jun 2010 16

ago 2010 09

Não se vota em candidato. Vota-se na força política de que o candidato é expressão.
Dilma (PT) e Serra (PSDB) representam forças históricas, têm projetos, e a sua diferença é mais do que problema gerencial. Santa Marina (PV) não apresenta projeto, mas pre(con)ceitos morais e chavões beatos. Troll Plínio (PSOL) não apresenta projeto, mas discurso socialista de butique e muitas pedras.
Dos dois projetos concretos, voto Dilma porque vejo o governo como catalisador da mudança firme que vem atravessando a sociedade em todos os frontes, numa mescla eficaz de pragmatismo e agenda social, de jogo com o sistema internacional e afirmação terceiromundista e sul-americana, de aprendizado histórico e inovação programática.
O Brasil hoje é um devir no mundo, e não à toa exemplo para as esquerdas descentradas dos cinco continentes.
Se se concretizar, a vitória de Dilma inaugurará um novo ciclo de lutas, por dentro da esquerda, a fim de aprofundar a transformação.

(exercício de concisão)

ago 2010 28

Dilma Pop Art.

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 Fonte: Diário Gauche.

set 2010 10

No final de junho, o estudante goiano Paulo Reis postou no youtube a performance DILMABOY. É uma extravagância paródica “dance-pop-kitsch”, que remete a Lady Gaga, Lacraia e Ronaldo Ésper (só pra começar), em apologia à candidatura de Dilma Rousseff e deboche à de Serra (destaque ao verso “E sua secretária vai ligar pra você”). Com esse vídeo, Paulo obteve 250.000 acessos, tornou-se viral e foi contratado pela campanha da candidata. Há quem atribua o sucesso à vulgata “americanizada”, à alienação das massas, à futilidade das novas gerações, à despolitização da disputa eleitoral, hoje em dia esvaziada e reduzida a chavões, slogans, numerologias,  frases de efeito e marqueteiros baratos.

Alegria militante, orgulho gay e pastiche pós-modernista em DILMABOY (Paulo Reis)
Não penso assim. Se, de acordo com a teoria cultural, no pós-modernismo se generalizam a hibridização, o pastiche, a fluidificação, então Dilma Boy expressa bem o clima existencial da época. Desde pelo menos os Beatles, Warhol e o tropicalismo, o Pop rejeita a profundidade metafísica e se entrega a uma espécie de superficialidade consciente — a uma arte de intensidades fugazes e prazeres epidérmicos, que transita sem preconceitos pela cultura de massa.
Tem quem rejeite a pós-modernidade como conceito, ou então a considere mera nota de rodapé da obra de Nietzsche. Até concedo, sabe. Porém nada elide o fato de que a aceitação generalizada dessa pseudo-pós-modernidade produza, independente de sua validade interna ou rigor histórico, uma certa atmosfera cultural, uma mobilização de autores e obras e movimentos. Isso se pode chamar, creio eu, pós-modernismo (aqui estou com o crítico Terry Eagleton).
Despreocupando-se com idéias grandiosas, o pós-modernismo assume um tom (auto)irônico, quiçá jocoso, ao mesmo tempo em que embute um ceticismo quanto às grandes narrativas, verdades e ideologias, tão atuantes nos séculos 19 e 20. Assim, fica feio adotar discursos grandiloqüentes, aspirar à natureza universal do homem, promover utopias políticas. Este o cinema de Tarantino, a música de Oasis e The Raconteurs, a literatura de José Agrippino de Paula. A força da obra pós-modernista reside menos em inovação formal ou em metafísica oculta ou em manifesto utópico (itens tão caros à arte moderna), do que na habilidade de combinar e sintetizar significados e afetos, disseminando-os de modo imanente à cultura de seu tempo. Nada se cria, tudo se movimenta.
Como efeito, abole-se a separação entre arte elevada e popular. Todo o tropicalismo brazuca e a arte conceitual lutaram contra essa dialética, ao revalorizar objetos do cotidiano, elementos da publicidade, bem como o kitsch, o mau-gosto, o cafona. 
Daí a tarefa do crítico de arte mude de figura. Não é mais, por exemplo, praticar uma cinefilia de butique ou dedicar quarenta laudas sobre um quadro pós-impressionista. Agora, trata-se de dar à televisão, ao videoclipe, às técnicas de marketing, a mesma importância que sonetos de Camões, romances de Tolstoi e filmes de Jean Renoir. É mais relevante analisar como discursos e práticas circulam pelo corpo social, independente do formato atribuído: filme, peça de teatro ou comercial de televisão.
Os críticos do pós-modernismo tendem a imputar-lhe um relativismo moderninho, uma ausência de crítica real, uma rendição precoce à sociedade de espetáculo, consumo, pós-fordista e quejandos. Sucumbe-se à banalidade e se exime do distanciamento que permite a crítica, na sua (supostamente) imprescindível dialética negativa. Embora, dizem esses detratores, o pós-modernismo possa servir para interpretar a realidade, padece da impotência para transformar o mundo e politizar os debates hodiernos. Vivem-se em conseqüência os tempos de pensamento mole, da dissolução do sujeito político, de romantismo indie. E o materialismo? La nave va.
Repito: não penso assim.
Em primeiro lugar, por não não acreditar nos tais males da sociedade de consumo. A vida também é a tentativa mais ou menos desenfreada de consumir os desejos. Se somos realmente movidos por uma usina inconsciente deles, e nos movemos na vida tecendo afetos para mobilizar e concretizar tais desejos, então qual o problema do consumismo? O próprio ismo aplicado ao consumo me parece tolo. O marxismo é pra dividir a riqueza e não a pobreza. É comida, diversão e arte — tudo junto.
Não me esqueço de um debate no movimento estudantil, quando esquerdistas (jamais esquerda) diziam que o pobre não precisava de TV de plasma ou celular de último tipo, mas de comida e educação. Por acaso, a debatedora, branca e classe-média, portava um ipod bodoso, ostentava um cabelo e$covado e hidratado, e exibia em seu vestuário diversas grifes.
E não me esqueço do artigo Consumo, Logo Existo, de Frei Betto, que se sustentava, essencialmente, no argumento de que “quem trouxe a fome foi a geladeira”. Síntese do problema: antes o pobre tinha dinheiro para farinha e feijão, mas aí manipularam-no para querer também o refrigerante e o sorvete… É inacreditável, mas o militante pastoral defende que, quanto mais bens geramos e consumimos, mais pobres ficamos. Não à toa, cite o filósofo Jean Baudrillard, o mesmo que, no livro Sociedade de Consumo, denuncia o tal consumismo contemporâneo. Bom mesmo deve ser viver de sandálias e sobreviver dos frutos da terra, como bom franciscano.
Boa a resposta sutil do presidente Lula, logo em seguida, ao discursar que o pobre não quer só pão e circo, mas também geladeira e cultura. O pobre também deseja! Melhor ainda a réplica mais direta do filósofo Rodrigo Guéron na Revista Global Brasil. O artigo se chama Da fome à vontade de comer: a mais-valia da vida, e pode ser encontrado online no número 8 da publicação (pág. 40). 
Em segundo lugar, porque não subscrevo a separação que fazem entre arte genuína e discurso da publicidade e da “mídia”. Qual nada! tudo é mídia, tudo é publicidade, tudo é produção de discurso e ato performativo, simultaneamente. Essas separações sempre e sempre partem de concepções fechadas, normativas, sobre arte e política. Quer atacando o seu suposto tom banalizador, quer panfletário. Tais purismos confinam com hierarquias e sistemas de validação, diletantes ou ideológicos. Em ambos os casos neutralizando a arte de sua penetração na vida, elevando-a à esfera intocável, quase sagrada, fora e protegida das agitações dos meios de comunicação, do fuzuê das turbas ignaras.

Penso que a crítica pode operar por dentro do pós-modernismo. Mas precisa reciclar-se dentro desse contexto. Vários dos operadores e parâmetros “modernos”, como totalidade, progresso ou racionalidade, tornaram-se impraticáveis. Não dá mais pra crer em instâncias transcendentes capazes de julgar de cima pra baixo, de fora pra dentro, como num tribunal da boa estética ou do bom gosto. Faz-se necessário encontrar a reinvenção por dentro da textura descentrada e multicolorida, para aflorar sentidos éticos, estéticos e políticos, libertá-los dos fluxos autoreplicantes da cultura midiática. Isto não significa imergir no Pop, mas dele roubar, com sagacidade e agressão, para fazer arte. Pop Art
Doravante, o estranhamento inerente à crítica acontece de modo imanente, na recombinação e ressignificação da matéria viva de nosso tempo.

Por isso tudo, Dilma Boy não só é uma obra de Pop Art no século 21, mas também exemplar para se compreender a contemporaneidade. E fazê-lo de uma perspectiva pós-modernista e ainda por cima brandindo a espada crítica, sem a qual não passaríamos de reprodutores do status quo.


Versão Buddy Poke do Dilma Boy (“DILMATOY”), prossegue o processo de recombinação

out 2010 04

Dilma no primeiro turno estava bom demais para ser verdade. Política é assim mesmo, como as nuvens. O desencanto tem o seu lado positivo porque faz cair na real: ainda se vive numa sociedade majoritariamente conservadora, suscetível a virulências lacerdistas e denuncismos de ocasião. De qualquer modo, não houve nenhum desastre e nada indica que não consigamos os 3% que faltam para a vitória ser matematicamente garantida. Como nas duas eleições vencidas por Lula (2002 e 2006), agora é intensificar a campanha para conseguir essa pequena, porém indispensável, fatia.
Deve haver dezenas de explicações para o resultado frustrar tão acintosamente todas as pesquisas de opinião, inclusive de boca-de-urna.
De modo incipiente, arrisco os seguintes fatores contribuintes para a “acomodação” dos votos em Marina e Serra:

1) Marina, a candidata da moralidade, obteve o voto indie, como se votar nela fosse uma “atitude”, um “voto inteligente”, descolado e “apolítico”;
2) Marina teve também muitos votos dos evangélicos, devido ao terrorismo eleitoral das últimas semanas;
3) Serra levou boa parte dos indecisos, graças ao bombardeio da grande imprensa nos bordões anti-PT;
4) Muitos eleitores preferem o segundo turno por definição, porque não gostam de ver um grupo político acumular muita força, então resolveram forçar o novo turno votando em Serra ou Marina;
5) A militância da situação subiu no salto alto, deu a eleição por vencida, e não se concentrou no trabalho vital das ruas, do boca-a-boca, para garantir aquele sprint final.

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