nesta ocasião, então com vinte anos, que pela primeiríssima vez experimentei a angústia, essa que somente iria ler a respeito anos mais tarde, uma angústia gutural e espantosa, que talvez outros, dizem, possam pressentir quem sabe nos estertores de uma guerra, no fervor religioso, na agonia de uma doença incurável, na dor da perda, num deserto misantrópico de emoções tortuosas, embora eu não acredite nessas histórias clássicas, tendendo a crer que isto se passa mais provavelmente numa tarde qualquer do metrô ou ao passear pela beira de uma praia na maré baixa, porém que eu, admito-o, indivíduo deslocado jamais redimido, só pude e posso autenticamente vivenciar em momentos insípidos, ilídimos e insignificantes, anti-heróicos e demeritórios, e que se perdem em absoluto instantes depois de brilharem, sobrando-me, assim, somente falsificá-los, como faço agora, repetindo-os como farsa literariamente arquitetada.
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