os indesejados
Publicado em 20 de abril de 2010. Comente

Gustavo e Alberto se reecontraram. Abraços tímidos, tapas nas costas, sorrisos amarelos e então se sentaram, um diante do outro. Entre rodadas e mais rodadas de choppes, diante da mesinha de ferro pintada de amarelo, meio na calçada, eles desfilaram lembranças sobre os tempos adolescentes, as notícias amargas do noticiário, a temperatura oscilante do inverno carioca. O balé ameno e vulgar dos bens de conversa, em que os personagens não se revelam tal e qual, senão em suas formas mais exteriores.
Não se viam há mais de três anos.
Lá pelas tantas, quando toda a inspiração pelo banal cessara por completo, pesou entre os velhos amigos o silêncio, agravado pela balbúrdia boêmia de falas agitadas, risos e performances, nas mesas adjacentes. Olharam para horizontes distantes e Alberto acendeu um cigarro (ele estava estrategicamente do lado da mesa mais para a calçada, de modo que os garçons não protestaram).
Foi então que Gustavo, que convocara o encontro, adotou um leve sorriso obstinado, desconfiado, sombrio, e pela primeira vez mirou diretamente ao alto e descabelado Alberto, tão mudado na aparência e no humor, para dizer-lhe:
— Meu amigo, você sempre tão brilhante e desprendido, como pode acabar… digo, como pode chegar nisso? — alheio, Alberto tragava — sim, você, flagelo dos mestres, sempre muitos passos diante de todo mundo, sempre pronto com suas tiradas, suas citações, seu sarcasmo ferino e implacável, Beto, você eu tive como exemplo. Você sabe o porquê. Nós pensando em carreiras, patrimônio, no amor ideal, e você lá, querendo sempre mais, muito mais. E agora, não entendo, você, num apezinho decrépito na Prado Júnior, destruindo o que resta da juventude, dói ver um amigo assim, isolado, fudido, sem grana, sem ninguém, porra, você não fala nem com a família mais, outro dia mesmo encontrei o seu irmão no fórum.
Reinou novamente o silêncio, por dois minutos, durante os quais um ambulante despejou sobre a mesa uma amostra grátis de amendoins, que Alberto fez questão de comê-los todos (mas, no retorno do microempresário, não comprou o pacote).
— Se tu me chamou aqui é pra me confessar alguma parada. Não foi pra dar sermão, disso eu sei. — retorquiu, enfim, Alberto.
— Que posso dizer, Beto, estou contigo bróder, se precisar de qualquer coisa, mas topo, a gente não pode reatar contato? eu admirava as suas visões da vida, sua imaginação, ainda que eu nunca tenha comprado. Você veja, eu me sinto muito bem, encontrei meu caminho, meu equilíbrio, descobri a minha felicidade, eu acho que cada um tem a sua felicidade…
— …individual — disse Alberto
— …particular eu ia dizer. — continuou Gustavo — Pode ser, individual, que seja. Não creio na felicidade absoluta, na grande felicidade, sabe, com f maiúsculo nem numa felicidade coletiva, isso é utopia e não corresponde à realidade. Do mesmo jeito que a dor e o sofrimento são individuais, eu acho que não se pode falar em dor coletiva, a não ser como metáfora, então também o gozo e a felicidade são coisas assim do indivíduo, do eu mesmo, sim, do ego como queira. Outro dia mesmo, estava voltando num desses dias esplendorosos, e não tem nada igual no mundo igual a um domingo do Sol no Rio de Janeiro, e olha que eu também viajei um pouquinho, não fui pra Rússia, Índia ou México como você, mas tive em Paris, Nova Iorque e Roma, e nada, nenhum desses lugares, chega aos pés de um domingo ensolarado no Rio de Janeiro
Alberto escandiu um sorriso irônico, quase pérfido.
— Mas então, — prosseguiu eufórico Gustavo, depois de um longo gole — como eu ia falando, a felicidade eu acho que são pequenas felicidades, pequenos momentos que você vai juntando, esse dia mesmo eu caminhava pela Lagoa, admirava as beldades, sentia o Sol na cara, bem na cara, e aquela brisa, você sabe, tudo isso, essa conjunção me fez crer, tipo uma revelação, como eu era feliz naquele momento. Então se eu tiver as minhas pequenas felicidades, umas seguindo-se das outras, que mais posso querer? chegarei à minha velhice e, perto da morte, poderei olhar para trás e declarar para meus filhos e netos que viveu um homem feliz.
— Por favor, daqui a pouco você vai me contar a história do copo meio vazio ou meio cheio. Quando você anda pelas ruas, Gustavo, o que você vê?
— Perguntas retóricas não me afligem, Beto, você sabe o que eu vejo, mas também sabe que eu vejo a miséria, os mendigos, as crianças de rua, aliás, criança de rua é uma parada que diz bem porque não vivemos no mundo, mas no terceiro mundo, pois na Europa e nos States você até tem pedintes, maltrapilhos de toda espécie, os clochards do Sena né, mas em lugar nenhum por lá você vê crianças de rua, e muito menos as crianças de rua sendo pisoteadas, cuspidas e assassinadas, isso é nossa marca registrada. Mas e você, tampouco conhece a pobreza, você se condói como eu, mas isso no fundo, sabemos nós dois, é um sentimento de pena, de compaixão.
— No fundo, você está certo, Gustavo, mas quando eu vejo o povo apático, semianalfabeto e desdentado, eu não vejo um bando de ignorantes manipuláveis, eu vejo uma sabedoria, uma beleza, uma potência, além do lado coitado, eles têm um lado monstruoso, e isso é o que dá medo, é o que causa a repulsa dos bailes funk, do rap paulistano, dos favelados armados namorando as filhas da zona sul aburguesada, das cotas pra preto-filho-de-empregada estudar junto do Luisinho de Ipanema. Eu já me meti em tudo que é movimento, e hoje digo que a parada não é lutar por eles, mas com eles. Mas é tão difícil, por um milhão de razões que eu prometi não discorrer mais. — disse Alberto.
— Nós já discutimos isso um milhão de vezes, mas por que eu tenho que sentir culpa? eu sou de esquerda, mas uma esquerda consciente. Não acho que eu caia em ingenuidades, eu não sou bobo, não sou otário, sei que esse bordão que falta educação e disciplina não é por aí, afinal, o povo mais alfabetizado e organizado do século foi o mesmo que industrializou o genocídio. — disse Gustavo.
— Eu não sei. Mesmo! Como escapar dessa má consciência. O que eu sei é que, gole após gole, tijolo após tijolo, vou construindo uma muralha diante da corredeira de sangue e merda que bate na minha porta. — resmungou, ensimesmado, Alberto.
— Agora você decaiu pro lado Bukovski hahaha, você está tão afundado assim no lodo, Betinho? isso de imergir na escrotidão humana também não é nada novo, né? — Gustavo piscou o olho.
— Deixa eu curtir a minha decadência, eu não comecei assim, eu cheguei aqui com muito esforço, eu viajei tanto, amei tanto, me envolvi tanto com o desconhecido e o diferente… — refletiu Alberto — …às vezes tenho inveja dos romances russos, recheados de bêbados e niilistas, de sórdidos e santos. Sabe, me sinto uma pintura cubista, mas em tons cinzas.
— Um brinde à miséria de sua alma — sarcástico, ofereceu Gustavo, que riu.
Brindaram, e Alberto acendeu mais um cigarro. Voltaram às amenidades, viraram mais copos, comentaram de alguns amigos em comum, até a conversa, distraidamente, rondar Joana.
Alberto assumiu um ar de gravidade:
— O casamento, e aí, Gustavo, dois anos né?
— Eu nunca fui homem pra casar, você me conhece, levo as coisas muito na flauta, sou muito leve, leviano admito, mas chega uma hora que não tem jeito, está na lógica, você encontra a mulher certa, é legal, bonita, cabeça-feita, tem ambições, combina contigo, então é isso, nada assim totalmente apaixonante, e no meu caso foi a Joana, que eu tinha por amiga por vários anos, você sabe, e de repente zás, eu pensei, por que não? da mesma forma que eu não via casar como uma coisa sagrada, também não via NÃO casar como sagrado, é um fato da vida e pronto, às vezes é melhor inverter a questão, tipo em vez de perguntar por que sim?, pergutar por que não?, é mais saudável às vezes, mas vocês, vocês sempre foram muito próximos, aliás, aliás!, mas ela não fala de você, eu até tenho ciúmes, ora por que não falaria, ou teria ciúmes, porque de você, não dá pra encasquetar, senão eu nem te falava disso agora, mas agora falei, falei e pronto.
Riram, mas Alberto se esquivou:
— Antigamente eu pensava que tinha casado com o mundo, essas idéias utópicas, tinha uma visão um pouco sonhadora do amor, depois de um tempo percebi que só procurava um espelho, e então, desculpe pela expressão, des-idealizei a mulher, e hoje eu vou montando, pego um pouquinho de cada, a inteligência de beltrana, o rosto macio de fulana, a bunda de sicrana e por aí vai. Fico imaginando que quando dizemos que amamos, é sempre uma verdade parcial, logo uma mentira parcial, porque tem uma porrada de mulheres que, se conhecêssemos, amaríamos mais. O problema é que a gente nunca acha. E bingo, isso é Bukovski.
— Eu não vejo assim. Pra mim o amor é sempre uma verdade total. Ou você ama totalmente ou não. É que nem fé em Deus. Ou você tem fé e plá, ou perde. E se perde, é assim, tchum, deixou de amar, pode até virar amigo. E só dá pra amar uma pessoa por vez, e quando ama você avalia que é pra sempre. Mesmo que não seja, você acredita que é pra sempre. Que nem Deus, é pra sempre, né? E se você ama, você quer toda a verdade do outro, então é claro que não vai aceitar que essa verdade seja entregue para terceiros. Muito menos terceiros mais fortes que você hahaha. Eu acho mesmo que é assim, um amor por uma pessoa que não diria ideal, mas tendendo ao ideal, uma tendência em direção à perfeição, e digo mais, pra amar mesmo você tem que purificar o coração, tem que tirar tudo de azedo dentro de você ou do contrário estraga o mel. — Gustavo notou, neste instante, como a bebida fluidificava o seu texto, e então se calou, satisfeito pela loquacidade.
— Sabe, Gustavo, pode soar arrogante, e não é porque eu não amo assim nem a mim mesmo, mas eu nunca encontrei nenhuma mulher para quem devotar esse amor monoteísta. Do mesmo modo que nunca achei uma religião ou pensador que eu pudesse acreditar piamente, como verdade única. Eu sempre fui plural, várias verdades, várias idéias, vários amores. E hoje, eu estou mesmo é amando as garotas de programa. Então coisificar o desejo é destrui-lo, pra mim. E o que chamam de amor, tem muitos nomes, muitas formas de ver e viver, não dá pra concentrar tudo numa superpalavra: amor, isso é tão equívoco quanto Deus, felicidade, riqueza.
Riram muito, já no décimo choppe de cada um, ignorando a garoa fria, que caía mais em Alberto.
— Fala sério, bróder, tu tá saindo só com puta?
— Só com elas. É meu desejo de alguma santidade nesse mundo porco. Eu só encontro nelas. No passado, isso durante muitos anos, eu via no povão, nos pobres-diabos, nos mujiques. Mas hoje, só nelas.
— E a violência?
— É complexo, ou pelo menos me convenço disso, aqui em Copa elas se dão bem, gringos, dólares, subir na vida, na Help nem tem cafetão, mas é claro que tem violência em geral, menos aqui, mais no sertaozão, que nem naquele filme do Cláudio de Assis… Baixio das Bestas, veja essa porra, porque aí você vai ver o que é violência, puxar dez contos pra comer uma cabocla de catorze na beira da BR-116.
— E a paixão, Alberto?! — Gustavo já com ar provocante.
— Tinha um tempo em que eu tinha momentos que a vida me impressionava. Que eu olhava, aaaaaaaaaa, que coisa louca, que força poderosa, óóóóóóóóóó, um encantamento, um momento extraordinário. É como tu falou do domingo de Sol etc, mas no meu caso eram outras coisas, tipo um menino chorando e rindo ao mesmo tempo quando ganhava um brinquedo, um homem com saudades de sua amada a um oceano de distância, uma vitória difícil sobre as probabilidades, histórias de sacrifício, não!, nada de bobageiras hollywoodianas, falo de sacrifício num nível mundano, não espiritual, tudo isso, me impressionava. Hoje eu vivo em estado de permanente comoção. Mas isso não me move mais pra nenhum lado, justamente porque eu não vejo pra onde ir, eu tentei de tudo e, no fim, me senti abraçando as ondas do mar. Fiquei puto. — Alberto enternecia-se, e Gustavo com ele.
— Ah, eu já me sinto mais sentimental, mais romântico. Tipo, estou num momento foda. Achei que não ia acontecer, mas estou amando de novo. Não sei como Joana vai encarar isso, mas ela vai saber muito em breve. E foi POR ISSO que eu fiz de tudo pra você vir aqui, pra te pedir um conselho, você, um outsider e também amigo, e ainda conhece ela, está na posição ótima pra me aconselhar. É o seguinte…
Alberto ficou muito sério, como se não tivesse bebido doze choppes e duas doses de pinga e, pela primeira vez, concentrou toda a sua atenção no que Gustavo estava falando.
Publicado em 17 de abril de 2010. Comente

Deixou o escritório às quatro e meia.
Todos os dias, depois do trabalho, caminhava pelas ruas do centro do Rio de Janeiro. Até o metrô, em linha reta eram só quinze minutos, mas Gustavo gostava de delongar-se em trajetos tortuosos, ele se desviava constantemente da rota, inovava itinerários. Freqüentemente estacionava, dez ou quinze minutos, em bares e cafés. Embora errante, o seu percurso não poderia ser considerado aleatório, pois, de uma forma ou de outra, terminaria por chegar à estação, tomar o trem e chegar em casa, pronto para o jantar de praxe com Joana. Antes disso, porém, entregava-se a uma espécie de interlúdio peripatético, um momento de descansada reflexão, na serena liberdade que o anônimo sente em meio a outros anônimos.
Ele era daqueles que amava a metrópole. Não o fazia por um amor à agitação, pelo bobo romantismo do imprevisível e do extraordinário. Não era daqueles insaciáveis para quem nada é mais opressivo do que a rotina e a mesmice. Julgava-os, aliás, imaturos e idealistas, por padecerem de insatisfação crônica, e não perceberem o fato de que a beleza e a felicidade habitam as coisas mais simples e comuns, e não necessariamente aventuras e desventuras livrescas. A rotina não era um problema em si, quer dizer, o problema era a rotina deles — foram eles que não souberam construir a mesmice do jeito que gostariam e então se meteram a falar mal da dos outros, que todavia não compreendem.
Para ele, a felicidade só podia existir na simplicidade e esta pressupunha a sua cota de mesmidade. Assim, Gustavo satisfazia-se com a existência por assim dizer ordinária, regozijava-se em saber que, aos trinta anos, gozava do que muitos chamam de “lugar ao sol”: uma base confortável de classe-média, isto é, a tríade empreguinho-casinha-esposinha. Se o diminutivo, para os insatisfeitos crônicos, conotava desdém e demérito, para Gustavo era perfeitamente aplicável à singeleza do que um homem precisa para ser verdadeiramente feliz nesta vida. Porque ser feliz, para ele, significava ter tempo e disposição de sobra para dedicar-se ao que não era necessário e forçado. Ao resolver as necessidades básicas — pagar as contas, ter um lar e ser amado —, ele se sentia liberto para fruir, com maturidade curtida, as coisas boas que a vida tinha para lhe oferecer. E eram muitas e Gustavo se refinava nos gostos mais ecléticos, de vinhos sul-africanos a turismo ecológico, de música clássica a charutos cubanos. Lazer não lhe faltava, que mais ele iria querer portanto?
Sim, ele era feliz na sua condição de cidadão pleno de sua sociedade, homem branco de classe-média, bem empregado, morando bem, bem casado, realizado na profissão e no amor. Tinha encontrado a sua harmonia. Caminhava pelas ruas com ar altaneiro e se dava ao luxo de ser uma pessoa legal, um cara bacana que compartilha da alegria e não tem ressentimentos de nada.
Tudo isso ele meditou, de expressão tranqüila, enquanto tentava percorrer um caminho inédito pelo labirinto de ruas estreitas do centro.
Ele não suportaria uma cidade pequena. Sim, apesar de tudo, ele precisava desse momento diário de deriva, precisava banhar-se das ruas da metrópole, sorver-se das fisionomias anônimas que ele esquadrinhava por detrás dos óculos escuros. Vestia-os sempre durante os passeios, pouco importando se houvesse Sol ou não. Cruzar só com estranhos, ninguém a cumprimentar, exercia uma função ímpar na vida de Gustavo. Nas ocasiões em que percebia algum conhecido, ele fazia questão de mudar de calçada ou mesmo, se o indesejado encontro parecesse inevitável, dar meia-volta, escapar, fugir. Se o conhecido estivesse em um bar, não entrava de jeito nenhum, passava ao largo com discrição. E se já tivesse entrado, por descuido, fingia não o perceber, pagava logo a conta e saía à francesa, torcendo para não ser importunado. Apesar de muito sociável, ele queria, nesses passeios, mesclar-se à multidão e perder-se na própria interioridade.
Em especial, Gustavo era um voyeur das belas mulheres. Não era mulherengo nem nunca tinha sido e não traía (em regra) a esposa. Todavia, era-lhe imprescindível contemplar as belezas anônimas do centro da cidade. Reparava em todas, daí os óculos escuros. Sentia um prazer elevado em observá-las na sua infinita diversidade. As ruivas, as morenas, as mulatas, as loiras, as orientais, as nordestinas, as sulistas, as gringas, as cariocas da gema — apressadas, tristes, lânguidas, esvoaçantes, nervosas, desconfiadas, metidas, acompanhadas, intelectuais, com filhos, profissionais, maneiras, exibidas, despojadas, suscetíveis, fazendo compras, encalhadas, sonhadoras, histéricas, elegantes, interesseiras.
Por muitos anos vagando diariamente pelas ruas do centro, Gustavo analisara sinais, subsumira códigos, definira arquétipos. Elaborou uma Teoria Geral dos transeuntes fêmeas do Rio de Janeiro. Sentia-se um entomologista. Com a Teoria, acreditava ser capaz de acertar, com boa probabilidade, os traços essenciais de cada tipo de mulher. Num golpe de vista, fotografava a mulher de norte a sul, de leste a oeste. E aí bastava processar, na sua equação de muitos termos, certas variáveis-chave: desde sinais evidentes, tais como o modo de andar, as roupas, a bolsa, a expressão facial, os cabelos, até índices mais sutis, como ela atravessava as ruas, se desviava da floresta de pedestres ou como reagia aos olhares alheios. Embora sofisticada e precisa, ele nunca chegou a testar a parametrização, visto que, na ética puramente visual de Gustavo, qualquer contato lhe era interdito. Um dia, quem sabe, escreveria um livro a respeito.
Para Gustavo, o contato não tinha sentido, bastava que as mulheres preenchessem a sua visão todos os finais de tarde. Que cruzassem por ele uma vez sequer, um encontro fortuito e inesperado, porém único. Nessa unicidade, às vezes surpreendente, a metrópole era incomparável, na sua reserva infindável de mulheres diferentes. Fossem beldades (e Gustavo se deparou com algumas durante os anos) ou mulheres de beleza mais comum, ainda assim belas no seu charme singular. No cruzamento com Gustavo, elas emergiam de suas vidas particulares, eram capturadas pelo olhar esquadrinhador, e então retornavam, tão incógnitas quanto antes. Um deleite regido pelo acaso das ruas, inocente e inofensivo.
Até a tarde de hoje, quando o sistema de Gustavo veio abaixo, assim que ele dobrou a esquina e entrou na Rua da Alfândega.
Publicado em 14 de abril de 2010. Comente

“Antropofagia 3″ (Túlio Tavares) 
“MundoBraz em busca de uma esquerda pós-moderna”
Publicado originalmente no portal “Outras Palavras“, em 13 de abril de 2010.

Escrito pelo franco-italiano Giuseppe Cocco, radicado no Brasil desde os anos 90, MundoBraz é uma obra complexa que enfrenta os dilemas contemporâneos a partir do recente processo democrático brasileiro. O devir-Brasil, no título, refere-se ao surgimento de novos sujeitos sociais, programas políticos e formas de luta, repercutindo em múltiplas conquistas no campo da geração e distribuição de renda, da democratização dos bens culturais, das ações afirmativas e da valorização das periferias e comunidades pobres das metrópoles. O objetivo principal do livro reside em compreender as transformações econômicas, políticas e culturais do Brasil, sem perder de vista a sua articulação com fenômenos globais (o devir-mundo).

Graduado em Ciências Políticas pela Universidade de Paris 8 (Vincennes) e doutorado em História Social por Paris 1 (Sorbonne), Cocco é professor titular da UFRJ e mantém efervescente atividade intelectual e política. Além de editar publicações de esquerda, como as revistas Global/Brasil, Lugar Comum e a festejada Multitudes (Paris), ele também é autor de Glob(AL): Biopoder e luta em uma América Latina globalizada (Record, 2005), escrito a quatro mãos com o filósofo, amigo e correligionário Antônio Negri, além de Mundo real: Socialismo na era pós-neoliberal (LPM, 2008), com o ministro da Justiça, Tarso Genro. Todos os livros de Cocco repercutem a sua prática concreta na militância pelo acesso universal aos direitos, fazendo dele um intelectual engajado que escasseia nos meios acadêmicos mais “duros”. MundoBraz examina problemáticas diversas, apontando as oportunidades e vicissitudes de cada luta concreta, porém sem conclusão definitiva, como uma espécie de work in progress, concomitante à vida militante. Portanto, não se deve esperar uma exposição linear e sistemática gradus ad Parnassum, mas um livro cuja (dis)forma decorre da urgência das lutas que é o seu conteúdo mesmo.

As obras de Giuseppe Cocco não se restringem a um campo científico específico. Na realidade, constroem-se na interdisciplinaridade. Cada assunto é abordado de vários pontos de vista, num perspectivismo fértil, como em Glob(AL), onde reina a imaginação livre, não-dogmática, transitando por temas tão variados quanto economia política, filosofia, sociologia, antropologia e literatura. MundoBraz dá continuidade às intervenções de “Glob(AL)”, atualizando-as com base nos avanços do processo político e social do Brasil no intervalo entre a publicação dos livros (2005 e 2009). Por conseguinte, desenvolve-se no livro de que modo os sucessos e conquistas no Brasil decorrem de uma nova concepção de trabalho e cidadania, que pode servir como exemplo para as esquerdas do mundo. É essa a centralidade mundial do Brasil em pauta: a sua singularidade como chave para o discurso e a prática dos movimentos de emancipação no contemporâneo, tão solapados alhures pelo recrudescimento da xenofobia, do racismo e do fosso social entre incluídos e excluídos do sistema econômico. Nesse sentido, MundoBraz aprofunda o livro anterior de Cocco, Mundo real: Socialismo na era pós-neoliberal, cujo objetivo declarado foi a renovação do pensamento de esquerda e das utopias socialistas.
Ao contrário de parte da literatura filosófica (pretensamente) de vanguarda, travestida ora de cabotinismo acadêmico, ora de obscuridade udigrudi, – em ambos os casos para camuflar a indesculpável carência de conteúdo e interesse prático, – o livro de Cocco ancora-se na materialidade das lutas. Essa “ancoragem”, – no sentido que lhe confere Barthes, – refere-se à força textual em entretecer teoria e prática, em simultaneamente dar vida aos conceitos e estrutura conceitual à vida. Em conseqüência, se por um lado, em MundoBraz abundam conceitos tais como devir, multiplicidade, biopolítica, multidão e precariado produtivo, por outro eles se acoplam a problemas concretos, tais como a distribuição de renda, ações afirmativas, acesso universitário, governança latino-americana e democratização cultural. Portanto, o instrumental teórico presta-se mais como caixa de ferramentas para a prática do que como totalização de uma ideologia ou visão de mundo. A prática que subjaz aos discursos e neles transpira, por sua vez, permite à teoria ultrapassar os muros e démarches para ligar-se efetivamente à organização (política) da produção. Nesse intento, assim como em Glob(AL), MundoBraz se propõe a mapear o terreno e organizar as lutas do presente.
A figura do mapeamento define bem a poética empregada por Cocco em MundoBraz, na sua constituição dos espaços conflitivos. Porque menos do que uma cartilha monológica sobre “O que fazer”, ao modo leninista, o caso é disparar propostas em várias direções, apresentando múltiplos caminhos e desafios, apontando para diversos tesouros do brasilianismo – que vão da antropofagia oswaldiana à cosmologia ameríndia.
A maior referência teórica de Cocco é a filosofia política de Antônio Negri. Este pensador italiano compartilha da militância com Cocco desde os movimentos da autonomia operária na Itália dos anos 1970, quando uma insurreição emergiu das fábricas, – à margem e mesmo contra sindicatos e partidos de esquerda, – e partiu para a ação direta, com “greves selvagens” que alternavam sabotagem da produção e confrontos de rua, sempre sob violenta reação do sistema policial-penal. Um movimento para proclamar que a meta do operário não é somente granjear melhores salários e condições de trabalho, mas abolir a sua própria condição de operário.
Como resultado da ebulição social dessa época, Negri chegou a ser condenado a treze anos de prisão na Itália, pena que cumpriu a partir de 1997. Defensor de vias alternativas para o capitalismo contemporâneo e de uma sociedade democrática global sem fronteiras, Antônio Negri publicou diversas obras traduzidas para o português e ficou mais conhecido pela trilogia escrita com o professor americano de literatura Michael Hardt: Império (Record, 2004), Multidão (Record, 2005) e Commonwealth (Harvard, 2009, sem tradução). De Negri, Cocco herdou a ontologia positiva de um materialismo radical, enraizado em Maquiavel, Spinoza e Marx, mas também a o estilo grandiloqüente (especialmente nos títulos) e a estruturação por assim dizer pictórica, que condensa muitos argumentos e conceitos em pequenos espaços. Reverbera assim, em MundoBraz, um otimismo contagiante, que resta claro nos arremates das teses, na síntese de aforismos, nas filiações com a antropofagia e o tropicalismo, tudo isso num tom narrativo próximo ao épico que os leitores de Império (2000) e Multidão (2004) irão reconhecer.
Trata-se de livros com uma abrangente proposta para a ação política, que pregam uma nova ordem mundial pautada por redes colaborativas transnacionais de ação direta e produção político-cultural. Um de seus principais argumentos reside na identificação da pós-modernidade como uma nova etapa do capitalismo. Chamada de sociedade pós-industrial ou pós-fordista, ela enseja uma renovada teoria de valor e um novo conceito de classe proletária. Destarte, o trabalho imaterial (serviços, informação, marketing, circulação etc) torna-se a referência determinante para as lutas e o caminho para a construção do sujeito revolucionário pós-moderno: a “multidão”. Esta se constitui do conjunto de singularidades produtivas que não se totalizam em “povo”, nem se confundem em “massa”, e tampouco se reduzem a “indivíduos” desconectados. Articulados na multidão, os “nômades” constituem os agentes singulares dessa democratização radical baseada no trabalho não-subordinado e autônomo, organizado pela autogestão, que instauram a vida mesma na produção, sempre combinada e comum de valores, afetos, bens e informações.
E é aí também, na formulação conceitual do sujeito-multidão na sociedade pós-industrial, que a ortodoxia de esquerda torce o nariz. Se Glob(AL) foi recepcionado com relativo desdém pela intelligentsia brasileira, foi menos por sua ousadia e fecundidade como ferramenta, do que pela proteção rancorosa de “reservas de mercado” na tradição política de esquerda. Esta ainda se confrange ante essa escola, não somente pela abjuração sonora ao socialismo real (um dos livros de Negri intitula-se Goodbye Mr. Socialism), mas principalmente por seu desprendimento ao tratar temas considerados anátema, tais como mídia, consumo, globalização, trabalho informal e renda universal. Se para os conservadores de esquerda, tais temas sempre significam e sustentam o capitalismo neoliberal, para Negri e Cocco não são incompossíveis com a sua visão de democracia radical, e identificam linhas de fuga em todos os referidos temas, que devem ser exploradas e fortalecidas.
Para Cocco, boa parte da esquerda brasileira anquilosa-se em empoeiradas ideologias, não renova o arsenal teórico e assim se recusa a conceber os novos sujeitos políticos e sociais. Ficam desamparados, portanto, para explicar os avanços da sociedade brasileira na última década, quanto à melhor renda, consumo, produção cultural e educação; e mesmo em aspectos macroeconômicos como o crescimento do PIB e a maior credibilidade financeira do país. É por isso que a obra de Giuseppe Cocco, – assim como a trilogia de Negri e Hardt, – soa tão herética, quando transposta para a análise da realidade brasileira. Ela se propõe a explicar o que boa parte da academia não explica.
Com efeito, um dos maiores méritos dessa abordagem heterodoxa está em passar em diagonal pela dialética entre estado e mercado. No debate do estatuto do trabalho, Giuseppe investe numa via alternativa entre as panóplias do neoliberalismo e do nacional-desenvolvimentismo. Pelo primeiro, entende-se a técnica de governo baseada na fragmentação do trabalho e na gestão econométrica do risco, que administra a insegurança dos “mercados” e acentua a desigualdade entre quem está “dentro” e quem está “fora” do sistema produtivo. Pelo segundo, as técnicas do neokeynesianismo, de raízes estatistas e industrialistas (“fordistas”), numa ortodoxia de esquerda que incensa o dito “setor produtivo de base” (industrial), o emprego formal e a aliança entre estado forte e empresários industriais, tudo em louvor ao desenvolvimento nacional. Desta vez, o antagonismo não-dialético de MundoBraz rejeita ambas as posições discursivas, aparentemente opostas, ressaltando-lhes uma cumplicidade material.
Porque a posição de Cocco filia-se às correntes de pensamento que têm no trabalho não-subordinado e autônomo o fundamento da atividade produtiva. Isto significa propugnar por políticas de renda universal, radicalizar programas como a bolsa-família e universalizar o acesso à produção, distribuição e consumo de bens culturais (inclusive carreiras universitárias). O que é inaceitável tanto para o neoliberalismo, a reclamar do decorrente déficit financeiro e implosão do sistema de risco, quanto para o desenvolvimentismo, que tacha a transferência de renda de “assistencialismo” e não anota ganho duradouro à economia sem um planejamento e subsídio estatais ao “setor produtivo”. Para Cocco, na sociedade pós-industrial, não há que se bitolar mais nos slogans do desenvolvimento, do emprego formal e da soberania nacional, mas recolocar a emancipação social em termos de remuneração da vida (bio-renda), política social como cerne da política econômica, trabalho livre e governança global pelos muitos – temas detalhados em MundoBraz.
Embora diversificado, o mapa de Cocco não se furta a oferecer uma rosa-dos-ventos nítida, contornando qualquer esboço de enciclopedismo ou relativismo moderninho e sem brilho. Os vários territórios desenhados são divididos em espaços antagônicos, em que se contrapõem discursos intimamente atrelados a práticas concretas da atualidade. Esse dualismo permite ao professor da UFRJ conferir um sentido político aos conflitos que seleciona, conectando as lutas em várias regiões numa rede articulada de resistência. Um procedimento dualista, porém nada dialético: longe de sintetizar “pólos”, o autor recodifica-os, demonstra que amiúde o que se conhece por “esquerda” e “direita” coabitam a mesma agenda antidemocrática, e por fim afirma claramente o seu lugar prático-discursivo na contenda, isto é, afirma a sua diferença.
Por conseguinte, às teorias da favela-inferno, o autor opõe a comunidade dos pobres também como espaço constituinte de cultura e resistência. Aos estudos da favelização como praga urbana a erradicar-se (o “poder do crime”), que geralmente sustentam o discurso do medo e da punição permanente (o “crime do poder”), o autor salienta a veia produtiva e potente dos movimentos das periferias, na sua reinvenção de formas de vida – que o autor não hesita em promover. E o citado antagonismo teórico acede ao nível concreto da vida dos cidadãos, pois as diferenças teóricas repercutem nas políticas públicas: a aplicação cerrada e sistemática do controle policial e do extermínio versus a valorização das periferias por medidas de urbanização, moradia, acesso gratuito à internet e investimento na produção e distribuição da cultura e das artes.
Ao mesmo passo, o debate ao redor do racismo é mapeado e polarizado pelo antagonismo entre os defensores do mito da democracia racial, cuja argumentação circula ao redor da igualdade formal e da meritocracia abstrata, e aqueles que sustentam medidas reais para corrigir a aguda desigualdade social modulada pela raça. No que já é marca registrada de suas publicações, Cocco desconstrói as teses que negam a existência de raças, sob o bordão do “não somos racistas”, bem como o discurso liberal a-histórico e a sua concepção individual de preconceito – incompatíveis com uma análise materialista, perante a qual o racismo é um dispositivo social estruturante. Novamente, o autor coloca-se de modo cristalino numa agenda política atual, urdindo mais um nó da rede militante.
Em todos esses assuntos, – periferias e metrópole, questão racial e estatuto do trabalho – as referências adotadas pró ou contra os objetivos políticos do autor assumem um perspectivismo típico de Nietzsche ou Deleuze. Ou seja, a convocação de autores os faz atuar personagens de um teatro filosófico no qual, como no discurso indireto livre, o narrador fala em seu nome por meio dos outros. Dialogicamente, narrador e personagens estimulam-se, na combinação (bom encontro) ou não (encontro ruim) de seus desejos, na formulação comum dos antagonismos políticos, numa polifonia à Bakhtin. Se, de um lado, o ímpeto aglutinador da exposição pode parecer autoritário, por instrumentalizar as citações para o projeto político/sistema conceitual do autor, de outro condiz com a concepção de produção em rede, na medida de sua abertura a pensadores tão diversos quanto Oswald de Andrade, Roberto Schwarz, Euclides da Cunha e Viveiros de Castro, dentre outros. Com efeito, em MundoBraz a apropriação torna-se aberta e multitudinária, visto que as inter-relações conceituais operam nos dois sentidos, como sésamo para novos territórios e lutas. E assim, ao invés de reafirmar narcisicamente a identidade do autor, elas conseguem manifestar a sua diferença. Ou seja, o autor-narrador se reinventa sucessivamente ao deixar trespassar-se pelo pensamento dos outros, com quem compartilha de afinidades eletivas.
Enquanto em Glob(AL) o principal eixo antagônico descortinava-se no diagnóstico/desmonte do nacional-desenvolvimentismo e dos mitos da igualdade racial, – tão presentes em esquerdas menos inovadoras, – MundoBraz polemiza diretamente contra uma nova e sofisticada estratégia discursiva. Trata-se da utilização, por uma parcela da esquerda intelectualizada, da ontologia negativa de Giorgio Agamben, filósofo cuja significativa penetração no meio intelectual consolidou-se com os livros Homo Sacer: o poder soberano e a vida nua (1995) e Estado de exceção (2003). Este autor popularizou-se com a sua tese sobre como, na atualidade, o estado de exceção tornou-se permanente e os dispositivos de controle difundiram-se pervasivamente sobre todos os aspectos da vida.
Em vários níveis de uma análise inegavelmente de fôlego (filosofia da linguagem, direito, literatura, política, teologia), esgueirando-se em meio a cipoal de referências (Kafka, Primo Levi, Walter Benjamin, Carl Schmitt, Paulo de Tarso), Agamben interpreta a sociedade contemporânea como a culminação de um longo processo hermenêutico de captura da vida, originado no berço da metafísica ocidental. Essa captura desnuda a vida progressivamente de qualificações políticas e inviabiliza a mudança e a resistência coletivas. Vive-se assim o eclipse da política e o fim da história, numa espécie de “morte de Deus” nietzschiana ou “clara noite do nada” heideggeriana. Para esse filósofo, na mais pessimista reflexão de sua obra tenebrosa, todo esse rolo compressor ontológico-político se realiza finalmente na tanatopolítica. É ela quem, modelada pelo campo de concentração, termina por reduzir-nos à vida nua, isto é, matável e insacrificável, exposta à violência sumária pelo poder soberano.
Pelo menos na academia brasileira, as zonas de sombra projetadas por Agamben aguçaram o spleen de uma geração intelectual mortiça, para quem tudo está perdido. Fortaleceu-se o argumento de que, na pós-modernidade capitalista, qualquer forma de resistência finda recodificada e invariavelmente anulada. Que a revolução nunca esteve tão distante, devido ao triunfo do neoliberalismo, da globalização predatória, da dissolução do sujeito político e da emasculação das lutas de esquerda. MundoBraz enfrenta-os ao polemizar nominalmente com a coleção “Estado de Sítio” (editora Boitempo), coordenada pelo uspeano Paulo Arantes e parcialmente inspirada pela obra agambeniana.
Cocco explica como a sofisticação dos argumentos encobre o fracasso dos projetos da ortodoxia socialista, cada vez mais melancólica, imersa numa atmosfera decadentista. Diante da redução das desigualdades, de transformações democráticas na política e da melhoria de todos os indicadores sociais, – realizações à revelia dos receituários de suas ideologias, – essa esquerda refugia-se na ontologia negativa, que tem em Heidegger a referência mais central. Em MundoBraz, o autor não somente ressalta a incompatibilidade formal da filosofia de Agamben com o nacional-desenvolvimentismo dessa mesma esquerda, mas também sublinha a esterilidade política e o imobilismo prático associados a conclusões apocalípticas sobre o fim da história como vitória do “anticristo” neoliberal. Tais pensadores aferraram-se à lógica do “quanto pior, melhor” e assim, como avestruzes contrariados, enfiaram as cabeças pensantes em buracos escuros do pessimismo filosófico.
Em atitude diametralmente contrária à paralisia, Cocco avança sobre terreno até então intocado em seus livros, ao resgatar a cosmologia ameríndia e a antropofagia andradiana. A primeira força é invocada pelo prisma da antropologia de Eduardo Viveiros de Castro e sua abordagem pós-estruturalista – bastante influenciada, aliás, pela filosofia de Deleuze. Após anos de interações e ambivalências junto de comunidades indígenas, Viveiros de Castro lhes identificou um perspectivismo radical – mais vital e impactante do que o seu equivalente ocidental nas filosofias da diferença. Esse perspectivismo – que o antropólogo crê denominador comum dos povos ameríndios como um todo – dissipa as divisórias entre humano e animal e desse modo embaralha referentes canônicos das ciências humanas e naturais. Cocco por sua vez apropria-se de Viveiros de Castro para a sub-trama mais arriscada e abstrata – e talvez menos rigorosa – de sua obra multifacetada. Trata-se de investir o perspectivismo ameríndio na desconstrução das dicotomias fundantes do pensamento ocidental: humano/não-humano (“máquina antropológica”), sujeito/objeto, cultura/natureza. Se a tarefa monumental não caberia no reduzido volume, pelo menos lampeja sobre as implicações ontológicas de um pensamento tão dissimilar ao nosso.
Por outro lado, seguindo a linha de Viveiros de Castro, “MundoBraz” abraça o mentor do modernismo literário brasileiro. Se para o citado antropólogo o perspectivismo ameríndio revigora a antropofagia em outros termos, como deglutição cultural do europeu colonizador, para Giuseppe dá respaldo à hibridização e à implosão de identidades engessadas. De fato, a beleza e a potência do manifesto antropofágico residem na sua dupla esquiva: seja da subjugação pela cultura branca “elevada” importada da Europa, seja de uma identidade nacional calcada sobre os mitos do indianismo, da democracia racial e das raízes tropicais.
Junto da Geração de 1922, Oswald foi tanto anticolonial quanto antinacionalista, contrapondo-se aos vendilhões europeizados e aos nativistas do movimento integralista. O que não significa ignorar o estrangeiro e o nacional, mas devorá-los indiscriminadamente e degluti-los para a criação de uma cultura híbrida e mestiça, simultaneamente local e global. Se iniciou a trajetória como escritor pequeno-burguês, embora insubmisso, libertário e extemporâneo, Oswald logo descobriu – no bom encontro com Pagu – que “o contrário do burguês não é o boêmio”, mas o militante materialista – transformação ética narrada nos romances da “Trilogia do Exílio” (1922, 27, 34). O seu satírico e expressivo “O Rei da Vela” (1937), na célebre montagem do Teatro Oficina de Zé Celso Martinez, tornou-se literalmente a peça de resistência dos tropicalistas, em 1967.
E é aí que o nomadismo de Deleuze, Negri e Cocco sintoniza-se com a arte libertadora e profundamente democrática que nasce com os modernistas, retumba pelo tropicalismo e ressurge no século 21, com a produção cultural das periferias, a expressão da Amazônia indigenista, a múltipla comunicação e colaboração da Internet, as redes de coletivos e movimentos minoritários que, no conjunto, ganham enorme dimensão política. Fica claro, em MundoBraz, que o devir-Brasil do mundo e o devir-mundo do Brasil não devem ser entendidos (simplesmente) como a ascensão midiática, econômica ou geopolítica do país. Nem decerto como boutade publicitária do autor. O recente foco sobre o Brasil – futura sede da Copa de 2014 e das Olimpíadas de 2016 – é mais efeito de superfície do que a essência de um fenômeno molecular.
Este se enraíza na aparição de novos atores político-culturais, articulados numa rede colaborativa, difusa e livre, que luta em comum por renda, liberdade e acesso aos direitos. Se por “devir” se entende um conceito de renascimento, o devir-Brasil renova no mundo um cadinho de elementos potentes, que vão da fome ontológica dos ameríndios aos pontos cantados de Iansã – deusa guerreira dos ventos da mudança. Nas suas páginas, MundoBraz invoca essa mesma força sincrética e transformadora, ao devorar o inimigo, varrer o pó de discursos encarquilhados e arejar o corpo e a mente de quem procura por mapas e caminhos para a ação política na pós-modernidade.

Bruno Cava.

Publicado em 20 de março de 2010. Comente

Devia ser bem mais do que meia-noite, concluiu Joana com base no ruído abafado da cidade. Deitada na cama ao lado de Gustavo, um cansaço mórbido percorria-lhe os ossos. O peso de seu corpo parecia-lhe imensurável. A comoção diurna havia cessado, a sua volúpia suicida apaziguada pela fadiga da alma. Sentia-se acrimosa demais, pesada demais, cândida demais diante da corrupção da matéria, da imundície da sociedade. Que faria ela, refletiu consigo, daí por diante, senão lamentar os descaminhos de sua sorte e de seu amor? Solidões insuportáveis pastavam por trás de suas pupilas.
Tentou dormir, porém, à deriva no sono sem nele sucumbir, ouvia ao longe os sons da madrugada do Rio de Janeiro. Jamais pensou que seria assim, quando decidiu lançar-se na big bad city, há oito anos, vinda de sua adolescência ingênua na cidadezinha litorânea. Recapitulou rapidamente a trajetória de poucos sucessos e muitas infelicidades, os seus primeiros passos inconfessáveis, a sua passagem mambembe na faculdade, os seus amigos frívolos, os poucos homens que a encantaram, o único que a cativou o desejo de mulher.
Ela não precisava dele, não precisava de Emilio, como não precisava de Gustavo, não precisava de nada. Não amava ninguém. Mas como no poema, o amor comera o seu nome, a sua identidade, e até o seu medo da morte. Agora, não amava nem a si mesmo. E sabia que a mulher que adormecia todos os dias jamais era igual àquela que acordava. Lamentava todas as noites, antes de adormecer, olhando para o teto, a falta de calor, insolúvel, em sua existência. Sempre mais fria do que desejara. Joana sabia que era mais uma louca inacabada, disfarçada de mulher racional, de profissional dedicada, que seu delírio incurável a levaria sem recursos à solidão derradeira e à decepção permanente. Hoje, mais do que nunca, a noite escura comprovava-lhe o desvario de seus desejos, a insaciabilidade de suas carências, o seu projeto inconcretizável de vida plena.
A cama com Gustavo pareceu-lhe, súbito, um leito de morte. Ela não podia suportar tamanha angústia. Dilacerou-se. Não era feliz e sufocava sob o chumbo da insatisfação crônica, da insuficiência essencial de tudo que lhe ocorria, da comédia de erros de suas escolhas.
Joana afastou-se do ombro companheiro e, com cautela, esgueirou-se suave para fora da escuridão do quarto. Da janela da sala, as frestas na cortina alunaram-na e ela pôde, enfim, chorar bem baixinho. O peito esgarçado para a noite, Joana chorou durante alguns minutos. Recomposta, aguçou o ouvido para concluir que Gustavo continuava dormindo. Mirou pela janela os noctívagos no bar defronte, os mendigos da praça e os vira-latas famintos.
A noite bateu-lhe o rosto e ela escutou novamente o chamado: para zarpar dali. Dar o fora enquanto era tempo. Sem pressa, arrumou-se tão cuidadosamente quanto destrancou a porta e abandonou o apartamento. Ficou ainda parada alguns minutos, para ter certeza de que ele não a percebera sair. Seu coração fervia, o sangue estuava nas veias. E então foi embora: desceu no elevador, irrompeu do prédio e jogou-se na noite, sem nem reparar quem era o porteiro de serviço.
Joana em momento algum olhou as horas.
Caminhava sem rumo, esbaforida, sem reparar na fisionomia dos transeuntes. Foi assim por longos minutos, atravessando ruas a esmo, dobrando esquinas, cortando avenidas, contornando vagabundos, baratas, bêbados, putas e crianças da rua. Uma mariposa atingiu-lhe a face e ela notou como adentrara o imenso parque do aterro do Flamengo, mais escuro que a noite, sinistro como as suas criaturas desalentadas. Assustador. Engoliu o soluços e não se amedrontou, enquanto errava entre palmeiras e jacarandás eretos para o negrume do céu de junho. Ofegava, confundia-se, não conseguia raciocionar. O ímpeto alucinado levou-a muito fundo no parque, conduziu-a a regiões aparentemente desconhecidas, e desconhecidas talvez por jamais tê-lo visitado no negro da madrugada. Levou susto quando um vulto de bicicleta rasgou-lhe o caminho e desapareceu na próxima curva.
Viu um longo e sinuoso banco de pedra e sentou-se. Sentiu pela primeira vez a brisa fria, encolheu-se sob a gola do casaco. E pela primeira vez olhou ao redor e viu o o quão desamparada ali se achava, exposta aos perigos da metrópole que, outrora, tanto temia. Tantas histórias de roubo, violência, estupro, mas, estranhamente, Joana se deu conta que não conseguia sentir medo.
Naquele banco isolado no bosque gótico, sob um firmamento desestrelado, ficou verdadeiramente sozinha. Lembrou-se mais tarde como nunca havia contemplado um céu noturno sem uma luz sequer, nem nuvens em movimento, nada para fixar a visão. Olhou então para a terra, mas nada distinguiu no húmus debaixo dos tênis. Nenhum ruído, nenhum som distante, nenhum vento, nenhum inseto voador. Tudo se acalmou num tempo congelado. Respirou pesadamente, absorta nessa sensação inédita entre a melancolia e a tranqüilidade, enquanto uma névoa aquosa dissipava-se em sua mente. Desafogava-se do sentimento. Não mais chorava. Depois de tanto correr em direção a tudo, anos de agitação e fúria, irreconciliada e insatisfeita, e finalmente ela se detinha. Talvez dobrada pela angústia, finalmente ela se deparava com uma parede insondável de escuridão. O silêncio fez-se dentro dela e um tempo baço de duração inconcebível se passou sem que ela percebesse qualquer evento. Podiam ter sido quinze minutos ou duas horas.
O fato é que, de repente, uma presença sorrateira infundiu-lhe terror. Algum fauno maligno se apromimava, e ela sentiu o cheiro de cachaça na nuca aflita, tomada de calafrios por toda a espinha. Confrangeu-se, incapaz de mover-se, como a presa capturada pelo predador.
Mas foi só a mão fria, por trás, tocar-lhe o pescoço nu, que ela se eletrizou a duzentos e vinte volts. Os reflexos de Joana agiram como um raio, sem hesitação. Arremessou o braço esquerdo para trás para acotovelar o agressor, bem no estômago, ao mesmo tempo em que a mão direita apanhava o trinta-e-dois dentro da bolsinha prata. Sacou o metal e, ao virar-se, desferiu a coronhada, de cima para baixo, bem no meio do rosto. Joana viu o vulto atordoado cambalear com a face ensagüentada, e desabar, sentado na terra, a um metro dela, gemendo e resmungando.
Joana armou o cão e apontou o cano para o tiro fatal.
Quando ela viu, estupefata, Alberto, Alberto!, olhos insanos, machucado e maltrapilho, indigno de tão embriagado e ensagüentado. Do nariz jorrava o líguido ígneo e pastoso.
— Jo-ana? — ele esboçou um sorriso inacreditável naquelas circunstâncias.
Joana tremeu. Relaxou a arma, dominada por um senso de absoluta irrealidade. Num único átimo, todo um passado atormentado e todo um segredo insuportável invadiam-lhe o coração que havia sofrido demais num só dia.
— Alberto… — murmurou paralisada.
Foi então que as nuvens se abriram e a Lua iluminou o seu rosto convulsionado. Aquela luz penetrava cruelmente na feiúra, nas irregularidades, nos defeitos de um mundo sujo e putrefato, de uma cidade lassa e pérfida, de um homem sórdido, decadente, pusilânime. Ela não podia suportar mais nada. De repente Joana sabia muito bem qual era a resposta para a pergunta.
Enrijeceu o braço e, resoluta, disparou três vezes contra Alberto, que despencou no solo úmido da noite sem emitir nenhum som.
Publicado em 17 de março de 2010. Comente

Carta de Gustavo a Melanie:

Melanie,
Toda a correspondência, esperava falar contigo, mas não dissemos nada.

Há tão pouco a se dizer, se se trata de falar alguma coisa verdadeiramente. É como se as palavras e o seu tempo estivessem desajustadas. Como se o que pudesse te dizer não fosse mais apropriado, ou mais oportuno no dia em que não existíssemos mais, e nada mais, então, poderá ser dito. Entre outros eventos, o que se passa é o descrédito das palavras, que tanto nos desnuda em sua descrença. Me perdoa ser tão engenhoso, essas palavras, mas não consigo. É que… você sabe. Não tem porque. Enfim.

Talvez confundidos, porque as luzes oscilaram, deslizando quase (colados) na tela úmida do computador. Porque rebusco as minhas palavras contigo? Maneirismos? Você não quer? Não sei como, sem…

É que não gosto de exageros e incorro no hábito idiota de problematizar as coisas. Não somente a mim mesmo e a vida, mas as coisas que nos rodeiam, um dia como hoje, as nossas expectativas, desejos, idiossincrasias. Me permita não te problematizar e por gentileza não me problematize.

O que se pode dizer?! Sabe como é. Aproximamo-nos tanto que sequer nos reconhecemos mais nos nossos sonhos, que os recriamos. Já não acreditamos no que escrevemos e o que escrevemos nos toca numa dimensão paralela que não mais somos, senão o que seremos, podemos ser.

Seríamos? Te perdoar pelo quê? Evidente que não. Que sim, o que quer.

Futuro coalhando num presente passageiro e agora fica fácil corrigir os erros do tempo no papel. Só que os originais já são do passado. Tivemos que nos meter debaixo de um holofote, de um foco de luz… azul, uma luminosidade débil, ouvidos sempre aguçados, ouvindo-nos, escutando-nos, perscrutando-nos, auscultando-nos — e do fundo do corredor a gargalhada.

Não vejo porque tudo esteja contra nós e tampouco porque você não possa ser duas, três, muitas.

Te presenteio com a brevidade e encerro, sem esclarecimentos.
Gustavo.
Publicado em 19 de fevereiro de 2010. Comente

Há tempos ele estava procurando sem saber o quê, mas agora não procurava mais nada. Alberto caminhava pelas ruas da noite de Copacabana e recordava as tortuosas sendas de seu passado. As tantas escolhas, os tantos orgulhos mal-disfarçados, os tantos altos ideais que o levaram para cá ou para lá. Agora ele sabia, e resmungava para si: quem alcança o seu ideal, frustra-se. Não. Não era a aflorar a melancolia das três décadas, nem a autocomiseração das mentes frágeis, mas sim um certo clima interior, um estoicismo da alma, tão fino quanto a garoa que se derramava em sua pele trigueira. Um “tanto faz” cada vez mais gravado no fronte.

A agressão do real anunciou nele uma era de devastações, porém, hoje, a carne marcada pelas exposições, sem auxílio e sem amparo, sem telefonemas no aniversário, Alberto refutava seus sentimentos e culpava a sua pobreza de imaginação, a sua descrença generalizada. E cogitava sozinho sobre como a idade vai torcendo os olhos, virando-os para dentro, na cruel perscrutação dos que não se aceitam, dos que lamentam os caminhos tomados e se julgam muito velhos, ou muito cansados, o que aliás dá no mesmo, para recomeçar. Não é que falte motivação, é que falta o gesto de motivar-se diante da indiferença brutal de uma existência muda.

Alberto chegou à Barata Ribeiro. Ao dobrar a esquina, a realidade exterior, num impulso inexplicável, conclamou a sua atenção e as imagens ganharam contornos mais nítidos. Reparou nas pessoas a seu redor, e levemente interessado, capturava as suas fisionomias enquanto passavam. Sentia a agitação, o vaivém, a azáfama diária do comércio fechando as portas, do trânsito esbravejante, as pessoas pulando dos ônibus. De todas as idades elas corriam para trancar-se nos ninhos emparedados e acarpetados, repletos de cortinas, para lavar o expediente do corpo e pôr-se com os pratos de comida diante da televisão, num fastio de conversas e gestos, que não encerram nenhum exemplo.

Tudo isso um dia, Alberto admitiu, o incomodava, mas agora acompanhava essa vulgata quotidiana como quem contempla tediosamente a passagem de grandes embarcações pelo canal do porto. Não tinha nenhuma crítica a fazer. Aborrecido às escâncaras, irrompeu em um boteco nordestino, pediu uma dose de cachaça e cigarros, trocando olhares convidativos com a menina do canto, surpreendida com o homem alto e magro, de cabelos desgrenhados e aparência charmosamente desleixada. Queimou-lhe o esôfago a bebida ardente, mas seu rosto não se contorceu, e ele então acendeu um cigarro e saiu sem se despedir do possível flerte.

Alberto por muitos anos havia vivido como um nômade. Lembrou-se, um a um e sem entrar em detalhes, de todos os lugares por que passara em sua carreira andarilha, pela infinidade de rostos e vozes que conhecera em três continentes. Emancipou-se na estrada dos confinamentos da família e da superproteção dos pais, ganhou o mundo e deu-se ao mundo, mas em troca, parecia-lhe, havia recebido muito pouco. Sim, Alberto, dizia para si, sorrindo tragicamente, sim, eu fui um idealista. A tristeza até então subconsciente dominou-lhe o coração e ele teve que oferecer a face ao céu para esconder as minúsculas lágrimas, mescladas aos chuviscos frios da noite de inverno. Havia anoitecido por completo.

Continuou a caminhar em direção ao encontro com o Gustavo, antigo amigo de tantas memórias. Em dois anos de volta ao Rio de Janeiro, havia vivido a existência de um recluso mascarado, um alienado dos tumultos e noticiários. Havia se isolado no que considerava o ponto final da odisséia de sua juventude, mergulhado num exílio lúgubre num conjugado barato e sem telefone. Os dois anos de solidão pareciam-lhe, neste momento, um sonho lúcido, um estupor de clareza, pondo-lhe em perspectiva a vanidade de seus esforços pregressos, o desconsolo de suas parcas realizações concretas, diante de tanto barulho e tanta fúria com que, jovem, se agitara. Tudo estava tão claro e tão vazio. Debateu-se contra o destino e perdeu a aposta.

E quando saía pela noite, entre copos de uísque e garotas de programa, sabia que tinha se forçado a esquecer de tudo. É como se este Alberto não fosse aquele Alberto e ele sequer imaginava como poderia voltar a sê-lo, pois perdera-o por completo e irrevogavelmente. Tinha deixado para trás os seus valores, desaprendido a sua ética e a sua estética, havia se transformado em uma criança circunspecta e sem alegria, para quem o mundo não vai muito além do que ela pode pegar e morder. Perdeu o contato com a multidão de gente que há muitos anos costumava se relacionar diariamente, sobretudo tinha asco de reecontrá-las e quando acontecia de esbarrar por acaso com uma delas, fingia sorrisos afáveis e logo se desculpava, porque tinha compromisso — o compromisso de não se ver o antigo Alberto, que tanto o decepcionara, pelos olhos delas. Não queria que elas demarcassem nele os limites parvos de suas escolhas de refugiado sorumbático e introspectivo, não queria que elas interrompessem os seus solilóquios não menos inúteis que uma vida ordinária.

De noite, Alberto andava em círculos e era consumido pelo fogo.

Por que abria a exceção, e iria agora encontrar-se com Gustavo? sim, ele conhecia a resposta, a única aliás. Aquela velha lembrança veio roubar-lhe a tranqüilidade do muquifo em que habitava, e terminou por aceitar o convite. Alguma coisa haveria de acontecer. O seu intelecto, atiçado pela introspecção, envenenado pelo pessimismo, trabalhava a todo vapor, tentando compreender que tipo de véu seria, daqui por diante, descortinado. A presença de Gustavo lhe causava um mal-estar, mas ele não pensou em dar meia-volta, e nesse exato instante Alberto notou afinal no fim da rua o Pavão Azul, barzinho de boêmios imprecisos. Obstinou-se.

E viu o antigo amigo à mesa, esperando-o. Gustavo jamais o tinha visto de barba.

Os indesejados – Parte 1   Parte 2

Publicado em 12 de fevereiro de 2010. Comente

Amassada anonimamente do vagão, seus cabelos fulvos desarrumados, Joana repunha dentro dela a personagem que até então tinha sido com Emilio. Ao redor, o povo passageiro suspendia momentaneamente os dissabores e queixas, bestificado de fim de expediente, cheirando à tardinha que caía na cidade.

E então Joana embarcou no trem veloz das memórias, recuperada da histeria que lhe havia acometido nos últimos quinze minutos. Ponderou como o seu amor por Emilio não havia estalado de uma só vez, de supetão. Conhecera-o assim vagamente na redação, e por longos meses ela sequer notara a sua presença. Uma amiga traquinas lho apresentara, prospectivamente, num happy hour, mas ela não abriu a menor conversa para aquele rapaz moreno e casual, uns poucos anos mais novo que ela. Ela tinha de admitir, agora, que, por um longo tempo, era como se ele nem existisse, e talvez toda a roda gigante de eventos sequer ocorresse, se, numa tarde fria, não tivesse resolvido notar a sua existência. Percebendo aquela ligeiríssima abertura, o colega distante da página internacional, às apalpadelas, foi aconchegando-se, com astúcia de cigano e bom humor de carioca, com os olhares e sorrisos arremessados na hora propícia, com o timing que é o cerne da arte de conquistar. No princípio, Joana fez questão de ressaltar para si, não o amava em hipótese alguma, nem o achava especialmente bonito ou inteligente ou charmoso, mas lhe respondia as provocações à guisa de troça. Marota, não recusava o desafio, e inclusive não a reprimiam as auto-imprecações morais, de modo que se permitiu o flerte ocasional, sem maiores perspectivas ou maldades. Intimamente, todavia, havia fixado, talvez no subconsciente, talvez ao se aproximar dos trinta, que escancarava o coração defronte as oportunidades do acaso, que não se furtaria de viver em circunstância alguma, e que de toda sorte já havia traído Gustavo, provavelmente valia o vice-versa e, portanto, não haveria mistério incontornável em trair de novo. Joana não deixou de admirar-se, enquanto lembrava, como ela sabia ser racional quando precisava.

Quando aconteceu, Joana nunca deixou de questionar-se, como poderia se sentir seduzida por um homem tão imperioso, bárbaro, falso, egoísta — tão pródigo em seus prazeres, tão inconsolavelmente atirado ao que de mais mundano encontrava pela frente. E não descobriu nada disso mais tarde, mas de imediato. Emilio, jamais embotado por arrependimentos e ressacas, nunca hesitante nas escolhas, sempre certo de fazer o que mais lhe apetece, não cultivava futuro nem passado. Ele recebeu naturalmente inclinações anti-idealistas logo na infância, e desde cedo bazofiou de religiões, ideologias, propósitos maiores. Plenamente convicto de seu caráter sólido e generoso: investir tudo no presente.

Se já gozara escapadas, para Joana foi o primeiro caso em que ela amava mais o corpo do amante do que o próprio, mais os trejeitos e toques do que as palavras, mais a sua voracidade e animalidade do que as sutilezas do espírito. Semblante másculo, olhos negros enormes e pestanudos, costas largas, um corpo moreno com grandes extremidades, parecia extraído de uma tela de Portinari — e que mãos… e que ombros. Era um leão, concluía Joana, e ai de quem servia a suas paixões na embriaguez da volúpia.

Ela recordou da primeira vez em que se entregou, naquele congresso de jornalismo em São Paulo. Dessa vez, presenciou, abismada de desejo, Emilio lançar-lhe fogo pelos olhos, espumar, ganir, — gemidos ásperos e clamores bestiais irrompiam de seu peito inchado de nadador. Joana pensou como ele a incitava, com as exclamações mais chulas que já ouvira, a montar-lhe, e como ela participava dos jogos, e com eles inebriava-se risonha de uma vivacidade que ia lhe escasseando na sua dita vida real. Seu coração palpitava, xingava-o, estapeava-o, chamava-o com as pernas como uma leoa ruiva, exigindo satisfação imediata — sim, Emilio, sim, sim, sim… tomado por um Dioniso enfurecido, Emilio perdia o controle das mãos e pernas, na hora do gozo.

Acordada do sensual turbilhão pela frenagem sibilante do metrô, Joana viu como o velhote reparava nela, quiçá lascivamente. Uma menina de óculos tortos mirava-a curiosa. Decerto por ela estar abraçando o corrimão com tanto ardor, olhos semicerrados e o rosto avermelhado, repleto de sardas, encostado no metal frio e engordurado de mil mãos. Ficou ainda mais rubra e pediu desculpas mentalmente, antes de sair, porque era a sua parada.

Desceu na estação da Siqueira Campos e caminhou para o Carrefour, tonteada pelas lembranças incandescentes daquele que finalmente a rejeitara.

Emilio não lhe podia sair da cabeça.

Depois do congresso, passaram a freqüentar-se na hora do almoço, em motéis do centro da cidade. Sabia que, agora, aventurava tudo nesse afaire. Mesmo assim, ofertava a sua paixão felina e todo o seu presente de mulher vibrante à volúpia desenfreada do seu saqueador. E pressentia o futuro de desconsolo e vitimização, profecia que ora se realizava. — O que podia fazer, falou baixinho Joana de si para si, — eu era um instrumento musical em suas mãos enormes, tocava-me a seu bel-prazer por todo o compasso, tirava-me melodias sôfregas, afinava-me e desafinava-me, eu seria uma tola, se lhe resistisse, e ele tampouco me resistiu, porque nele despertei um desejo desabalado, que a mim muito gratificava.

Lembrou-se desgostosamente como jamais trocaram juras, não prometeram fundir os destinos, não discutiram a situação de um e outro. Porque eram os dois, ele e ela, casados. E se, embora se davam o respeito de não mencionar os companheiros, estes nunca ficaram alheios em absoluto à cólera amorosa que engolia Joana e Emilio. Ele não se negava a reconhecer que os outros pairavam como sombras inominadas, como um bloco de silêncio implicado nas conversas mais realistas, o não-dito a todo momento entranhando-se no dito, contaminando-o, infectando-o de sentidos inconfessadamente temidos.

Joana parou a recapitulação e confessou para si que não era bem assim, que a história estava mal contada em pontos-chave, que relatara tortuosamente e saltara passagens indispensáveis, que os acontecimentos coalhavam alegoricamente numa narração de novela (e ela nunca fora noveleira), que agregava sensações falsas à brutalidade dos cheiros, toques e umidades, que aquele romance findo esta tarde, em definitivo, nunca foi fácil para ela, como o parecia ser para ele, e que nada disso tinha a ver com Gustavo, o companheiro leal, mas com outros fatos, que ela julga não convirem, agora, narrar.

Eu peço calma ao leitor, porque, se Joana assim procede, há-de ter motivo, e fico eu aqui, junto de você aí, sondando como isso poderia continuar.

Mesmo porque Joana interrompeu o fluxo do passado, para arrumar-se, diante do espelho do elevador. Arrumou inclusive as feições do rosto, fingindo uma conhecida personagem, pois já-já chegaria ao apartamento, trazendo as compras que Gustavo lhe pedira.

Publicado em 8 de fevereiro de 2010. Comente

Desceu as escadas do metrô esbaforida.

Vultos cinzentos desviavam de seu afã e as paredes ladrilhadas curvavam sobre a tormenta desconexa de seus pensamentos.

Joana era toda colapso e balbuciou consigo, entre nuvens carregadas e ventanias barulhentas: por quê? como cheguei aqui? aqui, neste exato instante cósmico, neste buraco negro de merda, neste dilema astrofísico? ah, mas isso vai mudar, isso hoje vai mudar, pela dignidade…

A roleta não aceitou o cartão de Joana. No impulso com que vinha, levou um tranco e quase despencou por cima do braço metálico. Furiosa, deu joelhadas no aparelho, atirou o cartão para longe, terminou por pular para o outro lado e disparar, sob o protesto distante de algum vigilante funcionário e os olhares assustados dos transeuntes.

Desceu à toda velocidade a última das escadas, sua cabeça um dínamo convulsionado de remorsos e desilusões, sua face contorcida de desenganos, a bolsinha de couro preto esvoaçando para todas as direções.

Pela enésima vez, Joana repetiu para si: por quê? ele me amava? me amou? dignidade, Joana! alguém alguma vez me amou? por quê?!

Atingiu por fim o subsolo, aprumou o casaco e marchou com a resolução dos loucos. Foi até a borda dos trilhos, mas no derradeiro passo, teve um sentimento estranho.

Joana não cruzou a faixa amarela, a linha dos que não voltam.

À noite, na solidão do leito, elucubrou que teria ouvido um sino de igreja, badalando várias vezes, mas o sino não emitira nenhum som e isso a assustara terrivelmente. Todavia não podia estar certa o que exatamente tinha feito seu corpo parar. Um monte de razões obscuras, por certo… isso não importava mais, agora estava viva para lamentar não ter aproveitado, mais cedo, tão oportuna chance.

Mas, retornemos à Joana, a um passo do fosso daquele fim de tarde.

— Joana, — pensou para si baixinho, sabendo, no íntimo, que os suicidas de verdade não pensam — vais se matar por causa dele? e de quem mais? aos trinta anos deflagrada sob o seu ardor, livre as quimeras humanas, a sua voz grave, a mão calosa, o cheiro acridoce de seu suor, o modo como cruza as pernas enquanto me chama de putinha, como viver sem isso? meus seios que ele amassa com tanta indelicadeza, ah me encha de tapas Emilio, homem que nada me pediu e a quem tudo dei, nos últimos sete meses recebeu todo o meu grandecíssimo mel, meu cio, meu leite de leoa, meu estupor de fêmea, ele me fez dançar sobre as brasas do inferno e agora, não me quer mais, não me quer mais, não me quer mais… por quê?, disseram-me que isso aconteceria dia ou outro, ora, eu já vivi de tudo um pouco, mulher madura?, qual nada, nunca deixei de ser menina, de ser ingênua, de acreditar em duende, quero tomar banho de mar à meia-noite, quero sentir com os meus pés descalços e deixar a brisa banhar a minha nuca, insaciável, mas agora, um fim amargo ou uma amargura sem fim?, porque sem Emilio, nada restará de mim… ah estou farta do ruído das pessoas, farta das estações, dos ciclos sem fim, dos amores com fim, farta das fábricas de infelicidade, farta daquele homem, dessa mulher, dessa criança, sim, estou farta do ruído das cidades, do ruído estridente e dos ganidos desse trem que vem em minha direção, mais e mais perto… por quê?!

Joana contempla com olhos afogados o farol dianteiro do primeiro vagão.

O celular toca. É Gustavo, seu marido. Maquinalmente, ela atende.

— Oi amor… tudo bem, estou aqui na Cinelândia, já já chego em casa, o quê? ok, pode deixar que eu passo no mercado.

A lufada da passagem do trem bateu-lhe o rosto. Bólido trovejante bem rente, arrancando-a do caos de suas agruras.

Enxugou as mágoas, entrou e aconchegou-se num espaço minúsculo, entre o sisudo homem de paletó e as secundaristas do ensino público.

(…)