jan 2011 17

Em homenagem à revolução dos tunises contra a ditadura policialesca 
(Jazz in Massey Hall, Dizzy Gillespie)

Na Tunísia, nos últimos dois meses, uma surpreendente mobilização popular — greves, passeatas, enfrentamentos, barricadas, incêndios — derrubou o clã do ditador Ben Ali, há 23 anos no poder. Como o romeno Nicolau Ceausescu, em 1989, o ex-presidente teve de fugir covardemente do palácio do governo. Foi o ponto final de um estado policial que prendia políticos, rappers e blogueiros de oposição. O fim de um regime elogiado pelo FMI e Banco Mundial como “modelo”, servil à França de Sarkozy, mas que submetia a população à pobreza, à censura e à humilhação sistemática.
O tumulto multitudinário alinhou líderes religiosos e marxistas, nas ruas e no Facebook, para vencer o antigo governo semicolonial. Tiranos assustam-se por todo o mundo árabe, porque podem ser os próximos. Interesses dos EUA são ameaçados, na medida em que sustentam tais despotismos, como na Arábia Saudita.
Fica a torcida para que a revolução não seja “termidorizada” por algum grupo ávido por constituir o poder. Para que o poder constituinte continue pulsando e possa finalmente fundar uma inédita democracia islâmica. Uma democracia sintonizada com o modo de vida tunise que se coloque como paradigma e possa ser exportado, quem sabe?, no lugar das teocracias e das ditaduras pró-EUA do Oriente Médio.

fev 2011 01

Cairo, 30 de janeiro de 2011, corajosa militante sem cobertura

O lindo da revolução árabe está em não ser comandada por nenhuma vanguarda leninista ou fundamentalista. O processo constituinte varre as ditaduras na Tunísia e Egito dispensando a figura do grande guia. Nem charlatões sectários vermelhos, nem beatos maniqueístas brancos. Mesmo assim, não se pode chamar de revolta anárquica ou desgovernada.
Tem um saber revolucionário que circula no boca-a-boca, aprende na contingência e organiza o movimento. Difunde-se nas ruas e praças, no tuíter e no facebook. Aqui não tem Povo, Estado, Nação; não tem bandeira unificada. É um enxame sem símbolos do poder, transnacional, multiminoritário. São muitas revoluções ao mesmo tempo. Esgarçam um horizonte de liberdade e as mulheres podem sair de jeans e cabelos soltos.
A religião não é incompatível com a democracia e a liberdade. O problema não é a fé, mas a apropriação política do medo e da esperança. Problema não é a relação pessoal com a divindade, mas a inscrição dela em regimes dogmáticos de autoridade e obediência.
O islamismo não é problema, mas as pretensões políticas transcendentes de profetas, salvadores e igrejas. Nem ocidentalização nem teocracia, melhor uma democracia islâmica com direitos às pessoas e minorias, dentro do comunitarismo da al-Ummah.
A questão religiosa é uma variável, como na política americana. Mas não determinante. Essa revolução brota da luta de classes. É duro quando a verdade bate na sua porta. Imagine um milhão de verdades encolerizadas…
A revolução cria sua própria verdade e se autodetermina na imanência do conflito. A revolta encontra a sua medida em si mesma, no fazer multidão dia após dia de agitação e alegria. Todos hoje somos egípcios.
Seria reducionismo teórico sondar agora analogias pra revolução árabe (cama de Procusto). Experiência a analisar-se na sua singularidade. É preciso pensar *a partir* da revolução árabe e não *sobre* ela. Pode disseminar pela Europa, através dos milhões de imigrantes “capilarizados”. O saber revolucionário para o século 21 recomeça aqui.
Se, na década passada, a América do Sul foi a vanguarda política do planeta, nos anos 2010 o eixo revolucionário se move ao mundo árabe.
Vivemos tempos incríveis.
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PS. Este ensaio foi montado artesanalmente com tuítes meus publicados na data de hoje. Demonstra (literalmente) como blogue e microblogue podem vibrar em sinergia. O que o leitor acha? 
Aproveito para recomendar a excelente cobertura televisiva da Al-Jazeera: http://english.aljazeera.net/watch_now/

fev 2011 12

Batalha do Nilo.

Publicado em clipes

Cairo, 28 de janeiro de 2011.

A multidão apanha, apanha, apanha, mas chega uma hora em que aprende coisas novas, incorpora as táticas da polícia e retribui com mais inteligência (coletiva). Isso sem comando ou hierarquia, tudo na imanência do enxame, na circulação retroalimentada de saberes, no tatear doloroso em busca de pontos fracos e brechas. Os rebeldes conquistam um “caveirão” e usam-no contra a polícia. Reparem como marcham cobertos pelo veículo. Logo atrás, deslizam rolo esmagador, uma tática usada por Spartacus contra as legiões romanas, em 72 a.C., durante a Terceira Guerra dos Escravos (os rolos eram oleados e incendiados). Também se notam táticas de desobediência civil dos anos 1960, que tem alguma eficácia contra armas não-letais. O ímpeto dos revoltados nitidamente superior ao dos policiais, que acabam cedendo a posição.

Amanhã, reflexões e apontamentos do blogue sobre a revolução árabe de 2011.

fev 2011 13

A Dança, segunda versão, Matisse, 1910
A revolução árabe abriu a nova década. O eixo revolucionário começa a migrar da América do Sul, onde tantas mudanças incutiu nos anos 2000, para o mundo árabe. Os tumultos na Tunísia contagiaram as pessoas no Egito, na Argélia, na Jordânia, no Iêmen, em todos países árabes. Esta geração assiste à revolução no seu sentido mais lídimo. A palavra andava em desuso, desde as elegias ao capitalismo, com a queda do socialismo real. Com os acontecimentos de 2011, a revolução foi resgatada dos livros de história, de volta à conversa cotidiana, não mais demodê.
Uma revolução é sempre fresca de vivências e copiosa de elementos criadores. Mas ideólogos se apressaram em deitá-la na sua cama de Procusto, com teorias e sistemas encarquilhados. Trataram de suprimir a singularidade que faz dessa revolução um acontecimento sem precedentes. Pan-islâmica? socialista? fundamentalista? liberal-constitucionalista? nada disso.
As tentativas de classificação são muitas e todas erram em perder de vista o essencial. O que essa revolução tem de único: no que ela recombina todas as outras, e faz irromper o absolutamente novo. Não a classificaria nem como assembleísmo, espontaneísmo ou democracia direta. Ora, mais modesto que isso, quero aprender o que os árabes inventaram. Quero descobrir o que nem nome tem, muito além de socialismo ou capitalismo — esse falso problema da geração passada. Nem um nem outro. É inclassificável.
Por sua vez, a grande imprensa repercute o império, numa cobertura falsária, a-histórica, desinformativa. Como o império, maneja dicotomias malandras: ditadura laica x teocracia, transição ordeira (mediada pelos EUA) x caos destrutivo. O engodo opera menos ao vender soluções erradas, do que em colocar falsos problemas. Estes sequer passaram pela cabeça dos revolucionários.
Bastam 30 minutos de assistência à Al-Jazeera para perceber o fundo do poço em que se encontra a TV brasileira e seus jornalistas ignorantes, totalmente dominados pelos falsos problemas. Na realidade o jornalismo tradicional entrou em extinção, neste tempo da comunicação pós-jornais.
Finge-se agora se tratar somente de uma luta contra um ditador octagenário. Assim genérica, uma dialética personificada no tirano. Grosseira simplificação. A revolução não se resume a “mera” luta contra um ditador, mas exprime o apoderamento do destino por uma geração esquecida, atrás de renda, liberdade, cidadania. Como se um regime não fosse a conjunção de diversas e sutis causas e efeitos, — que, todavia, os árabes conhecem muito bem, porque é a vida deles. Mas o império precisa desarticular o discurso revolucionário, desacoplando-o das práticas tão perigosas.
A revolução demonstra cabalmente quão frágil é a ordem estatal e capitalista. Toda a simbologia e liturgia do poder desmorona em questão de dias, quando as pessoas desistem de participar dela. O poder constituído manipula o medo e vende a esperança, mas chega a hora em que as pessoas desesperam e a coragem cospe no medo. Desesperar-se acaba por levar à substituição do medo pela revolta, da espera pela ação, da moral comportada pela ética da democracia, da crença no futuro pelo tempo do agora. O medo muda então de lado, eis a revolução, e o sistema colapsa. A vaca se remexe, as moscas fogem. O poder soberano em toda parte compreende, assustado, o sentido real da potência da multidão. Não por acaso, se precipitam em concessões, em negociar a docilidade e clamar pela complacência.
A revolução significa romper diques. Para lucrar e acumular, o capitalismo precisa represar desejos e frustrar amores. Tais impulsos recalcados tumultuam as consciências e não poderão ser sublimados perpetuamente. Uma hora explode e não pára mais, indo além dos limites. A revolta encontra medida em seu próprio seio e recusa quaisquer apelos ao bom tom e à prudência.
É preciso recusar a tese de que o exército egípcio refreou impulsos mais destrutivos. Primeiro, porque o exército não passa de efeito de superfície. Dentro dele correm inúmeras divisões e conflitos, cada qual com seu corpo de relações sociais, políticas e econômicas. Segundo, porque no Egito o exército foi refém da multidão. Agiu quando e onde a multidão lhe permitiu e exigiu agir. Se evitou deturpações de alguns, foi mais como resposta à ética imanente aos revoltados, porque do contrário simplesmente não conseguiria. O exército esteve a serviço da revolta menos por condescendência ou simpatia, que por ser carreado por um turbilhão invencível, do qual não teve opção senão tomar parte.
A revolução árabe também é balde de água fria na esquerda apocalíptica. Passaram as últimas duas décadas lamuriando a derrota, num decadentismo barroco. Todas as formas de revolta estariam capturadas. O capitalismo teria irremediavelmente fechado as portas da lei. Nada restaria à esquerda senão refugiar-se em coleções sobre o estado de exceção tornado a regra, à espera de algum evento messiânico. Quando a utopia pressupõe a espera, levanta as mãos para os céus e não contra os inimigos. Tristes criaturas e tristes paixões, em contraste acintoso à alegria e ao carnaval das ruas de Túnis ou Cairo. As ruas não anunciam verdades a um futuro longínquo, mas se povoam de potências e modos de sentir— aqui e agora.
A revolução árabe também frustra outra esquerda. Militarizada em minúsculos partidos, julga-se encarregada de anunciar a boa-nova e guiar as massas ao reino da justiça. Tem fé num programa esquemático, e atuam para realizá-lo de modo maçônico, por meio de complôs e segredos. Dividem a sociedade em fiéis e pecadores, iluminados e iludidos, os últimos suscetíveis de conversão por panfletos, almanaques e cursos de domingo. Arrogante vontade pedagógica! ineficaz crença que a materialidade das lutas pudesse ser substituída por diagramas e esquemas.
A verdade das lutas se faz na premência do choque de forças. Porque só a luta ensina. Jamais faltou vanguarda em todos esses dias. Se se impõem iluminados pra guiar a massa, na mesma hora as pessoas iriam para casa. Praça Tahir foi o melhor curso intensivo revolucionário do planeta. Decerto mais rico do que cem livros vermelhos ou mil aulas universitárias. O fetiche da vanguarda enfraquece o movimento, ao dissociar meios e fins e lhe usurpar ímpeto e energia.
A revolução árabe tampouco pode ser chamada de anárquica. Pulsam formas de organização e se estabeleceu certa lógica da mobilização. Porém, isso se construiu no dia-a-dia, nas ruas e praças, nos entrechoques e escaramuças, nas incursões e evasões. A lógica não veio de cima, de um plano pronto: foi-lhe imanente. Organiza-se como um enxame: de todas as direções, sem centro ou hierarquia, onde circula um saber prático, fluido, retroalimentado.
A grande mídia e os ideólogos da soberania estão confusos e amedrontados. Disfarçam o incômodo, mudando de assunto: geopolítica e implicações econômicas. Temem o aprendizado dos ativistas pelo globo. Temem que aprendam a essência-potência dessas lutas, que consiste no como exprimir, articular, mobilizar, propagar. Não posso falar quase nada sobre esse como, pois não vivenciei a revolução nos seus dias e noites de sangue e pedras. Mas sei que aprendê-lo será o desafio daqui pra frente. Ousar saber e saber ousar, na expressão de um filósofo italiano.
A revolução não é só tunisiana, egípcia ou árabe, mas de todos os jovens e pobres e desejantes. Luta que é local no embate concreto de forças, mas global na proliferação intensiva de afetos e desejos. Flui pela rede mundial e deflagra novos focos pelo planeta. Já não é mais demasiado otimismo crer que pegue na Europa de tantos milhões de imigrantes e precários. A história se faz a olhos vivos e inspira uma geração nascida sob o signo da apatia e a descrença.
fev 2011 20

“Pensam vocês que os homens que experimentaram a
benção da liberdade aceitariam, calmamente, 
vê-la arrebatada?” – Toussaint Louverture
Plano de O Encouraçado Potemkin, Sergei Eisenstein, 1925

Há três meses, ninguém poderia imaginar a magnitude da revolução que varre o mundo árabe. Como a lavagem das escadarias do Bonfim, está arrastando ditaduras e suas elites para os livros de história. Imprevisível, doida varrida, a revolução já derrubou os ditadores Ben Ali, na Tunísia, e Hosni Mubarak, no Egito. Tiranos que, até pouco tempo, eram tidos por sólidos como rocha. Neste instante, uma multidão luta com gritos e pedras contra as ditaduras no Bahrein, na Líbia, no Iêmen, na Argélia. Tumultos também afloraram no sul do Iraque pós-ocupação americana, e no Irã teocrático.
A revolução chamejou como faísca na gasolina, e lançou um espectro a assombrar regimes autoritários, do Magreb à China, passando pelos governos xenófobos da Europa, pródigos em reprimir e humilhar os imigrantes. Se o pavor da classe dominante ante a revolução haitiana (1804) condicionou a história do século 19; e ante a revolução russa (1917), a do 20; quem sabe a revolução árabe (2011) não seja o evento fundante das lutas deste século.
No entanto, não faltam analistas de primeira hora, a enquadrar essa revolução sem precedentes nos seus esquemas e teorias de plantão. Em vez de tentar entender a singularidade do movimento, disputam entre si quem será o primeiro a dar-lhe a última palavra.
Por um lado, comentadores mais à direita resmungam que a revolução acabará mal. Sem alternativa organizada, o futuro da revolução estaria nas mãos dos fundamentalistas islâmicos. A Fraternidade Muçulmana, conectada ao Irã e à al-Qaeda, seria a única vanguarda ativa. Portanto, a médio prazo, o único grupo capaz de suceder as ditaduras depostas. Profetizam o retrocesso em direitos humanos e em igualdade de gênero, bem como o fortalecimento do “terrorismo” (sic). Para eles, os muçulmanos não estariam preparados para a democracia e o islamismo teria uma tendência intrínseca e historicamente comprovada ao homem-bomba. E concluem com um falso problema: melhor uma ditadura laica “ocidentalizada”, do que uma teocracia à moda aiatolá.
Por outro lado, analistas de uma esquerda nacional, herdeira do jacobinismo do século 19, igualmente antecipam o fracasso da revolução. Adotam a mesma razão em essência: ausência de vanguarda organizada. Por não haver um partido e um programa de esquerda como fios condutores, os revoltosos não teriam como resistir à contrarrevolução. Sem “mudança estrutural”, as vitórias conquistadas paulatinamente seriam diluídas, e o regime recomporia as suas bases aos bocadinhos. Muda-se tudo para não mudar nada: as novas elites e seus representantes maquiariam reformas, e o sistema de exploração enfim persistiria. O putsch militar no Egito seria sinal desse anticlímax.
Ambos os modos de analisar o tumulto falham. Escapa-lhes o mais importante: a materialidade das lutas em análise. Idealistas, vêm com modelos prontos, em vez de pinçar as relações de força e dinâmicas materiais que aconteceram. Não é que a revolução tenha ocorrido sem organização partidária ou militante coesa. É que ela só poderia ter acontecido assim, tanto que aconteceu. Que dificuldade em atribuir realidade aos acontecimentos como tais!
As pessoas que escrevem de dentro do turbilhão — quer da mídia infiltrada (al-Jazeera, Robert Fisk), quer de árabes engajados na luta (como o sociólogo Mohamed Bamyeh) — concordam que essa revolução se fez e se faz um dia após o outro. Ao deparar-se com desafios e ameaças, encara-as a sua maneira, sem receitas do que fazer, livros messiânicos ou diretivas de comitês centrais. Não houve complô de seitas iluminadas, fundamentalistas ou socialistas — e foi isso que asssegurou a potência do acontecimento.
Ora, com que peripécia os analistas podem apontar fraqueza no que, precisamente, tem sido a força da revolução? por vários motivos.
Em primeiro lugar, não acreditam na multidão. Em parte, porque estão cegos à inovação, ao que de singular pulsa no Magreb e Oriente Médio. Não conseguem explicar como os revolucionários se organizam e lutam, o seu corpo político que dispensa ideologia ou bandeira unificada. Confundem formas transversais de organização com anarquia; governo imanente da multidão com desgoverno das massas. Não enxergam que o saber revolucionário circula de boca em boca, alimenta-se da prática concreta, difunde-se nas redes sociais. Uma sabedoria inacabada e imperfeita, mas concreta. Os árabes aprenderam muitas coisas e não à toa, a Praça Tahir, enquanto experiência, se repita noutros lugares (a Praça Pérola, no Bahrein). Porém, isso não cabe no noticiário, monopolizado por comentários sobre efeitos de superfície (geopolítica), com honrosas exceções (TV al-Jazeera).
Em segundo, supervalorizam o poder. Cacoete de ler os acontecimentos com os olhos dos vencedores, isto é, por meio da História. Assim, examinado sob a espécie do poder, pensam que o exército egípcio “deixou” a revolução acontecer. Quando, na realidade, o exército foi feito refém da multidão. E findou carreado pelo processo constituinte, inclusive amalgamando-se a ele. Se, agora, o alto comando encetar algum 9 Termidor, a Praça Tahir está preparada para ser ocupada uma vez mais e mostrar à evidência quem manda.
Uma revolução impacta o modo de sentir das pessoas. O medo muda de lado e elas passam a perceber a fragilidade do poder. Menos que planos mirabolantes, a revolução é “sopro que abre brechas nos muros”. Basta as pessoas se determinarem a não mais participar, que a panóplia de autoridades e interditos colapsa em questão de dias. Aí as ruas se inundam de revolta e ódio, mas também de carnaval e amor. O porvir se abre, cada dia se torna uma aventura, as pessoas se amam com mais cupidez. Carpe diem político. Essa proliferação de afetos contagia as multidões noutros lugares e noutros tempos, retraduzindo os eventos em sua própria língua — somos todos egípcios!
As formas de organização, o saber-fazer da luta, a sensibilidade revolucionária, nada disso se perde. A História se fecha às lutas, mas não a memória e o sonho. Com efeito, o tumulto revolucionário irrompe da história e mesmo contra ela. A revolução liberta as pessoas da linha histórica, da mesmice, da narrativa do poder. Desata-as de um passado e um futuro pré-definidos de fora, e instala-as como produtoras de seu tempo, um novo tempo.
Haiti 1804, Rússia 1917, Egito 2011: a mesma luta, sempre diferente. Daí o erro dos ranzinzas ao praguejar que, “como das outras vezes”, tudo vai terminar mal. Erram ao retroagir um juízo de valor histórico, que encerra a revolução no passado: traída, malograda, nociva. O erro está em exigir da revolução uma finalidade, um fim da História, quando ela exprime, justamente, a recusa de qualquer limite. Para o historiador das paixões tristes, nada nunca muda. Mas se nada pode acontecer, o palco está entregue à paz dos vencedores, ou seja, ao status quo.
Por tudo isso, o filósofo Gilles Deleuze advertia em não confundir o futuro da revolução com o devir revolucionário. Pouco importa o futuro, pois a verdadeira metamorfose se dá e já se deu. A percepção mudou. Nenhuma revolução genuína discute o futuro, mas sim o recomeço aqui e agora. Quando passa a discutir o futuro, se fecha como constituinte, e cede a vez aos usurpadores que governarão em seu nome.
É preciso ignorar os discursos lamurientos, à direita ou à esquerda, e também os pomposos (wishful thinking), e tentar aprender com os árabes. Apreender a sua face poética, demiúrgica, a sua fagulha raivosa e seu grande amor. Somos privilegiados. Ela potencializa os corpos e encadeia os pensamentos, que surgem espessos do frágil fio do cotidiano. Temos diante de nós uma revolução de verdade.

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