jun 2010 23

O Profeta é mais do que um filme sociológico. Como sociologia, ele empreende uma analítica do poder. Assim como Michel Foucault nos anos 1970, Jacques Audiard perscruta o poder na sua gênese molecular. A prisão pretexta o estudo do corpo-a-corpo das relações de poder. O poder da máfia, a força policial, a violência urbana não passam de efeitos de superfície.  Vetores resultantes dos dispositivos bem mais localizados e concretos, através dos quais o poder se exerce. O comando dos agentes penitenciários resulta secundário, quando se compreende o funcionamento estrutural da prisão. O poder da máfia igualmente, pois se constitui nesses circuitos muito concretos por onde circulam a violência e os corpos. É desse modo analítico que a arquitetura prisional, os movimentos, as pequenas maldades, tudo isso dá forma à narrativa de O Profeta.

A pesquisa do poder de Audiard realiza-se com a câmera atenta à relação fundamental entre território e poder. Ela caminha junto do protagonista-narrador para enxergar a micro-política da prisão. O pátio, os pavilhões, os corredores, os banhos, as salas de revista — cada local segue uma geografia política minuciosa. As seqüências de câmera-na-mão, bem como planos claustrofóbicos, garantem a percepção desses espaços, na sua violência intrínseca, no seu funcionamento impessoal e estrutural. Daí O Profeta ser um filme mais espacial do que temporal, mais arquitetônico do que narrativo.
A tese funciona na sinédoque: o sistema prisional comparece como explicação da sociedade lá fora. As tecnologias de poder (circulação, transmissão, formação de discursos etc), seja do aparato policial ou do mafioso, são estruturalmente as mesmas, dentro (parte) e fora da prisão (todo). Prevalece o isomorfismo estrutural: dentro e fora se confundem. No enredo, os muros são abolidos com as saídas regulares. A prisão plasma a sociedade e esta determina aquela. Âmago do pensamento de Foucault a partir de Vigiar e Punir.
No filme, Malik vence porque compreende o caráter maquiavélico das relações de poder. Daí reúna a virtude em agir estrategicamente: combinação de maquinações, coragem e timing. A história de seu crescimento na pirâmide criminosa é a história do domínio crescente das estratégias de poder. Todo conhecimento adquirido de Malik — nas aulas da escolinha prisional, no aprendizado de línguas, no mapeamento das gangues — não serve a outra coisa senão para aperfeiçoar as suas habilidades de estrategista. Nada de conhecimento conduzindo ao bem e à ressocialização, no melhor espírito socrático/humanista. Tem-se sim um jogo de poder baseado no senso de oportunidade, na determinação, na engenhosidade, em suma, na virtú renascentista. 
Como comentário de seu tempo, O Profeta sublinha o crescente contingente de imigrantes islâmicos, vindos do Oriente Médio ou do norte da África. Multidão que se organiza e gradativamente aumenta a sua força. Êxodo dos outrora colonizados que põe em risco o pacto norte-sul, implodindo a divisão capitalista do trabalho entre os hemisférios. Por isso mesmo, tais imigrantes — assim como os árabes do filme — enfrentam o racismo das direitas na Europa. O fenômeno Sarkozy, por exemplo. No longa, a ascensão dos imigrantes conclui-se na tomada do poder sobre os corsos, dentro e fora da prisão — sucede a vitalidade do Islã a “ameaçar” o Ocidente branco e cristão.
Mas onde está o profeta do título? É Malik, o presidiário humanizado, eu-lírico com o qual se estabelece a identificação do espectador. Trata-se de um tipo árabe, porém sem raízes culturais e, por essa razão, capaz de transitar livremente pelas identidades. Beneficia-se de seu materialismo radical. A voz de Deus é a força de quem não tem religião senão como vontade de potência.
Aclamado pelos públicos e crítica, O Profeta é um filme competente numa proposta sólida e bem delineada pelas humanidades francesas. Embora, no princípio, este filme-de-prisão cheire a mera tese sociológica, na sua evolução o diretor esbanja domínio formal e criatividade para potencializá-la na linguagem do cinema.
out 2010 16

José Padilha absorveu a crítica. Embora rico em bilheteria e vencedor do Urso de Ouro (Berlim), Tropa de Elite (2007) fora duramente castigado pela crítica de esquerda. Exaltação da violência, apologia policial, achatamento maniqueísta, pulsão de morte, — tais imputações irritaram o diretor, então conhecido por sua sensibilidade social em Ônibus 174 (2002). Nesse sentido, Tropa de Elite 2 esforça-se conscientemente em responder às acusações e redimir o diretor.
Ao contrário do primeiro, Tropa de Elite 2 empreende uma abrangente analítica do poder. Analisam-se as relações íntimas entre comércio de drogas, milícia, mídia, polícia e política. Menos que operações policiais e sua dinâmica de guerra, trata-se de esquadrinhar os vínculos ocultos das instituições, a realidade além da ideologia, as operações moleculares que sustentam o funcionamento do “Sistema”: as negociatas, os conchavos, as alianças políticas, o tráfico de influência, as propinas, as manipulações televisivas, o financiamento das campanhas eleitorais, os passeios de iate regados a uísque e mulatas de programa.
Mais do que sociológico, o filme galga dimensão antropológica. A “preparação do elenco” faz de tudo para rechear os diálogos de trejeitos e linguagem coloquiais, quiçá cafajestes, como mais um signo da fusão entre polícia e bandido. Na linha dos filmes de ação americanos dos anos 1980, os personagens expressam-se por frases de efeito, pontuadas por caras, bocas e armas em punho. Personagens rodriguianos sem qualquer escrúpulo moral, que fazem disso a sua identidade mesma.
Em Tropa de Elite 2, o mal deixa de habitar o inferno. Não mais transcende este mundo, como o outro absoluto do humano, a quem só caberia exterminar. Neste filme, o mal passa a ser imanente e pervasivo. O funcionamento íntimo do “Sistema” depende dos circuitos da violência, que legitimam o discurso da paz e, logo, a dominação dos territórios pelo esquemão polícia-milícia-política. Sai o maniqueísmo religioso, entram as humanidades acadêmicas. Deixa o palco o anjo vingador de preto, entra o militante esquerdista vestido de “Human Rights“. 
Findo o maniqueísmo, Nascimento não sabe mais para quê e por quem mata. Matar tornou-se um ato vazio, fútil, mecânico, um mero estalar de uma máquina autorreplicante e assustadora, chamada Sistema. A crise de consciência do protagonista é a descrença na polícia e na justiça, agora reimplicadas como válvulas da grande máquina.
Aí está a maior qualidade, mas também a maior impostura de Tropa de Elite 2. Depois de tantas seqüências destrinchando uma equação complexa e de múltiplas variáveis, o enredo converge em travelling na Esplanada dos Ministérios, em Brasília. Em off, o herói dá o veredito: “o Sistema é foda”. Todos estão implicados numa monstruosidade que não cessa de expandir seus tentáculos, para aprofundar seu domínio, para cooptar ou anular as resistências. De qualquer forma o Sistema é onisciente e onipotente, e está sempre um passo a sua frente.
Na lógica apocalíptica, em que o Anticristo triunfou sobre a Terra,  sugere-se que o único caminho para a esquerda é uma intervenção de fora, um ato radicalmente diverso e antissistêmico. Eis a pureza revolucionária, incorporada por Fraga. Para combater o Sistema, é preciso um rasgo messiânico, de fora da história, como na cena do discurso indiscriminado de Nascimento, na assembléia legislativa, contra a PM e a classe política como um todo.
Com esse final, a sensação de assistir a Tropa de Elite 2 é semelhante a de ler algumas dissertações mais “radicais” das humanidades. Bem orientadas e escritas, reforçadas por referências consagradas, com insights e exercícios de estilo, tais dissertações amiúde concluem sem propostas concretas, reduzidas a ilações vagas contra o Sistema. Tem-se um pessimismo que nada tem de radical, mas de cômodo e sem inspiração. No filme, depois de uma analítica do poder tão consistente e cuidadosamente fundamentada, o trabalho perde força. Perde porque acusa-se a torto e a direito, põe a culpa abstratamente no Sistema e descarta-se a política como atividade indispensável da democracia. Quer como visão ingênua/purista de certo esquerdismo (PSOL etc), quer como ranço apolítico de certa classe-média, a crítica ao “Sistema” esvazia-se.
Filme de ação com elementos de melodrama e cinema político, Tropa de Elite 2 não choca como o antecessor, naquela exposição crua e vibrante do “trabalho sujo” feito em nome da sociedade, mas por sua vez aprofunda a análise e, apesar das limitações, atinge seus alvos.

out 2010 18

Um dos leitores do blogue preferiu responder à crítica do filme num mail privado, a comentar diretamente no post. Para enriquecer o debate sobre esse longa de 2010 que já nasce polêmico, transcrevo a provocação instigante do leitor, e também a réplica do blogueiro.

Leitor: Oi Bruno, lendo sua crítica de Tropa de Elite 2, que acerta em cheio vários pontos, não pude deixar de considerar que talvez você tenha exagerado em sua militância – que obviamente reflete nos seus sempre bons textos. Fiquei pensando na velha discussão sobre o papel da cultura e que impacto ela tem na política. Historicamente, a única ocasião em que a cultura teve influência real numa situação política foi no famoso artigo “j’accuse em que Émile Zola escreveu uma carta aberta ao Presidente da França exigindo a libertação de um preso – o caso Dreyfus. Não dá para esperar, portanto, que um filme mude uma situação complexa como a questão da violência e da corrupção, nem que aponte soluções que os próprios políticos não conseguem encontrar. Levantar questões é o máximo que se pode esperar de um cinema engajado. A negação do Sistema já é o primeiro passo da dialética. Ou você tem exemplo em contrário, de filme que resolva questões políticas que ainda não foram confrontadas pela realidade? Uma pequena provocação.
Quadrado dos loucos: O problema com o filme está basicamente no travelling de Brasília e na ilação “O sistema é foda”. Foi desnecessário extrapolar, concluir além do que todo o material fílmico anterior permitia. É pretensão demais, e acaba soando como truque. Como assim, está tudo tomado pelo Sistema? Um discurso de estado de exceção tornado regra, como na filosofia de Giorgio Agamben — algo a se combater por sua generalização grosseira e infertilidade crítica. Discurso do PSOL, do Francisco de Oliveira, do Paulo Arantes.
Vou usar um coringa: Terra em Transe. Um filme que deslinda de um modo sintético, alegórico, os dilemas e conflitos do Brasil no começo da década de 60. De um lado, a esquerda populista, intelectualizada, culta; do outro, a direita moralista, modernizante, promíscua. As contradições políticas vertidas em drama poético. O debate da esquerda divide-se em antes e depois de Terra em Transe. Não sou é que falo isso, é a geração tropicalista. Nesse filme, Gláuber não tece ilações, não faz uma “grande narrativa”, mas um diagnóstico fino, emblemático, de um momento histórico, e dispara uma saída convulsiva, o transe de Paulo Martins, o lúcido apaixonado capaz de ir além da dialética esquerdismo x direitismo. Ele não está contra o Sistema como um todo, ele tem uma posição bastante material e datada sobre a luta. Isso é materialismo histórico: implode as condições de sua superação, a partir da concretude. Não por acaso depois de Terra em Transe entrem em cena os artistas do dito “cinema marginal”, além das ingenuidades, já avançando sobre outro terreno político-estético.

nov 2010 22

Na volta da noitada, tinha uma blitz na avenida da praia. O tal choque de ordem: megaevento com bandeiras e balões, multando no atacado. Era uma da madrugada e havíamos bebido litros de cerveja. Beto dirigia (sorte a minha).
Abordagem do guarda da companhia de trânsito: encosta, desliga o motor, documentos, por favor desce do veículo, tem que fazer o teste, é ali na tenda, sim bafômetro, aqui aqui, pode soprar, o quê?, não quer soprar? sem trauma, ok, multa na hora, 1.000 reais, apreensão da carteira (perdeu playboy). E só libera o veículo se chamar alguém pra assoprar e passar no teste.

Primeiro esquema. Um segundo guarda chama Beto pro canto: olha, tem como fazer acerto, cê sabe, pela consideração, dá pra desenrolar por 1.500. Beto não tem essa grana e não tem pra quem ligar a essa hora (então chorou).

Se eu posso soprar pra tirar o carro? mas tenho que mostrar a minha carteira? sim? então sem chance. Ah, dá pra fazer sem mostrar o documento? então oquei, sopro, vuuuu, zero-trinta no visor, você também não têm condições meu chapa.

Querem guinchar. Enrolamos por uma hora. Uma outra guarda chega na encolha, segundo esquema, pagar a um taxista “fortuito”, ele sopra, passa no teste, leva o carro pra vocês. Quanto? 200, isso só pra soltar o veículo, a infração fica. Senão é reboque no ato, porque já está atrapalhando o trânsito.

Beto e eu rachamos os 200. Aparece o taxista-do-esquema, faz o teste, zero-zero-zero, a máquina emite notinha de aprovação, o cara assume a direção, a gente no banco de trás, o carro passa pelo corredor de cones, ele acena pros guardas e… 50 metros depois pára no meio-fio, repassa a direção, já pode ir agora, sai do carro e volta pra área da blitz.
Beto assume a direção e parte, embriagado como antes, mas agora também sem documentos (sob o olhar desinteressado dos guardinhas, lá atrás).
Dia seguinte, ligo pra Beto. E a carteira? terceiro esquema, descolou um despachante mandraque, 2.000 (várias bocas pra açucarar), cancelou a infração, aliás zerou tudo, ficha limpa as multas anteriores também, a carteira recuperada no final do dia (menos de 24 horas depois da blitz).
Beto é um desses que não perde a oportunidade de falar mal do Brasil: o povinho não presta, só vota em benefício próprio, assim não dá, a corrupção domina as instituições, desisto, prevalece a cultura do jeitinho, político é tudo ladrão, é fogo, funcionário público só quer se dar bem, isto não pode ser país sério, voto no Geraldo e no Zé etc etc.
Perco o amigo mas não a crueldade: isso é pra você parar de sonhar em viver na Alemanha. Lá, a esta hora ainda estaria na cadeia, choramingando por ter sido demitido.

[Disclaimer: esta é uma história ficcional, qualquer semelhança com fatos reais é pura coincidência]

nov 2010 27

Ontem, eu estava num barzinho depois do expediente, quando vi pela primeira vez a filmagem da fuga desabalada de moradores do morro, que corriam por uma estradinha de terra batida entre duas favelas aqui do Rio. Tentavam escapar da favela Vila Cruzeiro, que estava sendo invadida pelas forças do estado. Durante a correria,  davam pra ver várias pessoas sendo alvejadas por policiais de tocaia na mata (ou em helicópteros). E ninguém ajudava, elas ficavam pra trás, desamparadas e agonizantes.
Me pareceu bastante triste, mas as pessoas a meu redor exultavam: “bandido tem mais é que morrer”, “BOPE neles!”, “tem que botar o exército pra acabar com esses vagabundos”. Nem no atentado de 11 de setembro nos EUA, presenciei tamnho deleite da maioria diante de cenas de execução. Os espectadores chegavam a salivar. Reviravam os olhinhos. Uma catarse. 
Natural que crises assim provoquem um clima de euforia pela cidade. Admito que parte de mim também se empolga em tempos de comoção. Afinal, arranca-nos da rotina e confere vibração à existência. Porém, não dá pra engolir a execução sumária televisionada ao vivo e em cores e aplaudida como se fosse uma cena do filme Tropa de Elite.
Eu sei que pedir um olhar crítico da televisão brasileira seria sonhar alto demais. Mas irritam os programas sequer informarem sobre o que está acontecendo. Tipo, pelo menos descrever os fatos. Limitam-se a exibir as cenas sob manchetes inflamadas, com direito a rostos consternados de âncoras e repórteres. A situação fica posta nos termos maniqueístas mais ignorantes, como se fosse uma guerra do bem contra o mal, do estado bonzinho versus os bandidos maus, do cidadão de bem reagindo ao traficante do mal.
O jornalismo brasileiro dos principais veículos tem que acabar.  Prevalece a exaltação à violência do bem contra a barbárie do mal. Repete-se o discurso do medo e da guerra, o fundamento de toda a tirania. Moraliza-se um debate que é político.  Ora, a violência urbana não é causada pela maldade na cabeça de algumas pessoas, mas por fatores sociais, econômicos, históricos, que condicionam as relações de poder e produzem a violência na metrópole.
Esse discurso midiático rasteiro, reproduzido acriticamente por tantos em suas micromídias (rodinhas, tuíter, facebook), pretende unificar a sociedade numa cruzada do bem contra um inimigo comum. Porém acerta gigantes imaginários. Porque não existe nenhuma relação de causa e conseqüência entre a) invadir uma favela e “passar o rodo nos soldados do tráfico”, e b) assegurar a segurança aos cidadãos do asfalto. Não preciso me delongar nisso, porque o Luiz Eduardo Soares escreve bem melhor sobre a violência e o pastiche midiático, em texto de ontem no seu blogue.
No boteco, sem agüentar mais, me senti novamente obrigado a discordar do que todos já tinham se posto em acordo. Se não for pra isso, então não sirvo pra nada.
Como assim, tocaiar as pessoas fugindo? isso não é pra aplaudir, mas pra vaiar… uma coisa é responder fogo com fogo, reagir num tiroteio pra se salvar. Outra é tocaiar um grupo se retirando do campo de batalha em desespero. Os caras não foram mortos, eles foram e-xe-cu-ta-dos. Reparem que os atingidos nem carregavam fuzis. Poderiam nem ser “bandidos”, mas moradores tomados de pânico, diante da invasão dos “caveiras”. O coro reagiu: — Ah, Bruno, nem vem, todo mundo sabe que eram da facção ou pelo menos estão envolvidos de alguma forma.
Ora, poderiam não ser bandidos, não poderiam? em tese, poderiam não ser. E isso basta, a dúvida. Um inocente executado ali não vale a prisão de todos os culpados. Aliás, e se fossem “bandidos”? tem bandido e bandido. Tem o chefão mandante de 50 homicídios e tem o aviãozinho de 14 anos que entrega a trouxinha. E, ainda que, hipoteticamente, sejam todos eles sem exceção assassinos sanguinários zé-pequenos que-nem-no-Tropa-de-Elite? (o que é bem diferente do que estar somente “envolvido de alguma forma”) mesmo assim, não há pena de morte no Brasil. E, mesmo que houvesse, não seria permitida a execução sumária — sem acusação, defesa, julgamento e apelação.
Pergunto: até onde isso não é praxe em operações assim? Invade a favela, mata-se, e depois sai na imprensa que “morreram X moradores da favela supostamente envolvidos com o tráfico”. E ponto final. A única legitimidade do estado para invadir, prender e punir reside em sua invocada superioridade moral, em relação aos criminosos. Por isso, se agentes do estado abusam, sem respeitar garantias básicas, sem seguir o devido processo legal, qualquer que seja o pretexto, deslegitimam-se. Imediatamente. Sem ponderação. E então ouvi o inevitável: que discursinho, Bruno, mas contra o crime organizado não pode ter moleza, aquela galera ali é parte desse jogo.
Discordo. Pra mim, “crime organizado” se constitui de sofisticados grupos multinacionais, com altíssimos lucros, abundantes em conchavos e conexões com os poderosos: na política, na polícia, no sistema financeiro (para lavar o dinheiro). A molecada que toca o varejo  é bucha. Mesmo os “chefões” que ocasionalmente vão presos, são só um pouquinho menos bucha. Ninguém está falando que são pobrezinhos coitados nem que sejam forçados pelas circunstâncias a aderir às facções, por descaminho. Não são. Apesar disso, é preciso admitir que tais adolescentes e jovens são totalmente acessórios e descartáveis, e não são eles que sustentam a economia das drogas ilícitas. Na realidade, essa gente é interceptada pela cadeia produtiva, administrada e comandada pelo verdadeiro “crime organizado”. Fossem eles organizados de verdade, não estariam sendo dizimados pelas milícias, que tendem a monopolizar o mercado. No ritmo atual de expansão, as milícias podem dominar quase o Rio inteiro até os megaeventos de 2014 e 2016.
Pronto, a essa altura, o estabelecimento inteiro me considera um sem-noção irremediável. Mas alguém tenta esclarecer este louco da verdade: — veja bem, agora é guerra, a bandidagem começou, pediu e recebeu, está queimando carros, metralhando postos de polícia, com tudo isso é natural que a sociedade queira uma resposta imediata e os próprios moradores das favelas apóiam as operações.
Primeiro, é tremenda ilusão acreditar em “respostas imediatas” para problemas complexos e profundos. Desconheço questão mais espinhosa, mais pontuada de armadilhas, do que a segurança pública no Rio de Janeiro. No fundo, essas “respostas imediatas” camuflam outra coisa, bem mais preocupante: estado de exceção. Isto significa: a desativação de garantias e direitos, a tolerância de excessos e abusos, de maneira que os atos ilegais do estado não sejam considerados delituosos, que cada agente se sinta livre para aplicar todos os meios disponíveis. É um cheque em branco às operações: fazer o que for preciso pra restabelecer a ordem.
Segundo, não tem guerra coisa alguma. A rigor, guerra implica declaração formal do Presidente da República e autorização do Congresso Nacional, e pressupõe dois lados perfeitamente delineados, com uniformes, bandeiras e tutti quanti. O que se tem hoje no Rio não é sequer “guerra civil”. Não existe exército separatista, nenhuma sedição nas forças armadas, nenhum grupo querendo depor os governantes e instalar um novo regime. A menos que se aceitem vagas classificações: “guerra contra o terror”, “guerra contra as drogas”, “guerra contra o crime” etc. Porém, tudo isso não é propriamente guerra, aliás, é qualquer coisa…
Terceiro, não faço apologia aos grupos de varejo de drogas, e muito menos coloco as minhas fichas “esquerdistas” nos traficantes, como se fossem uma forma de resistência. Uma forma democrática ou progressista. Não e não. As facções ocupam territórios como se fossem feudos, subjugam os moradores, impõem a lei do medo, não vão além de um governo despótico bastante precário e descontrolado.
Meu ponto é que estão fazendo as perguntas errradas. Toda a questão está mal-colocada por causa do imediatismo, do preconceito, do maniqueísmo e da pulsão da morte que a grande imprensa promove — a televisão em especial. Essa percepção oblíqua é uma das principais causas da manutenção do estado das coisas.
Nesse momento, já sem qualquer chance de travar diálogo,  sabendo que falaria doravante para as paredes, fui pra casa e passei a matutar sobre a questão das questões: então, o que fazer?
Primeiro, achar uma pergunta melhor. A pergunta  melhor, acho eu, morador do Rio, deve orientar-se pelas causas materiais dessa mixórdia, em que poder do crime e crime do poder (a expressão é do sociólogo Giuseppe Cocco) estão do mesmo lado da equação e se somam, tendo como resultado o massacre sistemático — e amiúde anônimo — de jovens negros em comunidades pobres, nos morros e na periferia. Pode não haver o xis da questão, _a_ resposta definitiva, mas alguns fatores merecem atenção.
É preciso analisar a economia por trás das ilegalidades. Como o dinheiro e o poder circulam ao redor do comércio de drogas ilícitas. Quem ganha? Quem é beneficiado politicamente? Quem trafica influência? Quem define o que é tolerado e o que não é? 
Existe uma gestão do ilegal que produz lucro e sustenta campanhas eleitorais e confere respaldo político a pessoas no poder, no estado, na mídia. Legalizar, pra essa turma, significaria o fim de um banquete: fim do monopólio comercial, fim do controle sobre a cadeia produtiva, bem como maior fiscalização — logo menos dinheiro e poder. Para o esquemão, é fundamental que as drogas ilícitas mantenham-se um caso de polícia, e de polícia com toda a sua carga de abuso e corrupção. Jamais de saúde pública.
Como efeito colateral, a “guerra ao tráfico” fragmenta ainda mais a cidade. Na cidade sitiada, multiplicam-se muros, grades, portões, câmeras, alarmes. As pessoas se retraem: vão de casa para o trabalho e deste para casa — quando muito freqüentam o shopping, a academia, o clube e outras ilhas de segurança e assepsia. O cidadão é vencido pelo indivíduo. Desmobiliza-se a metrópole como organismo vivo da democracia, nos seus fluxos horizontais de práticas e discursos, no seu amor comum.
Além disso, é preciso compreender a milícia não como alternativa menos imoral e menos bárbara do que as facções tradicionais. Com efeito, a milícia é uma evolução política e econômica, uma forma mais eficiente de gestão das ilegalidades, signo do limiar cada vez mais indistingüível entre estado e crime. A milícia está vencendo porque é uma aplicação eficiente do poder: mais rendimento, menos barulho. Como escreveu Luiz Eduardo Soares: “o modelo do tráfico armado, sustentado em domínio territorial, é atrasado, pesado, anti-econômico.” A carteira de negócios da milícia não se restringe ao comércio de drogas ilegais. Abrange toda a atividade econômica no seu território: o transporte coletivo, a TV a cabo, a venda de “proteção”, as “taxas” de construção, a renda dos camelôs etc. Menos do que salvação da lavoura, como raciocina parte da imprensa, trata-se de um refinamento e aprofundamento do poder do crime (e do crime do poder), em cima da mesma economia de ilegalidades.
Por isso tudo, não existe solução técnica. Não basta pôr tantos policiais na rua, ocupar tantos morros, aplicar maciçamente as forças armadas, tudo isso para prender X jovens-negros-pobres e executar Y jovens-negros-pobres. E não adianta devassar as instituições pra “arrumar a casa”. Como se pudesse desatar o nó górdio eliminando policiais “sujos” e políticos corruptos. Ora, não é funcionando de modo mais “limpo” ou eficiente que o sistema penal passará a defender a sociedade. No Brasil, não há carência, mas exagero de punição. O sistema é assim mesmo. Trata-se das raízes da história brasileira: o poder se constituiu assim, para funcionar desse jeito. A invocação de superioridade moral participa da farsa e serve para legitimar o crime do poder. 
Mas, caramba, o que é o tal sistema, cara-pálida?
Nesta questão particular, é um tripé: 1) a base histórica de desigualdade e racismo que atravessa a sociedade toda, 2) o funcionamento desigual do sistema punitivo (polícia, justiça, prisão), como fiador dessa base, e 3) a criminalização de determinadas substâncias, como motor da economia de ilegalidades, e sua produção de discurso, poder e lucro. 
Em resumo: o problema é falta de democracia. Daí a solução passar, necessariamente, por mais democracia. E isso se realiza com políticas concretas, a incidir sobre causas materiais, com dignóstico da situação real, evitando cair nos vários ardis acima expostos: o espetáculo da mídia, a análise maniqueísta, o discurso do medo e da exceção, a farsa do poder constituído.
Assim, à guisa de maior desenvolvimento, arrisco apresentar três caminhos para o debate e a formulação, que possam impactar, na sua estrutura mais íntima, os processos de violência urbana no Rio de Janeiro, quiçá nas metrópoles terceiromundistas em geral:
1) Políticas de desenvolvimento/urbanização de áreas pobres (ex.: PAC), de geração e distribuição de renda e bens sociais (ex.: Bolsa Família, Projovem, Prouni), conjugadas intimamente com ações afirmativas substantivas (ex.: cotas raciais na educação, nos concursos públicos). Intensificar as políticas em andamento.

2) Democratização do sistema penal, nos seus três setores: quer a polícia (ex.: polícia comunitária, assumindo o modelo das Unidades Pacificadoras – UPP como ponto de partida, a melhorar-se como mediação entre demandas da comunidade e poder público), quer a justiça criminal (ex.: criminologia crítica, constitucionalização do direito penal, quadro de juízes e promotores mais social/racialmente plural, fortalecimento das defensorias públicas, acesso à justiça), quer o complexo prisional (ex.: despenalização de condutas não-violentas, penas alternativas, revolução das cadeias como espaços de ressocialização e não como “universidades do crime”). Iniciar um debate sério e intensificar as medidas em andamento.

3) Descriminalização de todas as drogas ilícitas, sem exceção, desvinculando o uso, o porte, a produção e a venda da atenção da polícia e da justiça criminal, convertendo em problema político de saúde pública, a ser estudado, controlado e gerido por órgãos especializados que já fiscalizam fármacos, com regulamentação lúcida e democraticamente debatida e aprovada. Iniciar a experiência, possivelmente com os produtos menos perigosos, como a maconha e o ectasy.
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