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Publicado em 5 de janeiro de 2012. Comente

Se têm dois filmes que antagonizaram no cinema comercial de 2011 foram A Árvore da Vida (Terrence Malick) e A pele que habito (Pedro Almodóvar). Dois auterismes nos antípodas do mainstream.

Malick

O filme de Malick ganhou a Palma de Ouro, foi bem recebido pelos públicos e obteve muitas críticas positivas.

Um filme profundo, como repetido mil vezes. Busca a Verdade e o Bem nas coisas cotidianas. Almeja a profundidade através de realidades simples.  É suficiente uma família texana dos anos 1950, sua casa, seu quintal, seu habitat, sua vidinha suburbana de classe média do pós-guerra. Basta depurar o enredo, despsicologizar os personagens, secar os cortes e simplificar a narrativa. Basta enxergar. Propõe ir ao essencial da luz e do movimento, atrás das conexões ocultas, da big picture, do design inteligente. Parar de distrair-se com o contingente, transcender o ruído das correrias e ambições, parar e finalmente escutar. Não admira que o pensamento do irmão, em off, seja sussurrado, pois ele se se acerca da Verdade. Não tente entender. É só querer ver, sentir, aceitar! Sean Penn (Jack) sintetiza a atitude do filme, na única cena em que parece servir para algo: na praia, se prostra impotente, embasbacado, golpeado por todos os lados por uma beleza eterna e insuportável que dá vontade de chorar. Se essa é a definição do que seja poesia, é para cachorros.

Não é que o cosmos represente a psicologia dos personagens, como em Melancolia (Lars von Trier). Aqui, os personagens são arquetípicos e se escrevem com maiúsculas: o Pai, a Mãe, o Irmão. Sempre existiram, do começo ao fim dos tempos. Neste filme, o cosmo é a família e a família é o cosmo, porque tudo se resolve no Uno. Tudo é cósmico: o homem é reduzido às regularidades metafísicas de um universo orgânico, fechado, estático, medieval. A família aparece como uma forma eterna que prova a unidade transcendente do universo. Todos os signos esculpidos por Malick convergem nesse eixo de sentido. Se as personagens nadam embaixo d´água, eis o sentimento oceânico nas cercanias Dele. Se cambaleiam por cânions e pasto alto, eis a solidão diante de Seu infinito mistério. Quantos planos da luz solar atravessando folhagens, sinalizando-O? A agitação e o barulho ao redor da casa, esses fluxos só podem subsistir graças à Estrutura superior, animados por Ela, e diante do que o homem não passa de migalha. É a Natureza (fluxos) subjugada pela Graça (estrutura).

O diretor não contemporiza: consente que se trata de uma obra magna. Sob certo ponto de vista, é mesmo. A Árvore da Vida exprime uma tendência do cinema, inclusive brasileiro, que se apresenta como novidade indie-espiritual. Os truques e cacoetes saltam aos olhos. Na montagem, decupe um fluxo de imagens mais ou menos desconexas, extraia sentidos mágicos do cotidiano mais prosaico, insinue emoções profundas, invoque sentimentos oceânicos… voilá, seu filme parecerá encerrar uma Verdade, que só poderia brotar de uma sensibilidade autenticamente artística. É a moda de Árvore da Vida e seu desfile de momentos Kodak. Como é emocionante filmar a efêmera qualidade do momento, o espetáculo da vida! Terrence Malick só pode ser um visionário. Tão visionário quanto os comerciais de Calvin Klein na década de 1980. A câmera perseguindo Mrs. O’Brien não recorda aquelas tomadas de Kate Moss, que de profundas só têm a pretensão?

Se Avatar foi o Zeitgeist da juventude indie cosmopolita, como escreveu uma crítica idólatra, A Árvore da Vida contém a teodicéia para uma geração espiritualista. Deus imergiu na paisagem e se diluiu pelo cosmo, cada religião O exprime a seu modo, legítima, fiadora dos significados mais profundos e inacessíveis do universo. Também se diz Energia, Transcendência, Física Quântica, você nomeie. Agnóstica e espiritualista, a geração malickiana não se escandaliza ante a crescente separação entre religião e política. Ou seja, tolera cada vez mais as pretensões políticas da religião, que costuma se defender dizendo-se separada do debate democrático. E aí vamos perdendo tudo, pois onde a fé se politiza, cessa a democracia. Agnosticismo cúmplice de uma sociedade americana cada vez mais fundamentalista, exatamente por causa da tolerância. O problema não é o absoluto (com o que o filme convive bem), mas seus janízaros.

É, realmente, um filme apaziguado com personagens apaziguados para públicos apaziguados.

Anti-Malick

Que boa notícia o último filme de Almodóvar chegar ao circuito comercial com uma força equivalente à obra prima de Terrence Malick. Eis o antídoto! Porque A pele que habito está na trincheira do outro lado. Um filme de espírito. Não “espírito” no sentido de alma capaz de contemplar Brahms e esperar a graça. Mas no sentido de caráter, de personalidade, de geniosidade, no sentido que Orson Welles e Ian Curtis conferem à palavra spirit. Espirituoso, não espiritualista.

Neste filme, os gêneros do cinema comparecem menos para estruturar a narrativa do que engrossar e desordenar os fluxos. Um bom filme abusa dos gêneros e não deixa ser usado por eles. Acessa o manancial de signos e ressignifica-os para saturar a obra de novas intencionalidades, contra qualquer impulso de depuração metafísica, de pureza cinematográfica. Quebra-cabeça transgenérico cujas peças vêm de jogos diferentes. Almodóvar bebe do terror, do suspense, da ficção científica, do filme-de-prisioneiro, mas sobretudo do melodrama. Retorcidos e reutilizados também os temas de sua filmografia: a traição, a obsessão, a solidão, a sexualidade transgressiva e o transformismo; as sequências com revelações, reviravoltas, crueldades, assassinatos; os fetiches sexuais e as motivações pouco convincentes, os flash-backs mais vagabundos como numa novela mexicana. Profana os gêneros e a si mesmo, força-os junto do modo mais genialmente inverossímil, — enraba-se artisticamente, fazendo das vias antinaturais o cadinho da criação. É o material profanado e baixo que importa.

Enquanto A Árvore da Vida reverencia o plano superior que só pode ser pressentido em momentos de iluminação, o filme do espanhol homenageia o senso de teatro, a mania de intriga, o capricho. Ofende as regularidades, as naturezas, os arquétipos, a ordem universal dos contrários. Não há nada de iluminado, sentimental ou profundo nas expressões e motivações dos personagens. Não tem isso de espiritualismo: as coisas sucedem no nível da pele, os acontecimentos espraiam-se pela superfície. É a superfície contra todas as profundidades: a epiderme, o decote, a cor berrante, as texturas das paredes e roupas.

Fazer do homem a mulher não se resolve em nenhuma operação mística. É pegar DNA de homem e DNA de porco e partir para cirurgias, tratamentos, experimentos (de cinema). Enquanto as memórias podem ser apagadas com drogas, televisão e ioga, num exercício nada grandiloquente de esquecimento ativo. O grotesco dá o tom. O tigrão bem dotado brasileiro é mesmo um tigrão bem dotado brasileiro e um estupro é um estupro. E também não tem nada de mais: só deixou Vera um pouco dolorida para transar com dr. Robert mais tarde. Ato que reconhece o feminino em sua força de superar o sofrimento e esquecê-lo sem traumas. Razão pela qual Vicente pode sobreviver à vaginoplastia, em seu devir-mulher. Quem fica traumatizado se mata e não conta com nenhuma condescendência. São ridicularizados pelo filme. A castração e o estupro não são, afinal, grande coisa. Os personagens de espírito tiram de letra. Almodóvar deliciosamente ultrajante, coisa que, no cinema recente, só vi em Jorge Molina (Chapeuzinho vermelho do inferno, 2010) e Cláudio Assis (Baixio das bestas, 2006, a poderosíssima cena em que ela se lava no rio). Não é um filme palatável a públicos conservadores. Tampouco agradará os politicamente corretos. Talvez sirva aos beatos da bioética para falar do perigo da manipulação genética. Ou quem sabe para cientistas sociais mais descolados discorrerem sobre a biopolítica contemporânea. Os indies vão achá-lo over. Os cineastas de nova safra, demasiado autoral.

De qualquer modo, é um anti-Malick. A pele que habito não quer saber de Deus. Não é que Deus não importe, é que se faz imperativo atacá-lo com a paródia e o ridículo. Estuprar Deus. Um estado de violação permanente, carnaval de horrores de Édipo a Frankenstein. Estilista do monstruoso, polimorficamente perverso, conjura Deus e o Diabo num humanismo transgressor onde o homem é causa de si. Antropogênese: cria o homem e é a imagem do homem e não há nada mais. Um Shakespeare kitsch, um Nietzsche sem grandiloquência.

Conclusão

Os últimos longas de Malick e Almodóvar se confrontam diretamente. Habitaram os antípodas do cinemão de 2011. Colocados lado a lado, lutam até a morte, sem síntese, sem diálogo possível.

Publicado em 13 de outubro de 2011. Comente

Neste número:

O cinema de Alain Resnais em debate, ao redor de Providence (1977).

Discussão sobre o censurado Serbian Film (Srđan Spasojević, 2010).

Especial da diretora brasileira Laís Bodanzky

E mais dezessete críticas e três artigos, da revista de que participo com blogueiros, cinéfilos e críticos de fina estampa.

Publicado em 7 de setembro de 2011. Comente

Vale a pena conhecer o novo formato do Cinefilia.NET

Fica também o link para o especial Eric Rohmer, que republica textos do Quadrado dos loucos, de Pedro Henrique e de Leandro Calbente, cobrindo vinte e quatro filmes do diretor.

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O Cinefilia é editado por Fábio Rockenbach e Pedro Henrique Gomes (Tudo é Crítica), e ainda conta com os redatores Bruno Carmelo, Thiago Borges, Bernardo Versiani, Márcio Andrade, Guilherme Pilotti, João Paulo Rodrigues, Leandro Calbente, Otávio Almeida, André Renato, Marcus Vinícius Freitas e este blogueiro.

Publicado em 22 de janeiro de 2011. Comente

Crítica completa da sextologia, pelo QdL:

Antes de cineasta, Éric Rohmer (1920-2010) foi jornalista, escritor e cinéfilo. Admirador dos críticos André Bazin e Jacques Doniol-Valcroze, Rohmer escrevia na legendária revista Cadernos de Cinema, na década de 1950. Seu longa-metragem de estréia, O signo do leão, data de 1959, quando o diretor contava 39 anos. Era o mais velho dos jovens turcos, como eram chamados os diretores da nouvelle vague. Godard, Truffaut, Rivette e Chabrol, todos eles também debutaram com longas na virada dos 1950 para os 60.
Depois de O signo do leão, dirigiu a sextologia intitulada Contos Morais. Foram quatro longas e dois médias-metragens entre 1963 e 1972. Seis trabalhos de mise-en-scène, ou seja, concentrados numa poética autoral em que o diretor imprime seu estilo às obras. Rohmer assinou-os com um visualmente lacônico, em locações reais, com sonoplastia artesanal, ausência de trilha não-diegética, em longos planos médios, dramaturgia naturalista, e muito mas muito diálogo.
De extração literária, os roteiros dos Contos Morais abordam encontros e desencontros, dilemas e ambiguidades, de personagens hesitantes, da classemédia média — ordinária. O “Morais” não implica julgamento moral ou bom-mocismo, e remete à tradição dos moralistas franceses, de Montaigne a Camus, passando por Pascal e Stendhal. Isto é, a finos exames do ser humano, perscrutando por suas paixões, desejos e inseguranças. Os Contos Morais investigam a máxima pascalina: “o coração tem razões que a própria razão desconhece“.
Éric Rohmer não se preocupa em ser vanguarda. Não trilha a senda de radicalização brechtiana de Godard (A Chinesa, Week-End à Francesa), nem o laboratório dramático de Jacques Rivette (Out 1, que corre por mais de 12 horas). Tampouco se deixa contagiar pela vanguarda literária da época, o Novo Romance francês, que plasmava o cinema de Alain Resnais (O ano passado em Mariebad, Hiroshima mon amour).
Os Contos Morais se estruturam como um romance do século 19. Desdobra personagens bem delineados num enredo linear e unívoco. O protagonista homem burguês se coloca no centro da história, conquanto a verdadeira instância narrativa (fílmica) o acompanha a certa distância, entre a ironia e a condescendência. Como no romance novecentista, os filmes se recheiam de nuances psicológicas, sutilezas de personalidade, pequenos gestos e impudicícias. Mas a dinâmica dos personagens dos Contos Morais é sempre contida, sem dar azo para melodrama ou conflitos abertos.
O Quadrado dos loucos completou críticas para os seis filmes, além de um ensaio sobre a personagem-chave feminista Haydée (de A colecionadora), que irão integrar o dossiê Éric Rohmer em elaboração lado a lado com o blogue TUDO [é] Crítica, para o portal Cinefilia.NET
Uma cena de meu conto moral predileto, com minha personagem predileta

Publicado em 2 de janeiro de 2011. Comente

Haydée, personagem de A Colecionadora, 1967, Éric Rohmer
A nouvelle vague tornou-se sinônimo de vanguarda no cinema. Propunha uma nova sensibilidade para essa arte, ao mesmo tempo poética e política, inovadora e cheia de vivacidade. O conteúdo do filme passaria a ser a forma e a forma, o conteúdo. Uma articulação permanente. O diretor deveria assumir a sua responsabilidade como artista e autor, acima do produtor. O estilo de direção, ou mise-en-scène, passaria a ser considerado o núcleo criativo dessa arte, e não mais o roteiro.
Os primórdios da nouvelle vague aconteceram na década de 1950, quando alguns cinéfilios da Cinemateca Francesa se reuniram na revista de crítica Cadernos de Cinema. A partir de ensaios veementes, os críticos dos Cadernos elaboraram cânones e listas negras. Endeusaram-se alguns cineastas (sobretudo Hitchcock e Welles) e outros tantos foram demonizados. As palavras de ordem eram: autoria, estilo, audácia, realismo, expressividade de um mundo e uma afetividade. Surgia o cineasta-total: cinéfilo, historiador, crítico e diretor, sua biografia inteira entretecida com a arte. Surgia o cinema-cinema, na feliz expressão de Rogério Sganzerla.
Os primeiros longas-metragens da nouvelle vague são da virada de 1950 para 1960. Dessa época, são Nas garras do vício (Claude Chabrol, 1958), O signo do leão (Éric Rohmer, 1959), Os incompreendidos (François Truffaut, 1959), Acossado (Jean-Luc Godard, 1959) e Paris nos Pertence (Jacques Rivette, 1960). Longas de estréia do quinteto mágico, os cinco sacudiram o cinema mundial, inovando poéticas que se consolidariam e desenvolveriam, cada um a seu modo, durante a década seguinte.
Tamanho desejo de radicalidade pode passar a impressão que a nouvelle vague esteve intimamente associada às revoltas dos anos 1960. Que era parte das organizações políticas da época. Afinal, na mesma França, houve a explosão de maio de 1968.
Mas não. A nouvelle vague não participou, como movimento artístico, de nenhuma organização ou manifestação. Nem poderia. Seu maior mentor, o crítico André Bazin, havia morrido em 1958. Durante os anos 1960, cada diretor partiu para trajetórias individuais. A bem da verdade, a nouvelle vague era menos uma escola ou um todo orgânico, do que certo ímpeto originário, certa partilha de referências e inquietações, um amálgama de idéias que se desdobraria em direções diferentes e, por vezes, irreconciliáveis.
Do quinteto mágico, Godard engajou-se mais abertamente nas lutas. Bastam recordar seus filmes O pequeno soldado (1960), cujo assunto é a opressão neocolonial na Algéria, e Tempo de guerra (1963), um alegórico manifesto antibelicista. Ou então a temática marxista, numa poética brechtiana, de Week-End à Francesa (1967) e A Chinesa (1967), — o último inspirado num romance político de Dostoievski (Os Demônios).
Talvez por isso, tenha-se a impressão de um envolvimento global da nouvelle vague, visto que Jean-Luc era seu ícone maior. Porém, se havia cumplicidade crítica nos anos 1950, depois dos primeiros longas se esfacelou paulatinamente. Não havia organicidade.
Nos sessenta, François Truffaut nem sequer esbarrou em assuntos de militância. Filmava a dinâmica íntima dos personagens: triângulos amorosos, aventuras extraconjugais, episódios anedóticos. “Nascido” em Os incompreendidos, o timorato Antoine Doinel protagonizaria mais dois filmes no período, envelhecendo com o seu ator Jean-Pirre Leáud. Leve como uma pluma, o “ciclo Doinel” narrava as desventuras do querido pupilo do cineasta.
Afetivo e condescendente, não há na filmografia de Truffaut panfletos, denúncias ou conclamações. O mais próximo do cinema político foi o seu primeiro longa em cores, Fahrenheit 411 (1966). Uma história distópica sobre um mundo onde a escrita foi proibida e a função dos bombeiros passou a ser queimar livros. Lírico. Em Beijos Roubados (1968), a única remissão ao tumulto ocorre quando Christine (Claude Jade) comenta que a irmã está envolvida nas passeatas.
Em maio de 1968, Godard e Truffaut participaram ombro a ombro na confusão que melou o festival de Cannes daquele ano. Diante da mobilização universitária e das greves por toda a França, os dois aderiram ao movimento que exigiu e, eventualmente, conseguiu o cancelamento da premiação. “O cinema ficou para trás!”, discursou Godard, “a arte hoje não está mais em Cannes, mas nas ruas e praças”. A partir daí, ele politizará decisivamente os seus trabalhos, formando o coletivo Dziga Vertov (1968-72).
Truffaut não. Em que pese a atuação em Cannes 68, manteve o mesmo tom sentimental nos filmes seguintes, consistente com o seu estilo. Insatisfeito com essa “despolitização”, Godard polemizou e terminou por romper amargamente com o antigo colega dos Cadernos, em célebre entrevero, recentemente objeto de um documentário.
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O caso de Éric Rohmer (1920-2010), o mais velho da nouvelle vague, é ainda mais sintomático. No ultraquente período entre 1963 e 1972, produziu a seqüência Contos Morais, composta por seis filmes. Tomava como assunto a classemédia média, ordinária, em temáticas semelhantes ao romance burguês do século 19, e escrutinava a dinâmica moral/passional dos personagens. Enorme a sua distância em relação à vanguarda literária: o novo romance francês, de narrativa fragmentária e tema existencial.
Rohmer filmava sem qualquer ânimo de vanguarda.  Fazia questão de permanecer “invisível” como diretor, com o mínimo de firulas. Sóbrio, circunspecto, não alardeava manifestos políticos ou estéticos, nem cultivava mitologias sobre o cinema. Sequer gostava muito de falar sobre os seus filmes e se identificava como “ex-crítico” nas entrevistas. Católico praticante, não se dizia um “homem de esquerda”.
No entanto, há nos Contos Morais de Éric Rohmer um sentido profundamente político. E de esquerda. Isso se dá em vários níveis.
Pra começar, na sua narrativa por assim dizer distanciada. Rohmer não invade a mente dos personagens. Não lhes extrai confissões. Não os conduz a clímaxes dramáticos para forçar um depoimento. Salvaguarda-lhes uma autonomia com fundo ético.
O personagem existe por si mesmo. Não há onisciência nem julgamento moral. O autor está junto de suas criaturas e não acima delas. O personagem tem esfericidade, não se mostra por inteiro e guarda de si um fundo intocado. Irredutível à imagem, ao discurso. Verdade a ser interpretada e não arrancada. E não dá pra saber a verdade última e entendê-lo totalmente.
Nisso, Rohmer é dostoievskiano, e assume uma poética dialógica com valor ético.
O “narrador” dos filmes-contos não se confunde com a instância narrativa. Quer dizer, o efetivamente narrado, — a coleção de imagem e aúdio, — excede o monólogo do personagem que “narra”. Mais exposto que os demais, é verdade, mas nem por isso o “narrador” recebe um aval. Pelo contrário, amiúde essa distância atua contra ele, denunciando-lhe o egoísmo, a hipocrisia, a soberba, a autoilusão, a ingenuidade. Fazendo o espectador desconfiar, interpretar, circular pelos argumentos.
Nesse sentido, a posição de “narrador” torna-o privilegiado para a crítica. Se o protagonista-narrador dos Contos Morais é invariavelmente o homem branco classemédia, pior pra ele. Suas paixões são desnudadas em todo o seu viés de classe, a sua egolatria pusilânime, o seu voyeurismo instrumentalizador. O bisturi de Rohmer não poupa seus personagens de uma fina cirurgia moral, expondo tumores próprios de seu gênero, classe e tempo. Erra feio quem assinala machismo no perfil do “narrador” dos Contos Morais.
Daí que as mulheres sejam ininteligíveis nesse primeiro Rohmer (até 1972). Incógnitas, sua verdade é a mais recôndita. Seu comportamento ainda mais enigmático, um quê indevassável.
Os protagonistas buscam dominá-las, fetichizá-las, usá-las, capturar-lhes a admiração. Mais do que ser amados por ela, pretendem provar que podem ser amados por elas, por qualquer uma delas. Basta quererem e zás, elas se apaixonariam. Mas elas resistem. Não resistem (apenas) dizendo não, mas afirmando a dignidade. Firmam-se como seres livres, diferentes, criadores de sua própria narrativa.
O amor para os “narradores” significa fazer do outro objeto de sua conspiração, tema de uma intriga íntima, gato-sapato de seus caprichos. O outro é uma peça do jogo e não um jogador. Desfilam homens que se acham o máximo, “donos da situação”. Mas, ultimamente, dela terminam reféns e disso se ressentem.
Daí o papel crucial de A Colecionadora (1967) no universo dos Contos Morais. Porque, nesse que é o quarto conto, as mulheres resistentes (Suzanne, Maud, Chloe) sintetizam-se em Haydée, a mais feminista entre todas as personagens de Rohmer.
Haydée é a culminação de uma ética, uma estética e uma política — uma figura mitológica. É a própria década de 1960, no seu devir minoritário, na sua afirmação no presente da mulher do futuro.
Haydée não só resiste ao mais irresistível dos personagens dos Contos, Adrien (Patrick Bauchau), como o desarma e humilha sistematicamente. Ao mesmo tempo que generosamente lhe confere chances de redenção, que ele todavia não sabe aproveitar. Pois unidimensional. Inepto em combinar desejos, limita-se a tentar impor vontades. Todo o êxito de Haydée  sem qualquer moralismo, sem gritos ou slogans, sem nem mesmo um discurso coerente. Sustenta-se o filme todo a criatura menos dogmática e mais aberta à experiência. Sem convicções sobre si e sobre os outros, que não a certeza da dignidade indevassável, de não se deixar fetichizar e dominar, — mas nem por isso menos potente como mulher amante.
Haydée é mais do que a mulher independente (Suzanne, 2º conto), mais do que a mulher emancipada (Maud, 3º), mais do que a mulher libertária (Chloe, 6º).
Haydée é evolução da inescrutável e afirmativa Anna Karina, de Viver a vida (Godard, 1962), e antecipa a libertina e avacalhadora Helena Ignez, de A mulher de todos (Sganzerla, 1969).
Um personagem só, na potência da verdade que exprime, numa narrativa que a faz transbordar, é capaz de politizar uma obra mais do que cem panfletos.
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Este ensaio supostamente seria a crítica do quarto Conto Moral de Éric Rohmer, o filme A colecionadora (1967), dando continuidade ao dossiê que estamos montando, por encomenda do CinefiliaNET . Entretanto, a pena dançou em direções inopinadas, e me perdi. Mas prometo escrever a crítica da obra citada esta semana. Para críticas do QdL de outros filmes de Éric Rohmer, abaixo os links:

Publicado em 26 de dezembro de 2010. Comente

Foram escolhidos longas-metragens de ficção, de produção nacional, lançados nos cinemas ou em DVD entre 2001 e 2010 (a década de 2000), dentre o espaço amostral assistido por mim. Novamente, como em nossa lista dos dez mais de 2010, valorizou-se “o cinema-cinema, de reinvenção permanente, combativo e irreconciliado, um cinema de luta, de agressão, de veia aberta, um cinema antropofágico que devora no mesmo ato em que vomita o caldo nutritivo da geração”.

A lista não segue nenhuma ordem específica:

Falsa loura, Carlos Reichenbach, 2007
O signo do caos, Rogério Sganzerla, 2003
Serras da desordem, Andrea Tonacci, 2006
Amarelo manga, Cláudio Assis, 2003
Madame Satã, Karim Aïnouz, 2002
Encarnação do demônio, José Mojica Marins, 2008
A Casa de Alice, Chico Teixeira, 2007
Quanto vale ou é por quilo?, Sérgio Bianchi, 2005
Baixio das bestas, Cláudio Assis, 2007
Viajo porque preciso, volto porque te amo, Karim Aïnouz e Marcelo Gomes, 2010

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Publicado em 22 de dezembro de 2010. Comente

Foram considerados somente longas-metragens com lançamento nos cinemas ou locadoras no Brasil, dentre o modesto espaço amostral por mim assistido (ainda que não tenha sido criticado no blogue). Por exemplo, À Prova de Morte entrou, porque, embora seja um filme americano de 2007, chegou às salas nacionais este ano. Essential Killing, pelo mesmo raciocínio, não entrou, porque ainda não estreou comercialmente no Brasil, ainda que tenha passado no Festival do Rio 2010.
Listas de dez mais são praxe incontornável na maioria dos grupos de crítica, desde, pelo menos, os Cadernos de Cinema franceses (na década de 1950). Menos do que cartilhas maneiristas de bom gosto, ou oportunidade para coleguismos inférteis, as listas polêmicas dos Cadernos atuavam como instrumento central de sua política do cinema. Nesse sentido que subscrevo, recomendo ao leitor a lista dez mais da década (e não do ano, como a nossa) do blogue Tudo [é] Crítica.
Quem acompanha as críticas do Quadrado dos loucos sabe o que norteia as suas interpretações. Defendem-se obras que afirmem um olhar crítico, potente e mesmo cruel sobre o nosso mundo e nosso tempo. E que também lhe apontem tendências de ruptura e lhe proponham linhas de fuga para a transformação. Concita-se por um cinema-cinema, de reinvenção permanente, combativo e irreconciliado, um cinema de luta, de agressão, de veia aberta, um cinema antropofágico que devora no mesmo ato em que vomita o caldo nutritivo da geração.
A lista 2010 do QdL, fora de qualquer ordem específica:

 

 À prova de morte, Quentin Tarantino, EUA

 Filme socialismo, Jean-Luc Godard, França/Suíça

Polícia, adjetivo, Corneliu Porumboiu, Romênia
Crítica recomendada na Revista Cinética
Viajo porque preciso, volto porque te amo, Karim Aïnouz e Marcelo Gomes, Brasil
Tulpan, Sergei Dvortsevoy, Cazaquistão
A fita branca, Michael Haneke, França/Itália/Alemanha/Áustria
O que resta do tempo, Elia Suleiman, Inglaterra/Bélgica/França

O profeta, Jacques Audiard, França
Os mercenários, Sylvester Stallone, EUA
Crítica recomendada – Revista Contracampo
Hitler III mundo, José Agrippino de Paula, Brasil
Observação: Embora Hitler III Mundo seja um filme produzido em 1967-68, não chegou a ser exibido em salas nacionais e somente foi lançado no Brasil em 2010, direto nas locadoras, pela coleção de DVD Cinema Marginal, da Lume Filmes.

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Publicado em 18 de outubro de 2010. Comente

Um dos leitores do blogue preferiu responder à crítica do filme num mail privado, a comentar diretamente no post. Para enriquecer o debate sobre esse longa de 2010 que já nasce polêmico, transcrevo a provocação instigante do leitor, e também a réplica do blogueiro.

Leitor: Oi Bruno, lendo sua crítica de Tropa de Elite 2, que acerta em cheio vários pontos, não pude deixar de considerar que talvez você tenha exagerado em sua militância – que obviamente reflete nos seus sempre bons textos. Fiquei pensando na velha discussão sobre o papel da cultura e que impacto ela tem na política. Historicamente, a única ocasião em que a cultura teve influência real numa situação política foi no famoso artigo “j’accuse em que Émile Zola escreveu uma carta aberta ao Presidente da França exigindo a libertação de um preso – o caso Dreyfus. Não dá para esperar, portanto, que um filme mude uma situação complexa como a questão da violência e da corrupção, nem que aponte soluções que os próprios políticos não conseguem encontrar. Levantar questões é o máximo que se pode esperar de um cinema engajado. A negação do Sistema já é o primeiro passo da dialética. Ou você tem exemplo em contrário, de filme que resolva questões políticas que ainda não foram confrontadas pela realidade? Uma pequena provocação.
Quadrado dos loucos: O problema com o filme está basicamente no travelling de Brasília e na ilação “O sistema é foda”. Foi desnecessário extrapolar, concluir além do que todo o material fílmico anterior permitia. É pretensão demais, e acaba soando como truque. Como assim, está tudo tomado pelo Sistema? Um discurso de estado de exceção tornado regra, como na filosofia de Giorgio Agamben — algo a se combater por sua generalização grosseira e infertilidade crítica. Discurso do PSOL, do Francisco de Oliveira, do Paulo Arantes.
Vou usar um coringa: Terra em Transe. Um filme que deslinda de um modo sintético, alegórico, os dilemas e conflitos do Brasil no começo da década de 60. De um lado, a esquerda populista, intelectualizada, culta; do outro, a direita moralista, modernizante, promíscua. As contradições políticas vertidas em drama poético. O debate da esquerda divide-se em antes e depois de Terra em Transe. Não sou é que falo isso, é a geração tropicalista. Nesse filme, Gláuber não tece ilações, não faz uma “grande narrativa”, mas um diagnóstico fino, emblemático, de um momento histórico, e dispara uma saída convulsiva, o transe de Paulo Martins, o lúcido apaixonado capaz de ir além da dialética esquerdismo x direitismo. Ele não está contra o Sistema como um todo, ele tem uma posição bastante material e datada sobre a luta. Isso é materialismo histórico: implode as condições de sua superação, a partir da concretude. Não por acaso depois de Terra em Transe entrem em cena os artistas do dito “cinema marginal”, além das ingenuidades, já avançando sobre outro terreno político-estético.