Literatura
Publicado em 3 de abril de 2012. Comente

Orson Welles em Tudo é Brasil, filme de Rogério Sganzerla

 

É comum ouvir que o Brasil é a terra da diversidade. Um país atravessado por muitas paisagens, climas, raças, costumes, hábitos, culturas, identidades. Aqui, no geral, a mistura deu certo. Com tanta diversidade, não temos as divisões religiosas do Oriente Médio ou da Índia, nem as divisões raciais dos Estados Unidos. Motivo de orgulho nacional. O abrasileiramento da diferença se reflete no nosso caráter não-conflitivo, versátil e diplomático, aspectos valorizados do brasileiro. Aqui, não brigamos: contemporizamos todo sorrisos. Negros, índios e brancos, mulatos, caboclos e cafuzos, portugueses, italianos, japoneses, chineses e poloneses; para o bem ou para o mal, todos contribuíram para construir esta pátria. Somos um caso exemplar num mundo tão intolerante diante da diferença. Qualquer catálogo turístico sobre o Brazil não deixa de exaltar a diversidade do povo brasileiro.

Contudo, comparado com qualquer outro país da América do Sul ou da Europa, a percepção desmorona. Porque, tirando as aldeias indígenas, a sociedade é extremamente homogênea. Uma composição muito semelhante por todo o território nacional, cujo nivelamento cultural se dá pelo próprio sincretismo. A propagandeada diversidade oferece matizes coloridos e muito artesanato e uma indústria do turismo inesgotável, mas o substrato material não varia significativamente, do Oiapoque ao Chuí, das praias pernambucanas ao  Acre. Se você caminhar pelo centro das metrópoles brasileiras, não muda muito o cotidiano, o ritmo, a distribuição dos tempos e espaços, — e apenas observando os acontecimentos talvez você leve um bocado de tempo para descobrir se está em Belo Horizonte, Campo Grande ou Boa Vista. As pessoas vêem os mesmos programas de TV, lêem as mesmas revistas, ambicionam as mesmas marcas, ouvem as mesmas músicas, mantêm religiões similares, têm opiniões parecidas sobre política, economia e futebol. Os comportamentos das crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos variam mais em função da renda, do que da região em que habitam. Sobretudo, fala-se o mesmo idioma: talvez o exemplo mundial mais bem-sucedido de unificação linguística de um território. Pode ter uma ou outra idiossincrasia, mas não vai além disso, idiossincrasia.

Como isso aconteceu?

Tem quem explique a formação da cultura brasileira através da conciliação paulatina das raças, num amorenamento democrático. As raças teriam aprendido a conviver e se misturar saudavelmente. Outros falam num processo civilizatório que, embora tenha mascado gente no moinho da história, acabou pegando o melhor de cada qual: a cordialidade dos índios, a alegria saudável do negro, a racionalidade do branco. Nessa ideia, as raças originais se viram forçadas pelas contingências da história a evoluir, fecundando-se mutuamente, até surgir uma outra coisa, um novo gênero humano, o brasileiro. E há quem diga que a união das raças não passa de embuste, que nunca houve conciliação de nada, e que esse é o velho papo do branco colonizador, desejoso de dominar o colonizado, em nome de elevados ideais patrióticos, do Destino Manifesto do Ocidente. É tornar o índio um bom brasileiro, isto é, patriota e sem terra. Com efeito, a integração nacional sempre foi um projeto político consciente. Das missões jesuítas às bandeiras, das expedições amazônicas ao serviço militar obrigatório, da Seleção Canarinho (1954- ) ao Jornal Nacional (1969- ), de Brasília a Belo Monte.  Uma organização das relações de poder, a fim de governar a população, de modo que ela 1) trabalhe pelo mínimo, e 2) mantenha-se sob controle. Então sempre foi preciso que houvesse algo como um brasileiro, um povo brasileiro, para que o governo brasileiro pudesse governar com eficácia.

Isso por evidente se ramificou historicamente em várias direções, não admitindo dicotomias.

No começo do século 20, o positivismo europeu afetou parte da classe média urbana. O positivismo é um sistema filosófico baseado num humanismo racionalista, em que a sociedade evolui mediante um gradual autoesclarecimento, proporcionado pela razão e pela ciência. É uma ideologia onde o homem moderno se senta no trono da história, com a missão científica de civilizar os primitivos, os ignorantes e a natureza selvagem. Até então, o Brasil se inseria no mundo como natureza, terra de maravilhas e fábulas, melting pot de europeus e exóticos. Com o positivismo, se estrutura pela primeira vez o pensamento progressista, o primeiro programa político que pensou o Brasil como projeto, como uma civilização para superar a condição natural. O lema está na bandeira até hoje. Os positivistas tomaram por programa o fim da República Velha, a modernização da sociedade, a industrialização e a urbanização, a massificação de educação, cidadania e direitos. Esse projeto reuniu da direita progressista (depois udenista, depois militar) à esquerda progressista (cepalina, socialista, petista), no consenso de que é necessário desenvolver o país para sair do atraso e elevar o nível de vida da população. Sucedem-se grandes planos de desenvolvimento nacional, numa política de unificação pela via do progresso, o que vai atravessar a Era Vargas, os Anos JK, a Ditadura Cívico-Militar, até chegar ao século 21 como “desenvolvimento com inclusão social”. O resultado é polivalente, sujeito à polêmica. A crítica que se faz ao desenvolvimentismo é a própria crítica à política de integração nacional, — e com ela a toda uma antropologia do brasileiro.

Ao positivismo modernizador, responderam os modernistas, a partir da década de 1920. Por todos, Oswald de Andrade. Contra toda a ideia de progresso civilizatório, propôs a revolução estética de um Brasil radical. Nem Europa, nem seu Grande Outro: o Nativo lendário. Negando a origem mítica ou qualquer nostalgia, o escritor não sustentou uma essência brasileira. A poesia Pau Brasil invocava um homem tropical em constante transformação, feito ele mesmo de transformação. O Brasil modernista colocava-se em estado de derrogação, tendente a mobilizar-se continuamente, movendo as próprias fronteiras. A história do Brasil rompe em fragmentos, que se recombinam para contar outras passagens. Possibilitam-se novas vozes e narrativas, diferentes na forma e na matéria. A paródia, o pastiche, o folhetim, as coisas mais pop e miscigenadas ocupam o lugar da exuberância selvagem e indianista. O povo é desconstruído como abstração grosseira e cínica. Elementos artificiais e naturais, culturais e identitários se fundem e se reinventam, para reexistir diante da miséria física e intelectual do pequeno burguês, de quem Oswald tinha horror, e quem os progressistas viam como brasileiro  modelo para o futuro. A antropofagia contém duplo antídoto, ao “avante” dos progressistas e ao “anauê” dos reacionários, a quem pretende progredir em direção ao Primeiro Mundo, a quem deseja regressar à pré-modernidade como valor autenticamente nacional.

É que a antropofagia, primeiro formulada por Oswald, sempre foi a modalidade de (re)existência do “brasileiro” soterrado pelos projetos de Brasil. O ameríndio era mesmo antropofágico. E também o negro, a ponto de inventar a si mesmo. E também quem veio fare l´America, mas se ressentia colonizado. O escritor deu expressão poética à imanência do colonizado, quando desliza de sê-lo. Cercados por todos os lados pelos projetos de integração nacional, os colonizados não cessaram de resistir e reexistir, na fronteira mesma do abrasileiramento progressista. As múltiplas sínteses até se chegar ao tecido homogêneo do Brasil hoje não aconteceram sem cobrir um enorme rio subterrâneo de pulsões, insubmissões, diferenças e antagonismos. Na fronteira aberta onde se impôs e se impõe o Brasil; os negros, os índios, os colonos, os pobres em geral não só se apropriaram como puderam das armas culturais do colonizador, mas conseguiram recriar espaços-tempos de alteridade radical. O “povo” nunca quis ser povo, muito menos “nacional-popular”, essa aberração de mau gosto do esquerdismo. As culturas de resistência, sempre tidas por minoritárias e marginais, é onde pulsa a genuína criação antropológica de Brasil. Diante delas, a Cultura Brasileira, — sua diversidade e seu tom cordial, — é um conceito reacionário. Oswald só podia chegar a essa conclusão pensando o Brasil de Paris, já que o Brasil costuma ser a ideia fora do lugar, no sentido de Roberto Schwarz. E em São Paulo, a cidade com menor grau de identidade brasileira, logo, a mais brasileira de todas.

Se, hoje, é palpável a grande síntese do Brasil de classe média, lugar de trabalho, trabalho, trabalho e inclusão social e publicidade de cerveja, existem instabilidades, tensões, fragilidades, pontos de atrito, e inúmeras insatisfações pelo caminho. O Brasil finalmente está se inscrevendo na geopolítica como país de progresso e ciência, quando talvez devesse avançar à natureza. À segunda natureza dos criadores, à pele de cobra de quem se inventa, reinvenção pelos meandros da história, nem Europa, nem anti-Europa. Se o brasileiro se produziu nas relações de dominação; o outro brasileiro, o outro Brasil coexiste de modo incandescente.  Quando viajamos pelo território nacional com nossos olhos colonizados, podemos não enxergar claramente o devir de raças, essa alteridade que resiste, que insiste em reexistir além das diversidades e condescendências do projeto nacional. Sequer podemos vislumbrar onde está a franja de reexistência agora mesmo. Ela todavia emerge nas recusas, revoltas, insurreições, ao extravasar o não-pertencimento, ao querer fazer diferente, muito diferente, forças potentíssimas e irreconciliáveis que não deixam de afirmar-se. Um outro Brasil acontece, um Brasil vivo.

Publicado em 29 de março de 2012. Comente

Próximo sábado 31: debates, performances, vídeos, bandas, a organização do ciclo Occupy no Rio em 2012.

Programação:

Lanche de confraternização: 13 h

Debate – Representação: 15 h

Debate – Identidade: 17 h

Debate – Propriedade: 19 h

Festa com bandas Occupy: 21 h

É só chegar.

Tags:
Publicado em 14 de fevereiro de 2012. Comente

A homofobia é deplorável. No Brasil, o preconceito e a violência, física ou simbólica, baseada no preconceito são generalizados. Concordar com essas afirmações não implica concordar com a criminalização da homofobia. Trata-se, sim, de um problema social gravíssimo, que deve ser encarado sem meias-verdades ou subterfúgios pela sociedade. Precisamente por esse motivo, a aposta da criminalização não presta.

Muitas pessoas de esquerda acreditam que é possível encampar suas pautas através do direito penal. Pior, ingenuamente se colocam na linha de frente de projetos de criminalização, como se perfizessem uma agenda emancipadora. Por todos, sugiro muitíssimo o artigo seminal da juíza Maria Lúcia Karam, intitulado muito pertinentemente A Esquerda Punitiva, publicado em 1996, na revista de criminologia Discursos Sediciosos.

É que o direito penal não ajuda a resolver problemas sociais. Não foi feito pra isso. Não existe aplicação do direito penal que possa ser misturada com a defesa dos direitos humanos e a proteção da dignidade. Direito penal e direitos humanos são como água e óleo. A única  aplicação plausível dos direitos humanos diante do direito penal consiste no esforço teórico e prático de mitigar o último, desconstruí-lo, contradizê-lo e deslegitimá-lo.

No fundo, os setores criminalizantes da esquerda incorrem numa grosseira abstração. O sistema penal é composto por três sub-sistemas. A polícia, a justiça criminal, as prisões (e outras formas de penalização). No Brasil, nenhum dos três sub-sistemas chega perto de lidar com problemas sociais de um modo eficaz ou emancipador. Os três, aliás, costumam agravá-lo, e mesmo criar novos problemas eles mesmos. O poder punitivo brasileiro é extremamente seletivo. Ele sabe distinguir com implacável ciência o branco do negro, o rico do pobre, o imigrante, o “vagabundo” e a “vagabunda”. Quem já impetrou habeas corpus nos tribunais de justiça para preso pobre ou acompanhou tribunal de júri com réu negro sabe do que estou falando. Trata-se mesmo de uma máquina eficiente quando tritura pobres e negros, mas que confere uma gama jurídica e extrajurídica de atalhos, facilitações, atenuações, salvaguardas, garantias e proteções aos brancos ricos.

A criminalização da conduta 1) não protege a pessoa, 2) não previne a violência, 3) não ressocializa o infrator.

1) Não protege porque, por definição, o direito punitivo se aplica a posteriori, depois do ato tentado ou consumado. O direito penal não desfaz o crime cometido, nem restaura o status quo ante, ao retribuir a violência na forma de castigo. O direito penal não serve a sentimentos privados de vingança, não pode se prestar a aliviar comoções com tochas na mão ou choradeiras televisivas. Do contrário não seria direito, e estaríamos de volta ao século 18, à vingança do rei e aos suplícios públicos.

2) Não previne porque não existe relação de causalidade entre a intensificação da punição e a ocorrência estatística da conduta tipificada. Instituir a pena de morte não significa reduzir os homicídios, mas, simplesmente, que mais jovens pobres e negros serão mortos, agora também fria e ritualisticamente. Do mesmo modo que criminalizar o aborto ou o comércio de produtos ilícitos: apenas desvia a perspectiva do problema real, cria novos problemas no processo, e novamente mais pobres e negros pagam o pato.

3) Sobretudo no Brasil, a teoria da ressocialização não faz o menor sentido. A justiça criminal está longe de ter uma visão humanista e libertária, capaz de inspirar a humanização da sociedade em nome dos altos valores que supostamente promove. A polícia, por sua vez, muito distante de ser educativa. E acho ninguém discordaria que as prisões brasileiras não têm sido bem-sucedidas em sua função pedagógica.

O poder punitivo, ou seja, os três sub-sistemas juntos não têm feito mais do que multiplicar a violência física e simbólica, inscrevendo-a como trauma e neurose nos corpos pobres e negros que são sua principal matéria de trabalho. E quem só aprende a linguagem da violência, só se comunica pela violência, o que, a seu passo, só pode agravar os problemas sociais.

Então o que fazer?

Em primeiro lugar, parar com essa essa aberração punitivista, essa crença ingênua em que precisamos escrever mais um ou dois artigos no código penal, que já tem mais de duzentas tipificações. Não precisamos. O discurso da impunidade é de direita, assim como o clamor punitivista que a grande mídia promove ao redor de casos famosos. A direita, nada ingênua, pragmática e esperta, sabe muito bem que o direito penal exerce um papel para reproduzir e perpetuar os problemas sociais: a desigualdade, a injusta distribuição, a opressão de classe/gênero/raça/sexualidade, as muitas assimetrias e hierarquizações que historicamente atravessam o corpo social. E por isso o defende como pauta número um: combate ao crime, fim da impunidade, faxina ética etc.

O primeiro passo para acabar com a homofobia só pode ser parar de educar as crianças e adolescentes para serem heterossexuais. No século 21, já se tem conhecimento suficiente para se concluir por A + B que outras formas de sexualidade não são anormais, anti-naturais, erradas ou vergonhosas. Isto significa, pela mesma razão, que o heterossexual não é normal, natural, certo ou elogiável, pelo fato de ser heterossexual. Não tem certo e errado na sexualidade, nem norma válida por razões universais ou naturais. O adolescente beijar na boca outro adolescente do mesmo sexo é tão bonito e legal quanto qualquer outro ato de amor.

Hoje, o exame de ultrassom nos propicia não só dar nome aos fetos, mas inundá-los de expectativas e cobranças antes mesmo de nascerem. Não à toa a instituição da família seja tão diretamente responsável pelo conservadorismo e reacionarismo do Brasil. Já nos vemos colocando-os em escolinhas de futebol ou então em quartos rosas com bonecas e outras coisas fru-fru. Que casal “saudável” já prevê na educação de casa a possibilidade de o menino vir a ser gay, a menina lésbica, ou então que ele resolva ser ela ou vice-versa? A heteronormatividade aparece antes mesmo do parto.

Nada fazer contra o senso comum significa conservar essa percepção desigual em relação às múltiplas sexualidades humanas. Homofobia por omissão. A recusa e má vontade do estado em aceitar o casamento ou a adoção por pessoas do mesmo sexo, e em adotar uma educação escolar abertamente pró-gay/lésbica/queer/trans (e não só anti-homofóbica) são fatores que acabam sustentando a homofobia.

É preciso que as forças de esquerda se organizem para lutar contra a norma heterossexual que está na base da homofobia, como célula de um problema social muito mais complexo. Isto pode se dar a) seja saindo do armário, para afirmar o desvio e despedaçar a heteronorma com a paródia e o ridículo, b) seja intensificando marchas, movimentos sociais, mídias e redes sociais para destruir o consenso conservador, predominante na família, no estado e na escola brasileiras.

E os skin-heads da Paulista, e os comandos de caça aos desviantes? É preciso que nos organizemos para nos defendermos deles. Violentamente, se preciso. Por que não mirar no exemplo do Partido dos Panteras Negras pela Auto-Defesa, que deu novo impulso e vitalidade ao movimento negro americano? O direito acolhe a legítima defesa, individual ou coletiva, numa democracia. Mas a polícia é homofóbica… Claro que é, como todo órgão de controle social, e nenhuma lei vai mudar isso. Então que batalhemos para que mais policiais se afirmem como participantes do movimento, que se declarem gays, lésbicas, queers, trans. Porque muitos já são mesmo, não se iludam.

E que se coloquem os mandatários à parede. Que não sejam aceitas desculpas fundamentadas na lógica da estratégia, na tal correlação de forças. Muitos mandatários se recusam até a colocar o problema, a admitir que ele existe. Isto ocorre porque, em parte, estão comprometidos com forças reacionárias ou conservadoras, com a direita, com fundo moral, religioso ou simplesmente classista. Para esses mandatários de esquerda, nada mais cômodo do que contornar toda a problemática, e se restringir a simploriamente propor uma nova lei penal, um novo castigo. Isso é esquerda, outro artigo no código penal?

Esquerda punitiva é outro nome para direita enrustida.

Publicado em 18 de janeiro de 2012. Comente

Dívida pública/PIB (The Economist, 2011)

A dívida que nos devora

Na última década, a dívida dos estados mais que dobrou. Foi de 18 trilhões, em 2001, para 45 trilhões de dólares, em 2011. Os países desenvolvidos são os mais endividados: devem mais de 150% do PIB. Fala-se em “dívida soberana” do país, mas hoje vários estados europeus foram subjugados exatamente por causa dela. A chantagem da dívida submete os governos e, em tempos de crise global, desmascara a farsa democrática. Fica exposto quem verdadeiramente comanda a máquina representativa, triplamente mistificada por estado, partidos e grande imprensa — um único saco de farinha. A ponto de, na Itália, os plutocratas resolverem assumir o governo eles mesmos, na figura de Mário Monti. O financista insider é o novo primeiro-ministro. Jamais um golpe de banqueiros e rentistas (mercados…) tomou um governo de modo tão escancarado. It´s business, stupid!

Nos países emergentes, é verdade que a dívida pública relativa ao PIB caiu sensivelmente, de 49% para 45%, no mesmo período. O que se deve, em boa parte, ao crescimento do PIB desses países, e não à redução do débito bruto. A dívida interna brasileira, por exemplo, pela primeira vez ultrapassou 1,0 trilhão de dólares, em 2011, cerca de 40% de seu PIB ascendente.

Além dos gigantescos débitos públicos, também vem se disseminando o endividamento privado. No hemisfério norte, contingentes inteiros da população devem na forma de faturas de cartão de crédito, financiamentos, hipotecas e bolsas de estudo. Nos EUA e Canadá, a dívida doméstica excedeu 100% da massa de renda. Isto significa que o cidadão deve mais do que ganha. Em alguns países europeus, a relação passa dos 150%.

No Brasil, segundo o IPEA, o endividamento doméstico é menor. Porque antes simplesmente não havia crédito para a maioria. Durante o governo Lula, as políticas de financeirização alcançaram a sociedade como um todo. Muito mais pessoas passaram a usar cartão de crédito, cheque especial, financiamento bancário, crédito consignado, crédito para compra de veículos etc. Hoje, 44% das famílias brasileiras possuem dívidas, que, no cômputo total, correspondem a 40% da massa de renda. O endividamento médio oscila ao redor de R$ 5 mil por família. Em comparação ao volume da dívida pública interna, é pouco. Basta um rápido exercício: dividam-se seus R$ 1,8 trilhões pelas 60 milhões de famílias brasileiras, resulta um quociente de R$ 30 mil para cada família. Isto é, a dívida pública socializada equivale a seis vezes o valor do endividamento privado médio. Mesmo os muito pobres sem conta no banco pagam a dívida nos atos mais prosaicos, como comprar o pãozinho da padaria, cujo preço embute impostos.

Endividamento privado no Brasil acompanha crescimento da renda (BC e IBGE, 2011)

 

Como pode haver tantos endividados, tantos trilhões em dívidas públicas e privadas? como isso aconteceu? onde está o outro lado da equação? quem são os credores desse bolão trilhardário? Parece haver muito mais dívida do que crédito. E o pior é que pouco se fala disso nas mídias. O mundo das finanças é colocado como esotérico, como um discurso competente para o club: sempre os mesmos engravatados aspirantes a profeta que aparecem na TV e nos jornais. Os cidadãos ficam distantes, movimentos sociais idem. As velhinhas de Taubaté juram de pé junto que a ekipeconômica sabe o que está fazendo com o dinheiro de todos. Enquanto policarpos repetem a mensagem do grande líder: trabalhem, trabalhem, trabalhem, e deixem o governo trabalhar.

De fato, a conta débito/crédito não fecha. Não é pra fechar. Contra o senso comum, tem muito, mas muito mais débito do que crédito na praça. E isso não é um defeito nem distorção especulativa: precisamente assim, com uma dívida loucamente maior, a economia global pode funcionar. As finanças e o endividamento não constituem um acidente de percurso, mas o motor do capitalismo. O sistema financeiro organiza e distribui uma dívida perpétua e impagável, renovada sem parar com a emissão de novos títulos e promissórias. Uma dívida infinita que nem Deus paga. A cada promessa/dívida contraída com bancos e fundos, é criado ex nihilo um novo papel, que por sua vez monetiza a economia, alimenta-a de liquidez, ou seja, de fluidez e poder de ação. É que os títulos derivados do crédito podem circular quase do mesmo modo que o papel-moeda. Eles são dinheiro.

Acredita-se que os governos controlem a emissão de dinheiro, mas não. Ele também é emitido por bancos privados e mesmo as políticas dos bancos centrais estão vinculadas às demandas de liquidez elaboradas pelos “mercados”. A mãe de todas as privatizações foi a privatização da moeda. E as pessoas acreditam; quem não iria acreditar na efígie santa do dólar americano ou do marco alemão? No euro, nem tanto. Em qualquer caso, a moeda busca reproduzir e perpetuar as relações de poder. Quem controla a moeda não precisa fazer as leis, já dizia Rothschild. Injetar liquidez (mais dinheiro) na economia é um modo de injetar fluxos de poder, para fortalecer atores-chave e conter as revoltas e insatisfações. Não à toa exija-se desses atores-chave o comportamento desejado pelo establishment financeiro, antes da injeção das divisas. É um ciclo vicioso entre moeda, dívida e propriedade, que o sistema financeiro metrifica e comanda. Os bancos centrais, como o malabarista chinês, ficam com a função de de equilibrar os muitos pratos que os grandes players põem a girar.

Nesse processo, a base monetária inflaciona na medida do crescimento, aprofundamento e intensificação das dívidas. E dos seguros sobre dívidas, e da titularização e circulação disso tudo. No fundo, é como uma cebola, você vai descascando as camadas até encontrar… o nada. Através dessa dívida em várias camadas, a plutocracia financista controla os governos, forja a governabilidade, assegura a concentração de rendas e lucros e, — não poderia faltar, — conserva o regime desigual da propriedade. E não pára por aí: a dívida generalizada pelo mundo opera no nível subjetivo, moldando uma espécie bastante específica de sujeito social: o homem endividado.

É a tese central do novo livro do sociólogo Maurizio Lazzarato, da universidade de Paris I, A fábrica do homem endividado: ensaio sobre a condição neoliberal (ed. Amsterdam, 2011).

Dívida como governança

Nas últimas décadas, os ganhos vêm sendo privatizados nas mãos de uma faixa mínima, cada vez mais seleta de privilegiados. É o 1%, a minoria contra quem se insurge o movimento Occupy pelo mundo. Enquanto isso, as perdas são socializadas aos 99% restantes, endividados até o pescoço. O novo proletário é o homem endividado, empreendedor de si mesmo, constrangido a planejar a vida em função de débitos, compromissos, riscos e oportunidades. Os lucros do sistema expandem, mas a desigualdade se reproduz e se aprofunda. Trata-se de assegurar o paraíso de fortunas incalculáveis à minoria, e sustentar o purgatório da austeridade à maioria.

A dívida geral assume uma função política, produtiva e distributiva. O nó górdio do modo de produção capitalista não é a mercadoria, mas o crédito. A governança neoliberal instaurada a partir dos anos 1970 precarizou os trabalhadores. O cidadão, dizem, tinha direitos e deveres. Mas sobrou apenas o dever, na acepção de dívida. O estado se desencarrega de saúde, educação, previdência, bem estar, e assim força o indivíduo a econometrizar-se. Ou seja, a calcular para si custos, perdas, ganhos e riscos, num horizonte de longo prazo. Os direitos sociais se converteram em dívidas sociais. Nessa lógica, o estado foi mínimo quanto ao desmonte das garantias sociais. Mas máximo na proteção da classe credora e proprietária, e máximo no quesito controle social. O estado máximo do neoliberalismo submeteu populações a mecanismos violentos de gestão da pobreza, imigração e resistência política.

Paradoxalmente, a globalização fortaleceu os estados nacionais, na medida em que estão integrados à ordem financeira supranacional e a operam como atravessadores de políticas. O estado se fortaleceu no norte e no sul, em ambos os casos na direção do socialismo tecnocrático.  Lá, de onde escoa o dinheiro, para socializar as perdas financeiras e planificar integralmente a economia. Aqui, para onde escoa o dinheiro, para socializar os custos do desenvolvimento e igualmente planificar integralmente a economia. Burocratas no comando para fazer o que tem de ser feito, numa política coletivista, a mando de quem possui a propriedade sobre o capital. A culminância do capitalismo deve ser mesmo o socialismo: uma racionalidade férrea que impõe o progresso do capital e proletariza a todos. Vence a planificação central, a dívida pública, a tecnocracia das soluções científicas, no melhor socialismo do capital que cresce a taxas chinesas. Concordam os filósofos: o futuro será socialista ou comunista.

A consciência endividada

Para Lazzarato, a dívida não é só uma condição objetiva, mas subjetiva de nosso mundo. Mais que condição econômica, uma subjetividade, com sua moral e sua culpa. Se a economia é a ciência dos comportamentos, como se comporta o cidadão moderno que vive em dívida? Estamos devendo. A dívida, como promessa, guarda uma memória. Quem está em dívida não consegue esquecer. Lembra-se a todo momento de seu fardo, de sua obrigação condoída, e isso entristece, atrapalha o sono, tira a fome. A relação da dívida afeta-o como culpado por sua condição. É como uma marca. O sistema bancário opera como a máquina de torturas da Colônia Penal. Como nos morros cariocas, a gente abre crédito pra você, mas, se não pagar, seu nome vai pro prego.

Homem bom é Shylock: honra seus compromissos e poupa para administrar suas dívidas, — sempre reconhecidas. O que importa é fazer a sua parte e manter-se solvável. Autoexploração. Ars debitorium, a arte de viver achacado de dívidas. Psicanalistas lacanianos talvez estejam certos, o capitalismo ordena gozem! consumam! vivam ao extremo!, mas é impossível e a culpa é sua. A moral do capitalismo hodierno não se baseia somente na lógica esforço-recompensa, mas sobretudo da promessa-culpa.

O homem endividado é imagem da miséria. Um regime onde uma enorme riqueza, por todos produzida todos juntos, existe apenas para a fruição de uma faixa minúscula da população: os credores. Os demais assistem deslumbrados às fantasias plastificadas da TV: que se contentem com as migalhas. Num contexto de crise, magras migalhas. Esse contentamento fariseu. Como pombos, acreditam ser livres. Esforçam-se, e vão deprimindo-se nesse esforço, para serem todos proprietários, todos empreendedores, todos acionistas da riqueza social. “Todos serão proprietários”, promete Sarkozy. Queremos uma “sociedade de proprietários”, promete Bush. Não era esse o idílio de justiça de John Rawls, todos proprietários? O emblema maior dessa promessa só pode ser a casa própria. O signo supremo do comercial de margarina, signo do cidadão de bem, com um compromisso suficientemente sério e que atesta a consistência de um projeto de vida. Mas quando os subprimes desmentem as promessas fajutas de moradia universal, só resta mesmo descrer em toda essa lógica viciada e ocupar Wall Street. Nunca nos representaram. A crítica à democracia representativa não pode prescindir da análise econômica e financeira.

Lutar contra o futuro

Muitos comparam o mundo das finanças a um cassino. Jogam muito alto com o dinheiro alheio, sem nenhum mandato. Mas é pior do que isso. Jogam com o nosso futuro. Eis aí a acumulação originária do século 21: desapossamento do futuro. Marx descreveu como a ordem capitalista precisou desapossar os camponeses e cercar as terras comuns, a fim de coagi-los a trabalhar na cidade, a proletarizar-se nas fábricas. O capitalismo financeirizado desapossa o futuro das pessoas. Codifica-os dentro de planos de investimento, do endividamento a longo prazo que, prometem, permitirá acesso à moradia, estudos, viagens, filhos, à felicidade da novela das 8. Ganham importância as estatísticas, projeções, seguros, aulas sobre crédito e corretores bem intencionados. Eles lêem a fortuna, calculam, prevêem. Afinal, é preciso ser previdente que o futuro é incerto. O problema marxista da realização do valor está resolvido. Cada um investe o seu futuro, seu panorama de escolhas e decisões, sua subjetividade. Pequenas concessões no presente versus grandes implicações no futuro. Nesse ato, endivida-se, e essa dívida é abstraída num papel circulante que representa valor, i.e., vira dinheiro. Eis a fábrica de crenças, de confiança (faites-moi confiance).

Então, como resistir?

Em primeiro lugar, reconhecer que a crise global não se resume a fracasso de uma racionalidade econômica ou financeira. É uma crise social e política. Uma crise dos dispositivos e mecanismos de fabricar consensos e governar as populações a partir da dívida. Nesse contexto, em vez de aguardar a catástrofe que não virá ou refugiar-se em utopias de cátedra (com as quais o poder convive bem), é caso de trabalhar para que a crise não seja torcida ainda mais contra a classe devedora. É fazer política contra as tecnocracias bancárias e as receitas desenvolvimentistas, à direita ou à esquerda. O tempo da crise clama por ocupações, greves, sabotagens, pela obstrução dos mecanismos da representatividade; mas também pela construção do novo mundo: nova mídia, política e direito, uma nova economia política, uma nova moeda. A parte da destruição, a parte da construção.

Por outro lado, aquilo que nos devora também pode ser devorado. Se a moeda é instância privilegiada da dominação, também aí se descortina  um campo de batalha. Reapropriar-se da riqueza social ocupando o mundo das finanças, esse poder líquido que capitaliza o futuro. Trata-se de libertar o futuro, de livrar a moeda de seu papel homogeneizador e codificador do homem e sua consciência. Há marxistas que se apressam em buscar programas nas primeiras páginas de O Capital, e acabam demonizando o trabalho abstrato, o valor de troca e o dinheiro. Mas a repropriação da riqueza não dispensa retomar o que de mais abstrato se produziu: o processo do dinheiro. Retomar o dinheiro, comunalizar a moeda e comprovar que a Grande Dívida, na realidade, não existe.

À socialização da dívida, uma socialização do crédito, aberto a todos. À dívida da existência, uma renda da existência. Como nos antigos jubileus papais, que, de 50 em 50 anos, remitiam os pecados, perdoavam as dívidas e libertavam os escravos. É atirar ao chão o fardo de Sísifo endividado, ascender à segunda inocência de que falava Nietzsche, citado por Lazzarato. A ironia maior: subverter o dinheiro para acabar com a propriedade. Isso implica desde o direito à insolvência à organização de calotes coletivos (de estudantes, hipotecados, consumidores etc). Quando o dinheiro passa a encarnar o homem, ele também pode reconquistá-lo, e assim se liberta.

—————————

Recomendados:

O estado da dívida, a ética da culpa, por Christian Marazzi, trad. Vila Vudu, na redecastorphoto

Crise da economia global e o direito, por Hugo Albuquerque, no Descurvo

A metrópole global: economia da dívida e o leviatã imobiliário, idem

O primeiro de maio de Dilma e a dívida sem fim, ibidem

Os impactos da financeirização sobre o sujeito, por Andrea Fumagalli, no IHU

A luta de classe na insolvência, idem, no Rebelion (em espanhol)

As finanças causaram a crise global?, neste Quadrado

A crise da economia global, idem

A socialização da dívida pública, ibidem

 

 

 

 

 

Publicado em 16 de janeiro de 2012. Comente

O sexo pode ser de dois tipos, consensual ou estupro.

Uma pessoa não está em condições de dar o consentimento e você se aproveita da situação e transa com ela.

Escolha a alternativa que corresponde à resposta correta.

O sexo foi:

a) unilateral;

b) inopinado;

c) oportunista;

d) inconsciente; ou

e) estupro.

—-

Recomendado: Estupro, o que é, como não fazer , por Alex Castro.

Publicado em 5 de janeiro de 2012. Comente

Se têm dois filmes que antagonizaram no cinema comercial de 2011 foram A Árvore da Vida (Terrence Malick) e A pele que habito (Pedro Almodóvar). Dois auterismes nos antípodas do mainstream.

Malick

O filme de Malick ganhou a Palma de Ouro, foi bem recebido pelos públicos e obteve muitas críticas positivas.

Um filme profundo, como repetido mil vezes. Busca a Verdade e o Bem nas coisas cotidianas. Almeja a profundidade através de realidades simples.  É suficiente uma família texana dos anos 1950, sua casa, seu quintal, seu habitat, sua vidinha suburbana de classe média do pós-guerra. Basta depurar o enredo, despsicologizar os personagens, secar os cortes e simplificar a narrativa. Basta enxergar. Propõe ir ao essencial da luz e do movimento, atrás das conexões ocultas, da big picture, do design inteligente. Parar de distrair-se com o contingente, transcender o ruído das correrias e ambições, parar e finalmente escutar. Não admira que o pensamento do irmão, em off, seja sussurrado, pois ele se se acerca da Verdade. Não tente entender. É só querer ver, sentir, aceitar! Sean Penn (Jack) sintetiza a atitude do filme, na única cena em que parece servir para algo: na praia, se prostra impotente, embasbacado, golpeado por todos os lados por uma beleza eterna e insuportável que dá vontade de chorar. Se essa é a definição do que seja poesia, é para cachorros.

Não é que o cosmos represente a psicologia dos personagens, como em Melancolia (Lars von Trier). Aqui, os personagens são arquetípicos e se escrevem com maiúsculas: o Pai, a Mãe, o Irmão. Sempre existiram, do começo ao fim dos tempos. Neste filme, o cosmo é a família e a família é o cosmo, porque tudo se resolve no Uno. Tudo é cósmico: o homem é reduzido às regularidades metafísicas de um universo orgânico, fechado, estático, medieval. A família aparece como uma forma eterna que prova a unidade transcendente do universo. Todos os signos esculpidos por Malick convergem nesse eixo de sentido. Se as personagens nadam embaixo d´água, eis o sentimento oceânico nas cercanias Dele. Se cambaleiam por cânions e pasto alto, eis a solidão diante de Seu infinito mistério. Quantos planos da luz solar atravessando folhagens, sinalizando-O? A agitação e o barulho ao redor da casa, esses fluxos só podem subsistir graças à Estrutura superior, animados por Ela, e diante do que o homem não passa de migalha. É a Natureza (fluxos) subjugada pela Graça (estrutura).

O diretor não contemporiza: consente que se trata de uma obra magna. Sob certo ponto de vista, é mesmo. A Árvore da Vida exprime uma tendência do cinema, inclusive brasileiro, que se apresenta como novidade indie-espiritual. Os truques e cacoetes saltam aos olhos. Na montagem, decupe um fluxo de imagens mais ou menos desconexas, extraia sentidos mágicos do cotidiano mais prosaico, insinue emoções profundas, invoque sentimentos oceânicos… voilá, seu filme parecerá encerrar uma Verdade, que só poderia brotar de uma sensibilidade autenticamente artística. É a moda de Árvore da Vida e seu desfile de momentos Kodak. Como é emocionante filmar a efêmera qualidade do momento, o espetáculo da vida! Terrence Malick só pode ser um visionário. Tão visionário quanto os comerciais de Calvin Klein na década de 1980. A câmera perseguindo Mrs. O’Brien não recorda aquelas tomadas de Kate Moss, que de profundas só têm a pretensão?

Se Avatar foi o Zeitgeist da juventude indie cosmopolita, como escreveu uma crítica idólatra, A Árvore da Vida contém a teodicéia para uma geração espiritualista. Deus imergiu na paisagem e se diluiu pelo cosmo, cada religião O exprime a seu modo, legítima, fiadora dos significados mais profundos e inacessíveis do universo. Também se diz Energia, Transcendência, Física Quântica, você nomeie. Agnóstica e espiritualista, a geração malickiana não se escandaliza ante a crescente separação entre religião e política. Ou seja, tolera cada vez mais as pretensões políticas da religião, que costuma se defender dizendo-se separada do debate democrático. E aí vamos perdendo tudo, pois onde a fé se politiza, cessa a democracia. Agnosticismo cúmplice de uma sociedade americana cada vez mais fundamentalista, exatamente por causa da tolerância. O problema não é o absoluto (com o que o filme convive bem), mas seus janízaros.

É, realmente, um filme apaziguado com personagens apaziguados para públicos apaziguados.

Anti-Malick

Que boa notícia o último filme de Almodóvar chegar ao circuito comercial com uma força equivalente à obra prima de Terrence Malick. Eis o antídoto! Porque A pele que habito está na trincheira do outro lado. Um filme de espírito. Não “espírito” no sentido de alma capaz de contemplar Brahms e esperar a graça. Mas no sentido de caráter, de personalidade, de geniosidade, no sentido que Orson Welles e Ian Curtis conferem à palavra spirit. Espirituoso, não espiritualista.

Neste filme, os gêneros do cinema comparecem menos para estruturar a narrativa do que engrossar e desordenar os fluxos. Um bom filme abusa dos gêneros e não deixa ser usado por eles. Acessa o manancial de signos e ressignifica-os para saturar a obra de novas intencionalidades, contra qualquer impulso de depuração metafísica, de pureza cinematográfica. Quebra-cabeça transgenérico cujas peças vêm de jogos diferentes. Almodóvar bebe do terror, do suspense, da ficção científica, do filme-de-prisioneiro, mas sobretudo do melodrama. Retorcidos e reutilizados também os temas de sua filmografia: a traição, a obsessão, a solidão, a sexualidade transgressiva e o transformismo; as sequências com revelações, reviravoltas, crueldades, assassinatos; os fetiches sexuais e as motivações pouco convincentes, os flash-backs mais vagabundos como numa novela mexicana. Profana os gêneros e a si mesmo, força-os junto do modo mais genialmente inverossímil, — enraba-se artisticamente, fazendo das vias antinaturais o cadinho da criação. É o material profanado e baixo que importa.

Enquanto A Árvore da Vida reverencia o plano superior que só pode ser pressentido em momentos de iluminação, o filme do espanhol homenageia o senso de teatro, a mania de intriga, o capricho. Ofende as regularidades, as naturezas, os arquétipos, a ordem universal dos contrários. Não há nada de iluminado, sentimental ou profundo nas expressões e motivações dos personagens. Não tem isso de espiritualismo: as coisas sucedem no nível da pele, os acontecimentos espraiam-se pela superfície. É a superfície contra todas as profundidades: a epiderme, o decote, a cor berrante, as texturas das paredes e roupas.

Fazer do homem a mulher não se resolve em nenhuma operação mística. É pegar DNA de homem e DNA de porco e partir para cirurgias, tratamentos, experimentos (de cinema). Enquanto as memórias podem ser apagadas com drogas, televisão e ioga, num exercício nada grandiloquente de esquecimento ativo. O grotesco dá o tom. O tigrão bem dotado brasileiro é mesmo um tigrão bem dotado brasileiro e um estupro é um estupro. E também não tem nada de mais: só deixou Vera um pouco dolorida para transar com dr. Robert mais tarde. Ato que reconhece o feminino em sua força de superar o sofrimento e esquecê-lo sem traumas. Razão pela qual Vicente pode sobreviver à vaginoplastia, em seu devir-mulher. Quem fica traumatizado se mata e não conta com nenhuma condescendência. São ridicularizados pelo filme. A castração e o estupro não são, afinal, grande coisa. Os personagens de espírito tiram de letra. Almodóvar deliciosamente ultrajante, coisa que, no cinema recente, só vi em Jorge Molina (Chapeuzinho vermelho do inferno, 2010) e Cláudio Assis (Baixio das bestas, 2006, a poderosíssima cena em que ela se lava no rio). Não é um filme palatável a públicos conservadores. Tampouco agradará os politicamente corretos. Talvez sirva aos beatos da bioética para falar do perigo da manipulação genética. Ou quem sabe para cientistas sociais mais descolados discorrerem sobre a biopolítica contemporânea. Os indies vão achá-lo over. Os cineastas de nova safra, demasiado autoral.

De qualquer modo, é um anti-Malick. A pele que habito não quer saber de Deus. Não é que Deus não importe, é que se faz imperativo atacá-lo com a paródia e o ridículo. Estuprar Deus. Um estado de violação permanente, carnaval de horrores de Édipo a Frankenstein. Estilista do monstruoso, polimorficamente perverso, conjura Deus e o Diabo num humanismo transgressor onde o homem é causa de si. Antropogênese: cria o homem e é a imagem do homem e não há nada mais. Um Shakespeare kitsch, um Nietzsche sem grandiloquência.

Conclusão

Os últimos longas de Malick e Almodóvar se confrontam diretamente. Habitaram os antípodas do cinemão de 2011. Colocados lado a lado, lutam até a morte, sem síntese, sem diálogo possível.

Publicado em 28 de dezembro de 2011. Comente

“(…) Este blogue propõe-se a uma prosa-poesia e uma política-arte, em suma, uma crítica imanente à constituição e partilha de mundos pelos seus verdadeiros artistas, isto é, todos nós.” — seção SOBRE, do QdL.

2011 é daqueles que entram para a memória. Daqueles anos que nunca acabam, que se repetem permanentemente, tais como 1789 (revolução francesa, jacobinos), 1871 (comuna de Paris, Marx), 1917 (outubro vermelho), 1922 (Oswald, jazz, samba, Vertov), 1968 (tropicalismo, Gláuber, maio de 68, Vietnã, Hendrix, revolução sexual e cultural, Mao) e 1989 (fracasso do socialismo real), — todos da mesma estirpe. Faço questão de incluir 1989, que não significou uma derrota para as lutas. Ao contrário da narrativa do fim da história, a queda do pano de ferro foi a culminância das revoltas de 1968. Uma revolução contra os muros internos e externos da sociedade, suas disciplinas, divisões sexuais e regimes de trabalho. Se, a partir de 1989, os ideólogos da mesmice deram a entender que esse período de 200 anos de insurgências e utopias teria se encerrado, — que todas as tentativas de ousar e fazer diferente da democracia ocidental liberal-proprietária levariam ao “totalitarismo”, esse grande espantalho do século 20 — 2011 está aí para gritar a sua diferença, para afirmar que o século disparado por 1789 recomeçou no novo milênio.

Intoxicado de tempos tão incríveis, 2011 também foi o ano mais produtivo para o Quadrado dos loucos. Este blogue, lançado em 2009, contou 127 textos durante o ano. Em abril, migrou do antigo blogspot para o atual wordpress, software livre, redimensionado na versão 2.0. Neste ano, dois artigos ultrapassaram as 10.000 visualizações (De que Ana de Hollanda tem medo e Sobre fim dos jornalistas, na acampada), e três as 5.000 (Um mês de OcupaRio, Como a psiquiatria pode destruir a juventude e Revolução na Líbia: nem capitalismo, nem socialismo). Isso pra mim serve como informação estatística mais do que qualquer coisa. Mesmo porque os textos que menos desgosto, — e pelos quais até sofro de alguma nostalgia (mas não revelo quais), — tiveram baixa frequência. No final, deixo para o leitor uma relação mais ou menos aleatória da produção do QdL em 2011.

A escrita é mesmo um exercício de libertação pessoal. Ao escrever fica claro, com frequência desafiador, como cada problema colocado pode ser enfrentado por inúmeras abordagens, segundo vários cortes interpretativos, nas mais inesperadas articulações de temas e assuntos. Há muitas opções contingentes, caminhos a percorrer-se, picadas a abrir-se na selva da cultura. O grau de liberdade na escrita, em última análise, não está condicionado pelas estruturas linguísticas, como poderia se ressentir algum estruturalismo do Grande Outro. Cada problema real excede as soluções que se possam esboçar a partir dele, em todas as perspectivas imagináveis, de forma e conteúdo, tradução e traição, semântica e sintaxe. Por sinal, sempre que se tenta exaurir um problema, traçá-lo de modo definitivo e irrefutável, que se tenta ir a seu âmago, ele acaba fintando o intérprete. Expõe outras faces e expressões, se mostra mais intrincado e barroco.

Como uma pintura de Pollock, uma deriva de intensidades libertas, de velocidades e movimentos frenéticos que ora coagulam numa figura, ora noutra. Como um fractal, a escrita se dobra e desdobra, ao infinito que (se) imagina a mente e (se) afeta o corpo. Há quem acredite que a luta se situe numa investida contra o Castelo, o Processo, a Ilha de Manhattan, o Deus Abscôndito (e seus suboficiais vagamente interessados em seu caso), mas quem sabe essa entidade não passe de uma estratégia para desvalorizar os múltiplos corredores, atalhos, becos, escadarias e passagens secretas da vida, em meio ao que se rasgam tão prementes os antagonismos do real. Sem sofistaria, a problemática é infinita e não adianta persegui-la sem assumir a sua virtualidade inexaurível, onde o Um, sim, se faz Dois, mas se faz Dois flutuantes, contingentes, imprecisos, malandros.

Mas impressiona como, apesar disso, há tantas interpretações enlatadas e percepções enrijecidas sempre e sempre sobre os mesmos temas e assuntos. A velhice é um estado de espírito, mas também um corpo encarquilhado de velhas ideias, no lugar demasiado certo de suas certezas. Diante desse quadro tétrico, este blogue conjura o mais-do-mesmo e tenta proliferar sentidos e afetos nas dobraduras, nesse origami imprevisível que os problemas instigam. É o mundo como horizonte para o erro. Não tem pudor em assumir-se um lance de dados, seus riscos e inconsequências. Daí que as obsessões de estilo estejam incluídas nessa (des)preocupação, — aliás tão pungente, epidérmica, que enseja virilidade, delicadeza, ternura e loucura, isso que a dor e os problemas reais do mundo colocam.

O certo é que, embora promíscuo nas relações e encontros criativos, não é preciso professar compromisso com instâncias transcendentes, ideologias, significados-mestres, religiões ou metafísicas — nem mesmo ante o Leitor enquanto entidade, olhar e juízo que transcendem o texto, — pois escrevo como condição de existência. Escrevo porque sim, — de vez em quando porque preciso, mas sobretudo porque quero, posso e consigo, e busco não me separar do que eu posso, senão seria menos do que poderia e anquilosaria. Às vezes funciona, noutras não. Ao leitor cabe apropriar-se como ferramenta ou taça de vinho ou pretexto de suas próprias ilusões e desventuras, — ou então descartar a leitura. Faz parte e não dá medo.

—-

Uma seleção em retrospectiva de 2011, organizada em seis eixos:

1. Generosidade e crueldade:

Generosidade e revolta, 3 de janeiro

Não estou nem aí para os mortos, 14 de janeiro

Quando o ateísmo é causa desfocada, 15 de fevereiro

Corrupção é sempre da democracia, 1º de março

Como a psiquiatria pode destruir a juventude, 26 de março

Potlatch, 1º de abril

O senhor e o escravo, 2 de outubro

Sobre fim dos jornalistas, na acampada, 23 de outubro

O idiota anticorrupção, 2 de dezembro

 

2. Personagens excessivos:

Sou anti-anti Battisti, 5 de janeiro

A multidão se faz poeta, resenha sobre Bárbara Szaniecki, 23 de janeiro

A ética de Spinoza, 9 de maio

Amy, suicidada pela sociedade, 3 de agosto

Antonio Negri na Cinelândia, 11 de novembro

As finanças causaram a crise global?, resenha sobre Christian Marazzi, 5 de dezembro

Eduardo Viveiros de Castro, 24 de dezembro

 

3. Conspirações globais:

A nova militância, enxamear é preciso, 9 de janeiro

O devir da revolução árabe, 20 de fevereiro

A revolução árabe sob a ótica da multidão, 3 de março

As revoluções árabes na Espanha, 21 de maio

Que querem vocês, 15-M? viver!, 23 de maio

E agora, 15-M?!, 3 de junho

Marchas, revolta e geração, 19 de junho

Ideologia da crise, 11 de agosto

2011, o ano em que tudo começou, 10 de setembro

Revolução 2.0: da crise ao comum (UniNômade), 26 de setembro

Um caminho para o 15-O no Rio, 15 de outubro

Mao-Tsé Tung caminhava na chuva, 17 de outubro

Queerpunk, além do movimento gay, 20 de outubro

Produzir o dissenso, na acampada, 25 de outubro

O movimento do etcétera, 29 de outubro

OcupaRio é muitos, 3 de novembro

OcupaRio: petróleo para todos, 12 de novembro

Um mês de OcupaRio, 21 de novembro

A crise da economia global, 6 de dezembro

Não é hora de sair do Facebook, 13 de dezembro

 

4. Tudo é cinema:

Um condenado à morte que escapou (Robert Bresson), 7 de janeiro

A colecionadora (Eric Rohmer), 13 de janeiro

Tio Boonmee (Apichatpong Weerasathakul), 26 de janeiro

Bravura Indômita, (Irmãos Cohen), 18 de fevereiro

Homens e deuses (Xavier Beauvois), 29 de abril

Melancolia (Lars von Trier), 7 de agosto

 

5. O Brasil da Dilma:

RJ e Dilma, governos do consenso, 25 de fevereiro

De que Ana de Hollanda tem medo, 4 de março

Cidade das mulheres e a omelete de Dilma, 8 de março

Fábrica de Wellingtons, 1 de abril

Os camelôs, a ordem, as lutas da cidade, 1º de junho

Todo o apoio aos vândalos, 7 de junho

A reforma política começa pela mídia, 8 de julho

O mata leão olímpico contra o Rio, 11 de julho

A tal correlação de forças, 18 de julho

A tal vontade política, 19 de julho

Esquerdismo: os puritanos laicos, 29 de julho

O faraó e a represa, 20 de agosto

Consumitariado, 22 de setembro

Por um outro Belo Monte, 24 de novembro

Governo Dilma: um ano, 20 de dezembro

 

6. Direito do comum:

Da Lei Sinde à Ana de Hollanda: o comum resiste (grupo Direito do Comum), 5 de setembro

O comum organiza o direito, 21 de outubro

Recomeçar o direito no comum, 10 de novembro

O que é direito do comum, 28 de novembro

—-

Imagem: Jackson Pollock

Publicado em 11 de dezembro de 2011. Comente

Confesso que, em quase 12 anos de intensa vida acadêmica na universidade pública, já fui a vários eventos e encontros esvaziados, com meia dúzia de gatos pingados. Já participei de muitas mesas só com cupinchas, em papo de comadre. Diria até que é a regra. E faz parte: a reunião casual de espíritos livres que acabam convergindo em organização política e intelectual. Talvez seja o motivo pelo qual ainda vale a pena manter um pé na academia. Ainda mais depois das (incipientes porém significativas) reformas dos últimos dez anos, que trouxeram novos influxos, valores e inquietações. Mas só posso admirar quem mantém os dois e abraça por completo essa luta inglória.

Lamentavelmente, existe ainda uma percepção que mestrado e doutorado têm por objetivo confeccionar um produto final. Dentro de certas especificações e expectativas, credenciam o autor com uma “bandeirinha” para o próximo estágio. Seria produtivo se escrevêssemos para nós mesmos, mas nem isso. Tudo se instrumentaliza nesse processo de passar de fase, mesmo que ninguém leia o trabalho, mesmo que somente um ou outro esteja vagamente interessado nele e se dê ao luxo de passar os olhos nas referências, quando muito na conclusão e na introdução. E aí nesse jogo da amarelinha o acadêmico profissional vai acumulando pontos e passando aos próximos estágios, até o dia em que se aposenta e morre, orgulhoso do currículo repleto de bandeirinhas. Cede a vez a novos pretendentes ao moto-contínuo, um star system que se autorreplica.

Foi a primeira vez que cheguei num seminário anual de toda a pós-graduação de uma faculdade com zero pessoas. Rigorosamente zero. Nem a organização compareceu. Quem sabe numa utopia um seminário desses, onde os pós-graduandos realimentam o sistema de trabalhos e inquietações, devesse ser capaz de parar a faculdade e envolver a todos, com professores mediando as mesas e salas cheias. Não foi o caso mais uma vez e é das contingências da academia. Mas, nesta, a sensação de engodo escalou.

Tinha chegado à universidade 30 minutos antes e fui direto ao nono andar, onde ocorreria o evento. Lá, ninguém sabia informar do seminário, as secretarias estavam fechadas, e eu não recebera por e-mail a localização definitiva. Depois de perambular cerca de 20 minutos, encontrei muito por acaso um cartaz solitário, com a indicação do local riscada à caneta. A rasura indicava o auditório 13 do primeiro andar. Preocupado com o atraso, desci correndo e consegui chegar ao auditório exatamente no horário, às nove. Entrei em rompante e não havia ninguém. Nenhum ouvinte, nenhum palestrante, ninguém da comissão organizadora, vazio total. Na meia hora seguinte, chegaram somente os outros palestrantes da mesa. Dois deles pretendiam apresentar logo aos fantasmas para cumprir tabela e ir para uma entrevista…

Como assim? Sem organização nem auditório, pra ficarmos os quatro debatendo na mesa, melhor ir pro bar. Menos impostado e mais produtivo. Ante a insistência dos demais, curvados à infâmia do pegar-o-certificado, resolvi ir embora. Desconsolei-me com o engarrafamento de hora e meia pra voltar ao centro da cidade. O tipo de situação que, na linguagem coloquial das ruas, se conhece por “palhaçada” (perdoem-me os bons clowns).

Não dá pra se conformar, porque depois são os mesmos que ficam reclamando mais autonomia universitária e mais recursos pra eles próprios, contra qualquer reforma capaz de implodir esse autismo institucionalizado e auto-indulgente, — que é a regra. É pra revoltar mesmo.

Recomendados:

O que sobrou para os intelectuais, por Ronan, no Passa Palavra

Frente de Libertação do Conhecimento (FLC)