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Publicado em 27 de junho de 2011. Comente

*** Os músicos de Bremen (Бременские музыканты, Inessa Kovalevskaya, URSS, 1969, desenho animado, 21 min.), cult psicodélico de animação soviética [dica de Vinicius Honesko, do baudelariano Flanagens]

Os músicos de Bremen

Um homem tinha um burro, que carregava enormes fardos de milho para o moinho. Mas estava ficando velho e inútil para o trabalho. Quando o seu mestre começou a pensar em vendê-lo, o burro, percebendo, escapou e tomou a estrada para Bremen.

— Lá com certeza poderei trabalhar como músico. — o burro imaginou.

Depois de caminhar uma distância, encontrou um cachorro deitado na estrada, arfando.

— Por que você está tão cansado? — perguntou o burro.

Estou velho e fraco — respondeu o cachorro — e não consigo mais caçar. O meu mestre queria me entregar ao homem da carrocinha, por isso tive de fugir. Mas e agora, como vou conseguir comida?

— Façamos o seguinte, — disse o burro — estou indo pra Bremen, lá serei músico, vem você comigo e vamos tocar os dois. Eu vou tocar flauta e você poderá batucar o tambor.

O cachorro aceitou a proposta, e eles partiram juntos.

Logo a seguir, encontraram um gato sentado no caminho. Estava com a face encharcada de lágrimas!

— Ei, bichano, o que aconteceu com você? — perguntou o burro.

— Como eu poderia estar alegre, quando o meu pescoço está em perigo? — respondeu o gato. —- Porque fiquei velho, meus dentes não servem mais, não dá pra caçar ratos. E por isso a minha dona queria me afogar, aí eu fugi. Agora não tem mais o que fazer: aonde eu poderia ir?

— Ora, vem com a gente para Bremen. Você que costuma miar à noite, debaixo do luar, bem poderia trabalhar como músico.

O gato pensou um pouco, e foi com eles. Depois disso, os três fugitivos chegaram a uma fazenda, onde havia um galo trepado sobre a porteira. Ele cantava de modo muito triste.

— Que cantoria mais triste, — disse o burro — qual é o problema?

— Ah, você veja que algumas visitas estão vindo à fazenda no domingo, e a dona da casa mandou o cozinheiro me fazer de jantar, sem pena nenhuma, então hoje à noite cortam a minha cabeça. Só me resta chorar.

— Ah, galinho, você deveria era vir com a gente. Vamos pra Bremen, vejo que você tem uma boa voz, poderia ser o cantor de nossa banda.

O galo concordou e os quatro foram embora juntos. Como não conseguiam chegar a Bremen em um único dia, à noitinha resolveram dormir numa floresta próxima. O burro e o cachorro se deitaram sob uma grande árvore. O gato e o galo se instalaram sobre os galhos. O galo voou direto ao galho mais alto, onde estava mais seguro. Lá de cima, pôde ver tudo ao redor. E aí ele enxergou uma luz crepitando, bem longe. Chamou os outros e eles concordaram que deveria haver uma casa por lá. E decidiram ver se lá poderia haver um abrigo melhor pra passar a noite.

Seguindo a luz, chegaram até uma casa no meio da floresta. O burro, como era o maior, foi até a janela e espiou.

— O que você vê, meu cavalinho? — sussurrou o galo.

— Vejo uma sala quentinha, com uma mesa cheia de coisas gostosas de comer e beber, e ladrões comendo e se divertindo.

— Isso é o tipo de coisa que mais precisamos, hein? — disse o galo.

— Sim, como eu queria estar no lugar deles! — falou baixinho o burro.

Então os quatro companheiros fizeram um plano para afugentar o bando e ficar com o butim. O plano era o seguinte: o burro iria ficar parado abaixo da linha da janela, o cachorro pularia no seu lombo, o gato subiria no cachorro e, finalmente, o galo pularia sobre a cabeça do gato, e uma vez feito isso, eles começariam a tocar juntos: o burro zurrando, o cachorro latindo, o gato miando e o galo cantando. E deu certo. E isso foi tão bizarro que assustou muito os ladrões, que dispararam para a floresta. Os quatro puderam então se sentar à mesa, e se deliciar com o festim.

Depois de empanturrados, desligaram a luz, e cada um buscou para si um lugar para dormir. O burro se deitou sobre um monte de feno no jardim, o cachorro atrás da porta, o gato em cima do fogão, e o galo se pendurou numa viga do telhado. Todos muito cansados da viagem, logo dormiram.

Quando passou da meia-noite, os ladrões perceberam que a luz não estava mais acesa, e parecia quieto. Aí o chefe do bando disse: — Não deveríamos ser tão covardes! — e enviou um deles na frente para ver o que se passava.

O enviado encontrou tudo calmo, e entrou devagarzinho na cozinha para acender alguma luz. Contudo, confundindo os olhos do gato por pedaços de carvão, aproximou do bichano um fósforo aceso. O gato não gostou da brincadeira, saltou sobre ele, arranhando feio o rosto do homem, que entrou em pânico e correu para a porta. Mas o cachorro, que ali repousava, mordeu a sua perna. O homem, mordido e arranhado, foi tropeçando até o jardim, quando deu de cara com o burro, que lhe deu um belo coice. E o galo, por último, ao acordar com o barulho, cantou com toda a voz: — có-có-ri-có! có-có-ri-có!! có-có-ri-có!!!

Aí o ladrão desabalou numa correria, até chegar a seu chefe, e disse: — Lá na casa agora tem uma bruxa horrível, que me arranhou com suas longas unhas; e na porta tem um homem com uma faca, que me cortou a perna; e no jardim tem um monstro preto, que me bateu com uma clava de madeira; e no telhado, em cima, senta um juiz, que exigia: — Tragam esse bandido diante de mim! — então eu tive de fugir de qualquer jeito!

Os ladrões não se animaram mais a voltar à velha casa, mas ela servia muito bem aos quatro músicos de Bremen, de maneira que de lá não saíram mais e foram felizes. E de vez em quando eles são chamados nas redondezas, para tocar a sua música estranha.

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Tradução (muito) livre, pelo Quadrado, da fábula Os músicos de Bremen, dos Irmãos Grimm (versão vertida do inglês de aqui)

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*** Os saltimbancos trapalhões (J.B. Tanko, Brasil, 1981, cor, 95 min.), um dos momentos altos do cinema (des-)brasileiro, com Renato Aragão, Mussum, Zacarias, Dedé Santana e Lucinha Lins, uma adaptação rocambolesca da peça Os saltimbancos, de Sérgio Bardotti, Chico Buarque e Luís Bacalov, por sua vez inspirada no conto dos Irmãos Grimm.

Publicado em 25 de junho de 2010. Comente

À noite, a mata nada tem de silenciosa. Quem mora no campo ou já acampou sabe. Uma barulheira só, de animais noturnos, principalmente insetos. Quando acaba, de manhã, chega a vez de assovios, piados, cantorias, a vez dos pássaros. Os bichos noctívagos dormem enquanto os diurnos estão ativos e vice-versa. E tem que ser assim, senão a refeição do pássaro seria fácil, atraído pela gritaria do inseto.
Mas tem um momento muito particular em que os animais da noite adormecem, mas os da manhã ainda não acordaram. Dura cerca de um minuto, um pouquinho antes do nascer do Sol. Isso se explica pelo feed-back da luz. O lusco-fusco desse momento é claro o suficiente para pôr a bicharada da noite pra dormir, porém insuficiente para acordar os passarinhos matutinos.
Então, nesse interlúdio, a confusão noturna cessa de repente. De um golpe só, se instaura um silêncio total. Um momento estranho e assustador, no esbranquiçado tênue que precede a aparição do Sol. Dizem que essa hora é semelhante à hora da morte. Um tempo de suspensão, um tempo morto.
É a hora azul.
Disse tudo isso porque, ontem, tive uma experiência de hora azul. Acordei na madrugada por causa de pesadelos. Em viagem pelo interior de Minas, tinha jantado torresmo e pão com lingüíça. Invocado por não pegar de novo no sono, pus agasalho e tênis, e resolvi dar uma caminhada nas redondezas do hotel.
Caminhei quinze minutos por ruas desertas da madrugada, até ser sobressaltado por aquela sensação de estar sendo observado. Me virei e vi um cavalo, um cavalo branco num matagal do lado da estradinha. Sei lá por qual curiosidade esquisita, passei entre os arames farpados e me aproximei. Parei ao lado do animal, um cavalo velho e senil. Fitou-me com olhos esbugalhados. Assustado.
Exatamente no instante em que olhei nos seus olhos, ocorreu a hora azul.
Até então sequer tinha reparado na barulheira ao redor. Os sons eram como um pano de fundo inquestionado, que se fundia à percepção da noite. Mas quando o barulho se interrompeu de uma vez só, percebi o quão terrível podia ser o silêncio abrupto e solitário.
Tomado por uma descarga intensa de angústia, queria de qualquer jeito que o minuto passasse, que os pássaros surgissem, que o Sol novamente aparecesse para comprovar a existência do tempo. Percebi, naquele minuto interminável, que a hora azul não é simplesmente objetiva, mas também a sua hora azul, a hora azul de cada um. Nela, põe-se a sua espera no exterior de si mesmo. Na vertigem, a consciência parecia sugada por um abismo, como num salto no escuro. Tinha a sensação de que meu coração estancara e que eram as coisas, ao redor, que respiravam. Se de fato houvesse uma alma, ela teria abandonado o meu corpo, que continuaria a perambular desanimado.
Fui salvo pelo cavalo senil. Olhando nos seus olhos, via através dele: o cavalo era naquele instante eu mesmo. E aí, como quem se debate pra sair de um pesadelo, pude encontrar-me novamente. Consegui, aos pouquinhos, restaurar o foco, reconstruir a realidade, e recompor a fratura entre o eterno e o temporal, o finito e o infinito. O animal reinventou o meu mundo e recolocou-me os pés na terra. A hora azul chegara ao fim.
Não fiquei para celebrar o nascer-do-Sol. Voltei apavorado para o hotel e não voltei a dormir.
Publicado em 29 de maio de 2010. Comente

continuação dos episódios I, II e III. (clique para ler)

Fomos para uma sala de estudos, conectada ao saguão principal do antigo edifício. Livros empilhavam-se pelas mesas e cortinas  pesadas e beges cobriam as janelas, que davam para o matagal que um dia fora o jardim da biblioteca. Zazá havia chegado antes. Com sua namorada e mais um ajudante, montara uma mesa apropriada para a sessão, com castiçal, vela e toalha branca. Aliás, todos vestíamos roupas claras, e eu havia sido orientado previamente para não trajar tons mais frios.
Confesso que o ambiente intoxicava. O cheiro de mofo das cortinas, o pó onipresente, a imagem dos livros antigos de capa dura, tudo isso confabulava silenciosamente para a atmosfera lúgubre. Passava das dez horas e o campus já estava vazio, de maneira que não havia mais funcionários. O subreitor havia deixado a chave com Zakowics, que, como noutras ocasiões, responsabilizava-se.
É curioso como, antes da sessão propriamente dita, os presentes calavam sobre o Boa Noite. Falava-se de tudo, menos do protagonista. Estranhei a demora em começar os tão esperados trabalhos, mas o veterano da física me explicou que deveríamos aguardar a uma hora da madrugada. Avaliavam que tinham mais chances de chamar o Boa Noite no horário em que ele geralmente aparecia. Falou-me que, freqüentemente, invocavam espíritos errados e mesmo entidades zombeteiras, que atrapalhavam os serviços. Não é por acaso, disse-me, que a namorada de Zazá, a médium, primeiro fazia contato com um espírito conhecido do grupo, o tal Júlio Borges, e a partir dele contactava os demais. Esse constituía o procedimento padrão de centros mais experientes e estudados, na medida em que a ponte entre o lado de cá e o de lá freqüentemente não é confiável e pode, em casos extremos, acabar sendo insegura e perigosa. Há segredos na passagem entre os planos que mesmo os maiores grandes mestres do espiritismo não chegam a consenso, logo se recomendam cautela e prudência.
Com efeito, nessas conversas preliminares da sessão, cheguei à conclusão, que de qualquer forma eu já imaginava, de que existem diversas vertentes do espiritismo. Como nas milhares de seitas protestantes. Como no catolicismo — embora nessa religião haja uma instituição milenar, rigorosamente hierárquica e disciplinada, para manter os dogmas e liturgias coesos. É curioso como as religiões tendem a fragmentar-se, num movimento centrífugo que sempre e sempre culmina em facções, lutas intestinas, perseguições e, afinal, depurações violentas. Quanto mais o homem empreende esforços para se unir sob o estandarte da verdade última, mais se multiplicam as bandeiras e, com elas, os exércitos de fanáticos.
Enquanto não chegava a hora, comemos sanduíches e bolachas. e nos agrupamos em rodinhas. Éramos vinte. Abrimos três garrafões de quatro litros de um vinho barato, “Sangue de Boi“, que era a única bebida alcóolica “autorizada” para a ocasião. Peguei uma e  servi os colegas com a jarra por cima do ombro, como fazíamos naqueles tempos de estudante. O papo animou-se e, por um tempo, abstraí do clima de filme de terror, da mesma forma que nos acalmamos quando começa o serviço de bordo num vôo agitado. Resolvi tomar vários copos para ficar bem tranqüilinho. Contrariava assim preceitos da observação científica, mas é preciso entender que, com 20 anos, o ímpeto faz com que pulemos precauções essenciais.
Lá fora, começou a relampejar e chover.
No colóquio pré-sessão, me contaram que, graças à profunda erudição de Zazá, o centro espírita tinha adotado uma linha teosófica. Fiquei sabendo que a teosofia remontaria ao século XIX na Rússia, e implicava uma doutrina de igualdade e solidariedade universal, voltada para a busca da perfeição do ser humano. Essa perfeição estaria na pureza e transcendência do espírito, encapsulado, ou melhor, aprisionado no corpo, como uma ostra em sua concha. Libertar o espírito imortal das amarras corporais significava ascender ao plano das essências perfeitas, na subida da montanha do conhecimento. Nada mais próximo da doutrina de Agostinho, refleti.
Zazá passava a maior parte do tempo cochichando com a sua namorada-médium. Falava-lhe ao pé do ouvido, com gravidade. A menina de proporções generosas vestia jeans e camiseta branca, que lhe marcavam especialmente os contornos, então não pude deixar de reparar em sua sensualidade naquela noite. Outro colega, em tom professoral, explicou-me que a mediunidade demanda intensa preparação, seja exercitando a concentração, seja o autodomínio. Pois o envolvimento com o além pode ser extenuante, a ponto de causar desmaios e ataques.
Já amaciado pelo vinho, deixei vazar sem prudência algumas de minhas descrenças, no meio das conversas. Tinha dificuldades em dar crédito ao ocultismo, quando os próprios círculos ocultistas fazem de tudo para gerar uma aura de mistério e enigma ao redor de si. É o contrário daqueles que se propõe a investigar a verdade com clareza e transparência, expliquei-me. Os ocultistas mais famosos cultivaram sociedades maçônicas, cuja principal propaganda é seu hermetismo teórico e prático. E quando aparecem em público, o ocultismo vem na forma de personalidades altamente duvidosas e oportunistas, que o consenso científico tem por charlatões talentosos, como Uri Geller ou mesmo o nosso Zé Bonitinho do espiritismo, o Chico Xavier. Devo ter acionado algum sinal de alerta, visto que Zazá, que nesse momento estava do outro lado da sala, virou-se surpreso. Como me escutara de tão longe eu não sei. Logo ele se juntou ao grupinho em que eu estava.
O líder de facto do centro foi logo metendo o pau no Uri Geller. Aproveitador, mentiroso, midiático, desvirtuador da paranormalidade e, por último, tachou-o de “merda ambulante que só quer aparecer”, anátema costumeiro a quem ele considerava impostor. Esclareceu que, assim que eu participasse de mais sessões, iria conhecer um panteão de médiuns, paranormais e estudiosos “dignos” e “comprovados”, que descartavam exibições públicas e fanfarronices, porque a sua arte oculta falava por si própria. Uma pena que não estávamos na Polônia ou na Ucrânia, pois no Brasil no mais das vezes os médiuns e estudiosos são farsantes descarados. Pedi, como resposta, e talvez sem o tato devido, um exemplo de personalidade do metiê que ele admirava, além da Petrovna e da Stanislawa, que eu já ouvira ele falar no grupo de estudos.
Então ele ficou muito sério, pôs as mãos na cabeça e, ante o silêncio imediatamente decorrente, murmurou: Grigo…ri Efimo…vich… sim, Rasputin! seus olhos brilharam.
Controlei-me para não esboçar nenhum sorriso. O místico dos Romanov? por quê? Zazá focou o infinito, como um crente falando de seu santo preferido, e recontou com riqueza de detalhes uma boa parte dos bastidores da Rússia czarista. Uma narrativa apaixonada. Narrou como os Romanov eram somente marionetes nas mãos de uma sociedade secreta praticante da teosofia, que ele todavia não podia nomear. Como a monarquia russa, em verdade, representava os interesses desse grupo de sábios e visionários. Elencou nomes, contou anedotas, relatou episódios históricos, sempre sob o ponto de vista dessa teoria que, pra mim, cético até segunda ordem, sôou conspiratória demais. E continuou a preleção, em tom seguro, até a Revolução Bolchevique, que pra ele significou o lamentável triunfo do obscurantismo, da ignorância e das falácias da utopia e da salvação. E nenhuma ideologia era mais abominável para Zazá do que o comunismo: “religião vulgar de burocratas e sobretudo professores, todos ultimamente medíocres”. Inclusive, membros da mencionada sociedade secreta ofereceram ajuda, um grande erro aliás, a Hitler, justamente pra combater o utopismo soviético. Isso explica claramente o largo envolvimento do nazi-fascismo com o ocultismo, quando se organizaram expedições ao Tibete e ao Reino do Preste João. Mas isso é outra história.
Eu não queria contestar nada naquela hora, apesar do rompante de vontade. Por mais que ali estivesse para a sessão, nada impedia de voltarem atrás e não permitirem a minha participação. E eu estava maluco pra testemunhar o que eles iriam fazer do caso “Boa Noite”. Nunca tinha chegado tão perto de um acontecimento supostamente sobrenatural e não ia por tudo a perder por ninharias. Todas as outras vezes recolhia testemunhos de terceiros e faltavam-me recursos para verificar ou refutar os argumentos. Sempre me refugiara, quiçá por comodidade, no célebre argumento de David Hume: um único evento curioso e antinatural não pode ser capaz de refutar, sozinho, a enorme massa de eventos verificados que se sedimentaram como a nossa realidade ordinária. Em outras palavras, uma ocorrência paranormal não pode ter o condão de contradizer mil ocorrências normais, na mesma circunstância. Ainda mais quando não vemos com os próprios olhos, ou quando essa ocorrência não passa por uma conferência criteriosa, por grupos independentes de pesquisadores, chegando aos mesmos resultados. Muito pelo contrário, no mundo real, tais “milagres” ou fatos paranormais restam irrepetíveis, irreprodutíveis, de toda forma realizados em circunstâncias não controladas e sujeitas a deformações, sugestões mentais, ilusões, erros e sobretudo má fé. Pensei tudo isso, decidi  não criar um cavalo-de-batalha com Zazá, o guia. Por outro lado, como o vinho realmente fazia efeito, resolvi simplesmente ser sacana.
Introduzi na roda a história do pênis de Rasputin.
Como se sabe, o conselheiro místico dos Romanov foi assassinado brutalmente por palacianos. Esse crime deu-se em vários atos. Primeiro, uma garota de programa esfaqueou-o com tamanha violência que as tripas pularam da barriga. “Eu matei o anticristo”, gritava a prima. Mas o Monge Louco não morreu e, naquela mesma noite, recuperou-se do ferimento aparentemente mortal. Então , antes dele sair do hospital, envenenaram-no, com uma dose capaz de derrubar um touro. Porém o veneno simplesmente não fez efeito no corpo de Rasputin. Deram-lhe então um tiro na nuca e ele silenciou. Mas na hora de carregar o corpo, ele acordou e mordeu um dos assassinos, chamando-o de “menino mau”. Aí, horrorizados, espancaram-no violentamente, dispararam a pistola mais três vezes à queima-roupa e, não satisfeitos, fora de si, cortaram o seu pênis fora (e já retornarei a essa peça inusitada). Aí, por vias das dúvidas que o sujeito era mesmo porreta, o amarraram, embrulharam-no num tapete e lançaram-no Rio Neva, que estava congelado. Na manhã seguinte, o corpo foi achado na beira do rio, completamente livre das cordas e do tapete! a autópsia demonstrou que ele morrera por afogamento. E só se afogou porque não conseguiu romper a camada de gelo, já que estava livre e consciente.
O fim de Rasputin, mas seu pênis ainda teria um futuro próprio descolado do corpo. Porque os algozes confirmaram que realmente era um membro de dimensões formidáveis, como já corria o boato por toda a capital. Como se sabe, além de ocultista, Rasputín era um garanhão, um Dom Juan do Mal, e usava de sua persuasão por assim dizer sobrenatural para seduzir não só as beldades da corte, mas também ninfetas da cidade. Damas e princesas, mas também amantes homens, porque ele era panssexual, provaram de suas qualidades desproporcionais. Um fenômeno narrado em dezenas de diários de boudoir, como a história comprova. Depois da castração, atribuíram ao pênis, de inacreditáveis 30 centímetros, poderes paranormais: era capaz de curar a impotência e fechava o corpo de seu portador aos inimigos. Dizem, inclusive, que Stálin mandou guardar o membro conservado em seu acervo particular. Parece, a queda da União Soviética coincide com o sumiço da peça durante o governo de Gorbatchóv, na década de 80.
É evidente que a minha história, regada a vinho barato, divertira os companheiros do centro espírita. A menina da biologia deu um risinho e falou bem baixo: “que caralho mágico hein”. Mas não agradou, em definitivo, a Zakowics, cujo olhar parecia um punhal dirigido a mim. Petrificado, ele não acreditara no que eu falara com tanta sem-vergonhice. Justo naquele dia. Me preparei para o pior: a expulsão sumária. Sempre tive dificuldades em ficar quieto em momentos-chave, mas de qualquer modo,  depois jamais me arrependo das estripulias. Se não for pra fazer isso, ponderei, eu nem vinha. Porém, por intervenção da sorte, a namorada dele anunciou que virava uma hora da madrugada. Ou seja, era hora de começar a sessão. A euforia da maioria rapidamente os fez esquecer Rasputin e concentrarem-se na principal atração. Era hora de convocar o Boa Noite.
Enquanto todos arrumavam a bagunça do lanche e tomavam os seus lugares, Zazá continuou sentado ali, como uma serpente ameaçadora, encarando-me. Já autoconfiante graças não só ao vinho, mas a meu firme ceticismo, não desviei o olhar, aceitando o desafio. Foi quando Zazá relaxou a expressão, ofereceu-me um sorriso de canto de boca, quase imperceptível, levantou-se e, ao passar a meu lado, sussurrou ao ouvido:
— Jamais perdoarei a sua atitude.
Acenderam a vela, apagaram as luzes e a tempestade acirrou, golpeando as janelas. Era hora do show, eu pensei, completamente imune, àquela altura, ao ambiente assustador. E como eu estava enganado, leitor…

continua…

Publicado em 26 de maio de 2010. Comente

O cavaleiro viajou durante muitas semanas até chegar à famosa cidadela. Nela, o alquimista gnóstico vivia na mais alta torre. Lá morava como um eremita, sem contato com o mundo terreno. Diariamente, fazia descer de corda uma cesta com peças de ouro, que os cidadãos trocavam por víveres e ingredientes. Mas nesse dia, o cavaleiro saltou na última hora e se agarrou na corda que subia. Ao atingir o topo, sacou da espada e exigiu que o cientista lhe contasse os seus maiores segredos. O alquimista levou o cavaleiro ao laboratório. Ordenou que defecasse num frasco de vidro e, com sua arte, transformou as fezes em ouro.
— Você é excremento. Você é ouro. Tudo está em tudo. A matéria é Deus.
Mas o aventureiro não se deu por satisfeito. Demandou que o erudito lhe desse a sabedoria absoluta para ele se tornar o novo messias. O gnóstico contou que detinha a fórmula de preparo para a poção da sabedoria absoluta. Mas para isso, o cavaleiro deveria trazer o mais raro dos ingredientes: a flor de lótus púrpura. E ela só cresce no cume da Montanha dos Filósofos. Perguntado onde fica, o sábio explicou que a montanha só pode ser encontrada por quem não a procura e, de qualquer forma, para achá-la, ele deveria cumprir uma jornada de seis desafios.
Tomando emprestado o balão do alquimista, o cavaleiro partiu e engajou-se em sua busca durante meses. No princípio, achava que enfrentaria tempestades, labirintos, armadilhas e feras. Porém logo descobriu que, mais do que desafios físicos, cada episódio era parte de uma cuidadosa preparação espiritual. Dividia-se em seis etapas: a confusão, o medo, a miséria, o silêncio, a vontade de nada e a auto-anulação. Seis fases que o cavaleiro superou com engenhosidade e firmeza de propósitos.
No final da sexta, adentrou naturalmente em um estado de meditação profunda, e assim o caminho para o zênite da Montanha revelou-se como por encanto. Na subida, o cavaleiro foi tentado por um jardim de delícias, em que poetas, atores, escritores e filósofos haviam sucumbido. Mas ele perseverou. Um pouco antes do objetivo, foi ainda confrontado com uma dificílima prova, cujo fracasso significaria a morte certa, mas o cavaleiro novamente venceu. Triunfante no alto da Montanha dos Filósofos, colheu a lótus púrpura.
O alquimista preparou a poção e o cavaleiro bebeu sem deixar uma gota. Um vento tórrido engolfou-lhe das entranhas e a escuridão mais escura tomou os seus olhos. Agasalhou no peito os reinos sem fim do conhecimento e, mais além desses monumentos da verdade, golpeou-lhe de uma só vez o absurdo original e seus enigmas mais abissais.

O alquimista alertou:
— Muita parcimônia. Você agora entende não entendendo, toda a ciência transcendendo.
Mas o cavaleiro estava obstinado em seu desígnio de levar aos povos a Boa Nova. Desceu à superfície, declarou-se profeta e conclamou a todos para o anúncio da Verdade. Uma multidão já se reunia desconfiada a seu redor, quando o cavaleiro se deu conta da revelação mais terrível de todas. O conhecimento último era incomunicável.
O cavaleiro foi preso, torturado e executado.
Publicado em 23 de maio de 2010. Comente

Acordei invocado porque me lembrara do pesadelo.
Tinha morrido e reaparecido num limbo azulado imerso em nuvens espessas. Pensei: então existe um pós-morte? Pequepê… Mas de repente a neblina se dispersou em uma região e, ali, surgiu a cara de um velhinho de barba. Gigante e severo:
— Shhhhhhhhh… sabe quem eu sou? — disse com voz retumbante e ameaçadora.
— O Deus do Velho Testamento, eu presumo. — respondi, sincero.
— SIM. E por que não acreditaste em mim?
Abri os braços:
— Ausência de evidências, Senhor, ausência de evidências…
E foi então que fiquei sabendo, diretamente da Boca Divina que, na verdade, a mudez metafísica do universo infinito nada mais é do que um teste. Um plano divino elaborado para os seres humanos, para separar o joio do trigo, para Deus poder selecionar os seus.
É tudo um estrategema para analisar o quão crédulo e estúpido pode ser o homem. Desta forma, os supersticiosos, os espíritas, os crentes, os beatos e demais almas carneiras terminam a passagem da vida reprovados, pois optaram pelo caminho diabólico do consolo, da esperança, da preguiça mental e da submissão. Já os infiéis, apóstatas, hereges, ateus —, mesmo alguns ateus que se proclamam agnósticos por falta de personalidade — esses cumpriram a vocação humana da dúvida e assim ascenderam ao estado de graça, realizando o projeto ultraterreno.
E Deus mesmo, Ele me contou, não deseja que os ímpios inaugurem uma Igreja em seu nome. Pelo contrário, tem horror a isso. Explicou-me que os espíritos livres, em geral, tendem a não obedecer a sistemas de autoridade moral, e pensam por si mesmos sobre os mistérios e desafios do universo.

— Como Eu queria que fosse! imaginar um rebanho de ateus é tão absurdo quanto tentar formar um rebanho de gatos — animais independentes e de personalidade, que não costumam ir pra onde os mandam.

E então as portas do Céu se abriram e eu entrei, franqueado por São Pedro.
Publicado em 20 de maio de 2010. Comente

Durante a ocupação na China, o capitão japonês foi comissionado com o comando sobre a província mais longínqua do território conquistado. Oficial de carreira desde muito jovem, descendia de uma longa linhagem de samurais que remonta ao Japão medieval.
Conhecido pela brutalidade, o capitão resolveu fazer valer o interdito sobre os cultos locais. Em pouco tempo, conseguiu suprimir a atividade religiosa em toda a província, com exceção de um único templo problemático. Situado na montanha mais afastada da região, seus monges pacifistas não se intimidaram com as ameaças, as prisões e as torturas do Exército Imperial.
Encolerizado, e decidido a ver a proibição obedecida, o capitão mandou avisar que, se não interrompessem os serviços, iria comparecer pessoalmente no culto mensal e cortaria uma cabeça escolhida por capricho entre os presentes. Como os monges se obstinaram, cumpriu a promessa logo no culto seguinte.
Naquele dia, a sua chegada de jipe impressionou a multidão, pois se vestia como um samurai. Dispensou a escolta e, sozinho, irrompeu em plena cerimônia. Marcial e impassível, observou a massa meditativa e ajoelhada que o ignorava solenemente. Caminhou até o centro, desembainhou, ergueu a espada, pausou e, num golpe invisível, decepou a cabeça de um fiel selecionado ao acaso. Ninguém reagiu, de modo que o capitão voltou calmamente para o carro estacionado em frente. Retornou ao quartel sem dizer uma palavra.
Essa cena repetiu-se religiosamente mês após mês, ano após ano. Deram apelidos ao capitão e a sua reputação espalhou-se tão vigorosa quanto a daquele templo distante. Porque os fiéis não abandonaram o culto. Ao invés disso, os monges resolveram incorporar a participação do samurai nos rituais previstos. A chegada dele era prenunciada com mantras e a decapitação homenageada como parte de um processo qualificado de reencarnação. Alguns crentes passaram a pintar os pescoços com marcas direcionando o talhe. Naquela comunidade erma, o capitão findou por ser considerado um redentor divino, embora achasse que a reverência crescente do populacho se devesse a sua condição nobre e militar.
Um dia, a invasão chegou ao fim e o capitão decapitador foi obrigado a regressar a sua terra natal. Em vão, os religiosos aguardaram-no naquele mês. Nenhuma cabeça mais seria cortada. Decepcionados, os fiéis um após o outro abandonaram o culto, que tampouco empolgou a nova geração.

O templo finalmente teve de ser fechado.

Publicado em 18 de maio de 2010. Comente

continuação da Parte 1 e Parte 2.
É evidente que não iriam me deixar ingressar no discreto círculo de espiritismo, sem antes cumprir algum dever de casa, sem que se convencessem de meu interesse genuíno. Em questão de um dia, fiz uma leitura dinâmica do “O Livro dos Espíritos“, o primeiro da série de cinco que compõem o cânone de Allan Kardec. Embora seja um leitor faminto, não tinha conseguido ler tudo, mas ao menos já percebera as linhas gerais da doutrina: existe um Deus acima do bem e do mal; existem dois mundos, o material e o espiritual; é possível comunicar-se entre um mundo e o outro; cada ser humano tem um espírito imortal; esse espírito reencarna; é possível que o espírito se descole do ser humano vivo em certas condições (durante o sono, em experiências de quase-morte); da mesma forma é possível um espírito interferir no mundo material; alguns espíritos arvoram-se de “missões” no mundo real — e o volume inclui ainda um ensaio (curioso) sobre a metempsicose, ou seja, a transmigração de almas, e muitos capítulos sobre moral, alegrias e tristezas. Escrito com ares de ciência e racionalismo, bem no clima positivista de sua época, o livro inicialmente me pareceu pretensioso demais. Comparei com meus estudos da bíblia católica que, muito embora tenha sido abundante e sistematicamente falsificada pela igreja, numa mescla de fábulas e preceitos convenientes, pelo menos diz-se que foi escrita por dezenas de indivíduos que se achavam iluminados pelo divino. Este primeiro livro de organização do espiritismo, por outro lado, fora escrito de ponta a ponta, tentando falar de tudo, por um único ser iluminado.
Nesse primeiro contato, eu não cessava de me perguntar o porquê de os espíritas, quando vivos, ocuparem-se tanto com os mortos e, uma vez mortos, preocuparem-se tanto com os vivos. Será que, assente a existência do além, do mundo espiritual, não seria mais sábio, quando vivos deixar os mortos em paz, e quando mortos, os vivos? me parecia lógico, porém reprimi essa curiosidade incipiente porque, o leitor há-de concordar, se eu começasse com questionamentos assim, certamente não me deixariam assistir ao show.
Pus o “Livro dos Espíritos” debaixo do braço, mas também “O Evangelho segundo o Espiritismo” (que sequer abrira), e fui falar com o líder de fato dos espíritas da faculdade.
Chamavam-no Zazá e era um cara sinistro. Seu nome na verdade era Zoltan Zakowics e a família descendia do Leste Europeu. Só podia. Olhar escavado, sério a pesar em qualquer ambiente, Zazá era um branquelo, longilíneo e demasiado magro. Não tinha postura. Seu olhar irradiava um mistério mórbido, que me lembrava filmes em preto-e-branco de Dreyer. Que ele tinha poderes, eu já sabia independente de qualquer mambojambo esotérico. Lembro-me uma vez, numa boate, sabe-se-lá o porquê, quando um marmanjo mais forte encasquetou com o Zazá. Todos acharam que ele iria amarelar ou então apanhar. Mas Zazá, sem hesitar, dirigiu-se ao provocador, pôs as duas mãos para trás, aproximou-se até quase encostar nele e, com olhar magnético, disse: “Me bate”. E então repetiu suavemente, sem desafio: “Me bate… me bate…. me bate.” O outro em princípio ficou confuso, olhou para os cupinchas e riu, mas logo se percebeu nele um tremor nervoso, e então, subitamente, como uma criança desamparada, passou a choramingar. Saiu chorando do lugar, acalentado pelos amigos. O Zazá, impassível, sem nunca se gabar ou sequer comentar o episódio, retornou ao lugar em que estava como se nada tivesse acontecido. Uma demonstração que, a mim, impressionou bastante.
Assim que puxei assunto com Zazá, no bandejão (ele também era remediado), me cravou os olhos de vampiro. Gelei, mas usei de todas as minhas artimanhas por assim dizer jesuíticas para não transparecer. O líder espírita mudou de assunto, comeu pelas beiradas. Só à noitinha, quando nos encontramos no happy hour, resolveu sabatinar-me. O que era natural. Achei que o fez de modo afável, não inquisitorial, bem diferente do que vivenciara com o padre Jeremias, anos antes. Fui o mais sincero que pude, sem comprometer os meus desejos. Disse que não era desse tipo de cético dogmático, que toda forma de manifestação paranormal me causava enorme curiosidade, que estava preparado para acreditar se pudesse ver com os próprios olhos e tirar as próprias conclusões. Acrescentei ainda marotamente que o espiritismo poderia ter um embasamento consistente, do ponto de vista científico. Arrematei com comentários específicos sobre o primeiro livro de Kardec (que bem ou mal fizera primeira leitura) e genéricos, quiçá vagos, sobre os demais. Zazá podia estar armado de forças paranormais, mas eu não era nenhum bobo. Acho que no final ele concluiu que eu era um cético prospectivo e, apesar de não confiar em meus cândidos interesses sobre o espiritismo, disse-me que todo o episódio do Boa Noite pelo menos servia para divulgar a doutrina cardecista.
Me convidou, como conseqüência, a participar do grupo de estudos, que se reunia às quartas no cineclube. Dependendo do que acontecesse ali, Zazá assegurou que, talvez, quem sabe, poderia incluir-me na sessão de trato com o Boa Noite, que por sinal eles estavam preparando já há dias, mas que vinha sendo adiada, visto que ainda colhiam dados importantes sobre o caso. Deu-me a impressão de serem sérios à vera, de conduzirem uma espécie de pesquisa científica antes de qualquer passo, a fim de não cometerem erros e não serem iludidos. E afinal me alertou que, se eu me fazia de idiot savant, deveria parar por ali mesmo, por causa da tal corrente — essencial na canalização das energias espirituais. Se eu quebrasse a corrente, poderia frustrar todos os esforços do grupo ou, pior, poderia ser perigoso, poderia dar M (mirou-me com enigmática veemência). Achei tudo isso bastante excitante, embora em momento algum me deixei levar por ameaças sutis. Só faltava ele dizer que, uuuuuuuu, poderiam levar a minha alma. De toda sorte, eu queria era presenciar. O que viesse, firmeza.
No dia do grupo de estudos, eu já tinha lido mais alguns textos, sempre do Kardec. O seu segundo livro achei engenhoso, fornecendo múltiplos argumentos pra defender o espiritismo e protegê-lo da charlatanice, do politeísmo e outras deturpações. Um texto argumentativo que me lembrou o trabalho de Carl Sagan pros agnósticos, ou de Richard Dawkins pros ateus. Senti novamente o esforço em tornar científico o sistema de idéias, mas não vi um engajamento filosófico no nível de um Tomás de Aquino (o leitor conhece as cinco provas tomistas da existência de Deus?). Depois o livro fica realmente mirabolante, quando Allan discorre sobre telecinese, casas mal-assombradas (que o são o dia inteiro e não só à noite) e que os animais também podem ser instrumentos, ou seja, médiuns. O cara também fala em psicografia. É você escrever doidão a primeira coisa que vier à mente, numa espécie de transe. Isso eu já sabia ser possível. O escritor beatnik Jack Kerouac, por exemplo, se entupia de benzadrina e virava noites, loquíssimo, datilografando um papel infinito (ele colava as folhas umas nas outras). Mas o Kardec disse que o transe pode ser um modo de comunicação com o mundo espiritual, o que, pra mim, era fascinante.
Me esforcei para ser simpático, sem exagerar, e interagir com a galera. Atmosfera bastante jovial, até brincalhona, bem diferente do que eu vira no catecismo, onde a hierarquia era perfeitamente visível e as interdições rondavam qualquer debate. Por óbvio Zazá tinha ascendência, mas ele não parecia exercê-la, talvez pela segurança com que se colocava acima dos demais, no domínio do conhecimento. Tinham umas vinte cabeças, sentadas de perna-de-índio no chão do cineclube. Reconheci três colegas da física, um da química, e duas meninas das engenharias. Uma surpresa! o que depois me fez ruminar as razões de o espiritismo atrair gente das ciências exatas. Talvez pela roupagem científica, pelas reclamadas comprovações empíricas da paranormalidade (que todavia jamais convenceram o establishment científico). Mas eu gostei das discussões. Depois de mostrar um conhecimento mínimo das doutrinas e graças a minha simpatia de bom ouvinte, ganhei crédito.
Notei bem rápido como a maioria dos espíritas filiou-se a esse sistema de crenças com o argumento incontestável da experiência pessoal. Tiveram uma vivência única e intransferível, que os convencera a aderir.
Uma menina me contou da vez que, com dez anos, quase morrendo de hepatite, saía de seu corpo e podia contemplar a si mesma nos estertores da doença. Até que um dia resolveu passear pelas imediações e, como que sugada por uma força gravitacional invisível, teve de lutar selvagemente para conseguir retornar a casa e reencarnar em seu corpo. Nesse dia, narrou-me, o seu corpo esteve à beira da morte, mas daí por diante começou o processo de recuperação, como se o esforço do espírito somatizasse a cura.
Um rapaz da cidade (não era aluno), por sua vez, me explicou que passou a acreditar aos doze anos, quando perdera o pai. Chovia e eles viajavam à noite por uma estrada erma do interior de Minas, quando um vulto muito branco, com cara de pierrô, atravessou-se de supetão no caminho. O pai achou que o tinha atropelado, parou o carro no acostamento, mas eles não encontraram patavina. Só se depararam com o silêncio barulhento do matagal. Sem entender o sinal, pois não eram então espíritas, tornaram a continuar a viagem normalmente. Dez minutos depois caíram num barranco após o carro aquaplanar. O pai morreu e ele sobreviveu por um triz.
Noutra história, mais elaborada, o meu veterano da física contou que a casa onde morava com os pais era mal-assombrada. Na madrugada, ouviam pipocos nas paredes, cortinas fechavam-se sozinhas, alguém caminhava e abria portas. Até que o seu irmão mais velho começou a ver uma mulher de pele muito branca, lânguida, de longos cabelos negros, no espelho do banheiro do corredor. Ela chamava por um tal Marcelo. As coisas começaram a ficar preocupantes quando a mulher passou a aparecer nua, e chorando, pro irmão. Depois começou a acariciá-lo, chamando-o de Marcelo. Tiveram que tomar uma atitude quando o espírito efetivamente tentou transar com o irmão. Convocaram então uma especialista, uma estudiosa do espiritismo, a qual, com a ajuda indispensável de uma famosa médium, foi bem-sucedida em invocar o espírito. A conclusão fora de que se tratava de uma garota de programa chamada Mona (talvez fosse o nome de guerra), que amava um antigo morador da casa, Marcelo. Ele a havia abandonado, apesar das constantes promessas e presentes, decepcionando as expectativas da moça. E então ela, amargurada, sem perspectiva na vida, se matou, voltando a assombrar a casa na esperança de encontrá-lo. Foram várias sessões até convencê-la a desistir da choradeira habitual, pois o cara já tinha se mandado dali há mais de cinqüenta anos e provavelmente também tinha passado pro outro lado (afinal, por que ela não foi procurar no próprio plano espiritual? obviamente não fiz a pergunta).
Conheci também a namorada do Zazá, que ele aliás vinha treinando (!) há dois ou três anos como médium. Ela desde cedo demonstrou sensibilidade espiritual, e várias vezes havia feito contato com o plano espiritual. Era negra e não sei porque me lembrava um pouco a Whoopi Goldberg, só que mais nova. Ultimamente, me disseram na ocasião, a menina se conectava com um espírito chamado Júlio Borges, que a seu passo abria o circuito com o outro lado da existência. No mais das vezes, ela entrava em transe, murmurava frases ininteligíveis, mas Zazá, servindo de guia, traduzia para o restante da corrente. Noutras ocasiões, as palavras pronunciadas eram claras o suficiente para ser entendidas pelos demais, mas ainda assim Zazá exercia o papel de assistente. Obviamente, isto significava que eu deveria ficar de olho no Zazá na hora H.
Eu soube que os ídolos do Zazá eram Helena Petrovna e uma tal Stanislawa. Ele achava as mulheres médiuns superiores aos homens, e tinha a explicação. Um fato que me chocou na reunião foi o desprezo que Zazá tinha pelo Chico Xavier, o psicografista. Irritava-o em especial a psicografia tosca de um senador romano e de escritores consagrados. Ele não só tachava o homem de charlatão, como o considerava a pior espécie de farsante. Porque ele não tirava lucro da fraude, como faziam charlatões mais pragmáticos. Ou seja, o cara mentia e era impostor simplesmente pra ter fama, queimando o filme do bom espiritismo. O Xavier o Zazá ainda tinha por um exemplo claro do subdesenvolvimento brasileiro. Aquilo jamais colaria na Europa esclarecida. Eu tentei argumentar que era tropicalismo, que o Chico poderia ser visto como um tipo de Zé Bonitinho ou Waldick Soriano do movimento espírita mundial, que tem também o seu lugar. Ao ser rechaçado, ainda arrisquei que pelo menos o Chico Xavier era um divulgador realmente existente, enquanto o fundador do cristianismo nem tinha veracidade histórica comprovada. Dos males, o menor. Mas Zazá obstinou-se e fechou a discussão chamando-o, transcrevo literalmente: “o Chico Xavier é um merda ambulante que só quer aparecer.” Achei que ele pegou pesado, mas dissenti em silêncio.
O resultado é que gostaram de mim. O Zazá avalizou, pois eu poderia ser uma boa aquisição pro círculo, o que possivelmente significaria mais um espírito dentro de sua esfera de influência. Marcaram, sob cerrado sigilo, a esperada sessão para lidar com o Boa Noite. Seria numa sexta-feira tarde da noite. Foi aí que confirmei a minha suspeita prévia, de que o centro espírita realizava as sessões mais fechadas na biblioteca da universidade.
A biblioteca é realmente soturna e se ergue numa colina afastada do campus, rodeada por um bosque escuro de araucárias. A sinistra edificação, que precede a própria existência da universidade e data do final do século XIX, comporta longos corredores recheados de prateleiras, que levam a salas frias de estudos, quase sem mobília. Escadas em caracol conduzem ao andar superior, tomado por depósitos com caixotes com livros antigos, trastes e pilhas de carteiras quebradas. Há pesadas portas que se fecham para salas desconhecidas e ninguém sabe o que ainda é guardado nos labirínticos porões. Na noite da aguardada sessão, chegando com os demais espíritas (eu tinha que me considerar um, afinal, a corrente…), não pude evitar de sentir uma estranha imobilidade, agravada pelo céu nublado e pelo vôo de gralhas nas proximidades.

(continua…)
Publicado em 9 de maio de 2010. Comente

continuação da parte 1.

No primeiro ano da faculdade, aconteceu um dos episódios mais estranhos que pude, em certa medida, participar. Nessa época, eu vivia na moradia estudantil subsidiada pela universidade. Eram dois blocos de apartamentos, todos térreos, situados numa área isolada do campus, que por sua vez já ficava fora da cidade interiorana. Cercado de bosques e laguinhos, distante dos prédios das faculdades, na madrugada o conjunto ganhava uma atmosfera sombria, entre um silêncio sinistro e barulhos noturnos. Ali eu morei nos quatro anos de minha graduação em física, em apartamentos com três ou quatro colegas, num ambiente tipicamente universitário.
Essa história que presenciei começou quando o prefeito do campus resolveu moralizar a moradia estudantil. Ele achava que faltava supervisão, pois até então quem administrava com plenos poderes era o diretório central de estudantes. Claro que era uma zona. Havia moradores clandestinos, animais de estimação, festas desvairadas, consumo de produtos proibidos. Particularmente regular era a reunião nevoenta da “esquadrilha da fumaça” no telhado. Comportado, o máximo que eu abusei da liberdade foram alguns retoques decorativos em meu quarto, tais como pintar espirais amarelas e pretas no teto e estender pés-de-feijão pelos corredores. Afinal, nós estudávamos a teoria das supercordas.
De qualquer forma, no meu primeiro ano, foi aprovada pelo conselho a colocação de vigias na portaria de cada bloco — para o “nosso próprio bem”, justificativa padrão de medidas do gênero. Um porteiro para cada bloco. A sua função era simplesmente observar e, havendo confusões, relatar à administração. Mas eles não deveriam intervir em nada. É claro que, rapidamente, os alunos passaram a encher os vigias de propinas. Principalmente lanches e bebidas, mas rolou o boato que tentaram até passar-lhes drogas, e também que uma aluna do segundo período teria dado pra um deles, a fim de contornar um certo flagrante (uma orgia lésbica, dizem).
Um dia, ficamos sabendo que o vigia do bloco 1 havia se demitido irretratavelmente. Ele não queria mais saber do campus e inclusive passou procuração pra um primo acertar as contas. Estava assustadíssimo com algum fato ocorrido ali, embora fosse um noderstino desses rijos e valentes. Não demorou mais do que algumas horas para a explicação correr. No nosso happy hour diário, já circulava a “versão oficial”, que eu, curioso patológico, ouvi com imensurável interesse.
Todas as noites, ao chegar, um aluno cuprimentava o vigia calorosamente: dava o “Boa Noite” e abria um sorriso doce, antes de ir para o quarto. Com o passar dos dias, desenvolveu-se a simpatia que a regularidade do hábito produz entre as pessoas. Porque todos os dias o estudante chegava exatamente no mesmo horário, à 1:22 da madrugada. Talvez a distração não permitira que o vigilante percebesse que, além da coincidência temporal, o rapaz vestia a mesma roupa. Talvez a distração fosse desculpável, pois eram roupas pouco distintivas: calças e jaqueta jeans, camisa pólo e tênis velho.
Aparentemente, o funcionário tampouco reparou que ele nunca chegava de carro (não havia barulho) ou acompanhado, e que parecia irromper das folhagens escuras diretamente para os prédios.
Tudo isso não me soou inverossímil, como poderia o leitor protestar. Afinal, no dia-a-dia, não esperamos nos deparar com eventos bizarros e por isso, por costume, acabamos deixando de somar A com B, ligar as pontas e tirar conclusões que a posteriori parecerão evidentes. Com efeito, há fatos que tomados isoladamente podem ser facilmente classificados como coincidência ou acaso, porém, no conjunto, na sua sucessiva reincidência, ganham uma dimensão sinistra e chamam a nossa atenção.
De modo que o vigia, todos os dias, respondia o “boa noite” e devolvia o sorriso, um pouco surpreso por ser notado por pelo menos uma parte do corpo estudantil. Pois sempre há aqueles idiotas para quem faxineiras e vigias tornam-se invisíveis ao colocar o uniforme. O desprezo, evidentemente, é recíproco.
Até que, passadas as primeiras semanas da atuação dos porteiros, a prefeitura do campus resolveu acirrar o controle. “Apertar um pouco mais a tampa”, nas palavras do prefeito. Cada vigia receberia um álbum com as fotografias de todos os moradores cadastrados e respectivos apartamentos. Não era pra o porteiro ficar interpelando cada um que chegasse, mas apenas dar um conferida, ir conhecendo um a um, aos pouquinhos. E ao perceber irregularidade, deveria denunciar à prefeitura para as providências julgadas cabíveis. Tal postura de não-confrontamento fora uma sacada da administração. De jeito nenhum, o prefeito quereria um entrevero entre vigias e alunos, porque certamente iria municiar o diretório central nos seus argumentos contra as medidas de segurança.
O vigia do bloco 1 ficou surpreso, na primeira noite com o álbum, em não encontrar o simpático aluno que diariamente chegava depois da uma da madrugada. “Justo ele?”, pensou. No segundo dia, resolveu segui-lo, para descobrir em qual apartamento ele estava dormindo clandestinamente. Aguardou até o horário usual e, às 1:22 pontualmente, “Boa Noite”, disse o penetra, sorriu e adentrou o bloco. Do saguão, o porteiro observou muito cuidadosamente o corredor branco, só expondo metade do rosto. E viu, com certeza, quando o rapaz abriu a porta do apê 114 e entrou. No dia seguinte, o segurança do bloco 1 estacionou numa dúvida nervosa. Tinha sido ensinado desde a mais longínqua infância a não delatar e, embora fosse exatamente essa a sua presente função, aquele aluno ele tinha por seu “conhecido”. Então decidiu avisá-lo pessoalmente, na noite seguinte, deixando para último recurso o papel de dedo-duro.
Novamente, à 1:22, “Boa Noite”, e o rapaz novamente se dirigiu ao 114. O porteiro seguiu-o à distância prudente, esperou ele entrar, certificando-se em definitivo do número do quarto, e imediatamente a seguir bateu na porta. Toc toc toc, teve de repetir três vezes, até que um outro aluno, muito sonado, sem camisa, e de evidente mau humor, atendeu, destrancou e abriu a porta.
— Sim… o que é?
— Boa noite, me desculpa, mas eu quero falar com o menino que entrou aí… — disse o porteiro educadamente, lembrando-se das orientações do prefeito.
— Quem?!
— O rapaz que entrou aí agorinha.
O morador olhou desconfiado, sem entender.
— Olha, eu quero ajudar… vocês sabem que não pode… eu vi ele entrando aí… por favor… — tentou o porteiro.
— Meu, tu tá viajando. Só tem eu aqui no apê, o resto viajou.
Ante a convicção inabalável do porteiro, o morador achou estranho e, talvez num sentimento de inquietude, talvez para desencargo de consciência, resolveu deixar o porteiro entrar. Juntos, rapidamente cobriram os três cômodos da pequena república de estudantes, onde moravam três alunos da química.
Naquela madrugada, o vigia ficou bastante irritado e se sentiu enganado. Elucubrou que o invasor devia ter saído pela janela dos fundos, que dava para a quadra de futsal. Em conseqüência, decidiu relatar tudo na manhã seguinte.
Ao ser recebido pelo prefeito, relatou detalhadamente todo o ocorrido, desta vez sem qualquer hesitação quanto à questão ética da delação. Terminada a história, o prefeito, funcionário das antigas da universidade, assumiu uma expressão grave. Tenso, teve de acender um cigarro, desrespeitando os avisos. Passado meio minuto de mistério, perguntou:
— E como era esse sujeito, me descreva.
O porteiro descreveu, e ressaltou inclusive a regularidade do horário de chegada, todos os dias perto da 1:20 (como se verificou mais tarde, exatamente à 1:22).
Foi então que o prefeito, agora bem agitado, abriu uma gaveta erma e puxou uma fotografia.
— É este aqui, por acaso?
O vigia quase pulou da cadeira. Exaltou-se:
— Ele mesmo! doutor, ele já arranjou problemas por aqui antes né? vamos pegá-lo!
Mas o prefeito não compartilhou da alegria, que logo se revelaria passageira. De cabeça baixa, revelou então a verdade escabrosa. Essa era a foto de um aluno antigo, da década de 70, da universidade. Ele estava morto. Teve um acidente fatal na rodovia quando voltava da festa de um sítio. Pelo que se constatou à época, ele parou o carro no meio da pista, para evitar o choque com uma vaca, mas o motorista da carreta, atrás, estava dormindo. O carro foi despedaçado e ele teve morte instantânea. Caixão fechado, cortejo de estudantes, uma verdadeira tragédia.
Quando terminou de narrar, o porteiro estava tão lívido que até os lábios tinham esbranquiçado. Muito supersticioso, se benzeu várias vezes, balbuciou meia-dúzia de “virges marias” e começou a gaguejar. Porém as palavras não saíam. Um pouco tonto, esbarrando na mobília, o porteiro deixou a sala sem se despedir, e foi a última vez que esteve no campus. Um primo seu mais tarde é quem viria acertar as contas.
É claro que a história correu como um antílope. A secretária ouvira tudo, que contou para a outra secretária, que contou para o pessoal da biblioteca, que contou para alguns freqüentadores mais sociáveis, que contou no bandejão, e aí em questão de minutos (repito: minutos), todas as faculdades já sabiam. No happy hour, à noite, a história ganhou os contornos que eu expus acima, inclusive nos detalhes sobre a reação do porteiro.
Independente disso, quero sublinhar ao leitor que foi assim mesmo que aconteceu. Que essa primeira “versão oficial” foi como tudo efetivamente ocorreu. Nos dias seguintes ao happy hour, fiz uma investigação particular criteriosa. Conversei pessoalmente com o prefeito, com o aluno morador do 114, com os porteiros dos outros turnos, e troquei e-mails com alunos antigos, da época do acidente. Até mesmo chequei a fotografia. Tudo isso, concluí, era realmente a história tal e qual se deu. Portanto, o leitor, por favor, não encare os eventos como “meramente baseados em fatos verídicos”, mas como 100% verídicos. E, se ainda houver dúvidas, como já frisei no início, é caso de procurar-me para eu apresentar, com o maior prazer, todo o conjunto de evidências.
Por óbvio que, nos dias seguintes, houve um frisson generalizado no campus, em especial na moradia estudantil. É o tipo de acontecimento que, se de um lado amedronta, de outro produz uma euforia coletiva capaz de arrancar-nos da vulgaridade cotidiana. O caso inflou rapidamente em boatos os mais diversos. De cara, batizaram o espírito de “Boa Noite”. Nem se deram o trabalho de usar o nome real, virou “Boa Noite”. O Boa Noite então passou a ser avistado por todo lado. Ele só aparecia para pessoas sozinhas e, uma vez revelado, lhe dava, com um sorriso (agora) demoníaco, o seu bordão: “boa noite!”.
Viram o “Boa Noite” tomando banho no laguinho, escondido nas árvores, pairando na janela do quarto (uma dúzia de vezes), nos corredores, no cineclube, em espelhos, em sonhos e até em telas de computador. Uma menina chegou a dizer que viu o “Boa Noite” espiando ela tomar banho e uma outra afirmou categoricamente que ele é chegado num baseado. Criaram um fã-clube “Amigos do Boa Noite”, com direito a página na Internet, o que terminou por rivalizar com um outro grupo, mais informal, dos “Caçadores do Boa-Noite”, cujo objetivo era fotografar e divulgar a aparição paranormal. Tinham também os céticos que não acreditavam, em princípio, em tudo isso, embora alguns deles não deixassem de sentir um “medinho” peculiar, quando sozinhos na madrugada (mesmo que realçassem de si para si que se tratava de uma reação psicológica plenamente justificável).
Pra mim, era um prato cheio. Queria de alguma forma explorar até o fim essa história singular. Jamais eu estivera no olho do furacão de um evento sobrenatural. Sou o tipo de pessoa que, obstinado pela busca dos porquês, não fugiria de espectros, fantasmas, criaturas, alienígenas ou do diabo em pessoa. Muito ao contrário, custasse o que custasse, eu sairia ao encalço, observaria atentamente, tentaria interagir.
Foi assim que, quando soube que os espíritas estavam se mobilizando para lidar com o Boa Noite, resolvi participar da empreitada. Primeiro, entretanto, tinha que conseguir algum acesso ao círculo. Os cardecistas tendem a ser mais discretos e têm a qualidade ímpar de não tentar evangelizar a todo custo. Suas sessões não acontecem a portas abertas nem com alto-falantes e showmícios. São nisso bem diferentes de alguns grupos religiosos, que, num proselitismo desenfreado, só não nos sequestram para assistir aos cultos porque é ilegal.
Minha primeira atitude foi comprar o livro do Allan Kardec.

(continua…)