nov 2010 30

De vez em quando, lemos uma frase, um pensamento, uma citação, e ela nos parece estranhamente íntima. Como se já a conhecêssemos de longa data. Como se partilhássemos de seu significado como uma intuição antiga, porém inarticulada. Ao escutá-la a primeira vez, vemos nós mesmos sem roupa nas palavras do outro. Sentimos então misto de vergonha e narcisismo, como quando uma carta privada sem querer vai parar em mãos indesejadas.
“Embriagar-se com água pura”, máxima de Henry Miller retomada várias vezes pelo filósofo Gilles Deleuze, leu-me profundamente. Ser capaz de ficar bêbado com água, que bela imagem. Por quê?
Acredito que, para viver livre, é necessário estar sempre bêbado.
Não se trata de intoxicação pura e simples, de um estado objetivo da consciência induzido por narcóticos. Nem de vaga embriaguez de vida, ou de vinho, poesia e virtude, como no poema. Soa egocêntrico quem abusa de tais expressões para cantar o embebedamento de si mesmo, em regozijo por parcas conquistas e pequenas vaidades. Assim como o viciado, Narciso mergulha em si mesmo e, em vez do barato, afunda no buraco do isolamento. “Como o viciado” porque este também vê um fim em si mesmo na substância em que se reflete, espelho traiçoeiro que quer sugá-lo.
Mas a grande embriaguez não tem objeto. A sua vitalidade dispensa o juízo a posteriori, que depende de uma coisa externa, de uma droga específica. Daí a experimentação do grande bêbado é antes tonificante e nômade, do que claudicante e habitual. Não visa à overdose, mas à desmedida. Não deprime o corpo, potencializa-o. Não traz a solidão, mas o teatro. O grande bêbado prefere a água pura ao vinho (que importa para o homem entusiasmado o vinho?), o poliamor ao adultério, o nomadismo bárbaro ao sedentarismo romano, a multidão democrática à massa fascista.
A embriaguez está mais desperta do que a insônia. Multidão de pensamentos e afetos que salta da cabeça, armada de escudo e gládio como um exército de deusas e demônios. Tal qual literatura beatnik, vem inteira e cósmica, e verte a turbulência de palavras até a esquizofrenia, o mal do dopado, ou seja, com excesso de dopamina.
A embriaguez está do outro lado da angústia. Se esta é um medo sem objeto, a embriaguez é um desejo que não se coisifica. Ambos os existenciais possibilitam a liberdade através do estranhamento. Dilaceram o universo percebido das coisas finitas e desvelam o horizonte de infinito despercebido. Das coisas isoladas, pela embriaguez se chega à malha contínua do ser. Ocaso da metafísica, tudo está em tudo. É hora de patinar sobre as palavras: nada há acima ou atrás delas, os sentidos são agora libertinos, superficiais, dançarinos.
O ébrio percebe mais do que as coisas porque percebe o que está entre elas, o que as compõe como tais no seu movimento e sua combinação. Dissolvem-se as coisas e também os indivíduos, em moléculas. Daí prorrompe a imanência em que coisas e indivíduos acontecem: o plano das palavras e dos personagens, dos fluxos e multiplicidades, plano do homem do subsolo, de Leopold, de Sal Paradise, de Macabéia e de Vittorio. Drogar-se sem droga também pode delirar um mundo de sons e cores até então inaudito e invisível, e descobrir o movimento íntimo nunca-inconsciente da roda da consciência.
Embebedar-se é mais do que um sonho, e seu mundo apolíneo de imagens e sombras. Dioniso não se resolve no hedonista de primeira hora. Como a música dissonante de Stravinsky, desorganiza-se e reorganiza-se, sempre outra vez. O deus dos sátiros, ninfas e libações é o mesmo que se faz pão e vinho, que ressuscita, que converte água em vinho e dança em seu próprio casamento com a terra. Nesse Deus posso acreditar. Deus da metamorfose. Sua embriaguez não cessa de criar a noite, na qual quero nadar até perder-me de mim, desorientado. Até reencontrar-me renascido, de ressaca na lucidez do mundo.

dez 2010 31

As Revoluções do Capitalismo abre e fecha com citações do filósofo pós-estruturalista Gilles Deleuze. A presença de seus conceitos perpassa o livro, como terreno firme para as teses do sociólogo italiano Maurizio Lazzarato. Radicado na academia francesa, o autor esteve engajado nas lutas dos trabalhadores culturais na França, como uma das principais vozes do movimento. Também chamados “intermitentes do espetáculo”, a partir de 2002 se mobilizaram para afirmar novos direitos, diante da política neoliberal que os excluía. Intelectual multimídia à moda de Deleuze, suas intervenções abrangem cinema e vídeo e é co-fundador da Revista Multitudes.
Lazzarato também publicou Trabalho Imaterial (2001), em co-autoria com o filósofo marxista Antônio Negri, que tinha boas conexões com Deleuze. Nesse outro livro, é analisado o novo estatuto do trabalho no século 21, em que o imaterial, isto é, valores, crenças e desejos põem-se no centro do funcionamento do capitalismo. Logo, de sua resistência. As Revoluções do Capitalismo, por sua vez, chegou ao Brasil na coleção A Política no Império, que se propõe a abrir frentes de luta contra o capitalismo contemporâneo. Assim, a obra se situa numa convergência improvável, entre um pensamento oriundo do operaísmo italiano dos anos 1960 e 1970, de extração marxista (embora revisionista), e o pensamento dito “pós-moderno” próprio da filosofia deleuziana.   
Na questão da organização política, os marxistas mais ortodoxos apontam nos deleuzianos e pós-modernos em geral a esquiva da militância mais dura e do primado da luta de classes, bem como a propensão a um dandismo individualista e siderado; enquanto os “pós-modernos” costumam criticar o leninismo centralista e a caretice dos aparelhos tipicamente marxistas. Quanto ao sistema filosófico, esses marxistas costumam atribuir-lhes uma hipertrofia conceitual, uma linguagem esotérica e autorreferente, como uma loja de brinquedos chineses, bonitos porém intocáveis de tão delicados; enquanto os “pós-modernos” nivelam os marxismos como ortodoxias dogmáticas e simplórias, com uma concepção anacrônica das lutas, incapaz de atuar nos novos desafios do contemporâneo.
Lazzarato polemiza abertamente com o marxismo o livro todo. Com esse título, uma opção editorial (o proposto pelo autor era Por uma Política Menor), não poderia ser diferente. Para o autor, a maioria das análises marxistas ainda parte das “fábricas manchesterianas de Marx ou das manufaturas de alfinetes de Adam Smith”. Achata relações complexas de poder e totaliza uma realidade múltipla e irredutível. O marxismo perdeu o trem da história. Foi esvaziado espontaneamente pelas pessoas, assim como elas deixaram em massa os países do antigo bloco soviético. Os atuais partidos e sindicatos vermelhos não passam de “urubus”, que parecem rondar a carniça do socialismo real, mas na realidade estão atrás de sobras do capitalismo. Refugiaram-se, cínicos, em pautas corporativistas da pequena fração sindicalizada, ou então em cátedras universitárias.
Na última década, as manifestações altermundialistas a partir de Seattle (1999), os Fóruns Sociais Mundiais e as marchas globais contra a guerra do Iraque foram a ponta do icebergue de um novo ciclo de lutas, com seus novos problemas e desejos. Como na explosão insurrecional do maio de 1968, descortinou-se um horizonte político pós-capitalista e pós-socialista. Em vez do socialismo em um mundo só, se afirmou que muitos mundos são possíveis. Hordas de marxistas, trotskistas, anarquistas, midialivristas, black blocs, sem-terra, tute bianchi (macacões brancos), sindicalistas, blogueiros, todos se coordenaram numa militância sem bandeira unificada, discurso pronto ou palácio de inverno a ser capturado.
Para o autor, na esteira de Deleuze, um novo léxico se impõe às lutas. Não se trata mais de combater a exploração do trabalho pelo capital. Mas constituir mundos, onde não haja uma produção fixável ou mensurável o suficiente para o capitalismo expropriá-la. Isto significa, em primeiro lugar, desviar da perspectiva dualista, do tipo isto ou aquilo, para diversificar pautas de valores e direitos. Assim, a luta por direitos de gênero ou sexuais não deve orientar-se pelo dual homem/mulher, como no feminismo clássico, porém pela afirmação dos “mil sexos”. O movimento GLS vira LGBT e num piscar de olhos LGBTT, mas nem todas as letras do alfabeto poderão contemplar o campo dos possíveis. Do mesmo modo, a classe proletária do marxismo tradicional deve converter-se em “mil diferenças”, cada qual com seu universo de afetos e prioridades. Em vez do trabalho em equipe dos coletivos, trata-se agora da militância em rede, juntos e separados.
Isso não enfraquece a luta global? Não divide os esforços da militância, diante de um inimigo tão portentoso, tão monstruoso quanto o Capital? Justamente. Não. A força do capitalismo contemporâneo está em sua enorme capacidade de modulação. A sua monstruosidade consiste nessa multiplicação de modos de apreensão, de recodificar e reincorporar tudo aquilo que tenta se colocar além dele. Daí que dialético é sempre o capitalismo, para quem nada pode ficar de fora. Pensar e lutar dialeticamente, unificando um grande movimento da história, é já ter perdido a luta. Significa posicionar-se já dentro do mundo do inimigo. Por isso que, para Maurizio, os socialistas amiúde findam mais realistas que o rei e operam com termos irremediavelmente capitalistas, tais como exploração, dialética, regulação, trabalho, proletariado etc.
No século 21, o coração do capitalismo não é mais a fábrica, mas a empresa. Menos do que fabricar o objeto, o principal está em fabricar o desejo e a crença. A imagem chega antes do produto. O espetáculo, antes do consumo. A empresa não fabrica o objeto, mas o mundo em que esse objeto existe. O triângulo produtor-consumidor-produto existe nesse mundo. O publicitário torna-se o cérebro do sistema. O marketing, o seu motor. Não existe mercado – regido pela lei da oferta e da procura ou pela escassez. O que existe é a constituição de públicos, seguida de sua fidelização. A demanda não se subordina à oferta: é criada independentemente dela.
Hoje, o capitalismo coloniza o campo de possíveis, quer dizer, apreende os fluxos de desejos e lhes extrai lucro. Daí precisar de redes produtivas, as únicas capazes de inventar mundos e neles prender a atenção das pessoas. O trabalhador deve ser criativo e colaborativo, do operador de telemarketing à consultora financeira. Já o consumidor deve ser autônomo. Primeiro, para selecionar dentre a gama de produtos/mundos disponíveis. Segundo, para gerir ele mesmo o crédito (o campo de possíveis) e a renda. O indivíduo torna-se empreendedor de si mesmo. Espera-se que ganhe o suficiente para “investir” em sua saúde, educação, aposentadoria – atividades não mais consideradas serviços sociais, mas “investimento individual”.
Ora, pode-se objetar, a produção industrial não acabou nem perdeu relevância. Por um lado, 90% do valor de um tênis se devem à publicidade, 60% de um programa de computador ao copyright e 50% de um filme à pós-produção. Por outro, os mesmos tênis são fabricados por trabalho semiescravo na Birmânia e o hardware, em que roda o mesmo software, montado por subempregados no México. O recorte Norte/Sul prossegue e se deve ao chão-de-fábrica. Sim, responderá Lazzarato, isso em nada afasta a primazia do imaterial. Os mundos industrial e pós-industrial convivem e se combinam no grande sistema integrado do capitalismo. É só ver como muitos CEO de grandes multinacionais são recrutados no Brasil, inúmeros cientistas e pesquisadores na Índia, e não poucas crises financeiras disparam de países terceiromundistas.
Mas qual o problema disso tudo?
Sobretudo: não precisamos do capitalismo. Não é ele quem gera valor, mas as redes colaborativas das pessoas, na sua organização de fluxos e criação de mundos. O capitalismo fixa os fluxos e isola os circuitos dessa rede global, e assim acumula. Faz isso não por princípios intrínsecos (“leis econômicas”) do sistema, mas pela coação do direito. As patentes e o copyright põem os ovos de ouro das empresas. Mesmo que signifique negar acesso à cultura para muitos, ou então a cura da AIDS…
Além disso, ao mesmo tempo que tudo é possível, nada é possível. Tudo já foi inventado. Resta ao consumidor montar o seu perfil com as marcas e produtos oferecidos, nesse sonolento programa de variedades. O mundo vendido pelo capitalismo hoje é banal, entre a caretice sufocante do comercial de margarina e a cosmética biônica dos de cerveja. De que adiantam cem canais de TV, se do mesmo modo fazem-nos correr, entediados, um depois do outro?
Outros mundos são possíveis. Lazzarato propõe mudar a equação. Lutar pelo acesso universal aos direitos sem perder de vista a afirmação das mil diferenças e dos mil sexos. Igualdade não se opõe à diferença: propicia-a. Contra o capitalismo em um mundo só, multiplicá-los por mil. Para isso, o autor sugere uma “guerra semiótica”, uma “guerra estética”, uma disputa midiática dos públicos e dos processos de mobilização de sua atenção. Na nova “economia do sensível”, o ativismo cultural torna-se imediatamente político.
Ademais, ao contrário da postura cínica de parte da esquerda, não lutar pelo salário de poucos, mas pela renda de todos. O salário pressupõe a remuneração do assalariado por um serviço prestado, dentro da lógica empregatícia. Entretanto, as redes e fluxos operam transversalmente, por sobre os obstáculos impostos pela empresa. Nesse contexto, somente a renda de todos consegue ser justa na mesma medida em que fomenta a produtividade global. Esta pauta enfrentará a resistência das esquerdas “salariais”, que classificam a política de redes como assistencialista e precária. Portanto, desinteressada em deslizar da lógica industrial, essa esquerda faz a cama do capitalismo.
Maurizio Lazzarato espicaçou o marxismo em vários capítulos de seu livro. Mas como não vê-lo, revitalizado, nessa crítica tão perspicaz dos meandros do capitalismo? Com efeito, Marx analisou as relações de poder da nascente sociedade industrial, porém decerto teria alcançado outras interpretações e conclusões hoje. O marxismo é dos poucos sistemas que confessa a sua precariedade e vive em tenaz autocrítica.
Se o problema do marxismo não é Marx, mas os marxistas; o do pós-modernismo tampouco é Deleuze. O contrário do burguês não é o boêmio nem o acadêmico, mas o militante. Nesse sentido, graças ao autor, o encontro de Deleuze com Marx não foi somente feliz, na acepção spinozana, como incremento da potência, mas também um eloqüente chamado à luta a marxistas e pós-modernos.
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LAZZARATO, Maurizio, As Revoluções do Capitalismo, trad. de Leonora Corsini, ed. Record, 2006, 274 pág., Coleção A Política no Império.
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Veja também as resenhas de outros livros da mesma Coleção:

* Que aconteceu com o meu marxismo?, sobre Os Marxismos do Novo Século, de César Altamira

* O economista das revoluções pós-modernas, sobre O Lugar das Meias, de Christian Marazzi

* Amor e pós-capitalismo, sobre Commonwealth, de Antônio Negri e Michael Hardt

* Por uma esquerda pós-moderna, sobre MundoBraz, de Giuseppe Cocco

mar 2011 12

O que é ser de esquerda? o que faz um partido de esquerda? quais exemplos de governos de esquerda? esquerda x direita? esquerda x esquerdismo? qual o papel do militante de esquerda?

Existem questões que galopam para o campo do abstrato. Muito rápido, tornam-se exercícios rebuscados de estilo e argumentação, porém vazios de concretude. É como o castelo de cartas: montado para o aplauso, mas frágil.

Há quem negue a dicotomia esquerda x direita: a esquerda morreu e o que aí está não passa de farsa. Em parte, têm razão, mas só quando falam de uma certa esquerda.

Outros estabelecem-na de modo dogmático e maniqueísta, ou seja, moralizam a dicotomia. Estes também estão certos, mas só na medida que, com esse discurso, se posicionam à direita. Fantasmagórica Esquerda, essa que se reproduz com cacos de teoremas, teleologias redentoras, identidades (bate no peito pra dizer: sou de esquerda!), cosmovisões apocalípticas. Essa esquerda abstraída da materialidade das lutas, insensível às máquinas e circuitos do capitalismo. Essa que se rotula Esquerda como espírito de rebanho, com seus pastores e cajados. Ou como ressentimento diante de um inimigo injusto, identificar-se através do que se nega (moral dialética de escravos).

É preciso que a questão seja recomeçada mil vezes. Que seja reafirmado o primado do antagonismo, na ação e interpretação políticas.


Talvez melhor problema não seja o que significa ser de esquerda. Ou mesmo o que é a esquerda. O que importa é como devir esquerda.

Porque a esquerda vive. Na Praça Tahrir, em Túnis, em Madison, no carnaval de rua com suas máscaras de Ana de Hollanda e Tiririca, no trabalho imanente de uma multidão que produz e diferencia novos direitos. A esquerda afirmou a cópia livre, os novos modos de produzir da rede, o Wikileaks, a Wikipédia, o WordPress.

Inquietações:

Como recomeçar a esquerda? desestabilizar as histórias encarquilhadas? irromper as identidades sectárias? hibridizar, propagar, multiplicar? como articular os saberes minoritários?, como proliferar os afetos ativos? como intensificar o amor pelo distante, pelo retorno da diferença? como constituir e partilhar novos mundos, onde se afirmam direitos que não existiam? o que precisa ser dito que nunca o foi, como dizê-lo?, e como fazê-lo sempre um pouquinho diferente (pouquinho contudo que faz toda a diferença), para que o movimento se faça numa dinâmica expansiva e multitudinária?

Não sou de esquerda. A esquerda acontece em mim. É uma vontade que vem e plá, muda a percepção. Niilismo heróico convertido em revolta. O medo cede à uma dinâmica expansiva de autovalorização. Generosa, a revolta se concretiza contra a ordem rígida do mundo caduco. O destino se prova frágil, percebe-se que a hybris pode destroçá-lo. Escapa-se da História, de seu passado e futuro pré-definidos. Constitui-se um novo tempo: um tempo intensivo, uma outra civilização onde a existência é uma aventura.
A esquerda vem antes da direita, como a resistência antes do poder, a vida antes da morte, o infinito do finito. Defrontada com a criação de outro mundo, a direita reage. Por isso reacionária. Não pretende perder sua posição dominante na tribo. Nesse momento, do inevitável choque de forças, se destacam duas estratégias para a esquerda: a luta e o êxodo.
Luta quando o antagonismo ganha espessura dramática, e assim a tensa narrativa adquire contornos épicos. Dá-se a condensação de afetos e armas, é Praça Tahrir ou Outubro Vermelho, Canudos ou Maio de 68.
Êxodo para comprovar que, sem a vitalidade e o amor, toda a exploração colapsa. Recusa quando entra em greve contra os patrões, mostrando quem manda na produção. Recusa também pós-industrial, quando se produz à margem das corporações e indústrias culturais, como rede colaborativa.

Quando deserta para longe de uma região explorada, onde pretendem fixar mão-de-obra precária. São os nordestinos no Sudeste ou os árabes na Europa, dentre tantas diásporas constituintes. Quando não faz o jogo nos termos postos pelo inimigo, o prefiro não da enrolação sistemática do escrivão Bartleby, de Herman Melville.
out 2011 20

Publicado no Coletivo Amálgama, hoje.

O paradoxo é muito mais interessante que a ironia, que pode ser simplesmente uma fuga, um modo de escapar da responsabilidade. Homossexualidade é nela mesma um estado paradoxal de ser. Esse paradoxo é mais existencial e permite a você acessar a absurdidade da vida.
Bruce LaBruce, cineasta do queercore, nessa entrevista (pdf)

O movimento mudou bastante desde que os gays saíram em massa do armário, formaram comitês, se candidataram a cargos políticos e organizaram passeatas pelo mundo, nos anos 1960. As marchas da afirmação gay reúnem milhões de pessoas. Num processo gradual, a aceitação social ganhou as metrópoles e se alastrou às cidades médias e pequenas e ao interior recatado. O casamento e a adoção não são mais tabu, e se disseminam até nos países mais conservadores do planeta, como o Brasil. Aqui, já existem gays mais ou menos assumidos no parlamento, no poder executivo, nos tribunais, nas forças armadas. Veiculam-se cartilhas antihomofóbicas nas escolas. Declara-se com orgulho que “o Rio de Janeiro é gay”. Todo mundo tem — e a maioria se compraz de ter — não um, mas vários amigos e parentes gays. Enquanto isso, se consolidou todo um mercado particular de filmes, livros, roupas, bares, boates, motéis, academias, videolocadoras, produtos de beleza, pet shops, revistas para gays.

(…)

Continue lendo no Amálgama.

out 2011 25

Foto: Rodrigo Torres, do grupo Direito do Comum

 

Depois de três dias intensos de ocupação na Cinelândia, mais uns tantos de articulação prévia, e labirínticos debates online, vale pensar a partir da Acampada do 15-0 no Rio de Janeiro.

Antes de tudo: pra mim, está sendo a coisa mais sensacional do mundo. É um evento constituinte que deflagra novas verdades políticas, novas formas de viver a liberdade e agenciá-las. O salto qualitativo em relação às redes no facebook é estar ao mesmo tempo na praça e na internet.

Hoje à noite, coloquei-me à parte do circuito oficial de assembléias e grupos de trabalho (os GT). É incrível como o tempo das assembléias consome totalmente. Mas hoje, juntei-me a um grupo heterogêneo, que se encontrou para compartilhar experiências e inquietações. Foi uma espécie de pós-GT. Nele, pude presenciar em ação na praça figuras singulares, como o dérmico Patrick Sampaio, e Maurício Rocha, com seu charme deleuziano, entre outros.

Percebo que tenho em comum com outras pessoas certa insatisfação, que está no ar. Certo sentimento de insuficiência ante a forma predominante de organização e produção da acampada. Não falo do endereçamento de questões práticas, mas da questão política, que é tão essencial quanto.

Em primeira formulação, diria que é um desconforto crescente diante da obsessão em construir o consenso. Perante a importância conferida a coletivizar todo o processo. Essa afirmação quase dogmática que é necessário discutir tudo em assembléia, para que todos participem, que assim todos poderão tomar parte na decisão coletiva. Que somente a assembléia delibera em nome do todo. A discordância aqui não está no pode deliberar, mas nessa fixação no todo. É o fetiche do todo, como se o coletivo fosse a oposição ao indivíduo, seu ego, seus interesses privados e potencialmente antissociais. Como se o coletivo não fosse a própria condição de existência do indivíduo.

Essa insatisfação não significa uma dissidência, iniciar uma disputa intestina pelo poder. Não se trata (certamente não agora, tão cedo) de bombardear o quartel-general. Nem de tensionar ou nada disso que os mais apressados correm em tachar. Mas de compor outros modos de cooperar, criar e assim fortalecer o movimento. Esses modos já existem desde o início, minoritários, pouco pensados e debatidos. Está em habitar as margens, em devorar amorosamente a organicidade em construção.

A assembléia jamais se livrará do “quem somos, de onde viemos e pra onde vamos?” Parece presa a essa necessidade de recomeçar a todo momento o modo de se identificar como algo razoavelmente bem definido. Na necessidade de constituir-se. Uma pulsão de identidade. Uma necessidade de pertencimento, de fazer parte de algo maior (o todo), — e destarte se definir refletivamente, como parte do todo. A solução para os dilemas, até agora, se resolve na assembléia dita soberana, alfa e ômega da acampada no Rio. Algumas pessoas sentem que é isso que qualifica o movimento em Wall Street e do 15-M, o assembleísmo. Ontem, por exemplo, saí moído de um dia inteiro em debates e discussões atrás de consensos e pautas mínimas, para depois ser novamente moído em assembléia, para ampliar e passar tais consensos. Isso não tem como ser o esqueleto de uma democracia real, baseada no comum produtivo, mas meramente formal-deliberativa, fundada num método regrado e minucioso de discussão e decisão. Dissocia forma e conteúdo e, nessa manobra mesma, a questão política não pode emergir.

O fato é que não há consenso nem nunca haverá e nada de produtivo pode sair dessa busca. Não existe uma pauta consensual. Existem pontos em comum, mas não um consenso. Tentar formular esse comum por meio das assembléias apenas o exaure em palavras de ordem e slogans, como “anticapitalismo” ou “autogestão”. Essas palavras nada significam sem as lutas reais que as preenchem de sentido e potência de vida. E aí só o dissenso produz. O dissenso no sentido daquilo que nos distancia. Ser generoso com essa distância, amar o distante, cria o que não éramos e que não seremos.

Essa tentativa de responder à fixação de pertencimento — e, de certa forma, à grande imprensa que representa a sociedade na opinião pública, que pauta alguns mesmo que seja como negação — engessa o que o movimento tem de movimento. Fica estático: estatiza-se.  Assim, no futuro, pode começar a enrijecer estruturas de comando, que se mistificam em nome do consenso e do todo.E aí pode acontecer de a acampada fechar-se sobre si, refletir sobre si, como se houvesse um dentro, como se primeiro fosse necessário se definir (o dentro) para então se relacionar com as questões políticas do global e do local (o fora).

E aí acontece de exaltar a segurança do nosso espaço. Nosso cantinho querido. E também a abstrusa proposta, porém bem recebida, de reprimir práticas que a ordem estatal reprime. Justamente porque ela reprime, diga-se o que se quiser sobre estratégia e tática. E pretendem que as pessoas se policiem umas às outras, em nome do coletivo. Mas se pensarmos e agirmos como a polícia, nos tornamos polícia. Ipso facto. E uma onipresente, de vigilância e delação mútuas. Não existe alternativa à ordem que seja mais fascista do que a que propor uma sociedade em que todos somos polícia coletiva uns dos outros, em vez de um mundo em que não precisemos de algo como o policiamento.

Essas limitações ainda são muito incipientes e chega a ser injusto criticar a acampada, de dentro. Mas dá pra identificar tendências e riscos bastante reais. E que, portanto, precisam ser criticadas, precisamente para o movimento movimentar-se ainda mais. Essa crítica não é destrutiva. É propor a algumas pessoas, que estejam já com a inquietação, que deslizem das assembléias e dos GT, para produzir também noutro plano. E evitar ser consumido ao ecoar disciplinadamente falas atrás de consensos. Sim, é uma oficina para os que nunca saíram do condomínio, mas como exercício de democracia é quase nada.

Mas é claro que a acampada é muito mais, que corre em paralelo e mais além disso tudo, que é preciso identificar os agenciamentos e os excessos além das estruturas decisórias e pulsões de identidade, embora muitos dos mais ativos talvez não confiram tanta importância a essa margem. Penso que o caso é aproveitar e aguçar aquele excedente que transborda das dinâmicas, das muitas pessoas se encontrando e vivendo nas brechas e interlúdios da assembléia. Esse excedente, no fundo, é a própria acampada como acontecimento. Logo, é preciso fortalecer essas dinâmicas.

Por isso, o movimento não precisa se constituir. Ele não tem limites, não começou aqui e agora e vai terminar ali e mais tarde. É exatamente o que não se constitui nem tem contornos e, assim, incomoda e agride o poder constituído. Ele não tem um dentro, um o que somos e o que queremos. O movimento já está fora, já nasceu como um fora. Ele é a própria membrana entre dentro e fora. Ele já é constituinte nessa pele de cobra. Ele é rede (de afetos, de informações, de narrativas, de singularidades) em fermentação. Global enquanto repercute os afetos proliferados pelo que está acontecendo no mundo. Local enquanto atravessado pelas lutas reais e movimentos sociais da cidade do Rio de Janeiro, do Brasil, da América Latina. Por isso, ele já acontece, às escâncaras, antissistêmico, repensa por si mesmo as categorias políticas e contesta por si mesmo as políticas públicas, na dupla dimensão global e local. Quando nega isso, porque não há consenso, apenas nega que seja o acontecimento global e local que o dá vida. E assim se mortifica num assembleísmo do consenso.

Até as pedras do calçamento já sentem que se está querendo além da representação e da ordem político-econômica do modo capitalista, — na prosopopéia hiperbólica do Maurício, o militante dândi. Disse bem: o caso agora é como colocar os problemas, numa política sem vergonha de ser política. E isso passa, eu penso, pela própria forma de organizar e produzir , aliás, é isso mesmo o problema mais candente agora. Colocar bem um problema, colocá-lo politicamente, não só vence a dialética irresolúvel entre teoria e prática, bem como as armadilhas da dialética entre estratégia e tática, entre fins e meios. E colocar bem um problema passa pelo dissenso. E desse dissenso, a reconfiguração daquilo que deu a partida às acampadas em primeiro lugar. Portanto, sem dissenso, não se produz nada: será uma terapêutica e eterna discussão sobre o mesmo, o que somos, de onde viemos e pra onde vamos. Perda de tempo vivo, de trabalho vivo.

Repensar continuamente a acampada, também para deconstruí-la, para ir mais além, e sobretudo participar produtivamente, estar lá no excedente, na dimensão simultaneamente global e local da coisa, e focado na colocação de problemas políticos para um outro mundo, uma política nova e um direito novo, — eis aí o grande desafio.