jun 2010 13

Texto de minha autoria publicado em Outras Palavras, em 20 de junho de 2010.
 
Déjeme decirle, a riesgo de parecer ridículo, que el revolucionário verdadero está guiado por grandes sentimientos de amor.” – Ernesto Guevara
Antônio Negri esteve no Brasil em 2003, na sua primeira viagem internacional depois de ser libertado da prisão, após cumprir pena na Itália por sua militância nos anos 70. Durante a década, fez outras viagens à América do Sul, para conhecer de perto os movimentos de transformação catalisados pelos governos de esquerda no Brasil, na Argentina e na Bolívia. Nessas ocasiões, ofereceu palestras, participou de congressos, foi entrevistado pelo programa Roda Viva, dividiu a mesa de debates com Gilberto Gil, defendeu sem papas na língua o governo Lula e lançou um livro em que discute diretamente a realidade social latino-americana (Global: biopoder e lutas em uma América Latina globalizada, 2005, em co-autoria com Giuseppe Cocco).
Não me esqueço de uma passagem marcante de uma dessas vindas. À noite no bairro de Santa Teresa (Rio de Janeiro), fora do circuito oficial de eventos acadêmicos, Antônio Negri prelecionava para um círculo de conhecidos sobre as nuances políticas de seu sistema-mundo. Lá pelas tantas, um artista performático presente interrompeu-o com impaciência: “Tá bom, Toni, mas agora fala um pouco do amor! Do amor!”. Tinha tudo pra resultar em saia-justa, mas o filósofo italiano prontamente passou a discorrer sobre o conceito de amor e sua importância capital dentro do pensamento de esquerda. Impressionou os presentes.
Tomando a sua obra, chega-se à conclusão de que não poderia ser diferente, pois o amor atravessa-a de ponta a ponta. Bebendo da inesgotável filosofia de Spinoza, em Anomalia Selvagem (1981) o amor já aparece como constituinte da potência revolucionária, a partir da multiplicação do desejo (cupiditas) e da força em desenvolvê-lo (vis). Tema desenvolvido posteriormente em dezenas de livros, muitos dos quais traduzidos para o português, como O Poder Constituinte, De volta, Kairós Alma Vênus Multitudo, O Trabalho de Dioniso, Adeus Sr. Socialismo, entre outros.
Nesse projeto, Commonwealth se propõe a inventar um novo amor.
Último livro da trilogia escrita a quatro mãos com Michael Hardt, – seqüenciando Império (2000) e Multidão (2004), – o livro saiu pela Harvard University Press no ano passado e ainda aguarda versão em português. O título não deve ser traduzido por “Comunidade”, mas por “Comum”– mas bem poderia ficar “Amor e Comum”. De fato, os autores declaram que o amor é essencial para a filosofia e a política. Sem ele, e sem a arte dos bons encontros que o favorece, não se pode falar em libertação e democracia. Constituir um novo homem e uma nova sociedade implica antes de tudo radicalizar o amor – no comum de formas de vida, bens, afetos, imagens e conhecimentos. “O amor é uma força econômica.” O amor não tem medida, é só excesso, vence a morte e opera a revolução, como princípio da organização (política) da produção. Eis aí síntese cúpida do livro de 433 páginas.
Para fazer bom proveito de Commonwealth, não é preciso recorrer à obra pregressa da parceria Negri e Hardt. O livro arremata os dois anteriores e amadurece as suas questões, problemas e conceitos. Se o robusto estofo filosófico é assegurado pelo intelectual padovano de 76 anos, a prosa fluida, simples e atlética é tributária de Michael Hardt – professor de literatura de língua inglesa. Indicado, portanto, para quem desgosta de penosos e herméticos livros de filosofia e concorda com Ortega y Gasset que “a clareza é a cortesia do filósofo.” Hardt, por sinal, é autor de uma das mais límpidas introduções ao pós-estruturalismo francês (Gilles Deleuze: um aprendizado em filosofia, 1993).
Voltando ao texto, Commonwealth resgata Dante e sua noção de vita nuova. Esta se realiza na comunhão de amor que mobiliza a cidade dos homens em busca da autonomia, da riqueza e da igualdade. Amor nada sentimental, que se desdobra ética, estética e politicamente. Cupidez que é causa e conseqüência, em ciclo virtuoso, da liberdade e potência de cada um, na sua combinação produtiva de desejos e afetos. Portanto, amor que passa longe da família, da carreira profissional e da nação – três vilões a bloquear o comum e expropriá-lo em nome de felicidades atrofiadas, impotentes e socialmente desiguais. A família corrompe-o pela exclusividade afetiva, hierarquia paternal, narcisismo filial e mecanismos de transferência de propriedade. A carreira profissional compromete-o pela alienação do trabalho, o individualismo, o controle patronal e a concepção unidimensional de tempo. E a nação pela homogeneização das diferenças, a imposição das maiorias, a xenofobia intrínseca e os ideais abstratos de glória, sacrifício e destino coletivo.
Com efeito, todo o último livro da trilogia pode ser lido como uma sinfonia, pautada pela repetição de motivos rítmicos e melódicos, ao redor do tema do amor revolucionário. Isto é, do comum. Commonwealth consiste assim num tratado de democracia radical, numa reedição contemporânea da Política arquetípica, dividida em seis partes densamente discursivas, entremeadas por seis ensaios mais leves e de imaginação livre (“De Corpore”, “De Homine” e “De Singularitate”, cada qual subdividido em dois capítulos). A orquestração retorna muitas vezes às mesmas cadeias argumentativas, porém sobre territórios discursivos diferentes, que vão da ontologia à antropologia, da filosofia da história à geopolítica, da ética à economia política. Logo, corta em diagonal os campos do conhecimento, em total transdisciplinariedade.
É impróprio falar em influências teóricas do livro, uma vez que não há compromisso com rigor exegético. Deliberadamente. Na realidade, perspectivista, o texto mobiliza autores amiúde contra eles mesmos. Trata-se de achar o “devir minoritário” do pensador que serve de referência. Esse conceito de Gilles Deleuze designa o procedimento de seleção de linhas conceituais periféricas, ocultas, menores no sistema de outro autor – o ponto de fuga é então por assim dizer repatriado em nova perspectiva.
Por isso, presente em Commonwealth um Karl Marx minoritário, extraído não da vasta ortodoxia socialista, mas dos marxianos Grundrisse – cadernos manuscritos, volumosos e não-publicados em vida, onde o autor aponta outras direções a seu pensamento. Daí a sintonia da obra com o materialismo transformador, a análise fina do estatuto do trabalho (atualmente pós-industrial) e a recusa à república da propriedade e aos direitos burgueses; mas ao mesmo tempo a dissintonia com a dialética histórica, a teleologia da ditadura do proletariado e teorias do colapso do capitalismo como evento transcendente, que vem de fora para abolir as classes por decreto. Estas teorias, aliás, são enfrentadas logo na primeira parte, sob a legenda “discurso apocalíptico”. Os autores têm como alvo principal o filósofo Giorgio Agamben – autor dos hits acadêmicos Homo sacer: o poder soberano e a vida nua (1995) e Estado de exceção (2003), – para quem somente uma ruptura radical, ontológica e messiânica poderia salvar a civilização ocidental de sua falência política. Negri e Hardt chegam a convocar o mitólogo Evêmero (IV a.C). No evemerismo, o foco em teorias escatológicas “eclipsa e mistifica as formas dominantes de poder que continuam a reinar hoje – poder da propriedade e do capital, poder respaldado pela lei”.
Também onipresente no texto negri-hardtiano um Michel Foucault minoritário, abduzido de seus livros e cursos do final da década de 1970. Neles, o professor do Colégio da França discorre sobre a matriz biopolítica do poder (ou biopoder), ou seja, um governo instaurado sobre os viventes e as populações, com base em saberes biológicos, médicos, psicológicos, estatísticos. Na esteira de outro intelectual, Gilles Deleuze, Commonwealth insiste no duplo sentido do poder na filosofia de Foucault. Se por um lado, a partir do vivente, o biopoder expõe, esquadrinha, controla e assim constitui o sujeito; por outro lado, a vida possui um rendimento positivo que independe daquele. Em síntese, a resistência biopolítica não aparece a posteriori do exercício do poder e não está enclausurada irremediavelmente em sua operação de captura. A resistência precede o poder, como a sua condição. Logo, o biopoder (opressão) não se confunde com a biopolítica (resistência). A resistência é primeira. Ontologicamente.
Em termos práticos: pode existir enfim uma saída, para contornar e subverter as malhas cada vez mais cerradas e abrangentes das sociedades de controle. Existe uma escapatória para o pensamento e a ação de esquerda, que não finde recodificada e domesticada pelo capitalismo. Existe uma alternativa para a modernidade capitalista – a altermodernidade analisada ao longo do livro. E essa saída não é ex machina, como o deus de mentira que irrompia no palco para salvar o dia, ao final das peças gregas. Para Negri e Hardt, não adianta reinventar a roda. Os movimentos de libertação já trabalham na construção do comum, num fazer multidão baseado em redes colaborativas, no trabalho imaterial, na militância glocal (global + local), na produção de renda por fora dos circuitos capitalistas de fixação/exploração do trabalho. A análise de Negri e Hardt não opera pelo lado do poder, mas sob a espécie da resistência: “As lutas pela liberdade determinam todo o desenvolvimento das estruturas de poder”.
Se para os apocalípticos e pessimistas de esquerda, há um buraco negro no horizonte, uma sociedade inteiramente submetida a dispositivos difusos e perversos de controle, para os autores a sociedade contemporânea vaza por todos os lados e é o poder capitalista quem padece de um impasse. Para produzir numa sociedade pós-industrial, o capitalismo precisa conceder liberdade e promover a produtividade imanente à vida. Mas essa mesma liberdade, potencializada pelo desejo, constituída no comum, articulada em multidão, inebriada de amor, pode dispensá-lo – violentamente, se preciso. É o drama de conter um lobo pelas orelhas: se soltá-lo, ele foge; mas se continuar segurando-o, ele morde.
O novo amor de que fala Commonwealth não se traduz por otimismos poliânicos ou entusiasmos ingênuos. Não é tampouco uma nova aposta pascalina: como se fosse preciso resistir porque não teríamos outra opção. Para os autores, o amor revolucionário significa que é preciso resistir porque é desejável. Porque queremos. E se não há garantias de que, resistindo, o amanhã será melhor, “reconhecer que essa contingência não deve levar a conclusões cínicas, a ignorar o fato que sim, é possível mudar a sociedade e a si mesmos”. Afinal, a grande felicidade, fazer tudo aquilo que somos capazes em comum, a beatitude de Spinoza, conquista-se politicamente na multiplicação de vida que é a própria revolução democrática.

NEGRI, Antonio; HARDT, Michael; Commonwealth, 2009: Harvard University, 433 pág.

jul 2010 08

O minotauro não foi aprisionado no labirinto. Exilou-se. Perseguido, constitui séria ameaça à ordem e à rotina. Insurgente, o monstro não teria chances exposto às falanges em campo aberto. O confronto direto não lhe seria favorável. Daí as sombras e desencontros como estratégia. E tampouco lhe interessa o hino de pacificação, nem as identidades apaziguadoras que são oferecidas. O minotauro aspira ao grande labirinto.
Por ordem de Minos, tratam de interditar os seus escritos, difamá-lo como besta, tachá-lo de devorador de criancinhas. Mas, na verdade, o minotauro não engole virgens e mancebos. Os jovens é que o procuram atrás de liberdade. O minotauro arregimenta-os. E, assim, corrompe a juventude, entre paredes grafitadas e átrios hedonistas, onde se cultivam a poesia, a pintura e o amor livre. Os corredores ornam-se de prateleiras com livros malditos e indexados pelo governo de Creta. Na entrada: “Vai, espírito livre!, ser gauche na vida.”
O minotauro é um revolucionário e conspira contra a luz, a medida e a mascarada dos poderes constituídos. Maquina com a sua rede labiríntica de cultura livre, disseminada por um território sem centro e sem dimensão precisa. Os espaços produtivos multiplicam-se, enquanto o labirinto se entranha desordenadamente debaixo da capital Cnossos. Até que a desrazão triunfa no coração da ordem e são abolidas as fronteiras. Luz e sombra fundem-se no claroescuro de sentidos e valores. A metrópole é engolfada pelo labirinto, que passa a inervá-la com o seu jazz, o seu improviso, a sua grande festa. Os bárbaros estão em todo lugar. A vida se torna uma aventura.
A metrópole já é o labirinto, enquanto o teatral Rei Minos se remorde de ressentimentos golpistas. Invoca Teseu, o choque de ordem. Matador de monstros, agente da medida, herói da moral. Indivíduo sem imaginação! o minotauro é o poeta-político, Teseu o demagogo repressor. Quer fazer do minotauro o hilota bêbado, exibido como contraexemplo para a juventude cretense. Não passa de um cretino maquinalmente armado, a percorrer o labirinto na sua pulsão de morte. Mas jamais encontra o monstro.  É impossível encontrá-lo. Porque ele está em cada rua e cada praça, a monstruosidade difundiu-se por todos os lugares. Então Teseu sucumbe, cercado pela multidão interminável.
Porque, agora, somos todos minotauros.


Inspiração no minotauro de Cortázar (na peça Os Reis) e Borges (As Casas de Asterion), e no trabalho de mestrado em artes (UERJ) de Paula Ávila Kepler.

out 2010 12

Dilma nas versões LGBTT e Black Power
Durante o período de convalescença do SWU Music and Arts Festival (estimado em 48 horas), sem energias para fluir o texto, deixo a super-dica do site do Movimento Dilma é Muitos!, organizado pela rede Universidade Nômade, de que participo. Lá, têm artigos, estampas, comparações, paródias, vídeos, estatísticas e toda sorte de material para a campanha internáutica da candidata que o blogue apóia. É um genuíno think tank da militância dilmista.

jan 2011 09

A democracia das redes.
Semana passada, estava no MSN com o Danilo, do blogue O Inferno de Dândi. Falávamos de democracia e militância pela internet e, lá pelas tantas, pintou a expressão “tipo um comunismo das redes”. Em parte, isso motivou um texto dele no Inferno: Internet: a teia rebelde que conecta. Sigo o exemplo e coloco aqui a minha reflexão a respeito.
“Comunismo das redes” é uma expressão boa demais para ser inédita. Guglando vê-se que não é. Em 2007, Fábio Malini, midialivrista e professor universitário, publicou um artigo intitulado O Comunismo das Redes: sistema midiático, p2p, colaboração em rede e novas políticas de comunicação na Internet.
Nele, Fábio explica como se desenvolveu um novo modo de produzir a partir das redes sociais. Em vez da organização hierárquica e compartimentalizada tradicional, nas redes colaborativas a produção se dá horizontalmente, numa vibração conjunta de nós equipotenciais. Em vez do trabalho subordinado e “em equipe”, chegou a hora do trabalho comum, em que todos produzem e consomem, numa troca superveloz de informações e experiências.
Não se trata apenas da dinâmica da internet, mas de todo o sistema global de produção, também conhecido por pós-industrial ou pós-fordista. As empresas hoje dependem da rede de informações (análise de demanda, perfil do consumidor, feed-back etc), da network de parceiros e fornecedores, da constituição e fidelização de públicos, cada vez mais dispersos e volúveis.
No produto, predomina o valor intangível: a marca, a publicidade, a “mensagem”, o visual, o selo “verde” ou “light” ou qualquer outro referencial ao consumidor; — e não mais o valor da matéria-prima e confecção, cuja participação no preço final é menor. A imagem chega antes do consumo.

Mas quem produz todo esse capital simbólico? Nós mesmos: na criatividade e comunicação, na partilha de mundos. As empresas vêm depois pra se apropriar dessa produtividade, fazendo dos desejos da multidão um produto de  (sua) marca.

Portanto, hoje, as empresas precisam se apropriar da produtividade imanente à comunicação social, e codificá-la em mercadorias. Nisso, a internet assume cada vez mais o papel central. Só que, veja você, essa apropriação não se dá por uma necessidade intrínseca ao sistema. Quero dizer, no passado, na sociedade industrial, se dizia que para fabricar objetos era preciso concentrar capital e investir nos meios de produção. 
No século 21, não mais. A fabricação muitas vezes nem ocorre mais na empresa. É terceirizada e globalizada, uma “externalidade”. Pois esse momento “material” vale menos que o capital “imaterial” (marketing, desejos, imagens) investido no produto. Então como a empresa justifica a apropriação (o lucro)? Por meio de monopólios, obtidos politicamente do estado e consolidados pelo direito: copyright, proibição da cópia, concessões estatais de comunicação, limitações da liberdade na internet.
É por isso que a Microsoft desacredita e combate o software livre e o código aberto (como o Linux), e se vende como qualidade superior, cobrando “para a felicidade de seus usuários”. A mesma Microsoft sobrevive da difusão global de conhecimentos e informações, que a empresa incorpora em produtos exclusivos. Faz isso pela via do copyright e da publicidade, e não por alguma qualidade irrepetível. Do mesmo modo, um canal de televisão converte conteúdos em ibope, menos por seu “padrão de qualidade”, do que pela via político-jurídica. Isto é, das concessões estatais e do monopólio sobre transmissões estratégicas (ex.: jogos de futebol).
O “padrão de qualidade”, a “felicidade do usuário” e factótuns semelhantes buscam legitimar um monopólio que não tem razão real de ser, senão como manutenção de privilégios.
Tudo isso vai pro beleléu com o comunismo das redes. Não preciso mais perguntar: o que vou ver hoje na TV? Não. Agora posso fazer TV. Posso lançar o meu videologue. Se chamar a atenção, irá bombar no youtube, e terá milhares, quiçá milhões de acessos. E mesmo não se tornando viral, de qualquer forma serei mais uma voz ativa na multidão. Se juntarmos o efeito conjunto dos milhões de blogues e videologues e sites e tuíter, estamos “roubando” a audiência do Jornal Nacional (que aliás vem despencando). Chama-se efeito cauda longa.
O que muda com a difusão da produção em rede?
Em primeiro lugar, o fim do jornalismo como o conhecemos. O comunicador deixa de ser o empregado da redação, funcionário de carreira, vinculado às linhas editoriais definidas pelos donos do veículo. A liberdade de imprensa torna-se finalmente viável. A democracia implica ir além do modelo privado e do modelo estatal. Porque são irmãos siameses, dependem-se mutuamente num nível fisiológico. A TV Globo também é estado.
Em segundo lugar, em termos culturais, multiplicam-se os protagonistas. Quantos músicos e cineastas não estão sendo formados agora mesmo, graças ao acesso geral a inúmeros  filmes, canções, revistas, diretores, bandas, estilos e todos quantos? A web 2.0 potencializa a produção e circulação de fotos, áudio, vídeos , design etc. Ao mesmo tempo, nunca se leu e escreveu tanto. O tuíter está aí para provar. Quantos não serão blogueiros-artistas, publicando conteúdo em myspace, facebook, wordpress, orkut? Quantos escritores concisos e aforísticos a tuiteratura não vai germinar? Escrever e debater em 140 caracteres é uma experiência engrandecedora e deveria ser incentivada em todos os níveis do ensino.
Não existe “classe artística”. Como se produzir cultura consistisse numa atividade esotérica, especial, separada dos trabalhadores “comuns”. Todos podemos ser cidadãos-produtores e, de fato, somos. Já dizia Henry Miller: “Quero ser artista; logo, sou artista.” Mais do que isso, criar e difundir se realizam como condição e efeito da cidadania. No seu sentido material: potência em ato. Juntos, podemos inventar o mundo que desejarmos e não mais vivermos no universo formatado pela publicidade e vendido pelas empresas: achatado, sem graça, previsível, cosmético, unidimensional, fechado à inovação.
Em terceiro lugar, tem-se a chance de cada um gerar a sua renda à margem do emprego formal e das corporações. Eis uma liberdade radical: nem escravo do mercado nem do estado. Significa sobrepujar a divisão fundamental do capitalismo, que separa tempo livre (lazer, secundário) de tempo de trabalho (produção, primário). Se o cidadão-produtor for capaz de organizar-se produtivamente, se puder reunir forças para viver na precariedade, atingirá o nirvana comunista: fará o que bem entender e assim ficará (muito) rico, produzindo para todos. Daí como é central a questão da sustentabilidade. Idem a questão da cópia livre, que assegura a difusão dos conteúdos e sua mixagem.
Em quarto lugar, surge uma nova forma de organização política. Antes, procedia por coletivos mais ou menos orgânicos, com militantes razoavelmente profissionais. Porque o trabalhador “comum” não tinha tempo para deslocar-se o dia inteiro e comparecer à agenda infinita do ativismo político e suas reuniões intermináveis em domingos ensolarados. 
Agora, qualquer um com um computador e internet pode militar nas mais diversas agendas políticas. Coordenar-se em múltiplos movimentos não só dentro da net, mas sobretudo com as repercussões fora dela. Antigamente, a militância funcionava como a escola de samba: ordenada, disciplinada, hierárquica. Agora, é o bloco de rua. Mais criativa, mais heterogênea, dá margem a mais “anomalias”. E, convenhamos, é muito mais divertido. Quem é repelido pela pobreza e caretice da vida política nas militâncias “duras”, venha para a experiência mais carnavalesca das redes.
Além disso, quem produz nas redes sociais é imediatamente um militante. Contribui para o efeito cauda longa e toma ibope da imprensa velha e da cultura velha (identitária). Faz circular a riqueza dos conteúdos, o que já é por si só geração de valor. O caso não é mais tomar o poder do estado para fazer a revolução, e sim constituir um novo mundo, um novo campo de possíveis. Possibilitar novos espaços de liberdade e direitos. O movimento social não se limita mais a pressionar o governo, esperando concessões, mas deseja e constrói ele mesmo a sua realidade.
Vejam-se as tentativas de “regulamentar” a internet, no Brasil (batizado “AI-5 digital“) e na Venezuela. Vêm a posteriori para impor restrições, codificar a circulação de informações, criminalizar. A multidão constitui novas liberdades e só depois, num segundo momento, o poder constituído aparece para controlar e lucrar em cima. É que o estado não concede direitos. Reconhece-os depois de criados e afirmados, pela multidão. Afirmá-los, ou seja, brigar pelo que é nosso, consiste em exercer o direito de resistência, o poder constituinte que permanece atuante num regime democrático.
Uma boa metáfora para o novo ativismo é o enxame. Não possui comando central ou direcionamento superior. Mas tem a sua inteligência. O enxame adensa e dispersa em função de situações concretas. A rede difusa possui as suas atuações momentâneas.  Ataca ao convergir sobre o alvo de muitas direções. Quem já experimentou o dissabor de ser atacado por abelhas sabe o quão irresistível é o enxame enfurecido.

Realizar a democracia hoje passa pela mobilização produtiva, pelo enxameamento. Criar valores tornou-se um ato tão político quanto disseminá-los. É preciso também devorar os conteúdos publicitários, como um enxame de gafanhotos, devolvendo-os para o campo de possíveis da vida. Fluxos e redes: palavras-chave para as velocidades de nosso tempo. Uma inédita sensibilidade ético-política: juntar os fios e trançar uma rede.  Vibrar um mundo novo, de renda autônoma e liberdade viva.

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O leitor pode se interessar pelas resenhas abaixo do QdL. Nelas, aprofundam-se algumas das concepções deste artigo:

* Pode sair coisa boa quando Deleuze encontra Marx?, sobre As Revoluções do Capitalismo, de Maurizio Lazzarato

* Que aconteceu com o meu marxismo?, sobre Os Marxismos do Novo Século, de César Altamira

* O economista das revoluções pós-modernas, sobre O Lugar das Meias, de Christian Marazzi

* Amor e pós-capitalismo, sobre Commonwealth, de Antônio Negri e Michael Hardt

* Por uma esquerda pós-moderna, sobre MundoBraz, de Giuseppe Cocco

jan 2011 29

Já escrevi, noutro lugar, que debater em 140 caracteres constitui uma experiência engrandecedora. Poderia ser aproveitada em todos os níveis do ensino. Em espaço tão curto, não dá para se delongar em explicações do passado, influências do meio, contextualizações.  A síntese virtuosa se impõe. Assim, cada personagem se engaja inteiramente no presente dialógico. A sua virtuose não se predetermina por formatos ou regras rígidas. Adapta-se criativamente, explora os recursos expressivos e eleva a qualidade poética do texto ao máximo.
O tuíter é tão educativo não só pela exigência de concisão e criatividade, mas também pela possibilidade de outras pessoas aderirem ao debate. A discussão pode começar singela e, de um golpe, se converter numa rizomática hashtag, desdobrada em subtemas, com dezenas de debatedores. Uma colaboração dinâmica que, menos do que forjar consenso, multiplica pontos de vista e cerze alianças e discordâncias amiúde inusitadas. Traça-se assim um reflexo vivo do estado do debate, das limitações e contradições do presente, no corte de alguns minutos ou horas. Desenvolvem-se extensivamente, em contiguidade e conflito, matérias das mais diversas. A arte no tuíter está, portanto, em apreender essa diversidade dialógica, em lidar com essa multidão de palavras e argumentos. Reside em reconstruir a textura polifônica de um debate vivo — em toda a multiplicidade irredutível de vozes.
Nada mais saudável, a democracia se concretiza no dissenso. Afinal, se os mundos das pessoas não fossem diferentes, não poderia haver partilha — não passaria de uma sonolenta comunhão, um grande ooommmmmm. Ou então um mundo unificado pela “opinião pública”, isto é, pela sua vocalização exclusiva por determinados “formadores de opinião”.
Daí muitos “opinadores profissionais” da imprensa tradicional se incomodem tanto com tuíter (e blogues, facebook etc).  Em nome de um jornalismo que não cola mais e que fala de si para si, desdenham do que seria um pseudojornalismo, um planeta bárbaro, uma boataria sem fim ou fonte confiável. Porém, a força do tuíter consiste, precisamente, em participar de um mundo pós-jornais, onde a “opinião pública” se dissemina transversalmente. Sua virtude está em fortalecer a horda, em que cada cidadão age como nó emissor e receptor da teia comunicativa da sociedade.
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Aproveito para reproduzir um diálogo em 140 caracteres, de hoje, com Raphael Tsavkko, do Angry Brazilian, e Michel Hulman:
Tsavkko @hulmann A esquerda prefere 1 pensar no bem do povo e depois na democracia pregada pelas potências, simples.
Hulmann @Tsavkko P mim, não há regime que possa justificar a barbárie; ao contrário da esquerda, q mantém sites e blogs alternativos p dizer q 2+2=5

BrunoCava @Tsavkko @hulmann Esquerda é por partilha livre dos mundos. Direita quer botar preço, vedar, punir. São posições dinâmicas, não identidades.

BrunoCava @hulmann Capitalismo e socialismo real não são opostos à barbárie. Esta se instala no seu coração. É o Cel Kurtz em “Apocalipse Now”.

Tsavkko @BrunoCava O engraçado é q a direita acha q a esquerda defende incondicionalmente Cuba. Não, criticamos, @hulmann  
Hulmann @Tsavkko Coréia do Norte, China, Vietnã… são tantos exemplos de sucesso do socialismo… =(

Tsavkko @hulmann Mas bem mesmo vai a África! Lá sim vemos as maravilhas do Capitalismo em ação! Egito, bela ditadura capitalista então!

Tsavkko @hulmann @BrunoCava mas tb ñ acreditamos na “democracia” que querem impor.

BrunoCava Não vejo porque repetir os erros do socialismo e do capitalismo. Quero cometer erros novos. Nossa geração pode criar algo ainda sem nome.

Hulmann @Tsavkko A vdd é q a esquerda quer democracias capitalistas, p que possa operar livremente p torná-las ditaduras comunistas. #esperteza

BrunoCava @Tsavkko Não acho que exista _a_ esquerda. Existem mil esquerdas, mil lutas, mil situações concretas em que o campo político se divide. 

BrunoCava @hulmann O socialismo real fracassou na URSS e as pessoas desertaram dele. Agora é hora de desertar do capitalismo, Viver mundos livres. 

Hulmann @Tsavkko Ah tá! Então Cuba não é uma ditadura? Vou jogar na lata de lixo 4 anos de Ciência Política. O q é uma ditadura p vc?
Tsavkko @BrunoCava Sme dúvid,a tem até quem defenda Coréia do Norte e seja saudoso do diator da Albânia… Maluco tem em qqr lugar… 
BrunoCava @Tsavkko @hulmann Esquerda é por partilha livre dos mundos. Direita quer botar preço, vedar, punir. São posições dinâmicas, não identidades.

BrunoCava @Tsavkko @hulmann A luta hoje não é entre socialismo x capitalismo, mas por uma partilha pós-capitalista e pós-socialista dos mundos. 

Tsavkko @BrunoCava A esquerda precisa de uma renovação, superar ñ o Socialismo, mas os meios fracassados.  

BrunoCava @Tsavkko Nem capitalismo, nem socialismo, nem internacionalismo. Hoje se pode concretizar um comunismo global.

Tsavkko @BrunoCava Sim, mas ñ significa que o Socialismo, enquanto utopia, este superado, apenas os modelos tradicionais de “chegar lá”.  

BrunoCava @Tsavkko Não dá pra apostar mais no “socialismo em um mundo só”. Esquerda nova multiplica mundos, desejos, potências, lutas.

Tsavkko @BrunoCava Temos de incorporar novos elementos e até novos anseios, mas a utopia da igualdade e da liberdade permanece. #Socialismo  

BrunoCava @Tsavkko A utopia não é socialismo, mas comunismo. Só posso acreditar numa utopia entranhada no real e vivenciada agora. Não existe amanhã.


BrunoCava @Tsavkko Desertaram do socialismo real pq o capitalismo era mais atraente. Hoje surge um mundo mais atraente que o capitalismo. Eis a luta.

Tsavkko @BrunoCava E o q vc vê pela frente?  

BrunoCava @Tsavkko Esquerda valorizar desejos, prazer, consumo. Capitalismo não gera isso — vem depois, produz escassez, bota preço e acumula. 

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