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Publicado em 27 de setembro de 2014. Comente

Mazon

Com a morte de Campos, Marina assumiu a campanha em 20/8. De imediato, meteorizou nas pesquisas, chegando a ameaçar a liderança de Dilma no primeiro turno. Uma semana depois, em 28/8, escrevi sobre o fenômeno Marina usando a imagem da nuvem. O desejo de mudança manifestado nos protestos de 2013 nublou a candidatura de Marina. Indecisos, votos brancos e nulos magnetizaram nela, quebrando a polarização PT x PSDB, com fundo pemedebista, que há 20 anos monopoliza a eleição para presidente.

Quando me referi ao apoio à Marina como fenômeno gasoso tentei ser rigoroso com o regime de funcionamento e a natureza desse processo. Os fluidos não têm uma potência menor por se encontrarem em estado gasoso, como sabem meteorologistas e geólogos que estudam tempestades, vulcões ou gêiseres. As jornadas de junho de 2013, por exemplo, podem ser explicadas como o vazamento de gases a alta pressão. As placas tectônicas se mexeram e os abalos sísmicos podem ser sentidos até hoje, no período eleitoral. Estremecem as velhas dicotomias, as certezas ideológicas e as adesões automáticas.

Em 28/8, eu também diagnosticava o que, penso até hoje, é a maior lacuna da campanha de Marina. Faltam-lhe redes de organização, uma tecnopolítica de base que seja capaz de inovar na campanha não só em termos de conteúdos, como também na forma de fazê-la. Tenho em mente a capacidade de uma campanha de driblar os esquemões convencionais de estrutura eleitoral, seus financiamentos, militâncias orgânicas e marqueteiros no comando. Algo como o novo partido espanhol, o Podemos fez naquele país com as candidaturas suprapartidárias e o antagonismo declarado contra o antigo regime, isto é, a polarização PSOE-PP, com fundo monárquico. Ou então, uma campanha molecular, “de baixo pra cima”, como aquela disparada na eleição de Obama em 2008 com o slogan “Yes We Can” (Sim, nós podemos).

“Podemos”, de fato, é um slogan consistente com o empoderamento generalizado de uma nova classe no Brasil. Reduzida à “nova classe média” em estudos sociológicos, tabelas econômicas ou na publicidade do governo, essa nova classe contém em sua composição novas redes de organização, comunicação e solidariedade. Apesar disso, analistas ortodoxos de esquerda, economicistas ou sociologistas, reduzem-na à amorfa massa de consumidores e arrivistas, perfeitamente acomodados ao desenvolvimento capitalista. Essa velha esquerda se alinha à velha política no discurso de desqualificação da nova política que o levante de junho foi apenas a ponta do iceberg. Não por acaso, os mesmos analistas, sites e blogues que fizeram de tudo para desqualificar as manifestações como despolitização e golpismo, agora voltem o fogo de barragem contra a candidatura de Marina. O mecanismo de estigmatização é similar, e são idênticos os adjetivos carregados e o tom de escândalo que os acompanha.

Em 2008, nos EUA, Obama falou em mudança e o adversário, John McCain, passou a campanha inteira menosprezando-a como possibilidade. Obama não significaria mudança alguma. Pelo contrário, Obama projetaria uma sombra ameaçadora sobre os interesses do cidadão americano. McCain tentou colar em Obama preconceitos que já existiam, em relação à sua origem e trajetória política. O esforço de montagem tenta aproveitar das pulsões conservadoras já existentes no seio da sociedade. A campanha republicana, no entanto, falhou. Uma mobilização molecular, desde as bases, afirmou com ainda mais força o “Yes We Can” e contagiou o país. A onda foi invencível e Obama terminou eleito, tornando-se o primeiro presidente negro dos Estados Unidos.

A subida de Marina no fim de agosto despertou o instinto de sobrevivência de quem, de um modo ou de outro, ainda que unicamente emocional, se considera vinculado ao governo Dilma, ao PT ou mesmo à “esquerda do PT”, cada vez mais inefável. Para muitos, a possibilidade real de perder não só o governo, como também o chão existencial, foi vivida como uma experiência traumática. Prefeririam talvez perder a eleição para o PSDB, o que pelo menos reconfortaria do esquema identitário. A velha esquerda tem horror ao novo que não nasce de si própria. Seguiu-se a instauração de um estado policial nas redes, com a correspondente vigilância e corretivo ideológico contra qualquer um que ousasse pensar diferente do consenso. Tal campanha reativa foi bem sucedida, ao menos, em forjar certo bom tom e acuar vários marinistas cujo apoio se tornou tímido ou velado. Jogar pedra em Marina virou um performativo, uma declaração de pertencimento à esquerda e reconforto moral. Percebendo o refluxo da onda, a campanha governista tratou de pintar-se de vermelho e passou a liderar uma coalizão de esquerda contra as hordas neoliberais, neofundamentalistas e imperialistas à rampa do Planalto. Não adianta bravatear “uma ova!” ao fato que o governismo agradece as linhas auxiliares de última hora e grátis.

A campanha de Dilma se pautou pelo medo. Medo de quem a coordenou e realizou pelas redes, revistas e propagandas, diante da possibilidade de perder o chão. Medo a instilar-se nos destinatários, que têm sido insistentemente alertados sobre o apocalipse da eleição de Marina. De acordo com a campanha governista, a eleição de Marina significaria o fim do bolsa família e do estado laico, a privatização da Petrobrás e a renúncia ao Pré-Sal, a entrega da economia nacional aos bancos e a revogação dos direitos trabalhistas. Com os ricos e a velha classe média, cravou-se o espantalho do fundamentalismo, jogando com o preconceito de origem e contra evangélico. Com os pobres, a ameaça do fim dos programas sociais. Não votem nela ou a comida desaparecerá do prato de vocês, segundo a versão petista do reginaduartismo.

O PT acusa Marina de ser segunda via do PSDB, enquanto o PSDB faz o discurso contrário, Marina seria a segunda via do PT. Em ambos os casos, a polarização PT-PSDB é reiterada como sujeito transcendental da política brasileira. As manifestações de 2013, para um e outro, simplesmente não aconteceram como evento politizador e repolarizador. A campanha de Aécio resolveu reconquistar votos dizendo que Dilma e Marina se fundem num petismo usurpador, o que engrossou a rejeição à última motivada pelo sentimento antipetista. Marina, afinal de contas, é mais petista do que Dilma, em termos de formação e militância, e não por acaso adorada pelas alas mais jovens e arejadas do partido nos anos 2000. Estranhamente, quem alardeia isso é o PSDB, enquanto os petistas preferem queimar a apóstata.

O medo não pode explicar, por si só, a estagnação do fenômeno Marina. Por mais superdimensionada que seja a campanha dilmista, com mais recursos, tempo, expertise eleitoral e máquinas de governo, ainda tem suas limitações. Se por tantos anos o PT se afastou das bases sociais e se colocou no lado oposto dos movimentos, como conseguiria, em 2 meses, reatar milagrosamente a relação? O voto do medo foca na rejeição, mas não é capaz de impactar construtivamente. Continua sendo uma campanha baseada em grandes conjuntos estatísticos, numa coordenação “por cima”, encabeçada por João Santana. Uma campanha molar, que convoca os militantes e apoiadores como um general convoca um exército.

A única maneira de contrapor-se a uma campanha do medo, essa campanha paranoica pela conservação, é abonar a mudança e enfrentar todos os lugares comuns e argumentos de desqualificação. O que exige uma boa dose de ousadia e assume riscos significativos. Uma campanha improvisada, com 46 dias entre o anúncio e o primeiro turno, não tem como acumular redes de formulação, auto-organização e mídias alternativas para criar um Podemos ou um “Yes We Can” marinistas. O acúmulo de Marina em termos organizativos está truncado no impasse entre a Rede Sustentabilidade e o PSB, precariamente unidos ao redor dela. Fora disso, só existe a nuvem, o fenômeno em estado gasoso de que eu falava em 28/8.

Não adianta nada ter um bom programa, se não existirem redes e mídias organizadas para bancá-lo e defendê-lo. Qualquer um que passou pelo movimento estudantil sabe como apresentar 240 páginas sem estrutura para defendê-las é entregar um prato cheio para os adversários fazerem a festa com factoides políticos, hipérboles e teorias conspiratórias. O programa tem boas passagens sobre mobilidade urbana, energia, meio ambiente, política indígena, não-criminalização de movimentos e ativistas, além de propor um diálogo com as manifestações de 2013, a emergência de novos sujeitos e a regularização de ocupações urbanas. Ele é retraído, contudo, nos direitos LGBT, e tem passagens ruins na agenda econômica. Mas nada que desse a menor consistência à campanha de medo que se seguiu.

A campanha de Marina reagiu mal à ofensiva dilmista e aecista. Assumiu uma estratégia defensiva, e assim terminou pautada pelos adversários. O poder de pautar, como disse o Moysés Pinto Neto em texto recente, é decisivo. Marina se limitou a pedir fair play e acusar as mentiras, enquanto Dilma e Aécio partiram para golpes abaixo da linha da cintura desde o primeiro round. Marina, sem redes difusas de autodefesa, sem capilaridade, não dá pra responder à altura.

A campanha do medo não é capaz, apesar de eficiente até certo ponto, de dissolver completamente a nuvem de subjetividades. Isso seria admitir um postulado hobbesiano: quanto mais medo, melhor para o soberano, numa equação linear que vários governistas assumem. É mais do que isso. O medo não é solvente universal dos afetos porque a fração principal do fenômeno Marina é constituído pela classe sem nome (também conhecida, em chave objetivante, como nova classe trabalhadora, batalhadores, nova classe média, Classe C etc). São milhões de pessoas que não atribuem os direitos ao PT, como se o partido fosse dono das conquistas sociais. Atribuem a si próprios, ao empoderamento desdobrado por dentro do aumento de renda e consumo, do crédito e do maior acesso.

Apesar disso, sutilmente elitista, subsiste a boa consciência de esquerda para quem o governo Dilma é “melhor pros pobres”. Adotando uma gramática varguista, esse esquema mental passa por cima de 80 anos de transformações de classe, nivelando o Brasil descrito por um Caio Prado Júnior com o Brasil pós-modernizado de 2014. É um trabalhismo regressivo inclusive em relação aos novos sindicalismos, da época da fundação do PT. Tamanha desqualificação do fator subjetivo da nova classe, do aspecto de potência na pobreza, já apareceu durante as manifestações de junho, os rolezinhos, a emergência de sujeitos sociais, grupos autônomos e mobilizações descoladas por assim dizer do “processo do PT” — todos desacreditados como alienados, despolitizados, massa de manobra da direita ou voluntaristas sem visão estratégica.

É a essa nova classe que a campanha de Marina poderia apelar. Para escapar em diagonal, tanto do discurso elitista-paternalista, que romantiza o pobre enquanto desqualifica e condena sua voz e auto-organização, quanto do discurso moralizante ao gosto do PSDB, para quem bastaria varrer o governo dos ineficientes e renovar a gerência do país. A concepção de direito da nova classe se aproxima mais do “Podemos” ou do “Yes We Can”: uma concepção de potência, de ser capaz de exigir, defender e se organizar para assegurar os direitos autonomamente, sem depender do déspota paranoico e seus burocratas perversos. Uma concepção que é antes Spinoza (querer-poder-agir) do que Hobbes (temer-poder-depender); antes Eder Sader (multidão), do que Emir Sader (povo). Mas se a campanha de Dilma convoca o povo do “nacional-popular” e sua militância, a campanha de Marina pode chamar outro povo. Um povo que falta, porque não aceita ser totalizado nos esquemas e cálculos “por cima”: a nova classe sem nome.

A mim, parece nítido como Marina precisa parar de se preocupar em defender-se. Não há nada a defender-se. Nem o programa! A campanha só vai sair dos impasses e sinucas inovando os termos da disputa. Com ousadia e aposta. É a única chance de tentar, no segundo turno, levar à capilarização de uma campanha molecular, no olho a olho, no boca a boca. A campanha de Dilma ocupou o grande espaço de atenção a seu dispor para promover o medo e propagandear a continuação do que já está, enquanto Aécio ocupou o campo do sentimento antipetista. Marina pode ocupar, portanto, o campo da afirmação construtiva aberta e sem rodeios. Uma campanha assertiva para contrapautar a eleição.

Em vez de defender-se que não vai acabar com o bolsa família, asseverar que vai radicalizá-lo com a renda mínima universal. Eduardo Suplicy, cotado num eventual ministério de Marina, já tem acúmulo a esse respeito. Em vez de tergiversar sobre o tema ambiental, afirmar claramente que vai qualificar o desenvolvimento com a ecologia, o indigenismo e outras concepções de valor, à semelhança da experiência sul-americana do “vivir bien”. Afirmar-se mulher negra com todas as letras. Não ter medo de criticar o Pré-Sal, nem da chantagem referente à Petrobrás, deixando claro como a privatização *já está* acontecendo e a direita industrial e agroindustrial *já está* no poder. Afirmar sem meias verdades, também, que não existe contradição entre ser evangélico e apoiar os direitos LGBTT e a legalização do aborto. Nem entre uma linha econômica menos estatista, como aquela do governo Lula com Henrique Meirelles e Palocci, e a radicalização das políticas sociais, que são boas, baratas e que entram em ciclo virtuoso com o empoderamento dos pobres. E comprar a briga, também, ao redor das manifestações de 2013, frisando o diálogo proposto e rechaçando as tentativas governistas de reduzi-las a “coxinhas”, despolitizados ou de criminalizá-las ao redor da demonização dos “black blocs”.

O espaço político que citei acima está à disposição para ser ocupado por Marina. A nuvem de subjetividade paira sobre a sua candidatura, provavelmente, vai aderir e, quem sabe, até mesmo vibrar com a asseveração dessas pautas. A campanha do medo encadeia paixões tristes e paralisa pelo tédio e a ansiedade, mas uma campanha que pega no nível molecular desperta forças gigantes que as estruturas não conseguirão domar. Ao exército do PT e os mercenários do PSDB, resta à Marina apostar na guerrilha, o que começa pelos imaginários e a imaginação que a mobilizem. A fraqueza consiste em manter-se numa vaga união dos contrários, o que causa erosão da candidatura dos dois lados, vacilantemente defensiva. “Divina e maravilhosa”, por outro lado, é a energia da disjunção de afirmar os dois polos e conseguir que funcionem juntos, gerando algo novo. Ainda que quem esteja no status quo e mesmo a velha esquerda tenham horror ao novo. Afirmar a nova política que já está, sem necessidade de lideranças messiânicas, apenas de abertura institucional e políticas em ressonância aos processos da multidão.

Mais do que wishful thinking individual, coloquei aqui uma leitura da conjuntura, quando as forças do pemedebismo começam a desidratar qualquer chance de um debate político. Posso estar errado, e é importante sublinhar esta obviedade, quando do outro lado só vejo prepotência de quem acredita ter entendido absolutamente o que está em jogo. Mas estou errando melhor do que aqueles que, por dogma ou atraso, homologam a ordem posta na continuação dos mesmos esquemas. O medo propulsiona as três principais candidaturas ainda mais à direita, mais ou menos o que aconteceu no segundo turno de 2010. Não virão ousadias de Dilma/PT ou Aécio/PSDB, que esperneiam para se manterem, respectivamente, como primeira e segunda força eleitoral no país.

Para Marina reafirmar-se não a terceira, mas a segunda via à velha polarização, só de um jeito: perdendo qualquer receio de afirmar-se sonhática. Um sonho sonhado por muitos, sem ainda síntese clara em 2014. Sim, podemos sonhar e mudar, e não precisamos ter medo disso.

Publicado em 26 de setembro de 2014. Comente

Charles PierceCharles Sanders Pierce (1839-1914)

Duas acusações recorrentes em período eleitoral: ou você é ingênuo e iludido; ou é interesseiro e cínico. Ou você não vê; ou vê e finge não ver. No primeiro caso, se é acusado de pureza demais, por não ver a maldade atrás das aparências; no segundo, acusado do ardil de agir por trás das aparências. Ambas as acusações convergem para uma dupla cobrança: é preciso ser puro para optar desinteressadamente e, ao mesmo tempo, é preciso ser impuro para não servir de idiota útil aos interesses de terceiros.

Um “double bind” que atinge as raias da neurose: em qualquer caso você será cobrado, acusado e julgado. A democracia está bloqueada. Porque uma e outra acusação partem do pressuposto que o mundo que o outro não vê ou finge não ver é o meu mundo. O meu mundo é absolutizado e convertido na medida e tribunal do outro. Superar este motor de acusações, contudo, não significa aderir ao relativismo de que todos matenham crenças equivalentes e equidistantes — o que é falso. Não se trata aqui de nenhum apelo dialógico inócuo.

Não é isso. No fundo, é bem mais singelo. Basta simplesmente admitir que o outro age com base no que vê. Estranho seria considerar que o outro age com base no que não vê, enquanto nós, iluminados, seríamos diferentes. Sem atribuir intenções ocultas ou ingenuidades, déficits de realidade, como se houvesse uma realidade absoluta cujas regras gerais nos foram reveladas. Porque se o outro age com base no que vê, sua ação embute a percepção que ele tem, e como a ação tem efeitos reais, ela gera uma realidade. O que o outro vê *realiza* um mundo.

Eis aí um pressuposto fundamental do que filósofos americanos do final do século 19, como Charles S. Pierce ou William James, chamariam de pragmatismo, com profundas repercussões éticas e políticas.

É antidemocrático atribuir intenções ocultas ou déficits de conhecimento aos interlocutores, mesmo que discordemos completamente deles. Sem nenhuma razão moral. É antidemocrático porque impede o choque de mundos, a possibilidade de colocar os problemas da ação em disputa, de abrir dissensos que vão além de acusações morais, déficits de conhecimento ou da lógica de interesses. É preciso assumir o mundo do outro para dissentir dele, o que é sempre um problema da ação mais do que da crença, e que determina não um julgamento, mas uma disputa real de práticas.

Publicado em 22 de setembro de 2014. Comente

Acara

Estava demorando. Fui chamado de “esquerda festiva” por apoiar Marina. Por me colocar ao lado de “liberais pós-esquerda” como Gil ou Caetano.

 

Gostaria de responder com algumas considerações sobre a atualidade do tropicalismo:

 

Acolho a expressão com o maior prazer. Sou de fato uma pessoa que se percebe à esquerda e se percebe festiva.

 

“Esquerda festiva” foi uma pecha atribuída pela esquerda nacionalista dos anos 1960 aos tropicalistas (Gil, Caetano, Oiticica, Gal, Sganzerla, Zé Celso, Tom Zé). Embutia a acusação de irresponsabilidade política, voluntarismo, exibicionismo individualista, de convidar ao desbunde e à ego-trip em meio à barbárie da ditadura. A Tropicália era acusada de esfumar a luta de classe numa pós-história antecipada, compactuando com o mercado mundial e as indústrias culturais do imperialismo ianque.

 

No cenário pós-golpe de 64, a esquerda brasileira passava por um processo de repensamento de métodos, conceitos e referências, o que se exprimiu intensamente no cinema, na música, nas artes plásticas e no teatro. Tal situação de impasse agônico foi bem exprimida por Glauber em Terra em transe (1967), filme de crítica feroz às certezas ideológicas e ao modelo de militância de uma geração, alegorizando o desconjuntamento nacional de que os velhos esquemas não tinham como dar conta.

 

A Tropicália responde à dolorosa provocação glauberiana com um gesto deliberadamente profanador. Profanam-se as totalizações teleológicas do progresso em direção ao “Brasil do futuro”, bem como as adesões automáticas às dicotomias entre popular/erudito, massas/intelectual, primeiro/terceiro mundo, estado/mercado, entre outras. Profana-se, além disso, certo esquerdismo antiamericano que, — desbordando da correta crítica do envolvimento do governo daquele país na ditadura, — enxergava signos de dominação cultural em qualquer coisa associada aos EUA: da guitarra elétrica à Coca Cola, dos beatniks ao cinema de um Hitchcock ou Nicholas Ray (embora esse mesmo nacionalismo não via tantos problemas num afrancesamento esclarecido).

 

Ao contrário de leituras apressadas, contudo, o tropicalismo NÃO foi uma ruptura com a esquerda e não se desapegou totalmente do nacional-popular. O próprio Caetano, talvez a figura mais ambígua a esse respeito, não cansa de reconhecer as filiações com Dorival Caymmi e João Gilberto, nem de reiterar seu compromisso com a luta contra a desigualdade, a miséria e a dominação de classe. Se Terra em transe mergulha a discussão das resistências numa atoleiro de aporias, o tropicalismo anuncia novas possibilidades.

 

Em vez daquelas cartilhas de conscientização de massas, da ortodoxia do progresso econômico e da militância-partidão, se sondam energias libertadoras noutros lugares (no consumo, no pop, na favela, na africanidade, no entretenimento, na sexualidade, na antropologia, no misticismo): em suma, num “popular” renovado, doravante reencontrado em meio à massificação do consumo e a geleia geral do kitsch, a seguir exprimido num caldeamento estético e político de ícones e signos. Em vez do anti-imperialismo banal, a antropofagia, a remixagem, a globalização como potência. Em vez de negar o mercado, reconstruir uma mitologia dos mass media, na linha de um Andy Warhol ou Godard.

 

Noutras palavras, o tropicalismo foi um gesto afirmativo de renovação, tanto da esquerda quanto do conceito de povo, do “nacional-popular”. Propôs-se a orientar um movimento afinado com as transformações por que passavam o Brasil e o mundo. Sim, porque o tropicalismo desde o início se viu como novo e como movimento. Os tropicalistas em geral não se desobrigaram dos desafios, — como sugeriu Roberto Schwarz recentemente a respeito de Verdade tropical, autobiografia de formação por Caetano, numa resenha em que o uspiano mal consegue disfarçar o fascínio, embora não deixe de prestar contas às bancadas veteromarxistas nalguns parágrafos. Mas a Tropicália não era alienação histórica nem desobrigação ética: era antes a construção de uma inocência, no sentido positivo que Nietzsche lhe atribui. Reduzi-la à esquerda festiva e vira-casaca denota, precisamente, o quão pertinente esse movimento era, num período-chave de rediscussão de rumos da esquerda.

 

Hoje, quase 50 anos depois da Tropicália, só posso sorrir comigo mesmo quando, ao apoiar Marina, sou chamado de esquerda festiva. Porque do outro lado vejo uma campanha túrgida que caricaturiza a luta de classe, com uma candidata que prefere engenheiros a advogados, que desmerece aulas de filosofia ou sociologia, e que sonha o sonho dos nacional-crescimentistas, com certa ideia de progresso e de povo, sempre e sempre compulsiva por indicadores econômicos e tabelas estatísticas. Enxergo um governo que desmontou as políticas do “do-in antropológico”, como os Pontos de Cultura, do Ministério da Cultura com Gilberto Gil (2003-08), desmontado a partir da gestão de Ana de Hollanda. De uma candidata em cujo recente comício, no Rio de Janeiro, apresentou à plateia (rigorosamente isso: “plateia”) de artistas e intelectuais uma visão de cultura com pouca sensibilidade: vamos pegar os bilhões do Pré-Sal, plantá-los na cultura e depois colher o crescimento do PIB. Um esquema que, trocando cultura por agronegócio, não mudaria muito. É essa a sensibilidade.

 

Então a esquerda festiva do tropicalismo não poderia ser mais oportuna para qualificar o debate. E que tal revisitarmos Terra em transe para 2014?

Publicado em 19 de setembro de 2014. Comente

MMART

Ontem a polícia matou um camelô em São Paulo. Outro Silva sem estrela, outro que não sabemos o nome. Um jornal fala em confronto, outro diz que na confusão a arma disparou. Jornalismo de estado. Só descobrimos o que aconteceu graças ao midiativista da multidão que filmou a cena. A coragem da verdade, que produz verdade de luta. O camelô desarmado levou um tiro na cara.

Não foi um assassinato. Foi uma execução. Seria reduzir a questão a policiais despreparados ou excessos, quando o terrorismo está na cidade. Como se tal fato pudesse ser enquadrado num desvio de conduta a ser apurado pelas nobres instituições liberais. O estado está caçando, intimidando, espancando, roubando e matando os camelôs. A violência contra o pobre acontece de norte a sul em cadência cotidiana, por dentro do sistema. É uma política pública: as guardas se armam, as polícias se militarizam, uma e outra recebem ainda mais poderes, enquanto operações de choque de ordem aceleram remoções e sumiços.

O camelô é o trabalho vivo em sua figura mais móvel e criativa. Quem não gosta de ter um camelô por perto, nas praças, na noite? Reinventa os fluxos de consumo, fortalece a ocupação das ruas, traz em si um fragmento para pensar e fazer outro tipo de trabalho, experiência urbana e mobilidade. Por isso, o poder da cidade tenta pacificá-los: só podem aceitar o camelô no camelódromo, da mesma forma como preferem sem-teto em abrigos e moradores de favela em cartesianos conjuntos habitacionais.

O camelô é uma força multiplamente subversiva. Durante o século 20, as lutas de esquerda deixaram de concentrar-se no trabalho para focar no emprego. Boa parte da esquerda aderiu à gramática do capital sob a desculpa de melhor regulá-lo. Foco numa inclusão pautada pelo emprego pleno, a indústria, a formalização dos negócios e serviços. Mas o emprego pleno é a plena subordinação. O camelô resiste inclusive a esse processo, ao afirmar uma autonomia maior, forma de vida legítima em seus próprios termos, e que não se deixa capturar.

Em janeiro de 2011, um camelô se ateou fogo ao ser impedido de trabalhar. O gesto extremo de Mohamed Bouazizi comoveu um país e disparou um grande ciclo de protestos, que ficou conhecido por Primavera Árabe. No Brasil, naquele 2013 incandescente, o sumiço de Amarildo trouxe a favela para o centro da revolta generalizada. Conseguiremos dar nome ao camelô executado ontem?

 

Foto: M. Martín

Publicado em 18 de setembro de 2014. Comente

Marina e Gilberto Gil

Fui assistir à Marina ontem à noite na Escola de Cinema Darcy Ribeiro, no encontro sobre cultura. Nunca na história deste país se produziu tanta estigmatização de uma candidata em tão pouco tempo, então resolvi pessoalmente conferir ao vivo o que ela tinha pra falar. Nunca comprei esse papo que uma liderança nascida da costela do PT esteja na origem de todos os males.

Os organizadores acertaram em evitar o formato comício, daquele tipo em que vem a Grande Líder ladeada de seus Grandes Artistas. Sentaram-se num esquema bate-papo a Marina e o Gilberto Gil, o MC foi o ator Marcos Palmeira. Mas a organização não conseguiu inovar além disso: foram apresentadas as tradicionais demandas setoriais por representantes das “categorias” da cultura. Isso foi um pouco cansativo, apesar do ponto alto em que um indígena assumiu o microfone para expor a demanda-mãe dos povos: queremos demarcação de terras, o que o governo Dilma não tem feito.

Gil tomou a palavra. O orixá do tropicalismo não falou muito, ele preferiu cantar. Ofereceu em primeira mão a canção elaborada pra Marina, que foi cantada ali mesmo, sem cerimônia. É linda, como todos poderão ouvir nos próximos dias, assim que o ex-ministro terminar os arranjos finais da arma secreta.

Marina então tomou a palavra, elogiou o “excelente” trabalho de Gilberto Gil como ministro do governo Lula, destacando os Pontos de Cultura, que devem ser retomados pra valer, e a participação de Célio Turino, um dos principais formuladores dessa política, na campanha. Marina afirmou que a cultura é a base para qualificar a economia, o desenvolvimento e a educação; que a cultura não é apenas um bem ou recurso estratégico: é um elemento imaterial de enriquecimento do corpo, da mente e da espiritualidade. Que não deve ser enquadrada somente em estratégia de crescimento, mas como princípio vital de qualquer sociedade. Disse que os artistas e produtores culturais não têm que se preocupar apenas com a arte, mas também com a política. Venham para a política, pediu. Frisou a dimensão estética do desenvolvimento, inseparável da ética. O “desenvolvimento sustentável”, para Marina, não tem nada de economicista: é baseado numa requalificação sobretudo política. Ela falou várias vezes em qualificar a política.

Marina começou rouca, parecia meio que extenuada, mas de repente começou a falar com extrema firmeza e muita desenvoltura. Contou de sua infância no Acre, da alegria das primícias ativistas na Amazônia, da alfabetização tardia, de quando atuou na peça “Morte e vida severina”, no papel de um cacto. Depois explicou como o programa de governo foi elaborado colaborativamente a muitas mãos, e que pretendiam fazer um debate de ideias e não uma troca de hostilidades, detalhou o golpe cartorial contra o registro da Rede no ano passado e também foi apresentando, uma a uma, as suas visões da política nacional, os impasses, as dificuldades, os entraves.

Dizem por aí que Marina é uma sonhática. E têm razão! É, sim, uma sonhadora, no mesmo grau em que é militante, acredita e luta pelo sonho. Mas é uma sonhadora rigorosa e com o sentido da terra. Talvez seja sua grande virtude num pleito em que a campanha da situação se resume a dizer que tudo vai bem e que, portanto, deveríamos ter medo de sonhar. Acusar Marina de sonhática diz muito sobre os acusadores. Marina é, sim, imaginação real, e o sonho que ela sonha não é apenas o sonho dela, pois se apoia sobre tendências de transformação da sociedade brasileira.

Marina disse que a nova política já está. É uma atualidade. Que novos sujeitos políticos emergem pelo mundo. Que as pessoas já querem fazer política e a estão reinventando, desde outros lugares e tempos. Quer o sistema político partidário goste ou não. Citou as jornadas de junho de 2013 e sem hesitação afirmou claramente que são uma expressão dessa nova política. Que longe dela querer representar a nova política. Que ela não representa junho de 2013. Ela tem consciência que pertence à “velha política”, e deixou claro que seu papel é transicional e que, embora tenha carisma e seja uma liderança, ela acredita que a democracia chegou num ponto de maturação em que não precisemos mais de alguém com carisma e esse tipo de liderança. A palavra que ela usou para descrever um eventual mandato de 4 anos como presidente foi “interregno”. Disse que esse é um processo global e que, no Brasil, não tardará a acontecer, com ela ou sem ela.

Ouvi-la é realmente uma experiência que alterna dureza e fantasia. Mesmo quem não concorda com o que Marina exprime, mesmo quem não vai votar nela, quem esteja pessimista com relação a alternativas, eu recomendo muito que vá ouvi-la. Pelo menos uma vez. E depois de escutá-la, só com uma sensibilidade limitada, ou então com muito espírito de rebanho, para não enxergar nenhuma diferença importante de mundos e imaginários que Marina traz à eleição. Mesmo que continuemos discordando. E que campanha vibrante, animada pela possibilidade de vencer, com pessoas propositivas, serenas.

Publicado em 13 de setembro de 2014. Comente

SoftMachine2

“Se o controle do Controle é absoluto, porque o Controle precisa controlar? Resposta: o controle precisa do tempo. A morte precisa do tempo como o drogado precisa da droga.” Esta citação de William Burroughs em Ah Pook is here (1979) formula de maneira concisa a visão do autor sobre uma nova forma de dominação social, própria do capitalismo do segundo pós-guerra. Não mais a dominação do homem pelo homem, da aristocracia ou da plutocracia. Acabou o mundo de Hitlers e Stalins, de crápulas engravatados em cúpulas douradas decidindo o futuro da plebe. Chegou a vez de “forças abstratas”, de “pilotos amedrontados ante os controles de uma vasta máquina que eles não podem compreender”, de uma dominação tão sutil quanto pervasiva, tão globalizada quanto minuciosamente epitelial.

A imagem da máquina, de fato, aparece ao longo da obra de Burroughs, inclusive no título de um dos romances, The soft machine (1961). Primeiro da trilogia Nova, foi elaborado segundo a técnica cut-up, radicalizando o estilo de Naked lunch. As passagens eram escritas, recortadas e depois recompostas aleatoriamente, fissurando  a rocha do possível. O “aleatório” da narrativa, contudo, não era o puro acaso: a recombinação ora seguia padrões evanescentes, ora algoritmos esporádicos – no que contribuíram o pintor Brion Gysin e o programador de computadores Ian Sommerville. O resultado é um livro em que se tem a sensação de se estar zipando de canal da TV a cada 10 segundos, numa justaposição de subnarrativas que, aos poucos, vão exalando estranhas ressonâncias e sentidos diagonais. Ler Soft machine exige antes de tudo um descondicionamento da percepção: é preciso “esquecer” a linearidade do texto e suspender o juízo sobre a coerência do enredo, o que causa desconforto do início ao fim. Para aceitar o convite deste livro, é preciso se deixar levar pela densa imagética: road movie promíscuo nos trópicos, a onipresença de orgias homossexuais, experiências extracorpóreas e controle mental, tramas desconexas de espionagem, viagem no tempo e alucinações, muitas alucinações. A paisagem se refere à supermidiatização da sociedade e é povoada por figuras heterogêneas, mundos incompossíveis, pelo grotesco e pelo descontínuo, num roteiro de drástico descentramento da consciência, várias vezes dilacerada.

Publicado no cenário de agitação do começo dos anos 1960, o sentido político de Soft machine foi desenvolvido por Gilles Deleuze. Para o filósofo, o capitalismo hoje é marcado pela passagem das sociedades disciplinares às de controle, tão bem intuída pela obra de Burroughs. Se naquelas a dominação social se caracteriza pela lógica do confinamento – a escola, a fábrica, a prisão, o manicômio -, nestas o controle é exercido no aberto. Não se trata mais da desumanização provocada pelas instituições: a própria instituição do humano se funde com implantes perceptivos e circuitos de sensação, enquanto compulsões comportamentais são induzidas tanto nos apelos de formação da individualidade, quanto na moral de grandes massas gregárias.

Nas sociedades de controle, não se exige mais a obediência voluntária e corpos humanos dóceis: o novo homem-máquina embute as rotinas, os tiques, os automatismos e os circuitos das mais avançadas tecnologias de comunicação, ao mesmo tempo que cada um pode se enxergar livre. Enxertado de micromáquinas, seu tecido se expande nas telas de TV, nos peep shows, arcades, videogames, nos trackings com que todos seus produtos (inclusive políticos) são customizados. A sociedade se torna um gigantesco maquinário de automação, sem centro de comando, megamaquinado na mídia, no dinheiro, no vício, na liberdade.

Posso andar livremente e posso sonhar, mas meu sonho é sonhado por outra pessoa: é a ficção da Máquina de Controle, do estúdio da realidade que não está em lugar algum: está na pele, nos órgãos, na linguagem, nos gases que pairam pela atmosfera. Os Aparelhos Ideológicos de Estado penetraram na carne como espículas, molecularizados nos cinco sentidos e tantos outros que serão inventados – uma nova awareness da ambiência social. É-se controlado na liberdade mesma, no desejo de emancipação. Não existe ideologia: tudo é corpo. O Controle engendra a própria oposição, que deve ser reduzida aos termos dialéticos com que poderá exercer ainda mais controle, alargando seus limites. É a Nova Police, – de Nova express, terceiro romance da trilogia, de 1964, – a polícia nova depende dos criminosos e conta com eles para se recriar (o que Michel Foucault chamaria de “economia das ilegalidades”). A todo momento, devem ser reprogramadas as resistências, remasterizadas as revoltas, adicionando novos axiomas do código biossocial, com o que o controlato prevê o campo do possível e colmata suas brechas, ao mesmo tempo que oferece a recauchutagem como o novo.

Estaria então tudo dominado? Burroughs e Deleuze se somariam aos pessimistas da totalidade, aos depressivos do espetáculo e do esclarecimento, como Debord ou Adorno? não haveria portanto saída e qualquer resistência mera ilusão? Nada disso.

Burroughs era um grande paranoico, mas a paranoia não deve ser entendida no sentido de patologia. A paranoia é o próprio substrato da sociedade ultracontrolada, e paranoico é o ponto de partida com o que se pode começar a decodificar o real. Como no Anti-Édipo, de Deleuze e Guattari: quando as máquinas desejantes se engancham no Corpo sem Órgãos (CsO), elas são repelidas imediatamente, num magnetismo de polo inverso, porque o CsO as vê como uma perseguição generalizada.

A construção burroughsiana do controle não deve ser buscada apenas na tecnologia, mas também na biologia. Daí sua maior força explicativa do que, digamos, as prosaicas teletelas de Orwell. Em Burroughs, a droga é a base do controle: para que funcione, é necessário que o controle seja querido e buscado, que a consciência nele se imante, e que a realidade controlada seja vivida como transe, e sua maior alucinação: o trabalho. Mas a droga não vem de fora, como um agente agressivo, como se houvesse uma sociedade saudável ameaçada pelo poder contaminador. Na sociedade de controle, o homem-máquina é construído com defeitos genéticos e desarranjos enzimáticos que fazem com que o próprio corpo produza as substâncias que o intoxicarão. As toxinas vêm da saúde normal. Uma intoxicação que é sistêmica: os bancos, os teatros, as praias e os livros precisam tanto de desintoxicação quanto as pessoas. Sem que haja homem puro a retornar, nenhuma saúde anterior a defender.

No capítulo Mayan caper, de Soft machine, o anti-herói viaja no tempo para libertar os escravos da civilização maia de seus sacerdotes perversos. E consegue fazê-lo assaltando o estúdio da realidade para então recombinar a trilha sonora com que o templo controlava corpos e mentes. Técnica subversiva semelhante à aplicada pelo atendente da loja de hambúrgueres no filme alemão Decoder (Muscha, 1984). Ao trocar a música ambiente de lugares públicos da cidade, ele consegue incitar uma revolta, intoxicando as pessoas de outro humor. Em Deleuze, na sociedade do controle, a revolta se catalisa pela interferência e pelo vírus, modos passivo e ativo de tumultuar o poder do controlato. Recombinar afirmativamente, cut-up, no que Burroughs sugere a técnica de fuga, a mesma com que ele próprio escreve a trilogia Nova. Deleuze e Guatarri também urgirão por uma intervenção na sintaxe, a única via para fazer literatura menor, isto é, chamar um povo que ainda não existe à insurreição.

A contraficção põe o controle em crise através da sintaxe. O campo de possíveis se esgota na semântica de um tempo. Os anticorpos paranoicos do Corpo sem Órgãos não são capazes de anular tais anomalias sintáticas, que o excedem a programação. O Controle precisa do tempo – mas do tempo homogêneo e linear, socialmente necessário, que o capital converte em mais dinheiro. O tempo densificado da criação, kairós, é recombinação em cut-up da sintaxe.

Deleuze enxerga máquinas revolucionárias montadas a partir das ciências e das artes – e não diretamente da atividade militante, que amiúde lhe parece (talvez injustamente) engendramento do próprio Controle, repetidora das moléculas de sujeição social em suas identidades e códigos. O próprio socialismo real, interiorizado como axioma do capitalismo e vice-versa, bem como a conversão da esquerda em grilo falante dos governos. Toxicômanos, não conseguimos nos libertar do sonho dos outros: europeus orientais sonhavam com Big Macs, ao passo que os ocidentais pretendiam planificar economicamente a abundância. Mas os Sputniks vagavam no espaço e Hendrix tocava Eletric Ladyland, bombardeando o inconsciente maquínico além dos sonhos do controlato. Tantos desejos maquinados pela ciência e pela arte, recombinados no evento de Maio de 1968, abriram uma fissura inédita na sintaxe de seu tempo. O novo, aí, não é política Nova – é interferência produtiva, cut up de fragmentos inconscientes que fazem num novo real. A revolução é um estilo político.

Publicado em 11 de setembro de 2014. Comente

Frege-gegensätze

 

1) “Marina não tem preparo para assumir a presidência”

 

O mesmo argumento foi usado contra Lula, em 2002, e contra Dilma, em 2010, que à ocasião não tinha sido eleita sequer vereadora. Marina, filiada ao PT de 1985 a 2009, foi senadora durante dois mandatos (1995-2011) e uma das ministras mais elogiadas do governo Lula (2003-08), além de deputada estadual (1991-94) e vereadora (1989-90).

 

2) “Marina é fundamentalista evangélica”

 

Marina até agora não misturou fé pessoal com ação política (http://tinyurl.com/olmkfgk) e disse não ser criacionista (http://tinyurl.com/ok674jq). Durante os 4 anos de governo, Dilma manteve na base aliada a dita “bancada evangélica”, favorecendo, por exemplo, a presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara por Marco Feliciano (PSC). Dilma esteve na inauguração do Templo de Salomão, onde afirmou “Feliz é a nação cujo Deus é o Senhor”(http://bit.ly/1phUSjF). A questão está mal colocada, dando a entender que evangélico estaria mais propenso a ser fundamentalista, não existindo “fundamentalista católico” ou “fundamentalista ateu”, quando o bloqueio a pautas de direitos no Legislativo é realizado também pela bancada católica e pela bancada laica da “família brasileira”, igualmente conservadora.

 

3) “Marina é contrária a pautas LGBT e aborto”

 

Apesar do recuo lamentável, o programa de Marina sobre os direitos LGBT ficou menos recuado do que as propostas de Dilma, que teve 4 anos para avançar e não avançou. Em seu governo, mandou recolher o kit anti-homofobia porque “não fará propaganda de opção sexual” (http://tinyurl.com/oykhg4o) e tem sido criticada pelo movimento LGBT que, numa conferência, chegou a entoar o coro “Dilma, que papelão, não se governa com religião” (http://glo.bo/1phV7eE). Além disso, Dilma também teve 4 anos para avançar na legalização do aborto e não avançou. O governo revogou uma portaria que regulamentava aborto legal pelo SUS (http://bit.ly/1vZnzrr) e pediu perdão à bancada evangélica por declarações no FSM-2012, dizendo que “não vai tomar qualquer iniciativa para alterar a legislação sobre aborto”. (http://tinyurl.com/olyve69).

 

4) “Marina é o novo Collor”

 

Collor está apoiando Dilma. O argumento pode ser entendido também no sentido que Marina não tem uma base extensa de parlamentares. É um desvio de perspectiva: o discurso de Marina é romper o bloco bipolar PT-PSDB que há 20 anos governa se revezando na aliança com o PMDB. Melhor questão para Marina seria, na realidade, perguntar como se poderiam agenciar forças sociais e construir redes de organização capazes de substituir o “pemedebismo de coalizão” da velha política, mais ou menos como o novo partido, o Podemos, tenta fazer na Espanha.

 

5) “Marina é a antipolítica”

 

A premissa da acusação é que não existe política fora da política representativa dos principais partidos, então qualquer crítica à política representativa é considerada como exterior à política. O mesmo argumento foi usado para desqualificar as manifestações de 2013 no Brasil. Dilma praticou antipolítica ao não conseguir se relacionar com os novos movimentos, lutas e demandas sociais, optando pela via da desqualificação e, em alguns casos, da criminalização (em especial, por meio do ministro da justiça). O perfil mais gerencial e tecnocrático do governo Dilma, em oposição ao governo Lula, também pode ser classificado como antipolítica.

 

6) “Marina não representa a nova política de junho de 2013″

 

A afirmação está correta, no sentido que nenhum partido ou candidato representa as manifestações do ano passado, que exprimiram uma recusa à política representativa como um todo. Por outro lado, existe uma falsa simetria na distância de Marina e Dilma em relação às jornadas de junho. Se Marina é uma tentativa de surfar na onda ou captá-la eleitoralmente, o governo Dilma foi, no mínimo, cúmplice da criminalização de ativistas. Muitos dos blogueiros “progressistas” e intelectuais governistas que agora lançam uma campanha de desqualificação de Marina são os mesmos que virulentamente trabalharam para desqualificar as jornadas de junho, tachando-as de coxinha, antipolítica, manipulada pela direita e golpista.

 

7) “Marina governará para os bancos”

 

Os bancos vêm aumentando progressivamente sua lucratividade durante os governos Lula e Dilma, faturando mais do que nos tempos de FHC. A autonomia formal ao Banco Central foi formulada por Palocci durante o governo Lula, e não nos governos do PSDB. Renan Calheiros, da base aliada de Dilma, quer aprovar a autonomia formal do BC nos próximos anos (http://tinyurl.com/ols3udj). No entanto, é correto criticar a proposta de maior independência do BC em relação ao governo, como anunciado no programa de Marina. Incorreto é dizer que Dilma tem uma proposta substancialmente à esquerda: nada fala de tributação progressiva dos ganhos de capital, e tem mantido uma política recuada na manutenção do tripé macroeconômico herdado desde FHC (câmbio flutuante + metas de inflação + rigor fiscal = superávit primário). Na verdade, o debate está mal colocado, tendendo para a denúncia moral do sistema financeiro. O aumento dos ganhos dos bancos tem mais a ver com a expansão do crédito, inclusão social e refinanciamento da dívida pública, na última década, do que por “usura”. O debate está viciado pela premissa do século 19 de que existiria uma economia real boa e uma economia especulativa degenerada, o que esconde o aumento de ganhos e a crescente lucratividade de grandes empresas do dito “setor produtivo”: montadoras, megaempreiteiras e agronegócio, que praticam economia de escala e compõem, junto com os bancos, o neodesenvolvimentismo brasileiro.

 

8) “Marina está teleguiada pelo Itaú”

 

O Itaú foi o maior banco financiador da campanha de Dilma em 2010, atrás apenas de duas empreiteiras e o grupo Friboi, e na frente da Ambev (http://tinyurl.com/o8vaqlz). Embora demonizada em chave racista, como “patroa branca” da “serviçal” Marina, Neca Setúbal participou da campanha de Fernando Haddad (PT) à prefeitura de São Paulo. Na ocasião, não só foi chamada de “educadora” e não “banqueira”, como seu nome é escrito “Maria Alice Setúbal” e não “Neca” (http://tinyurl.com/qhqvu8w).

 

9) “Marina é teleguiada pelo pastor Silas Malafaia”

 

Silas Malafaia não é da mesma igreja de Marina, ele pertence à Assembleia de Deus Vitória em Cristo, que sequer pertence à Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil, que por sua vez é rachada em várias correntes autônomas. Malafaia, no primeiro turno, está apoiando Pastor Everaldo e já disse que Marina não é “candidata evangélica” (http://tinyurl.com/noyxtsy). Ele vai apoiar Marina no segundo turno. A Igreja Universal do Reino de Deus, do Bispo Macedo, apoia Dilma.

 

10) “Marina é contra a revisão da lei da anistia”

 

Dilma tem evitado se posicionar no tema, afirmando que “reconhece e valoriza os pactos políticos que nos levaram à redemocratização” (http://tinyurl.com/nceesrk). O Clube Militar, liderado por oficiais generais reformados na faixa dos 70-80 anos, emitiu uma nota bastante ambígua dizendo que Marina seria “fio de esperança” para pôr fim nos governos do PT, embora a tenha chamado de “messiânica” e desprezado a “nova política”. Dias depois, o Clube esclareceu dizendo que a nota anterior tinha objetivo de polemizar, e que seu candidato nunca deixou de ser Aécio (http://tinyurl.com/oq5o38g).

Publicado em 5 de setembro de 2014. Comente

shadows

Eu sou ateu. Já tentei ser panteísta e panenteísta, que seria mais “filosoficamente correto”. Mas não consigo adotar o Deus de Spinoza e Einstein. Posso apreciar sua grande beleza, o vitalismo, o rigor ao mesmo tempo matemático e ético, mas fé não rola. Talvez sejam os hormônios. Porque sou ateu desde menino. A ideia de Deus jamais se instalou em mim.

Como ateu hormonal, arrogante como muitos, tive uma adolescência difícil. Zombava dos crentes, debochava dos livros religiosos, atribuía a fonte dessas ideias ao populacho supersticioso, à irracionalidade, à fraqueza emocional. De lá pra cá, me tornei menos cretino, embora os hormônios sejam os mesmos. Se existe algo como a maturidade, é dar um salto ético para enxergar no outro não apenas a diferença, mas um universo inteiro diferente com direito próprio. Uma ética que não é apenas reconhecer as crenças dos outros ao mesmo tempo que as atribui, bondosamente, a um déficit de esclarecimento ou à pobreza. Não há nobreza de caráter em julgar os valores e ideias dos outros com menor severidade do que se julga os seus próprios.

Tal salto ético me permitiu ver com mais clareza o corte político de minha intolerância. De família católica, na infância o repúdio ao catolicismo era ambíguo: secretamente admirava a sobriedade da liturgia, a harmonia dos rituais, uma tolerância humanística em não caçar o católico no íntimo de sua consciência: a prática dos sacramentos bastava. Sobretudo, eu reconhecia o trabalho social de pastorais e franciscanos. Sentia uma atração erótica pelos jesuítas, pelas rixas teológicas, por Padre Vieira e São Tomás. A mim, o credo evangélico agredia qualquer coisa de estético. Ofendia o bom gosto mais do que a razão. Já as religiões afro, para o adolescente ateu, significava o exótico: me atraíam menos pelo que diziam, do que pelo elemento de identidade que me permitiam agregar. Hoje vejo obviamente como todas essas posturas de filho esclarecido da classe média branca embutiam preconceito de classe e, claro, racismo.

Tantos anos depois, fiz essa recapitulação por um único motivo. Para defender Marina Silva. Não faço por nenhuma campanha. Primeiro, por não acreditar que mudar o presidente conduza, por si só, a uma mudança real. Só a continuação das lutas, como as do ciclo de 2013, podem tensionar o governo à esquerda, quem quer que seja eleito. Sem a continuação da lutas, o pemedebismo de todos os partidos e os patrões de todos os setores econômicos vão ocupar a governabilidade, independente do candidato eleito. Segundo, porque não devo sequer votar nela: estou mais propenso a, pela primeira vez, anular o voto, e se decidir votar, vai ser no Eduardo Jorge, com a melhor performance à esquerda.

Mas vou defender Marina Silva, sim, porque a eleição está escancarando as vísceras do que se entende como esquerda no Brasil. Suas tripas cheias de merda preconceituosa, congestionada de medos bovinamente cultivados por doze anos no pasto, confortos pequeno-burgueses e surdez epistemológica estão expostas nas redes sociais, nos jornais, na TV. Marina, como pessoa, é candidata mais aberta do que Dilma e Aécio. Tem maior capacidade de comunicação e composição, esbanja sensibilidade social, conhece de mais perto a pobreza, seu misto de privações e potências que marcam um caráter de generosidade e firmeza.

Marina foi católica e agora é protestante. Um flanco desnudo numa sociedade em que o catolicismo está naturalizado na paisagem histórica, e onde o corte católico/protestante corresponde, grosso modo, ao corte rico/pobre. Enquanto os católicos são associados às Luzes, à convivência e à tolerância, os evangélicos são remetidos às Sombras, ao fundamentalismo e à intolerância. Como se a Igreja Católica fosse favorável à legalização do aborto, quando ela é a inimiga maior dessa ideia no mundo, incapaz sequer de reconhecer a relevância da camisinha para o controle de epidemias globais.

É preciso defender Marina Silva, ai de mim, de Jean Wyllis. Jean foi irretocável em indignar-se em termos duros contra o fato que, num dia, o programa de Marina contemplou a quase totalidade da pauta LGBT para, no seguinte, recuar em pontos importantes. Compartilhei da decepção e escrevi a respeito. Mesmo que, apesar do recuo, o programa tenha ficado menos recuado do que o de Dilma, que teve 4 anos para avançar e não avançou um centímetro. Mesmo assim, foi péssimo para Marina. Porém, a declaração de Jean merece retoque, ao dizer que, no caso da última, o recuo se deveu a um obscuro fundamentalismo pessoal.

Erro! Erro ao considerar que um evangélico está essencialmente mais à direita do que um católico ou um ateu, *pelo fato* de ser evangélico. A inversão de causa e consequência embute intolerância. Bispo Macedo, Feliciano e Malafaia não são homofóbicos porque evangélicos: eles são homofóbicos evangélicos, que seriam tão homofóbicos se fossem católicos ou ateus, embora noutros termos, com outra estética. A irracionalidade não está na religião. Uma religião é tão racional quanto qualquer outra, seja católica, protestante ou afro, e nenhuma religião menos do que o ateísmo, que também depende de inclinações, de hormônios próprios. Se alguma posição fosse mais racional do que outras, seria possível convencer racionalmente os outros e eu posso garantir ao leitor, por experiência própria, que é absolutamente impossível convencer alguém a se tornar ateu.

Tudo isso para dizer que, vença quem vencer a eleição, a esquerda precisa de uma dignidade mínima que não tem nada a ver com moral. Tem a ver com uma ética da alteridade, ética da democracia, na base de um projeto de democracia que não se resuma a multiculturalismo cínico. Campanha eleitoral não é vale tudo. Dizer que eleição é guerra e a baixaria se justifica me parece aquele argumento de humoristas racistas que se isentam de responsabilidade porque é humor. Reforçar o fascismo social é assumir uma posição à direita. Não dá pra transigir. A defesa do que se entende por esquerda não pode ser incondicional, ou eufemisticamente “estratégica”, a ponto de depor as qualidades essenciais que nos sugerem continuar adotando a esquerda por campo.