fev 2011 15

O leitor considere esta uma crítica interna. Sou ateu hormonal. Tem gente que nasce gay. Eu nasci ateu. Nunca sequer cogitei a possibilidade de Deus existir. Nem imagino com que artimanha a fé se instale e funcione na cabeça dos teístas. Quando menino, as tentativas de converter-me no máximo tiravam risinhos e olhares de galhofa. O ateísmo púbere me levava a contestar colegas, familiares, professores. Arrogante, adorava me exibir com as razões prêt-à-porter contra a existência de Deus.
O Velho Testamento li com fervor. Despertava-me impulsos sádicos o protagonista fascínora e suas suculentas histórias de destruição, poligamia e assassinato em massa. Se um dia Quentin Tarantino adaptá-lo para o cinema, sugiro desde já Jack Nicholson para Deus. É o único ator capaz de fazer a gente gostar de um vilão tão depravado. E, se o Novo Testamento pinga menos sangue, vibrei na versão de Mateus, quando o messias anuncia que não veio trazer a paz e a harmonia, mas a espada e o conflito.
Com o tempo, aprendi a controlar os impulsos. Ainda assim, de tempos em tempos, algo lá no fundo borbulha e sofro de surtos ateístas. Desenvolvi uma estratégia. Aproveito-os chafurdando na ontologia. Com ela, aprendi a desenterrar a transcendência de seus inúmeros esconderijos — profundos ou prosaicos.
Portanto, sou ateu e muito ateu. Sou mais ateu que todos vocês juntos. Mas não compro a causa do ateísmo, em si mesma.
O ateísmo lembra a ecologia. Amiúde se apresenta como movimento político, mas não diz muita coisa na prática. Pode ser de direita ou de esquerda, conservador ou libertário, racista ou pró-minorias, cientificista ou espiritualista. Como o discurso verde, os gumes podem ser usados para libertar ou para oprimir.
Como se, na urgência das lutas, houvesse tempo e paciência infinitos para debater a metafísica do divino. Imagine se, pra começo de conversa, em cada tema tivermos de dissuadir as pessoas de sua fé, em vez de partir para o que interessa: aborto, casamento livre, direito penal, exploração do trabalho, drogas, racismo etc. Conquistar direitos importa mais, do ponto de vista político, do que tentar livrá-las do que lhes é tão íntimo.
Não critico o ateísmo militante por ser militante, mas por ser ateísmo. Como militância, funciona ao menos para deslanchar a pessoa na dialética pública, na advocacia política, nas técnicas de organização. Só a luta ensina. Afinal, numa geração de zumbis, como não incentivar o ativismo enquanto tal? tem gente que se inicia no ateísmo, outros no grêmio do ensino médio, outros no PSOL. É válido.
Tampouco sou daqueles chatos a clamar pelo “ateísmo saudável”. Ramerrame da moderação. Assim pretendem apagar o brilho luciferiano dos olhos ateus, calar o seu ódio, podar a sua revolta. O caso não é apaziguar o ateu, mas potencializar esse elã de modo eficaz. Trabalhar o excesso ao invés de negá-lo. Pois não se represam hormônios para zerá-los, mas sim para liberá-los no momento certo, na ocasião certa, com as pessoas certas.
Intrigante, por outro lado, a aparição de grupos de defesa dos direitos do ateu. Como se os ateus fossem uma minoria perseguida. Sim, tem gente que não confia em ateus. Mas, pelo fato de ser ateu, alguém: a) foi espancado ao passear pela Avenida Paulista?, b) teve a porta de seu dormitório estudantil queimada?, c) foi barrado de entrar em shopping?, d) apanhou em casa do cônjuge embriagado?, e) foi “confundido” pela polícia? por acaso, alguma vez alguém olhou feio pra você na rua, por ser ateu?
Chega a ser insulto, no Brasil, os ateus nos acharmos oprimidos. O máximo que vai acontecer é não ser votado. Será mesmo? Dos últimos três presidentes (contando a atual), dois são ateus. Claro, tem que ter malandragem na campanha. Se não tem, então por que se candidatou em primeiro lugar? Iria perder de qualquer forma.
Ademais, a militância atéia se mostra enviesada quando se depara com as polêmicas da vida real. Quando se discutem direitos, o ateu reacionário adora chamar os outros à ordem. Conclamar pela unidade do movimento, supostamente ameaçado de divisão por questões esotéricas. Lembrar do verdadeiro motivo da militância: a luta contra a ignorância do mundo. Pinta aquela palavra sectária: “divisionismo”.
Nesse sentido, recentemente um site mantido por “céticos” chegou a tripudiar de um outro por “vir se tornando um blog GLS” (!). Nome aos bois: a Central Ceticismo falando do Bule Voador. Justamente do melhor site do gênero. Em vez de ateísmo desbundado, o Bule Voador foca questões concretas, defende pautas de esquerda e se articula como movimento político. Basta conferir lá artigos de Eli Vieira, Rayssa Gon ou Eduardo Patriota, um contraexemplo ao que escrevi.
Então qual é o ponto?
Meus hormônios podem não concordar, mas a ideia de Deus não é incompatível com a democracia e a liberdade. No fundo, o problema não é a fé, mas a apropriação política do medo e da esperança. Menos a religião do que as pretensões políticas de salvadores, profetas e igrejas. O problema não é a relação pessoal com a divindade, mas a inscrição dela em regimes dogmáticos de autoridade e obediência.
A militância atéia enfrenta um falso problema.
Publicado originalmente no Amálgama, em 14 de fevereiro.
mar 2011 12

O que é ser de esquerda? o que faz um partido de esquerda? quais exemplos de governos de esquerda? esquerda x direita? esquerda x esquerdismo? qual o papel do militante de esquerda?

Existem questões que galopam para o campo do abstrato. Muito rápido, tornam-se exercícios rebuscados de estilo e argumentação, porém vazios de concretude. É como o castelo de cartas: montado para o aplauso, mas frágil.

Há quem negue a dicotomia esquerda x direita: a esquerda morreu e o que aí está não passa de farsa. Em parte, têm razão, mas só quando falam de uma certa esquerda.

Outros estabelecem-na de modo dogmático e maniqueísta, ou seja, moralizam a dicotomia. Estes também estão certos, mas só na medida que, com esse discurso, se posicionam à direita. Fantasmagórica Esquerda, essa que se reproduz com cacos de teoremas, teleologias redentoras, identidades (bate no peito pra dizer: sou de esquerda!), cosmovisões apocalípticas. Essa esquerda abstraída da materialidade das lutas, insensível às máquinas e circuitos do capitalismo. Essa que se rotula Esquerda como espírito de rebanho, com seus pastores e cajados. Ou como ressentimento diante de um inimigo injusto, identificar-se através do que se nega (moral dialética de escravos).

É preciso que a questão seja recomeçada mil vezes. Que seja reafirmado o primado do antagonismo, na ação e interpretação políticas.


Talvez melhor problema não seja o que significa ser de esquerda. Ou mesmo o que é a esquerda. O que importa é como devir esquerda.

Porque a esquerda vive. Na Praça Tahrir, em Túnis, em Madison, no carnaval de rua com suas máscaras de Ana de Hollanda e Tiririca, no trabalho imanente de uma multidão que produz e diferencia novos direitos. A esquerda afirmou a cópia livre, os novos modos de produzir da rede, o Wikileaks, a Wikipédia, o WordPress.

Inquietações:

Como recomeçar a esquerda? desestabilizar as histórias encarquilhadas? irromper as identidades sectárias? hibridizar, propagar, multiplicar? como articular os saberes minoritários?, como proliferar os afetos ativos? como intensificar o amor pelo distante, pelo retorno da diferença? como constituir e partilhar novos mundos, onde se afirmam direitos que não existiam? o que precisa ser dito que nunca o foi, como dizê-lo?, e como fazê-lo sempre um pouquinho diferente (pouquinho contudo que faz toda a diferença), para que o movimento se faça numa dinâmica expansiva e multitudinária?

Não sou de esquerda. A esquerda acontece em mim. É uma vontade que vem e plá, muda a percepção. Niilismo heróico convertido em revolta. O medo cede à uma dinâmica expansiva de autovalorização. Generosa, a revolta se concretiza contra a ordem rígida do mundo caduco. O destino se prova frágil, percebe-se que a hybris pode destroçá-lo. Escapa-se da História, de seu passado e futuro pré-definidos. Constitui-se um novo tempo: um tempo intensivo, uma outra civilização onde a existência é uma aventura.
A esquerda vem antes da direita, como a resistência antes do poder, a vida antes da morte, o infinito do finito. Defrontada com a criação de outro mundo, a direita reage. Por isso reacionária. Não pretende perder sua posição dominante na tribo. Nesse momento, do inevitável choque de forças, se destacam duas estratégias para a esquerda: a luta e o êxodo.
Luta quando o antagonismo ganha espessura dramática, e assim a tensa narrativa adquire contornos épicos. Dá-se a condensação de afetos e armas, é Praça Tahrir ou Outubro Vermelho, Canudos ou Maio de 68.
Êxodo para comprovar que, sem a vitalidade e o amor, toda a exploração colapsa. Recusa quando entra em greve contra os patrões, mostrando quem manda na produção. Recusa também pós-industrial, quando se produz à margem das corporações e indústrias culturais, como rede colaborativa.

Quando deserta para longe de uma região explorada, onde pretendem fixar mão-de-obra precária. São os nordestinos no Sudeste ou os árabes na Europa, dentre tantas diásporas constituintes. Quando não faz o jogo nos termos postos pelo inimigo, o prefiro não da enrolação sistemática do escrivão Bartleby, de Herman Melville.
jun 2011 29

Tenho acompanhado o debate iniciado pelo coletivo Passa Palavra com o artigo A esquerda fora do eixo. Desde a sua publicação, em 17 de junho, repercutiu em cerca de uma dezena de bons textos pela blogosfera. Há tempos não suscitava uma discussão tão aberta e provocativa, ao redor de um tema candente para a esquerda. Ponto para o Passa Palavra. Discute-se algo crucial: como organizar-se politicamente, como mobilizar-se de modo expansivo, como fazer a luta de maneira coordenada, potente e eficaz?

Neste artigo, que pretendo o primeiro de uma série, proponho-me a pensar ao contrário. Em close reading, repassar e problematizar os principais textos produzidos sobre o assunto.

Começo com o artigo inaugural e, no próximo, passo à réplica de Ivana Bentes, publicada no portal Trezentos.

I. A esquerda fora do eixo“, Passa Palavra, 17/06/2011

É pertinente a preocupação crítica com a burocratização e aparelhamento dos movimentos, que assim vão distanciando-se das forças sociais vivas, caindo numa lógica autofágica e, no limite, reinscrita no sistema de controle e exploração capitalistas. Acertada a preocupação crítica também ante os riscos de cooptação de movimentos sociais/ONGs/coletivos, quando o ativismo se aproxima demais, amiúde aliando-se às empresas e ao estado. Ao dissociar meios e fins, o velho dilema tática x estratégia geralmente encobre a domesticação, engessamento e eventual pacificação do movimento. No âmbito da organização do trabalho, costuma ser fatal. Disso já se sabe desde o exame por sociólogos marxistas do sindicalismo de modelo japonês, toiotista. Seduzidos pelo ideal de desenvolvimento e inovação tecnológica, tais sindicatos promoviam a ideologia da empresa, o esforço conjunto de chefes e operários, um modo de vida conciliado para o bem de todos. O sindicato acabava fortalecendo a divisão social do trabalho, em vez de denunciá-la e combatê-la. Esse modelo de organização se difundiu e está presente na maioria das empresas hoje (com muita incidência nas multinacionais), e se reflete na expectativa, num sistema de cobranças e gratificações, em que toda a vida do funcionário — como se veste, onde mora, o que consome, como se comporta, como se relaciona — deve estar, em última análise, subsumida à imagem coletiva da empresa. A moral da empresa (a “carreira”) se estabelece como dimensão principal do indivíduo.

De modo geral, compartilho com o artigo a percepção que a emergência de nova composição política nas lutas não deve afastar uma autocrítica quase jesuítica. Com muita razão, toda nova forma de organizar e resistir está exposta ao capitalismo. O modo de produção dominante e global não cessa de identificar essas novidades e passará a tentar reapropriar-se das dinâmicas. Se os novos grupos político-culturais se esforçam em constituir espaços alternativos à indústria hegemônica, ao mercado dominante e ao emprego formal subordinado; não devemos ser ingênuos, tudo isso também se torna alvo preferencial para a investida capitalista. Nessa linha, o Passa Palavra dá um recado útil: não sejam tão otimistas com o novo, não alimentem a ilusão que estão na crista da onda da história — como se a luta de classes tivesse terminado na ilha dos bem aventurados pós-modernos.  Isso não existe. A luta por autonomia, por libertação do trabalho e pelo trabalho, continua inclusive por dentro da cultura livre, das redes produtivas e das marchas das liberdades. Se o trabalho imaterial e cultural se coloca no centro da economia política, tanto mais será o palco das disputas.

O que se deve ressalvar ao Passa Palavra, contudo, é que reconhecer a ambiguidade dos movimentos 2.0 não pode significar desqualificá-los, nas linhas ou entrelinhas, como genéricos, vagos, vendidos, desviantes. Incomoda naquele artigo o apelo à tradição da “esquerda em geral”, o que me parece um argumento de autoridade. Aborrece a insinuação que tais lutas, talvez por contarem com “setores da classe-média”, estariam desviando-se da linha justa. Em um ou outro ponto, fica parecendo que os autores trazem um marxímetro à mão, — ou então inventaram um novo teste de tornassol, que, sem maiores análises, revela quem é de esquerda e quem de direita. O mundo real é mais complexo e acontece em cores. É preciso diferenciar rancor de rabugice.

Existem, — e é indisputável, — esquerda e direita, — porém jamais sem ambiguidades, vaivéns, contradições, contágios, pontos de fuga, estabilizações e rupturas. Perceber as contradições e aproveitá-las no sentido da libertação — eis aí uma boa tarefa crítica, logo, tarefa de militante, que é o portador do método “científico”. Marx dixit. Sou da opinião que a esquerda só pode ser potente — isto é, perseverar esquerda — quando reconhece a sua heterogeneidade. Quando admite a diferença em seu seio: a possibilidade de lutar por muitas pautas, sem perder de vista as opressões, explorações e expropriações do capitalismo. Multiplicar as lutas sem cair na cacofonia, e orquestrar-se como polifonia.

Portanto, por serem tão produtivas, tão inovadoras, tão vivas, por produzirem e circularem tanto valor, exatamente por essas redes político-culturais autônomas (ou semi-autônomas) darem tão certo, que as empresas engordam o olho e mostram as suas garras sobre os novos terrenos da produção e do trabalho vivo. Se não valessem nada, ninguém iria querer. O capitalismo sabe bem que o mundo se tornou 2.0, então não pode a esquerda ficar pra trás, muito menos renunciar ao campo. É por isso que a indústria cultural e a aristocracia “artística”, aliás, tomaram de assalto o ministério da cultura no governo Dilma, para ir contra essas dinâmicas de libertação. Pois de tão produtivas e autônomas, os ameaçam. Isso não afasta o fato que o capitalismo veio depois, num segundo momento, pra se apropriar das novas lutas e novos movimentos, para torcer o sentido à direita, para cooptar a organização e reconfigurar a composição técnica do trabalho. E daí as lutas, as marchas, as disputas teórico-práticas, tudo isso que resiste. Porque nunca houve pureza, nem se diz isso, nem ninguém proclamou sovietes e internet!. Ao redor das novas redes produtivas e da revolução 2.0, existe e continuará existindo antagonismo, noutras palavras, luta de classe: trabalho x capital, esquerda x direita, liberdade produtiva x comando, expropriação e controle social. O caso, então, em vez de considerar a batalha perdida de antemão, só pode ser mesmo resistir: o que também significa autocrítica, esquiva, reinvenção, reconstituição.

Se o Fora do Eixo, bem como todos esses movimentos de composição nova, — e se pode incluir aí, guardadas as particularidades, Túnis e Tahir no norte da África e o 15-M na Europa, — se eles terminarem capturados pelo capitalismo, terá sido a gente, a esquerda, que os perdemos, quero dizer, nós teremos perdido. Mas não perdemos, porque a luta continua com eles, através deles e neles.

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Próxima resenha, em breve: A esquerda nos eixos e o novo ativismo, Ivana Bentes, 22/06/2011

jul 2011 03

Continuo a série de resenhas deste blogue, a respeito do debate da esquerda, iniciado pelo coletivo Passa Palavra, com o texto A esquerda fora do eixo. Na primeira resenha do Quadrado, Sair dos eixos à esquerda (1), dialoguei com aquele artigo inaugural. Neste, passo à apreciação crítica da réplica de Ivana Bentes, no portal Trezentos, A esquerda nos eixos e o novo ativismo.

Quero agradecer: ao Pablo Ortellado, que incluiu o artigo anterior na cronologia ao final do texto no blogue dele, Capitalismo e cultura livre; ao Pìmentalab, que também organizou um catálogo abrangente sobre as ramificações da discussão pela blogosfera; e ao Matutações, que me replicou mais diretamente aqui e a quem pretendo retorquir em breve.

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II. A esquerda nos eixos e o novo ativismo“, Trezentos / Ivana Bentes, 22/06/2011

Numa primeira leitura, podem parecer deslumbramento as exclamativas e palavras em maiúsculas. Essa poética nada acadêmica tem razão de ser. Conhecida pela polêmica que travou contra a cosmética da fome no começo dos anos 2000, sobre filmes-de-favela como Cidade de Deus, a autora tem por referência o cinema de Gláuber Rocha. Daí o transe, à moda tropicalista. Daí a poética delirante, numa verborragia de conceitos, explosões retóricas, divagações e frases de efeito, esse deixar-se errar — tudo isso consiste numa estratégia discursiva.

Em A revolução é uma eztetyka, Gláuber defende que a poética revolucionária envolve a coordenação de uma didática e uma épica. Se a didática visa a informar e conscientizar as massas, a épica as estimula, ao apelar às forças mais instintivas do mito, da criatividade, do desejo. Didática sem épica produz “informação estéril, e degenera em consciência passiva nas massas e em boa consciência nos intelectuais.” Épica sem didática gera “o romantismo moralista e degenera em demagogia histérica”. Talvez aí se mova a autora, nessa brecha entre um discurso enfadonho e ressentido de “esquerda velha”, e a histeria romântica e demagógica de “esquerda nova”.

Descabe ao texto, de qualquer modo, a acusação de pós-modernismo débil. Isto é, esvaziado de lutas concretas e tendente ao lero-lero autofágico. Nos últimos tempos, essa acusação tem aparecido como causa célebre na pena de intelectuais preguiçosos, enjaulados em seus sistemas-mundo, incapazes de metabolizar novas teorias, prontos a vomitar razões pretaportês contra elas. Não é o caso, doutores, não há no texto do Trezentos nenhuma deriva indiferente de signos ou clima de ambiguidade generalizada, nenhum niilismo dogmático, ecletismo dândi ou relativismo modernoso. Primeiro, porque assume uma narrativa. Por sinal, etapista. Do fordismo ao pós-fordismo, percebe as transições, os vaivéns, as tendências, os nexos em termos de causa e conseqüência, as superações críticas, as reconfigurações do modo de produção. Segundo, porque admite a necessidade de constituir um sujeito político, de identificar e potencializar as articulações e os enrodilhamentos das lutas contemporâneas. Ora, que pós-modernismo mais estranho, com sujeito e com história e com revolução social…

Alguns anti-pós-modernistas deveriam mesmo era conhecer e estudar mais, deveriam beber o sangue do dragão e falar a língua dos passarinhos.

No tom glauberiano, o texto de Ivana Bentes responde ao coletivo Passa Palavra no nível da linguagem. Exprime poeticamente que a história das lutas não passa pela linha justa, por alguma dogmática unicamente didática. Mas por uma narrativa esburacada, multidimensional, cheia de fios soltos e coisas inacabadas, — uma narrativa que se debate com a linguagem mesma, atrás de uma alternativa ética, estética e política, simultaneamente. Isso é burilar um discurso que multiplique as lutas sem separá-las, sem perder a sinergia do movimento como um todo, a sua potencialização em comum. A teoria pode ajudar a derrubar os muros que separam as práticas, e a prática derrubar os que separam as teorias. Eis uma preocupação irrenunciável das esquerdas: renovar os modos de lutar e trabalhar e, assim, reinventar ainda outra vez a roda da resistência, para continuar girando.

O artigo no Trezentos sublinha: a resistência ao capital se dá  através da constituição de novas formas de produzir. O o que também implica, no campo do trabalho, uma nova articulação entre didática e épica, em suma, uma nova poética das lutas. Os movimentos sociais mais radicais serão, portanto, aqueles que souberem inventar e reinventar, criativamente, essas formas de trabalho vivo, de autovalorização e organização transversal, em rede. Se o capitalismo incide sobre o trabalho, para dele se locupletar, então trabalhar e produzir em certo sentido, de libertação, já significa imediatamente estar lutando, estar na luta de classe. Lênin nunca cansou de ensinar que uma política insurrecional depende da organização da produção.

Nisso, nesse mapeamento dos dilemas e desafios contemporâneos para as esquerdas, não há o que ressalvar na réplica de Ivana Bentes. Senão a insuficiência do artigo em avançar na crítica, de modo mais esclarecedor e concreto, sobre a práxis do Fora do Eixo. Pois esse coletivo arte-ativista tinha sido o exemplo tomado pelo Passa Palavra para desqualificar, de maneira mais geral, os movimentos político-culturais 2.0. Refiro-me aos movimentos e grupos aglutinados nas legendas cultura livre, cultura viva, pontos de cultura e cultura digital, que se empoderaram, inclusive com recursos públicos, ao longo do governo Lula, no ministério da cultura de Gilberto Gil (2003-08) e Juca Ferreira (2009-10). O exame tem de ser caso a caso, mas esse coletivo está no cerne da questão, pelo vulto, simbolismo e referencial prático. Essa análise concreta deve servir não para incensar uns e desqualificar outros, como etiqueta, o que nada acrescenta a nada. E sim para encontrar o ponto em que a luta se concretiza e range, em que a exploração e a resistência se chocam. Para, a partir daí, desse antagonismo crítico e premente, adotar estratégias que fortaleçam o sentido da libertação.

***

Vale ressaltar o novo, tão presente na argumentação dela, porque o novo aqui é, sim!, fundamental. Não pode haver processo revolucionário sem a descontinuidade. Toda ruptura implica a irrupção de algo que não existia. Que, aliás, sequer poderia existir, porque não lhe permitiam as condições de existência. Que, precisamente por não ter lugar na ordem vigente, é estimulado ao desejo inestancável de resistir e revolucioná-la. “A tradição não explica a ruptura”. Não é preciso pesquisar muitos momentos históricos para perceber como a esquerda não costuma renunciar ao novo. Paradoxalmente, e com todas as suas aporias, o novo constitui mesmo uma tradição das lutas. E se, ao capitalismo, tanto interessa se apropriar dele, silenciá-lo e lucrar em cima de sua passividade; talvez seja porque, de fato, no novo que se afirma e produz haja potência de vida e geração de valor. É aí que, quem sabe, devamos enxergar o sujeito político. Não deveria a esquerda, que resiste e canta, igualmente batalhar por esse novo? O novo desliza dos velhos problemas sem refutá-los, mas coloca novos problemas, novos horizontes de luta, novas e esquisitas alianças. É preciso reconhecer o prestígio do novo e, ao mesmo tempo, evitar terrorismos teóricos ou superstições deslumbradas. Por isso, menos que fundar uma religião do futuro e substituir o velho, o novo pode servir para reorganizar o velho de modo mais potente, para revitalizá-lo e seguir pensando e seguir lutando. Militantes querem, sim, algo novo e diferente. Como diria Clarice, algo ainda sem nome.

jul 2011 05

#Eblog. muito mais que virtual: Anticapitalista e libertário – Nota política da nova frente de luta de blogueiros e blogueiras de esquerda brasileiros, de que o Quadrado dos loucos participa sem renunciar ao senso crítico.

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Quem somos

O #Eblog é um grupo de blogueir@s de esquerda, unidos ao redor das bandeiras anticapitalista, antirracismo, antihomofobia, antimachismo, feminista, ecossocialista, em defesa dos povos indígenas e quilombolas, sobretudo pelas lutas cotidianas das trabalhadoras e dos trabalhadores pela emancipação de sua classe internacionalmente, que defende uma concepção material de democracia socialista, revolucionária, de baixo para cima feita, vivida e instaurada cotidianamente pelos de baixo, isto é, que não se restrinja à democracia capitalista liberal, sua liberdade formal e seus direitos abstratos.

Progressismo ou anticapitalismo?

O #Eblog não se propõe ser uma associação orgânica de “blogueir@s de oposição ao governo” (embora conosco possam atuar opositores/as de esquerda ao atual governo), ou uma associação jornalística extraoficial, mas um agrupamento de lutadores e lutadoras que, reunid@s numa frente de lutas comuns, pretende ocupar e resistir no caminho abandonado por forças outrora de esquerda.

A atual guinada liberal-conservadora do Governo Dilma, sob o argumento da “correlação de forças”, está acometendo parte da blogosfera que se coloca no campo de esquerda, e que, recentemente, assumiu para si o adjetivo “progressista”. Não negamos o fato de que a política também se faz no jogo de forças entre as classes sociais, na chamada “correlação de forças”, mas é preciso reconhecer o momento em que essa expressão se torna um argumento universal para se responder a qualquer questionamento e se esquivar de todas as críticas políticas. É preciso construir projetos políticos capazes de ir além da consolidação de burocracias e aparelhos, que acabam ficando pra trás do movimento das forças sociais vivas de resistência e luta em geral.

Propomos, pois, lutar por alternativas a essas práticas políticas, colocando-nos sempre à disposição de ações de luta unificadas em favor de bandeiras políticas emancipatórias em comum que vão para além da defesa deste ou daquele governo, este ou aquele partido, e sim de emancipações inadiáveis e urgentes. (…)

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