jan 2011 23

Resenha: SZANIECKI, Bárbara, Estética da multidão, Rio de Janeiro: 2007, Civilização Brasileira, 1ª ed., coleção A política no império, 162 pág.

O título ousa sugerir a elaboração de uma Estética. Tomada na acepção forte, com maiúscula, a tarefa implicaria fabular no âmbito da filosofia da arte e produzir uma teoria compreensiva sob a espécie da multidão. Significaria revisar conceitos de belo, sublime, catarse, tragédia e quejandos. Contudo, ao chegar ao índice, o leitor percebe que o livro não pretende abraçar a disciplina da Estética. E nem poderia, pois “disciplinar” a multidão seria partir de premissas diametralmente contrárias ao conteúdo do livro. A própria maiúscula em estética já estaria em dissintonia com seu vigor libertário. As 162 páginas se debruçam, precisamente, num modo de expressão que irrompe de invólucros e identidades, que extravasa de tratados de estética, bienais domesticadas ou ementas acadêmicas.
O título só pode ser entendido como boutade. Szaniecki bate na porta do leitor e provoca: doce ou travessura? E a máscara que traz escondida não se usa no dia das bruxas, mas no carnaval. O tom carnavalesco percorre os capítulos e informa os conceitos. Resulta numa ciranda alegre de política, arte, semiótica, filosofia, amores e lutas — disso tudo e ao mesmo tempo trata Estética da multidão.
Escrito por uma designer, conhecida por capas de livros e cartazes que remetem à vanguarda russa dos anos 1920. Movimento transdisciplinar de uma juventude cheia de ímpeto, o construtivismo vitaminava a arte com afetos, signos, desejos, paixões, buscando alargar a experiência. Recorde-se a potência de um designer como Alexander Rodchenko, cujos pôsteres com cores brilhantes, figuras geométricas e contornos vibrantes jazzistas reaparecem na produção gráfica de Bárbara. Como se sabe, em meados dos anos 1930, o estalinismo poria fim ao carnaval construtivista. Doravante, se instaura na URSS o realismo soviético, a glorificar a austeridade do operário padrão. Impõe-se de cima pra baixo a contrarrevolução: o que era poder constituinte é usurpado pela representação oficial.
Cartazes criados pela autora
Em Estética da multidão, Szaniecki também opõe representação do poder à expressão livre dos movimentos. De um lado, a representação do poder, pautada por imobilidade, espírito de gravidade e autoglorificação. Do outro, a subversão da representação pelas forças sociais, móveis, porosas e amiúde dispostas a rir da autoridade. Do lado do poder, a cadência infernal e a seriedade das paradas estatais. Do lado da multidão, a alegria intoxicante de ruas e praças em dia de festa, dos bares, galpões de dança e ateliês populares. O manto portentoso do soberano versus a fantasia de rei momo.
A força da paródia carnavalesca está em não ser exterior às representações do poder. Crítica imanente, gargalha-se por entre as palavras sérias e as imagens sagradas. Assim, o riso desencadeia um recomeço e os sentidos desbordam do controle. “A sociedade vaza de todos os lados” (Deleuze). Portanto, não pode subsistir totalitarismo — não da maneira descrita por George Orwell, em 1984. Porque o discurso não se pode imunizar totalmente ante o riso e a mordacidade. Nenhum controle pode eliminar o chiste na boca do povo, que se dissemina (e mesmo se fortalece) nas repressões mais draconianas.
Assim se explica por que a obra de Kafka também é classificada no cômico. O escritor tcheco e seu círculo próximo riam imoderadamente quando da leitura em voz alta de O processo ou O castelo. Na literatura brasileira, na esteira de Machado, Oswald de Andrade despedaçou de vez a seriedade do romance burguês pela via da paródia e do grotesco. Basta lembrar Serafim Ponte Grande, em que Pinto Calçudo é efetivamente expulso do livro pelo narrador, como castigo por soltar um flato.
O riso sardônico também é central na eztetyka da fome, do manifesto de Gláuber Rocha. Como em Maranhão 66, documentário encomendado ao cineasta baiano, por ocasião da posse de José Sarney no governo estadual. Em meio a cenas da miséria nordestina, o diretor desfila pessoas gargalhando. O riso mordaz desafia a representação impotente que o poder faz dos pobres, codificados como “coitados” (um dos componentes da cosmética da fome, conceito de Ivana Bentes). Na afirmação tragicômica do sofrimento, Dioniso reencontra a revolta e concita a ação política.
Tributária da filosofia de Antônio Negri (Poder Constituinte, Império, Multidão), bom pedaço do argumento da autora investe-se na distinção entre imanência e transcendência. Qual a diferença? A mesma entre a escola de samba e o bloco de rua.
A escola de samba se organiza hierarquicamente. Funciona de modo orgânico, com funções precisas e uma disciplina marcial. Tudo é planejado, exaustivamente ensaiado e, só num último estágio, executado nos menores detalhes. O momento criativo precede a expressão, automatizada no sambódromo. Possui autorias: do carnavalesco, do diretor, do sambista etc. No final das contas, se extrai do desfile um valor de exposição, através da televisão. Fixado num espaço e tempo delimitados, o sentido último da escola de samba é ser assistida. Transcendência.
No carnaval de rua, os foliões se relacionam transversalmente. O status de cada um se dá menos por roteiros do que pela virtuose da performance (fantasia, atitude, desprendimento etc). A autoria se faz na hora e é partilhada na colaboração. Não há planejamento, a expressão não se separa do exprimido. Vale o acaso dos bons e maus encontros, nos contágios e hibridizações. Vigoram a improvisação, o imprevisível, o inusitado. Personagens de universos diferentes se miscigenam, irrompem mil sexos, os blocos se fundem e se separam. Não se extrai mais-valia (salvo na reapropriação capitalista chamada “micareta”). O bloco se exaure na sua singularidade, disparando processos intensivos da multidão. Imanência.
No carnaval, as representações do poder se deformam em bonecos gigantes, máscaras grotescas e diabos de todo gênero. A população multiforme se torna protagonista, recusando ser unificada sob as abstrações da nação, do estado ou do povo. Insiste em viver a riqueza multitudinária.
Explode nas ruas inundadas de carnaval um excesso criativo, que mana da força poderosa chamada vida. O excedente escapa da codificação por qualquer realismo socialista ou publicidade capitalista, e multiplica sentidos ético-afetivos e poético-políticos. No carnaval, o poder e seus estetas se calam e a multidão se faz poeta, transbordante de força constituinte.
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Veja também as resenhas de outros livros da mesma Coleção:

* Desertar do capitalismo, sobre Virtuosismo e Revolução, de Paolo Virno

* Pode sair coisa boa quando Deleuze encontra Marx, sobre As Revoluções do Capitalismo, de Maurizio Lazzarato

* Que aconteceu com o meu marxismo?, sobre Os Marxismos do Novo Século, de César Altamira

* O economista das revoluções pós-modernas, sobre O Lugar das Meias, de Christian Marazzi

* Amor e pós-capitalismo, sobre Commonwealth, de Antônio Negri e Michael Hardt

* Por uma esquerda pós-moderna, sobre MundoBraz, de Giuseppe Cocco.

mar 2011 04
Na última semana, extravasou na grande imprensa a controvérsia que vem marcando os dois primeiros meses de ministério da cultura sob direção de Ana de Hollanda. Desde janeiro, intenso debate circula nas redes sociais, porém, só com o afastamento de Emir Sader pela ministra, intelectual antes cotado para assumir a Fundação Rui Barbosa, os conflitos receberam maior destaque. Agora, muitos começam a informar-se sobre o que pode ser a primeira crise mais séria do governo Dilma.
O dissenso foi provocado pela ação de militantes, comunicadores, pesquisadores, produtores, ponteiros e cidadãos, dentro e fora da internet, partidarizados ou não, que fizeram ou não a campanha de Dilma. É um movimento heterogêneo, difícil de classificar. Começou brando mas vem crescendo à medida que as avaliações iniciais sobre a nova política cultural se confirmam, diante das medidas concretas tomadas pelo ministério. Como primeira vitória, temas relacionados ao novo MinC foram resgatados dos suplementos “mercado” ou “dinheiro”, da grande imprensa, onde estavam sendo abordados, de volta aos cadernos culturais ou políticos.
Pode parecer uma controvérsia menor, levando em conta o orçamento do ministério da Cultura, em relação a outras áreas do governo. Seriam alguns tostões (0,12% da despesa federal) comparados às fábulas despendidas pelos ministérios da previdência, da saúde, da defesa, da educação.
Mas seria interpretar o problema numa métrica falha: o valor de uma cultura não se afere quantitativa, mas qualitativamente. Com ainda mais razão, nas últimas décadas, com a mutação das forças produtivas. Autores chamam-na de virada para uma sociedade pós-industrial, pós-moderna, pós-fordista, da informação e conhecimento.
Como quer que seja batizado, emergiram novas formas produtivas, numa espécie de revolução pós-industrial, em que o imaterial passou a comandar a geração de valor. Isto não significou o abandono da produção industrial, mas a sua reconfiguração num novo paradigma. Da mesma forma que a mutação do trabalho no século 19 industrializou a agricultura, sem porém substitui-la, hoje ocorre um processo de pós-industrialização da produção industrial.
Com isso, a cultura, como criadora e propagadora de valores intangíveis, se torna imediatamente produtiva. Na nova economia, a cultura e o conhecimento movem e qualificam a cadeia produtiva. Por isso, a cultura não pode mais ser tratada como acessório ou departamento, como numa divisão fabril. Ela passa a atuar de modo transversal a todos os ministérios, qualificando direta e indiretamente todas as políticas públicas (como o meio-ambiente). Não há mais economia da cultura, a economia é cultura.
Por mais que defensores da atual gestão desqualifiquem o movimento que lhe contesta, — como se não passasse de uma revide paroquial de grupos alijados, tentando recuperar aparelhos e cargos; — na realidade, o que está em jogo são duas concepções de cultura profundamente diferentes e irreconciliáveis. Trata-se de um corte conceitual, por assim dizer, entre a cultura como mundo e o mundinho da cultura.
No governo Lula, o núcleo das políticas do MinC consistiu no complexo da Cultura Viva, sobretudo os Pontos de Cultura. Além do assistencialismo, os Pontos vem exprimindo uma nova forma de produzir e afirmar-se, uma forma autônoma. Foi a formulação mais feliz, enquanto técnica de governo, de um movimento imanente à sociedade.
Com os Pontos, o estado não está simplesmente doando a fundo perdido. Reconhece a dimensão produtiva da juventude, dos pobres, das periferias e dos rincões, das minorias negras, quilombolas, indígenas. O estado reconhece que eles têm uma força própria, uma potência de vida, que não precisam ser incluídos na economia apenas como consumidores. E então investe, fornecendo condições materiais para que cada nó da rede se autovalorize e crie, ele mesmo, os conteúdos de sua cultura, — no ato mesmo em que os dissemina, miscigena e remixa com o restante da teia.
Longe de induzir dependência (viciar o pobre na mamata), trata-se de um investimento com custo relativamente baixo, mas que colhe imensuráveis dividendos à sociedade. Se existem passivos, e por óbvio toda política deve ser permanentemente aperfeiçoada, do outro lado desponta um imenso ativo: o empoderamento do cidadão como produtor de seu mundo, um campo produtivo liberto de subordinação e partilhado em rede. Todo o conjunto funciona num ciclo virtuoso de cultura, política e economia.
Não à toa, no governo Lula, os Pontos de Cultura contemplaram cerca de 8,4 milhões de pessoas, e o sociólogo Giuseppe Cocco, da UFRJ, considere-o essencialmente complementar ao programa Bolsa Família. Assim o cidadão não só tem acesso à renda, como também condições de produzir valores. Se o governo Dilma for esperto, colocará os Pontos no mesmo patamar do Bolsa Família: imune a cortes, prioridade de expansão, coordenado com outras políticas sociais.
Vale destacar que essas configurações produtivas não foram simples efeito das políticas do MinC. O ministério não as produziu. Elas aconteciam. A sociedade global se reorganiza no sentido de adaptar-se às novas liberdades das redes. A disseminação generalizada de conhecimento e cultura é uma realidade incontornável e irreprimível, do mesmo modo que a forma de militância que lhe corresponde. Uma militância em enxame, simultaneamente política, cultural e social, como a que vem realizando a primeira Revolução 2.0, na Tunísia e no Egito.
Portanto, foram as lutas dos trabalhadores precarizados, de todos os excluídos por décadas de neoliberalismo, que abriram uma brecha para esse modo criativo de viver cultura. O MinC com Gilberto Gil e Juca Ferreira somente aceitou essas mudanças, não as tentou bloquear ou criminalizar, e se deixou ocupar e ser formulado por um movimento multitudinário e enxameante.
Daí a conquista dos Pontos de Cultura e a afirmação dos novos direitos desse mundão 2.0, cujos slogans são compartilhamento e vibração em rede. O social não está matando a cultura; devoram-se amorosamente um ao outro.
O que acontece quando Ana de Hollanda e sua equipe de formuladores (os policymakers) assumem o ministério? Uma reviravolta. Tudo o que, em alguma medida, remete às novas liberdades, aos novos modos de produzir, à pós-industrialização, tudo isso se torna obscuro e ameaçador, ou então ingênuo e populista.
Daí a esconjuração, açodada e sem consulta, do Creative Commons (CC). Logo na primeira canetada, até hoje sem qualquer explicação razoável pelos novos gestores. Eles sequer demonstram saber do que se trata, senão talvez como uma vaga associação do CC a essas “obscuras mudanças”. Afinal, CC e copyleft são as principais alternativas ao sistema cerrado de propriedade imaterial, o copyright; conquanto, a bem da verdade, nada haja de revolucionário nessas licenças mais flexíveis por si mesmas.
Daí também o temor quanto à reforma da Lei dos Direitos Autorais brasileira, uma das mais draconianas do mundo, que segrega do domínio público as obras, e por até 70 anos depois da morte do autor. O projeto tem sido profunda e extensivamente discutido desde a sua formulação no governo Lula, com 80 encontros nacionais, 7 seminários e uma consulta pública que colheu mais de 8.000 sugestões. Desconheço projeto de lei tão minudenciado, inclusive em sites como htttp://www.reformadireitoautoral.org ou http://www.cultura.gov.br/consultadireitoautoral
A quem não interessa a transformação, tão potencializada pelo governo Lula?
Primeiro, às grandes corporações que exploram a cultura. Às indústrias culturais que ainda apostam no modelo antigo e excludente. Quem mais lucra com propriedade imaterial não é o autor, mas os atravessadores: gravadoras e editoras. Indo só um pouquinho além do autor, logo ali em frente, percebe-se que a cultura não se faz só no momento da autoria. O ministério não é do Artista, mas da cultura.
Há toda uma cauda longa (99%?) de técnicos, roteiristas, produtores culturais, seguranças, faxineiros, promoters, designers, críticos, blogueiros, jovens músicos, maquiadores que não recebem um tostão em propriedade autoral. Ainda menos no século 21, em que o processo sobreleva ao produto em si. Hoje a renda vem muito mais da circulação, do marketing, da constituição dos públicos, da interatividade, da abertura para o remix; do que das tradicionais obras magnas, — aquelas gravadas no bronze da eternidade.
Para a indústria, não interessa remunerar essa massa de precários com Pontos de Cultura, editais democráticos, ação Griô etc. Os trabalhadores culturais precários, quando simplesmente não desistem dessa carreira, vêem-se na contingência de vender barato sua criatividade, assim como o artista jovem (na verdade quase todos) os seus “direitos autorais”.
Sem ter pra onde correr, essa lógica de mercado mata dois coelhos de uma vez: 1) suprime a autonomia do produtor, obrigado a se subordinar aos patrões empresários, e 2) obriga-o a viver de bicos e contratos temporários, incapaz de negociar melhores condições.
Isso explica o porquê da centralidade da “criação” e do “criador” nos discursos da ministra e seus apoiadores. A indústria, com sua divisão social piramidal, é a melhor forma de valorizar o criador, o Artista, que fica no topo ,— o rei-filósofo no comando da cidade da cultura. Esses medalhões, a maioria com mais de 50, não formam uma classe (“classe artística)”. No máximo, uma corporação inadaptada e paranóica com os novos modos de produzir, organizada para tentar salvar os seus benefícios.
Por muito tempo a cultura brasileira se pautou pelo predomínio da “classe artística”. Os holofotes da grande mídia contornavam sistematicamente a criatividade imanente do país, as produções de periferia e interior, dos pobres. Não foi o MinC que derrubou o negócio. Mas a sociedade. O MinC com Lula e Gil e Juca veio democraticamente a reboque, e potencializou esse movimento.
Antes, essa produção era tratada como folclore, num regionalismo condescendente, ou então como mística do povo — e não como o coração e o sangue da criação do universo. Algo que somente artistas pensantes, como Gláuber, Oiticica ou Gilberto Gil, enxergavam já na década de 1960. Eis mais um dos motivos que a sociedade inventou e desenvolveu as mídias livres, ou que artistas mais seminais se deixaram invadir pela potência da multidão. Para se autovalorizar, pois a grande imprensa e indústria não davam valor.
Na cultura como mundo, os medalhões vêem ameaçado o seu status superdimensionado, por vezes narcísico. Essa superexposição de uns poucos é promovida pela indústria para codificá-los e valorizá-los como marca. E então extrair daí seu lucro, através da transmissão da imagem e do copyright. Claro, muitos sempre tiveram qualidade (quem vai dizer que Chico Buarque ou Caetano não sejam brilhantes?), mas quantos aí não foram golpes de marketing? Quantos filhos ou irmãs de celebridades não hauriram essa marca, por tabela?
O discurso pró-Ana de Hollanda retoma a mesma acusação de amadorismo, antes imputada ao “povão”. Os Pontos de Cultura são ingênuos e demagógicos, funcionam num clima “meio estudantil” e não trazem resultados concretos. O mesmo tom de Hosni Mubarak, o ditador egípcio, quando a confrontado com a revolução 2.0. O mesmo tom de Luiz Carlos Barreto ou Cacá Diegues, que agora pretendem “acertar as contas” com os arranjos produtivos que os contornam (contornar a Globo Filmes, por exemplo). No fundo, eles pedem, e esperam que Ana de Hollanda conceda: não dêem o dinheiro pra esses moleques e merdinhas, dêem para nós… nós que somos os profissionais!
Quanta falta de generosidade… quanto preconceito em não crer na qualidade das pessoas!
Aí se explica, também, o discurso cultura-e-mercado, que desde FHC (cujo MinC tinha por slogan “A cultura é um bom negócio”) não predominava de modo tão acintoso. Novamente, para desmerecer a produção em rede: insustentável.
Sustentável seria a indústria tradicional, articulada com a exploração da propriedade imaterial. Como se esta não dependesse historicamente de isenções, subsídios, “verbas de emergência”, repasses diretos. Aqui, mercado ou estado atuam como unha-e-carne, planejando os investimentos. Por isso, seria tão central passar a investir em “indústrias criativas”, — um nome engenhoso para o projeto de enquadrar cabalmente a cultura ao mercado. Ou seja, à subordinação da produção cultural às corporações, ao emprego formal, ao copyright, à gestão centralizada dos recursos.
No ano passado no Rio de Janeiro, a aplicação das teorias da economia criativa, — uma cria, aliás, do governo neoliberal de Tony Blair na Inglaterra, — não fez mais do que concentrar os investimentos públicos (R$ 270 milhões) em mega-museus. Que serão explorados por quem? Pela Fundação Roberto Marinho.
Por enquanto, a ministra vai promovendo a “economia criativa” por onde passa, enquanto faz promessas à rede da Cultura Viva, que tudo vai continuar como antes, normalizado. A discussão da LDA? Perguntada, não é papel de ministra opinar, mas de uma comissão de especialistas jurídicos, que vai reapreciá-la. Novamente o discurso técnico, como se o regime de propriedade, material ou não, não fosse questão das mais políticas.
Enquanto isso, a secretária Marta Porto, que nem foi nomeada, correu o Brasil para abrir o diálogo com a rede de Pontões e Pontos de Cultura. O MinC está em dívida com a rede, com pagamentos atrasados na ordem dos R$ 60 milhões. As boas intenções são irrefutáveis, mas faltaram informações palpáveis de prazos, metas e o planejamento para a expansão prometida da Cultura Viva.
Basicamente, a questão colocada pela secretária foi a disjunção exclusiva: qualificar ou expandir? Isto é, arrumar a casa (numa crítica implícita à gestão anterior) ou crescer a rede? Para Ivana Bentes, diretora da ECO/UFRJ, é preciso qualificar e expandir, numa disjunção inclusiva. E quem deve qualificar o MinC são os Pontos, com sua experiência adquirida de democracia e produtividade, e não o inverso, uma gestão que começou agora.
É no mínimo sintomático como a Aliança Internacional de Propriedade Intelectual (IIPA) — tão querida pelas mega-gravadoras, pelas majors do cinema e pela Microsoft passou a ver com bons olhos o governo brasileiro, quando, no governo Lula, estava na “lista negra”. Quase ao mesmo tempo, no Fórum Social Mundial, em Dacar, os movimentos elaboraram e encaminharam uma carta à ministra, no sentido oposto, preocupado com possíveis retrocessos.
Por tudo isso, a luta não é por nomes ou números, mas por uma concepção global de política, cultura e sociedade. Por um projeto de democracia. O ministério da cultura exerceu papel ímpar no governo Lula, como vanguarda propositiva e qualificador das políticas públicas. Ainda foi pouco, e é preciso consolidar e ampliar as redes, mesmo que seja apesar, quiçá contra o novo governo.
Está ficando claro que isso dependerá muito mais da articulação e do movimento dos atores culturais, que continuarão produzindo na precariedade, e já mostraram não ser vacas de presépio, do que dessa gestão. O MinC voltou a ser estado.

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Post Scripta.

Este blogue tem participado dos debates sobre as posturas do novo Ministério da Cultura encabeçado por Ana de Hollanda. Em 30 de janeiro, alertou sobre o teor conservador das primeiras atitudes da gestão. Uma semana depois, na entrada daqui mais lida em 2011, publicou um artigo mais completo, tratando de Pontos de Cultura, redes produtivas e indústrias criativas. Nele, se argumentou como os novos rumos desse MinC ameaçam as conquistas e os direitos potencializados pelo governo Lula, com os dois ministros da cultura anteriores, Gilberto Gil (2003-08) e Juca Ferreira (2009-10). No dia 10 do mês passado, editou um terceiro texto, mais específico sobre a propriedade autoral e seu tratamento no novo ministério, comentando opiniões de Caetano Veloso e sua incorporação ao site oficial da pasta.

Recomendo os seguintes textos sobre o mesmo assunto:

A voz dos poucos e barulhentos, por Rodrigo Savazoni (Trezentos)

Anticultura ou Anna e a cultura de mercado, por Danilo Marques (O Inferno de Dândi)
O poderoso lobby multinacional do ECAD, por Carlos Henrique Machado, de quem aliás tirei a sugestão de título. (Cultura e Mercado)
MinC se torna ministério problema, por Renato Rovai (Blog do Rovai)
Também valem muito ler, sobre o tema, os textos elegantes e densos de Cézar Migliorin, em geral, no seu blogue Polis + Arte

nov 2011 03

Nascimento de Macunaíma, interpretado por Grande Otelo

 

A acampada da Cinelândia completou 10 dias e continua gerando perplexidade. A grande imprensa, os meios de esquerda, os transeuntes, todos repetem as perguntas: do que se trata? quem participa? o que pretendem? até quando?

Aqui, como nas milhares de ocupações do 15-O pelo mundo, se exasperam ao não obter respostas. E não é porque não existam respostas. É que as questões estão sendo mal formuladas. Se o OcupaRio é um movimento, não é do tipo orgânico, não tem líderes ou bandeiras, nem assume uma pauta fechada e definitiva. Não consiste num movimento no sentido de um grupo reivindicatório, cuja dinâmica culminará num bombardeio de demandas ante o estado e a sociedade. As ocupações pelo mundo coordenam um movimento simplesmente porque colocam em marcha outra forma de fazer política e outra organização das relações sociais de produção. Ajudam a recompor outro sujeito político, à altura de nossa geração.

Daí o slogan anticapitalismo ser pouco e até dê cartaz demais ao capitalismo. As acampadas já são um esboço da alternativa, já são um evento constituinte de outro mundo, além do mercado e do estado.

No fundo, o OcupaRio não precisa se explicar para existir. Precisa, sim, se processar para que se explique na medida que uma nova realidade seja mais discernível. Uma nova política, um novo direito e uma nova mídia se tornem mais visíveis e vivenciáveis, à luz dos novos pensamentos e práticas, que esse tipo de movimento produz por si mesmo. A gramática da esquerda partidária e no governo é incapaz sequer de enxergar a sua potência. Daí continuar demandando, junto com a grande imprensa, por uma resposta inequívoca e sem delongas. Assim, como escreveu Slavoj Zizek, exercem o papel da autoridade masculina, que interroga a mulher histérica para lhe dizer o que, afinal, ela quer. “Você só sabe reclamar!” É o chefe que exige uma resposta objetiva: “Responda em língua que eu entenda, ou cale a boca!” O senso comum opera conservador e moralista. E é fácil se aliar a ele para ridicularizar o diferente, o que inova ante o previsível.

Mas quem são os indignados acampados por um outro mundo?

No centro do Rio, com 10 dias, o movimento vem conseguindo se amalgamar com a experiência das ruas, embora o tema seja polêmico. De qualquer forma, definitivamente, não se resume a (mais) uma manifestação da classe-média branca ilustrada da Zona Sul. Não se compõe simplesmente de estudantes, internautas e acadêmicos. Nem somente de jovens militantes, artistas ou  trabalhadores da cultura. Também isso, mas muito mais.

Com 10 dias, o OcupaRio foi atravessado pelo cotidiano urbano no seu nível mais molecular, no nível do habitar. Agora, a praça ocupada não vive apenas relações superficiais e passageiras. Tornou-se um teatro espontâneo, onde as pessoas são atores e espectadores. Foram montadas tendas fixas para reuniões, música e artesanato, um centro de mídia independente, uma casbá que lembra cada vez mais, guardadas as proporções, a Praça Tahrir. Aos poucos, muitos elementos da metrópole convergem no espaço produtivo e se misturam e se intensificam. As pessoas tomam desordenadamente a palavra e ela se inscreve nos concretos, nos cartazes, nas tendas, no centro das rodas.

Essa desordem vive. Macunaímica. Isso também é a acampada da Cinelândia.

É a moradora de rua que se esparrama no meio das rodas e regurgita a opressão cotidiana, com raiva e irresignação. É o mendicante que quer rasgar os cartazes de 1968. São as brigas de hippies furiosos, esses que viajaram o Brasil inteiro três vezes, com notícias de Altamira, de Jirau, do Jalapão, do Rio Xapuri. São as ameaças, as rixas, os sururus à ponta de faca, momentos essenciais, que põem à prova o desejo de autonomia e produção em comum. São as discussões ríspidas e os desgastes na fila da comida. São os desconhecidos pretos de tão pobres, que se aconchegam em barracas vazias à noite, e conversam, e brincam, e furtam, e arrumam confusão, e simpatizam. É o punk estradeiro que não respeita convenções de assembléia e grita porque veio pra gritar. São os udigrúdis funkeiros do Alto Lapa nas noitadas molhadas. São os secundaristas que matam a aula da tarde e se iniciam na milenar arte, entre lonas clandestinas.

São os guardas municipais, quase todos pretos, mas brancos de cassetete na mão, caras feias e fixação fálica. São os saltimbancos, os palhaços fardados em performance, a milícia dos Anonymous, o comitê dos babalorixás, o alegre argentino que megafone à mão chama “compañeros! compañeros!”, o monge filipino zen-budista, as umbandistas e seus pontos de Iansã. São os pures et dures, esses fanáticos morais do Teatro de Operações, e os anarco-queers, e os roqueiros de preto do Rio Grande do Sul, e os intelectuais de praça e de pirraça, e os deleuzianos psis, e os exércitos de um homem só. São os loucos de toda espécie multiplamente classificáveis por uma psiquiatria repressora, os drogaditos e bêbados que passam e resolvem dar algum recado ou sinceramente espezinhar. É só chegar!

São indignados, inadaptados, enjeitados, rebeldes vermelhos e pretos e coloridos, malucos beleza ou treteiros, hippies e punks e beatniks e hip hops, — loucos o suficiente para ousar saber e ousar mudar o mundo e que, eventualmente, mudam o mundo. São os únicos que mudam. Tão ingênuos quanto, de fato, o mundo realmente muda de tempos em tempos.

E é também a menina de rua, em trapos, suja e semianalfabeta, prostituída, cuja salvação ela encontra na cola, no loló, no crack. Que o capitalismo fracassou salta aos olhos, mas as meninas de rua mostram como esse fracasso se naturalizou, — não escandaliza mais.

O OcupaRio não é bonitinho, não é harmônico, não é um acampamento de verão, não é um desfile de cansados e recalcados. E é bom que não seja. Porque a sociedade não é. Saturado de determinações e qualidades, da potência da cultura das margens, ele vai se construindo como mais um quilombo insubmisso, da insubmissa cidade do Rio de Janeiro. É zona autônoma de confluência das redes e os fluxos sociais antagonistas, da divisão de classe, da segregação racial, onde os preconceitos, apartheids e intolerâncias emergem e oprimem e são problematizados e enfrentados. O Um se faz Dois.

Afinal, o OcupaRio assume a sua estética da fome, a vergonha nacional sem romantizações. Seu caldeirão profundamente diferencial e mutante comunica a verdadeira miséria ao “civilizado” e não como mero dado antropológico para a academia. Convoca à recomposição da esquerda, do sujeito político, do discurso e da práxis.

É preciso resistir e é preciso cantar. Como dizia o baiano Gláuber Rocha em tempos de tropicalismo cangaceiro, eis aqui uma experimentação radical para os novos e os velhos: “um titânico e autodevastador esforço de superar a própria impotência“.

fev 2012 03

O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, Gláuber Rocha, 1969

 

Eu conheci o Pedro no primeiro dia da OcupaRio. Foi naquele 22 de outubro ensolarado, a Cinelândia tomada de vida e agitação, uma semana depois da decisão de acampar pra valer. Logo no comecinho das atividades, se formou uma roda de poesia. As pessoas subiam no banco da praça e declamavam, ecoadas pelo megafone humano. Coisa bonita de ver e participar. Teve Manoel de Barros, Pessoa, Hilda, Faustino, Brecht. O Pedro foi lá e recitou não lembro qual poema. Troquei uma ideia. Me disse que era um marxista, que chegara a hora de fazer história. Respondi que também era, naquela brincadeira batida da tendência groucho. Comecei a falar das lutas reais da cidade do Rio de Janeiro e ele me disse que era a primeira mobilização de rua de que participava na vida. Na hora, me pareceu mais um louco entre tantos varridos, loucos por vida que éramos. Adicionei-o às redes sociais, onde ele era o Barão das Macaúbas.

O segundo momento em que o encontrei foi numa assembléia de sábado, à tardinha. Pedro foi ao centro e anunciou que leria um manifesto. Recordo que alguém levantou questão de ordem, imagine se cada um quissese ler o seu, seriam 200 manifestos. Ele insistiu, ganhou a causa. E foi lendo, em tom de manifesto, cinco, dez, vinte minutos. Na roda, conforme o tempo passava, as mãos balançando em sinal de agrado foram diminuindo, substituídas pelos códigos de “mais foco” e “conclua!”. Até que não dava mais e interromperam o Pedro, contrariado. Mas no final ele foi aplaudido. Um companheiro abraçou-o. Depois, em casa, li o texto com calma, gostei de algumas coisas, mas não curti a mensagem universalista por trás do discurso da revolução. Independente disso, achei sensacional a atitude de ler uma peça elaborada com esmero de véspera, em meio àquele assembleísmo sonolento de falas ralas e manobras de “consenso”.

Pedro ficou sumamente injuriado com a recepção do manifesto. Abandonou a ocupação. Mudou o codinome online para Caboclo Menino e passou a criticar a acampada da Cinelândia no grupo do Facebook. Queria mais assembléias, organizadas de outra maneira. Alguns encararam como intransigência de menino mimado, mas outros como personalidade forte, como indignação que recusa transigir.

No mês passado, teve a desocupação do Pinheirinho. As redes sociais inundaram de protestos. Entre tanta comoção, me saltou aos olhos um aviso no mural do Pedro, onde ele informava que estava partindo pra São José dos Campos. Nos dias seguintes, Pedro passaria a relatar a vivência na pele da neurose. Essa neurose institucionalizada que muitos pobres do Brasil conhecem bem, porque costuma se abater sobre eles. Aí o caboclo perdeu a meninice. Estancou num impasse neurótico, numa impotência induzida que é o próprio rendimento do estado policial. A cada mensagem no Facebook, num tom cada vez mais taxativo, Pedro se contorcia com as palavras para tentar exprimir minimamente o que vivera, com a gravidade e a premência com que vivera. Mas não dava conta, e o impasse foi cedendo lugar a um fanatismo moral, em defesa dos desabrigados de Pinheirinho. Pedro falava imbuído da autoridade absoluta, invocando a vergonha e convocando à luta sem tempo para poréns ou senões. Ao ler essas mensagens, eu vislumbrava os seus olhos chamejando de um fogo selvagem, entre o ódio e a paranoia, um fanático pacifista voltando dos fogos e medos da guerra.

Mas eu não condeno esse fanatismo.

Aí veio o anúncio da greve de fome. Por Pinheirinho, Pedro decidiu entrar em greve de fome por uma semana. Na última mensagem, declarou o amor pela comunidade removida pelo governo de São Paulo. E pronto, sem hesitar, fez do seu jeito, ai de quem tentasse dissuadi-lo. Foi pra frente da central de jornalismo da Globo, no Jardim Botânico, e se algemou. Aos poucos, foram chegando simpatizantes, interessados, curiosos da própria emissora, da base de trabalhadores. Alguns eram da OcupaRio, outros nem o conheciam. O protesto ganhou corpo nas redes sociais, reuniu pessoas, um real envolvimento. Descontraído, sem a atmosfera de ascetismo típica de ações de auto-imolação. Afinal de contas, a proposta é uma semana e não mais. Pedro foi entrevistado, produziu-se mídia, dispararam debates, articulações. Frisou não ser herói e não parece mesmo apaixonado pela própria imagem de crucificado.

Eu não julgo o ímpeto e a loucura dos outros, na contingência das lutas.

Causa perplexidade. Ser necessário alguém abrir uma greve de fome para chamar a atenção. Propor-se a sofrer em nome dos outros, para ser ouvido de verdade. Ser necessário prejudicar a própria saúde, voluntariar-se a um risco todavia desnecessário, tudo para dotar-se da aura de virtude, da auréola militante. Como se o ato do sofredor o convertesse num portador da verdade. Como se não bastasse o sofrimento de quem foi expulso de casa à força de bombas e cassetetes e ativismo judicial. Então é preciso sofrer ainda mais; é preciso que um branco, ilustrado, classe média, também sofra, para que os outros levem a sério o sofrimento. Em meio às intermináveis ondas de vaga solidariedade e burocráticas declarações de apoio, não se pode negar que o ato de Pedro se diferencia. Há aí uma potência ambivalente, um delírio glauberiano, entre um salvacionismo ascético e um milenarismo marxista, entre Cristo e Canudos, entre a fé e a revolução.

Nesta altura, circulam muitas opiniões sobre a greve de fome, além dos esperados apoios, alianças e elogios diante da atitude. O debate se descortina e já vi gente cogitando em ampliá-la, em adotá-la por tática recorrente. Uma discussão estratégica. De qualquer modo, fica claro como não dá pra falar em abstrato sobre a greve de fome. Na brecha do tempo de onde escrevo, tudo são vetores, percepções, sutilezas, contingências, narrativas. É possível uma greve de fome por uma semana que reinvente a greve de fome? em vez de ato redentor pela via do martírio, um protesto alegre, paródico, midiático, que potencialize a causa? onde está o fiel da balança: afirmação do sofrimento ou moralização da causa? exibição narcísica ou chamado militante? mortificação das lutas? individualismo disfarçado de abnegação pelo coletivo ou construção do comum?

Quem sou eu para condenar o ímpeto e a loucura dos outros!

A greve de fome de Pedro já é bem-sucedida como mídia tática e mobilização. Que não glorifiquemos o sofrimento, a fome e a morte. O que, num país terceiromundista, não afetaria além de certa classe média que já se sente impotente e culpada diante da miséria e da violência. Essa greve é positiva, sim, porque, sobretudo, até agora evitou misturar-se com a morte, com a pulsão de morte, com o suicídio, ainda que no horizonte, ainda que sugerido. Esse jejum não está na tradição do último recurso, como nos casos de Bobby Sands, das feministas americanas, de Potti Sriramulu, dos presos políticos de Guantánamo, de quem apodrece nas salas 101 pelos escuros da história e não acede outro caminho. Essa greve está mais para a paródia, para o riso do grande coringa que transfigura as derrotas em memória. Mesmo porque a OcupaRio, sim, é vida, é mais vida, e Pinheirinho, sim, Pinheirinho tem que viver. Com a morte não se brinca, porque ela não existe. Que a morte e suas imagens inspirem as forças da direita.

Por tudo isso, até agora, está sendo positivo, a ação ao redor do Caboclo Menino assume um sentido afirmativo em construção, nas ambivalências e perplexidades do concreto, como tem de ser e como acaba sendo de uma forma ou de outra, fora das abstrações teóricas e utopias de cátedra. Que não se perca em si mesma, e prolifere vida.

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Pedro e a Globo: seis dias algemado em greve de fome, Correio do Brasil

Próximo ato público sobre Pinheirinho no Rio, sexta-feira, 03/02, 17:00 no Largo da Carioca

Dez mentiras que cercam o Pinheirinho, post-síntese por Hugo Albuquerque, no Descurvo

Pinheirinho e o futuro das lutas, por Idelber Avelar, na Revista Fórum

fev 2012 18

Só posso acreditar num Lênin que saiba dançar

A erva existe exclusivamente entre grandes espaços cultivados. Ela preenche os vazios. Ela cresce entre, e no meio das outras coisas. A flor é bela, o repolho útil, a papoula enlouquece. Mas a erva é transbordamento, ela é uma lição de moral.
— Henry Miller, Hamlet.

 

O velho mundo morre enquanto o novo tarda a aparecer. No claro-escuro perfilam os monstros. A citação é de Gramsci e se aplica bem ao momento que vivemos. Quando um futuro já presente, tão alegre, se debate para existir; um presente já passado teima seus últimos golpes sem direção, em triste agonia. Nesse jogo de sombras, os monstros abrem os olhos. Despertam, caminham e logo se perguntam: quem somos? Não sabemos. Mas não deixamos de reconhecer a força, a natureza disfome, a imprevisibilidade, e os seus perigos e é bom que assustem e inspirem receios e desconfianças. Em todo processo transformador, o medo tem que mudar de lado. E se existem monstros do bem e monstros do mal, de qualquer modo, é só frequentar o cinema para saber que os monstros desejam a mesma coisa: amar e serem amados. Este grande amor, monstruoso e nada sentimental, não pode faltar em todas as lutas generosas e produtivas mobilizações por um outro mundo.

Enquanto isso, os jornalistas de esquerda não conseguem captar, buscam pautas cristalinas e líderes visíveis e acontecimentos inequívocos. Vamos dar um desconto: eles são jornalistas. Pedem fatos jornalísticos. Estamos fazendo outra coisa. Menos sintetizar do que multiplicar: produzir o máximo existencial, não se separar do turbilhão.

O movimento já mudou o léxico da política, resgatou palavras e conceitos fora de uso geral, desestabilizou o que se apresentava como dogma e senso comum. Alastrou um desejo de mudança que chacoalha o dito “campo das esquerdas”. Apesar do dissenso a respeito, penso eu que, em meio a tantas palavras e conceitos em estado de fluidez, seja importante às Ocupas articularem um discurso do ponto de vista da esquerda.

Mas não esquerda como os partidos se entendem por esquerda. Porque o Occupy não se filiou a eles, não lhe interessa a máquina da representação. Os partidos de esquerda sondam no Occupy algum ponto de acoplamento para a agenda e os mandatos, alguma maneira de enquadrá-lo nas campanhas eleitorais. Como se os movimentos devessem parar de sonhar monstros e se esforçar para funcionar conforme o modelo representativo existente, nesse subcosmo de estado e mercado, público e privado. Os partidos de esquerda são os repolhos de Henry Miller. Nem tampouco esquerda como os sindicatos e as centrais sindicais se entendem por esquerda. Não é isso. Porque esses cobrem apenas uma mínima fração da classe trabalhadora: formal ou informal, reconhecida ou não, isso quando não se prestam a organizar uma gestão mais horizontal da exploração do trabalho, cooptados. Os partidos e os sindicatos de esquerda se esforçam por disputar o estado e a fábrica, quando o estado e a fábrica são parte fundamental do problema.

Nesse sentido de esquerda, realmente não dá. Essa esquerda que joga com a direita por melhores negócios, por melhores condições para fazer negócios e gerir os lucros e investimentos. Têm pessoas de esquerda que não nasceram na família certa ou não conhecem as pessoas certas, a fim de vir a gerenciar uma grande empresa ou banco, então resolveram ser empresários e banqueiros através do estado. Além disso, do outro lado, toda grande empresa ou banco faz negócios, direta ou indiretamente, por dentro do estado; ou simplesmente não é viável. Esse agenciamento de uns e outros coloca o estado como o balcão onde se viabilizam e realizam negócios, onde são mediadas as demandas e os conflitos, sempre em nome de melhores negócios. É onde as políticas públicas cada vez mais não passam de novos modelos de gestão e negócio, cada vez mais eficientes e transparentes e sustentáveis. É o estado-empresa, sem política, isto é, sem antagonismo, que mistifica as causas sistêmicas e estruturais por meio de causas morais e acessórias.

Isto não significa aderir à pauta ultraliberal da sociedade civil contra o estado, como se não fossem dois lados da mesma moeda. Nesta, o estado impediria a liberdade individual e a livre circulação dos produtos, ou seja, o mercado livre. É o discurso que clama por uma unificação ao redor do combate à corrupção e aos impostos, e contra a especulação financeira dos yuppies de Wall Street, como se a “economia real” não fosse ela mesma o problema. Esse populismo que se diz acima da divisão entre esquerda e direita, todavia francamente direitoso, aparece no movimento Cansei e numa famosa capa da Veja com o símbolo do Anonymous; mas também no Tea Party, nos libertarians e no guru da cultura livre, Lawrence Lessig, que muito eloquentemente declarou seria interessante uma aliança entre o TP e o movimento Occupy.

Nesse outro sentido pós-esquerda, também não dá. Se o movimento Occupy é monstruoso, é porque resgata o sentido político do conflito, por afirmar com todas as letras que a luta é dos 99% contra o 1%. Aí se resgata o sentido de esquerda que importa, colocar-se na perspectiva dos pobres. E não dos modelos de negócios (certas “políticas públicas”) ou da ideologia (apelo à “gestão sustentável e eficiente”). Na perspectiva dos pobres, de esquerda!, trata-se de confrontar a desigualdade social em todas as suas expressões paralelas de opressão: classe, sexualidade, gênero, raça, imigração. É combater para sabotar as estruturas e discursos que produzem e conservam a desigualdade em primeiro lugar. E reapropriar-se da riqueza social, de baixo pra cima, apesar dos especialistas gestores, dos representantes partidários e sindicais, e também da opinião pública e seus fatos, isto é, dos jornalistas e da miséria do jornalismo.

Nas Ocupas do Brasil, o problema foi colocado além de qualquer abstração quando foram inundadas de pobres, com seu sentido pleno de vitalidade e liberdade. Uma quermesse de monstros metropolitanos. Pode não ter achado as soluções, mas achou os problemas e vem colhendo falas e contribuições em lugares e pessoas desprezados pela esquerda institucional. Quando se levantaram e tomaram a palavra, as pessoas em situação de rua, os que lutam por moradia e terras, pelo direito de produzir direitos, os resistentes terapeutizados pelo choque de ordem, o racismo de sempre e o urbanismo dos megaeventos, quando esse rio subterrâneo e lamacento por debaixo do Brasil oficial irrompeu em toda a sua feiúra, em seus dentes estragados e cabelos desgrenhados, em sua potência constituinte. Das Ocupas, incipientemente, se produziu esse não-lugar onde as vozes outras puderam articular a cultura de resistência que já corre pelo subsolo, pelos esgotos da classe média de esquerda, pelos fluxos da cidade, centros e periferias. Sem teto, sem renda, sem estudo, sem consideração, enfim, essa violência da miséria, plena de sentidos e pulsante de vida, comunicada abertamente. Que é violenta mesmo e por isso nos reeduca, nós os mal educados pelo estudo formal, porque a única forma de comunicar a miséria é pela violência, alegórica ou física — de toda sorte, política. Já não era outro o ensinamento da estética da fome, nos filmes de Gláuber Rocha. O câncer não está no movimento social, mas na Sociedade (1% e seus representantes) que o fratura de injustiça, exclusão e porrada.

O Occupy pode ser a nova esquerda. Não significa que deva refundá-la do zero, mas reorganizá-la, inclusive por dentro de forças transformadoras através de partidos e sindicatos. Sem desprezar instituições, mas as atravessando. Já está fazendo isso. A esquerda tradicional tem mais a aprender com o ciclo de lutas de que 2011 foi tão marcante, enriquecendo o seu patoá magro, do que o inverso. O movimento Occupy não tem que pedir permissão para fazer política e bagunçar o quintal da esquerda. O Occupy é erva daninha, monstruosa, e não adianta insistir que quem está nele não vai querer plantar mais um repolho.

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