críticas
Publicado em 5 de janeiro de 2012. Comente

Se têm dois filmes que antagonizaram no cinema comercial de 2011 foram A Árvore da Vida (Terrence Malick) e A pele que habito (Pedro Almodóvar). Dois auterismes nos antípodas do mainstream.

Malick

O filme de Malick ganhou a Palma de Ouro, foi bem recebido pelos públicos e obteve muitas críticas positivas.

Um filme profundo, como repetido mil vezes. Busca a Verdade e o Bem nas coisas cotidianas. Almeja a profundidade através de realidades simples.  É suficiente uma família texana dos anos 1950, sua casa, seu quintal, seu habitat, sua vidinha suburbana de classe média do pós-guerra. Basta depurar o enredo, despsicologizar os personagens, secar os cortes e simplificar a narrativa. Basta enxergar. Propõe ir ao essencial da luz e do movimento, atrás das conexões ocultas, da big picture, do design inteligente. Parar de distrair-se com o contingente, transcender o ruído das correrias e ambições, parar e finalmente escutar. Não admira que o pensamento do irmão, em off, seja sussurrado, pois ele se se acerca da Verdade. Não tente entender. É só querer ver, sentir, aceitar! Sean Penn (Jack) sintetiza a atitude do filme, na única cena em que parece servir para algo: na praia, se prostra impotente, embasbacado, golpeado por todos os lados por uma beleza eterna e insuportável que dá vontade de chorar. Se essa é a definição do que seja poesia, é para cachorros.

Não é que o cosmos represente a psicologia dos personagens, como em Melancolia (Lars von Trier). Aqui, os personagens são arquetípicos e se escrevem com maiúsculas: o Pai, a Mãe, o Irmão. Sempre existiram, do começo ao fim dos tempos. Neste filme, o cosmo é a família e a família é o cosmo, porque tudo se resolve no Uno. Tudo é cósmico: o homem é reduzido às regularidades metafísicas de um universo orgânico, fechado, estático, medieval. A família aparece como uma forma eterna que prova a unidade transcendente do universo. Todos os signos esculpidos por Malick convergem nesse eixo de sentido. Se as personagens nadam embaixo d´água, eis o sentimento oceânico nas cercanias Dele. Se cambaleiam por cânions e pasto alto, eis a solidão diante de Seu infinito mistério. Quantos planos da luz solar atravessando folhagens, sinalizando-O? A agitação e o barulho ao redor da casa, esses fluxos só podem subsistir graças à Estrutura superior, animados por Ela, e diante do que o homem não passa de migalha. É a Natureza (fluxos) subjugada pela Graça (estrutura).

O diretor não contemporiza: consente que se trata de uma obra magna. Sob certo ponto de vista, é mesmo. A Árvore da Vida exprime uma tendência do cinema, inclusive brasileiro, que se apresenta como novidade indie-espiritual. Os truques e cacoetes saltam aos olhos. Na montagem, decupe um fluxo de imagens mais ou menos desconexas, extraia sentidos mágicos do cotidiano mais prosaico, insinue emoções profundas, invoque sentimentos oceânicos… voilá, seu filme parecerá encerrar uma Verdade, que só poderia brotar de uma sensibilidade autenticamente artística. É a moda de Árvore da Vida e seu desfile de momentos Kodak. Como é emocionante filmar a efêmera qualidade do momento, o espetáculo da vida! Terrence Malick só pode ser um visionário. Tão visionário quanto os comerciais de Calvin Klein na década de 1980. A câmera perseguindo Mrs. O’Brien não recorda aquelas tomadas de Kate Moss, que de profundas só têm a pretensão?

Se Avatar foi o Zeitgeist da juventude indie cosmopolita, como escreveu uma crítica idólatra, A Árvore da Vida contém a teodicéia para uma geração espiritualista. Deus imergiu na paisagem e se diluiu pelo cosmo, cada religião O exprime a seu modo, legítima, fiadora dos significados mais profundos e inacessíveis do universo. Também se diz Energia, Transcendência, Física Quântica, você nomeie. Agnóstica e espiritualista, a geração malickiana não se escandaliza ante a crescente separação entre religião e política. Ou seja, tolera cada vez mais as pretensões políticas da religião, que costuma se defender dizendo-se separada do debate democrático. E aí vamos perdendo tudo, pois onde a fé se politiza, cessa a democracia. Agnosticismo cúmplice de uma sociedade americana cada vez mais fundamentalista, exatamente por causa da tolerância. O problema não é o absoluto (com o que o filme convive bem), mas seus janízaros.

É, realmente, um filme apaziguado com personagens apaziguados para públicos apaziguados.

Anti-Malick

Que boa notícia o último filme de Almodóvar chegar ao circuito comercial com uma força equivalente à obra prima de Terrence Malick. Eis o antídoto! Porque A pele que habito está na trincheira do outro lado. Um filme de espírito. Não “espírito” no sentido de alma capaz de contemplar Brahms e esperar a graça. Mas no sentido de caráter, de personalidade, de geniosidade, no sentido que Orson Welles e Ian Curtis conferem à palavra spirit. Espirituoso, não espiritualista.

Neste filme, os gêneros do cinema comparecem menos para estruturar a narrativa do que engrossar e desordenar os fluxos. Um bom filme abusa dos gêneros e não deixa ser usado por eles. Acessa o manancial de signos e ressignifica-os para saturar a obra de novas intencionalidades, contra qualquer impulso de depuração metafísica, de pureza cinematográfica. Quebra-cabeça transgenérico cujas peças vêm de jogos diferentes. Almodóvar bebe do terror, do suspense, da ficção científica, do filme-de-prisioneiro, mas sobretudo do melodrama. Retorcidos e reutilizados também os temas de sua filmografia: a traição, a obsessão, a solidão, a sexualidade transgressiva e o transformismo; as sequências com revelações, reviravoltas, crueldades, assassinatos; os fetiches sexuais e as motivações pouco convincentes, os flash-backs mais vagabundos como numa novela mexicana. Profana os gêneros e a si mesmo, força-os junto do modo mais genialmente inverossímil, — enraba-se artisticamente, fazendo das vias antinaturais o cadinho da criação. É o material profanado e baixo que importa.

Enquanto A Árvore da Vida reverencia o plano superior que só pode ser pressentido em momentos de iluminação, o filme do espanhol homenageia o senso de teatro, a mania de intriga, o capricho. Ofende as regularidades, as naturezas, os arquétipos, a ordem universal dos contrários. Não há nada de iluminado, sentimental ou profundo nas expressões e motivações dos personagens. Não tem isso de espiritualismo: as coisas sucedem no nível da pele, os acontecimentos espraiam-se pela superfície. É a superfície contra todas as profundidades: a epiderme, o decote, a cor berrante, as texturas das paredes e roupas.

Fazer do homem a mulher não se resolve em nenhuma operação mística. É pegar DNA de homem e DNA de porco e partir para cirurgias, tratamentos, experimentos (de cinema). Enquanto as memórias podem ser apagadas com drogas, televisão e ioga, num exercício nada grandiloquente de esquecimento ativo. O grotesco dá o tom. O tigrão bem dotado brasileiro é mesmo um tigrão bem dotado brasileiro e um estupro é um estupro. E também não tem nada de mais: só deixou Vera um pouco dolorida para transar com dr. Robert mais tarde. Ato que reconhece o feminino em sua força de superar o sofrimento e esquecê-lo sem traumas. Razão pela qual Vicente pode sobreviver à vaginoplastia, em seu devir-mulher. Quem fica traumatizado se mata e não conta com nenhuma condescendência. São ridicularizados pelo filme. A castração e o estupro não são, afinal, grande coisa. Os personagens de espírito tiram de letra. Almodóvar deliciosamente ultrajante, coisa que, no cinema recente, só vi em Jorge Molina (Chapeuzinho vermelho do inferno, 2010) e Cláudio Assis (Baixio das bestas, 2006, a poderosíssima cena em que ela se lava no rio). Não é um filme palatável a públicos conservadores. Tampouco agradará os politicamente corretos. Talvez sirva aos beatos da bioética para falar do perigo da manipulação genética. Ou quem sabe para cientistas sociais mais descolados discorrerem sobre a biopolítica contemporânea. Os indies vão achá-lo over. Os cineastas de nova safra, demasiado autoral.

De qualquer modo, é um anti-Malick. A pele que habito não quer saber de Deus. Não é que Deus não importe, é que se faz imperativo atacá-lo com a paródia e o ridículo. Estuprar Deus. Um estado de violação permanente, carnaval de horrores de Édipo a Frankenstein. Estilista do monstruoso, polimorficamente perverso, conjura Deus e o Diabo num humanismo transgressor onde o homem é causa de si. Antropogênese: cria o homem e é a imagem do homem e não há nada mais. Um Shakespeare kitsch, um Nietzsche sem grandiloquência.

Conclusão

Os últimos longas de Malick e Almodóvar se confrontam diretamente. Habitaram os antípodas do cinemão de 2011. Colocados lado a lado, lutam até a morte, sem síntese, sem diálogo possível.

Publicado em 7 de agosto de 2011. Comente

Crítica: Melancolia (Melancholia), Lars von Trier, 2011, Dinamarca, cor, 130 min.  Publicado originalmente no Amálgama, em 5 de agosto.

Lars von Trier costuma provocar a audiência. É comum seus filmes retesarem o arco dramático até o limite da ruptura. Para, a seguir, mostrar que podem se estender ainda mais além, antes da romper. E então rompê-los. Em Dançando no escuro (2000) e Dogville (2003), isso se dá com a extrema flagelação a que são submetidas as personagens Selma (Björk) e Grace (Nicole Kidman). Em Anticristo (2009), com a brutalidade ensandecida em que imerge a protagonista (Charlotte Gainsbourg). A radicalização do conflito extrapola o senso de medida, e acaba por distanciar a audiência, pelo excessivo desconforto. O diretor obtém esse efeito de modo calculado, através de um domínio quase esquemático das “regras do jogo”, dos elementos do drama.

Melancolia, diferentemente, é um drama psicológico mais meditativo. Não se verão as passagens gore de Anticristo, nem a humilhação farsesca dos outros dois filmes citados. O sentimento contém-se, a tristeza suaviza-se, adocica-se. Neste filme, há estranheza por toda parte, mas não o estranhamento propriamente dito. Lars convoca a cumplicidade do espectador, menos que a sua confrontação.

O prólogo abre com dez minutos de imagens do espaço sideral, estrelas, astros em revolução, a colisão entre a Terra e um outro planeta, o cataclisma. Ao som de “Tristão e Isolda”, de Richard Wagner, o mundo acaba. A ficção científica aqui não comparece senão para aprofundar a interrogação sobre o humano. Como em Solaris (1972), de Andrei Tarkovski, a viagem para fora pretexta um mergulho na interioridade. O lá fora, espelho da alma, já é aqui dentro. Referência assumida do diretor dinamarquês, o planeta Solaris reatualiza-se como Melancholia. Ambos enigmas perturbam as pessoas. Os personagens analisam-no com o telescópio, estudam a sua mecânica celeste, mas, no fundo, eles que estão sendo observados pelo astro autoconsciente.

A primeira metade do filme (“Justine”) se passa num château na montanha, onde acontece a festa de casamento de Justine (Kirsten Dunst, irretocável). Com traços do Dogma 95 – o hoje abandonado manifesto de cineastas anticomerciais –, filma-se com a câmera na mão, cortes secos, falas curtas, som ambiente. Até a temática lembra o primeiro longa elaborado segundo o Dogma: Festa de Família (1998), de Thomas Vinterberg. O fim do mundo é a família. Os noivos entram em cena sorridentes e à vontade, na estrada antes de chegar, mas a noite vai ser um desastre completo. Crises de depressão, confrontos familiares, cobranças, recriminações, insultos, cenas constrangedoras, choros e decepções, tudo isso oprime Justine. A iluminação de um amarelo “aquecido” reforça a atmosfera irrespirável do castelo, entre mordomos e convidados-fantoches, empacotados em smokings. Não haverá casamento.

O papel de Justine fica mais claro na segunda metade do longa, intitulada “Claire”. Mistura de Ofélia e Cassandra, Justine combina um profundo entedimento sobre a realidade humana com uma passividade mortificante. E exemplifica, como na peça de Shakespeare, a irônica condição humana: sabe perfeitamente o seu destino, mas nada pode fazer a respeito. Fatalista, paralisada, Justine é a única a comunicar-se com Melancholia e conhecer a verdade fatal: “a humanidade é má”. Não poderia ser outro o desfecho senão o Apocalipse, que o também depressivo Lars von Trier apresenta-nos em devastadores planos em tecnologia CGI.

Não seria o château onde se passa Melancolia, outra ilha imaginária do Oceano, outro simulacro onde se perde e se entreva o psicólogo Kelvin? Como na última cena de Solaris, neste filme o tempo e o seu final, toda a escatologia, estão dentro de nós mesmos.

Menos que grandiloquência em tintas cósmicas, em Melancolia tem-se uma cosmovisão artística ultrarromântica, pra quem o mundo não passa de um pesadelo inescapável e iniludível, onde apodrecemos.

Publicado em 23 de julho de 2011. Comente

Crítica: Meia noite em Paris (Midnight in Paris), Woody Allen, 2011, EUA/Espanha, 100 min.


Woody Allen é um pessimista, quase um fatalista. Mas o pessimismo dele não renuncia à visão romântica da vida. Seus filmes estão imbuídos de uma condescendência, quiçá encantamento, diante da banalidade atroz que nos cerca e anula por todos os lados o tempo todo. Mordaz especialmente com os ricos, os deslumbrados e os autoindulgentes, Allen chega a ser obsessivo em sua temática de reencantar a existência, de encontrar a beleza nas pequenas sutilezas do cotidiano. Embora ele mesmo não acredite muito nisso. É como se ele não conseguisse engajar-se totalmente no que acontece. Guarda certa distância, certo grau inafastável de descrença e ironia.

Em Meia noite em Paris, Allen chega às raias do escárnio ao retratar turistas americanos em viagem à Paris. A noiva Inez a reduz a uma cidade de compras e museus, e passa o filme ignorando sistematicamente os desejos do noivo e protagonista, Gil Pender. Os pais dela, Helen e  John, ricos e convencionais, só se interessam por quanto as coisas custam, quanto as pessoas ganham, e o que vão comer no jantar. O amigo, Paul, passeia por pontos turísticos pavoneando-se com uma típica “erudição de catálogo”, incapaz de sair dos lugares comuns — um típico e ególatra intelectual, atrás de belas mulheres e reconhecimento fácil. A câmera colhe a banalidade geral no nível dos gestos e expressões.

Somente Gil, alter ego de Allen, exprime sensibilidade para tentar desviar desse mundo achatado e previsível.  Como bom fatalismo, não deixa de comparecer a autoironia. O personagem trabalha em Hollywood escrevendo roteiros de cinemão, uma atividade lucrativa que ele quer abandonar. No meio do caminho da vida, ambiciona um mundo além da parede de mau gosto e aburguesamento. Romântico, sabe saborear uma caminhada na chuva e um disco antigo de Cole Porter. E flana por praças iluminadas, ruas tortuosas e formosos bulevares, atrás de uma inspiração que não vem.

No entanto, seu cotidiano banal o prende, está amarrado às relações vazias com a noiva e a profissão, falta-lhe um empurrão. Que acontece graças à fantasia cinematográfica, como em A rosa púrpura do Cairo. Gil descobre casualmente uma máquina do tempo e é arremessado a seu sonho de idade de ouro. Participa de festas da boemia ilustrada, frequenta a casa de intelectuais de Gertrud Stein, conversa com Scott Fitzgerald, Hemingway, Picasso. Apaixona-se por uma musa, vive um romance lírico. No melhor espírito modernista antiburguês, Gil parece ter encontrado o seu habitat e os seus iguais.

Mas aí a autoironia dá um novo passo. O sonho dourado se revela uma mistificação. Os personagens literários não vão além de caricaturas, vulgatas e citações. Afinal, o passado por si só não tem como reencantar o mundo, senão como nostalgia que nega o presente. A paixão, apenas mais uma ilusão. O romantismo se desencanta. Só então, ao resgatar uma honestidade vital plena, Gil está pronto para mudar de vida e tornar-se, sem ilusões, o que deseja para si. Agora, no seu mundo, como tem de ser. Conclui-se a inteligente parábola.

Curioso o modo como Meia noite em Paris tem sido incensado pela maioria da crítica e Allen, depois de 41 filmes, plantado num pedestal. Talvez, atrás da rotina patética de premières, festivais e holofotes, atrás das cortinas, ele esteja esboçando um sorriso maroto. Como diria o honestíssimo Hemingway, “se você obtém sucesso, é sempre pelas razões erradas; se você se torna popular, é sempre pelos piores aspectos de seu trabalho”.

Publicado em 28 de maio de 2011. Comente

Leonardo é um designer de sucesso. Chegou lá, venceu na carreira artística. Ficou rico e famoso. Antenado e cosmopolita, fala vários idiomas, mantém um elegante site e expõe em bienais européias. Dá aulas e entrevistas em sua própria casa, ditando as regras. Mora com esposa e filha na única casa desenhada por Le Corbusier nas Américas, no bairro La Plata, em Buenos Aires. Um edifício cartesiano, racional, arejado, forrado de janelas e painéis de vidro e, assim, inundado por luz natural.

Todos os dias, turistas e fãs da arquitetura frequentam-lhe o jardim, à frente da casa. Leonardo não se importa, desde que permaneçam do lado de fora. A entrada principal é sintomaticamente guardada por uma porta suspensa no vazio. Não há preocupação por segurança.

Até que aparece Victor, um machão rude e brega porém simpático, uma espécie de “Filipão” argentino. Às marteladas, começa a abrir um buraco numa parede de fundos. Tudo indica que está construindo uma janela com vista diretamente para a casa de Leonardo. Antípoda à construção burguesa de Le Corbusier, a moradia popular de Victor não aufere nenhuma luz solar.

A invasão perturba a harmonia de Leonardo. Gera uma crise, e dela iniciam-se revelações sobre a verdadeira natureza do artista. Revela o seu preconceito inconfesso, o seu sentimento de superioridade, o seu falso cosmopolitismo, as suas relações egoístas com a mulher, a filha, os amigos, os empregados, os estudantes. Ficamos sabendo que desdenha da esposa, ignora a filha e humilha uma entrevistadora. Numa das cenas, assedia explicitamente uma das alunas e acha que “é a melhor proposta que ela já recebeu na vida”. Sua presença em cena imanta a câmera. Fica centralizado em primeiro plano em quase todas as sequências. O diretor não tem dúvida que é com ele que o público dos multiplexes irá identificar-se.

Mais do que ainda outra crítica virulenta à antropologia da classe-média, o filme desconstrói a “classe artística”, — essa que se julga iluminada, especialíssima e metafisicamente criativa. Leonardo personifica o artista ultra-individualista, cuja imagem “moderna” e “socialmente responsável” serve para mistificar-se narcisicamente, incrementar seu valor de mercado e lucrar em cima. É o autor burguês que legitima a indústria cultural, que a seu passo não cansa de incensá-lo para vender as suas mercado… obras.

Sob o olhar de Leonardo, Victor parece um bárbaro. De fato, ele é filmado no escuro de seu apartamento, do furgão, da noite, como vindo das sombras da civilização da classe-média. É um “animal”, imprevisível, espontâneo, à flor da pele, capaz de tudo. Se Leonardo aceita e até se envaidece da presença de madames comportadas no seu jardim, não tem como conviver com o genuinamente outro: alguém de outra extração social-cultural. Confrontado com a determinação do vizinho em construir a janela, — e destarte, aos poucos, penetrar no racional espaço burguês, — passa a tentar dissuadi-lo por subornos, intimidações através de terceiros e ameaças jurídicas. Quando nada disso funciona, Leonardo se amedronta, chora, desespera-se.

A luta de classes está presente desde o primeiro plano. O martelo dos socialistas arromba a parede entre os lados branco e preto, e daí se instaura um antagonismo irresolúvel. Sem estudos existenciais tipicamente pequeno-burgueses, “O homem ao lado” foca a injustiça das relações entre ricos e pobres, bem como o esforço de uma classe para legitimar-se por meio de alta cultura, modernidade e civilidade. Uma aparência civilizatória que, no fundo, encobre a violência social. Como Victor acredita que poderia se tornar amigo de Leonardo, não poderia ser outro o desfecho. O filme não crê em síntese dialética.

Publicado em 14 de maio de 2011. Comente

Em Maelström, filme de 2000 do mesmo diretor quebequense, assistimos à extração cirúrgica de um feto ao som de “Good Morning, Starshine“. No começo de Incêndios (2010), sucesso-de-crítica-e-público, ouvimos Radiohead enquanto crianças endurecidas, de algum lugar do Oriente Médio, têm os cabelos raspados por guerrilheiros, presumivelmente aguardando um destino sombrio.

De fato, destino sombrio sintetiza bem o que acontecerá na tela.

Se os dilemas pessoais de Maelström caíam no gênero existencial, Incêndios banha-se na tragédia. Lá, conflagração interior e angústia. Aqui, personagens aplainados, sem muita psicologia, reduzidos a joguetes de uma verdade terrível, que fatalmente se abaterá sobre todos.

A referência só pode ser Édipo. Um drama familiar, bem ao gosto do senso comum de multiplex, ganha contornos trágicos. Não há closes de melodrama nem autocomiseração humana. O sofrimento recebe-se com secura, pois inevitável. Existe atitude mais trágica do que cantar enquanto se aguarda a vez de ser torturado? Como na fala de Paulo Martins (Terra em Transe), a mais trágica das criaturas glauberianas: “é preciso resistir e é preciso cantar”.

Como na peça grega, tem-se um quebra-cabeças que só vai revelar-se aos personagens no final, embora o espectador saiba antes. É que o enredo se desenrola de dois tempos, alternando presente e flashback. Um esquema trivial, mas que se justifica. Usualmente, o flashback vem em socorro de algo que ocorre no presente, explicando-o, como seqüência lógica. Em Incêndios, contudo, o passado em flashback antecipa o que acontecerá no presente, mostrado a seguir. Assim, quando os irmãos vão descobrir uma nova peça do quebra-cabeças, já sabemos do que se trata, porque a cena em flashback já nos mostrou. Como se fosse um flash-forward.

Assim como em Édipo, não só sabemos de antemão a verdade, mas também que chegará a hora fatal dela ser revelada aos pobres mortais na história. Mas o personagem epônimo está faltando. Pelo menos na maior parte do filme. Essa história é contada por outros parentes: a mãe, os irmãos, o amigo advogado. Os irmãos se encarregam de juntar os estilhaços da biografia materna, tanto mais horrenda quanto mais próximos do fim da charada. A mãe, no tempo passado, vive o horror. Porém, como na tragédia, o filme não se envolve em demasiado com as vítimas: a câmera guarda distância, insensível, implacável. Daí a cena da menininha morta pelas costas destoar do conjunto, pela estetização (do inestetizável).

O palco da tragédia se passa no Líbano, mas isso pouco importa. Poderia ser qualquer região convulsionada do planeta. Não há tomada de posição. Mesmo porque, para o filme, as verdadeiras vítimas são os civis de ambos os lados, indiscriminadamente trucidados em sequências de sangue e gritos. Numa cena, um franco-atirador mata qualquer um que cruze a sua linha de tiro.

Em Incêndios, o Oriente Médio não passa de um mundo ínfero sem sentido ético ou político. Um mundo além da interpretação, um poço inesgotável de fanatismo, ódio, brutalidade e vendeta. É a realização do absurdo camuseano, porém sem espaço para uma vida absurdamente vivida. Qualquer passo mal dado leva à morte imediata. E pior, indiferente. Como na aula de matemática pura do começo do filme, “sejam bem-vindos ao reino da solidão”, da recriminação, da coletivização da culpa. Nenhum discurso aqui pode servir para nada. Todas as variáveis se anulam numa equação sem solução, ficando apenas uma constante: sofrimento.

Vago, genérico, mistificado? Perplexo. Por um lado, não apresenta horizonte. Por outro, essa falta não deixa de configurar, ela mesma, um certo olhar: a estupefação diante da catástrofe. Não admira que só reste como desfecho um rasgo messiânico. Tão religioso quanto os credos em conflito, mas em vez de levantar as mãos contra o inimigo, joga-as aos céus atrás de redenção. Solução que, suponho eu, é forjada de fora da família edipiana, por meio da figura do advogado. Um terceiro excluído, não por acaso ocidental, que resolve pôr fim à vingança infinita.

Enfim, perdoemos o agressor, porque somos todos culpados, rompamos o ciclo vicioso, amemos incondicionalmente e vivamos em paz. Ingênuo? Insuficiente.

Publicado em 24 de abril de 2011. Comente

São humanistas. Não tomam nenhum partido, senão o da humanidade. Querem ajudar as pessoas e está bem. Não se metem na política e não fazem questão de formar opinião. Permanecem neutros no que não podem saber com conhecimento de causa. Sua lealdade está com os pobres. Preferem ficar com o rebanho que lhes compete. Quando o mal absoluto irrompe, alguns estremecem. O instinto de autopreservação protesta. Instala-se o tema da reconversão. Ao final, todos se unem ao redor da missão humanitária, fiéis à devoção pessoal de cada um. Sacrificam-se por um bem maior, segundo o ensinamento de Jesus.

Homens e Deuses trata de pessoas ingênuas que, diante da sentença da morte, não se acovardaram. Fortaleceram-se junto de seu líder espiritual eleito, e foram até o fim. O drama não conclui com os assassinatos, que permanecem fora do plano. Dilui-se na espera ao mesmo tempo pacata e obsedante da violência, abordada sem falsos grandes sentimentos. Dilemas, debates, hesitações, autorreflexões — os frades de esquerda precisam se converter novamente, lembrar para si o real significado de sua profissão de fé. A sequência catártica da Santa Ceia, com vinho e Tchaikovski, beira o kitsch. Longe de frustrar o drama, reafirma o caráter telúrico e mesmo simplório desses pobres idealistas numa terra conflagrada pela brutalidade e fanatismo.

A direção mundaniza os personagens, concede-lhes face imperfeita, demasiado humana, ressalta sobretudo que são como nós, nunca deuses nem seus mártires. Se os rostos em close remetem a Carl T. Dreyer e o minimalismo cênico a Robert Bresson, nada há aqui de transcendental. Nesse filme, o sentido de Jesus está na terra, e afirma a vida no contato com o outro. Menos sacrifício que generosidade. Xavier Beauvois está consciente da contradição inerente à própria existência do mosteiro. Aí também está a oposição entre colonizadores e colonizados, que o filme tinge de um multiculturalismo duvidoso. Mas isso não afasta a simpatia de toda a composição pelos que provam estar vivos, por não temerem morrer como homens, isto é, uma única vez.

História real de um mosteiro trapista invadido na calada da madrugada pela guerrilha islamista, em 1996, na Argélia. Sete monges foram sequestrados e eventualmente assassinados (num caso até hoje mal-resolvido). É um filme modesto, que prima pela simplicidade, com que narra a tragédia de pacifistas e ingênuos consumidos pelas fogueiras da história.

Publicado em 17 de abril de 2011. Comente

Crítica: O retrato de Dorian Gray, Oliver Parker, Reino Unido, 2009, cor, 112 min.

 

Fac-símile do único romance de Oscar Wilde, o filme tenta resgatar o tema do pacto faustiano no ambiente lúgubre da Londres vitoriana. O herói do título vende a alma ao diabo, em troca das únicas coisas que valeriam a pena ter: beleza e juventude. E para sempre: o retrato envelhece no lugar do retratado, e vai absorvendo as marcas e agruras sucessivamente sustentadas por Dorian. Rica de sentidos e interpretações na literatura, o diretor Oliver Parker achata a história num pastiche de horror de segunda mão e pornô soft. Alguns cortes secos na elaboração do ritmo e planos em primeira pessoa esboçam pretensão autoral, mas ela rapidamente submerge no oceano de macetes e clichês.

Tudo neste longa resta bastante artificial e óbvio: orgias com cobras e danças africanas, ruas cinzentas com mendigos e assassinos, mansão com sótão mal-assombrado, pesadelos misteriosos em flash-back. A reconstituição de Londres com CGI reforça o chavão geral: o fog, as chaminés, o lúgubre Tâmisa, uma atmosfera sinistra onde Jack Estripador poderia surgir de qualquer esquina.

Os personagens retraem a pálidos reflexos. A alma torturada do Dorian original reaparece em ceninhas básicas de choro. O pintor Basil enquadrado numa espécie de “homonormatividade”, tão dissonante à obra de Wilde. O filme também revisita Lord Henry Wotton, agora um aristocrata amargurado e hipócrita, que manipula o protagonista. Até poderia funcionar, não fosse o roteiro, que chega a colocá-lo fazendo apostas sobre o desempenho sexual do pupilo (uma das piores seqüências). Se o Lord Henry interpretado por George Sanders, na versão em preto-e-branco de 1945, lia Flores do Mal, este parece viciado em canais pornôs B. De fato, sem rascunho de lascívia, as cenas (pretensamente) eróticas perdem até para séries televisivas da BBC e novelas “globais”.

A impressão que fica é de que Parker adaptou O retrato de alguma sinopse para vestibulandos preguiçosos. Se o romance de 1890 abordava desde o estatuto da arte representativa até as relações de classe e sua imagem, no coração do capitalismo industrial; o filme de 2009 é tão oco quanto o personagem epônimo, e ainda por cima sem charme. Como diria o escritor, não é questão de ser moralista: é ruim mesmo.

Incrível como basta invocar títulos da boa literatura que qualquer charlatão com uma câmera consegue levar-nos ao cinema.

Publicado em 2 de abril de 2011. Comente

Crítica: 127 Horas, Danny Boyle, EUA, 2010, 97 minutos, cor.

Do mesmo diretor, Trainspotting quebrou a banca em Cannes 1996. Um uivo. Baseado num romance de fluxo de consciência por Irvine Welsh, esse filme transfigurou em imagem e som a tão rica narrativa da tão pobre juventude do pós-punk, pós-história, pós-HIV. Trainspotting submergiu no caldo subcultural de uma geração sem lugar nem perspectiva. Lá no fundo do vômito e da merda, essa geração pós-tudo reencontrou a salvação em cores alucinadas, embalada pelo tecno, entre anfetaminas, ansiolíticos, metadonas e opióides. Eis aí a geração na corrupção, o reverso do desvalor como o desejo que insiste em pulsar nos “niilificados”. Por isso, o mergulho escatológico de Ewan McGregor foi um dos eventos emblemáticos da década de 1990.
Não há nada em comum entre a obra seminal de Danny Boyle e 127 Horas. Sim, não precisaria ter. Todos os realizadores, aliás a produção cultural como um todo reinventam-se a cada vez (ex.: Alain Resnais, talvez quem mais explicite um ímpeto constante de renovação). O problema ocorre, exatamente, quando se fecha a obra. Aí, a inovação poética se converte em cosmética auto-indulgente, os recursos formais em tiques e truques, o vigor do uivo em ecos esmaecidos. Foi o que aconteceu com o último longa de Danny Boyle.
Trainspotting foi tão significativo porque, lá, o delírio não se resumia a jogo de cena, a um drama psicológico. O frenesi do ritmo e os recursos alucinatórios serviam para formular um mundo inteiro, sem perder de vista o plano narrativo. Havia todo um olhar e sentir atrelados às explosões coloridas, aos movimentos violentos de câmera, à crueldade fabular. A narrativa delirante encorpava uma voz, daí sua potência calcinante à flor da pele de públicos e críticos.
Aqui, em 127 Horas, não. Parece que a mão do diretor ficou presa junto do protagonista. O filme volta à psicanálise clássica. Delira-se sobre a família, sobre o pai e a mãe. A dor e o sofrimento são negados como culpa, e a salvação vem pelo impulso de autopreservação biológica. Sai a ópera da crueldade, entra o teatrinho piegas: a luta pela sobrevivência e a perpetuação da espécie. O filme reduz o delírio ao psicologismo, e brocha qualquer tônus criativo ante a intimidade do personagem. Quão longe se está do fluxo de consciência de Welsh!
Não se trata, aqui, de preocupação com a partilha da situação, em um viver-junto do personagem, como escreveram alguns comentadores (por que isso deveria ser o tema, oras?), mas sim com a incapacidade de articular sentidos e exprimir uma linguagem libertadora e constituinte.
Não à toa, a temática da falta, numa narrativa que, de fato, está faltando em muita coisa: em desejo, em agressividade, e mesmo em pulsão de vida. Não por acaso, 127 Horas tenha sido comparado à estética de comerciais de TV. Que é a publicidade senão a captura do desejo, mediante subprodutos narrativos que o embalam, o fecham e nele põem preço? Não tem nada de contemporâneo aí, a não ser o fato de repercutir a lógica do espetáculo que impregna o capitalismo hoje.
O filme suplicia o público mais que o personagem: toma-o por mero consumidor. Estupidifica-o com imagens e sons ao redor de um vazio semântico e sintático. Se o sonho providencial de princesa de Quem quer ser milionário já deitara o outrora potente Danny Boyle no caixão, agora 127 Horas bate os últimos pregos.