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Publicado em 6 de maio de 2012. Comente

Durante 42 dias do ano passado, a acampada da Cinelândia criou um cronótopo deste ciclo global de lutas, — do devir-Sul do mundo exprimido pelas revoluções árabes, a Praça Tahrir, o 15-M de 2011 e o movimento Occupy. Um êxodo geracional que recombinou fluxos e reuniu todas as idades e realidades, desordenando as coações representativas, identitárias e proprietárias da ordem posta. Pequenos-burgueses e macunaímas, acadêmicos e saltimbancos, o evento tocou a todos e para sempre. Numa sucessão de oficinas, debates, festas, cirandas, performances e tudo que se pôde fazer, a OcupaRio foi um microevento. Um marco singular em meio à eloquência dos megaeventos; um oásis de vivência radical e composição monstruosa, nas frinchas da monocultura do brasileiro desenvolvido.

Removida pelo choque de ordem carioca no final de novembro, a ocupação adotou um estado gasoso. O gênio saiu da garrafa e se volatilizou por outros lugares: Circo Voador, MAM, IFCS, passou a se articular com outros movimentos. No escopo do chamado mundial do 12 de maio (12M), a OcupaRio migrou para a zona norte. Assim, pretende sair dos impasses neuróticos e paranoias da ordem, e revitalizar-se com outra galera. Na cidade do Rio de Janeiro, o sul está no norte. O intento é procurar diretamente os bairros e seus territórios produtivos. Na Praça Agripino Grieco, do bairro do Méier, no próximo sábado, serão realizadas atividades de hip hop, teatro de rua, cinema, poesia, debate, performance, prosa, skate, heavy metal, goiabada e outro mundo. Vão participar grupos ligados a diversas agendas políticas: antimanicomial, feminista, cultura digital, dia do basta, moradia e transporte público, marcha das vadias, antipsiquiátrico, antijornalístico, blogosfera bárbara, entre outros. Não se exige inscrição: é só chegar, a partir das 14:00 (mais detalhes aqui).

Talvez a grande diferença entre as atividades do Occupy e OcupaRio, em relação a movimentos sociais mais tradicionais e orgânicos, esteja na despreocupação com estruturas e pautas muito definidas. Sua força consiste na tentativa de alquimia antropológica, de um do in, que repete as propostas da contracultura sessentoitista e do tropicalismo brasileiro. Põe em movimento uma antropologia simétrica que antes elabora corporalmente pontos de vista e perspectivas, em vez de apresentar um mundo fechado, que caberia ao poder constituído reconhecer e lhe conceder direitos. Isso causa muita incompreensão da parte de militantes menos ousados, de modo que alguns movimentos sociais tendem a olhar de cima, com certo ar de superioridade, arrogante ou condescendente. Mas a organização da revolta, isto é, da vontade de viver e dos tumultos, também passa pelo agenciamento corporal, pelo trânsito entre estados de existência. Simplesmente viver, sem se conformar, já é reexistência sincrética ante as capturas e anestesias cotidianas.

Já dizia Gláuber, contra a cabeça do colonizado, só a macumba brasileira.

Diante de um governo imerso num sono dogmático e de uma esquerda sem imaginação e samaritana, a OcupaRio se coloca como plataforma alternativa para a atuação de quem deseja viver a pólis. E viver intensamente a fantasia de seu tempo histórico. É pegar por trás os movimentos existentes e gerar monstros, na via dolorosa do prazer. Eis a inadiável cópula antinatural dos povos, em que meio ambiente e cultura se dobram e redobram, uma ecologia antropofágica onde todos podemos ser índios. É colocar-se na pele da geração e viver a pele, — essa franja que nos faz ser e ousar ser. Se o inimigo da revolução é o Sistema, essa inimizade reside no fato que Ele não nos deixa viver tudo o que podemos. Daí o imperativo desejante de jamais deixar-se pensar pelos limites, pelo que nos constrange e bloqueia. Uma recusa a pensar e pensar-se nos limites da representação, do inconsciente, do planeta ou do capital: simultaneamente antiestatal, anti-Édipo, anti-Gaia e anticapitalista, no limiar absoluto onde a esquizofrenia da Terra confina com o comunismo. Trata-se do que podemos e queremos. Do que seremos.

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Vídeo-chamada glauberiana por Ricardo Gomes:

Publicado em 30 de abril de 2012. Comente

Poucas vezes um governo reuniu tamanho consenso ao redor de si. O governo Dilma surfa no otimismo nacional. Incensada pela grande mídia, paparicada por chefes de estado, premiada, admirada, a presidenta está com a bola toda. Seu modo de governar enfatiza a eficiência, a ordem, a capacidade gestora, a intolerância diante da corrupção, da leniência, do atraso, do mau funcionalismo. Dilma é daquelas pessoas que olha para a frente e anda em linha reta. A única fantasia digna da responsabilidade que assumiu é a casaca de general. A passo firme, sabe pra onde vai e ai de quem se colocar em seu caminho. Não tem muita elucubração de intelectual, é hora de realpolitik: o Brasil tem de continuar crescendo, ocupar a cadeira no rol de grandes nações, distribuir renda, incluir todos em seu projeto social e econômico.  Além (ou aquém) do governo Lula, Dilma foi abraçada pela velha classe média, se rodeou ainda mais de um peemedebismo por assim dizer “sociológico”, e não mexeu com as bases políticas estruturadas pelas igrejas evangélicas, — tudo isso em detrimento da relação com os movimentos sociais e das lutas concretas. Os 64% de ótimo-bom chancelam a combinação de sucesso, confirmada matematicamente também pelos indicadores do IBGE, IPEA e BC.

Os dilmistas admitem que nem tudo é perfeito. Mas mantêm uma crença granítica que o projeto de Brasil, no cômputo geral, é esse mesmo. Não há alternativa mais à esquerda. Megabarragens, mega-aeroportos, megaeventos, megainvenstimentos, enfim, megacoisas têm de ser feitas para a gente chegar lá. A incontinência quantitativa recheia as mensagens políticas, cada vez mais publicitárias. Dilma aparece como a pessoa capaz de fazer, decidida a fazer, e que faz. Os dilmistas confiam quase cegamente no juízo da presidenta. Se ela erra, é porque estaria mal assessorada, porque teria sido enganada por conselheiros mal-intencionados, por jornalistas mentirosos. A esquerda brasileira tem coração eslavo. Acredita na bondade última do czar*. Como duvidar do compromisso ideológico de alguém com a trajetória da presidenta? A convicção redime automaticamente qualquer ato da liderança e justifica a militância acrítica, convertendo todos os problemas numa primária aritmética de correlação de forças.

No caso do Ministério da Cultura, por exemplo, vários ativistas insistem em despender esforços para entender o que se passa na cabeça de Dilma; como convencê-la, por dentro do governo, do erro que é Ana de Hollanda; como mostrar por A + B dos despropósitos dessa gestão diante das realizações de outrora, no governo Lula. Ora, passados um ano e quatro meses tentando “derrubar a ministra”, — sob o assentimento quase paternal da grande imprensa, — será que esses ativistas não conseguem perceber que se trata de um subproduto da política do governo e do desenvolvimentismo dilmista, e não uma falha contingente? Analisar intenções neutraliza a capacidade de análise. A rigor, examinar o foro íntimo, a esfera de convicções e intenções de uma pessoa, é tão inútil quanto tentar descobrir o que se passa na cabeça de um caranguejo.

É, no mínimo, paradoxal. Com a crise, os governos da Europa e Estados Unidos têm por pesadelo virar algo como o Terceiro Mundo. O grande medo incutido nas populações estaria na alta civilização ocidental “regredir” à condição de sociedade favelizada, violenta e extremamente desigual. Esse medo preenche o tecido social de pulsões xenófobas e racistas, chocando mais uma vez o ovo da serpente. Mas até filósofos mais radicais derrapam ao equiparar brasilianização com favelização. A esquerda européia, com raras exceções, simplesmente não enxerga a potência gerada na América Sul, com seu devir de raças e sua antropofagia, principalmente na década passada. Foi necessária uma mobilização geracional muito além da Esquerda para que a Praça Tahrir, a mais árabe das revoluções, pudesse chegar a Madri, Londres e Nova Iorque. O devir-sul do mundo contagia e acaba se afirmando, apesar das barreiras, desdéns e miopias de partidos e grupos organizados da esquerda. Por outro lado, igualmente míope e desdenhoso, o governo Dilma se limita a pretender ser como o Primeiro Mundo. O projeto de Brasil é chegar lá, no futuro primeiromundista, no exato momento histórico em que esses regimes capitalistas fracassam a olhos vivos. Como se o planejamento de Brasil e brasileiro, — um projeto econômico e antropológico, — estivesse orientado à Europa e ao europeu de cinquenta anos atrás, desconsiderando toda a dinâmica da crise global. Enquanto surgem novos processos e subjetividades, novas bases materiais para ousar o máximo existencial, o modelo dilmista reproduz a mesma lógica economista e desenvolvimentista, uma racionalidade que já é passado. O norte não quer ser o sul e o sul quer ser o norte, enquanto todo o problema talvez esteja exatamente em querer ser como o norte.

O mal do consenso costuma ser a falta de imaginação.

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* Devo o insight ao amigo Hugo Albuquerque, do Descurvo, que passou um agradável fim-de-semana no Rio, entre noites de boemia e longos papos eslavófilos. O Hugo é um blogueiro franzino, mas tem uma Rússia dentro de si.

Publicado em 23 de abril de 2012. Comente

Plano apocalíptico de Melancholia, Lars von Trier, 2011

 

A menos de dois meses para a Cúpula dos Povos, já começaram a chegar pessoas ligadas a grupos e movimentos que vão participar das atividades. Estou aproveitando a possibilidade de aprofundar algumas questões, em encontros pela cidade, em botecos, cafés, filas de cinema. E está ficando claro pra mim que o debate é repleto de zonas intermediárias, de pontos de vista emaranhados. Não dá pra esquematizar muito. Mas é possível anotar algumas tendências. O diagnóstico geral, me parece, é que as coisas vão mal para o meio ambiente, e é preciso mudar a forma de produzir e organizar a sociedade. O dissenso aparece no como.

Num pólo, tem quem acredite que, no geral, bastam ajustes, mais ou menos impactantes. Agrupam-se sob os slogans do desenvolvimento sustentável ou da economia verde, um outro nome para capitalismo verde. É possível fabricar consensos capazes de mobilizar os governos e a ordem internacional a impor compromissos e limites ao sistema produtivo global. A sociedade civil precisa se organizar mais e pressionar. Deve-se fortalecer uma consciência dos problemas socioambientais que afligem o planeta como um todo, o que depende também do cidadão comum: coleta seletiva do lixo, reciclagem, economizar água, favorecer alimentos orgânicos, promover eventos alternativos de conscientização, de programas ecológicos a festivais de rock.

No outro pólo, aparecem as correntes catastrofistas. Não tem jeito. Mesmo com ajustes, a vaca vai por água abaixo. A vida humana como a conhecemos tem data de validade. Virá o pior dos mundos. É uma verdade científica, de certeza matemática, absolutamente inegável. Negá-la tanto pode ser cinismo, como negar o extermínio dos judeus (ou dos índios, ou dos palestinos), quanto pode ser uma espécie de recalque mental. Como quando alguém pega uma doença grave e demora a aceitar para si mesmo e os próximos. Semelhantes ao avestruz, os ditos negacionistas enfiam a cabeça no buraco. Só vão admitir o fato incontornável tarde demais. Para os escatológicos científicos, somente uma virada  radical poderia minimizar o processo de falência dos ecossistemas, que sustentam a vida como a conhecemos.

E aí existem inúmeras variações e modulações. Os caminhos do ambientalismo são muitos.

Dentre os que acreditam nos ajustes, perfilam-se os desenvolvimentistas versão light. É caso de qualificar o desenvolvimento com a sustentabilidade. Basta sentarmos de coração desarmado, sem ódios e vaidades, que se pode chegar a um consenso sobre as melhores soluções para o meio ambiente, sem mudança radical. E, a partir daí, continuar desenvolvendo o país e reduzindo as desigualdades. Mesmo porque ecologia também é um novo modelo de negócios. Se o ativismo verde está substituindo o vermelho, não se pode esquecer que o verde também é a cor do dólar. Muitas empresas e a febre ongueira também vão por essa direção, ávidas por colar o verde em si mesmas e mercadejar as marcas. Contam com bons missionários da harmonia cósmica. Sem falar no ecologista aburguesado, que compensa as culpas (e são tantas) com uma atitude de “bom selvagem” contemporâneo. O progresso moral há-de resolver os nossos problemas, por mais profundos que sejam, e sem derrapar da linha do tempo capitalista. Sim, esses dias, ouvi as ingenuidades mais comoventes.

Já na turma da catástrofe, ronda o niilismo mais milenar. De Nostradamus a Paul Kingsnorth, passando por inumerável filmografia hollywoodiana, anuncia-se nada mais nada menos que o fim do mundo. Não duvidem de nós!, conclamam. Alguns resmungam e lamentam, num canto de impotência. Outros carregam nos olhos o fogo do apocalipse: deixemos Roma queimar por seus pecados. Eis o castigo pela ousadia prometeica do homem. De suas ruínas construiremos uma outra sociedade. Mas têm os mais “estratégicos”, pra quem, — especialmente num contexto de crescimento econômico em que, segundo a concepção pavloviana deles, a maioria das pessoas só quer saber de trabalhar e ganhar mais dinheiro, — se fazem necessários apelos à mútua destruição garantida, a fim de mobilizar a sociedade e solidarizar os governos. É a aposta numa civilização que vê na própria extinção a única esperança de mudar realmente. A última esperança que antecede o pior niilismo, o suicídio ético da passividade consentida.

A única qualidade do catastrofismo, com que se poderia condescender, está no flerte ocasional com uma crítica radical do capitalismo. Mas põe tudo a perder quando assume a concepção escatológica de revolução. Isto é, uma concepção diacrônica e decadentista: estaríamos na transição entre dois tempos históricos. Salvemo-nos hoje do cataclisma de amanhã, quando a humanidade será julgada por seus atos. Soa esquerdista, afinal.

Penso que se corre um grande risco de a Cúpula dos Povos se limitar a colocar falsas questões e levantar falsos dilemas. A mística do progresso e a escatologia com ares científicos, em última análise, opõem duas ontologias negativas. De um lado, uma teleologia onde o futuro redime um presente que falta. Do outro, a denúncia de toda a metafisica ocidental, da técnica e do esquecimento do Ser, desse Moloch abissal que fabricamos industriosamente e que, agora, vai atirar os seus filhos à fogueira. Isto sempre significa aproximar a revolução de costas, afastando-se de nosso tempo e de nós mesmos, com promessas e destinos grandiloquentes. A rigor, não pode haver hegelianos ou heideggerianos de esquerda.

A fria atrocidade da ordem posta é inegável. O problema é mesmo socioambiental, antropológico, de economia política, biopolítico, enfim, ontológico. A fantasia não é um universo inventado como compensação pelos fracassos da realidade exterior. Nem messianismos e utopias, diante do que deveríamos nos pôr de joelhos. Imaginar alternativas significa ir muito além da atual crítica do desenvolvimentismo, além do progresso, da sustentabilidade, do verdismo, além das dualidades infernais e polêmicas encomendadas, além da democracia de shopping e do bem estar de condomínio que têm sido alçados como ideal. Realmente, não tenho a solução, só rascunhos de inquietações. Justamente, esse é o exercício político de fabulação e construção para a Cúpula enfrentar. Nem que seja para colocar o problema de um modo menos enviesado. O outro mundo não está longe, nem futuro nem passado, agora. Como organizar a indignação, a vontade de viver e os tumultos? Como aprender o que já sabemos, tornarmo-nos o que já somos, o que jamais deixamos de ser?

Publicado em 17 de abril de 2012. Comente

Durante o governo Lula, o ministério da cultura abrigou um campo muito produtivo de experimentação política. Antes, não é tão injusto dizer que o MinC não passava de balcão de negócios para os tubarões da Lei Rouanet e os amigos dos amigos. Na esquerda, era visto como bijuteria, como um setor de poucos recursos destinado a agradar a “classe artística” e parentes mais ilustrados. Nada sério. Com os ministros Gilberto Gil e Juca Ferreira, os recursos não só aumentaram, como foram parcialmente democratizados. O programa Cultura Viva, cujo carro-chefe foi a política dos Pontos de Cultura, propiciou um campo de produção que passou a reconhecer a realidade multiestratificada de cultura, economia e política. Conceitualizada por Célio Turino, a política dos Pontos inovou como gestão transversal e colaborativa de pólos produtivos, multiplicando pontos de vista, ao mesmo tempo em que viabilizou uma base de renda aos trabalhadores da cultura. Indo além do paradigma da sustentabilidade e de todas as transcendências do Artista-Deus, as políticas nos anos Lula incentivaram a produção cultural num sentido generoso e profundo, como processo social imanente de imaginação, combinação e propagação de sentidos e vidas, como proliferação de incubadoras para a geração de alternativas de sociedade. A produção cultural não como assunto para profissionais e empresários, ou empreendedores criativos, mas de todos e para todos, por meio das infinitas redes e emaranhados que se atravessam e nos constituem.

Evidentemente, o do-in antropológico na própria esquerda não agradou à Esquerda, a tradicionalmente instalada nos partidos e governos. Isso já vem acontecendo desde a passeata contra a guitarra elétrica, passando pelo ostracismo de Gláuber e Sganzerla, até chegar ao criticoativismo de uspianos anti-tropicalistas. O fato é que, na passagem para o governo Dilma, os apparatchiks das secretarias culturais e militâncias orgânicas se uniram às abelhas rainhas e velhos caciques do cepecismo-zona-sul, a dita “classe artística”, para acabar com a zona (autônoma temporária) do ministério. Em suma, sucedeu a restauração. Daí por diante, a história do MinC que todos conhecem tem sido a submissão às concepções mais retrógradas simultaneamente de cultura, política e economia. É um projeto nada autista e muito bem articulado ao realismo do atual governo, onde não há alternativa senão desenvolver a economia nacional para fazer caixa e, no final das contas, distribuir o que sobrar. O resto é fantasia.

Abrangente convergência de protagonistas permitiu que algo como o MinC de Lula pudesse existir, num contexto governamental constrito pela camisa de força da correlação de forças e tendencialmente conservador. Mas, de 2003 a 2010, ele aconteceu. Um dos elementos mais visíveis dessa convergência se deu sob o guarda-chuva da cultura livre (e falarei mais sobre guarda-chuvas). A cultura livre, se é possível sintetizar, consiste numa agenda política que visa a liberar a circulação, a remixagem, a difusão e o consumo de bens culturais, saberes, conhecimentos e informações. Ela se desdobra em várias frentes de atuação, do software livre à lógica open source,  da abertura do espectro de rádio à internet banda larga universalizada. Dentre os inimigos imediatos da cultura livre, perfilam o copyright, as patentes, o direito rígido de autor, os oligopólios de frequências de rádio e bandas de internet, os códigos fechados de programas e algoritmos, e todo o empresariado cultural que lucra atravessando e explorando o processo social das culturas vivas. No Brasil, durante o governo Lula, a cultura livre escandalizou a “classe artística” e a indústria cultural que a sustenta. Uma e outra, representadas pelo ECAD (logo, o MinC de Dilma), repartem entre si o saque da sociedade a título de propriedade imaterial. A pauta anticultura livre prossegue com o combate à pirataria, a criminalização do movimento social de download e a de todos os usuários da internet que compartilham democraticamente os conteúdos.

Podem-se distinguir vários protagonistas no agrupamento denominado cultura livre. Tem o pessoal do Creative Commons (CC), um processo de licenciamento (possivelmente) mais flexível que o copyright, cuja grande referência é o Lawrence Lessig. Os comuns criativos seriam bens onde não reina a escassez e, portanto, não haveria sentido em reproduzir na cultura o modelo proprietário e restritivo dos bens materiais. Tem também uma galera mais focada na questão digital, que se pauta pela luta contra o controle das redes por estados ou imperialista, pelo compartilhamento e software livres, bem como pela universalização do acesso à internet e ao hardware pelos cidadãos. Julian Assange e o Wikileaks são referências importantes, além do Anonymous e, no Brasil, o militante Sérgio Amadeu.

Cruzando essas órbitas, também grupos que se organizam economicamente como novo modelo de negócios. Adotando o CC, a flexibilidade de gestão e a concepção de cultura como cadeia produtiva, trata-se de um híbrido de empresa e coletivo, que se propõe a existir dentro das novas potencialidades. Essa fauna “político-cultural-econômica” (doravante, “biopolítica”) cresceu e se multiplicou, na medida em que o movimento social de cópia e compartilhamento livres pôs em crise a lógica até então prevalente do negócio. A atmosfera de final de expediente da indústria cultural talvez tenha sido melhor expressa em Artista Igual Pedreiro (2008), da banda Macaco Bong. Manifesto até no título, as músicas do álbum arrasam a terra para propor o recomeço, tijolo por tijolo (como diriam os Arctic Monkeys), da edificação da música brasileira: uma nova. Contra o glamour do Deus-Artista e sua entourage de críticos nostálgicos, eis a geração que, espremida por tantos constrangimentos e interdições, precisa abrir senda aqui e agora, porque quer viver seu tempo histórico. E vai mesmo.

Até aí, tudo bem. A convergência no MinC do governo Lula singularizou uma experiência multifacetada, intensamente produtiva. As ambivalências, ambiguidades e frinchas se sucederam como resultado dessa riqueza mesma. Em termos oswaldianos, a contribuição milionária dos erros moveu a problemática para mais além, apesar de tudo. Finalmente, o campo da cultura galgou uma dimensão transversal, potencialmente relevante a todas as políticas públicas. Mas quando o galho frutifica e cai no chão, a raposa não hesita em avançar. Veio a restauração, encabeçada pela ministra Ana de Hollanda e o ECAD. Nesse cenário, uma leitura em voga aponta para a necessidade de estender e fortalecer a convergência da cultura livre. A ideia de liberdade como guarda-chuva para as diversas experiências biopolíticas, a fim de hackear o estado e o mercado, reunir mais protagonistas e parceiros, possivelmente mandatários e movimentos sociais organizados. A curto prazo, para reocupar o MinC, derrubando a atual ministra. A longo prazo, para tomar o poder e mudá-lo de dentro. De modo semelhante a que se tenta afirmar a nova música brasileira, afirmar o novo estado brasileiro.

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Em 2011, as marchas da liberdade foram as primeiras a provocar o choque entre a mencionada convergência e uma militância por assim dizer mais dura, de parcela da esquerda fora do poder. Num ano marcado por intensos protestos de rua e ocupações urbanas, a chegada à cena do agrupamento nutrido no MinC lulista (e em verbas captadas no estado e mercado) rapidamente se converteu numa grande polêmica. Exprimindo descontentes da Esquerda Dura, o coletivo Passa Palavra (PP) denunciou numa série de textos o coletivo-empresa Fora do Eixo (FdE) e a Casa da Cultura Digital. As palavras foram às brasas. Seguiram-se centenas de intervenções online e pelo menos quarenta artigos diretamente sobre a questão.

Basicamente, o Passa Palavra os acusa de se comportar como um vírus.

Como se sabe, o vírus se compõe de um ácido nucléico autorreplicante (RNA ou DNA) e uma capa proteica. A capa serve de disfarce para o vírus infectar as células. Uma vez dentro, o vírus libera o RNA e força a célula a trabalhar para ele e reproduzi-lo. São parasitas intracelulares e ficam inertes até hackear outro organismo, num processo onde o segredo está na capacidade de enganar. Contrariamente ao que se pensa, o mundo do vírus é extremamente diversificado. “Os vírus representam a maior diversidade biológica do planeta, sendo mais diversos que bactérias, plantas, fungos e animais juntos.” (Wikipídia)

O PP acusou o FdE de ser um vírus, com a capa proteica de ativismo descolado e o RNA de empresa capitalista. O FdE disputaria redes de movimento para parasitá-las. Estaria infectando o campo da esquerda, atrás de vítimas incapazes de perceber a sua malícia. Mas como, se não rola grana? Para parasitar a imagem de rebeldia, a estética alternativa ou indie, a força simbólica de movimentos da geração, como o 15-M e o Occupy. Uma vez colada a marca sobre o imaginário, vertem as verbas de publicidade, da parte de empresas interessadas em colar seus produtos à riqueza simbólica associada. Não à toa se interessem, principalmente, por marchas e ativismos em áreas abonadas das metrópoles, já que ali, potencialmente, estará o público consumidor dos produtos alternativos, de estilos de roupas, cervejas cool e festivais de rock. Impressionante como o fetiche da gestão horizontal de redes rapidamente se esgota num empreendedorismo parasitário com ar de radical chic. Essa acusação encorpa se forem analisadas certas falas do próprio FdE. A ideia de meme, por exemplo. O meme é o que pega, fragmentos que se replicam e disseminam descontroladamente. É um símbolo forte que subitamente está em todo o lugar, como um jingle que não sai da cabeça, ou um vídeo inusitante no youtube, ou uma sacada audiovisual, e às vezes isso nasce das coisas mais banais. Ora, essa é a lógica mesma da publicidade, que representa conteúdos, que presentifica a ausência e, por isso, sobrevive de uma falta induzida. É esvaziar a materialidade das relações sociais e vender o espetáculo das marcas e estilos: capital = exploração da vida, e simbólico = representativo. E o gene egoísta? Por causa disso, falar em “ressignificação” é sempre muito pouco: fica no plano simbólico. Você pode achar o meme mais viral do universo e ainda assim não sair do looping (embora possa ficar rico).

Por outro lado, os grupos da cultura livre não têm problema em se ver como vírus. Vários também se consideram vírus, com a capa proteica do estado e do mercado, e o RNA de revolução, de novas lutas. O FdE disputaria as redes de financiamento do estado e do mercado para parasitá-las. Estaria infectando os campos do poder constituído, atrás de vítimas incapazes de perceber a sua malícia. Afinal, rola grana, muita grana. Como os vírus, esse horizonte de afirmação biopolítica ficaria inerte sem sugar as energias produtivas e reprodutivas do próprio capitalismo. Uma luta dentro e contra. A inspiração virótica da turma, obviamente, é o MinC de Gil e Juca, que começou a hackear o estado brasileiro com o DNA dos movimentos 2.0. Nesse sentido, a acusação do PP é esquerdista, purista e sectária. Não percebem como organizar a produção já é política e não pode haver resistência senão pelo interior dos circuitos de valorização capitalista e dos aparelhos de captura. E daí que o FdE abraça impudentemente a linguagem do comércio e da mercadoria? É o pastiche irreverente contra toda austeridade do alto modernismo (velhaguardista!), contra a monotonia da emancipação humana e suas passeatas à francesa. É sempre triste o apelo à superioridade moral do esquerdismo, com seus miseráveis sacerdotes do sofrimento universal.

Ano passado, nos calores de um ano que não acabará tão cedo, o Quadrado dos Loucos interveio nesse debate tão movediço. Tentei derrapar pela tangente da dupla dicotomia. De um lado, os dicotômicos submarxistas: puros x impuros; do outro, os dicotômicos futuristas, analógicos x digitais. Os dois lados óbvios da contenda estão míopes. Em síntese, procurei sair das dualidades infernais, muito preliminarmente, pela via de Marx, para afirmar que o FdE, como expressivo de uma nova composição, é as duas coisas. Simultaneamente, seus agentes parecem executivos workalcoholics de uma multinacional, sempre atrás de mais negócios e parcerias; e parecem leninistas disciplinados, como numa vanguarda coesa; em ambos os casos a efígie do Partido/Empresa acima de tudo, investidos de sua subjetividade, o guarda-chuva sob o qual tá junto tá junto. São vários vírus num ecossistema mais complexo. Onde há capital, habemus resistência e reexistência. A relação do capital opera com dois pólos, duas subjetividades em confronto, mas as coordenadas desse confronto são tão múltiplas quanto as formas de viver e produzir na sociedade.

Nesse ponto o leitor deve estar se perguntando se a postagem vai concluir novamente como fazia o Padre Vieira, barroco e retórico, mas sem se comprometer com nada. Os dois lados contestaram este blogue. Os primeiros, sempre invocando o verdadeiro compromisso com a classe trabalhadora, acusam o QdL de se autoenganar burguesamente com pós-modernismos. Os segundos, que como bons empresários conhecem o ofício e não se interessam por “abstrações” (a menos que favoravelmente publicitárias), afirmam que falta generosidade por parte de certos yntelektuais.

Onde traçar a linha? Por mais molecular e sambista, não haveria uma ou umas linhas? Onde a contracultura se converte em ideologia liberal e ranço antimilitante? Onde o tropicalismo e a Esquerda rangem? Como articular a defesa dos comuns e da produção do comum, com o avanço capitalista e empresarial nesse campo? Onde a cultura livre se atrofia como culturalivrismo, a cultura digital como digitalismo? Como se orientar no plano multiestratificado da cultura, política e economia, isto é, da biopolítica, com suas velocidades alucinadas e suas perplexidades, sem perder de vista a urgência das lutas? Em que ponto, se pode dizer que a resistência e a reexistência são mais fortes do que a exploração e a captura? Onde termina a revolução e começa a contrarrevolução? Como subir a montanha e, ao descer, dar uma resposta a quem ficou? Adam Smith, Saint Simon, Karl Marx, André Breton, o fio vermelho, o salto do elétron?

Temas da segunda parte do artigo, quando pretendo abordar o terceiro gênero que irrompeu da querela e uma “das coisas mais importantes que saíram nos últimos tempos“, o texto O Comum e a Exploração 2.0, pela rede Universidade Nômade.

Publicado em 9 de abril de 2012. Comente

Nos tempos de Lula, se ouvia que a tônica do governo era a mudança. Veio Dilma e essa deixou de ser a palavra que melhor define. Agora é crescimento. Ouve-se o tempo todo a palavra crescimento. Continuar crescendo se tornou quase uma obsessão  nas falas da presidenta, ministros e apoiadores.

A impressão é que o governo Dilma se guia por uma prancheta, alimentada de dados pelo Banco Central, IBGE e IPEA, e a partir dela aplica uma equação de primeiro grau. Basicamente: a gente aumenta o PIB em x % ao ano, paga as contas, sustenta alguma agenda social e administra, com eficiência, o que sobrar. Assim, a gente vai tirando o país do atraso e leva os milhões que faltam à classe média. E vai se reelegendo com os indicadores, pois o projeto é de longo prazo. Em 20 anos, seremos um país de primeiro mundo, respeitado lá fora e digno de orgulho aqui dentro. Eis o caminho. E conhecido o caminho, o caso é acabar com a corrupção, a ineficiência e o amadorismo, os nossos maiores problemas. Ou seja, problemas técnicos. Nada que uma gestão honesta e trabalhadora, determinada a superar o passado, não possa resolver. A política está resolvida no principal. Este é um governo sério, firme, tem uma boa equipe, e vai se aliar com quem for preciso contanto mantenha o controle global sobre o navio. Não somos intransigentes,  e sabemos fazer política como tem de ser feito, na correlação de forças. Não há alternativa à esquerda.

O discurso mais arcaico se conjugou com o mais futurista. O milenarismo do Brasil Eldorado, — utópico como Brasília e tão antigo quanto os portugueses da Ordem de Cristo, — caminha de mãos dadas com o ímpeto modernizante do velho positivismo, seja ele medioclassista-udenista, economicista-cepalino ou socialista-estatista. Dentro da fórmula mestre, tem espaço para a diversidade, a sustentabilidade, para o politicamente correto e a cultura como perfumaria, — desde que não se conteste o principal. Fora da fórmula, se é classificado como fora do tom, amador, fantasioso, anacrônico, pífio — ou simplesmente criminoso e, no limite, terrorista. Sucede um tom com conotações morais e moralizantes que define o discurso, a prática e a postura do governo e do que o governo espera dos cidadãos. É a antropologia do brasileiro piccolo-piccolo-borghese, que acorda cedo e paga os impostos e deseja o melhor para os filhos e acha o suprassumo do engajamento ético indignar-se com os políticos que roubam (e isto é o máximo que consegue elaborar no escasso tempo de vida livre). Aos novos brasileiros em suas breves ascensões sociais, deve-se confiar no governo, e trabalhar, trabalhar, trabalhar. Um republicanismo cívico cujo progressismo se limita a cidadãos que votam, têm emprego e gozam de direitos reconhecidos. E basta de abstrações! Primo mangiare, dopo filosofare!

É como se não estivesse em curso a maior crise mundial desde a quebra da bolsa de 1929. Como se a crise fosse um problema dos outros. Estaríamos imunes, ou melhor, seríamos os grandes beneficiários da crise. O espaço nacional como o nosso lugar oculta o fato que não pode existir um capitalismo nacional, brasileiro. O nacional-brasileirismo elude a posição contingente que ocupamos. A economia do globo é uma só, atravessada por tendências e contratendências, que buscam se compensar. A crise global se instaura quando os lucros astronômicos da classe rentista não podem mais ser sustentados. Cessado o butim, essa classe se reestrutura sob a direção superior de seus gênios e think tanks. Os grande financistas passam a sondar, como salvação da lavoura, outros mercados, em extensão e intensivamente. E nessa atividade de prospecção, identificam as enormes jazidas humanas da América do Sal e do Sol. Onde o homem é barato, a polícia é militar e governos firmes fabricam o consenso, o orgulho e o medo, — necessários para organizar e garantir a exploração do trabalho. Jazida humana e governo firme, o binômio que confere confiança aos mercados, isto é, garantias que o butim pode continuar e se aprofundar, sem grandes comoções. O estado sempre foi o método mais privado do ganho. Os fluxos de dinheiro-poder escoam do norte para o sul, para fortalecer a governabilidade mesma de que precisam para voltar a lucrar suas fábulas. E assim são mobilizadas as populações ao trabalho, e assim é forjada a antropologia ao homem nacional: cidadão honesto e trabalhador que assiste à TV, sem devir de raças. As elites internacionalistas e os governos nacionalistas impõem desenhos globais a histórias locais, numa subjetividade bombardeada de breve ascensões, delgadas autoestimas e muita comunicação de massa.

Não é verdade que os fluxos de dinheiro-poder determinam fluxos de subjetividade e não há saída da sinuca. As pessoas não são ratos de Pavlov movidas por percepções e necessidades imediatas. Quanto melhor, não é pior, como resmunga o esquerdismo, que quer mais é ver o terceiro mundo explodir. Não. Quanto melhor, melhor e quanto pior, pior. Se é conferida a chance de a pessoa querer, ela vai querer mais e sempre mais. Em contextos de crescimento econômico, proliferam dissidências, insatisfações, indignações, desejos que ficam pelo caminho, sintetizados em projeto de Brasil e brasileiro. Nesse contexto, a generalizada crítica ao desenvolvimentismo tem de ir muito mais além. Essa ficou fácil demais. Está sendo reabsorvida pelo papo malthuseano da sustentabilidade, do decrescimentismo, da catástrofe. As muitas economias verdes prometem redimir a desigualdade social. Nada mais conservador. Destruir o nacional-desenvolvimentismo não significa deixar as coisas como estão. Não se pode ceder a ideia da superabundância, de um regime amazônico-tautegórico de produção, saturado de socialidade e virtualidades de ser, que é a única força capaz de devastar a economia e abrir o agora ao comunismo.

A construção da alternativa ao Brasil Maior, este Brasil de Dilma, depende de uma remodelação muito mais profunda que trocar o governo, criticar o desenvolvimentismo ou mesmo assumir as opressões e minorias como operadores de uma política dos excluídos. O jogo pode ser mais alto, e os desejos reais da geração nos concedem as bases para ousar mais alto. Não há que se falar em mais esquerda, com seus projetos incapazes. É voltar à prancheta na imanência dos movimentos. É questão de métrica, de como des-medir a abundância e des-travar o excesso, des-quantificar e re-qualificar: o reenvolvimentismo aprofundado e a esquizoanálise altermundista. Isso já está aí, debaixo de nossas pupilas. É reatualizar a própria noção de viver bem, como fazem os indigenistas sul-americanos e ameríndios, na experiência do comum. A boa vida qualitativa e o boa-vida que recusa o trabalho explorado. É rearticular a relação entre governo e movimento, que vem sendo sucessivamente rompida no Brasil, na Argentina, na Bolívia, no Equador, — onde podíamos, até pouco tempo atrás, depositar o nosso otimismo. Se os tijolos completam a parede da burrice mais convencional e de toda a mediocridade circundante, este é um tempo-chave para poetas, filósofos e cineastas. Para a húbris de quem não se adapta. E que saibam atirar pedras, pois a fantasia também veste botas.

Publicado em 3 de abril de 2012. Comente

Orson Welles em Tudo é Brasil, filme de Rogério Sganzerla

 

É comum ouvir que o Brasil é a terra da diversidade. Um país atravessado por muitas paisagens, climas, raças, costumes, hábitos, culturas, identidades. Aqui, no geral, a mistura deu certo. Com tanta diversidade, não temos as divisões religiosas do Oriente Médio ou da Índia, nem as divisões raciais dos Estados Unidos. Motivo de orgulho nacional. O abrasileiramento da diferença se reflete no nosso caráter não-conflitivo, versátil e diplomático, aspectos valorizados do brasileiro. Aqui, não brigamos: contemporizamos todo sorrisos. Negros, índios e brancos, mulatos, caboclos e cafuzos, portugueses, italianos, japoneses, chineses e poloneses; para o bem ou para o mal, todos contribuíram para construir esta pátria. Somos um caso exemplar num mundo tão intolerante diante da diferença. Qualquer catálogo turístico sobre o Brazil não deixa de exaltar a diversidade do povo brasileiro.

Contudo, comparado com qualquer outro país da América do Sul ou da Europa, a percepção desmorona. Porque, tirando as aldeias indígenas, a sociedade é extremamente homogênea. Uma composição muito semelhante por todo o território nacional, cujo nivelamento cultural se dá pelo próprio sincretismo. A propagandeada diversidade oferece matizes coloridos e muito artesanato e uma indústria do turismo inesgotável, mas o substrato material não varia significativamente, do Oiapoque ao Chuí, das praias pernambucanas ao  Acre. Se você caminhar pelo centro das metrópoles brasileiras, não muda muito o cotidiano, o ritmo, a distribuição dos tempos e espaços, — e apenas observando os acontecimentos talvez você leve um bocado de tempo para descobrir se está em Belo Horizonte, Campo Grande ou Boa Vista. As pessoas vêem os mesmos programas de TV, lêem as mesmas revistas, ambicionam as mesmas marcas, ouvem as mesmas músicas, mantêm religiões similares, têm opiniões parecidas sobre política, economia e futebol. Os comportamentos das crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos variam mais em função da renda, do que da região em que habitam. Sobretudo, fala-se o mesmo idioma: talvez o exemplo mundial mais bem-sucedido de unificação linguística de um território. Pode ter uma ou outra idiossincrasia, mas não vai além disso, idiossincrasia.

Como isso aconteceu?

Tem quem explique a formação da cultura brasileira através da conciliação paulatina das raças, num amorenamento democrático. As raças teriam aprendido a conviver e se misturar saudavelmente. Outros falam num processo civilizatório que, embora tenha mascado gente no moinho da história, acabou pegando o melhor de cada qual: a cordialidade dos índios, a alegria saudável do negro, a racionalidade do branco. Nessa ideia, as raças originais se viram forçadas pelas contingências da história a evoluir, fecundando-se mutuamente, até surgir uma outra coisa, um novo gênero humano, o brasileiro. E há quem diga que a união das raças não passa de embuste, que nunca houve conciliação de nada, e que esse é o velho papo do branco colonizador, desejoso de dominar o colonizado, em nome de elevados ideais patrióticos, do Destino Manifesto do Ocidente. É tornar o índio um bom brasileiro, isto é, patriota e sem terra. Com efeito, a integração nacional sempre foi um projeto político consciente. Das missões jesuítas às bandeiras, das expedições amazônicas ao serviço militar obrigatório, da Seleção Canarinho (1954- ) ao Jornal Nacional (1969- ), de Brasília a Belo Monte.  Uma organização das relações de poder, a fim de governar a população, de modo que ela 1) trabalhe pelo mínimo, e 2) mantenha-se sob controle. Então sempre foi preciso que houvesse algo como um brasileiro, um povo brasileiro, para que o governo brasileiro pudesse governar com eficácia.

Isso por evidente se ramificou historicamente em várias direções, não admitindo dicotomias.

No começo do século 20, o positivismo europeu afetou parte da classe média urbana. O positivismo é um sistema filosófico baseado num humanismo racionalista, em que a sociedade evolui mediante um gradual autoesclarecimento, proporcionado pela razão e pela ciência. É uma ideologia onde o homem moderno se senta no trono da história, com a missão científica de civilizar os primitivos, os ignorantes e a natureza selvagem. Até então, o Brasil se inseria no mundo como natureza, terra de maravilhas e fábulas, melting pot de europeus e exóticos. Com o positivismo, se estrutura pela primeira vez o pensamento progressista, o primeiro programa político que pensou o Brasil como projeto, como uma civilização para superar a condição natural. O lema está na bandeira até hoje. Os positivistas tomaram por programa o fim da República Velha, a modernização da sociedade, a industrialização e a urbanização, a massificação de educação, cidadania e direitos. Esse projeto reuniu da direita progressista (depois udenista, depois militar) à esquerda progressista (cepalina, socialista, petista), no consenso de que é necessário desenvolver o país para sair do atraso e elevar o nível de vida da população. Sucedem-se grandes planos de desenvolvimento nacional, numa política de unificação pela via do progresso, o que vai atravessar a Era Vargas, os Anos JK, a Ditadura Cívico-Militar, até chegar ao século 21 como “desenvolvimento com inclusão social”. O resultado é polivalente, sujeito à polêmica. A crítica que se faz ao desenvolvimentismo é a própria crítica à política de integração nacional, — e com ela a toda uma antropologia do brasileiro.

Ao positivismo modernizador, responderam os modernistas, a partir da década de 1920. Por todos, Oswald de Andrade. Contra toda a ideia de progresso civilizatório, propôs a revolução estética de um Brasil radical. Nem Europa, nem seu Grande Outro: o Nativo lendário. Negando a origem mítica ou qualquer nostalgia, o escritor não sustentou uma essência brasileira. A poesia Pau Brasil invocava um homem tropical em constante transformação, feito ele mesmo de transformação. O Brasil modernista colocava-se em estado de derrogação, tendente a mobilizar-se continuamente, movendo as próprias fronteiras. A história do Brasil rompe em fragmentos, que se recombinam para contar outras passagens. Possibilitam-se novas vozes e narrativas, diferentes na forma e na matéria. A paródia, o pastiche, o folhetim, as coisas mais pop e miscigenadas ocupam o lugar da exuberância selvagem e indianista. O povo é desconstruído como abstração grosseira e cínica. Elementos artificiais e naturais, culturais e identitários se fundem e se reinventam, para reexistir diante da miséria física e intelectual do pequeno burguês, de quem Oswald tinha horror, e quem os progressistas viam como brasileiro  modelo para o futuro. A antropofagia contém duplo antídoto, ao “avante” dos progressistas e ao “anauê” dos reacionários, a quem pretende progredir em direção ao Primeiro Mundo, a quem deseja regressar à pré-modernidade como valor autenticamente nacional.

É que a antropofagia, primeiro formulada por Oswald, sempre foi a modalidade de (re)existência do “brasileiro” soterrado pelos projetos de Brasil. O ameríndio era mesmo antropofágico. E também o negro, a ponto de inventar a si mesmo. E também quem veio fare l´America, mas se ressentia colonizado. O escritor deu expressão poética à imanência do colonizado, quando desliza de sê-lo. Cercados por todos os lados pelos projetos de integração nacional, os colonizados não cessaram de resistir e reexistir, na fronteira mesma do abrasileiramento progressista. As múltiplas sínteses até se chegar ao tecido homogêneo do Brasil hoje não aconteceram sem cobrir um enorme rio subterrâneo de pulsões, insubmissões, diferenças e antagonismos. Na fronteira aberta onde se impôs e se impõe o Brasil; os negros, os índios, os colonos, os pobres em geral não só se apropriaram como puderam das armas culturais do colonizador, mas conseguiram recriar espaços-tempos de alteridade radical. O “povo” nunca quis ser povo, muito menos “nacional-popular”, essa aberração de mau gosto do esquerdismo. As culturas de resistência, sempre tidas por minoritárias e marginais, é onde pulsa a genuína criação antropológica de Brasil. Diante delas, a Cultura Brasileira, — sua diversidade e seu tom cordial, — é um conceito reacionário. Oswald só podia chegar a essa conclusão pensando o Brasil de Paris, já que o Brasil costuma ser a ideia fora do lugar, no sentido de Roberto Schwarz. E em São Paulo, a cidade com menor grau de identidade brasileira, logo, a mais brasileira de todas.

Se, hoje, é palpável a grande síntese do Brasil de classe média, lugar de trabalho, trabalho, trabalho e inclusão social e publicidade de cerveja, existem instabilidades, tensões, fragilidades, pontos de atrito, e inúmeras insatisfações pelo caminho. O Brasil finalmente está se inscrevendo na geopolítica como país de progresso e ciência, quando talvez devesse avançar à natureza. À segunda natureza dos criadores, à pele de cobra de quem se inventa, reinvenção pelos meandros da história, nem Europa, nem anti-Europa. Se o brasileiro se produziu nas relações de dominação; o outro brasileiro, o outro Brasil coexiste de modo incandescente.  Quando viajamos pelo território nacional com nossos olhos colonizados, podemos não enxergar claramente o devir de raças, essa alteridade que resiste, que insiste em reexistir além das diversidades e condescendências do projeto nacional. Sequer podemos vislumbrar onde está a franja de reexistência agora mesmo. Ela todavia emerge nas recusas, revoltas, insurreições, ao extravasar o não-pertencimento, ao querer fazer diferente, muito diferente, forças potentíssimas e irreconciliáveis que não deixam de afirmar-se. Um outro Brasil acontece, um Brasil vivo.

Publicado em 19 de março de 2012. Comente

O capitalismo vive mais uma grande transformação. Ainda outra, desde que surgiu na velha Europa. Se existe um atributo indiscutível do capitalismo é a capacidade de reestruturar-se em função das circunstâncias. Nem que precise ceder anéis. Nem que tenha de absorver quem se lhe opõe. O capitalismo precisa de consensos, não hesita em negociar, cooptar, e vai sempre tentar conciliar os contrários. Distribui a falta e forja a escassez para colher o lucro e acumular. Todos podem ser incluídos, enquanto excluídos do principal: a superabundância.  Sua inteligência consiste em mudar tudo para não mudar nada. E assim vai atravessando os séculos, cada vez mais flexível e pervasivo. Sim, de fato, ele atravessa crises. Mas até a crise, na fome que o incita incansavelmente, ele já aprendeu a digerir. Aprendeu a operar na contradição, a fabricar consenso nela, a conservar o poder na tensão mesma dos contrários que ele mesmo sustenta, no double bind entre público e privado, estado e mercado, cultura e natureza. O capital come a crise, afinal, ninguém morre de contradição.

Um modo de ver a atual transformação é pelo avanço dele em direção aos bens comuns e o comum mesmo, enquanto processo produtivo. Dizem isso os próprios gurus do novo capitalismo, como a Nobel da Economia de 2009, para quem agora se trata de governar os comuns. Estamos numa nova fronteira, a dos comuns: com seus novos modelos de negócios, parcerias empresariais, empreendimentos criativos, sustentabilidades. E um novo marco jurídico e institucional: a cama refeita onde passam a dormir estado e mercado, realinhados. O novo reorganiza o antigo: as violências e explorações se reacomodam na versão 2.0 da mesma matriz. Ela não tem escrúpulos em inovar: contemporiza e rearranja. O velho e novo, aos poucos, se conciliam para o interesse geral do status quo. Os lençóis estão manchados.

O campo dos comuns inclui a água e a terra, a geração de energia, a saúde, o cuidado, a educação, o conhecimento, os saberes vivos e práticos, a reprodução das relações, a moradia, a mobilidade, a circulação, a comunicação, o espaço e o tempo sociais, a informação, a sexualidade, a cooperação, as imagens e os sonhos, os desejos e o inconsciente e o pensamento selvagem, as éticas, estéticas e formas de viver e se relacionar e produzir. Tudo isso que é gerado no processo da vida entre todos e para todos, — e que o capital pesquisa, esquadrinha, mede, controla, desapossa, separa, cerca, civiliza, guarnece, vigia, tarifa, garante, extrai rendimentos e acumula para então reiniciar a exploração. O comum não é tanto a natureza nem a cultura. É o que está no meio de uma e outra: a franja constituinte, essencialmente ingovernável, onde algo como uma cultura (ou muitas) e uma natureza (ou muitas) podem acontecer. E onde outras também poderiam, como de fato acontecem.

Como se orientar nesta época em que o gênio saiu da lâmpada? Fora das dicotomias onde havíamos atolado o pensamento, fica tudo tão gasoso, impreciso, polivalente… pós-moderno. Tirando os canalhas de sempre, — a encarquilhada elite de coronéis nordestinos e caudilhos gaúchos, da high society paulistana e da corte carioca, e todos aqueles que se acoplaram, como carreiristas, aos projetos de poder estatal, pensando a partir do estado, — dá pra pressentir algumas tendências gerais.

Primeiro, a convergência no altercapitalismo, o destino final do ônibus altermundista, depois de perder todo o viés contestatório e antagonista. É Neil Young cantando Parabéns a você ao planeta Terra no SWU. Esses afirmam o novo. Quantas empresas modernosas! Todas as multinacionais que se prezem já perceberam que podem mercadejar a marca — seu principal produto — com “trabalho social”, “consciência ambiental” e algumas declarações sentimentais em eventos autoelogiosos. É a missa branca do neo-ativismo de classe média, de que a Rio + 20 é emblema. Que se fascina com as maçãs (podres) de Steve Jobs e o jeito (sonso) de Mark Zuckerberg. São empreendedores bem-sucedidos e entendem de seu negócio, então às favas com a teoria e suas abstrações. Que louva ambientes de trabalho típicos da new economy, como no filme A rede social, achando que isso é revolucionário. Duas palavras-chave do altercapitalismo: “consciência” e “responsabilidade”, cada um faz a sua parte para um mundo melhor. E com um robusto discurso da liberdade, como em mercado livre ou indivíduo livre, e um robusto discurso apartidário de indignação, como no movimento Cansei. Para onde vamos com um discurso entusiasmado de reinvenção da roda? que se limita a reproduzir slogans como crowdsourcing, freeware, networking, creative commons, open source, as novas palavras-de-ordem? Nada mais rentável do que casar a publicidade de si mesmo com o avanço empresarial sobre os comuns, que aí significam novos mercados, mais abertos, descolados, livres (grátis).

Segundo, a nostalgia dos esquerdistas, que gostariam de devolver o gênio pra dentro da lâmpada (deles). Esses afirmam o velho. Os comuns no mundo 2.0 verdadeiramente não importam; são acessórios, fetiches, deslumbramentos. Muitos ainda estão procurando algum Palácio de Inverno pra invadir, alguma massa popular para conscientizarem e liderarem, só que não encontram mais o velho operário da era industrial. Não conseguem parar de repetir que o pobre é explorado, a mulher violentada, o negro discriminado, o índio exterminado… como se eles não soubessem muito bem de sua condição. E conseguem tascar um Dilma-Cabral-e-Paes em todas as denúncias. Dá sono. Com seus velhos e dogmáticos capas contando como era bom antigamente, e um punhado de brancos ressentidos falando em revolução em obscuras reuniões de domingo. Em algum momento, essas pessoas devem olhar ao redor, quero dizer, olhar o mundo real (que é delirante), e ver que estão fazendo alguma coisa errada. Isso não está colando, gente.

Se os altercapitalistas abraçaram impudentemente a linguagem do comércio e da mercadoria, pelo menos o seu pastiche irreverente e a sua admissão de pecado podem atrair mais a resistência do que monótonos textos velhaguardistas sobre a universal emancipação humana, passeatas à francesa e a austeridade do alto modernismo. Se a rebeldia contracultural “californiana” e seu ranço antimilitante se conciliam bem com a velha ideologia liberal e uma estética aburguesada, também não dá pra submergir numa má consciência de esquerdista, que ao fim e ao cabo é impotente.

O que se precisa é de uma segunda via ao falso dilema entre os dois piores. Uma que não caia na espiral das sustentabilidades, nessa adaptação progressiva à ordem posta. É o comum político, antagonista, pós-moderno, sim, porém potente: luta de classe e anticolonial. É a alternativa construtiva que incorpora a revolta. A parte de construir, a parte de destruir. A hora de articular e elaborar, a hora de tocar o rebu (a húbris). Que não tem medo de viver em estado gasoso, sujeito aos ventos e volátil às mudanças de temperatura. O comum tem centralidade, mas somente na medida em que é cheio de atritos e conflitos, híbrido, nunca eclético. Tem que ter malandragem e saber a hora de cair fora. Continuar se movendo.

Essa segunda via está nas redes e comuns quando se pautam pela sabotagem e pela reapropriação. É a Wikileaks sabotando o segredo dos estados e multinacionais, essa sim, mídia livre. É o Anonymous sabotando os poderosos pela internet. É o malware que trava a maquinaria de exploração e mando. E também o movimento social difuso, auto-organizado, de download e compartilhamento par a par. É o comum antagonista de Megaupload, mediafire, 4shared, library.nu, do remix e do camelô, da blogosfera suja e dos hacktivistas, de todos esses resistentes do comum que vêm sendo sistematicamente perseguidos. A criminalização, o vigilantismo e a higienização não acometem mais apenas os sem tetos e sem terras, mas todos os internautas que produzem em rede e remixam. Tudo isso resiste, e pode se articular na sua condição comum.

Mas não só. A América do Sul já conhecemos a experiência do comum. Porque jamais fomos modernos. Um espectro longo de etcéteras que se organizam e partilham e se afirmam em meio à ruína civilizatória. Mil Pinheirinhos, culturas de periferias, lutas cotidianas por reexistência nas condições mais adversas, por moradia e transporte, os migrantes nordestinos, os caboclos do Pará, as ocupações autogestionárias, os rappers e os funkeiros, os catadores, os ambulantes, os rueiros em geral, os quilombos urbanos e os acampamentos dos sem terras, os ônibus hackers, os neo-beatniks, os movimentos indigenistas, da Chiapas de zapatistas ao Xingu à Patagônia dos mapuches, e tantos outros que nos são invisíveis.

Enquanto isso, os governos progressistas sul-americanos ainda se miram na velha Europa, onde o capitalismo, na contingência de sua formação, brotou e se expandiu pelo globo, em sucessivas ondas de reestruturação. A mirada de nossa sustentabilidade se orienta para o Leste, na direção do eixo, do Atlântico, num atavismo dos colonizadores que nos invadiram o território e colonizaram as cabeças. Ficamos incapazes da poesia Pau Brasil.

Se existe uma saída potente à crise está na produção do comum, a partir da experiência que já está acontecendo. Não é caso de ir a Leste, esse imaginário colonizado e seus pesadelos americanos. Mas Oeste, numa onda de bandeiras ao avesso, de desapresamento, de reapropriação, em busca dos Eldorados Glauberianos onde viceja a fome por estética. É inverter a dialética colonizadora: a história do Brasil está de ponta cabeça, é preciso recolocar-lhe os pés na terra. E não na Terra. A terra, o desenvolvimento endógeno, manter o contato com o solo, a surpresa e o mistério, onde caminham os índios, todos eles. Não como curiosidade antropológica ou má consciência esquerdista ou consciência ambiental altercapitalista, mas porque o pobre é o índio. É uma perspectiva para pensar e viver bem, as relações sociais e a produção do comum, para pensar a nós mesmos e não o índio, a partir do ponto de vista do índio, indigenizar o Brasil e o mundo, um devir-índio, um devir-Oeste. A saída é para dentro e além, a alteridade alucinatória onde o desejo é violento, a fantasia calça botas e se inventa o novo mundo. Este!

Publicado em 10 de março de 2012. Comente

Camille Claudel

 

Tem esquerdista que adora falar em povo. Essa entidade misteriosa, quase sempre estereotipada: o povo é trabalhador, honesto, humilde, feliz, gente de fé e coragem. Passa necessidades e provações, mas não desiste nunca. Gente orgulhosa de nosso país que encontra forças para fazer dos contratempos uma ocasião para rir, dançar e fazer samba. A sensibilidade no seio do povo pode ser dura, às vezes severa, mas não carece de compaixão e generosidade. Com sua vitalidade, a nação se fortalece no sentimento popular, encontra a verdadeira alma, sinceramente povoada das pequenas felicidades e grandes paixões que nos preenchem de sentido.

Frases assim poderíamos estender até escrever um livro, tão singelo quanto vazio. Intelectuais e artistas, acadêmicos e militantes, na literatura, música, artes plásticas e cinema, na sociologia e na antropologia, não cansam de invocar o povo e opor o popular à elitização, a cultura popular à alta cultura. Dirigem-se ao povo para colher a expressão generosa, num banho de realidade capaz de superar o elitismo de nossa sociedade. É preciso trair a classe, estar perto do povo, falar a linguagem do povo, comportar-se como ele, lutar e sobretudo sofrer com os populares, numa comunhão de solidariedade. Se o populismo direitoso promete cuidar do povo para conservar a ordem e governar a massa, o populismo esquerdista pretende colocar-se em seu nível, horizontalizar-se com ele. Eis um compromisso ideológico: abjurar dos vícios pequeno-burgueses e mergulhar na simplicidade e franqueza de quem é verdadeiramente povo, na cultura e linguagem populares. Quanto mais à esquerda, mais povo.

O que, no fundo, quem diz povo está tentando fazer? Qual a realidade do povo nas práticas e discursos de quem o invoca? O esquerdista, quando apela ao povo, entre profissões de compromisso e carteirinhas de militante, que significa?

Uma perspectiva: o povo como institucionalização da (má) consciência da classe média que se esquerdizou. O povo é o Grande Outro do esquerdismo, a representação de seus nortes mais gerais e crenças mais íntimas sobre a prática política. O pequeno burguês se sente culpado pelos privilégios de elite de que desfruta, não consegue evitar uma pontada de vergonha (entre mil outras culpas e vergonhas) ao falar tão persistentemente do povo e sobre o povo. Quem não consegue esquecer a traição (de classe ou não), carrega a consciência de dívida, e procurará se aliviar com compensações. No plano da organização política, surgem grupelhos esquerdistas de faces consternadas e falas abatidas, obcecados com a própria consciência e a conscientização. Pautam-se pelo ascetismo militante contra a frivolidade, o consumismo, o supérfluo, a sofisticação e a erudição. Limitam-se a repetir à exaustão como os pobres são explorados, as mulheres violentadas, os negros discriminados; como se os resistentes mesmos, — que nunca precisaram de ideologia para orientar a ação política, — já não soubessem de sua condição. Toda uma sensibilidade decorre daí.

Burguesia e pequeno-burguesia são palavras que ainda não voltaram à moda. Mas deveriam. No Brasil, as conquistas de direitos, renda e voz política têm gerado como contraefeito o aburguesamento das esquerdas. Quando falo burguês, falo trabalho, família e progresso: mais empregos subordinados, mais esforço individual, mais carreiras e méritos individuais, mais patrimônio a constituir, e a velha moral de almoço de domingo. O desenvolvimento forja com discurso impermeável e muitos tratores o povo brasileiro: honesto, diligente, cumpridor da lei, respeitável e pai ou mãe de família. Em 2012, o jogo da representação nos governos e partidos está cada vez mais reduzido à oscilação entre pulsões burguesas reacionárias e pulsões burguesas progressistas. O reacionário e o progressista não se excluem: mutuamente se apóiam e se revezam sobre o solo burguês, que é consenso cada vez mais emparedado. O noticiário e as redes sociais se nivelam entre reflexos emotivos e imaginários simbólicos, num comentário geral do irrelevante.

Ao invocar o povo, o esquerdista não está se distanciando do consenso burguês. Como os populistas russos da época dos czares, os narodniks, os esquerdistas querem salvar-se com os seus mujiques. Deus e a esquerda hão de ajudar o povo e aí a revolução virá dos mujiques…  Mas primeiro têm de inventá-los. Ao falar do povo, para o povo e com o povo, acreditam prestar-lhe homenagem (como se precisassem). Porém sua falta de imaginação e ressentimento terminam por ofendê-lo. As premissas implícitas, — “descer” à linguagem do povo, “nivelar-se” com eles, conscientizá-los — esse tipo de percepção só pode ofender qualquer criatura minimamente sensível. Pressupõem uma superioridade mental (e moral) de que não têm direito e uma missão conscientizadora a que não foram chamados. O povo que o esquerdismo representa é o povo do ponto de vista burguês. Só se limita a inverter o sinal da representação. Sem mudança real de conteúdo, as mesmas qualidades desprezadas pelo burguês reacionário se tornam valorizadas pelo esquerdista.

Não sustento que o povo não exista, em absoluto. Abstrações podem ser reais e têm o seu papel e riqueza de determinações, para que a ordem social seja conservada. Sustento, na realidade, que o povo não queira existir. Lute para não existir, para ausentar-se, para abolir-se como abstração real. As mobilizações e tumultos constituintes acontecem para recusar o povo, para sublevar a própria realidade burguesa, — suas representações artísticas ou teóricas e seu senso comum, — onde uma entidade como o povo possa ter lugar, inclusive na versão esquerdista. Na América do Sul, há séculos quem vem pintando o povo são os colonizadores. Macunaíma não fala povo. Oswald de Andrade já pressentia a sua revolta existencial, os tropicalistas aprofundaram a intuição e agora os pós-modernistas sistematizam. Jamais fomos modernos. Mas nós já sabíamos há um tempão. O século 20 inteiro soubemos, e a esquerda burguesa não podia aceitar.

Por isso, um aliado contra o aburguesamento não pode ser o popular que lhe serve de má consciência, mas o aristocrático. O aristocrata como subjetividade cevada no ócio, na reapropriação do tempo para livros, discos, pessoas, filmes, amores, ódios, polêmicas, blogues e amizades. Ele não mediocritiza o mundo: irresigna-se diante do pior e só lhe interessa melhorá-lo, a partir de si mesmo, sem concessões ou meio termo ao aburguesamento, o inimigo mortal. Para a revolta dos dândis contra a massa burguesa, numa recusa radical da representação, da identidade e da propriedade, de todas as pulsões burguesas no esquerdismo e jornalismo, nas forças reacionárias ou progressistas dos governos, grupos religiosos e do “peemedebismo sociológico”. O aristocrata se erigiu inteiro como personalidade de caráter e capricho, e sabe e admite disso, a sua trans-individualidade persistida. Se ele quer o melhor de si, este de si não se resume ao ego e ao narcisismo do burguês (que é em si e para si) , mas o si como força criativa comum, coalhada de outros, com quem elege e partilha de afinidades.

A moral aristocrata confronta a mediocridade que está na base do aburguesamento, com ódio antimoderno ou reinvenção pós-moderna, suas duas maiores expressões históricas. Porque o burguês é o medíocre. Não teria tempo para não sê-lo. O seu tempo de vida no principal ele já sacrificou ao trabalho, à carreira, à família, à acumulação de patrimônio e narcisismo, a sua felicidade de comercial de margarina. Todo o resto não passa de acessório que degenera em atividade mediocritizada: do lazer cultural à leitura dos jornais e jornalistas, das visitas aos museus ao turismo, da impostação “apolítica” anticorrupção à vaga indignação humanista. O senso comum é a propriedade da massa burguesa. O burguês é anti-ócio, criminaliza-o como vagabundos e vadias, sejam eles beatniks ou sambistas, punks, anarcos ou comunistas. Afinal, ao reapropriar-se do tempo vendido, o dândi começa a revolução.

O aristocrata nada tem de afetado ou esnobe (sine nobilitate, sem nobreza), que são modos com que o burguês esconde a sua mediocridade. Faz isso multiplicando títulos, currículos, gongorismos e clichês acadêmicos e profissionais, numa postura arrogante em sua posição de poder e status contra a base da cadeia alimentar capitalista. Ou então falando de cima pra baixo como esquerdista, acadêmico ou não, numa arrogância travestida de condescendência. Se a moral aristocrata não dispensa a erudição seletiva e uma poética guerreira, despreza o academicismo e o tom pacífico e comportado, que tendem a ser aburguesados. O aristocrata não fica acumulando e capitalizando, ele põe tudo em jogo a cada vez, sem medo de cometer a húbris, ou seja, tocar o rebu. Sua produção é para poucos somente no sentido que o bom texto é necessariamente para poucos, e vai ampliando e esgarçando lentamente o rol de leitores na medida em que os cria e se cria pelo bom encontro, em vez de pôr tudo a perder tentando agradar a todos, texto fadado ao “leitor médio” implícito no seu desejo motriz.

É claro que o esquerdismo procura nivelar o aburguesamento com a moral aristocrata que o ameaça. Acusá-la de elitismo, quando, na verdade, pode consistir num antídoto contra a subjetividade das elites, de que o esquerdismo não passa de pulsão. A moral aristocrata ergue barricadas subjetivas à consciência esquerdista de que é preciso descer do dandismo para falar a língua do povo e instaurar a tirania do homem médio, o deserto, a miséria, a cabeça do colonizado. Ela é superabundante, excessiva, desmedida e agressiva, de gestos generosos e sem caridade. O aristocrata não quer ser povo nem não-povo. Nesse sentido, o aristocrata dos trópicos faz luta de classe e é anticolonial.

Se a América do Sul foi revirada pela revolução dos últimos tempos, com a conquista inédita de direitos, renda e voz política, foi graças às esquerdas aristocráticas. Jamais às pulsões burguesas progressistas. A revolução molecular vem da última aristocracia que atravessou o subcontinente: a multidão macunaíma que recusou a ser proletária, massa e povo, articulada singularmente no Partido dos Trabalhadores da década de 1980 (a última composição multitudinária claramente identificável). É Lula discutindo de igual pra igual com Félix Guatarri. Um exército leninista de dândis que fez tudo pra hoje o um milhão de “fundadores do PT” dizerem “yes, bananas!”. Uma força histórica cujo ciclo constituinte agora se engessa, com esse governo “de chegada” que Dilma representa. A massificação dos gostos, o kratos do demos, a dita “Classe C” almejada para o novo povo, não pode radicalizar a democracia, que só importa quando aristocrática. Outros processos devem ser perscrutados na multidão além do povo. Nem democratismo nem aristocratismo. Democracia aristocrática. Lúmpenaristocracia. Esta é jacobina e bolchevique, tropicalista e zapatista, classista feminista queer lulista, tudo ao mesmo tempo, é a ditadura do proletariado ausente, sovietes e delicatessen. Esquerdismo go home. É outra civilização.

Uma boa dose de aristocratismo não faria mal às esquerdas.