Graduado em Ciências Políticas pela Universidade de Paris 8 (Vincennes) e doutorado em História Social por Paris 1 (Sorbonne), Cocco é professor titular da UFRJ e mantém efervescente atividade intelectual e política. Além de editar publicações de esquerda, como as revistas Global/Brasil, Lugar Comum e a festejada Multitudes (Paris), ele também é autor de Glob(AL): Biopoder e luta em uma América Latina globalizada (Record, 2005), escrito a quatro mãos com o filósofo, amigo e correligionário Antônio Negri, além de Mundo real: Socialismo na era pós-neoliberal (LPM, 2008), com o ministro da Justiça, Tarso Genro. Todos os livros de Cocco repercutem a sua prática concreta na militância pelo acesso universal aos direitos, fazendo dele um intelectual engajado que escasseia nos meios acadêmicos mais “duros”. MundoBraz examina problemáticas diversas, apontando as oportunidades e vicissitudes de cada luta concreta, porém sem conclusão definitiva, como uma espécie de work in progress, concomitante à vida militante. Portanto, não se deve esperar uma exposição linear e sistemática gradus ad Parnassum, mas um livro cuja (dis)forma decorre da urgência das lutas que é o seu conteúdo mesmo.
Bruno Cava.
Carta de Gustavo a Melanie:
Há tempos ele estava procurando sem saber o quê, mas agora não procurava mais nada. Alberto caminhava pelas ruas da noite de Copacabana e recordava as tortuosas sendas de seu passado. As tantas escolhas, os tantos orgulhos mal-disfarçados, os tantos altos ideais que o levaram para cá ou para lá. Agora ele sabia, e resmungava para si: quem alcança o seu ideal, frustra-se. Não. Não era a aflorar a melancolia das três décadas, nem a autocomiseração das mentes frágeis, mas sim um certo clima interior, um estoicismo da alma, tão fino quanto a garoa que se derramava em sua pele trigueira. Um “tanto faz” cada vez mais gravado no fronte.
A agressão do real anunciou nele uma era de devastações, porém, hoje, a carne marcada pelas exposições, sem auxílio e sem amparo, sem telefonemas no aniversário, Alberto refutava seus sentimentos e culpava a sua pobreza de imaginação, a sua descrença generalizada. E cogitava sozinho sobre como a idade vai torcendo os olhos, virando-os para dentro, na cruel perscrutação dos que não se aceitam, dos que lamentam os caminhos tomados e se julgam muito velhos, ou muito cansados, o que aliás dá no mesmo, para recomeçar. Não é que falte motivação, é que falta o gesto de motivar-se diante da indiferença brutal de uma existência muda.
Alberto chegou à Barata Ribeiro. Ao dobrar a esquina, a realidade exterior, num impulso inexplicável, conclamou a sua atenção e as imagens ganharam contornos mais nítidos. Reparou nas pessoas a seu redor, e levemente interessado, capturava as suas fisionomias enquanto passavam. Sentia a agitação, o vaivém, a azáfama diária do comércio fechando as portas, do trânsito esbravejante, as pessoas pulando dos ônibus. De todas as idades elas corriam para trancar-se nos ninhos emparedados e acarpetados, repletos de cortinas, para lavar o expediente do corpo e pôr-se com os pratos de comida diante da televisão, num fastio de conversas e gestos, que não encerram nenhum exemplo.
Tudo isso um dia, Alberto admitiu, o incomodava, mas agora acompanhava essa vulgata quotidiana como quem contempla tediosamente a passagem de grandes embarcações pelo canal do porto. Não tinha nenhuma crítica a fazer. Aborrecido às escâncaras, irrompeu em um boteco nordestino, pediu uma dose de cachaça e cigarros, trocando olhares convidativos com a menina do canto, surpreendida com o homem alto e magro, de cabelos desgrenhados e aparência charmosamente desleixada. Queimou-lhe o esôfago a bebida ardente, mas seu rosto não se contorceu, e ele então acendeu um cigarro e saiu sem se despedir do possível flerte.
Alberto por muitos anos havia vivido como um nômade. Lembrou-se, um a um e sem entrar em detalhes, de todos os lugares por que passara em sua carreira andarilha, pela infinidade de rostos e vozes que conhecera em três continentes. Emancipou-se na estrada dos confinamentos da família e da superproteção dos pais, ganhou o mundo e deu-se ao mundo, mas em troca, parecia-lhe, havia recebido muito pouco. Sim, Alberto, dizia para si, sorrindo tragicamente, sim, eu fui um idealista. A tristeza até então subconsciente dominou-lhe o coração e ele teve que oferecer a face ao céu para esconder as minúsculas lágrimas, mescladas aos chuviscos frios da noite de inverno. Havia anoitecido por completo.
Continuou a caminhar em direção ao encontro com o Gustavo, antigo amigo de tantas memórias. Em dois anos de volta ao Rio de Janeiro, havia vivido a existência de um recluso mascarado, um alienado dos tumultos e noticiários. Havia se isolado no que considerava o ponto final da odisséia de sua juventude, mergulhado num exílio lúgubre num conjugado barato e sem telefone. Os dois anos de solidão pareciam-lhe, neste momento, um sonho lúcido, um estupor de clareza, pondo-lhe em perspectiva a vanidade de seus esforços pregressos, o desconsolo de suas parcas realizações concretas, diante de tanto barulho e tanta fúria com que, jovem, se agitara. Tudo estava tão claro e tão vazio. Debateu-se contra o destino e perdeu a aposta.
E quando saía pela noite, entre copos de uísque e garotas de programa, sabia que tinha se forçado a esquecer de tudo. É como se este Alberto não fosse aquele Alberto e ele sequer imaginava como poderia voltar a sê-lo, pois perdera-o por completo e irrevogavelmente. Tinha deixado para trás os seus valores, desaprendido a sua ética e a sua estética, havia se transformado em uma criança circunspecta e sem alegria, para quem o mundo não vai muito além do que ela pode pegar e morder. Perdeu o contato com a multidão de gente que há muitos anos costumava se relacionar diariamente, sobretudo tinha asco de reecontrá-las e quando acontecia de esbarrar por acaso com uma delas, fingia sorrisos afáveis e logo se desculpava, porque tinha compromisso — o compromisso de não se ver o antigo Alberto, que tanto o decepcionara, pelos olhos delas. Não queria que elas demarcassem nele os limites parvos de suas escolhas de refugiado sorumbático e introspectivo, não queria que elas interrompessem os seus solilóquios não menos inúteis que uma vida ordinária.
De noite, Alberto andava em círculos e era consumido pelo fogo.
Por que abria a exceção, e iria agora encontrar-se com Gustavo? sim, ele conhecia a resposta, a única aliás. Aquela velha lembrança veio roubar-lhe a tranqüilidade do muquifo em que habitava, e terminou por aceitar o convite. Alguma coisa haveria de acontecer. O seu intelecto, atiçado pela introspecção, envenenado pelo pessimismo, trabalhava a todo vapor, tentando compreender que tipo de véu seria, daqui por diante, descortinado. A presença de Gustavo lhe causava um mal-estar, mas ele não pensou em dar meia-volta, e nesse exato instante Alberto notou afinal no fim da rua o Pavão Azul, barzinho de boêmios imprecisos. Obstinou-se.
E viu o antigo amigo à mesa, esperando-o. Gustavo jamais o tinha visto de barba.
Amassada anonimamente do vagão, seus cabelos fulvos desarrumados, Joana repunha dentro dela a personagem que até então tinha sido com Emilio. Ao redor, o povo passageiro suspendia momentaneamente os dissabores e queixas, bestificado de fim de expediente, cheirando à tardinha que caía na cidade.
E então Joana embarcou no trem veloz das memórias, recuperada da histeria que lhe havia acometido nos últimos quinze minutos. Ponderou como o seu amor por Emilio não havia estalado de uma só vez, de supetão. Conhecera-o assim vagamente na redação, e por longos meses ela sequer notara a sua presença. Uma amiga traquinas lho apresentara, prospectivamente, num happy hour, mas ela não abriu a menor conversa para aquele rapaz moreno e casual, uns poucos anos mais novo que ela. Ela tinha de admitir, agora, que, por um longo tempo, era como se ele nem existisse, e talvez toda a roda gigante de eventos sequer ocorresse, se, numa tarde fria, não tivesse resolvido notar a sua existência. Percebendo aquela ligeiríssima abertura, o colega distante da página internacional, às apalpadelas, foi aconchegando-se, com astúcia de cigano e bom humor de carioca, com os olhares e sorrisos arremessados na hora propícia, com o timing que é o cerne da arte de conquistar. No princípio, Joana fez questão de ressaltar para si, não o amava em hipótese alguma, nem o achava especialmente bonito ou inteligente ou charmoso, mas lhe respondia as provocações à guisa de troça. Marota, não recusava o desafio, e inclusive não a reprimiam as auto-imprecações morais, de modo que se permitiu o flerte ocasional, sem maiores perspectivas ou maldades. Intimamente, todavia, havia fixado, talvez no subconsciente, talvez ao se aproximar dos trinta, que escancarava o coração defronte as oportunidades do acaso, que não se furtaria de viver em circunstância alguma, e que de toda sorte já havia traído Gustavo, provavelmente valia o vice-versa e, portanto, não haveria mistério incontornável em trair de novo. Joana não deixou de admirar-se, enquanto lembrava, como ela sabia ser racional quando precisava.
Quando aconteceu, Joana nunca deixou de questionar-se, como poderia se sentir seduzida por um homem tão imperioso, bárbaro, falso, egoísta — tão pródigo em seus prazeres, tão inconsolavelmente atirado ao que de mais mundano encontrava pela frente. E não descobriu nada disso mais tarde, mas de imediato. Emilio, jamais embotado por arrependimentos e ressacas, nunca hesitante nas escolhas, sempre certo de fazer o que mais lhe apetece, não cultivava futuro nem passado. Ele recebeu naturalmente inclinações anti-idealistas logo na infância, e desde cedo bazofiou de religiões, ideologias, propósitos maiores. Plenamente convicto de seu caráter sólido e generoso: investir tudo no presente.
Se já gozara escapadas, para Joana foi o primeiro caso em que ela amava mais o corpo do amante do que o próprio, mais os trejeitos e toques do que as palavras, mais a sua voracidade e animalidade do que as sutilezas do espírito. Semblante másculo, olhos negros enormes e pestanudos, costas largas, um corpo moreno com grandes extremidades, parecia extraído de uma tela de Portinari — e que mãos… e que ombros. Era um leão, concluía Joana, e ai de quem servia a suas paixões na embriaguez da volúpia.
Ela recordou da primeira vez em que se entregou, naquele congresso de jornalismo em São Paulo. Dessa vez, presenciou, abismada de desejo, Emilio lançar-lhe fogo pelos olhos, espumar, ganir, — gemidos ásperos e clamores bestiais irrompiam de seu peito inchado de nadador. Joana pensou como ele a incitava, com as exclamações mais chulas que já ouvira, a montar-lhe, e como ela participava dos jogos, e com eles inebriava-se risonha de uma vivacidade que ia lhe escasseando na sua dita vida real. Seu coração palpitava, xingava-o, estapeava-o, chamava-o com as pernas como uma leoa ruiva, exigindo satisfação imediata — sim, Emilio, sim, sim, sim… tomado por um Dioniso enfurecido, Emilio perdia o controle das mãos e pernas, na hora do gozo.
Acordada do sensual turbilhão pela frenagem sibilante do metrô, Joana viu como o velhote reparava nela, quiçá lascivamente. Uma menina de óculos tortos mirava-a curiosa. Decerto por ela estar abraçando o corrimão com tanto ardor, olhos semicerrados e o rosto avermelhado, repleto de sardas, encostado no metal frio e engordurado de mil mãos. Ficou ainda mais rubra e pediu desculpas mentalmente, antes de sair, porque era a sua parada.
Desceu na estação da Siqueira Campos e caminhou para o Carrefour, tonteada pelas lembranças incandescentes daquele que finalmente a rejeitara.
Emilio não lhe podia sair da cabeça.
Depois do congresso, passaram a freqüentar-se na hora do almoço, em motéis do centro da cidade. Sabia que, agora, aventurava tudo nesse afaire. Mesmo assim, ofertava a sua paixão felina e todo o seu presente de mulher vibrante à volúpia desenfreada do seu saqueador. E pressentia o futuro de desconsolo e vitimização, profecia que ora se realizava. — O que podia fazer, falou baixinho Joana de si para si, — eu era um instrumento musical em suas mãos enormes, tocava-me a seu bel-prazer por todo o compasso, tirava-me melodias sôfregas, afinava-me e desafinava-me, eu seria uma tola, se lhe resistisse, e ele tampouco me resistiu, porque nele despertei um desejo desabalado, que a mim muito gratificava.
Lembrou-se desgostosamente como jamais trocaram juras, não prometeram fundir os destinos, não discutiram a situação de um e outro. Porque eram os dois, ele e ela, casados. E se, embora se davam o respeito de não mencionar os companheiros, estes nunca ficaram alheios em absoluto à cólera amorosa que engolia Joana e Emilio. Ele não se negava a reconhecer que os outros pairavam como sombras inominadas, como um bloco de silêncio implicado nas conversas mais realistas, o não-dito a todo momento entranhando-se no dito, contaminando-o, infectando-o de sentidos inconfessadamente temidos.
Joana parou a recapitulação e confessou para si que não era bem assim, que a história estava mal contada em pontos-chave, que relatara tortuosamente e saltara passagens indispensáveis, que os acontecimentos coalhavam alegoricamente numa narração de novela (e ela nunca fora noveleira), que agregava sensações falsas à brutalidade dos cheiros, toques e umidades, que aquele romance findo esta tarde, em definitivo, nunca foi fácil para ela, como o parecia ser para ele, e que nada disso tinha a ver com Gustavo, o companheiro leal, mas com outros fatos, que ela julga não convirem, agora, narrar.
Eu peço calma ao leitor, porque, se Joana assim procede, há-de ter motivo, e fico eu aqui, junto de você aí, sondando como isso poderia continuar.
Mesmo porque Joana interrompeu o fluxo do passado, para arrumar-se, diante do espelho do elevador. Arrumou inclusive as feições do rosto, fingindo uma conhecida personagem, pois já-já chegaria ao apartamento, trazendo as compras que Gustavo lhe pedira.
Desceu as escadas do metrô esbaforida.
Vultos cinzentos desviavam de seu afã e as paredes ladrilhadas curvavam sobre a tormenta desconexa de seus pensamentos.
Joana era toda colapso e balbuciou consigo, entre nuvens carregadas e ventanias barulhentas: por quê? como cheguei aqui? aqui, neste exato instante cósmico, neste buraco negro de merda, neste dilema astrofísico? ah, mas isso vai mudar, isso hoje vai mudar, pela dignidade…
A roleta não aceitou o cartão de Joana. No impulso com que vinha, levou um tranco e quase despencou por cima do braço metálico. Furiosa, deu joelhadas no aparelho, atirou o cartão para longe, terminou por pular para o outro lado e disparar, sob o protesto distante de algum vigilante funcionário e os olhares assustados dos transeuntes.
Desceu à toda velocidade a última das escadas, sua cabeça um dínamo convulsionado de remorsos e desilusões, sua face contorcida de desenganos, a bolsinha de couro preto esvoaçando para todas as direções.
Pela enésima vez, Joana repetiu para si: por quê? ele me amava? me amou? dignidade, Joana! alguém alguma vez me amou? por quê?!
Atingiu por fim o subsolo, aprumou o casaco e marchou com a resolução dos loucos. Foi até a borda dos trilhos, mas no derradeiro passo, teve um sentimento estranho.
Joana não cruzou a faixa amarela, a linha dos que não voltam.
À noite, na solidão do leito, elucubrou que teria ouvido um sino de igreja, badalando várias vezes, mas o sino não emitira nenhum som e isso a assustara terrivelmente. Todavia não podia estar certa o que exatamente tinha feito seu corpo parar. Um monte de razões obscuras, por certo… isso não importava mais, agora estava viva para lamentar não ter aproveitado, mais cedo, tão oportuna chance.
Mas, retornemos à Joana, a um passo do fosso daquele fim de tarde.
— Joana, — pensou para si baixinho, sabendo, no íntimo, que os suicidas de verdade não pensam — vais se matar por causa dele? e de quem mais? aos trinta anos deflagrada sob o seu ardor, livre as quimeras humanas, a sua voz grave, a mão calosa, o cheiro acridoce de seu suor, o modo como cruza as pernas enquanto me chama de putinha, como viver sem isso? meus seios que ele amassa com tanta indelicadeza, ah me encha de tapas Emilio, homem que nada me pediu e a quem tudo dei, nos últimos sete meses recebeu todo o meu grandecíssimo mel, meu cio, meu leite de leoa, meu estupor de fêmea, ele me fez dançar sobre as brasas do inferno e agora, não me quer mais, não me quer mais, não me quer mais… por quê?, disseram-me que isso aconteceria dia ou outro, ora, eu já vivi de tudo um pouco, mulher madura?, qual nada, nunca deixei de ser menina, de ser ingênua, de acreditar em duende, quero tomar banho de mar à meia-noite, quero sentir com os meus pés descalços e deixar a brisa banhar a minha nuca, insaciável, mas agora, um fim amargo ou uma amargura sem fim?, porque sem Emilio, nada restará de mim… ah estou farta do ruído das pessoas, farta das estações, dos ciclos sem fim, dos amores com fim, farta das fábricas de infelicidade, farta daquele homem, dessa mulher, dessa criança, sim, estou farta do ruído das cidades, do ruído estridente e dos ganidos desse trem que vem em minha direção, mais e mais perto… por quê?!
Joana contempla com olhos afogados o farol dianteiro do primeiro vagão.
O celular toca. É Gustavo, seu marido. Maquinalmente, ela atende.
— Oi amor… tudo bem, estou aqui na Cinelândia, já já chego em casa, o quê? ok, pode deixar que eu passo no mercado.
A lufada da passagem do trem bateu-lhe o rosto. Bólido trovejante bem rente, arrancando-a do caos de suas agruras.
Enxugou as mágoas, entrou e aconchegou-se num espaço minúsculo, entre o sisudo homem de paletó e as secundaristas do ensino público.
(…)








