maio 2011 21

Como não ficar otimista quando a geração ocupa em massa as ruas e as praças da metrópole? Quando pessoas como você e eu concluem para si mesmas que chegou a hora da verdade e, diante dos imperativos de seu tempo, agarram a chance de mudança e decidem não largar mais? Quando se permitem a heresia de contagiar-se pelo entusiasmo febricitante das multidões, além de suas vidinhas formatadas e previsíveis, para vivenciar esses dias de aventura e risco e sorriso, em que se provam os verdadeiros sentimentos de amor e revolução?

Estamos em 2011, ano da revolução global. Adeus à velha política, ao velho estado, à velha esquerda. Chega de repetir um physique du rôle abatido, ascético, pessimista. Tchau tchau para narrativas jeremíadas que tanto nos entediam: não haveria saída do estado de exceção, não haveria modo de libertar-se do sistema capitalista, não haveria mais sentido nas lutas concretas. Bróder, sai dessa bad trip!

Desde 15 de maio, centenas de milhares de jovens, nem-tão-jovens e aposentados, de desempregados, subempregados, precários, estudantes e revoltados em geral, enfim, uma multidão de desejos e amores irrompeu nas ruas e praças na Espanha, para exigir democracia real já! Com epicentro nas praças Portas do Sol (Madrid) e da Catalunha (Barcelona), o tumulto se disseminou em mais de 100 cidades espanholas e já alcança outros países do Velho Mundo.

Repetindo uma tendência histórica do século VIII, — quando os primeiros muçulmanos do norte da África atravessaram o Mar Mediterrâneo, — o ímpeto revolucionário dos árabes inundou a península ibérica. De forma semelhante, a revolução se concretizou com um novo modo de sentir, uma mudança de percepção que circula e faísca irrefreavelmente, agitando uma geração que o espetáculo procura sedar todos os dias. Como nas revoluções árabes,ela se desenrola numa mistura de desobediência civil e passeatas, turbinada pelas novas mídias e redes sociais.

A mobilização na Espanha nos últimos dias repercute o dezembro quente italiano, a marcha dos 400.000 em Londres e as recentes conflagrações na Grécia contra a bancocracia. Não há demandas precisas. Parece que a convergência está num desejo de viver noutro mundo, noutro modo de produzir e relacionar-se. Um que não seja nesse sistema vicioso em que poucos políticos, banqueiros e empresários vampirizam o trabalho vivo dos muitos.

Romantismo antissistema? dissolução das grandes narrativas? demasiado genérico?

Esse desejo central pode parecer vago, mas é nisso mesmo que reside a força das revoluções árabes e da onda européia de protestos. Coalhadas dos grupos e discursos mais diversos, torna-se difícil enquadrar e debelar as manifestações. Quem não lembra a angústia da ditadura egípcia ao não encontrar interlocutores entre os revoltosos na Praça Tahrir? Quando, no auge da insurreição, tentava um meio de negociar uma saída reformista, doando os anéis para manter os dedos? Na ocasião, nenhuma instância de representação emergiu das redes em movimento, e isso garantiu que suas demandas fossem mais longe que os prognósticos mais otimistas (e delirantes).

Na Europa, não há um Mubarak ou um Zine Ben-Ali, algum símbolo claro para canalizar o descontentamento, mas existem a classe política e os bancos. Alvo da maioria dos discursos, os europeus simplesmente querem outra coisa além disso. Eis uma percepção bastante aberta e ampla contra “tudo o que está aí” (como diria Leonel Brizola). O desencanto levou-os a contestar inclusive o processo eleitoral (na Espanha, três partidos dividem entre si o poder do estado, um tipo de comodato ideologicamente pastoso). De que adiantam campanhas onde  os partidos e candidatos se limitam a repetir bordões com as palavras cidadania, social, humano etc? ou então promessas genéricas para um grupo, uma região, uma causa? Multiplica-se a impressão que as eleições estão se tornando rituais melancólicos: nos restringimos a escolher quem vai decepcionar nos próximos quatro anos.

Todo esse trabalho da multidão não vem não só como resposta à ainda-mais-uma-crise do capitalismo — que, desde 2008-09, vem impondo medidas de austeridade às políticas públicas.  Talvez tenham chegado à conclusão, num raciocínio mais ou menos articulado, mais ou menos consciente, que, no fundo no fundo, não exista uma crise do capitalismo, mas que o capitalismo é a crise, — depende dela e só pode funcionar com ela. Em suma, os pobres pagam o pato e os ricos recebem “ajudas públicas” e é assim mesmo. Enquanto isso, a “culpa” é atribuída ardilosamente ao “custo social” e aos “gastos públicos”, isto é, aos pobres, os que trabalham para que tudo funcione. Essa narrativa enviesada tem servido para fortalecer uma direita chauvinista, ressentida e racista, cada vez mais despudorada na sua agenda excludente, contra imigrantes e precários.

Nesse aspecto, a esquerda da Islândia teve o enorme mérito de ser a primeira a claramente recusar e conseguir vencer as “medidas emergenciais”. Nessas horas, elas costumam aparecer na boca de “especialistas” da tecnocracia dirigente, sendo então divulgadas ad nausea pelos meios de comunicação. Porque, na verdade, essas “soluções de contingência” constituem o cerne do capitalismo atual, onde estado e mercado fazem tabelinha ao redor da insegurança do trabalho. Noutras palavras, privatizam o ganho e socializam a perda, concentram a riqueza e distribuem a pobreza, particularizam a bonança e universalizam a crise.

Basta: quer-se democracia real já, quiçá além do estado e do mercado. Se a luta é contra a corrupção, esta não configura alguma exceção ou acidente a ser corrigidos, em busca de um capitalismo mais sustentável ou humano, mas a regra mesma das dinâmicas de representação e exploração do trabalho. Afinal, o capitalismo consiste na corrupção sistematizada.

Aqui no Brasil, a grande imprensa não divulga as multidões na Europa. Se acaba divulgando, — porque até a imprensa internacional começou a cobri-las e é preciso macaquear,— não vacila em encaixá-las em narrativas comportadas, descontextualizando o movimento, escondendo o seu devir revolucionário, a sua pertinência para todos. Foi assim com a Praça Tahrir, as ocupações de Wisconsin e a rebelião de Jirau, — de que pouco ouvimos falar na TV e jornalões. Pois a grande imprensa sabe que, ao mostrar a verdadeira face da revolução, incentivará as pessoas a tomar as praças daqui.

Podemos aprender com a revolução 2.0 em Roma, Túnis, Tahrir, Atenas e Puertas del Sol, nessa dinâmica expansiva tão contagiante e alegre. Aprender como uma cacofonia dos insatisfeitos, vozes dispersas pelo tecido social, convergem na polifonia das ruas e praças. Fora da lógica da representação, todos e cada um exprimem a potência de quem não se conforma em viver subjugado e improdutivo, sem perspectivas para crescer e desenvolver-se. Diante de um arranjo político surdo e autoritário, e cada vez mais intolerante, não dá pra continuar sentado na p0ltrona ante a TV. É preciso sair de casa e determinar-se a exercer um papel ativo, junto de tantos cidadãos tratados como massa de manobra, como meros eleitores e consumidores. Porque a rua é nossa. É tudo nosso.

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Links recomendados:

http://democraciarealya.es/

http://www.juventudsinfuturo.net/

http://spanishrevolutioneurope.tk/

http://www.diagonalperiodico.net/

http://www.facebook.com/SpanishRevolution

http://www.enriquedans.com/2011/05/entendiendo-la-spanishrevolution.html

http://www.outraspalavras.net/2011/05/20/%E2%80%9Cnem-politicos-nem-banqueiros%E2%80%9D/

http://moysespintoneto.wordpress.com/2011/05/20/sobre-a-minha-geracao-e-a-politica/

http://www.outraspalavras.net/2011/05/20/para-acompanhar-via-net-a-espanha-rebelde/

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maio 2011 23

Bazar revolucionário [foto por rogalonzo]

Em 15 de maio, as pessoas retomaram as ruas e praças na Espanha inteira. Ocuparam, acamparam, papearam, se expressaram, batucaram, se amaram, produziram uma forma de vida alegre e militante. Viveram dias e noites incríveis que jamais esquecerão.

Batizado de 15M, Democracia Real Já! ou #spanishrevolution, o movimento reúne um espectro vasto de insatisfeitos com o estado das coisas: precarização do trabalho, endividamento generalizado, frustração com o governo, falta de perspectivas, incapacidade de a política absorver as demandas da geração. Da rede Juventude sem Futuro a organizações de excluídos do trabalho, de populações endividadas no sistema financeiro a contestadores do neo-neoliberalismo, estudantes e aposentados, midialivristas e hackers. Na Espanha, clamou-se por democracia real já contra a surdez, a insuficiência e a paralisia de todo o arranjo político. A agitação se alastrou por centenas de cidades pela Europa, com protestos inclusive no Brasil, e promete disseminar-se ainda mais nas próximas semanas e meses.

Não se trata de uma explosão espontânea e sem sentido. A rede de contatos e a circulação de discursos vêm proliferando há meses, em encontros e coletivos, nas redes sociais e novas mídias. O 15M foi arquitetado e concretizado sem um centro nítido, a partir de muitas direções, muitos nós e rótulos, com um discurso heterogêneo. Obra aberta, inacabada, constituinte. Que não é, como o acusam, vago ou inconsistente. Como poderia sê-lo quando, de fato, movimentou multidões?, embasbacando partidos e instituições, entusiasmando pessoas numa luta global?

Na medida em que o enxameamento vai dando certo e se chocando com o real, constroem-se novas narrativas e pautas, numa dinâmica expansiva que seduz mais e mais gente. No processo, já se consolidou uma convergência de demandas mínimas.

Num contexto maior, o 15M continua as revoluções árabes. Cada manifestante tem dentro de si uma Praça Tahrir. Traz consigo a percepção alterada que, com efeito, pode-se mudar um mundo que antes parecia superpoderoso e invencível. A geração perdeu o pudor. A revolução foi resgatada dos livros de história, de volta à conversa cotidiana, não mais demodê. Quem está acuado, agora, é o poder constituído, temeroso diante dos rastros de pólvora. Esses bárbaros que surgem do nada e somem em lugar algum, inebriados de aventura.

Decepcionante ouvir de pessoas de percepção mais à esquerda que, no frigir dos ovos, esses movimentos nada significariam. Que lhes faltam uma visão de longo prazo e um projeto de novo estado. Que seriam virtuais e liquefeitos… pós-modernos. Não e não e não. Pois significam tudo. Pois são o que de mais real e mais verdadeiro se pode vivenciar hoje na política. Sua dinâmica atravessa o estado e não tem como ser redimensionada na lógica da representação. Porque a recusa; desertando da melancolia das eleições, dos rituais do estado, da mera disputa por aparelhos. Não está repercutindo em mudanças constitucionais ou institucionais? ora, precisamente esta a potência do movimento. Não se deixar capturar pela representação em crise. Isso ambicionam os partidos ideologicamente pastosos da Espanha. A inovação está no modo de organizar, de produzir formas de vida, de viver, de reinventar a cidade, de contagiar muitos mundo afora.

Como escreveu Cézar Migliorin em seu blogue, menos “perguntar o que querem os manifestantes, mas apenas perceber a evidência do desejo”. A experiência de ruas e praças, esse copioso amor revolucionário, vale por cem livros vermelhos e dez mil aulas universitárias.

Do ponto de vista regional, contribuiu o fracasso do governo José Luis Rodríguez Zapatero, do partido socialista (PSOE). Fora eleito graças a uma dinâmica que não está distante dessa militância em enxame. Em março de 2004, depois dos atentados contra os trens em Madri, o então premiê José María Aznar, do partido progressista (PP), usou a máquina estatal para fabricar um conto do vigário. Insinuou que a culpa dos ataques fosse do movimento de libertação nacional basca (ETA), escondendo indícios, já a sua disposição, de que se tratava de ação da Alcaida. Graças à comunicação em rede via celular, multidões tomaram as ruas para desmascarar o engodo. Como consequência, Aznar foi vencido cabalmente no voto, numa virada histórica, contra as previsões das pesquisas.

O governo Zapatero, portanto, também foi cria de um novo tipo de ativismo, propiciado pela velocidade e articulação das redes. Mas o premiê socialista não soube reconhecer essa nova composição das bases, o modo 2.0 de fazer política. O seu governo reduziu-se a mais um repeteco da velha política da representação, incapaz de dar um passo significativo para mudar o essencial. Sua rotunda derrota ontem confirmou a incompreensão diante de um cenário mutante.

O fiasco definitivo de Zapatero é o mesmo que pode acontecer, muito em breve, com outros governos ditos “progressistas”. Estou falando dos governos Obama e Dilma. Dois candidatos da esquerda carregados ao poder em meio a campanhas eleitorais inovadoras, no modo 2.0. Tristemente, os dois se descolam dessas bases para praticar o mais do mesmo. Um ao assumir o discurso surrado dos senhores da guerra, contra o que tanto combateu na campanha. Não admiram assim as recentes ocupações de Wisconsin, por fora da lógica da representação, tentando realizar elas mesmas o que Obama não tem conseguido no poder. A outra, Dilma tem falhado em reconhecer as forças vivas da cultura como mundo, que integrava o projeto de democracia do governo Lula. Diante da guinada reacionária do ministério encabeçado por Ana de Hollanda e protegido pela presidenta, o governo se distancia dessas dinâmicas produtivas, das novas mídias. Talvez, estas venham a fazer muita falta nos momentos de conflito com a classe dominante e sua imprensa golpista.

Hoje, na política do mundo, existe um presente que já está morto e um futuro que já nasceu e se constitui sem parar. Tenho a impressão que basta um toque de despertador para, de supetão, sermos arremessados nesse futuro já existente. Eis o devir revolucionário. Nas revoluções árabes, tudo aconteceu quando um camelô teve a barraquinha apreendida por uma operação choque de ordem, e quando um internauta foi preso e chorou diante do mundo. Na Espanha e a partir dela, está acontecendo. Nada impede aconteça aqui no Sul, onde o abismo entre o presente morto e o futuro vivo aumenta todos os dias.

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PS. Compartilho com o leitor a bela reflexão de Moysés Pinto Neto, do Ingovernável, que tem tudo a ver com o momento:

“(…) Com o tempo, viramos cínicos. Passamos a rir da esperança. Abrimos mão de ideais abrangentes para ficarmos com nosso pequeno quinhão do todo, afinal, é inevitável. Vestimos gravatas. Aprendemos a falar de direitos humanos e um vocabulário neutro que nos garante uma isenção de “polêmicas ideológicas” tão forte que se tornou, no mesmo passo, anódino. Aprendemos a escrever textos sem cheiro. Não desagradamos ninguém; estamos no centro. Murchamos. Nos tornamos bons para todos. Aprendemos a falar sem ofender os fascistas. Falamos para fascistas, tentando convencer fascistas. E perdemos, com isso, tudo. Nos tornamos coniventes com os crápulas. (…)” – Ensaio completo aqui (texto imperdível e apaixonante).

 

 

 

jul 2011 03

Continuo a série de resenhas deste blogue, a respeito do debate da esquerda, iniciado pelo coletivo Passa Palavra, com o texto A esquerda fora do eixo. Na primeira resenha do Quadrado, Sair dos eixos à esquerda (1), dialoguei com aquele artigo inaugural. Neste, passo à apreciação crítica da réplica de Ivana Bentes, no portal Trezentos, A esquerda nos eixos e o novo ativismo.

Quero agradecer: ao Pablo Ortellado, que incluiu o artigo anterior na cronologia ao final do texto no blogue dele, Capitalismo e cultura livre; ao Pìmentalab, que também organizou um catálogo abrangente sobre as ramificações da discussão pela blogosfera; e ao Matutações, que me replicou mais diretamente aqui e a quem pretendo retorquir em breve.

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II. A esquerda nos eixos e o novo ativismo“, Trezentos / Ivana Bentes, 22/06/2011

Numa primeira leitura, podem parecer deslumbramento as exclamativas e palavras em maiúsculas. Essa poética nada acadêmica tem razão de ser. Conhecida pela polêmica que travou contra a cosmética da fome no começo dos anos 2000, sobre filmes-de-favela como Cidade de Deus, a autora tem por referência o cinema de Gláuber Rocha. Daí o transe, à moda tropicalista. Daí a poética delirante, numa verborragia de conceitos, explosões retóricas, divagações e frases de efeito, esse deixar-se errar — tudo isso consiste numa estratégia discursiva.

Em A revolução é uma eztetyka, Gláuber defende que a poética revolucionária envolve a coordenação de uma didática e uma épica. Se a didática visa a informar e conscientizar as massas, a épica as estimula, ao apelar às forças mais instintivas do mito, da criatividade, do desejo. Didática sem épica produz “informação estéril, e degenera em consciência passiva nas massas e em boa consciência nos intelectuais.” Épica sem didática gera “o romantismo moralista e degenera em demagogia histérica”. Talvez aí se mova a autora, nessa brecha entre um discurso enfadonho e ressentido de “esquerda velha”, e a histeria romântica e demagógica de “esquerda nova”.

Descabe ao texto, de qualquer modo, a acusação de pós-modernismo débil. Isto é, esvaziado de lutas concretas e tendente ao lero-lero autofágico. Nos últimos tempos, essa acusação tem aparecido como causa célebre na pena de intelectuais preguiçosos, enjaulados em seus sistemas-mundo, incapazes de metabolizar novas teorias, prontos a vomitar razões pretaportês contra elas. Não é o caso, doutores, não há no texto do Trezentos nenhuma deriva indiferente de signos ou clima de ambiguidade generalizada, nenhum niilismo dogmático, ecletismo dândi ou relativismo modernoso. Primeiro, porque assume uma narrativa. Por sinal, etapista. Do fordismo ao pós-fordismo, percebe as transições, os vaivéns, as tendências, os nexos em termos de causa e conseqüência, as superações críticas, as reconfigurações do modo de produção. Segundo, porque admite a necessidade de constituir um sujeito político, de identificar e potencializar as articulações e os enrodilhamentos das lutas contemporâneas. Ora, que pós-modernismo mais estranho, com sujeito e com história e com revolução social…

Alguns anti-pós-modernistas deveriam mesmo era conhecer e estudar mais, deveriam beber o sangue do dragão e falar a língua dos passarinhos.

No tom glauberiano, o texto de Ivana Bentes responde ao coletivo Passa Palavra no nível da linguagem. Exprime poeticamente que a história das lutas não passa pela linha justa, por alguma dogmática unicamente didática. Mas por uma narrativa esburacada, multidimensional, cheia de fios soltos e coisas inacabadas, — uma narrativa que se debate com a linguagem mesma, atrás de uma alternativa ética, estética e política, simultaneamente. Isso é burilar um discurso que multiplique as lutas sem separá-las, sem perder a sinergia do movimento como um todo, a sua potencialização em comum. A teoria pode ajudar a derrubar os muros que separam as práticas, e a prática derrubar os que separam as teorias. Eis uma preocupação irrenunciável das esquerdas: renovar os modos de lutar e trabalhar e, assim, reinventar ainda outra vez a roda da resistência, para continuar girando.

O artigo no Trezentos sublinha: a resistência ao capital se dá  através da constituição de novas formas de produzir. O o que também implica, no campo do trabalho, uma nova articulação entre didática e épica, em suma, uma nova poética das lutas. Os movimentos sociais mais radicais serão, portanto, aqueles que souberem inventar e reinventar, criativamente, essas formas de trabalho vivo, de autovalorização e organização transversal, em rede. Se o capitalismo incide sobre o trabalho, para dele se locupletar, então trabalhar e produzir em certo sentido, de libertação, já significa imediatamente estar lutando, estar na luta de classe. Lênin nunca cansou de ensinar que uma política insurrecional depende da organização da produção.

Nisso, nesse mapeamento dos dilemas e desafios contemporâneos para as esquerdas, não há o que ressalvar na réplica de Ivana Bentes. Senão a insuficiência do artigo em avançar na crítica, de modo mais esclarecedor e concreto, sobre a práxis do Fora do Eixo. Pois esse coletivo arte-ativista tinha sido o exemplo tomado pelo Passa Palavra para desqualificar, de maneira mais geral, os movimentos político-culturais 2.0. Refiro-me aos movimentos e grupos aglutinados nas legendas cultura livre, cultura viva, pontos de cultura e cultura digital, que se empoderaram, inclusive com recursos públicos, ao longo do governo Lula, no ministério da cultura de Gilberto Gil (2003-08) e Juca Ferreira (2009-10). O exame tem de ser caso a caso, mas esse coletivo está no cerne da questão, pelo vulto, simbolismo e referencial prático. Essa análise concreta deve servir não para incensar uns e desqualificar outros, como etiqueta, o que nada acrescenta a nada. E sim para encontrar o ponto em que a luta se concretiza e range, em que a exploração e a resistência se chocam. Para, a partir daí, desse antagonismo crítico e premente, adotar estratégias que fortaleçam o sentido da libertação.

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Vale ressaltar o novo, tão presente na argumentação dela, porque o novo aqui é, sim!, fundamental. Não pode haver processo revolucionário sem a descontinuidade. Toda ruptura implica a irrupção de algo que não existia. Que, aliás, sequer poderia existir, porque não lhe permitiam as condições de existência. Que, precisamente por não ter lugar na ordem vigente, é estimulado ao desejo inestancável de resistir e revolucioná-la. “A tradição não explica a ruptura”. Não é preciso pesquisar muitos momentos históricos para perceber como a esquerda não costuma renunciar ao novo. Paradoxalmente, e com todas as suas aporias, o novo constitui mesmo uma tradição das lutas. E se, ao capitalismo, tanto interessa se apropriar dele, silenciá-lo e lucrar em cima de sua passividade; talvez seja porque, de fato, no novo que se afirma e produz haja potência de vida e geração de valor. É aí que, quem sabe, devamos enxergar o sujeito político. Não deveria a esquerda, que resiste e canta, igualmente batalhar por esse novo? O novo desliza dos velhos problemas sem refutá-los, mas coloca novos problemas, novos horizontes de luta, novas e esquisitas alianças. É preciso reconhecer o prestígio do novo e, ao mesmo tempo, evitar terrorismos teóricos ou superstições deslumbradas. Por isso, menos que fundar uma religião do futuro e substituir o velho, o novo pode servir para reorganizar o velho de modo mais potente, para revitalizá-lo e seguir pensando e seguir lutando. Militantes querem, sim, algo novo e diferente. Como diria Clarice, algo ainda sem nome.

ago 2011 11

 

Quem achava que a história tinha acabado, que não se viveriam mais tempos de amor e revolução, enganou-se redondamente. Estaríamos na era pós-tudo, reino da ambiguidade generalizada e da dissolução dos sujeitos, capturados num tempo morto. Mas não. Vivemos tempos incríveis. Revoluções, revoltas, tumultos pipocam no norte da África, na Espanha, na Itália, na Grécia, na Islândia, no Reino Unido, no Oriente Médio, no Chile. 2011 abriu o novo século com um torvelinho de eventos que, mais do que demonstrar que o possível não era impossível, prova que o impossível acontece. E isso muda a percepção das coisas, inaugura um novo modo de viver e de sentir, e contagia as multidões globalmente.

Ao mesmo passo, muitos falam em crise do capitalismo. Estaríamos num repeteco do crack da Bolsa de Nova Iorque, em 1929. A bolha especulativa estourou, o crédito voltou ao pó, o sistema financeiro colapsou. Essa crise teria irrompido com os subprimes dos EUA, no segundo semestre de 2008. E daí por diante, contaminou o resto do mundo, produzindo recessão, desemprego, falta de perspectiva, instabilidade econômica e política. As palavras de ordem passaram a ser austeridade e intervenção. Os governos adotaram medidas genuinamente socialistas, ou seja, socializaram o prejuízo. Dívidas foram resgatadas. Cortes foram aplicados nas políticas sociais: saúde, educação, cultura.

Primeiro como tragédia, agora como farsa. Os personagens desta trama são mesmo farsescos. Perderam o pudor. Berlusconi parece saído do filme Saló, de Pasolini, com seus aristocratas e orgias com menores. Putin, de um romance ocidental ruim sobre a URSS na Guerra Fria. Bush, um Jonh Wayne piorado. Angela Merkel, ela poderia estrelar num documentário de Leni Riefenstahl. Não só os políticos de direita, mas também banqueiros e grandes empresários ostentam um deboche digno de ópera bufa. O prudente e discreto charme da burguesia cede o lugar para a farsa mais grotesca.

Acreditam as elites que as pessoas não questionam mais o modo de produção, que o século 20 lhes provou do triunfo do sistema atual. Que, uma vez na crise, aceitarão o seu mando, a sua expertise, aceitarão fazer o que tem de ser feito. Especialistas falam na TV e nos jornais e receituam o mais do mesmo, em falas impostadas sustentadas por diplomas de Primeiro Mundo. É melhor assim, do que arriscar soluções que, como o passado demonstra, falharam. Não adianta inventar história, resigne-se a poupar, ficar na sua e esperar os especialistas e ministérios da fazenda. Retornou a fábula da formiga e da cigarra. Porém, enquanto o lucro é privatizado, a perda é socializada. Batizam este segundo momento de “crise”.

E se, na realidade, não houver isso de estar numa crise do capitalismo? Como se a crise fosse um atributo externo, um acidente, uma qualidade, como se houvesse ciclos e choques anticíclicos, segundo uma racionalidade autônoma. Esse só pode ser um discurso conservador. Não admira o Partido Republicano, a direita dos EUA, ter imediatamente condenado Wall Street e a ganância desenfreada, a busca do lucro pelo lucro. Setores de esquerda reproduzem o mesmo discurso, ao propugnar pelo mesmo sistema, só que mais humano ou sustentável, por corrigir disparidades, punir a corrupção e prender os especuladores. Crêem na ideologia dos ciclos e choques anticíclicos, como se houvesse uma racionalidade econômica independente da ação política. Outros propõem substituir o lucro “irreal” das finanças, pela produção “real” industrial. Condenam o lucro, os bancos, o mercado, as tecnologias, em si mesmos. E assim atingem moinhos em vez dos gigantes. Não entenderam nada. Não pode haver modo de produção capitalista sem crédito, sem sobrevalorização, sem lucro e sem estado. Marx dixit.

Porque, no fundo, não estamos em nenhuma crise do capitalismo. Não é acessória ou contingente, não vem de fora de tempos em tempos. Pensado como totalidade, o próprio sistema capitalista é a crise. Não há o que solucionar, nem para onde sair sem mudanças estruturais. É assim mesmo que funciona. Desde, pelo menos, a década de 1970, incorporou a crise como princípio interno de funcionamento. E não adianta desenvolver as contradições internas do esquema. É precisamente nessa tensão que sucede a exploração hoje. Por isso, não tem resolução a dialética entre público e privado, estado e mercado, igualdade e liberdade, — quando o sistema amoldou-se para funcionar nessa bipolaridade mesma. Os capitalistas aprenderam a lucrar com a crise. Os governos, a fabricar consenso nela. A crise não só revitaliza a produtividade e renova a expropriação de valores, como também prepara o terreno para o tirano. Daí neoliberalismo não ter nada de “estado mínimo”. Em vez de investir na seguridade social, aplica os recursos em mais polícia da pobreza e mais controle de tumultos. Sem falar no dispêndio estatal ao pagar as dívidas intrinsecamente causadas pelo capital, impagáveis em essência — eis aí a hora do socialismo de estado.

Por tudo isso, o caso não é amenizar, vencer ou superar a crise. Mas radicalizá-la até as últimas consequências. Isto não significa aderir à “esquerda” apocalíptica, pra quem quanto pior, melhor. Boa parte da oposição a governos e mesmo o anticapitalismo têm se mostrado inteiramente desqualificados para enfrentar o sofisticado modo de produção do século 21. É igualmente farseca a briga por bandeiras e slogans, de uma fração inútil da esquerda. Radicalizar a crise, em 2011, consiste em ir para as ruas e praças e redes, ocupar intensivamente o espaço e desfuncionalizá-lo, enredar discursos e práticas por um outro mundo, outro sistema global de produção, outro modo horizontal de viver a liberdade.

Faz-se necessário deslizar de uma dialética pobre e engessada, e reinventar as lutas. Isso já está acontecendo. A raiva generacional e o devir revolucionário de Tahrir, Túnis, 15-M, da Praça Sintagma e das calles de Santiago do Chile, — tudo isso aponta o que fazer para ir além da crise.

out 2011 15

No Rio, será na Cinelândia, a partir das 13 h

Amanhã, vou comparecer à Cinelândia. Acontecerá a versão carioca do 15 de outubro (15-O). Movimento global na esteira da primavera árabe, do 15-M europeu, do Occupy Wall Street, exige uma democracia real já. Isto é, além da lógica da representação, — seja da parte dos partidos, eleições e órgãos do estado, seja da parte da opinião pública, do jornalismo e dos meios de comunicação. Se há uma característica imediatamente reconhecível está em não aceitar ser representado. Assim, numa expressão que não se separa do movimento mesmo e não admite instâncias acima e exteriores, evita ser reconduzido aos marcos e coações da política normal, da ‘vida real’ do imaginário político.

Inspirado pela Praça Tahrir, a Acampada do Sol e Nova Iorque rebelde, entre outras condensações dos desejos da geração, se propõe a ocupar intensivamente o espaço. Desfuncionalizá-lo, arrancar-lhe as funções espaciais tidas por naturais: como se as ruas e praças servissem apenas para as pessoas transitarem da casa ao trabalho, da casa ao shopping. A partir das zonas autônomas, procriar discurso e mídia, compartilhar e socializar saberes e afetos, construir métodos horizontais de debate e decisão, desafiar a ordem constituída, seus discursos e seus jornalistas. Polinizar um território social, um espaço diferenciado e diferencial que, mais do que público, torna-se comum, — no sentido de comunista mesmo. Comum enquanto cooperação participativa, como cultura e política como processo social que não se separa dos sujeitos em atividade, de um imaginário da revolução permanente, que começa por si mesmo, pelas formas de organização, circulação, comunicação e trabalho social e socializado.

Tenho curiosidade em saber quantos somos. Falo no plural, nós, atravessados pela proliferação global de afetos ativos e crenças no novo. Que vibramos com as multidões em Madrid e Barcelona, que nos comprazemos de ver as pessoas afirmativas e otimistas nas ruas de Atenas, Roma ou Londres, cujos olhos brilharam com as imagens da Praça Tahrir. Queremos poder partilhar a paixão incandescente de jovens e nem tão jovens, como mostram as referências de Darcus Dowe ou Eduardo Galeano ou Antonio Negri, tão vivos e joviais em meio ao turbilhão de inesperados acontecimentos. Quantos somos aqui, no Rio de Janeiro? Talvez muitos retuitem e poluam visualmente o facebook, mas nem tantos, efetivamente, saiam de casa num sábado para fazer o real da democracia já. E quem somos? E haverá pobres? Negros? Haverá algum, unzinho que seja, pobre e negro? Espero, verdadeiramente, não encontrar traços de um Cansei 2.0, — mistura de velhas elites racistas, ressentidas com as conquistas do governo Lula, e os verdes-indies, apolíticos, descafeinados e contra tudo-o-que-está-aí. Essa paçoca pseudomilitante. Pois não irei tolerá-los, muito menos a título de pluralismo.

Afinal, a ecologia não é um problema de desenvolvimento sustentável ou de preservação da vida e sua diversidade; a propriedade intelectual não é uma questão jurídica complexa; e a biogenética não se esgota numa ética da humanidade. Por outro lado, formular uma luta antissistêmica não pode se resumir a espalhar slogans alternando as palavras “anticapitalista” ou “(preencha como quiser) não é mercadoria”. A crítica e a contestação à economia política global não se formulam, não circulam e não vingam contra o Sistema (em maiúscula). Mas, em análises teóricas e movimentos sociais específicos, localizados geográfica e historicamente, — embora sem perder a dimensão global e sistêmica que os acompanha.

A força do 15-M na Espanha veio de uma articulação de longa data, que foi adquirindo massa crítica a partir de várias mobilizações. Nada de espontaneísmos das massas. Do nada nada se cria. Havia o movimento da juventude precarizada, dos devedores de hipotecas impossíveis, dos midialivristas e hackers e produtores de cultura contra a Lei Sinde, — e também a esquerda extrapartidária, o anonymous, o nolesvote, os imigrantes depauperados.

A primavera árabe tampouco foi voluntarista, não brotou no deserto por acaso. O movimento rompeu um dique e liberou energias acumuladas há anos. Lá, houve um fortíssimo movimento sindical, um enxame de militantes virtuais, grupos islamistas e articulações com as elites ilustradas liberais (nas forças armadas, por exemplo), inclusive lutas pelos direitos civis das mulheres.

Em Wall Street, o movimento derivou de um acúmulo das ocupações do começo do ano em Madison (Wisconsin), de uma oposição crescente a políticas do governo Obama por dentro da própria esquerda organizada, da resistência militante ao populismo de direita do Tea Party, — mas também de uma generalizada e ambígua reação ao capitalismo financeiro, que enfileira inclusive setores do Partido Republicano. Esse acúmulo, mais que quantitativo, é qualitativo e é um processo complexo. Por isso talvez melhor seja chamá-lo outra coisa, quem sabe fazer multidão, como prefere Negri. Ao se auto-organizar e se miscigenar, o movimento intensifica, qualifica a sua produção, diferencia-se internamente, aprofunda novas dimensões e texturas e colorações. Abre-se para mais gente, e abre essa gente e a mais socialidade e compartilhamento, num ciclo virtuoso. Assim, pode deslizar das armadilhas, dicotomias e engessamentos da política normal, das tentativas de enquadrá-lo e anulá-lo — tarefas que imediatamente a lógica desmobilizadora de partidos e jornais passa a operar. No processo, em vez de esfumar e dissolver o sujeito e o antagonismo, este se torna real, — vai além da negação abstrata e possibilita as condições para uma mudança concreta. Tudo isso, por óbvio, não exclui a força do evento em si mesmo: o momento em que a represa não consegue mais conter a força vital da multidão e extravasa — amiúde espetacularmente, como no Cairo ou na Praça Catalunha. Aí, atua como poder constituinte e deflagra novas verdades políticas.

Por isso, ao menos no Rio de Janeiro, o 15-O só tem alguma chance se se construir a partir da rede de movimentos que já acontecem, ao redor do direito à cidade. Acontecem há anos, décadas. Falo das lutas, organizadas transversalmente, por outro modelo de metrópole. Outra maneira de pensar e viver e fabricar a cidade. Todas as técnicas e saberes do poder têm sido investidos para submeter e ordenar a cidade do Rio de Janeiro, segundo a divisão social entre ricos e pobres, brancos e negros. O consenso dos três governos — municipal, estadual e federal — passa a régua olimpicamente, em nome dos mega-eventos, em estado de exceção permanente. E apesar de, por má consciência, o PT-RJ propagandear que humaniza o processo e minimiza os abusos, que atua por um mistificado interesse coletivo, ele dirige o trator na frente da opressão aos pobres da cidade. É a esquerda no crime do poder. Laboratório de políticas públicas para o Brasil, o consenso carioca coordena UPP, populismo miliciano (a nossa máfia napolitana) e cobertura midiática. É o esquemão representativo de um amontoado de interesses corporativos, imobiliários, jornalísticos, político-eleitorais e empresarial-esportivos.

Isto se projeta com as inúmeras remoções, sempre arbitrárias, de favelas e comunidades, removendo os pobres como se fossem lixo, para áreas menos valorizadas. Com a repressão policial e criminal, sempre arbitrária, às ocupações de territórios urbanos, aos sem tetos em geral, aos camelôs, aos moradores de rua e às crianças abandonadas pela sociedade. Com os processos de gentrificação e higienização: alarga vias, ortogonaliza os bairros, formaliza as relações sociais pelo território. Tudo para constituir uma cidade-global, integrada aos fluxos do capitalismo global, uma cidade de vitrines e paisagens, purgatório plastificado para aparecer na novela e nos folders das agências turísticas. A vida metropolitana como um todo foi investida nos dispositivos de controle social, geograficamente referenciados.

Contudo, se o Rio é um paradigma político para o biopoder, — um modelo exemplar de desenvolvimento de cidade, — que se pretende nacionalizar no Brasil, isso também vale sob a espécie da resistência. Onde o poder esquadrinha e se exerce, habemus resistência. Daí a virtualidade de a cidade do Rio, insubmissa por excelência histórica, também poder coordenar a rede de movimentos e organizações de um modo singular, sistemático, potente. E é o que já está acontecendo, nessa convergência das militâncias da moradia, do trabalho informal, do passe livre, antidesenvolvimentistas, pela cultura e compartilhamento livres e em rede, de cartografia insurgente, contra a política de segurança pública, pelas ações afirmativas — tudo isso num endereçamento mais focado e qualificado sobre a metrópole, o direito à cidade, a sociedade urbana. Sem falar nas produções imediatamente políticas dos coletivos, oficinas e redes culturais, da primavera periférica do hip-hop, da poesia das vielas, do novo rap, do cinema pós-industrial, do funk de resistência e dos pontos de cultura. Eis o fazer multidão molecular, micro-político.

Quem não quiser provar a intensidade misteriosa deste 2011, tão mágico em revoltas e poder constituinte, não está vivendo a sua geração. Escancarou os dentes na poltrona, isso sim, rendido à Grande Máquina.

Se existe um futuro presente para o 15-O, pode ser tomar por ponto de partida essa matriz de forças sociais, essas demandas tão locais e tão prementes, — e conseguir impingir-lhes criativamente a dimensão global da revolução em curso. Isso demanda uma nova poética das lutas, um devir generacional. Um trabalho social de articulação e incremento de potência, intensivo e diferencial. Isto significa assumir-se global na difusão de afetos e potências, mas local no choque de forças e resistências ao poder. Aí está a materialidade de lutas radicalmente democráticas. Só assim, penso eu, se pode elucubrar uma mobilização carioca à altura do que tem sido a primavera árabe, o 15-M e Occupy Wall Street.

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