continuação da parte 1.
No primeiro ano da faculdade, aconteceu um dos episódios mais estranhos que pude, em certa medida, participar. Nessa época, eu vivia na moradia estudantil subsidiada pela universidade. Eram dois blocos de apartamentos, todos térreos, situados numa área isolada do campus, que por sua vez já ficava fora da cidade interiorana. Cercado de bosques e laguinhos, distante dos prédios das faculdades, na madrugada o conjunto ganhava uma atmosfera sombria, entre um silêncio sinistro e barulhos noturnos. Ali eu morei nos quatro anos de minha graduação em física, em apartamentos com três ou quatro colegas, num ambiente tipicamente universitário.
Essa história que presenciei começou quando o prefeito do campus resolveu moralizar a moradia estudantil. Ele achava que faltava supervisão, pois até então quem administrava com plenos poderes era o diretório central de estudantes. Claro que era uma zona. Havia moradores clandestinos, animais de estimação, festas desvairadas, consumo de produtos proibidos. Particularmente regular era a reunião nevoenta da “esquadrilha da fumaça” no telhado. Comportado, o máximo que eu abusei da liberdade foram alguns retoques decorativos em meu quarto, tais como pintar espirais amarelas e pretas no teto e estender pés-de-feijão pelos corredores. Afinal, nós estudávamos a teoria das supercordas.
De qualquer forma, no meu primeiro ano, foi aprovada pelo conselho a colocação de vigias na portaria de cada bloco — para o “nosso próprio bem”, justificativa padrão de medidas do gênero. Um porteiro para cada bloco. A sua função era simplesmente observar e, havendo confusões, relatar à administração. Mas eles não deveriam intervir em nada. É claro que, rapidamente, os alunos passaram a encher os vigias de propinas. Principalmente lanches e bebidas, mas rolou o boato que tentaram até passar-lhes drogas, e também que uma aluna do segundo período teria dado pra um deles, a fim de contornar um certo flagrante (uma orgia lésbica, dizem).
Um dia, ficamos sabendo que o vigia do bloco 1 havia se demitido irretratavelmente. Ele não queria mais saber do campus e inclusive passou procuração pra um primo acertar as contas. Estava assustadíssimo com algum fato ocorrido ali, embora fosse um noderstino desses rijos e valentes. Não demorou mais do que algumas horas para a explicação correr. No nosso happy hour diário, já circulava a “versão oficial”, que eu, curioso patológico, ouvi com imensurável interesse.
Todas as noites, ao chegar, um aluno cuprimentava o vigia calorosamente: dava o “Boa Noite” e abria um sorriso doce, antes de ir para o quarto. Com o passar dos dias, desenvolveu-se a simpatia que a regularidade do hábito produz entre as pessoas. Porque todos os dias o estudante chegava exatamente no mesmo horário, à 1:22 da madrugada. Talvez a distração não permitira que o vigilante percebesse que, além da coincidência temporal, o rapaz vestia a mesma roupa. Talvez a distração fosse desculpável, pois eram roupas pouco distintivas: calças e jaqueta jeans, camisa pólo e tênis velho.
Aparentemente, o funcionário tampouco reparou que ele nunca chegava de carro (não havia barulho) ou acompanhado, e que parecia irromper das folhagens escuras diretamente para os prédios.
Tudo isso não me soou inverossímil, como poderia o leitor protestar. Afinal, no dia-a-dia, não esperamos nos deparar com eventos bizarros e por isso, por costume, acabamos deixando de somar A com B, ligar as pontas e tirar conclusões que a posteriori parecerão evidentes. Com efeito, há fatos que tomados isoladamente podem ser facilmente classificados como coincidência ou acaso, porém, no conjunto, na sua sucessiva reincidência, ganham uma dimensão sinistra e chamam a nossa atenção.
De modo que o vigia, todos os dias, respondia o “boa noite” e devolvia o sorriso, um pouco surpreso por ser notado por pelo menos uma parte do corpo estudantil. Pois sempre há aqueles idiotas para quem faxineiras e vigias tornam-se invisíveis ao colocar o uniforme. O desprezo, evidentemente, é recíproco.
Até que, passadas as primeiras semanas da atuação dos porteiros, a prefeitura do campus resolveu acirrar o controle. “Apertar um pouco mais a tampa”, nas palavras do prefeito. Cada vigia receberia um álbum com as fotografias de todos os moradores cadastrados e respectivos apartamentos. Não era pra o porteiro ficar interpelando cada um que chegasse, mas apenas dar um conferida, ir conhecendo um a um, aos pouquinhos. E ao perceber irregularidade, deveria denunciar à prefeitura para as providências julgadas cabíveis. Tal postura de não-confrontamento fora uma sacada da administração. De jeito nenhum, o prefeito quereria um entrevero entre vigias e alunos, porque certamente iria municiar o diretório central nos seus argumentos contra as medidas de segurança.
O vigia do bloco 1 ficou surpreso, na primeira noite com o álbum, em não encontrar o simpático aluno que diariamente chegava depois da uma da madrugada. “Justo ele?”, pensou. No segundo dia, resolveu segui-lo, para descobrir em qual apartamento ele estava dormindo clandestinamente. Aguardou até o horário usual e, às 1:22 pontualmente, “Boa Noite”, disse o penetra, sorriu e adentrou o bloco. Do saguão, o porteiro observou muito cuidadosamente o corredor branco, só expondo metade do rosto. E viu, com certeza, quando o rapaz abriu a porta do apê 114 e entrou. No dia seguinte, o segurança do bloco 1 estacionou numa dúvida nervosa. Tinha sido ensinado desde a mais longínqua infância a não delatar e, embora fosse exatamente essa a sua presente função, aquele aluno ele tinha por seu “conhecido”. Então decidiu avisá-lo pessoalmente, na noite seguinte, deixando para último recurso o papel de dedo-duro.
Novamente, à 1:22, “Boa Noite”, e o rapaz novamente se dirigiu ao 114. O porteiro seguiu-o à distância prudente, esperou ele entrar, certificando-se em definitivo do número do quarto, e imediatamente a seguir bateu na porta. Toc toc toc, teve de repetir três vezes, até que um outro aluno, muito sonado, sem camisa, e de evidente mau humor, atendeu, destrancou e abriu a porta.
— Sim… o que é?
— Boa noite, me desculpa, mas eu quero falar com o menino que entrou aí… — disse o porteiro educadamente, lembrando-se das orientações do prefeito.
— Quem?!
— O rapaz que entrou aí agorinha.
O morador olhou desconfiado, sem entender.
— Olha, eu quero ajudar… vocês sabem que não pode… eu vi ele entrando aí… por favor… — tentou o porteiro.
— Meu, tu tá viajando. Só tem eu aqui no apê, o resto viajou.
Ante a convicção inabalável do porteiro, o morador achou estranho e, talvez num sentimento de inquietude, talvez para desencargo de consciência, resolveu deixar o porteiro entrar. Juntos, rapidamente cobriram os três cômodos da pequena república de estudantes, onde moravam três alunos da química.
Naquela madrugada, o vigia ficou bastante irritado e se sentiu enganado. Elucubrou que o invasor devia ter saído pela janela dos fundos, que dava para a quadra de futsal. Em conseqüência, decidiu relatar tudo na manhã seguinte.
Ao ser recebido pelo prefeito, relatou detalhadamente todo o ocorrido, desta vez sem qualquer hesitação quanto à questão ética da delação. Terminada a história, o prefeito, funcionário das antigas da universidade, assumiu uma expressão grave. Tenso, teve de acender um cigarro, desrespeitando os avisos. Passado meio minuto de mistério, perguntou:
— E como era esse sujeito, me descreva.
O porteiro descreveu, e ressaltou inclusive a regularidade do horário de chegada, todos os dias perto da 1:20 (como se verificou mais tarde, exatamente à 1:22).
Foi então que o prefeito, agora bem agitado, abriu uma gaveta erma e puxou uma fotografia.
— É este aqui, por acaso?
O vigia quase pulou da cadeira. Exaltou-se:
— Ele mesmo! doutor, ele já arranjou problemas por aqui antes né? vamos pegá-lo!
Mas o prefeito não compartilhou da alegria, que logo se revelaria passageira. De cabeça baixa, revelou então a verdade escabrosa. Essa era a foto de um aluno antigo, da década de 70, da universidade. Ele estava morto. Teve um acidente fatal na rodovia quando voltava da festa de um sítio. Pelo que se constatou à época, ele parou o carro no meio da pista, para evitar o choque com uma vaca, mas o motorista da carreta, atrás, estava dormindo. O carro foi despedaçado e ele teve morte instantânea. Caixão fechado, cortejo de estudantes, uma verdadeira tragédia.
Quando terminou de narrar, o porteiro estava tão lívido que até os lábios tinham esbranquiçado. Muito supersticioso, se benzeu várias vezes, balbuciou meia-dúzia de “virges marias” e começou a gaguejar. Porém as palavras não saíam. Um pouco tonto, esbarrando na mobília, o porteiro deixou a sala sem se despedir, e foi a última vez que esteve no campus. Um primo seu mais tarde é quem viria acertar as contas.
É claro que a história correu como um antílope. A secretária ouvira tudo, que contou para a outra secretária, que contou para o pessoal da biblioteca, que contou para alguns freqüentadores mais sociáveis, que contou no bandejão, e aí em questão de minutos (repito: minutos), todas as faculdades já sabiam. No happy hour, à noite, a história ganhou os contornos que eu expus acima, inclusive nos detalhes sobre a reação do porteiro.
Independente disso, quero sublinhar ao leitor que foi assim mesmo que aconteceu. Que essa primeira “versão oficial” foi como tudo efetivamente ocorreu. Nos dias seguintes ao happy hour, fiz uma investigação particular criteriosa. Conversei pessoalmente com o prefeito, com o aluno morador do 114, com os porteiros dos outros turnos, e troquei e-mails com alunos antigos, da época do acidente. Até mesmo chequei a fotografia. Tudo isso, concluí, era realmente a história tal e qual se deu. Portanto, o leitor, por favor, não encare os eventos como “meramente baseados em fatos verídicos”, mas como 100% verídicos. E, se ainda houver dúvidas, como já frisei no início, é caso de procurar-me para eu apresentar, com o maior prazer, todo o conjunto de evidências.
Por óbvio que, nos dias seguintes, houve um frisson generalizado no campus, em especial na moradia estudantil. É o tipo de acontecimento que, se de um lado amedronta, de outro produz uma euforia coletiva capaz de arrancar-nos da vulgaridade cotidiana. O caso inflou rapidamente em boatos os mais diversos. De cara, batizaram o espírito de “Boa Noite”. Nem se deram o trabalho de usar o nome real, virou “Boa Noite”. O Boa Noite então passou a ser avistado por todo lado. Ele só aparecia para pessoas sozinhas e, uma vez revelado, lhe dava, com um sorriso (agora) demoníaco, o seu bordão: “boa noite!”.
Viram o “Boa Noite” tomando banho no laguinho, escondido nas árvores, pairando na janela do quarto (uma dúzia de vezes), nos corredores, no cineclube, em espelhos, em sonhos e até em telas de computador. Uma menina chegou a dizer que viu o “Boa Noite” espiando ela tomar banho e uma outra afirmou categoricamente que ele é chegado num baseado. Criaram um fã-clube “Amigos do Boa Noite”, com direito a página na Internet, o que terminou por rivalizar com um outro grupo, mais informal, dos “Caçadores do Boa-Noite”, cujo objetivo era fotografar e divulgar a aparição paranormal. Tinham também os céticos que não acreditavam, em princípio, em tudo isso, embora alguns deles não deixassem de sentir um “medinho” peculiar, quando sozinhos na madrugada (mesmo que realçassem de si para si que se tratava de uma reação psicológica plenamente justificável).
Pra mim, era um prato cheio. Queria de alguma forma explorar até o fim essa história singular. Jamais eu estivera no olho do furacão de um evento sobrenatural. Sou o tipo de pessoa que, obstinado pela busca dos porquês, não fugiria de espectros, fantasmas, criaturas, alienígenas ou do diabo em pessoa. Muito ao contrário, custasse o que custasse, eu sairia ao encalço, observaria atentamente, tentaria interagir.
Foi assim que, quando soube que os espíritas estavam se mobilizando para lidar com o Boa Noite, resolvi participar da empreitada. Primeiro, entretanto, tinha que conseguir algum acesso ao círculo. Os cardecistas tendem a ser mais discretos e têm a qualidade ímpar de não tentar evangelizar a todo custo. Suas sessões não acontecem a portas abertas nem com alto-falantes e showmícios. São nisso bem diferentes de alguns grupos religiosos, que, num proselitismo desenfreado, só não nos sequestram para assistir aos cultos porque é ilegal.
Minha primeira atitude foi comprar o livro do Allan Kardec.
(continua…)