out 2011 25

Foto: Rodrigo Torres, do grupo Direito do Comum

 

Depois de três dias intensos de ocupação na Cinelândia, mais uns tantos de articulação prévia, e labirínticos debates online, vale pensar a partir da Acampada do 15-0 no Rio de Janeiro.

Antes de tudo: pra mim, está sendo a coisa mais sensacional do mundo. É um evento constituinte que deflagra novas verdades políticas, novas formas de viver a liberdade e agenciá-las. O salto qualitativo em relação às redes no facebook é estar ao mesmo tempo na praça e na internet.

Hoje à noite, coloquei-me à parte do circuito oficial de assembléias e grupos de trabalho (os GT). É incrível como o tempo das assembléias consome totalmente. Mas hoje, juntei-me a um grupo heterogêneo, que se encontrou para compartilhar experiências e inquietações. Foi uma espécie de pós-GT. Nele, pude presenciar em ação na praça figuras singulares, como o dérmico Patrick Sampaio, e Maurício Rocha, com seu charme deleuziano, entre outros.

Percebo que tenho em comum com outras pessoas certa insatisfação, que está no ar. Certo sentimento de insuficiência ante a forma predominante de organização e produção da acampada. Não falo do endereçamento de questões práticas, mas da questão política, que é tão essencial quanto.

Em primeira formulação, diria que é um desconforto crescente diante da obsessão em construir o consenso. Perante a importância conferida a coletivizar todo o processo. Essa afirmação quase dogmática que é necessário discutir tudo em assembléia, para que todos participem, que assim todos poderão tomar parte na decisão coletiva. Que somente a assembléia delibera em nome do todo. A discordância aqui não está no pode deliberar, mas nessa fixação no todo. É o fetiche do todo, como se o coletivo fosse a oposição ao indivíduo, seu ego, seus interesses privados e potencialmente antissociais. Como se o coletivo não fosse a própria condição de existência do indivíduo.

Essa insatisfação não significa uma dissidência, iniciar uma disputa intestina pelo poder. Não se trata (certamente não agora, tão cedo) de bombardear o quartel-general. Nem de tensionar ou nada disso que os mais apressados correm em tachar. Mas de compor outros modos de cooperar, criar e assim fortalecer o movimento. Esses modos já existem desde o início, minoritários, pouco pensados e debatidos. Está em habitar as margens, em devorar amorosamente a organicidade em construção.

A assembléia jamais se livrará do “quem somos, de onde viemos e pra onde vamos?” Parece presa a essa necessidade de recomeçar a todo momento o modo de se identificar como algo razoavelmente bem definido. Na necessidade de constituir-se. Uma pulsão de identidade. Uma necessidade de pertencimento, de fazer parte de algo maior (o todo), — e destarte se definir refletivamente, como parte do todo. A solução para os dilemas, até agora, se resolve na assembléia dita soberana, alfa e ômega da acampada no Rio. Algumas pessoas sentem que é isso que qualifica o movimento em Wall Street e do 15-M, o assembleísmo. Ontem, por exemplo, saí moído de um dia inteiro em debates e discussões atrás de consensos e pautas mínimas, para depois ser novamente moído em assembléia, para ampliar e passar tais consensos. Isso não tem como ser o esqueleto de uma democracia real, baseada no comum produtivo, mas meramente formal-deliberativa, fundada num método regrado e minucioso de discussão e decisão. Dissocia forma e conteúdo e, nessa manobra mesma, a questão política não pode emergir.

O fato é que não há consenso nem nunca haverá e nada de produtivo pode sair dessa busca. Não existe uma pauta consensual. Existem pontos em comum, mas não um consenso. Tentar formular esse comum por meio das assembléias apenas o exaure em palavras de ordem e slogans, como “anticapitalismo” ou “autogestão”. Essas palavras nada significam sem as lutas reais que as preenchem de sentido e potência de vida. E aí só o dissenso produz. O dissenso no sentido daquilo que nos distancia. Ser generoso com essa distância, amar o distante, cria o que não éramos e que não seremos.

Essa tentativa de responder à fixação de pertencimento — e, de certa forma, à grande imprensa que representa a sociedade na opinião pública, que pauta alguns mesmo que seja como negação — engessa o que o movimento tem de movimento. Fica estático: estatiza-se.  Assim, no futuro, pode começar a enrijecer estruturas de comando, que se mistificam em nome do consenso e do todo.E aí pode acontecer de a acampada fechar-se sobre si, refletir sobre si, como se houvesse um dentro, como se primeiro fosse necessário se definir (o dentro) para então se relacionar com as questões políticas do global e do local (o fora).

E aí acontece de exaltar a segurança do nosso espaço. Nosso cantinho querido. E também a abstrusa proposta, porém bem recebida, de reprimir práticas que a ordem estatal reprime. Justamente porque ela reprime, diga-se o que se quiser sobre estratégia e tática. E pretendem que as pessoas se policiem umas às outras, em nome do coletivo. Mas se pensarmos e agirmos como a polícia, nos tornamos polícia. Ipso facto. E uma onipresente, de vigilância e delação mútuas. Não existe alternativa à ordem que seja mais fascista do que a que propor uma sociedade em que todos somos polícia coletiva uns dos outros, em vez de um mundo em que não precisemos de algo como o policiamento.

Essas limitações ainda são muito incipientes e chega a ser injusto criticar a acampada, de dentro. Mas dá pra identificar tendências e riscos bastante reais. E que, portanto, precisam ser criticadas, precisamente para o movimento movimentar-se ainda mais. Essa crítica não é destrutiva. É propor a algumas pessoas, que estejam já com a inquietação, que deslizem das assembléias e dos GT, para produzir também noutro plano. E evitar ser consumido ao ecoar disciplinadamente falas atrás de consensos. Sim, é uma oficina para os que nunca saíram do condomínio, mas como exercício de democracia é quase nada.

Mas é claro que a acampada é muito mais, que corre em paralelo e mais além disso tudo, que é preciso identificar os agenciamentos e os excessos além das estruturas decisórias e pulsões de identidade, embora muitos dos mais ativos talvez não confiram tanta importância a essa margem. Penso que o caso é aproveitar e aguçar aquele excedente que transborda das dinâmicas, das muitas pessoas se encontrando e vivendo nas brechas e interlúdios da assembléia. Esse excedente, no fundo, é a própria acampada como acontecimento. Logo, é preciso fortalecer essas dinâmicas.

Por isso, o movimento não precisa se constituir. Ele não tem limites, não começou aqui e agora e vai terminar ali e mais tarde. É exatamente o que não se constitui nem tem contornos e, assim, incomoda e agride o poder constituído. Ele não tem um dentro, um o que somos e o que queremos. O movimento já está fora, já nasceu como um fora. Ele é a própria membrana entre dentro e fora. Ele já é constituinte nessa pele de cobra. Ele é rede (de afetos, de informações, de narrativas, de singularidades) em fermentação. Global enquanto repercute os afetos proliferados pelo que está acontecendo no mundo. Local enquanto atravessado pelas lutas reais e movimentos sociais da cidade do Rio de Janeiro, do Brasil, da América Latina. Por isso, ele já acontece, às escâncaras, antissistêmico, repensa por si mesmo as categorias políticas e contesta por si mesmo as políticas públicas, na dupla dimensão global e local. Quando nega isso, porque não há consenso, apenas nega que seja o acontecimento global e local que o dá vida. E assim se mortifica num assembleísmo do consenso.

Até as pedras do calçamento já sentem que se está querendo além da representação e da ordem político-econômica do modo capitalista, — na prosopopéia hiperbólica do Maurício, o militante dândi. Disse bem: o caso agora é como colocar os problemas, numa política sem vergonha de ser política. E isso passa, eu penso, pela própria forma de organizar e produzir , aliás, é isso mesmo o problema mais candente agora. Colocar bem um problema, colocá-lo politicamente, não só vence a dialética irresolúvel entre teoria e prática, bem como as armadilhas da dialética entre estratégia e tática, entre fins e meios. E colocar bem um problema passa pelo dissenso. E desse dissenso, a reconfiguração daquilo que deu a partida às acampadas em primeiro lugar. Portanto, sem dissenso, não se produz nada: será uma terapêutica e eterna discussão sobre o mesmo, o que somos, de onde viemos e pra onde vamos. Perda de tempo vivo, de trabalho vivo.

Repensar continuamente a acampada, também para deconstruí-la, para ir mais além, e sobretudo participar produtivamente, estar lá no excedente, na dimensão simultaneamente global e local da coisa, e focado na colocação de problemas políticos para um outro mundo, uma política nova e um direito novo, — eis aí o grande desafio.

out 2011 29

Como num fórum social, mil coisas acontecem ao mesmo tempo e é assim que a coisa flui. A praça está começando a encher. Ter mil coisas de mil maneiras diferentes é um caminho sem volta!” — Rodrigo Bertame, no OcupaRio.

A acampada do Rio completou uma semana. Pra quem está vivendo seus dias e noites, foi muito mais. A ocupação não só transformou radicalmente o espaço, como o tempo. Tornou-se mais espesso e mais rico, saturado de momentos criativos e inesperados. Se a praça da Cinelândia já comportava diariamente suas crônicas, agora elas multiplicaram por mil. Cada dia é um mundo e mil coisas acontecem ao mesmo tempo.

A história da acampada é a história de seus encontros, de suas convergências e divergências. Os riscos iniciais da pulsão de identidade e consenso não fazem mais sentido. Mais que um coletivo autogestionário, a acampada se construiu como um trânsito. Não é autogestão como autossuficiência, mas como autonomia. Não há um dentro e um fora  e, portanto, certo ritual para quem ainda não está passe a fazer parte, identificando-se com os “mais antigos”. É só chegar! e fazer, que automaticamente já se é parte. Reduziram-se as assembléias, desburocratizou-se o acampamento. Ela não é mais vista como a culminância e o eixo do processo, mas apenas um momento, embora importante. Mesmo porque nenhuma estrutura pode representar os elementos de criatividade, mutação, resistência, de reinvenção cotidiana. Atravessada por todos os lados, a praça ocupada vai se amalgamando com os fluxos da cidade e suas demandas concretas.

A cada dia, o OcupaRio se qualifica, se intensifica, se autovaloriza. Já são mais de 150 barracas. Têm geradores, refeitório, pequenos ateliês, oficinas teóricas, palcos, um microfone aberto. Têm grupos de trabalho (GT) mais ou menos constantes (de alimentação, atividades, segurança, teoria, queer, arte e cultura, antropofagia etc), de não-trabalho, grupos de afinidades, coletivos autoformados e até um GT´aime. Predominam os jovens de 20 a 30 anos, mas todas as idades estão presentes. É uma dinâmica de cauda longa, sem lideranças ou grupo dominante. Se tem punks eles não se limitam à anarquia fácil, se tem autogestionários não querem se isolar, se tem marxistas não levaram seus marxímetros, se tem hackers aprenderam a dançar etc. Constroem no comum das relações, no que rolar na hora, sem preocupação excessiva com consensos. É um movimento do etcétera. Um imenso, heterogêneo e inclassificável etcétera. Por isso, a assembléia não tem que ficar se obcecando muito com os medos e riscos ante mal intencionados ou oportunistas, como se tivesse a missão de “proteger” as pessoas e preservar a pureza do movimento. Elas não precisam, porque essas não são bobas. São como gatos que já nasceram pobres e livres. Alguém já viu um rebanho de gatos?

Esse etcétera simplesmente não é representado na política institucional, na grande imprensa, na cultura comercial. Seu desejo de existir não era enunciado, não se articulava, não podia ser visto nem se ver. Num processo dinâmico, esse etcétera se compõe como classe. Ganha não uma única voz de coro, mas muitas. Em vez da linha política ou editorial, como partidos e grandes jornais se apresentam, uma polifonia. Que não é qualquer coisa. Basta ver como apparatchiks do PSTU e a pauta anticorrupção da revista Veja foram rechaçados espontaneamente.

Há articulações com os movimentos contra as remoções, o choque de ordem, o desenvolvimentismo de Belo Monte, o sistema penal seletivo e racista, a criminalização dos movimentos sociais; pelo reconhecimento do trabalho informal, da cultura livre, de uma educação mais qualificada e aberta, pelo passe livre, por uma democracia real além da representação, do estado e do mercado. Se o OcupaRio é de esquerda, certamente não é essa esquerda que também governa o país, está nos aparelhos partidários ou no fio vermelho da academia. Entreouve-se frequentemente nos debates a palavra ‘capitalismo’. Organizam-se oficinas de leitura, como sobre Multidão (Antonio Negri e Michael Hardt). Está muito politizado. Às vezes, a pessoa chega pra um acampamento de verão e de repente se vê também fazendo política a fundo, às vezes a pessoa vai fazer política e também acaba curtindo um acampamento de verão. E etcétera!

Aliás, tudo ali tem dimensão política. Não há separação entre questões práticas e questões políticas. Quando se decide sobre a segurança, deve-se evitar criar uma nova polícia, e  pensar a relação com os moradores de rua, os camelôs, os guardas municipais, os punguistas matinais que “fazem um ganho” na praça e, quem sabe, tentar achar convergências e trazê-los para mais perto. Mesmo a alimentação não é um problema interno, na medida em que não se planta a comida, ela vem da cidade, depende de relações.

O OcupaRio não tem data para acabar. É manifestação permanente e mutante. A vantagem das redes colaborativas é que, do mesmo modo que podem se realizar numa praça ou marcha, podem voltar a se virtualizar e assim sucessivamente. Real e virtual não se opõem. Se amanhã houver alguma covardia por parte dos poderes constituídos, o movimento vai continuar e vai crescer. Afinal, as pessoas são as mesmas. Ou melhor, não são mais as mesmas.

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Imagem: Jackson Pollock

nov 2011 03

Nascimento de Macunaíma, interpretado por Grande Otelo

 

A acampada da Cinelândia completou 10 dias e continua gerando perplexidade. A grande imprensa, os meios de esquerda, os transeuntes, todos repetem as perguntas: do que se trata? quem participa? o que pretendem? até quando?

Aqui, como nas milhares de ocupações do 15-O pelo mundo, se exasperam ao não obter respostas. E não é porque não existam respostas. É que as questões estão sendo mal formuladas. Se o OcupaRio é um movimento, não é do tipo orgânico, não tem líderes ou bandeiras, nem assume uma pauta fechada e definitiva. Não consiste num movimento no sentido de um grupo reivindicatório, cuja dinâmica culminará num bombardeio de demandas ante o estado e a sociedade. As ocupações pelo mundo coordenam um movimento simplesmente porque colocam em marcha outra forma de fazer política e outra organização das relações sociais de produção. Ajudam a recompor outro sujeito político, à altura de nossa geração.

Daí o slogan anticapitalismo ser pouco e até dê cartaz demais ao capitalismo. As acampadas já são um esboço da alternativa, já são um evento constituinte de outro mundo, além do mercado e do estado.

No fundo, o OcupaRio não precisa se explicar para existir. Precisa, sim, se processar para que se explique na medida que uma nova realidade seja mais discernível. Uma nova política, um novo direito e uma nova mídia se tornem mais visíveis e vivenciáveis, à luz dos novos pensamentos e práticas, que esse tipo de movimento produz por si mesmo. A gramática da esquerda partidária e no governo é incapaz sequer de enxergar a sua potência. Daí continuar demandando, junto com a grande imprensa, por uma resposta inequívoca e sem delongas. Assim, como escreveu Slavoj Zizek, exercem o papel da autoridade masculina, que interroga a mulher histérica para lhe dizer o que, afinal, ela quer. “Você só sabe reclamar!” É o chefe que exige uma resposta objetiva: “Responda em língua que eu entenda, ou cale a boca!” O senso comum opera conservador e moralista. E é fácil se aliar a ele para ridicularizar o diferente, o que inova ante o previsível.

Mas quem são os indignados acampados por um outro mundo?

No centro do Rio, com 10 dias, o movimento vem conseguindo se amalgamar com a experiência das ruas, embora o tema seja polêmico. De qualquer forma, definitivamente, não se resume a (mais) uma manifestação da classe-média branca ilustrada da Zona Sul. Não se compõe simplesmente de estudantes, internautas e acadêmicos. Nem somente de jovens militantes, artistas ou  trabalhadores da cultura. Também isso, mas muito mais.

Com 10 dias, o OcupaRio foi atravessado pelo cotidiano urbano no seu nível mais molecular, no nível do habitar. Agora, a praça ocupada não vive apenas relações superficiais e passageiras. Tornou-se um teatro espontâneo, onde as pessoas são atores e espectadores. Foram montadas tendas fixas para reuniões, música e artesanato, um centro de mídia independente, uma casbá que lembra cada vez mais, guardadas as proporções, a Praça Tahrir. Aos poucos, muitos elementos da metrópole convergem no espaço produtivo e se misturam e se intensificam. As pessoas tomam desordenadamente a palavra e ela se inscreve nos concretos, nos cartazes, nas tendas, no centro das rodas.

Essa desordem vive. Macunaímica. Isso também é a acampada da Cinelândia.

É a moradora de rua que se esparrama no meio das rodas e regurgita a opressão cotidiana, com raiva e irresignação. É o mendicante que quer rasgar os cartazes de 1968. São as brigas de hippies furiosos, esses que viajaram o Brasil inteiro três vezes, com notícias de Altamira, de Jirau, do Jalapão, do Rio Xapuri. São as ameaças, as rixas, os sururus à ponta de faca, momentos essenciais, que põem à prova o desejo de autonomia e produção em comum. São as discussões ríspidas e os desgastes na fila da comida. São os desconhecidos pretos de tão pobres, que se aconchegam em barracas vazias à noite, e conversam, e brincam, e furtam, e arrumam confusão, e simpatizam. É o punk estradeiro que não respeita convenções de assembléia e grita porque veio pra gritar. São os udigrúdis funkeiros do Alto Lapa nas noitadas molhadas. São os secundaristas que matam a aula da tarde e se iniciam na milenar arte, entre lonas clandestinas.

São os guardas municipais, quase todos pretos, mas brancos de cassetete na mão, caras feias e fixação fálica. São os saltimbancos, os palhaços fardados em performance, a milícia dos Anonymous, o comitê dos babalorixás, o alegre argentino que megafone à mão chama “compañeros! compañeros!”, o monge filipino zen-budista, as umbandistas e seus pontos de Iansã. São os pures et dures, esses fanáticos morais do Teatro de Operações, e os anarco-queers, e os roqueiros de preto do Rio Grande do Sul, e os intelectuais de praça e de pirraça, e os deleuzianos psis, e os exércitos de um homem só. São os loucos de toda espécie multiplamente classificáveis por uma psiquiatria repressora, os drogaditos e bêbados que passam e resolvem dar algum recado ou sinceramente espezinhar. É só chegar!

São indignados, inadaptados, enjeitados, rebeldes vermelhos e pretos e coloridos, malucos beleza ou treteiros, hippies e punks e beatniks e hip hops, — loucos o suficiente para ousar saber e ousar mudar o mundo e que, eventualmente, mudam o mundo. São os únicos que mudam. Tão ingênuos quanto, de fato, o mundo realmente muda de tempos em tempos.

E é também a menina de rua, em trapos, suja e semianalfabeta, prostituída, cuja salvação ela encontra na cola, no loló, no crack. Que o capitalismo fracassou salta aos olhos, mas as meninas de rua mostram como esse fracasso se naturalizou, — não escandaliza mais.

O OcupaRio não é bonitinho, não é harmônico, não é um acampamento de verão, não é um desfile de cansados e recalcados. E é bom que não seja. Porque a sociedade não é. Saturado de determinações e qualidades, da potência da cultura das margens, ele vai se construindo como mais um quilombo insubmisso, da insubmissa cidade do Rio de Janeiro. É zona autônoma de confluência das redes e os fluxos sociais antagonistas, da divisão de classe, da segregação racial, onde os preconceitos, apartheids e intolerâncias emergem e oprimem e são problematizados e enfrentados. O Um se faz Dois.

Afinal, o OcupaRio assume a sua estética da fome, a vergonha nacional sem romantizações. Seu caldeirão profundamente diferencial e mutante comunica a verdadeira miséria ao “civilizado” e não como mero dado antropológico para a academia. Convoca à recomposição da esquerda, do sujeito político, do discurso e da práxis.

É preciso resistir e é preciso cantar. Como dizia o baiano Gláuber Rocha em tempos de tropicalismo cangaceiro, eis aqui uma experimentação radical para os novos e os velhos: “um titânico e autodevastador esforço de superar a própria impotência“.

nov 2011 11

O cattivo maestro chegou à tardinha. Sem pompas, de fininho, como que brotou na praça da Cinelândia. Simpaticíssimo, passeou pela ocupação, trocou abraços e afagos, conversou com acampados, assistiu à assembléia, escutou, sorriu, aplaudiu. Não quis protagonizar, não se apresentou como representante de ninguém, não foi ao centro para ler manifestos ou conscientizar as massas. O maior respeito que poderia demonstrar era esse mesmo: circular na imanência dos encontros e desencontros, naquele fim de tarde arejado. Certo momento, um morador de rua também acampado, negro, apareceu do nada e abordou o filósofo autonomista: “— Vereador! precisamos de um monte de coisas“. Algumas pessoas ao redor se preocuparam. Negri, com doçura imensa, colocou a mão no ombro do homem e respondeu: “Scusa signore, non parlo bene il portoghese.” Cumprimentaram-se, e ele foi embora. No final da visita de cerca de duas horas, deu uma palhinha ao GT Comunicações (abaixo). Precisamos de mais intelectuais assim, intelectuais da praça.


Para as legendas em português, clique em “CC”

nov 2011 12

[Foto: Rodrigo Torres, no CineOcupaRio]

Na quinta-feira, 10 de novembro, o governo do Rio de Janeiro organizou uma missa civil. Concedeu ponto facultativo, espalhou faixas por toda a cidade, esbanjou publicidade no rádio e televisão, providenciou ônibus, fechou 26 ruas e a praça da Cinelândia. Apesar de custeada pelo dinheiro público, havia uma área VIP para convidados especiais. Seu objetivo: “protestar” para que os royalties do petróleo se mantivessem sob a gestão deles mesmos, os governos do Rio. Mobilizaram a população a favor de si mesmos. Chamar de protesto um evento oficial autolaudatório com a participação da Xuxa só pode ser piada.

Mas se deparou com uma outra praça. A arte a o amor estavam na praça. A Cinelândia não era mais a mesma. A OcupaRio conseguiu organizar o verdadeiro protesto e tumultuou o showmício. Os papagaios artísticos não puderam se apresentar e as autoridades não conseguiram discursar. A acampada da Cinelândia tomou a palavra, quebrou o bom tom e roubou a cena no tumulto da democracia real. No dia seguinte, a previsível desinformação pelos veículos da grande imprensa.

Nada mal para um movimento “apolítico”, “vago” e “alienado”. Os casmurros da velha esquerda queimaram a língua.

Royalties pra quem? Por que não constituir um Fundo Popular para receber os imensos lucros do petróleo? Um Fundo Popular administrado diretamente pelas pessoas, usando mecanismos da internet como o Demoex? O petróleo, afinal, é de todos. Em vez de alimentar a gulosa máquina representativa (eleições, corrupção, megaeventos, indústria cultural, grande imprensa), construir uma gestão democrática, em rede, uma gestão do comum. Para organizar os investimentos e contemplar quem precisa ser contemplado. Investir diretamente em educação, saúde, transporte e renda para todos. É preciso arrancar esse recurso vultoso da mão de parasitas e predadores, que investem mal e dilapidam a riqueza: governos municipais, governo estadual do RJ o setor de investimentos sociais/culturais da Petrobrás (esfera federal).

Muito mais que protestar contra a corrupção, a violência e a injustiça, as ocupações pelo mundo vão à raiz dos problemas e protestam contra a política representativa que produz sistematicamente a corrupção, a desigualdade e a violência. ?A política representativa que passa pelas eleições, pelos partidos, pelo choque de ordem, pela polícia. Mas também pela grande imprensa e seu jornalismo, que faz de tudo para nos representar através da ficção da opinião pública.

Frente à representação, só resta mesmo lutar por outra forma de organizar a produção e a riqueza, uma outra constituição material das relações sociais, da política e da mídia, como tem feito com alegria e criatividade a rede articulada de ocupações e protestos pelo mundo.

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