Ensaios
Publicado em 13 de maio de 2012. Comente

“Lembro-me de uma época em que soltava invectivas incendiárias menos pelo gosto de escandalizar do que por necessidade de escapar a uma febre que, sem o exutório da demência verbal, teria me consumido.” – Emil Cioran

Admito: existe um misantropo em mim. Senta-se no fundo do palco. Basta prestar atenção para encontrá-lo sempre no mesmo lugar, com seus cabelos brancos, calmamente alternando goladas de cachaça e cigarros Derby. Quase de bastidor, contempla o barulho e a fúria do movimento da vida em que os outros se engajam. Embriagados de urgências e afazeres, os outros personagens passam pelo misantropo como se ele não existisse. Não têm tempo pra isso.

Mal sabem eles que, na noite da noite, quando todos estão esgotados e uma modorra se instaura no palco, o sujeito vem à frente. Nessas raras ocasiões, se pudéssemos nos esconder entre as cadeiras do teatro vazio, talvez teríamos a sorte de ouvi-lo. E ele diz:

Até quando essas disputas de verdades? Daqueles que se gabam delas possuir, e que por elas guerreiam como ícones sagrados? Agitam-se, esbarram-se, despeitam-se, atacam-se, e vão arrebatando-se de fanatismos, uns depois dos outros, uma sucessão de vinganças e ofensivas. Alguns afogam-se em rancores e invejas, outros navegam sobre eles na direção dos ventos, em qualquer caso sufocando a inteligência de vaidades, orgulhos e artigos de fé; — e para quê? Obcecaram pelo real, pelo imperativo de que algo de real definitivamente aconteça consigo, algo que verdadeiramente valha a pena. Estão cansados de esperar a sua vez, que parece jamais vir. A ponto de degustar até o desastre e a desgraça, saborear qualquer situação excepcional, mesmo que negativa, humilhante; o que consterna o rosto e pontua a fala de exasperações e demandas imediatas, e tudo isso os preenche de algum sentido.

Obstinaram-se em viver seu tempo histórico, o coração armado, a mente tensa, e todos os momentos modulados à máxima concentração de forças. Inconfessadamente, querem que a existência os faça doer e ranger, para provar acima do benefício da dúvida de que estão vivos, sim, vivos aqui e agora. Os mortos não caminham conosco: nós caminhamos ao Sol! Essa certeza vital os restitui o ímpeto a cada manhã, mesmo depois das piores noites. E respiram fundo esse ar vicioso, carregado de humores venenosos. Odeiam com mais intensidade do que amam. E quando amam, amam a falsa imagem que fazem de si mesmos. Seus ódios tragam a parcimônia, deixam-se tomar por um furor que neles causa motivação e até alegria. Pretendem explorar paisagens inverossímeis, assediar os castelos da tradição, devorar os ídolos de outras gerações, sem qualquer condescendência com quem quer que seja.

Meus contemporâneos batalham pelo futuro da humanidade. E eu lá tenho, ou alguma vez tive algum compromisso com a humanidade? desde quando? mas que me importa a humanidade? que importa essa mística, o velho erro e todas as cândidas intenções humanistas? Se dizem que vai acabar, me traz a sensação de alento, porque o humano nunca se colocou como ômega universal. Não sou atravessado pela humanidade, não é a minha condição. Chega desse clima de idade média, simpatia pelo inferno e gozo secreto ante as visões de fim de mundo. Escatologia de condomínio fechado, paranoia de rico, humanismo que lubrifica a máquina de torturas da Colônia Penal (menos rangidos! menos gritos!) O enfrentamento é viver e não aspira ao conforto de shopping center nem aos idílios plastificados e prazeres customizados da geração.

Se não entenderam até agora, não vão entender nunca. O padeiro não fabrica pães pelo bem da humanidade. Vejo no outro as mãos, a pele, a dor, a loucura, a terra, a Lua, (e mesmo um quê de imortalidade), porém não posso nele enxergar a imagem e semelhança do humano. Do outro, quero a terra que levarei para o meu jardim secreto, um mundo delirante onde a única substância é o absurdo. A misantropia é condição do amor, esta afecção da imaginação, atividade imaginadora em que o outro se cria. E se cria numa imagem onde não me reconheço mais. Sem entrar nos jogos pautados pelos “resultados”, cujo nojo é preciso provar até o fim para dele se libertar, imunizado da doença infantil que acomete os humanos. Tenho o direito à misantropia.

E quanto às toupeiras em posições de mando ou status, que se comprazem com as ninharias e nulidades que obtiveram numa vida obesa? Esses não merecem mais do que o desdém. Eles e todos aqueles que os servem voluntariamente, presos em medos, resignações e impotências. Para estes, só há uma via para existir: revoltar-se. Mas odiá-los seria superestimá-los. Sentir rancor, divinizá-los. Nada avilta mais à sensibilidade do que o ressentimento diante da imundície deste mundo. Sinto-me absolutamente imune diante das mesquinharias que os fazem acordar cedo e alimentar a Grande Máquina. Uma derrisão sem limite. Se possuo uma vaidade, é do tamanho da mediocridade que encontro no dia a dia, e nada mais. Podem tentar enlamear-me com suas mazelas desinteressantes e conquistas ridículas, incitar-me ao remorso, à ferida moral, ao derrotismo romântico, mas ressurgirei intocado. Suas taras não me interessam. Fugirei para grandes espaços arejados, para o extremo sul do Brasil, e lá me confinarei em mim mesmo, sonhador de todos os mundos, na lembrança incandescente de ternuras e barricadas, nos horizontes infinitos dos pampas. Munido da grande ironia, renascerei intocado da vulgaridade.

O mestre romeno tem razão, às pessoas falta a qualidade da deliquescência. É preciso aplicar na humanidade a fórmula do solvente universal.

 

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À Maria Ivonilda, do blogue Ademonista.

Publicado em 24 de março de 2012. Comente

O Alexandre é daquelas pessoas que, quando você conhece, percebe que não precisa postular espíritos livres. Advogado, criminólogo, jurista, filósofo, crítico musical, ex-defensor público, pianista, enxadrista, boêmio e militante de todas as horas, das longas noites de infâmia e dos dias brilhantes de vitória. Conheci-o num dos infinitos grupos de estudo na universidade. No primeiro bar, fez questão de deslindar cada citação oculta de minhas falas: “Sartre, né?”, “agora, Benjamin…”, “Oswald…”. Entre bebidas e narguilés, foram muitas maratonas de cinefilia, intermináveis Tarkovskis madrugada adentro, sete assistências a Terra em Transe, mais de vinte da primeira sequência de Fellini 8 1/2. Compartilhamos da preferência por Michel Foucault (o Alexandre estava tão saturado do pensador que efetivamente conversava com ele nos sonhos, pedia-lhe conselhos), pelas Bachianas (sobretudo o 1º movimento da 3), pelo xadrez (vício que herdou do pai, com farta biblioteca enxadrística em casa), pela black music setentista (cuja história no Brasil está para ser escrita), por Gilberto Gil (a quem estendemos uma faixa “Para Presidente!”, no show) e por um lulismo de combate. Escrevemos um livro juntos. Formávamos um círculo onde me sentia como num romance de Cortázar, afogados que vivíamos numa erudição intransigente, entre livrarias, botequins e cafés.

Mas Alexandre não é apenas um diletante. Já percebera isso quando conjugávamos as forças no movimento estudantil. Ele, apaziguador e todo carisma; eu, destrutivo e debochado. Ambos, embriagados de ironia, inconformismo, e do Grande Amor que move a boa política. Na agitada cena do primeiro mandato do presidente Lula, polemizamos com esquerdistas e governistas. Infiéis da balança, estivemos juntos na chapa tropical-anarquista Babilônia, no fogo cruzado entre as tropas da UJS e as seitas do PSOL. Uma defesa do governo Lula além dos governistas, além do petismo (por vezes ressentido, noutras simplesmente aparelhado), além do próprio Lula. Como bons nômades e pós-modernos, era fácil desqualificar-nos. Entre a esquerda ascética, éramos festivos, entre festivos, muito “movimento estudantil”; entre socialistas, anarquistas; entre anarquistas, muito vermelhos; junto a militantes, intelectuais; entre intelectuais, muito militantes… O nômade não habita, ele transita, e transitando, se torna difícil agarrá-lo, domesticá-lo, — e isso consiste numa postura política, um surplus de vida, pois permite que o nômade sucessivamente se coloque mais além, ali, naquele lugar imprevisto onde os dispositivos de poder (ainda) não estão à nossa espreita. O nômade nunca confessa tudo e nunca é totalmente confiável: persiste um suplemento de desconhecido, de mistérios e perigos.

Alexandre então ingressou na defensoria pública do estado. E passou a jogar no jogo do judiciário, a alta casta do estado brasileiro, esse imenso cenário de dementes. Somente um espírito artimanhoso, felliniano, poderia dançar nessas bandas sem se bandear, sem se tornar um paralítico mental, sem burocratizar a alma. Alexandre usou de toda a sua ginga para defender o réu brasileiro, preto e pobre, da gana punitivista onde comparecem juristas, jornalistas e os almoços de classe média. Apesar dos labirintos do funcionalismo, Alexandre conseguiu chegar ao núcleo de terras e habitação da defensoria, onde escreveria parte da história da instituição nos próximos cinco anos. Ali, nunca foi defensor de gabinete. No NUTH, participou da construção de um bunker da resistência militante, junto de outros defensores incondicionalmente defensores públicos, junto de estagiários duros de roer, que não estavam ali para bajular e ser escravizados, como muitos patrões esperam deles. O Grande Amor do NUTH, a sua produção de subjetividade. Defenderam os pobres contra o rolo compressor de poderes públicos, da propriedade, dos donos da cidade. Movimentos sociais e NUTH compunham a mesma articulação política, uma das poucas articulações potentes contra o consenso progressista que erradica os pobres para longe. Lembro-me que, nessa época, ele estava tão engajado na missão, que era difícil falar com ele. De fato, nem apareceu em meu aniversário de 30 anos, por causa de uma remoção na calada da noite, onde teve de atuar. Alexandre aparece no fronte das batalhas, por exemplo, neste documentário (a partir dos 11:20). Nas muitas contra-operações, o defensor levou bombas de gás, borrachadas, sprays de pimenta, plantou-se numa casa em plena demolição e resistiu a seguidas intimidações de policiais e funcionários da prefeitura.

Num Rio de Janeiro higienista e urbanista, olimpicamente fascistizante, Alexandre realmente incomodou muito. O NUTH se tornou uma pedra no sapato dos governos. Toda mobilização que dependa do estado também se sujeita à desmontagem por dentro dele. Basta trocar os cargos de confiança, transferir os funcionários incômodos, mudar a gestão. Na virada para 2011, a nova gestão da defensoria, mais alinhada ao governo do estado, fez a diferença. Negativamente. Alguns núcleos foram comprometidos na atuação direta com movimentos sociais e lutas urbanas. Alexandre foi transferido para o interior. Os estagiários militantes despedidos e processados. Lugar de defensor passou a ser o gabinete. De estagiário, a senzala do gabinete. Festas no Copacabana Palace deram o tom da mais nova Defensoria, que saía do casulo mais glamourizada, mais requintada, nova-rica às beiras do esnobismo, “limpa” de movimentos e da realidade. Sinais do aburguesamento de uma instituição, até então, bem reputada nos meios ativistas. O ar se tornou irrespirável para as porcas borboletas.

Como nômade, Alexandre percebeu que estava na hora de pular fora. A mais instigante das artes circenses: a evasão dos aparelhos de captura. A única saída do escravo quando pungido pela dialética do senhor está no êxodo pelo deserto. Um absurdo, disseram, renunciar a uma salário vitalício de quase vinte mil. Tentaram de tudo para que ele voltasse atrás: ofereceram trégua, propuseram licenças, centenas de telefonemas e e-mails, o defensor-geral ligou pra mãe dele… Mas não teve jeito, a exoneração era incontornável. Abriu-se uma nova manhã em sua vida, ainda novos desafios, novas lutas. Atingidos no ego, — como alguém poderia desprezar tal status e de modo tão acintoso?, — só puderam mesmo considerá-lo louco.  E então vários se fecharam em sua mediocridade corporativista, aos 33 anos com a boca escancarada de dentes. Não podem acreditar eles, arrivistas e dementes, da insuportável verdade. Os espíritos livres existem.

 

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Este texto é a contribuição do blogue à campanha Articulação Fórum da Justiça / Alexandre Mendes, para Relator Nacional da Plataforma Dhesca Brasil, “uma articulação nacional de 36 movimentos e organizações da sociedade civil que desenvolve ações de promoção, defesa e reparação dos Direitos Humanos Econômicos, Sociais, Culturais e Ambientais (Dhesca), visando o fortalecimento da cidadania e a radicalização da democracia.

A campanha aceita subscrições individuais ou coletivas (de organizações, movimentos, coletivos etc), basta manifestar o apoio “até 30.03.2012, às 12h, mediante e-mail a <forumjustiça@gmail.com> – com o nome completo da entidade/organização a que vocês pertencem“.

A mensagem completa do pedido de apoio pela Articulação Fórum da Justiça:

“Solicitamos APOIO à candidatura do ex-defensor público, e atualmente advogado e pesquisador em Direito à Cidade, ALEXANDRE F. MENDES, para o cargo de Relator Nacional em Direitos Humanos (Direito à Cidade) da Plataforma Dhesca Brasil.

A Plataforma Dhesca Brasil  é uma articulação nacional de 36 movimentos e organizações da sociedade civil que desenvolve ações de promoção, defesa e reparação dos Direitos Humanos Econômicos, Sociais, Culturais e Ambientais (Dhesca), visando o fortalecimento da cidadania e a radicalização da democracia.

Seu objetivo geral é contribuir para a construção e fortalecimento de uma cultura de direitos, desenvolvendo estratégias de exigibilidade e justiciabilidade dos Dhesca, sendo que uma das estratégias adotadas são as Relatorias de Direitos Humanos.

Essa candidatura se mostra totalmente apropriada e desejada pela imbricação original do Fórum Justiça com o GT Moradia, facilitado por integrantes da democrática gestão do Núcleo de Terras e Habitação – NUTH, da Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro, no período de 2007 a 2011.

O candidato, que atuou no NUTH durante o referido período, sempre se destacou por seu empenho e tenacidade na defesa jurídica de dezenas de comunidades pobres da cidade do Rio de Janeiro e na formulação de estratégias de proteção ao direito fundamental à moradia, tendo destaque nos casos de despejos forçados causados direta ou indiretamente pela realização dos denominados “Megaeventos” (Copa do Mundo 2014 e Jogos Olímpicos de 2016).

Além da reconhecida experiência profissional na defesa do direito à cidade e à moradia, o candidato possui destacada atuação teórica e acadêmica sobre o tema, tendo obtido, recentemente, com distinção e louvor, o título de Doutor em Direito da Cidade pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ. E é autor de diversos artigos e trabalhos acadêmicos, ministrando também uma série de aulas e palestras em âmbito nacional e internacional.

Portanto, por associar ampla e rica experiência, teoria sólida e conduta ética irreprovável na defesa do direito humano à cidade, confiamos que ALEXANDRE F. MENDES possui todos os requisitos e atributos para exercer o cargo de Relator Nacional de Direitos Humanos.’

 

Publicado em 2 de outubro de 2011. Comente

A chegada de Lampião ao inferno

O ressentimento do escravo separa o céu e a terra. Duplica o mundo real e as suas relações. Duplica-os na moral, cujos valores ordenam-se de fora, fixos, já estabelecidos. Cabem ao escravo então duas atitudes opostas. Como tese: confirmar e inventariar os valores (funcionários da filosofia, burocratas do Castelo etc.). Ou como antítese: negá-los na histeria do social sem, contudo, escapar de sua própria paixão ressentida. Pois o que o escravo faz não pode mudar nada, sem a participação direta do senhor, sem se tornar o senhor nas mesmas condições. O escravo espelha-se no senhor. Todo o cosmo fecha-se então sobre si, numa harmonia universal dos antípodas.

O escravo pensa o direito como reivindicação diante de um altar. Eis a vontade abstrata da lei, o estado, a moralidade, a humanidade do homem. Reclama a reparação da injustiça e exaspera uma indignação moral. Os escravos agrupados em rebanho acabam liderados pelo sacerdote. O sacerdote mobiliza as paixões tristes e se constrói no ideal ascético da pureza. O sacerdote prega sobre a dupla hierarquia de céu e terra (dever-ser e ser), teologiza as relações materiais para neutralizar a ruptura e, nada inocente, reduz a multiplicidade à escolha entre Deus e o Diabo.

O senhor, de outra feita, não separa o que ele faz do que ele pode. Move-se no espaço alisado dos sertões do real. Em termos marxistas, diz-se: das relações sociais de produção, da materialidade das lutas, do trabalho vivo. Então, para o senhor, o direito não se separa do sentido da terra. Coincide com a potência e a virtude (direito = potência = virtude), de maneira que o senhor pode constituir ele mesmo o que é justo, na prática, na afirmação de valor. Eventual oposição do jus à Lex se dará como reflexo de uma relação absolutamente interna, interna dos efeitos às causas e vice-versa. Não se separam o que o senhor pode e o que ele faz.

Evidentemente, não cabe uma sinonímia entre o senhor e o escravo e as classes dominante e dominada, como se fossem a forma e o conteúdo da Grande Narrativa para as relações de poder. Não se faz apologia da aristocracia dos poderosos. O senhor e o escravo atuam como personagens de conceito: que podem se exercer de múltiplas maneiras, nos riscos e ameaças da floresta dos lobos. Não é possível identificar um substrato sociológico ou fixar um referente, a fim de atribuir o papel de senhor ou escravo a isto ou aquilo. O senhor poderá ser o filho do escravo.

A dialética tenderá sempre a servir à classe dominante, interessada em reconciliar os sujeitos e os valores na sua realidade. Tentará chegar a termo nos antagonismos, perderá os dedos mas não os anéis, de modo a preservar a totalidade, o modo de produção global.

Do ponto de vista ético, a formulação propugna para que os que lutam pela mudança ajam como senhores, que sejam fortes e tenham coragem, que decidam na virtude de ser gauches da vida. Que rompam as injunções morais e os mundos simbólicos impostos de cima das nuvens, para afirmar e constituir um outro mundo, mais afirmativo e menos ordinário. Que vivam de outro modo a liberdade. Quando isso acontece, rasga-se o céu azul dos valores e prevalece o mundo diabólico da revolução e da festa, sobre o cosmo da segurança e do medo. É a algazarra dos demônios ao meio dia, que põe fim à história de muitos erros e instaura a desordem do desejo.  Libertando-se da consciência ressentida do escravo, escapando da dialética do poder que o aprisiona, o novo sujeito político pode realizar-se como poder constituinte.

Publicado em 21 de abril de 2011. Comente

“I must go on. I can’t go on. I’ll go on.” (Beckett)

Um ano e sete meses, 413 postagens, 994 comentários, 228 inscritos e centenas de milhares de visualizações depois do lançamento, em 8 de setembro de 2009. As tarefas: criticar sem concessões, articular conteúdos com rigor e concisão, deixar-se inundar por ensaios mais líricos, verter na escrita a vida mesma, na sua batalha encarniçada por expressão e alteridade.

Ufa! editar um blogue é uma experiência total. Exige disciplina, criatividade, loucura, constante aprendizado e tesão permanente. Pra mim, uma viagem e tanto, absolutamente imprevisível, que me conduziu a novos mundos. Trata-se de um exercício de desenvolvimento, potencialização e liberação pessoal, cujo segredo está em peitar a postagem em branco, contra todos os prognósticos do bom senso.

Ao escritor tarimbado, até pode parecer fácil blogar. Ora, atividade caseira, inferior à literatice. Que ilusão! é muito mas muito difícil um blogueiro não deixar a peteca cair. Pode ser muito gostoso, mas também angustiante. Qualquer descuido embota a  modesta, porém singular qualidade das postagens. Diferente do livro, o blogue não tem vida vegetativa, e sua existência esboroa aos primeiros afastamentos mais longos do autor.

Quem acompanha este blogue sabe como ele não se esforça em fidelizar públicos. Não se prende a temáticas específicas. Não se bitola em assuntos homogêneos. Não adota público-alvo, senão aquele criado dialogicamente em seu desdobramento. Às vezes, o QdL deriva por saberes e discursos vários, noutras devaneia em solilóquios e achismos, mas também, de vez em quando, não deixa de enfrentar debates prementes, sem transigir com o rigor.

Nunca acreditei em leitor ideal. E confesso: sempre preferi os infiéis e as maliciosas, aos “médios” e honestas. Agradeço a todos, e em especial aos comentadores, que tanto fortalecem a luta diuturna do blogueiro.

Uma nova manhã.

O Quadrado dos loucos migrou para o WordPress. Uma plataforma colaborativa, em código aberto e, por isso, melhor que o Blogspot. Doeu um pouco desistir daquele ambiente retrô, tão tradicional da primeira blogosfera. Mas navegar é preciso. Deste jeito, coordenou-se melhor às redes sociais e sofisticou a sua interface de vídeos e podcasts. Incorporou um design mais limpo (o antigo “embaralhava a vista”, como alertou uma leitora), enredou melhor os conteúdos. E assumiu um estilo próprio, de autoria do amigo santista Renan Halphen, o mesmo do melhor site brasileiro de conteúdo musical.

O webdesigner trouxe ao QdL 2.0 tudo do bom e do melhor em matéria de recursos e funcionalidades. Ficamos meses pensando, repensando e trepensando como redesenhá-lo, trabalho cujo resultado aparece na tela do leitor, graças 100% à virtuose dele (sou péssimo em design).

A ocasião se apresenta para que o leitor possa compartilhar as suas impressões. Gostou? não gostou? não gostou do quê? está melhor pra ler? o que pode melhorar? por gentileza, contribua.

Publicado em 12 de março de 2011. Comente

O que é ser de esquerda? o que faz um partido de esquerda? quais exemplos de governos de esquerda? esquerda x direita? esquerda x esquerdismo? qual o papel do militante de esquerda?

Existem questões que galopam para o campo do abstrato. Muito rápido, tornam-se exercícios rebuscados de estilo e argumentação, porém vazios de concretude. É como o castelo de cartas: montado para o aplauso, mas frágil.

Há quem negue a dicotomia esquerda x direita: a esquerda morreu e o que aí está não passa de farsa. Em parte, têm razão, mas só quando falam de uma certa esquerda.

Outros estabelecem-na de modo dogmático e maniqueísta, ou seja, moralizam a dicotomia. Estes também estão certos, mas só na medida que, com esse discurso, se posicionam à direita. Fantasmagórica Esquerda, essa que se reproduz com cacos de teoremas, teleologias redentoras, identidades (bate no peito pra dizer: sou de esquerda!), cosmovisões apocalípticas. Essa esquerda abstraída da materialidade das lutas, insensível às máquinas e circuitos do capitalismo. Essa que se rotula Esquerda como espírito de rebanho, com seus pastores e cajados. Ou como ressentimento diante de um inimigo injusto, identificar-se através do que se nega (moral dialética de escravos).

É preciso que a questão seja recomeçada mil vezes. Que seja reafirmado o primado do antagonismo, na ação e interpretação políticas.


Talvez melhor problema não seja o que significa ser de esquerda. Ou mesmo o que é a esquerda. O que importa é como devir esquerda.

Porque a esquerda vive. Na Praça Tahrir, em Túnis, em Madison, no carnaval de rua com suas máscaras de Ana de Hollanda e Tiririca, no trabalho imanente de uma multidão que produz e diferencia novos direitos. A esquerda afirmou a cópia livre, os novos modos de produzir da rede, o Wikileaks, a Wikipédia, o WordPress.

Inquietações:

Como recomeçar a esquerda? desestabilizar as histórias encarquilhadas? irromper as identidades sectárias? hibridizar, propagar, multiplicar? como articular os saberes minoritários?, como proliferar os afetos ativos? como intensificar o amor pelo distante, pelo retorno da diferença? como constituir e partilhar novos mundos, onde se afirmam direitos que não existiam? o que precisa ser dito que nunca o foi, como dizê-lo?, e como fazê-lo sempre um pouquinho diferente (pouquinho contudo que faz toda a diferença), para que o movimento se faça numa dinâmica expansiva e multitudinária?

Não sou de esquerda. A esquerda acontece em mim. É uma vontade que vem e plá, muda a percepção. Niilismo heróico convertido em revolta. O medo cede à uma dinâmica expansiva de autovalorização. Generosa, a revolta se concretiza contra a ordem rígida do mundo caduco. O destino se prova frágil, percebe-se que a hybris pode destroçá-lo. Escapa-se da História, de seu passado e futuro pré-definidos. Constitui-se um novo tempo: um tempo intensivo, uma outra civilização onde a existência é uma aventura.
A esquerda vem antes da direita, como a resistência antes do poder, a vida antes da morte, o infinito do finito. Defrontada com a criação de outro mundo, a direita reage. Por isso reacionária. Não pretende perder sua posição dominante na tribo. Nesse momento, do inevitável choque de forças, se destacam duas estratégias para a esquerda: a luta e o êxodo.
Luta quando o antagonismo ganha espessura dramática, e assim a tensa narrativa adquire contornos épicos. Dá-se a condensação de afetos e armas, é Praça Tahrir ou Outubro Vermelho, Canudos ou Maio de 68.
Êxodo para comprovar que, sem a vitalidade e o amor, toda a exploração colapsa. Recusa quando entra em greve contra os patrões, mostrando quem manda na produção. Recusa também pós-industrial, quando se produz à margem das corporações e indústrias culturais, como rede colaborativa.

Quando deserta para longe de uma região explorada, onde pretendem fixar mão-de-obra precária. São os nordestinos no Sudeste ou os árabes na Europa, dentre tantas diásporas constituintes. Quando não faz o jogo nos termos postos pelo inimigo, o prefiro não da enrolação sistemática do escrivão Bartleby, de Herman Melville.
Publicado em 8 de março de 2011. Comente

Para o homem, só há duas mulheres. A mãe e a puta. Na esposa, buscamos a mãe. Nas amantes, a puta. Todas as mulheres que o homem conhece não passam de variações da mãe e da puta ideais. E só. Homem que é homem não tem amigas. O sonho de consumo masculino se realiza com 1) uma casa perfeitinha, com mulher e filhos saudáveis, bem-educados e brancos, e 2) um harém, com atrizes pornôs, safadas e de todas as raças.
Este o universo machista em que fomos condicionados e somos incentivados, e contra o qual lutamos todos os dias, inclusive em nós mesmos.
O capitalismo cognitivo captura a mulher em ambos os modelos. Em especial, através dos comerciais de cerveja e de margarina. De um lado, exigida como puta, segundo a cosmética andróide da publicidade de cerveja. De outro, cobrada como mãe, conforme a estética asfixiantemente careta das margarinas. A mulher é colocada 24 horas por dia sob julgamento por dois tribunais contraditórios. Espremida entre a mulher-Skol e a mulher-Dorianna, não deve ser fácil.
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Nunca tinha assistido ao programa da Ana Maria Braga. Fiquei surpreso ao saber que Dilma participaria, na terça passada, dia 1º de março. Aconteceu o impensável: deu gosto encorpar a audiência da Globo.
Discordo de quem avalia que ela baixou a cabeça pra grande imprensa e traiu o eleitorado. Paira certa imaturidade de quem acha que está junto e misturado com o governo, isso pra não falar de dor de cotovelo. A campanha eleitoral acabou: movimento é uma coisa, governo outra. Somos um movimento na rede, uma legião, e continuaremos a ser, mas a presidenta doravante pertence ao estado. É outra dinâmica. Posso discordar de várias posturas do novo governo, mas também não sou nenhum opositor sicofanta, à procura de pelo em cabeça de ovo.
Por que não interpretar o acontecimento pela lógica inversa? Ora, a Globo teve de engolir a presidenta em seu principal show matinal, fritando uma omelete. Mais que uma concessão de Dilma, ela conquistou o direito de ser convidada, inclusive pelos maiores inimigos históricos da democracia brasileira.
A presidenta Dilma não muda uma vírgula de seu discurso, nem um trejeito de sua persona política, no congresso do PT ou numa comemoração da Folha de São Paulo. Com desenvoltura e autoconfiança, Dilma expôs as políticas do governo, defendeu a orientação de esquerda, mostrou saber do que fala e, como resultado, valorizou a própria imagem.
Comoveu-me, lá no programa da Braga, quando Dilma disse que o grosso do trabalho das mulheres não aparece. Nas últimas décadas, as mulheres se incluíram em espaços antes inacessíveis. Tornaram-se professoras universitárias, médicas, engenheiras, economistas, pilotas de caça, juízas, blogueiras, presidentas de empresa, parlamentares etc. Além do trabalho mais afetivo e doméstico, abriram caminho para postos de formulação e direção.
Portanto, silenciosamente, nas relações do dia-a-dia, e quase sem o devido reconhecimento, as mulheres vêm impregnando a sociedade de uma diferença, de uma outra cosmovisão, que desconstrói o mundo patriarcal clássico, autoritário e reificante. Tudo isso igualmente é movimento feminista, num nível molecular, numa espécie de microfísica social.
Nesse momento da entrevista, entre receitas de omelete e troca de amenidades, Dilma provou mais uma vez que tem brilho próprio. Talvez não precisemos sentir tantas saudades de Lula. Quem sabe Dilma reúna qualidades extraordinárias para liderar esse governo, à altura do anterior. Só que do seu jeito próprio, um jeito de mulher.

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A inspiração para este breve ensaio ocorreu-me ao ler A grande luta das mulheres, no blogue amigo O Inferno de Dândi, editado por Danilo Marques.

O leitor pode interessar-se por Só uma mulher para o amor vencer o ódio, texto do Quadrado por ocasião da vitória de Dilma nas eleições presidenciais.

Publicado em 1 de fevereiro de 2011. Comente

Cairo, 30 de janeiro de 2011, corajosa militante sem cobertura

O lindo da revolução árabe está em não ser comandada por nenhuma vanguarda leninista ou fundamentalista. O processo constituinte varre as ditaduras na Tunísia e Egito dispensando a figura do grande guia. Nem charlatões sectários vermelhos, nem beatos maniqueístas brancos. Mesmo assim, não se pode chamar de revolta anárquica ou desgovernada.
Tem um saber revolucionário que circula no boca-a-boca, aprende na contingência e organiza o movimento. Difunde-se nas ruas e praças, no tuíter e no facebook. Aqui não tem Povo, Estado, Nação; não tem bandeira unificada. É um enxame sem símbolos do poder, transnacional, multiminoritário. São muitas revoluções ao mesmo tempo. Esgarçam um horizonte de liberdade e as mulheres podem sair de jeans e cabelos soltos.
A religião não é incompatível com a democracia e a liberdade. O problema não é a fé, mas a apropriação política do medo e da esperança. Problema não é a relação pessoal com a divindade, mas a inscrição dela em regimes dogmáticos de autoridade e obediência.
O islamismo não é problema, mas as pretensões políticas transcendentes de profetas, salvadores e igrejas. Nem ocidentalização nem teocracia, melhor uma democracia islâmica com direitos às pessoas e minorias, dentro do comunitarismo da al-Ummah.
A questão religiosa é uma variável, como na política americana. Mas não determinante. Essa revolução brota da luta de classes. É duro quando a verdade bate na sua porta. Imagine um milhão de verdades encolerizadas…
A revolução cria sua própria verdade e se autodetermina na imanência do conflito. A revolta encontra a sua medida em si mesma, no fazer multidão dia após dia de agitação e alegria. Todos hoje somos egípcios.
Seria reducionismo teórico sondar agora analogias pra revolução árabe (cama de Procusto). Experiência a analisar-se na sua singularidade. É preciso pensar *a partir* da revolução árabe e não *sobre* ela. Pode disseminar pela Europa, através dos milhões de imigrantes “capilarizados”. O saber revolucionário para o século 21 recomeça aqui.
Se, na década passada, a América do Sul foi a vanguarda política do planeta, nos anos 2010 o eixo revolucionário se move ao mundo árabe.
Vivemos tempos incríveis.
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PS. Este ensaio foi montado artesanalmente com tuítes meus publicados na data de hoje. Demonstra (literalmente) como blogue e microblogue podem vibrar em sinergia. O que o leitor acha? 
Aproveito para recomendar a excelente cobertura televisiva da Al-Jazeera: http://english.aljazeera.net/watch_now/

Publicado em 15 de janeiro de 2011. Comente

A televisão afundou no teledrama. Num refrão desolado, 24 horas por dia, as imagens escavam a morte, a perda, a comiseração. O noticiário capricha nos closes de novela, induz o choro e aguça as lamúrias. Repórteres-abutres farejam os cadáveres e se refestelam na contagem, enquanto âncoras ensaiam as suas melhores poses consternadas. Quem vai contar a história mais triste? Quem vai filmar a cena mais comovente? A morte é repetida centenas de vezes, entre comerciais de cerveja e margarina.
A narrativa treina o olhar de espectador e não o agir de cidadão. Passivo, o espectador desmobiliza-se na caridade geral, que ele assume como redenção de si mesmo. O ativismo do cidadão, por sua vez, a TV contorna, pois lhe ameaça com seu senso crítico e sua vontade de mudar. Só interessa à grande mídia fabricar o sofrimento e expiar na piedade.
Pois querem a minha compaixão? Não darei.
A TV não vai comandar o meu sentir. Não tem como aproximar a dor do outro pela via do sensacionalismo. Compaixão de madame. Termina por celebrar a impotência e disseminar a tristeza, clonando os escravos de um espetáculo vazio. Entorpecido pela pulsão de morte, o olhar televisivo ignora a vida que se debate entre as águas e insiste em perseverar apesar da adversidade.
Meu sentir está com essas pessoas que escavam e salvam, que vão à tona e respiram, com quem empenha tudo de si e grita e luta. E não com a morte e a impotência. Porque, ao contrário da narrativa televisiva, não existe conexão com o outro através da morte, senão como culpa. Somente na vida e através dela se pode tocar (n)o outro.
Nesse sentido, os mortos não importam.
Deixemos que os mortos enterrem os mortos. Desrespeito? E se fosse comigo? E se fosse o meu filho? Nesse caso, a última coisa que lhe faria jus seria capturá-lo nalguma narrativa televisiva. O luto se desenvolve numa relação pessoal. Enluteço-me menos emulando o choro diante de uma câmera, do que num lento mastigar da memória. Esta vencerá a morte precisamente ao expulsar do morto do que ele tem de morto, preservando-lhe a força da vida, o seu calor e seu sorriso. Eis aí o luto como recordação seletiva: faz retornar do passado a diferença querida. Ela que se irá amar eternamente e não uma carcaça inerme.
É preciso pensar nos vivos. Elaborar políticas concretas para populações em áreas de risco. Organizar politicamente a ajuda aos que continuarão e a reconstrução da cidade. Mesmo o sofrimento tem o seu lado positivo, no excedente que dele irrompe. Mesmo na dor, há vibração e espessura na experiência humana. É hora de reafirmar e celebrar a vida, pois o pensamento da morte é o mais imundo. A morte foi inventada pela direita.
Ante a dança de morte que a TV encena, com uma gargalhada trágica se pode romper a lógica da impotência. Algumas imagens, todavia, vazaram da comiseração generalizada. O homem lança a corda, puxa a mulher para fora da turbulência, e sorri. E sorri! Seu sorriso converte a tristeza na alegria de todos, e assim potencializa a resistência dos que lutam. Aí está a distinção entre tragédia e melodrama. Axé para os vivos.

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A faísca deste ensaio brotou de uma conversa com Fabrício Toledo, a quem rendo os créditos. Também contribuíram Sindia Santos, Moana Mayall e Ronald Duarte.