out 2010 31

nov 2010 01

Mais do que a continuidade de um governo dos muitos, — que nunca-antes-na-história produziu riqueza no processo mesmo em que a difundiu, — a eleição de Dilma Rousseff exprime a potência de um novo país. Um Brasil que nunca cessa de renascer, na generosidade, na coragem e no amor — virtudes daqueles que não têm medo de se levantar diante das injustiças e lutar pelo que desejam. Um devir-Brasil que insiste em ressurgir da memória dos vencidos, saindo da Sala 101 para ocupar o Palácio da Alvorada.
Sobre os ombros do gigante multitudinário que foi (e ainda é!) o acontecimento-Lula, o novo governo reunirá mais e ainda melhores condições para aprofundar a mudança. Descortina-se uma oportunidade privilegiada para concretizar a democracia no seu sentido pleno, onde todos têm acesso aos direitos, à renda, à diferença, à participação política e cultural.
Esta foi a vitória dos excluídos, das minorias, do povão das periferias e do interior, do litoral e da Amazônia, dos saltimbancos nômades e dos espíritos livres, de todos os que preferem viver a aventura do desejo a sobreviver de esperança e temor. Venceu a militância alegre e desprendida, tão afirmativa nas ruas e praças, sobre a campanha de ódio dos rastaqüeras, fuxiqueiros e madames, tão negativa na grande imprensa. Venceu o “Dilma é Muitos!” sobre o “Deus me livre!”.
Em suma, perdeu a mais insidiosa máquina montada desde os anos de chumbo. Um organismo peçonhento e conservador, cuja dinâmica emotiva lembra o ritual dos Dois Minutos de Ódio. De fato, foram quase trinta dias de ódio, de preconceitos e recalques veiculados pela grande imprensa e pelas rodinhas ressentidas. Teve de tudo: sexismo, racismo, fundamentalismo, regionalismo (sobretudo o franquismo da direita paulista). Com direito à histórica telefraude da bolinha de papel, e à intervenção ultramontana e hipócrita do Papa.
Mas a marcha da liberdade não legitima que falem por nós, que expropriem a voz dos muitos em nome da “opinião pública”, forjada por jornalões, revistas e âncoras televisivos. As lutas se potencializaram com as novas mídias e as redes sociais, que vão além da internet e se disseminam na multidão.
Tentaram vender o Céu, mas quem prevaleceu foi o sentido da terra. Às promessas de salvação do “homem de bem”, escolheu-se a felicidade terrena, construída aqui-e-agora. Entre os especialistas em moral e os políticos da democracia, preferiram-se os últimos. E tornamo-nos eles: como pontos das redes de mídia e de cultura, como enlaces políticos e politizados de uma experiência viva revigorada pelas urnas.
Esta mulher não cabe em nossas categorias, porque, hoje, Dilma é muitas e todas as mulheres. Como elas, já dizia Neruda, sorri quando quer chorar, ri quando está nervosa, e chora quando está feliz. Escreveu Rayssa Gon no Bule Voador: “Dilma é a representante da filhas de Eva (…) é a própria bruxa”. Tal qual Eva: poder constituinte que liberta o homem da transcendência e arremessa-o à imanência do mundo, no reino dos desejos e da liberdade, pelo qual se luta e se constitui a democracia.

jan 2011 30

Tom Zé no lugar de Ana de Hollanda. 
 
Hoje, no Biscoito Fino e a Massa, Idelber Avelar fala da guinada conservadora do ministério da cultura. Vale muito a leitura, porque esquadrinha o debate e aponta a vários outros artigos sobre o caso.  Também recomendo ouvir a entrevista do sociólogo Sérgio Amadeu, militante do software livre.
É lamentável. As primeiras medidas e declarações da nova ministra Ana de Hollanda sinalizam pelo desmantelamento das políticas culturais do governo Lula, que teve como titulares da pasta Gilberto Gil (2003-08) e Juca Ferreira (2009-10).
Entendo que a potência através do governo passado esteve na 1) contestação do paradigma proprietário dos direitos autorais, 2) promoção da cultura como rede colaborativa e transversal de cidadãos-produtores, imediatamente social e cidadã, 3) mais democracia em critérios de editais, distribuição de recursos e acesso a bens culturais e mídias compartilhadas. Nesse sentido, foram gestados os Pontos de Cultura, o incentivo ao software livre, a noção não-identitária (antropofágica) de cultura, e o reconhecimento de sua centralidade como geração de valor e riqueza. 

Em resumo, o ministério da cultura foi a ponta-de-lança do governo na percepção e no encorajamento do comunismo das redes que vem se constituindo no século 21.
Lula nunca hesitou em se manifestar com entusiasmo pelo código aberto, pelo Creative Commons (instalado inclusive no Blog do Planalto) e até pelo Wikileaks e Julian Assange. Essa ousadia sem precedentes do último governo incomodou muita gente. As políticas do Minc irritaram sobretudo os latifundiários da cultura: indústria fonográfica (representada pelo ECAD — Escritório Central de Arrecadação e Distribuição), multinacionais de informática (ex.: Microsoft), mercado editorial, e medalhões apascentados pelo establishment.
Nesse contexto, causa perplexidade uma ministra de um governo de continuidade guinar 180 graus e “acertar as contas” com opções políticas até o mês passado em vigor.  Gera revolta vê-la assumir a concepção diametralmente contrária, que serve direitinho ao ECAD. 
Ou seja, governar não para os muitos, mas para a “classe artística” e os atravessadores implicados no processo. Favorecer não o acesso e a difusão livres e horizontais, de arte e conhecimento, mas a sua expropriação por intermediários e proprietários, no esquema do copyright. Promover não a democracia produtiva em rede colaborativa, onde todos podem criar, recombinar e transmitir conteúdos, mas a tal “indústria criativa” (aliás, contradição em si). Eis a pirâmide social que se extrai do discurso de Ana de Hollanda: medalhões no topo, genuínos representantes da cultura brasileira, a “difundi-la” de cima pra baixo ao cidadão meramente receptor.
Por tudo isso, participo da mobilização pela retomada da pauta da cultura livre. Mais do que isso, estou com os que propõem Tom Zé para substitui-la e efetivar o voto e a confiança no governo Dilma (campanha pró-Tom Zé no Facebook). O compositor e intelectual tropicalista de 64 anos tem trajetória e atitude talhadas para o desafio de  seguir o exemplo de Gilberto Gil nesse campo tão vital.
Mais antropofágico e sensível à luta de cultura livre, Tom Zé reúne mais virtudes do ponto de vista democrático, do que Ana de Hollanda. Com ele,  pode-se acreditar na continuidade e aprofundamento de uma política cultural que tanto orgulho (e irritação da direita proprietária) inspirou nos últimos oito anos.
fev 2011 05

No governo Lula, o ministério da cultura (MinC) ocupou uma posição central. Com os ministros Gilberto Gil (2003-08) e Juca Ferreira (2009-10), contribuiu incisivamente para o aprofundamento da democracia do país. Com políticas públicas inovadoras, não governou apenas para uns, mas para todos os cidadãos, ampliando o escopo da indústria e da “classe artística” para o vasto espectro de trabalhadores culturais do Brasil, em todas as regiões, até os rincões mais afastados. Nos últimos oito anos, a cultura deixou de ser assunto secundário, acessório, “perfurmaria”, para se instalar no cerne de um projeto global de democracia, que produz renda no processo mesmo em que a dissemina.

O coração programático do MinC foram os Pontos de Cultura. Hoje, já são cerca de 4.000 pontos em mais de 1.100 municípios. Cada Ponto recebe R$ 180 mil, em parcelas semestrais, para remunerar as pessoas, comprar equipamento, divulgar a arte e a cultura.
O investimento gira na ordem das centenas de milhões de reais e contempla diversos âmbitos: audiovisual, música, literatura, grafite, circo, teatro, dança etc. Num processo dinâmico, a partir dos Pontos, coordenam-se as demais ações do Programa Nacional de Cultura (Cultura Viva), tais como a Cultura Digital (redes na internet, software livre, multimídia etc) e vários editais públicos de fomento. 
Pela primeira vez, o foco do MinC passou a ser quem genuinamente precisa de incentivo. Os Pontos atendem principalmente à população de baixa renda, nas periferias das metrópoles e no interior pobre. Assiste minorias indígenas e quilombolas, o artista e o produtor iniciantes, os midialivristas e jornalistas-internautas. Alcança também os pesquisadores e formuladores político-culturais, nas universidades e institutos. Num cenário cultural dominado pela grande indústria de entretenimento, os Pontos qualificam socialmente o investimento cultural.
Tome-se o exemplo do cinema. As majors, grandes produtoras e distribuidoras norte-americanas, abocanham quase 90% dos lucros, graças a duas dezenas de blockbusters anuais. Dos outros 10%, a Globo Filmes — que também é grande indústria — engole a maior fatia, com suas produções de linguagem televisiva.
Enquanto isso, segundo o relatório Cultura em Números (MinC, 2010), somente 8% dos municípios brasileiros têm salas de cinema, e risíveis 13% dos cidadãos costumam freqüentá-las. Produções pequenas e novas, fora do cinemão (americano ou “global”), dificilmente ultrapassam um ou dois mil espectadores. Isso quando tem a rara felicidade de chegar ao circuito comercial (em poucas salas). Além disso, as grandes linhas de crédito não se abrem à cauda longa de pequenos produtores, ficando justamente com quem já dispõe de bons dividendos.
Os Pontos de Cultura deslizam dessa lógica verticalizada e desigual. Abrem a arte e cultura para um estamento até então segregado dos meios de produção e difusão. Se a indústria cultural tem dono e divide os lucros entre acionistas, empresários e (quando muito) um punhado de medalhões, os Pontos remuneram direta ou indiretamente 8,4 milhões de pessoas (dados do IPEA).
A vida cultural não se faz somente com grandes produtoras, empresários empreendedores e artistas consolidados. Este grupo não responde sequer por 1% do universo de trabalhadores da cultura. Refiro-me aos inúmeros técnicos, fotógrafos, maquiadores, roteiristas, blogueiros, designers, músicos, dançarinos, assistentes, montadores, sonoplastas, atores e tantos outros que (sobre)vivem de bicos e contratos temporários. Não recebem um tostão em direitos autorais e são obrigados a se submeter a um regime exploratório e injusto de remuneração, como subempregados das majors. Quantos jovens talentos não abandonam a atividade por falta de renda e condição humilhante?
Esse precariado produtivo só começou a ser efetivamente contemplado no governo Lula, graças principalmente aos Pontos e editais transversais (democráticos) da Cultura Viva.
Além da renda, há outros fatores importantes. Os Pontos abraçam uma organização política não-hierárquica e colaborativa. Funcionam em rede, na base da articulação, da remixagem, do mash-up. O jovem produtor não tem que se submeter a empregos ou subempregos. Ele é livre, autônomo, constituinte de sua produtividade.
Mas o sistema não é anárquico. Para coordenar (e não comandar) a rede, foram implantados mais de 100 Pontões. Atuam como rótulas do sistema e são granjeados com infraestrutura mais robusta e repasse mais generoso (R$ 500 mil cada). Os nós equipotenciais reúnem-se em fóruns, teias (encontros) e numa Comissão Nacional. Vibram em conjunto, difundindo a produção horizontalmente e retroalimentando a cadeia criativa. 
Na sociedade pós-industrial, a circulação por si só agrega valor aos conteúdos. Quanto mais “viral” a produção, mais interage, captura a atenção e constitui públicos. Tudo isso valoriza o processo mesmo da comunicação. Com efeito, a cultura livre se dá na partilha de mundos, onde cada um pode afirmar seus sentidos, desejos, modos de olhar e sentir. E não no esquema monológico da indústria nacional. A esquerda hoje é pelo compartilhamento, enquanto a direita quer tirar da circulação, botar preço, vedar, criminalizar.
Os Pontos e as políticas associadas não consistem, portanto, tão somente em modo de remunerar a “massa” de precários da cultura, como técnica de governo. Mas sobretudo empoderar o cidadão e concitar um ciclo microeconômico com valor democrático. Reconhecer que todos podemos gerar e divulgar conteúdo, que podemos participar ativamente da democracia como sujeitos, como elos da vida cultural, como mídia.
Está em jogo uma concepção de cultura muito além do entretenimento ou do negócio, como na visão da indústria — nacional ou estrangeira. No século 21, cultura e conhecimento situam-se no cerne da produção de valor. E implicam a cidadania: o produtor cultural é imediatamente sujeito político.
Por tudo isso, o sociólogo Giuseppe Cocco, da UFRJ, em artigo a jornal paulista, pôde concluir que “o Bolsa Família é a maior política cultural do governo Lula, e os Pontos de Cultura são a melhor distribuição de renda deste governo.”
Quer dizer, assim como o programa Bolsa Família excita microeconomicamente as regiões contempladas, e gera excedentes para o acesso a bens culturais; os Pontos remuneram os trabalhadores e potencializam a produção de valores, sentidos, afetos… de riqueza — o que, no pós-industrial, tem automaticamente efeito econômico. Daí, o intelectual ítalo-brasileiro defende a integração do Bolsa Família aos Pontos de Cultura, pois juntos acionam todo um círculo virtuoso de renda, cidadania e liberdade.
Isto posto, preocupam as primeiras movimentações da ministra Ana de Hollanda e de sua equipe. Decerto, uma tentativa de desmantelar as realizações do governo Lula, com Gil e Juca, seria a mais deslavada traição do voto. A eleição de Dilma significou a vitória do projeto de continuação e aprofundamento do governo anterior. Ao que parece, conquanto não haja sinais de ruptura frontal, o “acerto de contas” com a ousadia lulista pode ocorrer de maneira mais discreta e traiçoeira.
Duas expressões estão em voga na boca do ministério: “economia criativa” e “indústrias criativas“. Já divulgada na grande imprensa, a idéia da economia criativa se institucionaliza com uma nova secretaria. A bem da verdade, parece uma iniciativa oportuna, que reconhece o caráter imaterial da new economy, da dita “economia da cultura e do conhecimento”.
Assim, em vez de preocupar-se apenas com a venda de CD, livros e filmes, a economia criativa engloba outras atividades: a moda, o marketing, a gastronomia, o videogame, a cosmética etc. Explode o esquema “duro” de arte-de-artista, como alfa e ômega da cultura, e abarca a constituição de mundos: afetos, valores, modos de sentir. 
Até aí tudo bem. Preocupa o que pode vir junto no pacote da economia criativa. Qual o sentido que será conferido a esse discurso aparentemente interessante. Para isso, valem analisar declarações da nova equipe e estudos-chave desse programa (como o e-book Economia Criativa como Estratégia de Desenvolvimento).
O primeiro problema pode surgir com o discurso técnico de otimização e eficiência. Essa linha argumentativa pode ser manejada (e já está sendo), para subtilmente atribuir aos Pontos de Cultura a pecha de desorganizado, precário, “ingênuo”. Isso significaria a retração de editais e redes colaborativas, em proveito do mais “organizado” esquemão, o empreendedorismo “sustentável” da indústria cultural e dos players dominantes do mercado. O velho conto do vigário: por razões tecnocráticas, muda-se uma política de esquerda.
O segundo problema surge na forma como as indústrias criativas serão viabilizadas. Porque “sustentabilidade” nem sempre significa democracia. O social (os Pontos?) não pode matar a cultura, porque a cultura é social em primeiro lugar (diverso o pensamento de uma das secretárias do MinC). Por exemplo, a Globo Filmes está perfeitamente sustentável, mas mantém a lógica concentrada, hierárquica, vertical, monotônica (televisiva). O MinC, um órgão público, promotor da justiça social e da democracia cultural, não pode servir para apascentar ainda mais as poucas e grandes empresas do setor. Com muito menos razão, num governo de esquerda, com seu devir anti-histórico. Se, de alguma forma, a economia criativa privilegiar o modelo velho, onde o cidadão é só consumidor e o grosso da renda vai para as majors, se torna golpe camuflado de desenvolvimento.
O terceiro problema reside num nacionalismo mal-disfarçado e totalmente anacrônico (do tipo que a Microsoft ama). Quando se fala em indústrias criativas, há o risco disso traduzir indústria criativa… nacional, numa reedição obsoleta de nacional-desenvolvimentismo (progresso e soberania prioridades, democracia e justiça efeitos). Isto significa, mais uma vez, a idéia de cultura como parque formal de geração de empregos brasileiros e valores brasileiros. Volta-se à passeata contra a guitarra elétrica de 1967.
O caso não é se proteger da cultura americana ou européia. É pegar tudo, não pagar nada, usar à vontade e remixar. Eis a antropofagia. A história da agitação cultural brasileira do século 20, — desde os modernistas nas décadas de 1920 e 1930, e dos tropicalistas em 1960 (tendo Gilberto Gil como expoente), — foi a luta simultânea contra nacionalistas-integralistas e colonizados-modernizantes. Foi sair pela tangente desse falso problema.
Porque o problema não está em ser estrangeiro, mas em ser indústria, no trabalho explorado e na desigualdade social. Paramount ou Globo Filmes são igualmente expropriantes, antidemocráticas e monopolistas. Enquanto um filme independente de Seattle ou um CD gravado pelos índios sioux da América do Norte podem vibrar produtivamente com as redes daqui.
Em suma, os Pontos de Cultura foram tão transformadores, — e tão sintonizados na verve democrática no governo Lula, — por começar uma ruptura com a divisão técnica e social do trabalho cultural, com a concentração de renda em empresas monopolistas, com o viés mercadológico e privatista do investimento público, descolado das demandas sociais e políticas. Se a economia criativa e o novo MinC que a propugna vierem para sabotar as mudanças, será uma guinada menos do que conservadora. Será ardilosamente reacionária.
Portanto, ao movimento compete articular-se para que não aconteça. Lutar desde já pelos direitos constituídos em conjunto, ao longo de oito vibrantes anos, com Lula, Gil e Juca. Cabe-nos, cidadãos mobilizados política e culturalmente, recusar a parte que nos cabe desse latifúndio.

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Post Scripta:

Vale a pena conferir também o excelente estudo de Andréa Saraiva, Economia Viva e Solidária…, com opção de download em pdf.

Também recomendo, como exemplo de como pode ser traiçoeira a indústria criativa, o artigo de Bárbara Szaniecki e Gerardo Silva ao Outras Palavras, sobre política aplicada recentemente ao Rio de Janeiro.

Finalmente, para a conceituação mais rigorosa da nova economia, sugiro o livro Capitalismo Cognitivo: trabalho, redes e inovação (vários autores, DP&A ed., 2003).

fev 2011 10

No domingo, Caetano Veloso usou a sua coluna semanal, num jornal carioca, para pregar a propriedade imaterial. Aproveitou para, como tem feito nos últimos anos, falar mal de Lula (“muito show business”). E elogiou Dilma (“estou adorando”). Aproveitando certo clima reacionário, o músico soltou o verbo: “ninguém toca em nem um centavo dos meus direitos”, “devemos respeitar os direitos autorais sem concessões” e “A internet que se vire.”
O que Caetano pensa disso realmente não importa. Há mais de uma década se trata, junto de Ferreira Gullar e Arnaldo Jabor, de um caso perdido para as lutas. Se um dia era proibido proibir, endireitaram. Encastelaram-se em verdades empoeiradas, em sua vaidade de famoso, cegos e surdos para o movimento vivo de novas gerações. Por isso, não estranhei essa posição à boca cheia de Cae. Tomou a propriedade por absoluta e fez da celebridade artística uma espécie de latifundiário empedernido, ante bárbaros despossuídos que batem à porta atrás do justo quinhão.
Porém, me importo quando o artigo curiosamente reapareceu no site oficial do MinC. Não foi em qualquer ministério. No da cultura. Justo a instituição presidida por Gilberto Gil, entre 2003 e 2008, durante o governo Lula, que tanto disseminou a cultura. Por capricho histórico (ou há aí lógica oculta?), os dois expoentes da tropicália se posicionaram em campos opostos do espectro político.
Com o MinC de Gil, e também de Juca Ferreira (2009-10), a diversidade, a transversalidade entre produtores/transmissores e consumidores/receptores, a valorização dos insumos intangíveis (idéias, informações, símbolos, linguagens), o incentivo ao acesso e à produção dos pobres — tudo isso pôs a cultura no cerne de um projeto global de democracia. O MinC teve uma atuação sem precedentes, e se assentou como pedra angular da produtividade e da popularidade do governo Lula. Afinal, qualidade é democracia.
Curioso como o artigo de Caetano, cujo conteúdo prega uma cultura proprietária e intocável, foi literalmente pirateado pelo MinC. O mesmo da ministra que não cansa de manifestar-se a favor dos direitos autorais. Mais acintoso: o artigo foi malandramente remixado algumas horas depois da publicação. Ao perceber a burrada de republicar ataques a Lula, num site do governo, Hollanda mandou extrair o trecho do “muito show business”. A emenda pior que o soneto: a trapalhada não passou despercebida por muita gente e circula nas redes sociais.

***

A propriedade imaterial não é absoluta. Aliás, nenhuma propriedade é absoluta. Se a constituição da república salvaguarda direitos ao proprietário, ressalta que “a propriedade atenderá a sua função social” (Art. 5º, XXIII). A bem da verdade, todo exercício de direito se vincula ao bem comum, à democracia, ao social. Aprende-se no primeiro período da faculdade: inexiste direito absoluto. Não poderia ser diferente com o direito à propriedade, conquanto o constituinte tenha julgado mais prudente, — à luz de nossa história desigual e violenta, — espaventar qualquer “dúvida”.
Assim, quanto mais relevante, do ponto de vista social, o objeto da propriedade, maior será a relativização do poder do titular. Isto significa, por um lado, que objetos de uso pessoal tendem, embora jamais atinjam, à propriedade absoluta. Por outro lado, conteúdos que interessem aos públicos, — que sirvam para produzir, educar, informar, difundir, — esses implicam a função social e, portanto, sujeitam-se a regimes diversos de usufruto e disposição. O conteúdo da propriedade constitui-se de um amálgama de interesses privados e públicos, cujas proporções variam em função do sentido social que seu âmbito requeira.
Poucas coisas são mais cruciais para o cidadão do que a cultura. Hoje mais do que ontem. No pós-industrial, na medida em que a instância simbólica, intangível, afetiva da produção assoma em valor, a cultura cada vez mais converge com a própria economia. O produtor cultural torna-se o agente transformador por excelência, já que a arte da política consiste em organizar a produção de bens e valores.
Cultura significa não mais uma “classe artística”, a verter a criação das Musas nas bocas do povão consumidor. Mas sim um círculo virtuoso de cidadania e renda, em que todos participam e se constróem, vivendo-a no dia a dia.
Daí que não tem essa de “meu” direito à produção cultural. Meu, meu, meu. Esse “meu” direito cai como fruto podre, diante da disseminação da cultura em todas as classes sociais. Diante do imperativo de propiciar uma sociedade culta, produtiva e politicamente ativa, em que o cidadão não só consome, mas também gera a cultura. Como nunca antes na história deste país. Este o sentido democrático, emancipador e de esquerda, com que o ministério da cultura qualificava a sua atuação durante os oito anos de governo Lula. Um governo que reconhecia a força da cultura viva na vastidão de regiões e minorias do Brasil, potencializando-a com políticas inovadoras. Que reconhecia a qualidade maior da vida social: sua autovalorização.
Estabelece a constituição de 1988: “É competência comum da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios: (…) V – proporcionar os meios de acesso à cultura, à educação e à ciência;”. Já na gestão de Gilberto Gil, foi publicada a emenda constitucional n.º 48, de 2005, exatamente para romper com a lógica do “meu”. Diz o art. 215: “O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais.”
E mais: “§ 3º A lei estabelecerá o Plano Nacional de Cultura, de duração plurianual, visando ao desenvolvimento cultural do País e à integração das ações do poder público que conduzem à: (…) II – produção, promoção e difusão de bens culturais; (…) IV – democratização do acesso aos bens de cultura;”
Basta uma interpretação conforme esses dispositivos para constatar-se como a Lei de Direitos Autorais (LDA) se tornou inconstitucional em diversos pontos. Chega à bravata de segregar do domínio público uma obra por até 70 anos depois da morte do autor. Quer dizer, até marchinhas, como “Mamãe eu quero” ou “Cabeleira do Zezé”, não podem ser tocadas no carnaval sem pagar aos “donos”. De fato, em 2011 como nos outros anos, a polícia autoral, o Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (ECAD) vai cobrá-las dos blocos de rua no Rio de Janeiro.
A constituição mudou porque o mundo mudou. O estado sempre vem depois, a reboque, para adaptar-se à vida concreta. A virtude do MinC de Lula/Gil/Juca foi estar bem próximo dessa franja transformadora. Que não é só moderna ou “modernosa”, mas democrática e popular. Não são outros senão os pobres os principais beneficiados com software livre, banda larga, barateamento da informática; mas também com Creative Commons, bibliotecas digitais, xérox de material didático, produtos piratas, download generalizado de filmes, músicas e conteúdos.
E não tem essa, — como se apressam em tentar dividir para conquistar, — de cultura digital de um lado e a cultura “dura” de outro. É a mesma luta. Como não há divisória entre conhecimento e cultura: sistema interconectado de saberes, que cada vez mais circulam livremente e empoderam os cidadãos. Uma rede de redes.
Tudo isso está sendo prejudicado, porque os rumos no MinC doravante são outros. Não à toa, Cae e outros do “panteão nacional” estejam “adorando”. Menos do que sentir nostalgia, o caso agora está em mobilizar as redes e perseverar com o movimento da cultura viva, apesar do ministério reacionário, — dissonante inclusive com a política de governo como um todo.
Caetano, a ministra da cultura Ana de Hollanda, a aristocracia carioca enraizada no novo MinC, outros medalhões (quase todos com mais de 50 anos), — todos esses famosos de manto farisaico talvez não estejam afinal tão errados em defender o “meu” direito. Ainda vigora um mundo individualista onde cada um olha para o próprio umbigo antes de qualquer coisa. Desse modo, eles se mantêm no topo da velha pirâmide social da cultura, e extraem mais-valia da plebe inculta, que os consome e os ausculta.
Pois então vamos também fazer a nossa parte. Vamos defender o “NOSSO” direito, constitucionalmente assegurado, constituído democraticamente nos anos Lula.
Eles podem ser celebridades e deter autoridade, mas nós somos em maior número.

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Outros textos relacionados do QdL:

04.02.2011 MinC: a parte que nos cabe desse latifúndio

30.01.2011 A conservadora ministra da cultura

09.01.2011 A nova militância cultural: enxamear é preciso

04.01.2011 Precedente do TJ-RJ favorece a cópia livre

E também artigo que escrevi ao Le Monde Diplomatique Brasil, em 2007:

29.12.2007 A revolução do cine Falcatrua

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