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Publicado em 3 de abril de 2012. Comente

Orson Welles em Tudo é Brasil, filme de Rogério Sganzerla

 

É comum ouvir que o Brasil é a terra da diversidade. Um país atravessado por muitas paisagens, climas, raças, costumes, hábitos, culturas, identidades. Aqui, no geral, a mistura deu certo. Com tanta diversidade, não temos as divisões religiosas do Oriente Médio ou da Índia, nem as divisões raciais dos Estados Unidos. Motivo de orgulho nacional. O abrasileiramento da diferença se reflete no nosso caráter não-conflitivo, versátil e diplomático, aspectos valorizados do brasileiro. Aqui, não brigamos: contemporizamos todo sorrisos. Negros, índios e brancos, mulatos, caboclos e cafuzos, portugueses, italianos, japoneses, chineses e poloneses; para o bem ou para o mal, todos contribuíram para construir esta pátria. Somos um caso exemplar num mundo tão intolerante diante da diferença. Qualquer catálogo turístico sobre o Brazil não deixa de exaltar a diversidade do povo brasileiro.

Contudo, comparado com qualquer outro país da América do Sul ou da Europa, a percepção desmorona. Porque, tirando as aldeias indígenas, a sociedade é extremamente homogênea. Uma composição muito semelhante por todo o território nacional, cujo nivelamento cultural se dá pelo próprio sincretismo. A propagandeada diversidade oferece matizes coloridos e muito artesanato e uma indústria do turismo inesgotável, mas o substrato material não varia significativamente, do Oiapoque ao Chuí, das praias pernambucanas ao  Acre. Se você caminhar pelo centro das metrópoles brasileiras, não muda muito o cotidiano, o ritmo, a distribuição dos tempos e espaços, — e apenas observando os acontecimentos talvez você leve um bocado de tempo para descobrir se está em Belo Horizonte, Campo Grande ou Boa Vista. As pessoas vêem os mesmos programas de TV, lêem as mesmas revistas, ambicionam as mesmas marcas, ouvem as mesmas músicas, mantêm religiões similares, têm opiniões parecidas sobre política, economia e futebol. Os comportamentos das crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos variam mais em função da renda, do que da região em que habitam. Sobretudo, fala-se o mesmo idioma: talvez o exemplo mundial mais bem-sucedido de unificação linguística de um território. Pode ter uma ou outra idiossincrasia, mas não vai além disso, idiossincrasia.

Como isso aconteceu?

Tem quem explique a formação da cultura brasileira através da conciliação paulatina das raças, num amorenamento democrático. As raças teriam aprendido a conviver e se misturar saudavelmente. Outros falam num processo civilizatório que, embora tenha mascado gente no moinho da história, acabou pegando o melhor de cada qual: a cordialidade dos índios, a alegria saudável do negro, a racionalidade do branco. Nessa ideia, as raças originais se viram forçadas pelas contingências da história a evoluir, fecundando-se mutuamente, até surgir uma outra coisa, um novo gênero humano, o brasileiro. E há quem diga que a união das raças não passa de embuste, que nunca houve conciliação de nada, e que esse é o velho papo do branco colonizador, desejoso de dominar o colonizado, em nome de elevados ideais patrióticos, do Destino Manifesto do Ocidente. É tornar o índio um bom brasileiro, isto é, patriota e sem terra. Com efeito, a integração nacional sempre foi um projeto político consciente. Das missões jesuítas às bandeiras, das expedições amazônicas ao serviço militar obrigatório, da Seleção Canarinho (1954- ) ao Jornal Nacional (1969- ), de Brasília a Belo Monte.  Uma organização das relações de poder, a fim de governar a população, de modo que ela 1) trabalhe pelo mínimo, e 2) mantenha-se sob controle. Então sempre foi preciso que houvesse algo como um brasileiro, um povo brasileiro, para que o governo brasileiro pudesse governar com eficácia.

Isso por evidente se ramificou historicamente em várias direções, não admitindo dicotomias.

No começo do século 20, o positivismo europeu afetou parte da classe média urbana. O positivismo é um sistema filosófico baseado num humanismo racionalista, em que a sociedade evolui mediante um gradual autoesclarecimento, proporcionado pela razão e pela ciência. É uma ideologia onde o homem moderno se senta no trono da história, com a missão científica de civilizar os primitivos, os ignorantes e a natureza selvagem. Até então, o Brasil se inseria no mundo como natureza, terra de maravilhas e fábulas, melting pot de europeus e exóticos. Com o positivismo, se estrutura pela primeira vez o pensamento progressista, o primeiro programa político que pensou o Brasil como projeto, como uma civilização para superar a condição natural. O lema está na bandeira até hoje. Os positivistas tomaram por programa o fim da República Velha, a modernização da sociedade, a industrialização e a urbanização, a massificação de educação, cidadania e direitos. Esse projeto reuniu da direita progressista (depois udenista, depois militar) à esquerda progressista (cepalina, socialista, petista), no consenso de que é necessário desenvolver o país para sair do atraso e elevar o nível de vida da população. Sucedem-se grandes planos de desenvolvimento nacional, numa política de unificação pela via do progresso, o que vai atravessar a Era Vargas, os Anos JK, a Ditadura Cívico-Militar, até chegar ao século 21 como “desenvolvimento com inclusão social”. O resultado é polivalente, sujeito à polêmica. A crítica que se faz ao desenvolvimentismo é a própria crítica à política de integração nacional, — e com ela a toda uma antropologia do brasileiro.

Ao positivismo modernizador, responderam os modernistas, a partir da década de 1920. Por todos, Oswald de Andrade. Contra toda a ideia de progresso civilizatório, propôs a revolução estética de um Brasil radical. Nem Europa, nem seu Grande Outro: o Nativo lendário. Negando a origem mítica ou qualquer nostalgia, o escritor não sustentou uma essência brasileira. A poesia Pau Brasil invocava um homem tropical em constante transformação, feito ele mesmo de transformação. O Brasil modernista colocava-se em estado de derrogação, tendente a mobilizar-se continuamente, movendo as próprias fronteiras. A história do Brasil rompe em fragmentos, que se recombinam para contar outras passagens. Possibilitam-se novas vozes e narrativas, diferentes na forma e na matéria. A paródia, o pastiche, o folhetim, as coisas mais pop e miscigenadas ocupam o lugar da exuberância selvagem e indianista. O povo é desconstruído como abstração grosseira e cínica. Elementos artificiais e naturais, culturais e identitários se fundem e se reinventam, para reexistir diante da miséria física e intelectual do pequeno burguês, de quem Oswald tinha horror, e quem os progressistas viam como brasileiro  modelo para o futuro. A antropofagia contém duplo antídoto, ao “avante” dos progressistas e ao “anauê” dos reacionários, a quem pretende progredir em direção ao Primeiro Mundo, a quem deseja regressar à pré-modernidade como valor autenticamente nacional.

É que a antropofagia, primeiro formulada por Oswald, sempre foi a modalidade de (re)existência do “brasileiro” soterrado pelos projetos de Brasil. O ameríndio era mesmo antropofágico. E também o negro, a ponto de inventar a si mesmo. E também quem veio fare l´America, mas se ressentia colonizado. O escritor deu expressão poética à imanência do colonizado, quando desliza de sê-lo. Cercados por todos os lados pelos projetos de integração nacional, os colonizados não cessaram de resistir e reexistir, na fronteira mesma do abrasileiramento progressista. As múltiplas sínteses até se chegar ao tecido homogêneo do Brasil hoje não aconteceram sem cobrir um enorme rio subterrâneo de pulsões, insubmissões, diferenças e antagonismos. Na fronteira aberta onde se impôs e se impõe o Brasil; os negros, os índios, os colonos, os pobres em geral não só se apropriaram como puderam das armas culturais do colonizador, mas conseguiram recriar espaços-tempos de alteridade radical. O “povo” nunca quis ser povo, muito menos “nacional-popular”, essa aberração de mau gosto do esquerdismo. As culturas de resistência, sempre tidas por minoritárias e marginais, é onde pulsa a genuína criação antropológica de Brasil. Diante delas, a Cultura Brasileira, — sua diversidade e seu tom cordial, — é um conceito reacionário. Oswald só podia chegar a essa conclusão pensando o Brasil de Paris, já que o Brasil costuma ser a ideia fora do lugar, no sentido de Roberto Schwarz. E em São Paulo, a cidade com menor grau de identidade brasileira, logo, a mais brasileira de todas.

Se, hoje, é palpável a grande síntese do Brasil de classe média, lugar de trabalho, trabalho, trabalho e inclusão social e publicidade de cerveja, existem instabilidades, tensões, fragilidades, pontos de atrito, e inúmeras insatisfações pelo caminho. O Brasil finalmente está se inscrevendo na geopolítica como país de progresso e ciência, quando talvez devesse avançar à natureza. À segunda natureza dos criadores, à pele de cobra de quem se inventa, reinvenção pelos meandros da história, nem Europa, nem anti-Europa. Se o brasileiro se produziu nas relações de dominação; o outro brasileiro, o outro Brasil coexiste de modo incandescente.  Quando viajamos pelo território nacional com nossos olhos colonizados, podemos não enxergar claramente o devir de raças, essa alteridade que resiste, que insiste em reexistir além das diversidades e condescendências do projeto nacional. Sequer podemos vislumbrar onde está a franja de reexistência agora mesmo. Ela todavia emerge nas recusas, revoltas, insurreições, ao extravasar o não-pertencimento, ao querer fazer diferente, muito diferente, forças potentíssimas e irreconciliáveis que não deixam de afirmar-se. Um outro Brasil acontece, um Brasil vivo.

Publicado em 29 de março de 2012. Comente

Próximo sábado 31: debates, performances, vídeos, bandas, a organização do ciclo Occupy no Rio em 2012.

Programação:

Lanche de confraternização: 13 h

Debate – Representação: 15 h

Debate – Identidade: 17 h

Debate – Propriedade: 19 h

Festa com bandas Occupy: 21 h

É só chegar.

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Publicado em 14 de fevereiro de 2012. Comente

A homofobia é deplorável. No Brasil, o preconceito e a violência, física ou simbólica, baseada no preconceito são generalizados. Concordar com essas afirmações não implica concordar com a criminalização da homofobia. Trata-se, sim, de um problema social gravíssimo, que deve ser encarado sem meias-verdades ou subterfúgios pela sociedade. Precisamente por esse motivo, a aposta da criminalização não presta.

Muitas pessoas de esquerda acreditam que é possível encampar suas pautas através do direito penal. Pior, ingenuamente se colocam na linha de frente de projetos de criminalização, como se perfizessem uma agenda emancipadora. Por todos, sugiro muitíssimo o artigo seminal da juíza Maria Lúcia Karam, intitulado muito pertinentemente A Esquerda Punitiva, publicado em 1996, na revista de criminologia Discursos Sediciosos.

É que o direito penal não ajuda a resolver problemas sociais. Não foi feito pra isso. Não existe aplicação do direito penal que possa ser misturada com a defesa dos direitos humanos e a proteção da dignidade. Direito penal e direitos humanos são como água e óleo. A única  aplicação plausível dos direitos humanos diante do direito penal consiste no esforço teórico e prático de mitigar o último, desconstruí-lo, contradizê-lo e deslegitimá-lo.

No fundo, os setores criminalizantes da esquerda incorrem numa grosseira abstração. O sistema penal é composto por três sub-sistemas. A polícia, a justiça criminal, as prisões (e outras formas de penalização). No Brasil, nenhum dos três sub-sistemas chega perto de lidar com problemas sociais de um modo eficaz ou emancipador. Os três, aliás, costumam agravá-lo, e mesmo criar novos problemas eles mesmos. O poder punitivo brasileiro é extremamente seletivo. Ele sabe distinguir com implacável ciência o branco do negro, o rico do pobre, o imigrante, o “vagabundo” e a “vagabunda”. Quem já impetrou habeas corpus nos tribunais de justiça para preso pobre ou acompanhou tribunal de júri com réu negro sabe do que estou falando. Trata-se mesmo de uma máquina eficiente quando tritura pobres e negros, mas que confere uma gama jurídica e extrajurídica de atalhos, facilitações, atenuações, salvaguardas, garantias e proteções aos brancos ricos.

A criminalização da conduta 1) não protege a pessoa, 2) não previne a violência, 3) não ressocializa o infrator.

1) Não protege porque, por definição, o direito punitivo se aplica a posteriori, depois do ato tentado ou consumado. O direito penal não desfaz o crime cometido, nem restaura o status quo ante, ao retribuir a violência na forma de castigo. O direito penal não serve a sentimentos privados de vingança, não pode se prestar a aliviar comoções com tochas na mão ou choradeiras televisivas. Do contrário não seria direito, e estaríamos de volta ao século 18, à vingança do rei e aos suplícios públicos.

2) Não previne porque não existe relação de causalidade entre a intensificação da punição e a ocorrência estatística da conduta tipificada. Instituir a pena de morte não significa reduzir os homicídios, mas, simplesmente, que mais jovens pobres e negros serão mortos, agora também fria e ritualisticamente. Do mesmo modo que criminalizar o aborto ou o comércio de produtos ilícitos: apenas desvia a perspectiva do problema real, cria novos problemas no processo, e novamente mais pobres e negros pagam o pato.

3) Sobretudo no Brasil, a teoria da ressocialização não faz o menor sentido. A justiça criminal está longe de ter uma visão humanista e libertária, capaz de inspirar a humanização da sociedade em nome dos altos valores que supostamente promove. A polícia, por sua vez, muito distante de ser educativa. E acho ninguém discordaria que as prisões brasileiras não têm sido bem-sucedidas em sua função pedagógica.

O poder punitivo, ou seja, os três sub-sistemas juntos não têm feito mais do que multiplicar a violência física e simbólica, inscrevendo-a como trauma e neurose nos corpos pobres e negros que são sua principal matéria de trabalho. E quem só aprende a linguagem da violência, só se comunica pela violência, o que, a seu passo, só pode agravar os problemas sociais.

Então o que fazer?

Em primeiro lugar, parar com essa essa aberração punitivista, essa crença ingênua em que precisamos escrever mais um ou dois artigos no código penal, que já tem mais de duzentas tipificações. Não precisamos. O discurso da impunidade é de direita, assim como o clamor punitivista que a grande mídia promove ao redor de casos famosos. A direita, nada ingênua, pragmática e esperta, sabe muito bem que o direito penal exerce um papel para reproduzir e perpetuar os problemas sociais: a desigualdade, a injusta distribuição, a opressão de classe/gênero/raça/sexualidade, as muitas assimetrias e hierarquizações que historicamente atravessam o corpo social. E por isso o defende como pauta número um: combate ao crime, fim da impunidade, faxina ética etc.

O primeiro passo para acabar com a homofobia só pode ser parar de educar as crianças e adolescentes para serem heterossexuais. No século 21, já se tem conhecimento suficiente para se concluir por A + B que outras formas de sexualidade não são anormais, anti-naturais, erradas ou vergonhosas. Isto significa, pela mesma razão, que o heterossexual não é normal, natural, certo ou elogiável, pelo fato de ser heterossexual. Não tem certo e errado na sexualidade, nem norma válida por razões universais ou naturais. O adolescente beijar na boca outro adolescente do mesmo sexo é tão bonito e legal quanto qualquer outro ato de amor.

Hoje, o exame de ultrassom nos propicia não só dar nome aos fetos, mas inundá-los de expectativas e cobranças antes mesmo de nascerem. Não à toa a instituição da família seja tão diretamente responsável pelo conservadorismo e reacionarismo do Brasil. Já nos vemos colocando-os em escolinhas de futebol ou então em quartos rosas com bonecas e outras coisas fru-fru. Que casal “saudável” já prevê na educação de casa a possibilidade de o menino vir a ser gay, a menina lésbica, ou então que ele resolva ser ela ou vice-versa? A heteronormatividade aparece antes mesmo do parto.

Nada fazer contra o senso comum significa conservar essa percepção desigual em relação às múltiplas sexualidades humanas. Homofobia por omissão. A recusa e má vontade do estado em aceitar o casamento ou a adoção por pessoas do mesmo sexo, e em adotar uma educação escolar abertamente pró-gay/lésbica/queer/trans (e não só anti-homofóbica) são fatores que acabam sustentando a homofobia.

É preciso que as forças de esquerda se organizem para lutar contra a norma heterossexual que está na base da homofobia, como célula de um problema social muito mais complexo. Isto pode se dar a) seja saindo do armário, para afirmar o desvio e despedaçar a heteronorma com a paródia e o ridículo, b) seja intensificando marchas, movimentos sociais, mídias e redes sociais para destruir o consenso conservador, predominante na família, no estado e na escola brasileiras.

E os skin-heads da Paulista, e os comandos de caça aos desviantes? É preciso que nos organizemos para nos defendermos deles. Violentamente, se preciso. Por que não mirar no exemplo do Partido dos Panteras Negras pela Auto-Defesa, que deu novo impulso e vitalidade ao movimento negro americano? O direito acolhe a legítima defesa, individual ou coletiva, numa democracia. Mas a polícia é homofóbica… Claro que é, como todo órgão de controle social, e nenhuma lei vai mudar isso. Então que batalhemos para que mais policiais se afirmem como participantes do movimento, que se declarem gays, lésbicas, queers, trans. Porque muitos já são mesmo, não se iludam.

E que se coloquem os mandatários à parede. Que não sejam aceitas desculpas fundamentadas na lógica da estratégia, na tal correlação de forças. Muitos mandatários se recusam até a colocar o problema, a admitir que ele existe. Isto ocorre porque, em parte, estão comprometidos com forças reacionárias ou conservadoras, com a direita, com fundo moral, religioso ou simplesmente classista. Para esses mandatários de esquerda, nada mais cômodo do que contornar toda a problemática, e se restringir a simploriamente propor uma nova lei penal, um novo castigo. Isso é esquerda, outro artigo no código penal?

Esquerda punitiva é outro nome para direita enrustida.

Publicado em 16 de janeiro de 2012. Comente

O sexo pode ser de dois tipos, consensual ou estupro.

Uma pessoa não está em condições de dar o consentimento e você se aproveita da situação e transa com ela.

Escolha a alternativa que corresponde à resposta correta.

O sexo foi:

a) unilateral;

b) inopinado;

c) oportunista;

d) inconsciente; ou

e) estupro.

—-

Recomendado: Estupro, o que é, como não fazer , por Alex Castro.

Publicado em 5 de janeiro de 2012. Comente

Se têm dois filmes que antagonizaram no cinema comercial de 2011 foram A Árvore da Vida (Terrence Malick) e A pele que habito (Pedro Almodóvar). Dois auterismes nos antípodas do mainstream.

Malick

O filme de Malick ganhou a Palma de Ouro, foi bem recebido pelos públicos e obteve muitas críticas positivas.

Um filme profundo, como repetido mil vezes. Busca a Verdade e o Bem nas coisas cotidianas. Almeja a profundidade através de realidades simples.  É suficiente uma família texana dos anos 1950, sua casa, seu quintal, seu habitat, sua vidinha suburbana de classe média do pós-guerra. Basta depurar o enredo, despsicologizar os personagens, secar os cortes e simplificar a narrativa. Basta enxergar. Propõe ir ao essencial da luz e do movimento, atrás das conexões ocultas, da big picture, do design inteligente. Parar de distrair-se com o contingente, transcender o ruído das correrias e ambições, parar e finalmente escutar. Não admira que o pensamento do irmão, em off, seja sussurrado, pois ele se se acerca da Verdade. Não tente entender. É só querer ver, sentir, aceitar! Sean Penn (Jack) sintetiza a atitude do filme, na única cena em que parece servir para algo: na praia, se prostra impotente, embasbacado, golpeado por todos os lados por uma beleza eterna e insuportável que dá vontade de chorar. Se essa é a definição do que seja poesia, é para cachorros.

Não é que o cosmos represente a psicologia dos personagens, como em Melancolia (Lars von Trier). Aqui, os personagens são arquetípicos e se escrevem com maiúsculas: o Pai, a Mãe, o Irmão. Sempre existiram, do começo ao fim dos tempos. Neste filme, o cosmo é a família e a família é o cosmo, porque tudo se resolve no Uno. Tudo é cósmico: o homem é reduzido às regularidades metafísicas de um universo orgânico, fechado, estático, medieval. A família aparece como uma forma eterna que prova a unidade transcendente do universo. Todos os signos esculpidos por Malick convergem nesse eixo de sentido. Se as personagens nadam embaixo d´água, eis o sentimento oceânico nas cercanias Dele. Se cambaleiam por cânions e pasto alto, eis a solidão diante de Seu infinito mistério. Quantos planos da luz solar atravessando folhagens, sinalizando-O? A agitação e o barulho ao redor da casa, esses fluxos só podem subsistir graças à Estrutura superior, animados por Ela, e diante do que o homem não passa de migalha. É a Natureza (fluxos) subjugada pela Graça (estrutura).

O diretor não contemporiza: consente que se trata de uma obra magna. Sob certo ponto de vista, é mesmo. A Árvore da Vida exprime uma tendência do cinema, inclusive brasileiro, que se apresenta como novidade indie-espiritual. Os truques e cacoetes saltam aos olhos. Na montagem, decupe um fluxo de imagens mais ou menos desconexas, extraia sentidos mágicos do cotidiano mais prosaico, insinue emoções profundas, invoque sentimentos oceânicos… voilá, seu filme parecerá encerrar uma Verdade, que só poderia brotar de uma sensibilidade autenticamente artística. É a moda de Árvore da Vida e seu desfile de momentos Kodak. Como é emocionante filmar a efêmera qualidade do momento, o espetáculo da vida! Terrence Malick só pode ser um visionário. Tão visionário quanto os comerciais de Calvin Klein na década de 1980. A câmera perseguindo Mrs. O’Brien não recorda aquelas tomadas de Kate Moss, que de profundas só têm a pretensão?

Se Avatar foi o Zeitgeist da juventude indie cosmopolita, como escreveu uma crítica idólatra, A Árvore da Vida contém a teodicéia para uma geração espiritualista. Deus imergiu na paisagem e se diluiu pelo cosmo, cada religião O exprime a seu modo, legítima, fiadora dos significados mais profundos e inacessíveis do universo. Também se diz Energia, Transcendência, Física Quântica, você nomeie. Agnóstica e espiritualista, a geração malickiana não se escandaliza ante a crescente separação entre religião e política. Ou seja, tolera cada vez mais as pretensões políticas da religião, que costuma se defender dizendo-se separada do debate democrático. E aí vamos perdendo tudo, pois onde a fé se politiza, cessa a democracia. Agnosticismo cúmplice de uma sociedade americana cada vez mais fundamentalista, exatamente por causa da tolerância. O problema não é o absoluto (com o que o filme convive bem), mas seus janízaros.

É, realmente, um filme apaziguado com personagens apaziguados para públicos apaziguados.

Anti-Malick

Que boa notícia o último filme de Almodóvar chegar ao circuito comercial com uma força equivalente à obra prima de Terrence Malick. Eis o antídoto! Porque A pele que habito está na trincheira do outro lado. Um filme de espírito. Não “espírito” no sentido de alma capaz de contemplar Brahms e esperar a graça. Mas no sentido de caráter, de personalidade, de geniosidade, no sentido que Orson Welles e Ian Curtis conferem à palavra spirit. Espirituoso, não espiritualista.

Neste filme, os gêneros do cinema comparecem menos para estruturar a narrativa do que engrossar e desordenar os fluxos. Um bom filme abusa dos gêneros e não deixa ser usado por eles. Acessa o manancial de signos e ressignifica-os para saturar a obra de novas intencionalidades, contra qualquer impulso de depuração metafísica, de pureza cinematográfica. Quebra-cabeça transgenérico cujas peças vêm de jogos diferentes. Almodóvar bebe do terror, do suspense, da ficção científica, do filme-de-prisioneiro, mas sobretudo do melodrama. Retorcidos e reutilizados também os temas de sua filmografia: a traição, a obsessão, a solidão, a sexualidade transgressiva e o transformismo; as sequências com revelações, reviravoltas, crueldades, assassinatos; os fetiches sexuais e as motivações pouco convincentes, os flash-backs mais vagabundos como numa novela mexicana. Profana os gêneros e a si mesmo, força-os junto do modo mais genialmente inverossímil, — enraba-se artisticamente, fazendo das vias antinaturais o cadinho da criação. É o material profanado e baixo que importa.

Enquanto A Árvore da Vida reverencia o plano superior que só pode ser pressentido em momentos de iluminação, o filme do espanhol homenageia o senso de teatro, a mania de intriga, o capricho. Ofende as regularidades, as naturezas, os arquétipos, a ordem universal dos contrários. Não há nada de iluminado, sentimental ou profundo nas expressões e motivações dos personagens. Não tem isso de espiritualismo: as coisas sucedem no nível da pele, os acontecimentos espraiam-se pela superfície. É a superfície contra todas as profundidades: a epiderme, o decote, a cor berrante, as texturas das paredes e roupas.

Fazer do homem a mulher não se resolve em nenhuma operação mística. É pegar DNA de homem e DNA de porco e partir para cirurgias, tratamentos, experimentos (de cinema). Enquanto as memórias podem ser apagadas com drogas, televisão e ioga, num exercício nada grandiloquente de esquecimento ativo. O grotesco dá o tom. O tigrão bem dotado brasileiro é mesmo um tigrão bem dotado brasileiro e um estupro é um estupro. E também não tem nada de mais: só deixou Vera um pouco dolorida para transar com dr. Robert mais tarde. Ato que reconhece o feminino em sua força de superar o sofrimento e esquecê-lo sem traumas. Razão pela qual Vicente pode sobreviver à vaginoplastia, em seu devir-mulher. Quem fica traumatizado se mata e não conta com nenhuma condescendência. São ridicularizados pelo filme. A castração e o estupro não são, afinal, grande coisa. Os personagens de espírito tiram de letra. Almodóvar deliciosamente ultrajante, coisa que, no cinema recente, só vi em Jorge Molina (Chapeuzinho vermelho do inferno, 2010) e Cláudio Assis (Baixio das bestas, 2006, a poderosíssima cena em que ela se lava no rio). Não é um filme palatável a públicos conservadores. Tampouco agradará os politicamente corretos. Talvez sirva aos beatos da bioética para falar do perigo da manipulação genética. Ou quem sabe para cientistas sociais mais descolados discorrerem sobre a biopolítica contemporânea. Os indies vão achá-lo over. Os cineastas de nova safra, demasiado autoral.

De qualquer modo, é um anti-Malick. A pele que habito não quer saber de Deus. Não é que Deus não importe, é que se faz imperativo atacá-lo com a paródia e o ridículo. Estuprar Deus. Um estado de violação permanente, carnaval de horrores de Édipo a Frankenstein. Estilista do monstruoso, polimorficamente perverso, conjura Deus e o Diabo num humanismo transgressor onde o homem é causa de si. Antropogênese: cria o homem e é a imagem do homem e não há nada mais. Um Shakespeare kitsch, um Nietzsche sem grandiloquência.

Conclusão

Os últimos longas de Malick e Almodóvar se confrontam diretamente. Habitaram os antípodas do cinemão de 2011. Colocados lado a lado, lutam até a morte, sem síntese, sem diálogo possível.

Publicado em 28 de dezembro de 2011. Comente

“(…) Este blogue propõe-se a uma prosa-poesia e uma política-arte, em suma, uma crítica imanente à constituição e partilha de mundos pelos seus verdadeiros artistas, isto é, todos nós.” — seção SOBRE, do QdL.

2011 é daqueles que entram para a memória. Daqueles anos que nunca acabam, que se repetem permanentemente, tais como 1789 (revolução francesa, jacobinos), 1871 (comuna de Paris, Marx), 1917 (outubro vermelho), 1922 (Oswald, jazz, samba, Vertov), 1968 (tropicalismo, Gláuber, maio de 68, Vietnã, Hendrix, revolução sexual e cultural, Mao) e 1989 (fracasso do socialismo real), — todos da mesma estirpe. Faço questão de incluir 1989, que não significou uma derrota para as lutas. Ao contrário da narrativa do fim da história, a queda do pano de ferro foi a culminância das revoltas de 1968. Uma revolução contra os muros internos e externos da sociedade, suas disciplinas, divisões sexuais e regimes de trabalho. Se, a partir de 1989, os ideólogos da mesmice deram a entender que esse período de 200 anos de insurgências e utopias teria se encerrado, — que todas as tentativas de ousar e fazer diferente da democracia ocidental liberal-proprietária levariam ao “totalitarismo”, esse grande espantalho do século 20 — 2011 está aí para gritar a sua diferença, para afirmar que o século disparado por 1789 recomeçou no novo milênio.

Intoxicado de tempos tão incríveis, 2011 também foi o ano mais produtivo para o Quadrado dos loucos. Este blogue, lançado em 2009, contou 127 textos durante o ano. Em abril, migrou do antigo blogspot para o atual wordpress, software livre, redimensionado na versão 2.0. Neste ano, dois artigos ultrapassaram as 10.000 visualizações (De que Ana de Hollanda tem medo e Sobre fim dos jornalistas, na acampada), e três as 5.000 (Um mês de OcupaRio, Como a psiquiatria pode destruir a juventude e Revolução na Líbia: nem capitalismo, nem socialismo). Isso pra mim serve como informação estatística mais do que qualquer coisa. Mesmo porque os textos que menos desgosto, — e pelos quais até sofro de alguma nostalgia (mas não revelo quais), — tiveram baixa frequência. No final, deixo para o leitor uma relação mais ou menos aleatória da produção do QdL em 2011.

A escrita é mesmo um exercício de libertação pessoal. Ao escrever fica claro, com frequência desafiador, como cada problema colocado pode ser enfrentado por inúmeras abordagens, segundo vários cortes interpretativos, nas mais inesperadas articulações de temas e assuntos. Há muitas opções contingentes, caminhos a percorrer-se, picadas a abrir-se na selva da cultura. O grau de liberdade na escrita, em última análise, não está condicionado pelas estruturas linguísticas, como poderia se ressentir algum estruturalismo do Grande Outro. Cada problema real excede as soluções que se possam esboçar a partir dele, em todas as perspectivas imagináveis, de forma e conteúdo, tradução e traição, semântica e sintaxe. Por sinal, sempre que se tenta exaurir um problema, traçá-lo de modo definitivo e irrefutável, que se tenta ir a seu âmago, ele acaba fintando o intérprete. Expõe outras faces e expressões, se mostra mais intrincado e barroco.

Como uma pintura de Pollock, uma deriva de intensidades libertas, de velocidades e movimentos frenéticos que ora coagulam numa figura, ora noutra. Como um fractal, a escrita se dobra e desdobra, ao infinito que (se) imagina a mente e (se) afeta o corpo. Há quem acredite que a luta se situe numa investida contra o Castelo, o Processo, a Ilha de Manhattan, o Deus Abscôndito (e seus suboficiais vagamente interessados em seu caso), mas quem sabe essa entidade não passe de uma estratégia para desvalorizar os múltiplos corredores, atalhos, becos, escadarias e passagens secretas da vida, em meio ao que se rasgam tão prementes os antagonismos do real. Sem sofistaria, a problemática é infinita e não adianta persegui-la sem assumir a sua virtualidade inexaurível, onde o Um, sim, se faz Dois, mas se faz Dois flutuantes, contingentes, imprecisos, malandros.

Mas impressiona como, apesar disso, há tantas interpretações enlatadas e percepções enrijecidas sempre e sempre sobre os mesmos temas e assuntos. A velhice é um estado de espírito, mas também um corpo encarquilhado de velhas ideias, no lugar demasiado certo de suas certezas. Diante desse quadro tétrico, este blogue conjura o mais-do-mesmo e tenta proliferar sentidos e afetos nas dobraduras, nesse origami imprevisível que os problemas instigam. É o mundo como horizonte para o erro. Não tem pudor em assumir-se um lance de dados, seus riscos e inconsequências. Daí que as obsessões de estilo estejam incluídas nessa (des)preocupação, — aliás tão pungente, epidérmica, que enseja virilidade, delicadeza, ternura e loucura, isso que a dor e os problemas reais do mundo colocam.

O certo é que, embora promíscuo nas relações e encontros criativos, não é preciso professar compromisso com instâncias transcendentes, ideologias, significados-mestres, religiões ou metafísicas — nem mesmo ante o Leitor enquanto entidade, olhar e juízo que transcendem o texto, — pois escrevo como condição de existência. Escrevo porque sim, — de vez em quando porque preciso, mas sobretudo porque quero, posso e consigo, e busco não me separar do que eu posso, senão seria menos do que poderia e anquilosaria. Às vezes funciona, noutras não. Ao leitor cabe apropriar-se como ferramenta ou taça de vinho ou pretexto de suas próprias ilusões e desventuras, — ou então descartar a leitura. Faz parte e não dá medo.

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Uma seleção em retrospectiva de 2011, organizada em seis eixos:

1. Generosidade e crueldade:

Generosidade e revolta, 3 de janeiro

Não estou nem aí para os mortos, 14 de janeiro

Quando o ateísmo é causa desfocada, 15 de fevereiro

Corrupção é sempre da democracia, 1º de março

Como a psiquiatria pode destruir a juventude, 26 de março

Potlatch, 1º de abril

O senhor e o escravo, 2 de outubro

Sobre fim dos jornalistas, na acampada, 23 de outubro

O idiota anticorrupção, 2 de dezembro

 

2. Personagens excessivos:

Sou anti-anti Battisti, 5 de janeiro

A multidão se faz poeta, resenha sobre Bárbara Szaniecki, 23 de janeiro

A ética de Spinoza, 9 de maio

Amy, suicidada pela sociedade, 3 de agosto

Antonio Negri na Cinelândia, 11 de novembro

As finanças causaram a crise global?, resenha sobre Christian Marazzi, 5 de dezembro

Eduardo Viveiros de Castro, 24 de dezembro

 

3. Conspirações globais:

A nova militância, enxamear é preciso, 9 de janeiro

O devir da revolução árabe, 20 de fevereiro

A revolução árabe sob a ótica da multidão, 3 de março

As revoluções árabes na Espanha, 21 de maio

Que querem vocês, 15-M? viver!, 23 de maio

E agora, 15-M?!, 3 de junho

Marchas, revolta e geração, 19 de junho

Ideologia da crise, 11 de agosto

2011, o ano em que tudo começou, 10 de setembro

Revolução 2.0: da crise ao comum (UniNômade), 26 de setembro

Um caminho para o 15-O no Rio, 15 de outubro

Mao-Tsé Tung caminhava na chuva, 17 de outubro

Queerpunk, além do movimento gay, 20 de outubro

Produzir o dissenso, na acampada, 25 de outubro

O movimento do etcétera, 29 de outubro

OcupaRio é muitos, 3 de novembro

OcupaRio: petróleo para todos, 12 de novembro

Um mês de OcupaRio, 21 de novembro

A crise da economia global, 6 de dezembro

Não é hora de sair do Facebook, 13 de dezembro

 

4. Tudo é cinema:

Um condenado à morte que escapou (Robert Bresson), 7 de janeiro

A colecionadora (Eric Rohmer), 13 de janeiro

Tio Boonmee (Apichatpong Weerasathakul), 26 de janeiro

Bravura Indômita, (Irmãos Cohen), 18 de fevereiro

Homens e deuses (Xavier Beauvois), 29 de abril

Melancolia (Lars von Trier), 7 de agosto

 

5. O Brasil da Dilma:

RJ e Dilma, governos do consenso, 25 de fevereiro

De que Ana de Hollanda tem medo, 4 de março

Cidade das mulheres e a omelete de Dilma, 8 de março

Fábrica de Wellingtons, 1 de abril

Os camelôs, a ordem, as lutas da cidade, 1º de junho

Todo o apoio aos vândalos, 7 de junho

A reforma política começa pela mídia, 8 de julho

O mata leão olímpico contra o Rio, 11 de julho

A tal correlação de forças, 18 de julho

A tal vontade política, 19 de julho

Esquerdismo: os puritanos laicos, 29 de julho

O faraó e a represa, 20 de agosto

Consumitariado, 22 de setembro

Por um outro Belo Monte, 24 de novembro

Governo Dilma: um ano, 20 de dezembro

 

6. Direito do comum:

Da Lei Sinde à Ana de Hollanda: o comum resiste (grupo Direito do Comum), 5 de setembro

O comum organiza o direito, 21 de outubro

Recomeçar o direito no comum, 10 de novembro

O que é direito do comum, 28 de novembro

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Imagem: Jackson Pollock

Publicado em 10 de dezembro de 2011. Comente

Julian Assange: Eu forneço de graça a vocês as informações privadas sobre as empresas, e eu sou o vilão.

Mark Zuckerberg: Eu forneço por dinheiro às empresas as informações privadas de vocês, e eu sou o homem do ano.

Publicado em 24 de novembro de 2011. Comente

Belo Monte não é apenas uma usina. Se Brasília sintetizou o imaginário progressista do Brasil dos 1950, Belo Monte faz isso para o século 21. Nele, condensam as forças políticas, as esperanças, as perspectivas e as cosmovisões. Saturado de argumentos, estudos, relatórios, mitos, panfletos, manifestos e imposturas, Belo Monte é palco para todos os personagens da ópera brasileira. É onde se disputa a nova ordem, o Brasil do passado e do futuro. É onde coalha o Brasil Maior dos megaventos e do Pré-Sal: a nação-potência, enfim alavancada ao porvir que seus orgulhosos filhos desfrutarão. É a forja do novo homem brasileiro . Como em Idade da Terra (1980), último filme de Gláuber Rocha, os vários Cristos (Negro, Índio, Militar e Guerrilheiro) e o  Diabo (Brahms) se debatem entre liturgias e orgias pela revolução brasileira. Tudo aí está em jogo: tensiona, range, dói, estala e borbulha.

Do Estado Novo ao 2º Plano Nacional de Desenvolvimento da ditadura cívico-militar, até o Brasil Maior no século 21, os governos brasileiros têm respondido à crise global com saltos de desenvolvimento. Em 1929, 1973 e 2008, ocorreu debaixo da bandeira do nacionalismo, num consenso entre esquerda e direita. Nas três ocasiões, a nação do futuro não poderia ficar para trás em seus grandes inadiáveis projetos de modernização. Todas as vezes, isso significou converter o mito no plano . Executar esse grande Plano exigiu comando forte e centralizado (Vargas, Geisel, Dilma). Um que consiga fabricar consenso, reunir esquerda e direita, a grande imprensa e o capital nacional-internacional e a governança financeira. E a partir desse esforço de engenharia política investir maciçamente, propagandear a esperança e equacionar sacrifícios (aos pobres) e dividendos (aos ricos).

De passagem, é preciso tomar distância de homens-mediadores que tentam se acoplar a projetos de poder. Mais problemático do que o governo Dilma estar construindo Belo Monte, é Belo Monte estar construindo o governo Dilma. Se, com toda a consequência, participo de alguma força menor agenciada ao evento Lula-Dilma, por que teria de me sentir compelido a subsumir-me à Dilma Maior? Não me refiro a ser a favor ou contra, mas à tendência, à predisposição quase moral de apoio e lealdade.

Desta vez, o governo promete minimizar a perda e democratizar o ganho: remover a pobreza e socializar o trabalho. Nesse sentido, Belo Monte só pode ser mesmo a última grande obra socialista, como escreveu o sociólogo Giuseppe Cocco. Isto à medida que o projeto socialista se realiza na transformação do mercado de livres capitais individuais em capital coletivizado pela planificação estatal. Com mão invisível e pulso firme, chega-se ao socialismo do capital que permite crescer a taxas chinesas — eis o nosso horizonte.

A síntese mística do futuro, portanto, não é discutida. Prevalece uma poética épica* grandiloquentemente wagneriana nas propagandas e discursos. Demais, impõe-se a dupla dialética: o curto e o longo prazos, problemas menores e maiores. E, com ela, certa métrica do desenvolvimento: como medir o valor, como quantificar perdas e ganhos, como produzir o homem.

Daí a pergunta não pode ser levianamente você é a favor ou contra a construção da usina?, nesse binarismo de vagas indignações e discussões de almoço de domingo. O caso é dramatizar: colocar o conflito e desenvolvê-lo em suas múltiplas vozes, sem deixar jamais de tomar partido.

Uma estratégia está em exasperar a indignação. Denunciar os abusos aos direitos humanos e ao meio ambiente. Provar por A + B dos malefícios incompensáveis. Listar opressões e convocar os yntelektuais para esgotar intelectualmente as perversidades cometidas. Desnudar as intenções verdadeiras do governo e seus aglomerados empresariais-financeiros, sua traição aos ideais de esquerda, sua impudente retórica de cartilha. Realçar como os povos da Amazônia, índios, caboclos, sertanejos e ribeirinhos são os coitados da história, literalmente tratorados de seu ecossistema e sem direitos. Ainda outra vez erigir o altar humanista e acusar esse mesmo homem por sua indústria desumana, contra as outras humanidades e a alma do mundo. Em parte, pequenos partidos e outros ainda sequer oficializados vêem aí oportunidade para desgastar a imagem do governo e capitalizar eleitoralmente as suas candidatas.

Outra estratégia, mais potente, consiste em construir a indignação. Elaborar uma cartografia das lutas reais. Orientar o carnaval, articular os movimentos sociais. Reelaborar uma antropologia natural, no perspectivismo do Brasil menor. É coordenar narrativas de outros mundos, outras humanidades, outros Brasis, multiplicando a resistência. Unidos menos pela natureza humana do que pelo homem como naturezas (no plural).

Mais do que isso, elaborar uma outra métrica, outro modo de medir, quantificar e valorar as relações sociais. Isto significa desprogramar o olhar, desmacetear a análise e passar a enxergar Belo Monte não só como produção de energia a partir da “natureza”, mas como a produção do próprio ser humano. Como se governa o acesso, a propriedade, a produção, a distribuição e a circulação dessa energia, como ela circula e se estrutura como força produtiva? Como se produz o comum artificial a partir do comum natural, quero dizer, o homem como naturezas? Aí, contra todas as utopias e progressismos, a diferença entre um ambientalismo fortemente commonista e os ecologismos metafísicos ou ecossocialismos exasperantes. Entre mortificar a indignação com apelos à má consciência e sacerdócios esquerdistas, — e alegremente construir a indignação, construir o comum, rir do poder e trabalhar na rede social de relações, ocupações, mídias, perspectivas e novos modos de viver e sentir e se relacionar. Em suma, constituir Brasis menores, minoritários, constituir o comum.

Belo Monte é nosso maior problema, seja na sua violência civilizatória como obra concreta aqui e agora, seja como prancheta messiânica, como alegoria e drama políticos. Mas o problema principal talvez não esteja propriamente na inocência do sofrimento, na violação da ecologia ou nas incongruências da matriz energética, — como insiste a maioria de seus opositores, com sólida argumentação, mas perspectiva desfocada.

Como escreveu Marx nos Grundrisse: “No ato da reprodução [da vida social] não se alteram apenas as condições objetivas, mas os próprios produtores se modificam, extraindo de si mesmos novas qualidades, desenvolvendo a si mesmos por meio da produção, se remodelando, formando novas forças e novas concepções, novos meios de comunicação, novas necessidades e uma nova linguagem” (p. 405 da ed. brasileira).

Talvez o problema principal esteja em como, — na afirmação de um outro Belo Monte, outra forma de governar e produzir, noutras palavras, na produção resistente de Brasis menores ou minoritários, — possamos reinventar o brasileiro, a nós mesmos em nossas infinitas naturezas humanas.

 

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Recomendados:

Os paradoxos do desenvolvimentismo nos governos Lula-Dilma, por Hugo Albuquerque, no Descurvo

Discurso às nações indígenas, por Cléber Lambert, na Revista Fórum

Belo Monte e Jirau, por Rodrigo Nunes, na Revista Global Brasil

Belo Monte sob o signo dos direitos humanos, por Fabiano Camilo, no Coletivo Amálgama

A recriação anacrônica do imaginário desenvolvimentista, por Raúl Prada, em Horizontes Nómadas

50 Leituras sobre Belo Monte, por Idelber Avelar, na Revista Fórum

Krysto Redentor, crítica de Idade da Terra, por Luís Alberto Rocha Melo, na Revista Contracampo

“Transformação” na antropologia, transformação da “antropologia”, conferência de Eduardo Viveiros de Castro, na revista Sopro 58

Dilma Rousseff e a encruzilhada do desenvolvimentismo, por Idelber Avelar, na Revista Fórum

Comentários sobre Belo Monte, por Miguel do Rosário, no Óleo do Diabo

O faraó e a represa, ensaio neste Quadrado dos loucos

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PS.

Substituí poética por épica em 25/11, 16:30, acolhendo comentário de uma leitora atenta: “(…) Se,para salvar a lírica deslumbrante, de Tristão e Isolda, fosse preciso ficar cem anos ouvindo só a Cavalgada das Walquírias, qquer pessoa que não fosse PERFEITAMENTE metida a besta, teria de aguentar cem anos de CW, só pra ter “Tristão e Isolda”. Então, meus amiguinhos, “uma poética grandiloquentemente wagneriana” é bullshit. Ainda se podia aproveitar alguma coisa se fosse “uma épica grandiloquentemente wagneriana”. Mas uma poética, isso, acordem, é outro departamento. (…)