out 2009 17

Não fossem o amor e a dor, os seres humanos seriam incomunicáveis entre si.

Etimologia: não quero falar do amor-eros (cupidez), do amor-philia (amizade), do amor-narciso (amor próprio), nem do vapor barato do amor-telenovela (melodrama). Quero tratar do amor-ágape (amor-banquete), febre de quarenta graus que pretendemos inocular nos outros, para contornar a mortalidade. E dela sair vencedor. Contudo, o amor intransitivo, como força expansiva irresignada à finitude, esse não conseguimos abarcar. Faltam-nos forças poéticas. É que, ao infinito, só acedemos em lampejos e relances, logo repelidos que somos por seu assombro e incompreensão. O amor, por isso, tentamos domesticá-lo e fazê-lo inteligível, coisificando-o numa pessoa, numa dada circunstância.

O que amamos já pulsa dentro de nós; apaixonar-se consiste em boa parte na projeção mais ou menos consciente dessa força interna preexistente. Ilusória passividade. O amor nada tem de falta, pois tudo nele é excesso e completeza. A carência jamais produzirá o amor, senão a impossibilidade de amar. Quem ama está a todo momento transbordando a si mesmo nos outros, e por isso conjuga exceção e excesso, e assim ama a vida.

A coisificação do amor, por um lado emocionalmente conveniente, por outro inicia o gradual processo de decomposição do amor. Decompõe-se nos outros amores, citados no começo. Em virtude disso, de tempos em tempos, ansiamos por novos amores, já que o amor coisificado converteu-se em eros ou philia ou narciso ou uma combinação de seus subprodutos. Porque o amor é quem produz o sentido e confere valor às coisas e não o contrário. Porque o amor não resiste a que lhe dêem limites. Dentro de uma gaiola, ele não canta. Porque ele não existe para ser representado, e se constitui da expressão nua: um meio sem finalidade.

Portanto, vivê-lo às últimas conseqüências significa apontar o rosto ao infinito, na magnitude espantosa de tudo o que podemos ser, uma vida em que vivemos trezentos e sessenta e cinco dias por ano e não somente cinco ou seis. Mas não reunimos a coragem suficiente para o desafio, porque somos apenas humanos. Eis o sentido do super-homem de Nietzsche: o ser que ama.

out 2009 20

Palavras…, palavras?, palavras!

Sim, eu quero escrever. Mas o que quero escrever não é romance nem novela, e tampouco roteiro de cinema. Não é crônica, crítica, conto. Nem diário, didascália ou ensaio. Quero simplesmente escrever as palavras. Elas. E como elas se apresentam, como vão e como vêm, bandidas ou pudicas, como sobem e como descem, como passeiam, cabisbaixas ou de nariz empinado; como queiram, transeuntes trocistas palavras.

Tudo mentira. Ah se fosse fácil. Quero dizer, escrever é fácil, as palavras é que são difíceis. Claro que não falo das palavras difíceis. Seria injusto, porque têm palavras difíceis que são mais fáceis do que as fáceis. Tem palavra difícil que é tão fácil quanto baranga em final de noite, olha ali dançando, facinha facinha. Tem palavra fácil, contudo, que se faz de difícil. São as piores.

Me perdoem o chavão, mas são as palavras, elas mesmas, que escrevem em mim, por mim, e comigo. Me arrancam à tranqüilidade de meu silêncio as palavras. Reúnem-se numa algazarra e me fazem escrever, num jorro epilético. Inapreensível o balé das palavras, resta-me montar a macumba a Musas, Santos, Orixás, Budas e Basquiá. As palavras, quando mais estou carente delas, elas me deixam na mão. Acham um esconderijo e ficam ali, marotas, rindo baixinho. Chatas, exigem a vida mas negam a arte. As palavras nunca tiveram ética. Não só aceitam qualquer papel, como qualquer caneta. A palavra que afaga é a palavra que condena à morte.

O céu deve ser um lugar sem palavras. Não há metáfora (judaico-cristã) mais apropriada para a queda do homem do que a invasão das palavras na cabeça da criança. Uma blitzrieg de palavras: começa com “mamãe”, então “papai”, depois é “davi viu a uva”, “eu sou, eu tenho, eu quero, eu compro”, “quero um i-pod” e assim sucessivamente. De repente o leitor foi um anormal e, ainda adolescente, desvendou palavras outras com Augusto dos Anjos, Drummond, William Blake, Byron, Poe, Ezra Pound, Mário Faustino, Rimbaud, Verlaine e Leminski (nessa ordem, no caso do escritor, pavoneando-se).

Houve tempo em que não tínhamos palavras na cabeça. Ninguém se lembra porque as palavras, ciumentas, não nos permitem mais pensar sem elas. Porém, quem sabe, numa lembrança fugidia e incandescente, o leitor possa recordar-se do tempo em que não sabia falar nem entender os outros falando. Em suma, antes do Verbo, o que significa antes do Universo. Que lugar bão hein, onde não somos outra coisa que não as nossas extremidades (poros, boca, nariz, ânus, orelhas…) e somente as nossas extremidades. Tempo idílico em que dentro e fora não se discerniam, em que não havia eu e tu, nem nós, nem nenhuma pessoa ou tempo verbal. Havia somente um narrador-membrana que eleaticamente era Tudo, a Substância de Spinoza (una, unívoca, indivisível, absoluta, incondicionada e infinitamente infinita), ou seja, o mundo da interjeição eterna: ahhh!, ohhhh, hmmmmm… As palavras expulsaram o paraíso de nós, e descobrimos que do outro lado do Éden, havia um “fora”, e aí, claro, irrompeu o seu irmão gêmeo, o “dentro”. Doravante a nossa história individual não passa da problemática relação entre a interioridade e exterioridade, com todas as suas zonas cinzentas que a poesia penetra e a literatura sobrevoa.

Fez-se a Palavra, aprender a falar e ler e escrever, e essas palavras insones multiplicaram e povoaram e se dividiram em facções e guerrearam entre si com fuzis AR-15 e derrubaram helicópteros e foram parar nas manchetes amargas.

Eu não quero escrever, mas preciso, e por isso de certa forma quero… mas só como segundo momento. Preciso escrever para desabrochar os oceanos de palavras. Senão não durmo, porque as palavras não (me) deixam. Senão o delírio me inviabiliza o dia-a-dia, porque as palavras me iludem com a lógica. Senão o desassossego me desata qualquer possibilidade de causalidade psicológica. Senão o vento cósmico arremessa a minha mente para os porões da memória universal e de lá poucos voltaram. Senão confesso a minha derrota, porque as palavras me provam uma vez mais a existência da Grande Máquina. Senão me desencanto, porque as palavras me asseguram que, pelo menos nas palavras, a beleza, o amor, a salvação e a beatitude existem.

Hei de me vingar de vocês, palavras!

jan 2010 07

Blogue com pretensão literária não pode ser diário. Da mesma forma como uma história privada, pura e simplesmente, não faz um romance — a começar pelo fato da distância ontológica (e inevitável) entre autor e narrador e leitor.

Quando a produção se restringe ao blogue-diário, e ainda por cima direcionado a leitores com nome e rosto, o foco esfumaça-se e a mesmice tende a dominar. O exercício de estilo, a disciplina do pensamento, a expressão, o delírio, a infância do mundo, tudo isso se perde na burocracia monológica do diário online.

Outro dia mesmo li não-sei-onde, acho que numa entrevista, a Clarah Averbuck irritando-se com a pecha de blogueira, que a desqualificaria do estatuto de escritora. A perguntar-se: perante quem ela quer se qualificar? perante quem deseja ver-se rotulada escritora de estampa, autêntica, the real thing?

Talvez, como pioneira da blogosfera, ao invés de negar, contornar ou minimizar o seu meio e ferramenta de trabalho — aliás a construíram em primeiro lugar como escritora —, fosse mais construtivo afirmá-los, e num determinado sentido “rotular-se” blogueira, e fazê-lo às escâncaras, nas entrevistas, artigos, prefácios.

Afinal, basta folhear os lançamentos para concluir que muitos livros publicados, a gigantesca maioria, são de uma mediocridade grosseira: platitudes tacanhas e historinhas particulares, em geral mal escritas. Sem incluir aí a iniqüidade dos livros de “auto-ajuda”, inclusive mentirosos já no gênero, pois, se você compra um livro para se ajudar, não é auto-ajuda, mas ajuda exógena.

De toda sorte, o autor medíocre acha que basta uma história privada — uma infância difícil, uma perda lancinante, a mãe com câncer, uma paixão tórrida e clandestina, uma viagem qualquer —, basta algo assim que, zás, voilá tem-se um romance. Não e não. É preciso projetar-se num universo literário, marcado por densa historicidade, pautado por movimentos artísticos e literários, contextualizado por políticas e filosofias e religiões, atravessado de fora a fora, vertical e horizontalmente, diametral e diagonalmente, por linhas de força e diagramas epistemológicos, forças poderosas exercidas pela linguagem e pelos signos na sua totalidade. Etecétera. Para a arte literária, não basta um best-seller, quando este prescinde do essencial: inquietação, pressentimento, insight, renovação, profecia, expressão, um novo mundo. O livresco e o literário!

Mês passado, relendo um famoso lingüista russo, Bakhtin, recordei-me de como a história, muitas vezes, só importa na medida em que se adapta a uma proposta global. Dostoievski, para aquele pensador, tem como grande força a sua radicalização da polifonia, da relação profunda dos personagens com a verdade enunciada por eles mesmos, da inexistência de verdade global senão como realidade múltipla, composta de modo plural por sofisticadas consciências independentes… porém não farei resumos e portanto me resumo a recomendar a referência: o clássico “Problemas da Poética em Dostoievski” (Mikhail Bakhtin). Nota bene: Se não achar, me peça que eu consigo em pdf.

Assim, o enredo/argumento em si só interessa na medida em que atende a um projeto estético, uma visão de narrativa, a um pretexto literário com reverberações éticas, alegóricas, históricas, filosóficas, semióticas e todas quantas. Isto pode parecer óbvio, e de fato é-o, mas a constante lembrança reforça-nos a tenacidade da autocrítica, faz-nos inquirir permanentemente sobre as relações entre forma e conteúdo, texto e contexto, e acerca da inserção da obra na riquíssima conversação que é a literatura ocidental.

Então pra que serve literariamente o blogue? Em primeiro lugar, arrisco!, serve como work in progress, na interatividade midiática tão própria da revolução da Internet, deste século. Há dois anos, publiquei “Vida dos direitos”, um pequeno livro por uma pequena editora, sobre filosofia política e direito. Do lote de quatrocentos exemplares, se dez foram efetivamente lidos, será para mim uma notícia surpreendente. O Quadrado dos Loucos, projeto menos e por outro lado mais pretensioso, ele, mal o trouxe online, reparo muito mais gente por aí, a comentar, criticar ou simplesmente ler. O blogue embute uma força poderosa, aliás tanto mais quanto maior for a inserção no mundo online das pessoas de todas as origens e segmentos sociais. E nada mais revolucionário em termos de democracia midiática do que o acesso universal, uma das políticas culturais engendradas pelo Ministério da Cultura com Gil, que segue em concretização. A literatura só tem a ganhar com os blogues, sobretudo quando todos, sem exceção, puderem freqüentá-los e criá-los.

(…)

jul 2010 11

Nunca acreditei em entidade sobrenatural. Desde as lembranças mais remotas, com cinco ou seis anos, recordo-me de um menino absolutamente cético diante do sobrenatural. O sobrenatural não existe. O menino jamais teve medo de espíritos, demônios, assombrações, monstros, mulas-sem-cabeça. Nunca anteviu um pós-vida: quando o homem morre, é como antes de nascer, um nada. Já intuía que o temor embutido nessas crenças fundamentava a submissão a arautos da verdade, e a renúncia a pensar e experimentar por si mesmo. Criança, tinha orgulho de proclamar-se ateu, menos por autoafirmação, do que por uma incompreensão do que levava as pessoas a prostrar-se, humilhadas, diante dos deuses da tribo. Um Deus pessoal, imagem e semelhança do homem, não me convenceu em qualquer instante da vida. Passei incólume por catequismos e proselitismos. Nem a leitura dos livros sagrados nem ninguém conseguiu tirar lasca que fosse do firme ateísmo. Nenhuma situação vivida pôs em dúvida a ausência de fé no transcendente, ausência que traduzo como  crença conseqüente na realidade concreta.
Guardo viva a lembrança da vez em que, no recreio da pré-escola, um coleguinha falou em “papai-do-céu”. Agarrei-o pela gola: quem é esse tal “papai-do-céu”? apontou para cima e disse-me que era um pai bondoso e misericordioso, habitante do céu, que tudo vê e tudo pode, a quem se pode pedir proteção e favorecimento, se a pessoa for merecedora. Foi também a primeira vez em que o escárnio ateu me assaltou, e conclui como aquilo era ridículo, como era inacreditável que tantas pessoas mais ou menos inteligentes levassem a sério, e como era necessário insurgir-se contra aquela farsa coletiva, estruturada por sacerdotes e igrejas.
Aos doze anos, inquirido certa ocasião por uma crente sobre a minha escolha religiosa, trocei, mas como se estivesse falando sério, que era o “anticristo”. A atitude do pequeno ateu alternava entre a ironia , quando estava de bom humor, e o escárnio, direto e seco, quando sem paciência. Ria na cara dos crentes e ridicularizava sem freios as igrejas. De zoação, chutava macumbas, cuspia na cruz, rasgava a bíblia. É que, desde cedo, descobrira que não havia sentido em argumentar, em gastar o latim com fanáticos e iludidos, e que mais eficiente era tentar, pela via do sarcasmo e da paródia, demonstrar o ridículo implicado na fé e na crença num Deus-juiz onisciente e onipotente. Afinal, a provocação deixa mais marcas que a retórica. Podia em ocasião alegre reconhecer um ateu, mas sabia ser inglório tentar “ateizar” um crente. E se podia, num esforço ciclópico, desencaminhar uma ovelha das religiões, não conseguia demovê-la da crença num ser pessoal supremo.
O fato é que o menino era irrequieto com explicações e porquês e, por causa disso, um cético. Mas um cético curioso, preparado para aumentar o seu conhecimento do real, quando defrontado com evidência, lógica e sistema. Na realidade, o ateísmo não foi ponto de partida, mas linha de chegada de certo clima existencial presente desde a infância. O ateísmo resultou do ceticismo, este sim, uma ética completa, um modus vivendi, uma atmosfera existencial.  Bom ceticismo não é aquele que cerra a percepção e encastela o mundo conhecido. O bom ceticismo é o prospectivo que, insaciável, faz da dúvida a técnica para investigar e interrogar. A boa dúvida amplia os horizontes da mente e perscruta a vida atrás do desconhecido. Pautado pelo ceticismo, não há risco de o ateísmo enjaular-se em disfarçado dogmatismo, numa descrença igualmente fanática. O ateísmo do cético não se fecha sobre si, não se submete à heteronomia de pastores ou igrejas “atéias”, como sói ocorrer com o religioso nas instituições de fé, verdade e moral.
Naturalmente, ao amadurecer, a civilização foi domando a fera irascível. Ao vestir calças compridas, o pequeno ateu passou a apresentar-se pudicamente como agnóstico. Evitou indispor-se com os asilados na ignorância, por estratégia, já que assumia outras agendas como mais prioritárias do que a militância atéia. Assim, tive em Carl Sagan a maior referência da adolescência,  na sua promoção de um saudável, moderado e humanista ceticismo. O Mundo Assombrado pelos Demônios deveria ser leitura recomendada de todas as escolas. Instigado por Sagan, substituí o escárnio anti-social pela construção de um edifício de métodos e explicações, capazes de sustentar o ateísmo em debates mais civilizados. Foi nessa altura que prestei o vestibular, quando minhas redações, bem mais dóceis, incorporavam a sábia tolerância diante da infinita credulidade (ignorância) humana.
Richard Dawkins quase destruiu essa capa cultural. Em seus livros, o autor de Deus, um Delírio (“The God Delusion”, 2006) tem o poder de despertar o menino luciferiano em mim. Com ele, concluo que, ao me vestir agnóstico, não passo de ateu sem personalidade. Dawkins escreve tão bem e com tanta cólera, e eu concordo tanto mas tanto com ele, que me dá vontade de sair pelas ruas berrando contra a sociedade teísta, de me assumir a criança que nunca deixamos de ser. Ressurge mil vezes vingativo o enfant terrible. Dawkins me faz lembrar como é importante não perder a faculdade de odiar assim como a de amar — faculdades irmãs. É um dos poucos autores que apela ao coração de menino, na sua imprudência e seu excesso, nas suas lágrimas ingênuas e no seu prazer destrutivo. Dawkins quase me faz esquecer o bom-tom e a medida, me torna novamente puro, e uma vez mais converte o agnóstico em ateu praticante. Renasço intacto.
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Construí o meu sistema-mundo com a leitura paulatina da literatura científica e da filosofia da ciência. Não fiz das ciências um dogma às avessas. Com Karl Popper, nelas encontrei precisamente uma forma não-dogmática de pensamento, cuja essência de suas verdades reside na refutabilidade mesma. Aprendi como o conhecimento científico não somente procede por refutações sucessivas, mas também por saltos qualitativos, por rupturas paradigmáticas, como Thomas Kuhn descreveu em livro clássico. O que se alinhava à minha percepção de um mundo-fluxo, em mutação profunda. O  antidogmatismo e a visão aberta do mundo culminaram na entusiasmada adesão no anarquismo metodológico de Paul Feyerabend, radicalmente averso a cânones, metanarrativas e esquematismos.
Atribuo as religiões a dezenas de causas. Politicamente, por servir como peça importante da dominação de classe, exercida com base no temor e na ignorância. Moralmente, por ajudar no controle social/sexual pelo poder constituído contra as minorias políticas, a mulher, o jovem. Culturalmente, ao comodismo do hábito, à preguiça intelectual, ao zelo bovino pelas tradições familiares. Individualmente, à fraqueza de caráter, que anseia por consolo metafísico, diante do sofrimento e da morte; ou então como reação igualmente impotente perante a culpa, a baixa autoestima, o desespero. Esteticamente, à aspiração pela perfeição, pureza e sublime, num amor transcendente. Genealogicamente, como ressentimento dos fracos contra os fortes, como inversão da lógica do bom x ruim (potência), pela do bom x mau (moral), como vingança abstrata contra um mundo insatisfatório. Racionalmente, à ingenuidade de pretender uma explicação totalizante e definitiva, num sistema fechado e reconfortador, capaz de apaziguar a dúvida angustiante que move o homem.
Nessa recusa esclarecida da religião, não fujo da tradição do pensamento anticlerical, ainda que eu também abomine os teísmos e deísmos que os iluministas (traidores), em geral, incorriam. Daquela época, o único ateu lídimo que eu li foi o Marquês de Sade, no seu furioso materialismo. Antes dele, Spinoza: teórico do Deus filosófico, imanente, amoral e impessoal, adotado também por Einstein, que por sinal nada tem do Deus dos monoteísmos.
No século 20, por sua vez, abundam os ateus assumidos entre escritores e intelectuais. Poderia citar mais de cem, mas destaco o mais irônico: Woody Allen. No século 21, o aumento da população atéia contrasta com a onda de fundamentalismos cristãos, islâmicos e sionistas. Estes se espalham como epidemia sobretudo nos Estados Unidos, nos países árabes, em Israel, acuando os seus muitos cidadãos livres e inteligentes. É preciso resistir e é preciso ceticismo.

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Leituras recomendadas:
ALLEN, WOODY, God: A comedy in one act (peça de teatro), 1975.
DAWKINS, RICHARD, Deus, um Delírio, Cia. das Letras: 2007 [2006].
FEYERABEND, PAUL, Contra o Método, UNESP: 2007 [1975].

KUHN, THOMAS, A Estrutura das Revoluções Científicas, Perspectiva, 2003 [1962].
POPPER, KARL, A Lógica da Pesquisa Científica, Cultrix: 2000 [1934].

SADE, MARQUÊS DE, Diálogo entre um padre e um moribundo, Iluminuras: 2009 [1782].
SAGAN, CARL, O Mundo Assombrado pelos Demônios, Cia. das Letras: 1996 [1995].
SPINOZA, BARUCH DE, Ética, Autêntica: 2007 [1677].
set 2010 03

Paula Cava e Bruno Cava, 1984
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