crônicas
Publicado em 11 de dezembro de 2011. Comente

Confesso que, em quase 12 anos de intensa vida acadêmica na universidade pública, já fui a vários eventos e encontros esvaziados, com meia dúzia de gatos pingados. Já participei de muitas mesas só com cupinchas, em papo de comadre. Diria até que é a regra. E faz parte: a reunião casual de espíritos livres que acabam convergindo em organização política e intelectual. Talvez seja o motivo pelo qual ainda vale a pena manter um pé na academia. Ainda mais depois das (incipientes porém significativas) reformas dos últimos dez anos, que trouxeram novos influxos, valores e inquietações. Mas só posso admirar quem mantém os dois e abraça por completo essa luta inglória.

Lamentavelmente, existe ainda uma percepção que mestrado e doutorado têm por objetivo confeccionar um produto final. Dentro de certas especificações e expectativas, credenciam o autor com uma “bandeirinha” para o próximo estágio. Seria produtivo se escrevêssemos para nós mesmos, mas nem isso. Tudo se instrumentaliza nesse processo de passar de fase, mesmo que ninguém leia o trabalho, mesmo que somente um ou outro esteja vagamente interessado nele e se dê ao luxo de passar os olhos nas referências, quando muito na conclusão e na introdução. E aí nesse jogo da amarelinha o acadêmico profissional vai acumulando pontos e passando aos próximos estágios, até o dia em que se aposenta e morre, orgulhoso do currículo repleto de bandeirinhas. Cede a vez a novos pretendentes ao moto-contínuo, um star system que se autorreplica.

Foi a primeira vez que cheguei num seminário anual de toda a pós-graduação de uma faculdade com zero pessoas. Rigorosamente zero. Nem a organização compareceu. Quem sabe numa utopia um seminário desses, onde os pós-graduandos realimentam o sistema de trabalhos e inquietações, devesse ser capaz de parar a faculdade e envolver a todos, com professores mediando as mesas e salas cheias. Não foi o caso mais uma vez e é das contingências da academia. Mas, nesta, a sensação de engodo escalou.

Tinha chegado à universidade 30 minutos antes e fui direto ao nono andar, onde ocorreria o evento. Lá, ninguém sabia informar do seminário, as secretarias estavam fechadas, e eu não recebera por e-mail a localização definitiva. Depois de perambular cerca de 20 minutos, encontrei muito por acaso um cartaz solitário, com a indicação do local riscada à caneta. A rasura indicava o auditório 13 do primeiro andar. Preocupado com o atraso, desci correndo e consegui chegar ao auditório exatamente no horário, às nove. Entrei em rompante e não havia ninguém. Nenhum ouvinte, nenhum palestrante, ninguém da comissão organizadora, vazio total. Na meia hora seguinte, chegaram somente os outros palestrantes da mesa. Dois deles pretendiam apresentar logo aos fantasmas para cumprir tabela e ir para uma entrevista…

Como assim? Sem organização nem auditório, pra ficarmos os quatro debatendo na mesa, melhor ir pro bar. Menos impostado e mais produtivo. Ante a insistência dos demais, curvados à infâmia do pegar-o-certificado, resolvi ir embora. Desconsolei-me com o engarrafamento de hora e meia pra voltar ao centro da cidade. O tipo de situação que, na linguagem coloquial das ruas, se conhece por “palhaçada” (perdoem-me os bons clowns).

Não dá pra se conformar, porque depois são os mesmos que ficam reclamando mais autonomia universitária e mais recursos pra eles próprios, contra qualquer reforma capaz de implodir esse autismo institucionalizado e auto-indulgente, — que é a regra. É pra revoltar mesmo.

Recomendados:

O que sobrou para os intelectuais, por Ronan, no Passa Palavra

Frente de Libertação do Conhecimento (FLC)

Publicado em 2 de dezembro de 2011. Comente

Quando encontrar alguém que afirme participar de um movimento anticorrupção, tenho uma sugestão pra você. Em vez de imediatamente passar a tratá-lo como um completo idiota e desconversar, seja prospectivo. Explore o mundo a seu redor. Tenho feito isso sistematicamente desde o Movimento Cansei, há quatro anos, com gente de todas as idades, escolaridades e classes sociais. Cheguei a algumas conclusões provisórias, num apanhado estatístico.

Experimente perguntar sobre qual corrupção se está falando.

A grande maioria acha que a corrupção é geral, que a regra é o político burlar a lei e desviar verbas, que nunca se roubou tanto nesse país. Redirecionam o dinheiro público para o próprio benefício, da família, negócios e compadres, para o partido ou a campanha eleitoral. O discurso nunca corresponde à prática. Em geral, são fingidos, velhacos, oportunistas, gananciosos, não tem moral alguma. Senão a de trabalhar dia e noite por mais poder e dinheiro. É o típico político brasileiro, que só quer se dar bem. O Brasil não vai pra frente por causa da corrupção. Além da corrupção, o outro grande problema é a impunidade. Não faltam leis, carece é que sejam cumpridas. A polícia e o judiciário são ineficientes, fazem vistas grossas, participam da mamata. Se os políticos fossem sérios e as leis fossem aplicadas, já seríamos Primeiro Mundo há muito tempo. Dinheiro não falta: é que vai pelo ralo ou para o bolso dos corruptos.

Pergunte então sobre a desigualdade social e a pobreza.

Aí usualmente aparece um terceiro problema: a educação. A falta dela. Está abandonada às traças neste país. Pobre precisa é de escola, orientação, curso técnico e profissionalizante, pra poder ter condições de crescer na vida, pra ter um emprego decente e ser alguém. Faltam investimento e vontade política. Professores sérios, também. Prouni, cotas em universidade? Claro que não. Tem é que melhorar ensino-fundamental-e-médio pro pobre concorrer em pé de igualdade. Não pode favorecimento pra ninguém, porque vivemos uma democracia. E quem estudou vai se prejudicar só porque os pais puderam pagar escola particular pra ele? A pessoa não tem culpa de ter dinheiro. Resolver a educação é cortar o mal pela raiz: melhorar o ensino-básico-e-fundamental. O resto é populismo, pra ganhar voto e manter currais eleitorais. Aí fica fácil pro político.

Uma minoria vai mais longe que, além da educação, também tem o problema da preguiça. Nem todo pobre quer trabalhar. Ainda mais com esse programa de bolsas, bolsa-isso, bolsa-aquilo, isso todo mundo sabe que não passa de compra de votos, pura e simples.

Nesse tópico, um de meus interlocutores ainda alerta: “A gente também tem que tomar o cuidado de não julgar o Brasil como um todo pelo seu lado pobre, aqui tem muita coisa boa, muita gente bonita, muita vontade de crescer e trabalhar; temos que aprender a valorizar, não é tudo um Piauí.”

E o racismo?

A maioria concorda que exista e seja uma questão. Mas emendam que o Brasil não é um país racista. Já foi, mas não é mais. Basta ver a sua história, hoje  o negro está na novela, é normal jogar capoeira, frequentar a umbanda, até namorar um negro tem sido aceito. O problema são algumas pessoas preconceituosas. Isso independente de classe, entre pobres e ricos, aliás, entre os negros também. Não é como nos Estados Unidos, onde fica claro quem é branco ou negro. Aqui, todo mundo é meio mestiço, pardo, não tem critério. Não dá pra gente raciocinar como se estivesse na época da escravidão. Isso foi há mais de um século, ninguém vivo hoje teve participação. Alguns citam amigos negros ou então o famoso avô. Cotas? Não tem cabimento ação afirmativa. Sempre voltam ao argumento do ensino-fundamental-e-médio. E ainda incentiva o racismo, gera uma divisão na sociedade que está praticamente extinta. Numa democracia, não pode ter isso de branco e negro.

E a grande mídia?

O que tem?

A grande mídia brasileira não tem corrupção?

A maioria costuma pensar um pouquinho nessa hora. Afinal, leu sobre o movimento anticorrupção nessa mesma mídia. Muitos acabam concluindo que não. Em comparação com políticos e funcionários públicos, os jornalistas e editores são uma categoria mais profissional, mais séria. Sem dúvida, mais comprometidos com o Brasil do que os políticos, que só querem se dar bem. Democracia tem que ter imprensa atuante. Temos imprensa de qualidade no Brasil, especialmente a TV. Exportamos programas para trocentos países. Compara com o que você vê na Itália, no México, na Venezuela. Aqui tem tecnologia, tem liberdade de imprensa, quase ninguém tem rabo preso com o governo. Imagine se eles não denunciassem a corrupção. Mesmo porque numa democracia a grande mídia é privada, o dinheiro é dela, não tem que ficar prestando contas toda hora como os políticos e governos. Eu não acho que seja um dos maiores problemas, se comparar com corrupção, impunidade e educação.

E você?

Como assim?

Você, como você lida com a corrupção?

Eu sou contra. Todo cidadão de bem deveria ser. Independente de partido. Pago as minhas contas, pago os meus impostos, não tenho dívidas, acordo cedo pra trabalhar, mantenho a minha família, tudo que conquistei eu ganhei com o mérito e o trabalho próprios, então só quero que os políticos parem de roubar. É justo, não? Trabalhei duro e tenho o direito de me importar pelo meu país. É dever de cidadão. E isso vem antes de qualquer ideologia, é o básico de qualquer democracia, nem deveria ser discutido. Mas é um escândalo, aqui a lei não é cumprida e fica por isso mesmo, então tem que ter movimento pra que seja. Estou certo ou errado?!

Publicado em 22 de abril de 2011. Comente

Há muitos mal-entendidos ao redor do Zé do Caixão.

Embora sempre por ele interpretado, não se confunde com seu criador, o cineasta paulista José Mojica Marins, que coloco no pódio dos mais potentes do cinema brasileiro, ombreando com Gláuber Rocha e Rogério Sganzerla. Com o diferencial que os filmes de Mojica lotavam as salas nos anos 1960.

Seu personagem mais célebre só viria a aparecer no sétimo longa-metragem da extensa filmografia de Mojica. Surgiu como protagonista do clássico À meia-noite levarei sua alma (1964), quando tinha 28 anos. Como escrevi nessa crítica, “No Brasil, não é só o primeiro grande personagem de terror. É o único.

Outra confusão está em atribuir a Zé do Caixão poderes sobrenaturais. Na verdade, é um ateu provocador, um imoralista, que zomba das religiões e despreza os crentes. Com empáfia e galhofa, o personagem se considera um Deus. De fato, entroniza uma super-consciência egóica, critério da verdade e medida do real. Deus desce dos céus e se torna eu.

Eis o tipo de solipsismo arrogante que bloqueia qualquer ética da imanência. Zé do Caixão está destinado a sofrer nas garras da mesma autoconsciência totalizante que o liberta da religião: tem pesadelos, alucina e termina por descer ao inferno (do inconsciente) em Esta noite encarnarei no teu cadáver (1967), numa seqüência seminal, definidora da passagem à imagem em cores.

***

Conheci Zé do Caixão nos primeiros anos da década de 1990, quando praticava uma erudição selvagem em bancas de jornal e locadoras de VHS. A AIDS era o mal absoluto, os editoriais da Folha eram digeríveis e ouvia-se muito Legião Urbana, pelo menos até o grito do grunge injetar uma revolta amarga na geração. Quando adolescentes nerds passavam as noites entre cafeína e BBS, enquanto os populares ficavam nas matinês de house music e ectasy. Lembro-me bem que pertencia ao primeiro grupo, pois sabia de cor a última fala do andróide Roy Batty (em Blade Runner) e tinha por anti-herói favorito o Monstro do Pântano. Zé do Caixão foi só o segundo.

Cena inesquecível de Blade Runner:

Uma das falas mais emblemáticas de Zé do Caixão:

Publicado em 15 de dezembro de 2010. Comente

O diretor me chamou a sua sala. Recém-promovido a gerente de projetos de uma das mais gabaritadas firmas de engenharia, era a primeira vez que me chamava diretamente. Levei minha pasta de controle. A secretária pediu para eu aguardar. Sentei-me na antessala, recapitulando o que poderia ter feito de errado. A porta do gabinete estava aberta. Dava pra ouvi-lo esbravejando com alguém. Estiquei o pescoço para identificar a vítima: o gerente de marketing. E o último não tinha durado dois meses.
Esse diretor era conhecido pela severidade com que tratava os empregados. Era daqueles artistas do esporro que, quando começava a descascar, não parava mais. O esporro ia de a a z.
Saiu o gerente de marketing. “Chefe hoje está atacado!” Levantei-me. Caprichei na expressão de seriedade e profissionalismo. Cheguei à porta e, sem me dirigir o olhar, o diretor fez um sinal com a mão para eu esperar. Pegou o maço de cigarros e foi para a salinha reservada. Acalmar-se enquanto contemplava a vista da Baía da Guanabara.
Recebeu-me onze minutos depois. Pediu um breve relatório dos projetos em andamento. Fiz do modo mais objetivo possível, num tom firme, porém reverencial. Ele acendeu um cigarro. “O que você acha do museu espacial?” Comecei a falar dos aspectos técnicos. Ele me corta. “Isso é goiaba, quero saber da viabilidade econômica.” Respondi que era um projeto sofisticado, que dificilmente o cliente, o governo sozinho, teria tantos recursos, mesmo no ano do centenário de Santos Dumont, mas que um escritório como o nosso deveria sonhar alto e, afinal de contas, poderia haver canais alternativos de financiamento. O diretor me encarou a primeira vez: “Quem é o melhor arquiteto de todos? O maior dos maiores?”. Pergunta retórica.
Aí foi tudo muito rápido. Pediu à secretária o telefone do “senhor Oscar Niemeyer”. Ligou. “Por gentileza, quero falar com o arquiteto Oscar Niemeyer”. Do outro lado, alguém deve ter se referido ao homem por “doutor Oscar”, porque o diretor começou a conversar com um tal doutor Oscar e depois com um dos filhos, Carlos. Conseguiu agendar uma visita no dia seguinte, às dez da manhã, no escritório dele na Avenida Atlântica.
Cheguei mais cedo no endereço, com a pasta do museu e dois presentes embrulhados em papel prateado. Um livro biográfico sobre Santos Dumont, que comprovava a precedência na invenção do aeroplano sobre os Irmãos Wright. Um portfólio, edição luxo, dos grandes projetos da nossa empresa. O carro do diretor chegou cinco para as dez. Desceu e, ao me reparar, disse: “Filho, você tá parecendo uma árvore de natal, deixe esses embrulhos no carro.”
Subimos pelo elevador antigo até o último andar e depois mais um lance de escadas. O escritório dele ocupava a cobertura inteira, generosamente inundada pelo Sol da manhã. Saltava aos olhos o lado voltado à fachada, que se constituía de uma peça única envidraçada em painéis, cuja vista correspondia exata e deliberadamente à extensão da orla de Copacabana. Arquitetos e designers trabalhavam em espaços amplos com paredes abacate, forradas de gravuras estilizadas, fotos de monumentos e livros em língua estrangeira. Eu estava em Oz e só faltava conhecer o Mágico.
Fomos recebidos por Carlos Niemeyer e uma secretária. O diretor não abordou o assunto. Trocamos amenidades. Foi então que ele chegou. Do tamanho de um duende de jardim, corcunda, a pele vincada e caída por toda parte, cheia de manchas, arrastando-se com uma expressão vaga, lânguida, um copo de café fumegante na mão esquerda, uma longa cigarrilha na direita. Vestido de bermuda e camisa social, meias pretas, ali eu via apenas um homem fustigado por 100 anos de uma vida febril. O “doutor Oscar”. Oscar Niemeyer. Só quando esse nome golpeou-me, associei o gnomo decrépito diante de mim ao gigante da arte moderna que conhecia dos livros e que seria cultuado ainda por muitos séculos, num tempo em que não passarei de número anônimo em obscuras estatísticas demográficas. Impossível não ser afetado por sua aura, como se a iluminação do ambiente tivesse mudado por encanto.
Depois das apresentações, o diretor explicou-lhe a idéia. Contou do projeto do museu espacial. Pretendia dar preferência ao escritório Niemeyer, para o projeto arquitetônico. Mas precisava antes viabilizar o empreendimento. Pretendia, para isso, fazer um pré-lançamento. Lançaria uma Pedra Fundamental. Nesse pré-lançamento, convidaria autoridades e empresários, para levantar os fundos para a obra. Nessa ocasião, faria a proposta da parceria entre o setor público e privado. A idéia só funcionaria num evento digno e badalado. A materialização da Pedra Fundamental tinha que ser à altura do desafio. Pensou num monumento de tema aeronáutico assinado por Oscar Niemeyer. Convidava-o desde já a participar do evento. Buscaria o arquiteto de helicóptero no Forte de Copacabana.
Doutor Oscar ouviu tudo atentamente e finalmente falou: “Morro de medo de avião”. Rimos. Disse que tem um carinho pela aviação, mas horror de voar, embora tenha nascido um ano depois do 14-Bis.  Pediu outro café e acendeu o segundo cigarro. Depois mudou de assunto. Falou da namorada, de sessenta e poucos anos. “Uma ninfeta, sou um pedófilo mesmo”. Rimos. Disse que perdeu projetos nos anos 1940 e 1950 porque era comunista. Mas o ministro da Aeronáutica dava um jeito dele desenhar às escondidas. Projetava, mas não assinava. Divagou sobre a Argélia e um projeto de uma praça que fica toda ela abaixo do nível do solo.
Doutor Oscar imergiu num fluxo de consciência. Emendava uma história na outra. Contou sobre uma longa viagem de carro que fez pelo Brasil, recheada de histórias picantes e anedotas poéticas que em nada perdem a qualquer romance beatnik. “O problema do marxismo não é Marx, são alguns marxistas”. Falou sobre seus encontros com Portinari, Juscelino, Sartre, Che Guevara. “Outro dia o Fidel veio me visitar. Só que errou a porta. Bateu no vizinho aqui de baixo. Imagina. Você abre a porta e dá de cara com o Fidel! o Fidel ofereceu um charuto pra ele.” Contou de uma meretriz cubana que vendia o corpo por jámon, falava cinco línguas e somava dois doutorados.
Doutor Oscar é boêmio. “Dizem que tenho pacto com o Capeta. Eu não. Se existir mesmo o Diabo, pra que iria querer fazer um contrato comigo? já me tem de graça. Meu pacto é com a vida. Pacto de vida e vida.”
Doutor Oscar é marxista. “Os meninos me chamaram pra falar na universidade. Todos de vermelho, bonitinhos, com os livrinhos de Marcuse. O que eles fazem é mais importante do que o que eu faço. A revolução. Aplaudiram. Meu filho reclamou: pai, saíram dali e foram pra praia, fumar maconha. Isso também é a revolução, é a revolução deles ué.”
Doutor Oscar é ateu. “De repente até existe alguma coisa lá fora. Mas eu só acredito vendo. Real mesmo é o concreto e o mundo é de concreto. Enquanto isso vou fumando meu cigarrinho.”
Doutor Oscar é um filósofo. “Tomei muitos cafés do lado do Sena com Sartre, Camus, Simone de Beauvoir. Como ela tinha muita fibra pra aguentar as vaidades do Sartre. Pior que era fiel. Filósofo constrói em cima do tédio, da insônia, né?” Mostrou a primeira edição francesa de O Ser e o Nada, com dedicatória do escritor.
Assim foi proseando por quase uma hora. Em meu torpor, pareceram cinco minutos. O diretor pelo menos demonstrava interesse. De repente, Doutor Oscar pegou no meu braço. “Bruno (ele lembrou o nome), o que você acha dessa Pedra Fundamental?” Eu, eu, eu. O diretor me fulminou com o olhar. Respondi, coração à boca, que imaginava uma peça delgada de concreto armado e, sobre ela, apoiada em estrutura de aço, uma aeronave real. O conjunto todo apontando para o céu, numa curva ousada, à moda de Brasília. “É isso mesmo. Eu também penso assim. Vamos fazer.” Diretor todo sorrisos e eu também, mas num nível metafísico. Agradecemos.
Na saída, Doutor Oscar novamente me puxou pelo braço. “Ter cem anos é foda.” Perguntei se ele sentia tédio. Olhou-me sério. “Tédio é tão chique, né? Tenho vergonha na cara pra não me entediar.” A frase penetrou meus poros por todos os lados. Foi a última coisa que disse, naquela manhã insólita.
Lá embaixo, antes de tomar o seu caminho, o diretor mandou eu voltar e deixar os presentes com o Carlos. Ordenou-me também tratar a partir dali diretamente com Carlos, que os trâmites seriam resolvidos por sua secretária, com prioridade máxima. Definiu-me prazo para as próximas ações e sentenciou: “O sucesso desse projeto é seu sucesso, o fracasso dele é seu fracasso.” O chofér bateu a porta e o carro se foi. E ele nem se despediu.
Esta crônica é 85% real, por incrível que pareça, e é modesta homenagem aos 103 anos deste monstro profano e sua arte ao mesmo tempo militante, diletante e amante.

Publicado em 10 de dezembro de 2010. Comente

Quero primeiro agradecer ao PICICA – Blog do Rogelio Casado, que não só republicou Meus vinte anos bem vividos, como também fez um trabalho de colagem a partir das referências, que tomo a licença de reproduzir.
Alguns leitores acharam o post anterior hermético (pedante). Admito que pode ter sido descortês, embora, defendo-me, o tom confessional não exprima soberba. De qualquer forma, e assumo o risco de parecer ainda mais pernóstico, complemento com um glossário, em ordem de aparição no texto.
Kerouac, Jack. Escritor americano descendente quebecois, messias beatnik, fã de uísque e benzadrina, tinha uma relação edipiana com a mãe, passou a década de 1950 como um vagabundo iluminado a percorrer os EUA de leste a oeste pela Rota 66, e revitalizou o sonho americano num novo horizonte de liberdade e desprendimento.
10.000 Maniacs. Banda americana pop-rock dos 1980-90 com a musa indie feminista Natalie Merchant, gravou a inesquecível canção Jack Kerouac (assistir aqui no youtube).
Cranberries. Banda irlandesa pop-rock e como a maioria da terrinha, engajada politicamente. O terceiro e melhor álbum, de 1996, tem faixas com os títulos Free to Decide, The Rebels, I just shot John Lennon e Bosnia.
Pearl Jam. Referência absoluta da geração roqueira dos 1990, quem não tinha uma camiseta preta deles?
Grunge de Seattle. Movimento de exorcismo coletivo iniciado no oeste norte-americano, devastou o mundo do rock e inaugurou a so-called Geração X, alcançou o auge com Soundgarden, Alice in Chains e Nirvana, peguei o finzinho da onda, a ressaca se deu no final dos 1990 e foi batizada era pós-grunge.
Marxismo de almanaque. Versão for dummies do marxismo, geralmente simplificadora, maniqueísta e banalizante. Mais tarde, eu aderiria ao trotskismo, ao situacionismo e finalmente, ao que me filio agora, o groucho-marxismo.
Defesa Indo-Benoni. No esporte xadrez, a maioria das aberturas com as peças negras chama-se “defesa”. Porque existe uma tendência de as brancas atacarem primeiro, devido à vantagem do primeiro lance. A Defesa Indo-Benoni é de contra-ataque, aplicável contra aberturas de peão da dama, em que as negras propõem um jogo dinâmico e caótico, sem simetria alguma em relação aos lances das brancas. Caracteriza-se pelos lances 1. d4 Cf6, 2. c4 c5. Adequada para jogadores criativos e ofensivos. Foi utilizada com sucesso pelo legendário ex-campeão mundial Bobby Fischer numa partida clássica do match Fischer x Spassky, em 1972. No Brasil, é usada por poucos mestres, aprendi-a com o mestre Marcus Vinícius Garcia e joguei-a com relativo sucesso em vários brasileiros sub-12, sub-14 e sub-18, obtendo uma vitória impossível contra o então campeão mundial da categoria sub-14, no Pan-Americano de São Paulo, 1993.
Barthes, Roland. Crítico literário brilhante e sofisticado, pivô do estruturalismo francês, varrido do mapa após 1968, quando os estudantes provaram que não somos estruturas. Na moda acadêmica brazuca, foi substituído pela febre Michel Foucault.
Nietzsche, Friedrich. Ostentava um indefectível bigodão macho e freqüentava prostíbulos italianos. Brigou com o compositor Richard Wagner.
Joy Division. Banda inglesa de 1976 pós-punk afterglow baixo-astral beira-do-colapso, melhor expressão musical da geração Holocausto Nuclear, letras e vocal do mito Ian Curtis, que se enforcou na cozinha de casa depois de assistir a um filme de Werner Herzog, em 1980.
William Gibson. Na década de 1990, se você era um nerd metido, tinha que ler Gibson, mitólogo da ficção científica e profeta de um novo futurismo tecno-noir. Neuromancer começa assim: “The sky above the port was the color of television, tuned to a dead channel.”
Raul Seixas. Toca Rauuuuul!!
Oasis x Blur. Rivalidade. Exato instante em que o britpop nascido em Manchester e inspirado por The Smiths se tornou mainstream. O Blur era considerada a maior banda de rock da última semana até o Oasis disparar a ogiva nuclear (What´s the Story) Morning Glory?, álbum de 1995 todo ele feito de hits.
Noel Gallagher. Letrista da geração que nascemos entre 1975 e 1985.
Monstro do Pântano. Personagem existencialista trágico cuja máxima expressão se deu na pena do escritor inglês Alan Moore.
Defesa Alekhine. Outra defesa de contra-ataque para as negras, desta vez contra abertura de peão de rei, inventada pelo grande mestre russo e campeão mundial Alexander Alekhine, que fugiu do país na Revolução Russa, foi abrigado na Alemanha, manteve relações dúbias com o nazi-fascismo, desenterraram dele um artigo antissemita e o enxadrista terminou assassinado pela KGB estalinista, causa mortis oficial: engasgado com um osso de galinha, em 1946, morto com o título. O próximo campeão curiosamente foi o primeiro russo, Mikhail Botvnik, e a Escola Soviética manteria soberana o cinturão do xadrez até a jornada épica de Bobby Fischer, em 1972.
Isaac Asimov. Mais inspirado nos contos de fantasia do que nos romances de ficção científica.
Aldous Huxley. Escritor distópico.
Camões. Aventureiro a toda prova, foi soldado e poeta, amante das belas mulheres e de idílios praianos.
Putsch, Ersatz, cul-de-sac, weltanshaung, tutti quanti e leitmotiv. Na maioria das vezes, essas palavras terminam por exprimir mais a afetação do autor do que seu conteúdo semântico. Podem ser substituídas por golpe, clone, mato sem cachorro, cosmovisão, todos quantos e ritmo. Admito que Ersatz e leitmotiv são menos dóceis de traduzir e, dependendo da economia textual, podem ser insubstituíveis.
Henry Miller. Um dos maiores escritores de língua inglesa do século 20, largou o cargo burocrático para se dedicar à vida artística aos 33 anos, passou fome em Paris e publicou o seu primeiro romance, com dinheiro da amante, aos 43.
Dostoievski, Fiodor. Tudo o que você precisa saber sobre a vida está nas mil páginas de Os Irmãos Karamázov. Leia e viva.
Wittgenstein, Ludwig. Filósofo maior da primeira metade do século 20, perscrutou os confins da linguagem e da lógica, afundando num misticismo silenciador. Quando voltou à Inglaterra depois de uma temporada no exterior, os estudantes de Oxford prepararam uma faixa pra ele: “Bem-vindo de volta, Deus”.
Shakespeare, William. Quem não leu, não leu nada.
Derivada de arco-tangente de x. “A derivada da função tangente de um arco u, onde u é uma função de x, é: y = tg u →y’ = u’ . sec2 u”.
Joyce, James. Inventou a prosa contemporânea. A literatura divide-se em pré-Joyce e pós-Joyce.
Terra em Transe. Obra magna do cineasta baiano Gláuber Rocha, de 1967, filme alegórico, plurissintático, lúcido e politicamente dramático.
Folha de São Paulo. Membro honorário do PIG (“Partido da Imprensa Golpista”, segundo Paulo Henrique Amorim), bastião do franquismo paulistano e falso grande jornal. Li religiosamente dos 7 aos 20 anos, sempre ao café-da-manhã. Me liga todo ano para tentar reatar a relação, mas virei a página.

Publicado em 9 de dezembro de 2010. Comente

Houve um tempo em que eu rolava na cama sussurrando pra lua, entre livros de Kerouac e CDs dos 10.000 Maniacs, Cranberries e Pearl Jam, sabendo que atrás do muro de banalidade de minha vida haveria um jardim de delícias incomparáveis.
Houve um tempo em que eu achava que 20 anos era muito, olhava para alguém com 30 e aquilo me parecia um monstro cubista.
Houve um tempo em que eu vi como a maioria das pessoas de mais de 30 está morta e alguém ensinou que não se deve confiar em alma penada.
Houve um tempo em que eu deveria optar entre o grunge de Seattle e o marxismo de almanaque, cômodos escapes da revolta de primeira hora.
Houve um tempo em que eu concluí que ter 20 anos era, de fato, muitíssimo.
Houve um tempo em que eu jogava a Defesa Indo-Benoni, idolatrava o cavalo negro de g8 e o bispo branco de f1 (o “bispo fischeriano”) e exauria meus miolos em tardes de fidalguia no clube de xadrez.
Houve um tempo em que eu chorei a morte de quem eu já não acredito mais.
Houve um tempo em que eu lia Barthes e Nietzsche ao som do Joy Division, embriagado de poesia maldita.
Houve um tempo em que eu achava que ler William Gibson era atingir o nirvana nerd.
Houve um tempo em que eu interrompia apresentações de axé para pedir que tocassem Raul.
Houve um tempo em que eu me movia tão rápido que muitas pessoas me pareciam estátuas de gesso, uma coisa de louco.
Houve um tempo em que eu começava meu dia bocejando a data: Lugar Tal, 17 de outubro de 1999.
Houve um tempo em que eu nunca tinha tempo pra coisa alguma, todos me incomodavam e tudo me perturbava, mas eu passava horas olhando pro teto sem fazer nada.
Houve um tempo em que decidi fazer apenas amigos loucos de amor pela vida, no que fracassei redondamente, mas valeu a pena.
Houve um tempo em que eu me recusava a usar o verbo ser.
Houve um tempo em que eu degustava as manhãs como pequenos doces húngaros, misteriosos e picantes, como aquela menina esquisita que amei perdidamente uma vez e nunca mais vi, ainda bem.
Houve um tempo em que eu virava noites com café e guaraná torturado por hidrologia amazônica, motores assíncronos e a pilha eletrolítica.
Houve um tempo em que me virei pra falar com o colega de quarto e enxerguei uma samambaia, no mesmo dia saí de uma festa e o Titanic me forçou a parar o carro e dar passagem.
Houve um tempo em que eu não gostava de meu reflexo na janela do ônibus.
Houve um tempo em que eu participava da polêmica entre os fãs de Oasis e Blur, tomando o partido do Noel, achava-o o letrista da geração.
Houve um tempo em que eu atribuía falsamente frases a pensadores, nunca ninguém descobriu.
Houve um tempo em que eu sonhava viver misantropo como o Monstro do Pântano.
Houve um tempo em que eu maceteei a Defesa Alekhine, mas jamais cheguei a jogá-la, por covardia. 

Houve um tempo em que eu nadava 60 piscinas em todos os estilos e tomava cinco copos de abacate bem cremoso sem açúcar.

Houve um tempo em que eu jurei que não atenderia àquela pessoa, mas bem que eu queria que ela me ligasse de verdade.
Houve um tempo em que deixei de comer canapés em vernissages da esquerda ipanemense e descobri a obviedade que o comunismo não é pra dividir a pobreza, mas a riqueza.
Houve um tempo em que eu marchei qual prussiano sobre carros estacionados na avenida, imprecando diante de um céu plúmbeo de indiferença.
Houve um tempo em que eu e ela na cama se abria uma outra dimensão de claros e escuros onde nossos corpos eram mais do que nós mesmos.
Houve um tempo em que eu me revoltei contra os laboratórios de físico-química e durante 22 relatórios semanais consecutivos escrevi, no meio do ramerrão técnico, “a experiência valeu o boi”, e jamais fui pego.
Houve um tempo em que eu apreciava sorrisos suaves e ternos, quase súplices mas não frágeis, e achava ainda mais bela uma mulher bela e triste.
Houve um tempo que eu inquirido sobre a religião, respondia sagrando-me o anticristo.
Houve um tempo em que eu dançava como um jegue e escrevia como um jegue.
Houve um tempo em que eu preferia Isaac Asimov a Aldous Huxley, mas isso não durou muito.
Houve um tempo em que eu não gostava de sorvete de chocolate, mas comia sanduíche com mostarda e geléia de morango.
Houve um tempo em que eu via os dias repetirem-se sem nada acontecer, como uma caravela holandesa numa calmaria insistente do Pacífico Sul, e Camões ali no canto sonetando.
Houve um tempo em que eu surpreendi a pena dançando pela primeira vez e me vi escrevendo algo de minimamente real nesta vida, esse foi o dia mais radiante.
Houve um tempo em que eu inseria sarcasmo gratuito nas entrelinhas de conversas amenas, e alguns desconfiavam.
Houve um tempo em que senti a ternura de um corpo feminino banhado pela lua numa praia caiçara.
Houve um tempo em que eu me sentia o filho do vaudeville com o monólogo.
Houve um tempo em que eu saí de casa de mala e cuia, e fui ao encontro do destino.
Houve um tempo em que eu mantinha aranhas de estimação, peludas, antipáticas.
Houve um tempo em que eu exercitava três vezes por semana a minha aptidão inata de irritar as pessoas.
Houve um tempo em que aprendi a saborear as ressacas, quanto maior, maior o prazer.
Houve um tempo em que eu achava cool palavrear com putsch, ersatz, cul-de-sac, weltanshaung, tutti quanti e leitmotiv.
Houve um tempo em que eu auferia erudição na banca de jornal e em intermináveis tardes-noites-manhãs de VHS.
Houve um tempo em que eu dançava como um asno e escrevia como um derviche.
Houve um tempo em que eu não sabia mais se não tinha mesmo fé em alguma coisa.
Houve um tempo em que eu me entreguei todinho à sensualidade praiana e seu meio-dia de sal, sol e mar.

Houve um tempo em que tudo fez sentidos: não havia Sentido.

Houve um tempo em que eu chamava Henry Miller de meu irmão e Dostoievski de meu imperador.
Houve um tempo em que eu cruzava estradas sem fim atrás de miragens.
Houve um tempo em que eu dilacerei minha juba de leão por causa de um rabo de foguete.
Houve um tempo em que eu havia decorado 50 variantes e subvariantes do Gambito Evans e 80 aforismos de Wittgenstein, saltitava cabeça-a-cabeça com Shakespeare em inglês arcaico iâmbico pentameral, sabia calcular a derivada de arco-tangente de xis, já esboçava ler Joyce no original (!!), mas falhava nas coisas mais banais que tenho vergonha de agora contar.
Houve um tempo em que me convenci de que tudo é santo, tudo é santo, tudo é santo.
Houve um tempo em que eu assisti a Terra em Transe cinco vezes seguidas, saí para a boemia que nem um demônio, encarei um segurança de boate e convoquei um exército de mendigos para destruir o shopping.
Houve um tempo em que eu prometi jamais fazer um mestrado mingau, porque não queria mais enrolar ilustres mortos com infindáveis papiros acadêmicos, mumificando-os.
Houve um tempo em que eu deixei de ler a Folha de São Paulo.
Houve um tempo em que eu deitava as pessoas em minha cama de Procusto.
Houve um tempo em que eu sorvi da solidão num nível ontológico, quando percebi que os corpos, na verdade incontornável do rosto e da carne, poderiam se combinar como no jogo tetris.
Houve um tempo em que eu ganhei uma prova dos nove.
Houve um tempo em que eu tinha a certeza que as palavras glamourosas, românticas, sentimentais, foram inventadas para ocultar a realidade bruta do assalto sexual.
Houve um tempo em que eu queria ver o oco.
Houve um tempo em que eu troava de canções libertárias e meus olhos chamejavam do fogo do juízo, mas era incapaz de subjugar medos bobos.
Houve um tempo em que eu passei a ver as coisas do mesmo jeito que elas são, foram e sempre serão, só que passei a vê-las um pouquinho diferente, e esse pouquinho desde então vem fazendo toda a diferença.

Para ler o complemento deste post, glossário aqui.

Publicado em 22 de novembro de 2010. Comente

Na volta da noitada, tinha uma blitz na avenida da praia. O tal choque de ordem: megaevento com bandeiras e balões, multando no atacado. Era uma da madrugada e havíamos bebido litros de cerveja. Beto dirigia (sorte a minha).
Abordagem do guarda da companhia de trânsito: encosta, desliga o motor, documentos, por favor desce do veículo, tem que fazer o teste, é ali na tenda, sim bafômetro, aqui aqui, pode soprar, o quê?, não quer soprar? sem trauma, ok, multa na hora, 1.000 reais, apreensão da carteira (perdeu playboy). E só libera o veículo se chamar alguém pra assoprar e passar no teste.

Primeiro esquema. Um segundo guarda chama Beto pro canto: olha, tem como fazer acerto, cê sabe, pela consideração, dá pra desenrolar por 1.500. Beto não tem essa grana e não tem pra quem ligar a essa hora (então chorou).

Se eu posso soprar pra tirar o carro? mas tenho que mostrar a minha carteira? sim? então sem chance. Ah, dá pra fazer sem mostrar o documento? então oquei, sopro, vuuuu, zero-trinta no visor, você também não têm condições meu chapa.

Querem guinchar. Enrolamos por uma hora. Uma outra guarda chega na encolha, segundo esquema, pagar a um taxista “fortuito”, ele sopra, passa no teste, leva o carro pra vocês. Quanto? 200, isso só pra soltar o veículo, a infração fica. Senão é reboque no ato, porque já está atrapalhando o trânsito.

Beto e eu rachamos os 200. Aparece o taxista-do-esquema, faz o teste, zero-zero-zero, a máquina emite notinha de aprovação, o cara assume a direção, a gente no banco de trás, o carro passa pelo corredor de cones, ele acena pros guardas e… 50 metros depois pára no meio-fio, repassa a direção, já pode ir agora, sai do carro e volta pra área da blitz.
Beto assume a direção e parte, embriagado como antes, mas agora também sem documentos (sob o olhar desinteressado dos guardinhas, lá atrás).
Dia seguinte, ligo pra Beto. E a carteira? terceiro esquema, descolou um despachante mandraque, 2.000 (várias bocas pra açucarar), cancelou a infração, aliás zerou tudo, ficha limpa as multas anteriores também, a carteira recuperada no final do dia (menos de 24 horas depois da blitz).
Beto é um desses que não perde a oportunidade de falar mal do Brasil: o povinho não presta, só vota em benefício próprio, assim não dá, a corrupção domina as instituições, desisto, prevalece a cultura do jeitinho, político é tudo ladrão, é fogo, funcionário público só quer se dar bem, isto não pode ser país sério, voto no Geraldo e no Zé etc etc.
Perco o amigo mas não a crueldade: isso é pra você parar de sonhar em viver na Alemanha. Lá, a esta hora ainda estaria na cadeia, choramingando por ter sido demitido.

[Disclaimer: esta é uma história ficcional, qualquer semelhança com fatos reais é pura coincidência]

Publicado em 25 de agosto de 2010. Comente