fev 2011 20

“Pensam vocês que os homens que experimentaram a
benção da liberdade aceitariam, calmamente, 
vê-la arrebatada?” – Toussaint Louverture
Plano de O Encouraçado Potemkin, Sergei Eisenstein, 1925

Há três meses, ninguém poderia imaginar a magnitude da revolução que varre o mundo árabe. Como a lavagem das escadarias do Bonfim, está arrastando ditaduras e suas elites para os livros de história. Imprevisível, doida varrida, a revolução já derrubou os ditadores Ben Ali, na Tunísia, e Hosni Mubarak, no Egito. Tiranos que, até pouco tempo, eram tidos por sólidos como rocha. Neste instante, uma multidão luta com gritos e pedras contra as ditaduras no Bahrein, na Líbia, no Iêmen, na Argélia. Tumultos também afloraram no sul do Iraque pós-ocupação americana, e no Irã teocrático.
A revolução chamejou como faísca na gasolina, e lançou um espectro a assombrar regimes autoritários, do Magreb à China, passando pelos governos xenófobos da Europa, pródigos em reprimir e humilhar os imigrantes. Se o pavor da classe dominante ante a revolução haitiana (1804) condicionou a história do século 19; e ante a revolução russa (1917), a do 20; quem sabe a revolução árabe (2011) não seja o evento fundante das lutas deste século.
No entanto, não faltam analistas de primeira hora, a enquadrar essa revolução sem precedentes nos seus esquemas e teorias de plantão. Em vez de tentar entender a singularidade do movimento, disputam entre si quem será o primeiro a dar-lhe a última palavra.
Por um lado, comentadores mais à direita resmungam que a revolução acabará mal. Sem alternativa organizada, o futuro da revolução estaria nas mãos dos fundamentalistas islâmicos. A Fraternidade Muçulmana, conectada ao Irã e à al-Qaeda, seria a única vanguarda ativa. Portanto, a médio prazo, o único grupo capaz de suceder as ditaduras depostas. Profetizam o retrocesso em direitos humanos e em igualdade de gênero, bem como o fortalecimento do “terrorismo” (sic). Para eles, os muçulmanos não estariam preparados para a democracia e o islamismo teria uma tendência intrínseca e historicamente comprovada ao homem-bomba. E concluem com um falso problema: melhor uma ditadura laica “ocidentalizada”, do que uma teocracia à moda aiatolá.
Por outro lado, analistas de uma esquerda nacional, herdeira do jacobinismo do século 19, igualmente antecipam o fracasso da revolução. Adotam a mesma razão em essência: ausência de vanguarda organizada. Por não haver um partido e um programa de esquerda como fios condutores, os revoltosos não teriam como resistir à contrarrevolução. Sem “mudança estrutural”, as vitórias conquistadas paulatinamente seriam diluídas, e o regime recomporia as suas bases aos bocadinhos. Muda-se tudo para não mudar nada: as novas elites e seus representantes maquiariam reformas, e o sistema de exploração enfim persistiria. O putsch militar no Egito seria sinal desse anticlímax.
Ambos os modos de analisar o tumulto falham. Escapa-lhes o mais importante: a materialidade das lutas em análise. Idealistas, vêm com modelos prontos, em vez de pinçar as relações de força e dinâmicas materiais que aconteceram. Não é que a revolução tenha ocorrido sem organização partidária ou militante coesa. É que ela só poderia ter acontecido assim, tanto que aconteceu. Que dificuldade em atribuir realidade aos acontecimentos como tais!
As pessoas que escrevem de dentro do turbilhão — quer da mídia infiltrada (al-Jazeera, Robert Fisk), quer de árabes engajados na luta (como o sociólogo Mohamed Bamyeh) — concordam que essa revolução se fez e se faz um dia após o outro. Ao deparar-se com desafios e ameaças, encara-as a sua maneira, sem receitas do que fazer, livros messiânicos ou diretivas de comitês centrais. Não houve complô de seitas iluminadas, fundamentalistas ou socialistas — e foi isso que asssegurou a potência do acontecimento.
Ora, com que peripécia os analistas podem apontar fraqueza no que, precisamente, tem sido a força da revolução? por vários motivos.
Em primeiro lugar, não acreditam na multidão. Em parte, porque estão cegos à inovação, ao que de singular pulsa no Magreb e Oriente Médio. Não conseguem explicar como os revolucionários se organizam e lutam, o seu corpo político que dispensa ideologia ou bandeira unificada. Confundem formas transversais de organização com anarquia; governo imanente da multidão com desgoverno das massas. Não enxergam que o saber revolucionário circula de boca em boca, alimenta-se da prática concreta, difunde-se nas redes sociais. Uma sabedoria inacabada e imperfeita, mas concreta. Os árabes aprenderam muitas coisas e não à toa, a Praça Tahir, enquanto experiência, se repita noutros lugares (a Praça Pérola, no Bahrein). Porém, isso não cabe no noticiário, monopolizado por comentários sobre efeitos de superfície (geopolítica), com honrosas exceções (TV al-Jazeera).
Em segundo, supervalorizam o poder. Cacoete de ler os acontecimentos com os olhos dos vencedores, isto é, por meio da História. Assim, examinado sob a espécie do poder, pensam que o exército egípcio “deixou” a revolução acontecer. Quando, na realidade, o exército foi feito refém da multidão. E findou carreado pelo processo constituinte, inclusive amalgamando-se a ele. Se, agora, o alto comando encetar algum 9 Termidor, a Praça Tahir está preparada para ser ocupada uma vez mais e mostrar à evidência quem manda.
Uma revolução impacta o modo de sentir das pessoas. O medo muda de lado e elas passam a perceber a fragilidade do poder. Menos que planos mirabolantes, a revolução é “sopro que abre brechas nos muros”. Basta as pessoas se determinarem a não mais participar, que a panóplia de autoridades e interditos colapsa em questão de dias. Aí as ruas se inundam de revolta e ódio, mas também de carnaval e amor. O porvir se abre, cada dia se torna uma aventura, as pessoas se amam com mais cupidez. Carpe diem político. Essa proliferação de afetos contagia as multidões noutros lugares e noutros tempos, retraduzindo os eventos em sua própria língua — somos todos egípcios!
As formas de organização, o saber-fazer da luta, a sensibilidade revolucionária, nada disso se perde. A História se fecha às lutas, mas não a memória e o sonho. Com efeito, o tumulto revolucionário irrompe da história e mesmo contra ela. A revolução liberta as pessoas da linha histórica, da mesmice, da narrativa do poder. Desata-as de um passado e um futuro pré-definidos de fora, e instala-as como produtoras de seu tempo, um novo tempo.
Haiti 1804, Rússia 1917, Egito 2011: a mesma luta, sempre diferente. Daí o erro dos ranzinzas ao praguejar que, “como das outras vezes”, tudo vai terminar mal. Erram ao retroagir um juízo de valor histórico, que encerra a revolução no passado: traída, malograda, nociva. O erro está em exigir da revolução uma finalidade, um fim da História, quando ela exprime, justamente, a recusa de qualquer limite. Para o historiador das paixões tristes, nada nunca muda. Mas se nada pode acontecer, o palco está entregue à paz dos vencedores, ou seja, ao status quo.
Por tudo isso, o filósofo Gilles Deleuze advertia em não confundir o futuro da revolução com o devir revolucionário. Pouco importa o futuro, pois a verdadeira metamorfose se dá e já se deu. A percepção mudou. Nenhuma revolução genuína discute o futuro, mas sim o recomeço aqui e agora. Quando passa a discutir o futuro, se fecha como constituinte, e cede a vez aos usurpadores que governarão em seu nome.
É preciso ignorar os discursos lamurientos, à direita ou à esquerda, e também os pomposos (wishful thinking), e tentar aprender com os árabes. Apreender a sua face poética, demiúrgica, a sua fagulha raivosa e seu grande amor. Somos privilegiados. Ela potencializa os corpos e encadeia os pensamentos, que surgem espessos do frágil fio do cotidiano. Temos diante de nós uma revolução de verdade.

mar 2011 03

Publicado originalmente no Outras Palavras, em 2 de março de 2011.

Entrou o mês de março e a revolução árabe segue com ímpeto irreprimível, surpreendendo até os mais otimistas analistas de esquerda. Praticamente todos os países árabes foram impactados pelos tumultos, que irromperam na Tunísia na virada do ano. A revolta se alastrou por populações até pouco tempo tidas por “despolitizadas” e desarticuladas, contra regimes considerados sólidos como rocha. Duas ditaduras enraizadas há décadas e apoiadas pela ordem imperial (financeira, militar, midiática) tiveram seus líderes depostos em questão de semanas. Tudo indica que o déspota líbio Muammar Gaddafi seja o próximo, e o espectro revolucionário assusta governantes não só da região.
Na Tunísia e no Egito, a revolução entrou por assim dizer num segundo estágio. As multidões seguem mobilizadas, pois querem mais do que a mera troca de dirigentes. Exigem a mudança estrutural do sistema político e econômico.
Na Líbia, freme uma luta aguda entre o movimento de rebeldes e as forças remanescentes de Gaddafi, isto é, tropas leais e esquadrões mercenários de extermínio. As batalhas são encarniçadas também no Bahrein e no Iêmen, onde os manifestantes confrontam a brutal repressão por parte dos autocratas. Mas também estão cobertos de protestos, em maior ou menor grau, o Iraque, o Omã, a Jordânia, a Argélia, o Sudão e o Marrocos. Em toda parte, e os vídeos do youtube não me deixam mentir, é impressionante como os insurgentes não se amedrontam, se expõem aos maiores perigos, e seguem contestando a ordem estabelecida.
Dos estados árabes, a Arábia Saudita, o Líbano e a Palestina parecem ter sido poupados, por enquanto, dessa faxina furiosa. O que não significa muito, haja vista a rapidez com que essa revolução pega, uma vez deflagrada. Antecipando-se, a monarquia saudita concede direitos e “bondades”, tentando auferir a complacência das massas. Líbano e Palestina, com suas instâncias representativas muito firmes, e sua maior “intimidade” com Israel, parecem internalizar a onda de protestos em termos diferentes que seus vizinhos.
A nós, mais ou menos distantes, resta tentar aprender com os árabes. A quantidade de informação é gigantesca e não há qualquer interpretação fácil sobre o que gerou essa revolução.
Num viés mais socioeconômico, fala-se na situação de penúria das populações, segregadas da partilha dos recursos naturais e da produção. Décadas de neoliberalismo esgarçaram um contraste entre elite multimilionária e maioria excluída, e isso cevou uma instabilidade latente. As lutas são contra a divisão social do trabalho, contra os bloqueios produtivos impostos pela precarização induzida dos trabalhadores. Daí a expectativa de a revolução pegar na Europa mediterrânea, onde os milhões de imigrantes capilarizados se encontram em condições semelhantes.
Os analistas mais liberais, como os da grande imprensa brasileira, tendem a valorizar como fator determinante a restrição dos direitos políticos, a falta de alternância no poder, a pouca liberdade de expressão. A luta é contra a ditadura, por direitos formais, e não contra o neoliberalismo, por direitos sociais. Daí comentadores mais à direita imediatamente alertarem que o movimento reúne condições para pegar em Cuba e na Venezuela.
Subsiste ainda uma explicação mais geopolítica, que aponta a distância entre o sentimento antiimperialista das pessoas e a flexibilidade com que os governantes negociam com EUA, Europa e mesmo Israel. A revolução seria acerto de contas com as negociatas das ditaduras com os interesses do capitalismo global, capitaneado pelos EUA e seu enclave estratégico, Israel.
Embora contribuições úteis, isso tudo não é suficiente para explicar a difusão vertiginosa da revolução por países tão díspares e tão distantes e tão simultaneamente. Afora o idioma e a religião, é difícil achar denominador comum para a situação de países como Marrocos, Líbia, Egito e Bahrein. Se a revolução for uma só, sem fronteiras, como acredito, ela se concretizou de modos diferentes em cada realidade nacional.
Na Tunísia, houve muita repressão inicial, mas o movimento não parou de ganhar força, dia após dia. Quanto mais o poder constituído resistia, mais gente aderia aos protestos de rua, e mais ousados se tornavam. Diversos grupos articularam um choque frontal, que dobrou o regime e forçou a fuga do ditador tunisiano, Zine Ben Ali. O movimento na Tunísia foi o mais surpreendente de todos, porque o primeiro.
No Egito, igualmente a repressão apertou logo nos primeiros embates. Houve um primeiro choque com a polícia, mas a inundação das ruas das grandes cidades rapidamente tornou-se incontrolável. As forças policiais debandaram, muitas das quais fundindo-se ao movimento. Então o exército interveio e ocupou lugares táticos, porém se recusando a investir contra o próprio povo. O ditador egípcio, Hosni Mubarak, apelou para comandos paramilitares, e daí foram dois dias de truculências pelas ruas de Cairo (com direito à carga de camelos). Novamente, os revolucionários provaram sua determinação, não arrefecendo um dia sequer. Daí por diante foi questão de dias para a persistência invencível da Praça Tahrir dobrar a intransigência de Mubarak.
Tanto no Egito quanto na Tunísia a partida do ditador trouxe problemas. Como não houve tomada do poder, nem esfacelamento estrutural do regime, em ambos os países a classe dominante tenta se recompor. Promete mudanças constitucionais e substituição dos antigos dirigentes. Mas em um e outro caso, as multidões não se desmobilizaram, e viraram o aprendizado revolucionário contra os líderes da transição. O que foi aprendido nas ruas, permaneceu vivo.
Novamente, a multidão na Tunísia saiu na frente, ao derrubar, no final do mês passado, o sucessor de Ben Ali e outros ministros das antigas. No Egito, com impulso semelhante, permanece a mobilização na Praça Tahrir, emblema e condensação dos desejos revolucionários do mundo árabe.
Na Líbia, o clã Gaddafi resolveu lutar até a última bala. Porque não tem escolha. Tolerado pelas potências ocidentais depois que passou, na década de 2000, a fazer o jogo do império, agora o ditador líbio não tem onde se asilar. Diferentemente do caso egípcio, os militares foram ordenados ao ataque total contra os rebeldes. O resultado foi a cisão das forças armadas: unidades amotinadas e deserções. Não a toa, o ditador precise tanto dos mercenários da África subsaariana.
É curioso, noutra ótica, como a repressão ordenada por Gaddafi, não protegido pela ordem imperial (como Mubarak ou Ben Ali), seja imediatamente enquadrada como “desastre humanitário”. Algo que não aconteceu no Egito, Tunísia ou Bahrein — onde, como se sabe, também houve centenas de mortos, sujando de sangue as mãos dos déspotas. É evidente que qualquer reação truculenta contra o movimento civil de massas é criminosa e inaceitável, mas vale reparar como o establishment usa dois pesos e duas medidas, em se tratando de ditaduras servis (Egito, Tunísia, Bahrein), ou meramente toleráveis e incômodas (Líbia). Nas primeiras, nem se cogita da intervenção “humanitária”. No segundo caso, despontam porta-aviões singrando em direção ao “teatro de operações”.
Numa apreensão ainda incipiente, e não poderia deixar de sê-lo no calor dos acontecimentos, podem-se identificar dois momentos do processo constituinte árabe. Um momento mais delongado, extensivo, que vem se acumulando há décadas, relacionado à exclusão sistemática das pessoas da partilha de bens, da participação política, da produtividade. E outro mais explosivo, intensivo, que rompe os diques e inunda o tecido social de amor revolucionário, de desejo e cupidez raivosa.
Nesse segundo instante, intensivo, que é a revolução, toda aquela frustração socioeconômica, política, produtiva, enfim toda a baixa autoestima das pessoas explode, e se gera um efeito positivo. Os sentimentos negativos e paralisantes, de medo e impotência, de “não consigo“, cedem a vez a uma dinâmica de autovalorização, de alegria e afirmação, de “conseguiremos“. Transforma-se a percepção, tudo se torna ao alcance, e as pessoas agarram o momento.
Que, de fato, as populações árabes viviam na desigualdade e injustiça, subjugadas por regimes tirânicos, pró- ou anti-ocidente, nas sombras de palácios suntuosos, isso se sabe muito bem.
O que falta compreender, portanto, é o que produziu a ruptura dos diques. Como essa ruptura levou à articulação de grupos tão heterogêneos num movimento único e autônomo: a imensa juventude precária, os sindicatos, a Fraternidade Muçulmana, o baixo escalão das forças armadas, minorias tribais e outros que ainda nem se sabe os nomes para classificar.
Se uma classe política, como realidade material, se constitui na luta concreta como sujeito, é caso de perguntar pela composição de classe do movimento. E persistir nesse questionamento: é a mesma composição de classe que pode romper os diques noutros lugares? na Arábia? no Irã? na Europa, através dos imigrantes?
Ademais, como a rede uniu o múltiplo numa força tão potente? foram as redes sociais, o facebook, o tuíter, o telefone celular? houve coordenação por comitês? qual o papel da mídia organizada na articulação revolucionária? como tudo isso interagiu? e mais: qual o discurso correspondente a essas formas de organização e redes, como interpretar e ajudar a propagar esses desejos, qual a linguagem?
Todas essas questões são de importância vital para a esquerda realmente ativista. Vital no sentido que delas depende para continuar pulsando de vida. Para não morrer na inanição de conceitos e estratégias.
Através dessas questões, talvez se possa começar a entender o maior movimento revolucionário da geração, que inaugura uma nova percepção e um novo ciclo das lutas globais. Desenvolvê-las, aprimorá-las, testá-las vai permitir enxergar a revolução sob a espécie da multidão, da resistência, do poder constituinte. E não voltar como bumerangue nas interpretações tradicionais, que envolvem estados-nações e ideologias prontas, e equilíbrios regionais e declarações de Obama, que no fundo analisam o acontecimento pelo lado da ordem imperial, do capitalismo, do poder constituído. Não que sejam desimportantes tais análises, mas é que elas já predominam, numa reprodução em mil idiomas, na grande mídia.
Na revolução árabe, nós que estamos longe e tão perto, falta fazermos as perguntas “certas”. Não porque sejam mais verdadeiras ou sinceras, mas porque colocam os melhores problemas, do ponto de vista de uma esquerda revolucionária.

 

mar 2011 12

O que é ser de esquerda? o que faz um partido de esquerda? quais exemplos de governos de esquerda? esquerda x direita? esquerda x esquerdismo? qual o papel do militante de esquerda?

Existem questões que galopam para o campo do abstrato. Muito rápido, tornam-se exercícios rebuscados de estilo e argumentação, porém vazios de concretude. É como o castelo de cartas: montado para o aplauso, mas frágil.

Há quem negue a dicotomia esquerda x direita: a esquerda morreu e o que aí está não passa de farsa. Em parte, têm razão, mas só quando falam de uma certa esquerda.

Outros estabelecem-na de modo dogmático e maniqueísta, ou seja, moralizam a dicotomia. Estes também estão certos, mas só na medida que, com esse discurso, se posicionam à direita. Fantasmagórica Esquerda, essa que se reproduz com cacos de teoremas, teleologias redentoras, identidades (bate no peito pra dizer: sou de esquerda!), cosmovisões apocalípticas. Essa esquerda abstraída da materialidade das lutas, insensível às máquinas e circuitos do capitalismo. Essa que se rotula Esquerda como espírito de rebanho, com seus pastores e cajados. Ou como ressentimento diante de um inimigo injusto, identificar-se através do que se nega (moral dialética de escravos).

É preciso que a questão seja recomeçada mil vezes. Que seja reafirmado o primado do antagonismo, na ação e interpretação políticas.


Talvez melhor problema não seja o que significa ser de esquerda. Ou mesmo o que é a esquerda. O que importa é como devir esquerda.

Porque a esquerda vive. Na Praça Tahrir, em Túnis, em Madison, no carnaval de rua com suas máscaras de Ana de Hollanda e Tiririca, no trabalho imanente de uma multidão que produz e diferencia novos direitos. A esquerda afirmou a cópia livre, os novos modos de produzir da rede, o Wikileaks, a Wikipédia, o WordPress.

Inquietações:

Como recomeçar a esquerda? desestabilizar as histórias encarquilhadas? irromper as identidades sectárias? hibridizar, propagar, multiplicar? como articular os saberes minoritários?, como proliferar os afetos ativos? como intensificar o amor pelo distante, pelo retorno da diferença? como constituir e partilhar novos mundos, onde se afirmam direitos que não existiam? o que precisa ser dito que nunca o foi, como dizê-lo?, e como fazê-lo sempre um pouquinho diferente (pouquinho contudo que faz toda a diferença), para que o movimento se faça numa dinâmica expansiva e multitudinária?

Não sou de esquerda. A esquerda acontece em mim. É uma vontade que vem e plá, muda a percepção. Niilismo heróico convertido em revolta. O medo cede à uma dinâmica expansiva de autovalorização. Generosa, a revolta se concretiza contra a ordem rígida do mundo caduco. O destino se prova frágil, percebe-se que a hybris pode destroçá-lo. Escapa-se da História, de seu passado e futuro pré-definidos. Constitui-se um novo tempo: um tempo intensivo, uma outra civilização onde a existência é uma aventura.
A esquerda vem antes da direita, como a resistência antes do poder, a vida antes da morte, o infinito do finito. Defrontada com a criação de outro mundo, a direita reage. Por isso reacionária. Não pretende perder sua posição dominante na tribo. Nesse momento, do inevitável choque de forças, se destacam duas estratégias para a esquerda: a luta e o êxodo.
Luta quando o antagonismo ganha espessura dramática, e assim a tensa narrativa adquire contornos épicos. Dá-se a condensação de afetos e armas, é Praça Tahrir ou Outubro Vermelho, Canudos ou Maio de 68.
Êxodo para comprovar que, sem a vitalidade e o amor, toda a exploração colapsa. Recusa quando entra em greve contra os patrões, mostrando quem manda na produção. Recusa também pós-industrial, quando se produz à margem das corporações e indústrias culturais, como rede colaborativa.

Quando deserta para longe de uma região explorada, onde pretendem fixar mão-de-obra precária. São os nordestinos no Sudeste ou os árabes na Europa, dentre tantas diásporas constituintes. Quando não faz o jogo nos termos postos pelo inimigo, o prefiro não da enrolação sistemática do escrivão Bartleby, de Herman Melville.
abr 2011 02

 
Fotografias em preto-e-branco, fonte: Al-Jazeera
E pensar que a revolução árabe eclodiu quando um camelô teve a barraquinha apreendida numa operação “choque de ordem”. O levante tunisiano rompeu os diques e, cem dias depois, as revoltas inundam 19 países no norte da África e no Oriente Médio (ler aqui o estado da luta).

Tunísia e Egito estão na frente do que é o movimento político da geração, — um evento definidor das lutas para o século 21, dos modos de usar a revolução 2.0. Alguns temem que, se amainados os tumultos populares, o pêndulo da história inverta o balanço. O ladrão fugido pela janela retorna pela porta, como contrarrevolução, com a reorganização das elites num novo paradigma. Existe aí toda uma teoria do poder constituinte, ao redor do problema de sua “termidorização”. Por um lado, não se deve subestimar o golpismo, mas por outro o ranço fatalista não deixa de incorrer em non sequitur. Como se, relampejado o devir revolucionário, os problemas já não fossem outros. Conciso, arrematou Hugo Albuquerque no Descurvo: “nada será como antes e é isso que importa”.

Não há razão para descrer na força afirmativa da multidão. Acreditar em quê, do contrário? Pois ela tem calor e rosto, comunica-se, as suas organizações e redes, — inventadas e reinventadas na premência do choque de forças, — não se dissolvem. Uma mobilização dessa intensidade muda a percepção das pessoas e não tem como ser neutralizada. Porque a multidão tem voz para, da história oficial, irromper a sua narrativa polifônica. E tem olhos para enxergar as relações de poder, a materialidade das lutas e, sobretudo, a sua potência como sujeito constituinte. A jogada doravante, a despeito do afã de legalistas e constitucionalistas em estabilizar uma nova ordem, pode estar em não encerrar o ciclo revolucionário, em manter acesa a chama de amor e raiva que moveu tantos milhões a insurgir-se contra a exploração. E desse modo, numa versão soft, porém determinada, da revolução, ir mais além do que as promessas interessadas de quem ainda tem muito a perder.

*****

Esses dias, deparei-me com o Inside Out Project na Tunísia. Quem não lembra, em 2008 o artista de rua “JR” (é um coletivo?) encheu o Morro da Providência, aqui no Rio, de olhares gigantescos. Se, do asfalto ou da praia, os brancos costumam contemplar a favela sem muita judiciosidade; essa intervenção lembra a todos como os negros lá de cima também miram-nos aqui embaixo. Pois então, na Tunísia de 2011, foram espalhadas cerca de cem fotografias em preto-e-branco em ruas, monumentos, prédios públicos, ao ar livre. Elas retratam tunisianos anônimos, colocados exatamente no lugar de fotos oficiais do ditador deposto e de símbolos do poder.

Desta vez, o processo mais colaborativo envolveu não só o misterioso “JR”, mas também seis fotógrafos tunisianos, além das centenas de pessoas que posaram, confeccionaram o material e sugeriram pontos estratégicos. Arte genuína de rua, à maneira do grafite, vertida não como criação transcendente de uma classe, mas prática social e socializante.

Rio de Janeiro, 2008
 Tunísia, 2011: olhar penetrante de uma tunisiana, em paisagem tipicamente mediterrânea

Em vez da bandeira, o riso por vezes trágico de quem afronta o poder constituído
Esta foto, com o retrato de um anônimo colocado entre arquivos e fichas de dissidentes, na Goulette, — a incendiada sede da polícia secreta em Túnis, — me chamou muito a atenção. Que pregnância de sentidos! como não lembrar o conto Porta da lei? ou então os intermináveis arquivos do tribunal de O processo, ambos de Kafka? é isso, afinal, que o agrimensor encontra, uma vez dentro do Castelo? Toneladas e toneladas de papéis?

jun 2011 29

Tenho acompanhado o debate iniciado pelo coletivo Passa Palavra com o artigo A esquerda fora do eixo. Desde a sua publicação, em 17 de junho, repercutiu em cerca de uma dezena de bons textos pela blogosfera. Há tempos não suscitava uma discussão tão aberta e provocativa, ao redor de um tema candente para a esquerda. Ponto para o Passa Palavra. Discute-se algo crucial: como organizar-se politicamente, como mobilizar-se de modo expansivo, como fazer a luta de maneira coordenada, potente e eficaz?

Neste artigo, que pretendo o primeiro de uma série, proponho-me a pensar ao contrário. Em close reading, repassar e problematizar os principais textos produzidos sobre o assunto.

Começo com o artigo inaugural e, no próximo, passo à réplica de Ivana Bentes, publicada no portal Trezentos.

I. A esquerda fora do eixo“, Passa Palavra, 17/06/2011

É pertinente a preocupação crítica com a burocratização e aparelhamento dos movimentos, que assim vão distanciando-se das forças sociais vivas, caindo numa lógica autofágica e, no limite, reinscrita no sistema de controle e exploração capitalistas. Acertada a preocupação crítica também ante os riscos de cooptação de movimentos sociais/ONGs/coletivos, quando o ativismo se aproxima demais, amiúde aliando-se às empresas e ao estado. Ao dissociar meios e fins, o velho dilema tática x estratégia geralmente encobre a domesticação, engessamento e eventual pacificação do movimento. No âmbito da organização do trabalho, costuma ser fatal. Disso já se sabe desde o exame por sociólogos marxistas do sindicalismo de modelo japonês, toiotista. Seduzidos pelo ideal de desenvolvimento e inovação tecnológica, tais sindicatos promoviam a ideologia da empresa, o esforço conjunto de chefes e operários, um modo de vida conciliado para o bem de todos. O sindicato acabava fortalecendo a divisão social do trabalho, em vez de denunciá-la e combatê-la. Esse modelo de organização se difundiu e está presente na maioria das empresas hoje (com muita incidência nas multinacionais), e se reflete na expectativa, num sistema de cobranças e gratificações, em que toda a vida do funcionário — como se veste, onde mora, o que consome, como se comporta, como se relaciona — deve estar, em última análise, subsumida à imagem coletiva da empresa. A moral da empresa (a “carreira”) se estabelece como dimensão principal do indivíduo.

De modo geral, compartilho com o artigo a percepção que a emergência de nova composição política nas lutas não deve afastar uma autocrítica quase jesuítica. Com muita razão, toda nova forma de organizar e resistir está exposta ao capitalismo. O modo de produção dominante e global não cessa de identificar essas novidades e passará a tentar reapropriar-se das dinâmicas. Se os novos grupos político-culturais se esforçam em constituir espaços alternativos à indústria hegemônica, ao mercado dominante e ao emprego formal subordinado; não devemos ser ingênuos, tudo isso também se torna alvo preferencial para a investida capitalista. Nessa linha, o Passa Palavra dá um recado útil: não sejam tão otimistas com o novo, não alimentem a ilusão que estão na crista da onda da história — como se a luta de classes tivesse terminado na ilha dos bem aventurados pós-modernos.  Isso não existe. A luta por autonomia, por libertação do trabalho e pelo trabalho, continua inclusive por dentro da cultura livre, das redes produtivas e das marchas das liberdades. Se o trabalho imaterial e cultural se coloca no centro da economia política, tanto mais será o palco das disputas.

O que se deve ressalvar ao Passa Palavra, contudo, é que reconhecer a ambiguidade dos movimentos 2.0 não pode significar desqualificá-los, nas linhas ou entrelinhas, como genéricos, vagos, vendidos, desviantes. Incomoda naquele artigo o apelo à tradição da “esquerda em geral”, o que me parece um argumento de autoridade. Aborrece a insinuação que tais lutas, talvez por contarem com “setores da classe-média”, estariam desviando-se da linha justa. Em um ou outro ponto, fica parecendo que os autores trazem um marxímetro à mão, — ou então inventaram um novo teste de tornassol, que, sem maiores análises, revela quem é de esquerda e quem de direita. O mundo real é mais complexo e acontece em cores. É preciso diferenciar rancor de rabugice.

Existem, — e é indisputável, — esquerda e direita, — porém jamais sem ambiguidades, vaivéns, contradições, contágios, pontos de fuga, estabilizações e rupturas. Perceber as contradições e aproveitá-las no sentido da libertação — eis aí uma boa tarefa crítica, logo, tarefa de militante, que é o portador do método “científico”. Marx dixit. Sou da opinião que a esquerda só pode ser potente — isto é, perseverar esquerda — quando reconhece a sua heterogeneidade. Quando admite a diferença em seu seio: a possibilidade de lutar por muitas pautas, sem perder de vista as opressões, explorações e expropriações do capitalismo. Multiplicar as lutas sem cair na cacofonia, e orquestrar-se como polifonia.

Portanto, por serem tão produtivas, tão inovadoras, tão vivas, por produzirem e circularem tanto valor, exatamente por essas redes político-culturais autônomas (ou semi-autônomas) darem tão certo, que as empresas engordam o olho e mostram as suas garras sobre os novos terrenos da produção e do trabalho vivo. Se não valessem nada, ninguém iria querer. O capitalismo sabe bem que o mundo se tornou 2.0, então não pode a esquerda ficar pra trás, muito menos renunciar ao campo. É por isso que a indústria cultural e a aristocracia “artística”, aliás, tomaram de assalto o ministério da cultura no governo Dilma, para ir contra essas dinâmicas de libertação. Pois de tão produtivas e autônomas, os ameaçam. Isso não afasta o fato que o capitalismo veio depois, num segundo momento, pra se apropriar das novas lutas e novos movimentos, para torcer o sentido à direita, para cooptar a organização e reconfigurar a composição técnica do trabalho. E daí as lutas, as marchas, as disputas teórico-práticas, tudo isso que resiste. Porque nunca houve pureza, nem se diz isso, nem ninguém proclamou sovietes e internet!. Ao redor das novas redes produtivas e da revolução 2.0, existe e continuará existindo antagonismo, noutras palavras, luta de classe: trabalho x capital, esquerda x direita, liberdade produtiva x comando, expropriação e controle social. O caso, então, em vez de considerar a batalha perdida de antemão, só pode ser mesmo resistir: o que também significa autocrítica, esquiva, reinvenção, reconstituição.

Se o Fora do Eixo, bem como todos esses movimentos de composição nova, — e se pode incluir aí, guardadas as particularidades, Túnis e Tahir no norte da África e o 15-M na Europa, — se eles terminarem capturados pelo capitalismo, terá sido a gente, a esquerda, que os perdemos, quero dizer, nós teremos perdido. Mas não perdemos, porque a luta continua com eles, através deles e neles.

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Próxima resenha, em breve: A esquerda nos eixos e o novo ativismo, Ivana Bentes, 22/06/2011