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Publicado em 20 de julho de 2014. Comente

BH

O Brasil hoje não é um estado de exceção. Os anti-intelectuais me perdoem o preciosismo, mas é errado nivelar a situação atual com o período ditatorial de 1964-85. Vivemos num regime constitucional em que convivem, por dentro do direito e das instituições, dispositivos tanto democráticos quanto ditatoriais. Com a constituição de 1988, parte dos mecanismos de funcionamento da ditadura se transferiu à nova realidade jurídica e institucional. A polarização anterior entre ditadura x democracia se internalizou no novo regime.

De um lado, os mecanismos autoritários tão evidentes nas polícias, no racismo institucional, na grande mídia corporativa, num autoritarismo difuso pela sociedade que se revela em máximas “bandido bom é bandido morto”, “vagabundo tem que apanhar” ou “protesto é coisa de desocupado”. De outro lado, a possibilidade de organizar-se politicamente, de realizar manifestações, de poder escolher entre programas realmente diferentes, bem como um arcabouço institucional para se lutar contra o racismo, a miséria, a homofobia, a violência de gênero, a violência diluída no cotidiano pela exploração econômica, e refletida em precários serviços de saúde, educação ou transporte.

Todo o período de redemocratização significou uma disputa entre quem tenta desativar o estado de exceção interno ao direito e às instituições, e aqueles que tentam arrochá-lo. As lutas de 2013 foram um momento singular em que se colocou esse conflito a nu, desejando seja a ampliação da democracia, seja a contração da ditadura, por exemplo, com a campanha Cadê o Amarildo ou pela reforma das polícias. O pós-2013, no entanto, trouxe um refluxo dessas aspirações de aprofundar a redemocratização. O refluxo significou a dilatação do estado de exceção. A ditadura interna se descolou da realidade das favelas, — onde até hoje a redemocratização apenas esbarrou, — e passou também a ameaçar o direito de manifestação e a auto-organização em geral.

Isto não significa que o estado de exceção tenha vencido e que o regime constitucional de 1988 se tornou apenas uma farsa. Significa, sim, que a relação de força entre ditadura e democracia pendeu para o outro lado, depois de um momento expressivo de anseios democráticos, em 2013. Significa, além disso, que esse tensionamento entre um e outro aconteceu, e continua acontecendo, por dentro de várias instituições.

Isto aparece, nos últimos episódios, quando vemos:

a) um juiz de 1ª instância decretar uma prisão e um desembargador conceder habeas corpus;

b) um delegado de polícia chamar manifestantes de criminosos, enquanto outro não só se pronunciar contra os desmandos, como ele próprio participar dos movimentos;

c) quando a OAB de um Wadih Damous se coloca na linha de frente da resposta pela democracia;

d) quando o governo federal alinha-se ao consenso criminalizador mas elementos desse mesmo governo, minoritários porém nada desprezíveis, tentem “segurar a onda” ou abrir uma discordância pública;

e) ou mesmo no velho PT, assistirmos aos governistas mais idiotas gozando por repressão e destruição dos adversários, mas ao mesmo tempo ainda existirem cabeças preocupadas com o fato que, uma vez sedimentada a ditadura, eles próprios serão os próximos alvos — aqui não há nenhuma caridade, apenas uma avaliação lúcida de um processo repressivo que pode rapidamente fugir do controle, combinando as pulsões reacionárias que estão correndo por aí desde antes de 1988.

Portanto, não voltamos a 1964 e, me deem licença, mas está politicamente errado quem achata todo o arcabouço institucional e todo o direito, como direito do opressor ou democracia falsa. Estamos noutra situação histórica e que exige outras estratégias e outras táticas. Eu diria até outra ética e outra estética.

A luta contra o estado de exceção *também* passa por dentro do direito e das instituições, apesar de todos os retrocessos do pós-2013. Essa diferença não me parece filigrana intelectual, mas sim uma variável fundamental ao redor do problema do que fazer.

Publicado em 15 de julho de 2014. Comente

Publicado originalmente no Le Monde Diplomatique impresso, de junho de 2014. Republicado online pelo Diário Liberdade.

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Em 20 de junho de 2013, no Rio de Janeiro, muitos gritavam “sem partido” e “sem vandalismo” na avenida. Quando, no final da marcha, a aglomeração começou a aumentar na frente da prefeitura, as barreiras policiais se abateram sobre a manifestação, com chuva de balas de borracha, cortinas de gás lacrimogêneo, explosões e muita violência. Num espetáculo triste, a polícia reprimiu 1 milhão de pessoas indiscriminadamente. Aqueles que, momentos antes, entoavam o hino nacional e hostilizavam as bandeiras partidárias, agora recuavam unidos na resistência, gritando “fora Cabral” e “não vai ter Copa”. Manifestantes passaram a organizar linhas de defesa e levantar uma barricada para conter os caveirões.

Nos dias seguintes, sem qualquer pesquisa sobre o que ocorreu naquela noite de drástica plenitude, pipocaram artigos e comentários recheados de adjetivações definitivas. “Hipnose fascista”, disse um; “levante niilista”, outro; falou-se ainda que ela estaria infiltrada de “gangues mascaradas”, era manipulada pela “extrema direita” ou então seriam todos “coxinhas e seus estranhos amigos”. Meses depois, uma intelectual no pináculo acadêmico emitiria a sentença: “violência fascista” e não “revolucionária”,1 mobilizando o velho argumento conservador, que remonta a Edmund Burke, que alerta para o caráter instintivo, anárquico e perigoso da multidão. Essas foram avaliações da esquerda partidária sobre as jornadas de junho de 2013.

Diante de uma mobilização de norte a sul que tinha, entre outras pautas, a melhoria dos serviços públicos, a mobilidade urbana, maior transparência nas contas e gastos dos governos, a reforma das polícias, a democratização da mídia e os direitos LGBT. Diante da qualificação de grupos como o OcupaCâmara (Rio), o Tarifa Zero BH e o Movimento Passe Livre,2 que questionaram o grande negócio dos transportes; a campanha Cadê o Amarildo, que resgatou a favela, o racismo e a brutalidade policial da periferia da percepção;3 o Comitê dos Atingidos pela Copa (Copac) de Belo Horizonte, que conectou uma rede diversificada de comunidades e coletivos autônomos pelo direito à cidade;4 os advogados ativistas – e fotógrafos, e socorristas, e tantos profissionais anônimos que trabalharam de graça nas manifestações, para garantir os direitos que o Estado deveria proteger, mas estava violando.5 Sem falar na miríade de assembleias horizontais (como a Popular de Maranhão ou a do Largo, no Rio), “ocupas” de casas legislativas (como de Santa Maria – RS), plataformas comuns (como a Belém Livre), bem como uma cauda longa de mídias alternativas e um estilo de midiativismo via internet que, pela primeira vez, ganhou escala para disputar a comunicação com os peixes grandes.6 Isso é apenas a ponta do iceberg.

Diante desse, um dos maiores acontecimentos da história das lutas pela democracia no Brasil, a esquerda partidária se recolheu na própria zona de conforto. No lugar onde se aninhou, seja na situação, seja na oposição – nos dois casos num estado de identidade, ancorado na esfera representativa, tendo aprendido as regras, os pactos, os macetes, em suma, aprendeu a conservar o território. Quanta diferença em relação aos tempos, por exemplo, de uma prefeitura que, com Luiza Erundina (PT), em São Paulo, pensava uma política de tarifa zero para o transporte coletivo. Quando, com Olívio Dutra (PT), em Porto Alegre, pensava no orçamento participativo como o primeiro passo para deslacrar a caixa-preta dos negócios da cidade: obras, ônibus, coleta de lixo. Quando a legalização do aborto era pauta estrutural, já que afeta diretamente 50% da população e envolve nada menos do que o direito da mulher sobre si mesma. Tempos quando os militantes do partido não pareciam aspirantes a gestor público, na fila de espera por cargos de onde olharão por cima, com escopo gerencial, as contradições e caldeamentos da sociedade. Tempos quando os militantes de partido, com efeito, tomavam partido nos conflitos sociais (de classe, gênero, raça, sexualidade etc.) e atuavam imediatamentecom as partes – em vez de desligar-se delas em nome das “grandes sínteses” da nova gestão, do desenvolvimento nacional, da obsessão pela governabilidade.

Mas ser de esquerda no Brasil hoje não é ser nostálgico. As jornadas de junho – e também os rolezinhos e fluxos de rua, e um protagonismo cada vez maior das favelas e periferias – mostraram que o novo mundo se impõe sem esperar, arrancando-nos da zona de conforto e forçando-nos a pensar. Depois de junho, por alguns meses, os governantes tiveram medo dos governados. Nos gabinetes, o sorriso largo e o bom humor deram lugar à intranquilidade. Isso é bom. Thomas Jefferson, que não era nenhum Black Bloc, já dizia que toda democracia precisa de uma rebeliãozinha de vez em quando, para regenerar as instituições.7

No projetado caminho da prosperidade embutida na ideia de uma “nova classe média”, a esquerda se chocou com um continente desconhecido, que finalmente chacoalhou os cálculos e certezas. Mas encarou mal a “descoberta”. Ora reagiu chamando todos de “índios”, tratando-os como inaptos de pensamento, política e estratégia e, portanto, ideologicamente vazios, desorganizados e facilmente manipuláveis pela direita. Ora lhes deu as costas, decepcionando-se por não encontrar as Índias como previsto nos mapas. Contudo, o fato é que o continente já está povoado de uma rede de multiplicidades em franca produção de pensamento, política e estratégia, de uma classe selvagem sem nome.8 Que pode, inclusive, reconhecer a relevância das (cada vez mais) rarefeitas respostas institucionais da esquerda para, conforme o caso, acionar seus mandatos e partidos como tática, sem ceder a autonomia.9

Mover-se à esquerda hoje no Brasil significa desativar um sistema imunológico impermeável e todos os reflexos quase pavlovianos diante da alteridade, para se deixar afetar por movimentos de novo tipo e pela reinvenção dos existentes, dessa rede cuja determinação em resistir, transformar as relações de poder e construir alternativas ficou provada em junho do ano passado. Significa optar pela inconveniência de sair do lugar e, na incerteza de uma história em aberto, redescobrir-se nas lutas de seu tempo.

 


 

NOTAS

1 Marilena Chauí, em entrevista a Juvenal Savian Filho.

2  Eliana Judesnaider et al., Vinte centavos: a luta contra o aumento, Veneta, São Paulo, 2013.

3    Giuseppe Cocco, Bruno Cava e Eduardo Baker, “A luta pela paz”, Le Monde Diplomatique Brasil, jan. 2014.

4  Natacha Rena, Paula Berquó e Fernanda Chagas, “Biopolíticas espaciais gentrificadoras e as resistências estéticas biopotentes”; e Rudá Ricci e Patrick Arley, Nas ruas: a outra política que emergiu em junho de 2013, Letramento, Belo Horizonte, 2014.

5    Bruno Cava, A multidão foi ao deserto: as manifestações no Brasil em 2013, Annablume, São Paulo, 2013.

6  Bernardo Gutiérrez, “Os protestos do Brasil dialogam com as revoltas globais”; e Fábio Malini e Henrique Antoun, A internet e a rua: ciberativismo e mobilização nas redes sociais, Sulina, 2013.

7  Michael Hardt, “Thomas Jefferson ou a transição da democracia”.

8  Hugo Albuquerque, “A ascensão selvagem da classe sem nome”.

9  Pablo Ortellado, “Os protestos de junho entre o processo e o resultado”.

Publicado em 9 de julho de 2014. Comente

fimdejogo

O 7 x 1 não dá pra explicar só com futebol. E menos ainda jogando a culpa no “emocional”, que seria cair no velho complexo colonizado que atribui as próprias falhas à perda da razão e incapacidade de autodisciplina: não seríamos europeus o bastante, teríamos deixado a natureza atrasada falar mais alto ante o país da filosofia. Não é isso. Certamente o aparelhamento da CBF, a cartolagem impregnada, a falta de treinamento, a falta de inovação técnica, e escolhas estratégicas erradas são explicações melhores.

Mas 7 a 1 numa semifinal é mais do que isso. É todo um projeto nacionalista que, ontem, expôs os pés de barro. O autoelogio permanente, o tom ufanista (inclusive de parte da esquerda), o ódio contra Zuñiga, a insistência em induzir uma inimizade com os argentinos, o otimismo cegante no ar achando que a Camisa Canarinha, por si só, numa espécie de metafísica verde-amarela, poderia fazer frente à Alemanha depois de penar contra México, Colômbia e Chile e sem Neymar. Isso se chama nacionalismo.

Não sei em que ponto do evento aconteceu, mas o nacionalismo se sobrepôs ao futebol. Protestos legítimos, dissidências políticas e até palavras de ordem que vieram das ruas, como o #NãoVaiTerCopa, foram ridicularizadas, xingadas e acusadas como antipatrióticas e até, fico pasmo, ofensivas à torcida pela seleção. O nacionalismo levou a confundir paixão pelo futebol com amor próprio.

O torcedor nacionalista une seu destino com o destino da Seleção, que por sua vez estaria destinada a ser superior. Mas quando a superioridade não se verifica, fica abalado em seu amor próprio e, ressentido, vai despejar suas frustrações em quem encontrar pela frente. Daí as vaias raivosas contra a seleção que, há poucos momentos, amava; daí o ódio a Fred, daí a explosão de paixões tristes que vimos ontem com muitas brigas, bandeiras queimadas, deboche generalizado.

Os mesmos que nos xingavam por sermos dissidentes da #CopadasCopas, agora xingavam a Seleção que tanto deveríamos amar, eles inundaram as redes sociais com sarcasmo do mais barato, tentando esconjurar-se do fracasso — daqui por diante — alheio.

Nosso futebol feio e mal treinado se somou ao que o amigo Silvio chamou de crise civilizacional: nessa Copa, querendo ser grandes, grandiloquentes exibindo-se como o melhor evento de todos os tempos, em todos os sentidos, o mais bem organizado, mais bonito e com os melhores jogos, da melhor torcida, da melhor Seleção, do melhor país que finalmente se impõe diante do mundo.

Mas querendo ser tão maiores, fomos pequenos. O 7 x 1 mostrou como o projeto civilizacional inteiro, e não só o futebol, precisa urgentemente repensar-se. Não porque sejamos atrasados e emotivos, mas porque avançamos perdendo algo de essencial que havia em nosso subdesenvolvimento não-nacionalista.

Tudo foi por terra no 7 x 1 e deveríamos agradecer aos simpáticos adversários de ontem (e que classe!) pelo choque de realidade.

 

PS. Título sugerido por @andrevallias, incitado por @FilipePAlmeida

Publicado em 7 de julho de 2014. Comente

Nacionalismo

É o esporte das minorias, o balé das virtudes de 22 singularidades que colaboram para um propósito comum. Antigamente, cada grande nação era um capitalismo e elas guerreavam entre si. Hoje, o capitalismo é um só e o imperialismo não depende mais de fronteiras. Está em todo lugar, globalizado. Apesar disso, as nações continuam guerreando no futebol. Mas todo mundo sabe ou deveria saber que é de mentirinha. No futebol, as bandeiras, camisas, hinos e declarações de “guerra” são pra tirar sarro, provocar, atiçar a diversão com as rivalidades. São declarações que já nascem artifício. A Copa não é uma guerra mundial entre identidades nacionais. As seleções que perdem não saem como tropas derrotadas. Ao voltar pra casa, os guerreiros vencidos são festejados. Porque a festa é do comum do futebol. A Copa é onde aprendemos a vibrar, com grande emoção, com um gol do Messi, de James, de David Luiz, de Robben e até da Costa Rica, com Bryan Ruiz. É o momento máximo do intercâmbio de alegrias e da confraternização incondicional, onde aos poucos as identidades se desvanecem num carnaval entre torcidas, turistas e nativos. As torcidas se encontram, se provocam, se abraçam e se beijam, amam-se amando o futebol.

Quando o futebol é dominado pelas maiorias, muda tudo. E o nacionalismo é uma formação daninha de maiorias. O nacionalismo não tem nada a ver com torcer para uma seleção. Torcer pra uma seleção é parte do jogo e não precisa de nacionalismo. Quando as identidades nacionais dominam a torcida, elas reaparecem como insígnias de combate e não mais como pretexto lúdico para o futebol e suas virtudes. O nacionalismo é quando o futebol se torna um meio, um instrumento de seus fins feios. Aí o imperialismo reaparece como guerra. O balé acaba e vira ódio. Quando o hino é gritado como autoafirmação e não como prelúdio da festa. É quando o hino dos outros é vaiado. O amigo argentino, colombiano, alemão ou nigeriano aparecem como ameaças de nosso amor próprio. E assim perdemos amantes em potencial, amantes de um amor maior. Quando isso acontece, o futebol oscila entre o tédio e a violência, tendendo para o grotesco. As torcidas não se misturam mais e cada jogo fica indigesto. Torna torcedores, narradores e comentaristas estúpidos. Torna a Copa uma coisa daninha, cada vez mais distante do futebol. Dá vontade de não ver, dá vergonha.

Publicado em 27 de junho de 2014. Comente

Marx

“Tudo que sei é que não sou marxista”, pronunciada em 1879, com certeza hoje Marx manteria essa frase, diante de tanto marxista de gabinete, de estado, de salão, de butique, de cátedra, apaixonados pelo poder ou filiados à hegemonia, burocráticos, academicistas, tantos marxismos em compota, patrulhas marxológicas e marxímetros acadêmicos.

Depois de 150 anos de lutas, revoluções e infinitos volumes de teoria e debate, Marx insiste em fazer-se presente, apesar das ortodoxias. Estou falando de um Marx minoritário, um Marx das lutas, anticapitalista e antiestado, Marx da transição comunista, do perspectivismo da história, da luta de classe. Um Marx renovado que adere tranquilamente à crítica de um marxismo 1) economicista, 2) dicotômico, 3) utópico, 4) teleológico, 5) estatista, e 6) antropocêntrico.

Abaixo, tento resumir pelo menos essas seis:

1) Economicista: “O Capital” é um livro escrito em polêmica aberta contra os economistas clássicos liberais e suas “leis econômicas” próprias, contra a ideia que a economia fosse ciência autônoma. Nele, Marx vai não só desmascarar os economicismos que costumam separar o mercado do estado, como dois polos opostos (Marx demonstra que são integrados e funcionais um ao outro), que sustentem uma “mão invisível” quase divina dos mercados, ou que pressuponham o homem burguês como protótipo do agente racional, calculador e autointeressado, isto é, o indivíduo econômico; como nessa obra Marx também vai subverter as teorias economicistas que tentam quantificar o valor de troca (operando a passagem da qualidade à quantidade), determinar alguma equivalência entre trabalho e salário (para Marx, não há medida justa da exploração!); ou reduzir o dinheiro a equivalente geral e neutro, ou seja, visto apenas como meio de pagamento, e não como relação criativa de poder, como crédito.

2) Dicotômico: em Marx, não dá pra falar em dois grupos pré-constituídos, duas camadas sociais, disputando o protagonismo da história. Isso seria a sociedade feudalista, que se divida por estamentos bem definidos. Na sociedade capitalista, muda a ideia de classe. Porque não existe simetria, proletariado e burguesia são dois termos incomparáveis, que não podem existir no mesmo plano. O trabalhador não precisa do capitalista pra existir, mas o capitalista precisa do trabalhador. Na sociedade capitalista, quando se dá o conflito, não se opõem dois grupos sociais. Opõem-se, sim, a sociedade capitalista e aqueles que, lutando, lutam pela abolição da sociedade capitalista. Tem-se, em Marx, como lido por exemplo por E. P. Thompson, um sujeito que se constitui libertando-se do outro grupo a que também pertence. O proletariado é a luta que se liberta da burguesia, que a destrói, destruindo a si próprio como um polo dessa relação. A luta de classe não opõe, assim, duas classes, mas constitui uma única: o proletariado, que não existe senão na luta. Isso não é dicotomia (dois lados num Fla-Flu), mas conflito na imanência, luta por libertação por si mesmo, por sua afirmação como liberdade diante do capital. É muito diferente.

3) Utópico: nenhuma análise faz sentido apenas como interpretação do mundo, sem um movimento real de lutas, em que, em primeiro lugar, essa análise possa colaborar para a transformação do mundo. Marx não fazia hipóteses, mas apostas políticas, mais ou menos implicadas nos grupos com quem pesquisava táticas e estratégias de ação. Sem sujeitos que, precária e fragmentariamente, encarnem as premissas das análises e suas linhas de desdobramento, elas não fazem sentido, se tornam opacas, bizantinas, porque impotentes, tendem a não passar de paralogismos com pendores estetizantes, para fruição pessoal mas nenhuma pungência. Marx não esculpia porcelanas teóricas, mas ferramentas de luta, armas críticas que pudessem ser usadas.

4) Teleológico: no prefácio do “Capital”, já está colocado o desafio de virar a dialética aérea de Hegel de ponta cabeça, colocando-a com os pés no chão. O esforço de Marx será por desmontar qualquer sentido da história dado, qualquer seta em direção a um irrefreável progresso, qualquer etapismo em direção a algum futuro glorioso da humanidade, do estado, do poder. Nada disso. Tudo pode dar errado, tudo pode ser revertido, desviado, multiplicado, estratificado em níveis inarticuláveis. Contrapondo-se ao séquito hegeliano à esquerda, Marx não vê nenhuma tendência natural ao bem no homem, nada a defender dalguma natureza humana, nenhum otimismo antropológico. E tampouco qualquer pessimismo determinista, como se o Mal fosse abolir-se pelas próprias falhas. Nenhuma teodiceia ao Céu nem ao Inferno. As contradições do capitalismo não vão derrubá-lo por si próprias; não vão sequer acelerar a sua derrubada. Pelo contrário. O desenvolvimento do capital procede aproveitando as contradições, provocando crises, engendrando ansiedades, que ao fim e ao cabo são recuperadas para fortalecer sua dominação, o estado e o mercado que se reestruturam pela via da destruição criativa. Dialético e mefistofélico é o capital. Hegel é seu filósofo. Produtivista é o capital, ao enquadrar a multiplicidade das potências produtivas em valor econômico, dissolução das relações sociais dissidentes, e homogeneização daquelas pacificadas e voluntariamente servis. As lutas ou são antidialéticas, ou serão facilmente recuperadas. A luta de classe está orientada pela abolição da dialética entre capital e trabalho, entre crise e reestruturação, entre estado/público e mercado/privado. O comunismo é a dialética destruída: o momento em que a história se liberta da História, quando os sentidos escapam da dialética capitalista e se esgarçam à plenitude. Isso não é o fim da história, mas seu eterno recomeço, seu kairós: é a revolução, como em W. Benjamin.

5) Estatista: sem dúvida o maior golpe ao pensamento de Marx é torná-lo um pensamento do estado, para o estado, a partir do estado. A maior derrota do marxismo talvez seja a possibilidade de falarmos em algo como um marxista-hegeliano. Tornar a categoria do estado um alfa e ômega do marxismo congela a ontologia constituinte de Marx, seu caráter essencialmente antiestado, como aquilo que revoluciona a ordem das coisas. Se Marx polemizou com os teóricos anarquistas de seu tempo, não foi porque eles eram contra o estado. Foi porque não eram contra o estado o suficiente. Não eram radicais o suficiente, ao limitar o estado à autoridade, à lei estatal, ao aparelho coercitivo, deixando de lado a estrutura metafísica que condiciona a existência do indivíduo, da sociedade e da economia no capitalismo, que também são estado. Sem entrar no mérito desses embates (particularmente vejo alguns pontos específicos em que fecharia com Bakunin e, em menos pontos, Proudhon), Marx nunca flertou com a ideia de estado como resolução de quaisquer dos problemas do comunismo. Nem mesmo na “ditadura do proletariado”, a muito incompreendida proposta de radicalização da democracia operária.

6) Antropocêntrico: outra enorme lorota sobre Marx, especialmente nas elaborações posteriores, mas não só. Já em “Questão judaica”, livro de juventude, Marx polemiza com os hegelianos de esquerda contra o humanismo secular (onde se inscrevem muitos ateísmos modernos), mostrando que há muito de teologia política nas ideias perfeitamente laicas de estado, poder público e emancipação humana. Também na Seção 4 do Cap. 1, do “Capital”, em que a crítica do fetichismo sugere um aspecto mágico do trabalho vivo, na força demoníaca do fetichismo revolucionário (tão bem reapropriado pelo cinema de um Glauber Rocha). Mas o maior golpe à modernidade antropocêntrica está mesmo no “Fragmento sobre as máquinas”, um libelo anti-humanista em que Marx vai teorizar sobre a fábrica como coletivo maquínico de humanos e não-humanos, e sobre a relevância em organizar-se na ação política a partir desses novos arranjos híbridos da revolução industrial, porque imensamente potentes e produtivos também para a revolução. No mesmo texto, Marx mostra uma tendência de generalização do maquínico pelo tecido social, quando a fábrica vira “fábrica social” e as forças produtivas imediatamente difusas pelo “General Intellect”. Desses delírios febris há 150 anos, brotará a virada maquinocêntrica do marxismo, como em Gilles Deleuze e Felix Guattari (em “Anti-Édipo” e “Mil Platôs”), ou Antonio Negri (em “Marx além de Marx”).

 

***

Hoje, Marx certamente não se diria marxista, mas não há motivo para nostalgia. Nem tempo para tornar-se paleomarxista atrás de algum elo perdido do marxismo original, como fazem alguns que preferem chamar-se “marxianos”. Nunca quis ser puro sangue. Eu acho que é preciso sujar as mãos e falar marxismo, e disputar marxismo, e defender e atacar o marxismo. Marxismo de Marx, marxismo insubmisso, marxismo selvagem.

Talvez Marx, que também era contra marxistas, hoje, brincasse que os críticos ao marxismo descrito acima, muitas vezes com ar superior, debochados, como se falassem de algo ultrapassado e vulgar; no fundo, esses críticos é que estão agora aderindo, e assim, insuspeitadamente, um século depois, renovam e reativam a sua força teórica, através das entrelinhas recalcadas de seus desvirtuadores.

Publicado em 24 de junho de 2014. Comente

Relato da passeata combinada, ontem, 23/6, pela Av. Atlântica, Copacabana, antes do jogo Brasil x Camarões, no trajeto entre as favelas do Chapéu Mangueira e Pavão-Pavãozinho.

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Faixa: “A festa nos estádios não vale as lágrimas nas favelas”

O desconforto era grande quando saí de casa. Dia de jogo, festa verde e amarela por todo lado, bairro engolido por gringos de muitas línguas que vão e vêm ao sabor das rodadas, atrás de paisagens, bebidas e mulheres, prazeres rápidos de homem longe de casa. Sair de casa era inconveniente. Inconveniência sentida nem tanto pelo medo, porque me…do sempre há, mas pelo receio de a passeata não fazer boa figura. E assim acumular mais um gosto amargo aos gritos de gol, às cornetas, aos comentários do Galvão. Mesmo assim fui. Acabo indo assim, desesperançado, e costuma valer a pena.

Hoje começou na associação de moradores da favela Chapéu Mangueira, no Leme. De lá, juntou com outros grupos na estação de metrô Arco Verde e, reunidos numa frente única, atravessou toda a extensão da praia de Copacabana, passando pela Fan Fest, pelos inúmeros hotéis em festa, pelos quiosques com o volume das TVs no máximo, pelas tropas fingindo profissionalismo, até chegar na favela Pavão-Pavãozinho, quase em Ipanema. Tudo ao redor era Copa e nós gritávamos “foda-se a Copa”. O grito por mais infantil que pareça, e mesmo agora sei que sempre parecerá assim, assumia nesse contexto um tal grau de loucura, que até mesmo os menos simpáticos tinham seu momento de paralisia. Como são loucos, estupidamente loucos, esses manifestantes. Mas a recepção, ao contrário do que eu temia, em geral não foi de hostilidade. Nem de repulsa, salvo uma ou outra face mesquinha. A recepção foi de surpresa: gringos intrigados, perguntavam e filmavam; brasileiros defrontados com aquilo que já sabiam, mas que simplesmente não podiam acreditar que se manifestava ali, daquele jeito, naquela ocasião, anticlímax total. Mas dá pra ver como, pelas veias e artérias, o sangue corre e não esfriou. Me permiti, diante das reações, imaginar que a maioria, se está torcendo, está torcendo porque gosta de torcer e gosta de futebol, e não porque seja despolitizada. Uma coisa não leva à outra. E tolo daquele que conta com maiorias silenciosas de que não conhece os meandros.

Éramos umas 300, talvez 400 pessoas. Midiativistas do mundo, câmeras de todos os tamanhos. Muito ativista de comunidade, Jacarezinho, Maré, Jacaré, Rocinha, Babilônia, Cantagalo, Horto, entre outras, com faixas contra os crimes da UPP, denunciando o racismo institucional do estado de cada dia. Estudantes em movimento, advogados ativistas, coletivos de assessoria jurídica, de educação popular, de direitos humanos. Estavam lá as matilhas de militância que persistem em não sair da rua quando tudo e todos praticamente os ordenam que saiam. Saiam imediatamente, voltem às tocas. Mas, determinados em não render um direito que vários outros, por medo, conforto ou oportunismo eleitoral já entregaram de mão beijada, eles continuam lá. Não posso senão me sentir profundamente ligado a essas pessoas. Elas dizem que podem, sim, se manifestar, e essa reafirmação de propósito com o corpo na rua suporta um direito que, de outra forma, não passaria de promessa a depender do beneplácito de quem manda. Direito é capacidade de fazê-lo existir.

Impressionavam as mães e famílias de moradores de favela mortos em operações policiais. Portavam retratos de filhos, irmãos, vizinhos, um grupo cada vez mais organizado, do que a campanha Cadê o Amarildo foi apenas a ponta de um iceberg. Essa a tônica maior da passeata. As mulheres negras assumem um protagonismo que, como o das Madres de Plaza de Mayo, acelera a retomada da memória ao contestar a história dos vencedores. A diáspora traça caminhos inesperados. Nos labirintos do sofrimento e do luto, reencontra a cultura de resistência necessária para surgir mais forte. Primeiro aprenderam a dizer: nós, negras, nós, moradoras de favelas; agora se juntando para dizer: não nos matem. Aqui também há um processo parecido à Argentina das mães, nas brechas de um consenso esmagador cuja única preocupação é pacificar os descontentes e sair no noticiário que tudo vai bem fora um ou outro excesso cometido e logo abafado na inesgotável cruzada contra os implicados com o tráfico. A tônica maior da passeata que valeu por cem passeatas e que, sem provocação das forças policiais, terminou como começou: de maneira não-violenta, organizada e autônoma.

Terminou no começo do jogo, com falas atentas e fortes, ao pé do morro. Voltei pra casa e consegui pegar, ainda, os três últimos gols do Brasil, na vitória de 4 a 1 sobre a seleção de Camarões. Sorri satisfeito, totalmente acarinhado daqueles momentos vívidos ao mesmo tempo ridículos e seriíssimos. É verdade, a Copa está tendo. Não sei como vocês curtiram o jogo de hoje, mas eu curti. Eu curti a Copa hoje.

Publicado em 22 de junho de 2014. Comente

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O governo do Alckmin e sua imprensa aliada não podem simplesmente destruir um protesto com a legitimidade do MPL-SP. A percepção geral da população é de causa justa, de que é tranquilamente possível subsidiar o transporte público, da mesma forma que saúde e educação já acontecem com tarifa zero. O governo, então, precisa atacar indiretamente a mobilização. Pra isso, sobrepõe à questão política dos transportes, a questão policial do vandalismo, que ganha todo o noticiário e é objeto de inúmeras colunas de opinião, comentário, debate. A mídia anti-passe livre despolitiza a pauta ao mesmo tempo que aciona um imaginário fascistoide difuso, na linha do “vagabundo tem que morrer” ou “protesto é coisa de desocupado”.

Aí acontecem operações interessantes de língua portuguesa. A grande imprensa provoca uma subordinação de orações, envolvendo protesto/política (acionando o imaginário de luta por direitos e indignação) e vandalismo/polícia (acionando o desejo de fascismo). Depois de dividir a frase, vai tentar forçar uma subordinada condicional: “a favor de protesto MAS contra vandalismo” (o vandalismo anula o protesto). Enquanto isso, o movimento vai tentar de todas as formas sustentar a concessiva: “a favor de protesto EMBORA tenha vandalismo” (o vandalismo não anula o protesto). Para os primeiros, a tática é usar o desejo de fascismo contra o desejo de luta por direitos, e lançar os órgãos mais violentos da polícia contra o protesto. Para os últimos, o caso é anular o desejo de fascismo com o desejo de luta por direitos, resolvendo o problema por seus meios não-violentos e autônomos.

Quando, graças à força afetiva, o movimento consegue que a concessiva ganhe terreno sobre a condicional, a grande imprensa trata de recuperar a vitória do movimento para forçar uma consecutiva: “a favor do protesto É SER a favor do vandalismo”. É uma operação arriscada. Se, de um lado, pode conseguir inundar a questão de desejos fascistas e, de fato, levar a polícia aos maiores massacres; por outro, pode acabar mostrando finalmente que a força do protesto é maior e melhor do que as pulsões repressivas; com o que a própria imprensa conta em seu funcionamento normal, não só em relação a protestos. Nessa hora, a subordinação das orações vai por água abaixo, e a principal, propriamente política, se torna frase independente.

 

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Em meados de junho de 2013, essa aposta arriscada simplesmente não funcionou diante da mobilização, e todo o acionamento repressivo da grande imprensa aliada com o governo foi pra cucuia, desativando a engrenagem como um todo, e levando o MPL a uma enorme vitória política. O ponto preciso da virada, talvez, tenha sido em 13/6, naquela famosa enquete do programa “Cidade alerta”, do Datena. [maiores detalhes em "20 centavos" (Judesnaider et al, Veneta, 2013)]

Este ano as coordenadas são outras, mas certamente dá pra aproveitar o aprendizado de alguma maneira.

Publicado em 18 de junho de 2014. Comente

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Na política, o consenso é muito mais bem visto do que o dissenso. O consenso aparece como um bem em si, ao que todas as pessoas de boa intenção e civilizadas deveriam tender. Aparece como regra, enquanto o dissenso ficaria reservado para casos excepcionais, muito específicos, a ser muito justificado. A inclinação para o consenso chega a ser uma moral e mesmo um critério de bom gosto, implacável em desqualificar, pessoalmente e de princípio, quem insista em pontuar diferenças, problematizar lógicas, perturbar maiorias silenciosas, contrariar arranjos e questionar pessoas já instaladas.

Quando o dissenso aparece, a resposta automática é anulá-lo, fugindo do embate em campo aberto como o diabo foge da cruz. Seja acusando os dissidentes de polemismo, agressividade, capricho narcísico, inapropriado. Seja lançando-lhes as muitas sombras da desconfiança: estão movidos por interesses ocultos. Como se todas as ações, inclusive aquelas que formaram o consenso ou dele derivam, não tivessem algo por trás, assim como pela frente, pelos lados, por baixo, por cima.

Quanto mais hierárquico, autoritário e desigual um consenso, mais  estará saturado de códigos sobre como (não) fazer o dissenso. Mais sofisticados serão os protocolos, o bom tom dos gestos, o “proceder”. Qualquer coisa fora desse labirinto de convenções será simplesmente barbárie: não pertence a nosso meio, não é um de nós. Tome-se, por exemplo, o mundo cultural, tradicionalmente avesso aos conflitos e dores da política. É uma moral montada sob medida para reduzir a disputa ao velho trinômio conservador: o mais forte eu me filio, o de força semelhante eu negocio, o mais fraco eu ameaço, amedronto e eventualmente esmago — tudo segundo a escalada de posições dentro da estrutura existente, sem jamais questioná-la de verdade. A menos que o questionamento seja, por períodos curtos e táticos, a fim de aumentar o poder de barganha e, esperançosamente, subir um degrau.

Vários autores contemporâneos têm falado do dissenso como base de transformação de uma realidade estagnada. Por exemplo, o filósofo francês J. Rancière, para quem a política nasce do dissenso e todo consenso cheira a polícia. Ou Marcos Nobre, da UniCamp, para quem o consenso dominante da política nacional se chama pemedebismo, ensejando uma resposta dissensual antissistêmica (como as revoltas de 2013).

O fato é que, diante da moral dominante do consenso, que é a moral conservadora, o dissenso é sempre precário e difícil. Só pra se fazer ouvido, precisa enfrentar uma muralha de interditos. Exige não só coragem, mas a capacidade de tecer alianças e elaborar estratégias, numa prudência na dissensão, numa arte do conflito inteligente. Não pode se respaldar apenas pela retórica das ideias, por mero denuncismo ou se arvorando da maior razão, uma vez que o campo das ideias está impregnado de imagens apaziguadoras de cordialidade e resignação, tão pródigas, exatamente, em chamar à maior razão.

O dissenso precisa também da força da ação, do exemplo vívido, da construção real de alternativas, capazes de fissurar o consenso sem passar pelo labirinto de lugares comuns retóricos. Ele tem de ser criativo: criar um terreno novo em que as instâncias do consenso não consigam lançar suas sombras, para anular e destruir. O dissenso é uma ética material do antagonismo.