Quando chegamos perto do Teatro Municipal, a manifestação dos 100 mil passava por um dilema. Agrupada num bloco mais ou menos único desde a Candelária, a multidão agora parecia se dividir. Numa direção, aqueles que seguiam até a Cinelândia, onde estava previsto o fim do ato. Noutra, os que desviavam pela Evaristo da Veiga, em direção à ALERJ. Postado diante da bifurcação, fiquei na dúvida. Não sabia se iria assistir aos comícios e falas que aconteceriam na praça, ou se acompanhava os grupos esparsos, embora numerosos, que se destacavam da marcha na Rio Branco rumo ao prédio do legislativo. Havia amigos e companheiros indo em ambas as direções. A minha hesitação sobre que caminho tomar era compartilhada por muitos outros, que diminuíam a velocidade naquele ponto do trajeto. O que me convenceu, enfim, foi o modo como os grupos caminhavam. A pisada dos que desviavam do rumo original era de uma firmeza contagiante. A sola encostava inteira no chão, num movimento ritmado, denotando o propósito de quem escolhia esse caminho. Decidi não me extraviar nessa noite drástica e fui com eles.
Quanto mais próximo da ALERJ, mais próximo o barulho do conflito, suas explosões e gritarias. Uma vanguarda de jovens encapuzados já travava os primeiros atritos com a barreira policial, debaixo da escadaria da assembleia. Muito mais pessoas chegavam de todos os lados, em verdadeiras corredeiras de carne humana vertendo na frente do edifício histórico. Os estrondos se somaram à irritação do lacrimogênio, à ofuscação das luzes e todos os fogos, aos sustos das correrias, numa cinestesia saturante que infundia a desorientação, o medo e a vontade de ir embora. Perdi a noção do tempo. Tudo era intenso. Com alguns companheiros, em meio a rostos possuídos pela sensação de poder coletivo, avancei pacificamente até bem próximo do palácio.
Foi ali, então, que se deu o imponderável. A quantidade e a moral dos manifestantes sobrepujaram a barreira da PM. A tropa acuadíssima recuou para dentro do prédio. A multidão irresistível e delirante assaltava as escadarias, gritando, cantando e atirando pedras, paus, rojões e suas próprias bombas caseiras. Uma apoteose de raiva e alegria. Foi a reversão da cena clássica de Eisenstein no Encouraçado Potemkin, a retomada extemporânea das escadarias de Odessa. Uma sequência marcante, a ponto de alguns policiais perderem o controle e dispararem armas de fogo letais, inclusive fuzis, alvejando pelo menos um jovem. É difícil não cair no impressionismo ao narrar.
Certos momentos, vi como manifestantes entravam em pânico do nada, um descontrole que pegava pelo ar e transmitia a correria ao coletivo. Saíam em debandada e era preciso levantar as mãos bem para o alto pedindo calma, quase como se faz para sustar o estouro de cavalos ou bois. Aos poucos, contudo, o efeito manada ia diminuindo. O vaivém se tornava menor, como um movimento pendular com amplitude decrescente. As pessoas aprendiam a lidar com as explosões e tiros, convivendo na tensão. Voltavam a pensar e agir. A luta ensina a lutar mais. Em determinada hora, as fileiras na casa dos milhares já avançavam em direção ao coração do conflito.
Sucede nesses momentos todo um aprendizado corporal, uma experiência para curar de hábitos estabilizados por anos de afastamento das ruas. Sem ruas, mesmo as redes sociais mais combativas podem decair numa indignação mecanizada, tal qual a risada de fundo dos programas cômicos. Elas nos poupam o esforço de chegar ao ato e nos dispensam de rir nós mesmos. Mas na revolta deixamos de ser vacas. Desconectados pela experiência de luta dessa indignação enlatada, nos libertamos também das caretas dos âncoras, das reações automáticas do almoço de domingo, dos “bens de conversa” com o que evitamos bovinamente de tomar posição, ficar mal com os outros, nos expor. A condição de luta nos arranca desse conforto, e assim nos salvamos de um senso comum que exila do mundo. Revolvidos pelo poder coletivo, o corpo desembota e se coloca ereto, sem culpas, receios, frustrações. Livre e pobre, magro e forte.
É tudo o que a ordem capitalista mais teme: o descarrego multitudinário das dívidas.
Na noite do 17J, palácios foram pixados, vidraças estilhaçadas, um carro revirado e incendiado, muita propaganda avacalhada, agências bancárias reduzidas a pó. Uma ciranda se organizou ao redor do fogo. Ria-se em meio ao caos. E não havia como estancar o movimento. Na verdade, nem desejo à altura para opor-lhe. Muitos agentes do estado não partilham do mesmo ódio de classe ou raça que a classe dominante. Um policial infiltrado depôs as armas e declarou não querer mais servir a um estado inaceitável. Os bombeiros acenavam e eram bem acolhidos. Alguns policiais mostravam desconforto em enfrentar as pessoas, menos por causa da ordem de cima de não atacar, do que por um inconformismo coincidente com a manifestação.
Quem tacha os elementos mais radicais de vândalos não está entendendo o essencial. A “violência” contra a propriedade, o ataque ao urbanismo e a agressão à cultura têm o seu sentido político. Não é caso de fazer apologia (quem quer deliberar ou premeditar violência, vá lá e assuma eticamente), mas entender a qualidade política do momento que vivemos. O contrário disso é ser atropelado pela história a 160 km/h. Às vezes, a própria esquerda parece presa a uma zona de conforto, relegando a memória das lutas ao oblívio, como se a revolta e o tumulto não estivessem no DNA das conquistas de direitos, da vitalização das instituições democráticas. Nesse contexto, é sintomático que os garrafinhas dos governos e partidos no poder não consigam formular nada além da teoria da conspiração udenista, aos poucos consolidando-se como a versão tupiniquim da velha conspiração judaica.
No cômputo final, saiu barato. As contas estavam sendo cobradas e eram altas: da Aldeia Maracanã e Pinheirinho, das remoções e choques de ordem, das pancadarias de rua e da sistemática brutalidade estatal, do racismo, da violência de gênero, de uma população com péssimos serviços de transporte, saúde e educação, enquanto fábulas são investidas em megaeventos para os ricos assistirem e os muito ricos lucrarem. O governo deveria agradecer. A potência da multidão era indescritível. Uma força também construtiva, que transformava a todos. A cada dia, é mobilizada a economia afetiva de autovalorização, autonomia e desejo de mais conquistas. Um acúmulo de propósitos e vontades, aos poucos galgando o nível da organização. Se o objetivo fosse apenas destruir as coisas, teriam destruído o centro da cidade como nunca antes. Desta vez, sequer podem acusar a mobilização de perspectivas vagas e utópicas. Suas demandas são imediatamente perceptíveis por todos. Nenhuma cortina de fumaça pode durar muito, diante do óbvio.
Tudo isso, apesar da desinformação da grande imprensa, cada vez mais desacreditada e odiada. Ela já percebeu que suas posições iniciais eram insustentáveis. Desse jeito, os jornalistas só vão conseguir entrar numa manifestação na condição de P2, devidamente disfarçados, ou então que cubram os eventos de helicóptero.
Ao me recuperar do esgotamento completo, daquela noite de plenitude pungente, bebendo cerveja com um sentimento lisérgico, fiquei imaginando o desespero dos gabinetes. Quantas ligações telefônicas e ninguém sabendo o que fazer. Devem estar elucubrando o que se passa, ligando para bases que neles não mais confiam. Aninhados no poder constituído, afastaram-se das forças vivas do tempo. Enquanto não entendem, os tumultos vão se disseminando das cidades grandes às médias, atingindo todas as regiões do país. O movimento colhe a aceitação geral mesmo de quem não o está vivendo diretamente, dobrando as reações de primeira hora da grande imprensa.
Agora, quando se viu que pegou pra valer, e repercute junto a um ciclo global de revoltas, os espertos querem tirar uma casquinha. Isso não deve escandalizar, tampouco nos afastar da disputa. Se não reprimem como antes, e tentam capturar as forças por dentro do movimento, redirecionando-as, é porque algo de muito vivo anda à solta. Sejamos mais espertos. Temos de ser.
A luta continua. Firme, atenta, sem vacilo. É preciso extrapolar as tendências positivas e embutidas nos antagonismos, ressaltar os pontos de atrito, multiplicar as redes de organização, mídias autônomas e futuros em gestação. Na barriga deste mundo, está definitivamente nascendo outro. Não mais um sonho, uma criança. A geografia afetiva desse mundo se escreve agora mesmo, na coexistência de revolta e amor pela revolução. Eu não digo basta. Eu digo quero é mais.















